11 fevereiro 2026

Enio Lins opina

Luzes democráticas iluminando o mundo desde as urnas portuguesas
Enio Lins     

CHICO BUARQUE E RUI GUERRA, em “Fado Tropical”, versejaram sobre um Portugal no ocaso de uma ditadura e um Brasil apanhando no auge ditatorial. Era o ano de 1973. "Sabe, no fundo eu sou um sentimental / Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro) / Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar / Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...”. Canção apropriadamente “trilíngue”, pois Rui é moçambicano de origem portuguesa, e Francisco dispensa apresentações.

EM 1974, A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS derrubava, de forma relativamente pacífica, o Salazarismo, ditadura portuguesa que aprendeu e ensinou coisas ao fascismo italiano e ao nazismo alemão, embora menos sanguinolenta em seus crimes. António de Oliveira Salazar, não tão pequeno ditador, morreu em 1970, depois de empalmar o poder absoluto por 36 anos, entre 1932 e 1968. Jornada autoritária interrompida por conta de um AVC. Mas o Salazarismo sobreviveu, aos trancos e barrancos, por mais seis anos, acossado por protestos em Portugal e pela guerrilha nas colônias além-mar, especialmente violenta em Angola e Moçambique. No Brasil, o ditador de plantão, General Ernesto Geisel, recém-indicado em 1974, levantava a bandeira da Abertura, marchando para uma “distensão lenta, gradual e segura”, prometendo a devolução do poder político aos civis – o que aconteceria apenas nove anos depois, em 1985. Naqueles anos, Fado Tropical passou a ser cantado e decantado num clima político em constante ebulição, lá e cá, exercitando interpretações variadas ao sabor das ondas nos dois lados do Atlântico.

“COM AVENCAS NA CAATINGA / Alecrins no canavial / Licores na moringa/ Um vinho tropical // E a linda mulata / Com rendas do Alentejo/ De quem numa bravata/ Arrebata um beijo // Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal / Ainda vai tornar-se um imenso Portugal” – o derradeiro verso desses trechos, mui especialmente, sempre gerou interpretações contraditórias, com gente lamentando o Brasil condenado à uma herança retrógrada do então país mais atrasado da Europa; e com outras gentes sonhando (depois dos Cravos) com um Brasil tão democrático quando o lusitanos reconstruíam seu país. Entre 1974 e 1985, a efervescência da cidadania portuguesa passou a ser um sonho e uma esperança para quem queria cumprir o ideal da Democracia em terras brasileiras.

8 DE JANEIRO DE 2026: Portugal deu mais uma lição ao Brasil e ao mundo, ampliando a fresta de luz que tem mantido acesa (com intervalos nebulosos pouco significantes) desde 25 de abril de 1974, quando cravos vermelhos brotaram das bocas dos fuzis dos militares lusitanos que não mais obedeciam ao Salazarismo. Esse lume renovou sua luz com a derrota acachapante da extrema-direita no segundo turno da eleição presidencial portuguesa. O novo-velho fascismo português, representado pelo partido Chega, que se arvorava como favorito, levou um tremendo chega-prá-lá do Partido Socialista.

ANTÔNIO JOSÉ SEGURO, do PS, venceu com 67% dos votos válidos. O candidato de extrema-direita amargou uma derrota histórica (embora lograsse crescer 10% em relação ao 1º turno). Mas o placar é indiscutível: 2/3 a 1/3, num triunfo insofismável da democracia contra o autoritarismo. Registre-se que o eleito dobrou sua votação da primeira volta – como os portugueses chamam “primeiro turno” –, pulando de 1.738.741 votos (31,21%) para 3.443.273 votos na segunda volta – numa demonstração cabal da consciência política, e do firme posicionamento contra a extrema-direita. Os conflitos (que não são pequenos) entre as diversas correntes de esquerda e do centro foram deixados de lado na construção de uma unidade eleitoral impressionante. Uma aula magna de maturidade política que precisa ser aprendida pelo Brasil, e pelo resto do mundo que preze a Democracia.

Leia também: A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html

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