Soberania digital como missão nacional
Infraestrutura, dados e poder de compra do
Estado – um programa concreto para reconstruir a autonomia tecnológica
brasileira
Celso
Pinto de Melo/Jornal GGN
O Brasil não perdeu a corrida digital por falta de capacidade. Perdeu por falta de estratégia.
Se, ao longo dos dois
primeiros artigos desta série, vimos como o país financia infraestruturas
tecnológicas externas e como seus próprios dados passam a ser operados com base
nessas plataformas, resta agora a questão decisiva: é possível reverter esse
processo?
A resposta é sim – mas não por inércia de mercado A dependência digital brasileira não é episódica. Ela é estrutural. Por isso, sua superação exige mais do que ajustes pontuais: requer organização deliberada, coordenação institucional e decisão política.
Missão nacional, não
agenda setorial
A
reconstrução da soberania digital brasileira não pode ser tratada como uma
agenda técnica restrita a órgãos de tecnologia da informação. O que está em
jogo é o controle de infraestruturas críticas, a proteção de dados estratégicos
e o uso do poder de compra do Estado para formar mercados e competências.
Trata-se,
portanto, de uma missão nacional no sentido forte do termo.
Missões não são listas
de intenções. São processos organizados em torno de objetivos de longo prazo,
com instrumentos coordenados, metas verificáveis e capacidade de indução
estatal [1].
Se
a dependência digital é estrutural, sua superação também precisa ser.
Sem
missão nacional, a transformação digital tende a permanecer fragmentada – e não
se consolidar como projeto de país.
O erro de origem
O
Brasil não fracassou na transformação digital por falta de capacidade técnica.
Ao contrário, construiu uma das mais abrangentes infraestruturas públicas de
dados do mundo em desenvolvimento.
O
fracasso foi institucional.
A digitalização foi
tratada como modernização administrativa, e não como política de
desenvolvimento.
Enquanto
países centrais utilizaram o poder de compra estatal para construir suas
capacidades tecnológicas, o Brasil consolidou um modelo em que o Estado atua
como cliente, e não como indutor.
O
resultado é uma dependência crescente, acompanhada de vazamento de valor e
perda de capacidade decisória [2].
Infraestrutura digital é
infraestrutura crítica
O
primeiro passo para reverter esse quadro é reconhecer algo ainda pouco
internalizado: infraestrutura digital é infraestrutura crítica.
Ela
deve ser tratada no mesmo nível que energia, telecomunicações, sistema
financeiro e defesa. Não se trata apenas de escolher tecnologias eficientes,
mas de definir quem controla as bases sobre as quais o Estado opera.
Essa mudança desloca o
foco do “que contratar” para o “como organizar”.
É
nesse plano – o da arquitetura institucional – que experiências internacionais
se tornam instrutivas, não como modelos a copiar, mas como evidência de que
diferentes arranjos produzem resultados distintos.
Arquitetura aberta e
interoperabilidade: a lição mais importante da Estônia
A experiência da Estônia
tornou-se referência global não apenas pela eficiência, mas pela arquitetura
institucional adotada [3, 4].
Desde
o início, a Estônia estruturou sua transformação digital com base em padrões
abertos, interoperabilidade e modularidade. A plataforma X-Road – uma camada
que conecta bases distribuídas e permite a troca segura de informações sem
centralização – integra sistemas públicos e privados, sem depender de um único
fornecedor.
O
modelo é híbrido. Mas seu núcleo é claro: impedir o aprisionamento tecnológico.
Dados são portáveis.
Sistemas são substituíveis. As interfaces seguem padrões definidos pelo Estado.
Soberania
digital não se constrói escolhendo fornecedores diferentes – constrói-se
criando condições para que qualquer fornecedor seja substituível.
Escala não é desculpa
Uma objeção recorrente é
a escala.
Argumenta-se
que um país como o Brasil seria grande demais para implementar soluções desse
tipo.
Esse
argumento é equivocado.
A concepção de uma
arquitetura digital – seus protocolos, padrões e princípios – é um problema de
desenho institucional cujo custo é majoritariamente fixo. O que escala é a
implementação.
O
problema brasileiro não é excesso de escala – é insuficiência de arquitetura.
Um horizonte necessário:
2027–2050
Missões dessa natureza
não cabem no tempo curto dos ciclos políticos. Elas exigem continuidade,
coordenação e horizonte de longo prazo.
O
percurso brasileiro pode ser compreendido como uma travessia em três tempos. O
primeiro, com início ainda nesta década e projeção até 2030, é o tempo da
fundação: mapear dependências, classificar dados estratégicos e reorganizar
contratos. Entre 2031 e 2040, inicia-se a fase de construção, marcada pela
ampliação das capacidades nacionais, pela consolidação de uma infraestrutura
sob governança própria e pela estruturação de sistemas interoperáveis. Por fim,
entre 2041 e 2050, chega-se ao patamar da maturidade, quando o país passa a
operar com capacidade decisória própria em áreas críticas.
Não
se trata de autossuficiência – trata-se de capacidade de escolha
Pensado assim, o
horizonte 2027–2050 deixa de ser um cronograma burocrático e passa a funcionar
como uma forma de organizar o tempo de uma escolha histórica: permanecer como
usuário avançado de sistemas concebidos fora ou tornar-se, gradualmente, autor
das próprias infraestruturas que estruturam sua vida econômica e política.
É
dessa passagem – do tempo à ação – que emerge a necessidade de metas claras.
Metas que tornam a
missão real
Sem metas verificáveis,
missões se dissolvem em intenções.
No
horizonte de 2030, o país precisa ser capaz de inventariar seus dados
estratégicos e redirecionar parcela relevante do gasto em tecnologia para
soluções sob controle efetivo. Na década seguinte, o desafio deixa de ser
apenas diagnóstico e passa a ser estrutural: alcançar, até 2040, ao menos
metade do processamento de dados críticos sob governança nacional. Já em 2050,
a meta deve ser inequívoca: assegurar que a maior parte desses dados,
idealmente acima de 80%, esteja sob controle soberano.
Sem
parâmetros desse tipo, o debate tende a oscilar entre retórica e improviso.
O papel do Estado: de
cliente a arquiteto
Essa
transformação depende de redefinir o papel do Estado. Como argumenta Mariana
Mazzucato, os Estados moldam mercados [1].
O
Estado brasileiro precisa deixar de atuar como usuário de tecnologia e passar a
organizá-la como estratégia.
Não se trata de
isolamento – mas de capacidade de escolha
Nenhum
país relevante opera em plena autonomia tecnológica – e certamente não em
autarquia (isto é, em um modelo de isolamento econômico e tecnológico,
praticamente inexistente no mundo contemporâneo).
A
questão não é eliminar tecnologias externas, mas evitar dependência estrutural.
Isso implica garantir a
portabilidade de dados, a interoperabilidade e a capacidade de substituição
tecnológica.
Em
termos práticos, significa que as soluções devem poder ser auditadas, integradas
e substituídas sem que haja ruptura operacional.
O custo de não agir
A alternativa à
construção dessa missão não é neutra.
É
a continuidade da trajetória atual, marcada por uma crescente dependência
tecnológica, perda de autonomia e vazamento de valor [5].
Isso
não implica apenas atraso econômico, mas também a redução da capacidade do
Estado de definir prioridades e de proteger ativos estratégicos.
Nesse cenário, o Brasil
tende a consolidar uma posição periférica na economia digital – não apenas como
consumidor de tecnologia, mas também como fornecedor de dados para sistemas
controlados externamente.
Em
trabalhos recentes [6], tenho argumentado que a crescente integração entre Big
Techs, o aparato militar e o poder estatal configura um novo complexo
industrial-digital [7].
A escolha histórica
O Brasil não parte do
zero. Possui base de dados robusta, capacidade técnica e Estado relevante.
O
que falta não é capacidade material.
É
decisão política.
Sem missão nacional, a
soberania digital continuará a aparecer nos discursos e desaparecer nas
contratações.
A
questão não é se o Brasil precisa de soberania digital – é se está disposto a
construí-la.
Porque
soberania digital não é um destino – é uma decisão reiterada ao longo do tempo.
Bibliografia
1. Mazzucato, M., The Entrepreneurial State: Debunking
Public vs. Private Sector Myths. 2013, London: Anthem Press.
2. Srnicek, N., Platform Capitalism. 2017,
Cambridge: Polity Press.
3.
Vassil, K., Estonian e-Government Ecosystem: Foundation,
Applications, Outcomes. 2016, Tallinn: Tallinn University of
Technology Press.
4. Kalvet, T., Innovation: A Factor Explaining
E-government Success in Estonia, in Electronic Government: An
International Journal. 2012, IOS Press: Amsterdam.
5. Varoufakis, Y., Technofeudalism: What Killed
Capitalism. 2023, London: Bodley Head.
6. de Melo,
Celso P., Democracia tutelada: Big Tech, poder militar e o novo complexo
industrial-digital. Le Monde Diplomatique Brasil, 2026. Disponível em:
https://diplomatique.org.br/big-tech-poder-militar-e-o-novo-complexo-industrial-digital/.
7. da
Silveira, S.A., As big techs e a guerra total: o complexo
militar-industrial-dataficado. 1 ed. 2025, São Paulo: Hedra.
Celso Pinto
de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq –
Membro da Academia Brasileira de Ciências
IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html

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