17 abril 2026

IA no cotidiano da China

A China e a Inteligência Artificial
IA domina o cotidiano do cidadão chinês em todos os níveis – do mais prosaico ao mais complexo
João Cezar de Castro Rocha/Liberta     

Impressões de viagem

O tema deste artigo poderia pertencer a uma enciclopédia dos contos de Jorge Luis Borges: múltiplo e potencialmente infinito. Serei, contudo, mais modesto. Limitarei minha perspectiva às viagens acadêmicas que tenho feito à China nos últimos anos. E, antes mesmo de principiar, um reconhecimento, ainda mais modesto: em nenhuma circunstância, devo ser visto como especialista em China. Há no Brasil pesquisadores que se dedicam há anos ao tema e têm muito a nos ensinar. Penso em nomes como Elias Jabour, Evandro Carvalho e Maurício Santoro – aprendo bastante com o trabalho deles.

(Sou apenas um professor latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e nem sei mandarim.)

O que posso oferecer, portanto, é a memória recente de duas viagens, em particular, nas quais fui exposto à forma como a cultura chinesa incorpora ativamente a Inteligência Artificial no dia a dia em planos os mais diversos.

Tratarei das viagens em ordem cronológica.

Tradução e Inteligência Artificial

Entre 2021 e 2023, tive a grande honra de receber o título de “Xiaoxiang Scholar / Visiting Researcher – Hunan Normal University / Humboldt Centre for Interdisciplinary Research”. Como parte das minhas obrigações, passei dois meses em Changsha, capital da província de Hunan, o estado no qual nasceu Mao Zedong.

O cotidiano para o cidadão chinês já é dominado pela difusão da Inteligência Artificial em todos os níveis – do mais prosaico ao mais complexo. Muitos dos estudantes que conheci, por exemplo, nunca tinham tido uma cédula de yuan em mãos! Para alguns, e não eram poucos, o conceito de “chave de casa” era tão abstrato quanto Tlon e Uqbar para o leitor de Borges. O “Abre-te Sésamo” dependia de reconhecimento facial ou de um QR Code disponível no celular.

Aliás, o celular é onipresente e possui mil e uma utilidades. Pensei no Brasil e fiquei preocupado. Perguntei a um aluno: mas e quando a conexão falha, o que fazem? Como entram em casa, como pagam a conta? O aluno não entendeu a pergunta. Tentei explicar. Nonada! Contei como funciona o 5G no Brasil. “Não pode ser”, me respondeu o estudante. “Assim não é 5G!”. Confesso que me senti ligeiramente embaraçado, mas não me dei por rogado: mas e se houver um problema com seu servidor? “Ah! Raro, muito raro. Para essas ocasiões, temos um servidor reserva”.

Na Universidade Normal de Hunan, junto com dois brilhantes colegas chineses, Chen Zhongyi e Ren Haiyan, organizamos Montanhas e Pescadores – Crítica Cultural Chinesa Contemporânea (Editora Autêntica, 2024), livro com a participação de 17 destacados professores e professoras, a fim de apresentar à universidade brasileira a produção universitária da China atual.

Um enorme desafio! Ora, pensei, quanto tempo precisaremos para traduzir os textos do mandarim para o português? “Dois meses”, me informou Ren Haiyan, notável jovem pesquisadora. Dois anos? – corrigi minha amiga, com delicadeza. Ren sorriu e confirmou “60 dias”. Como?! “Inteligência Artificial!”. Reagi: Não! Sou um velhinho humanista!

“João… Veja como fazemos: a primeira versão é feita rapidamente com Inteligência Artificial e com um grau de acuidade impressionante. Passo seguinte: uma professora, especialista em português e literatura, verifica linha a linha a tradução. Quando tivermos certeza de sua correção, aí você entra no circuito para assegurar a adequação do estilo final do texto. E sempre em diálogo com a especialista chinesa”.  Fiquei atônito: a ideia era brilhante! O resultado? Publicamos o livro no Brasil em menos de um ano, graças ao excepcional trabalho de revisão da professora da Universidade de Pequim, Fan Xing.

Aprendi muito sobre a mentalidade chinesa nessa experiência: é perda de tempo discutir se a Inteligência Artificial deva ou não ser empregada, pois ela já é realidade. A questão é inventar formas para que sua utilização seja proveitosa e, sobretudo, controlada pelo usuário e não pelo algoritmo.

Inteligência Artificial e Futuro

Em novembro de 2025, estive em Beijing para participar de evento organizado pelo governo chinês sobre o processo de modernização em escala planetária e para oferecer conferências na Universidade de Pequim.

Numa das atividades programadas pelo evento, fomos levados a um parque de inovações tecnológicas voltadas para a indústria, assim como para um laboratório de robótica, igualmente direcionado para aplicações práticas no dia a dia.

Fui transportado à experiência de tradução em Hunan: os chineses estão muito à frente na combinação de pesquisa científica com preocupação pragmática, aceitação da realidade – a onipresença da Inteligência Artificial no futuro imediato e mesmo já no presente –, mas incorporação ativa desse dado. Em outras palavras, como se preparar para que os efeitos da Inteligência Artificial sejam mantidos sob controle?

Inteligência Artificial lida com palavras de Confúcio: “Merece ser um professor o homem que descobre o novo ao refrescar na sua mente aquilo que ele já conhece”.

Se comentar, assine.

IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html 

Nenhum comentário: