06 abril 2026

EUA: direita dividida

A disputa entre tradições rivais da direita americana
Ao trocar a operação de “polícia global” na Venezuela por uma guerra aberta no Irã, Donald Trump abandonou o “America First” que unificava a direita e reabriu a velha disputa entre neoconservadores intervencionistas e paleoconservadores isolacionistas
Marina Basso Lacerda/A Terra é Redonda   


Repercute no Brasil o pedido de explicações, feito por Alexandre de Moraes, sobre a fala de Eduardo Bolsonaro na Cpac (Conferência de Ação Política Conservadora). Na definição do ex-deputado, o evento é a “Copa do Mundo” da direita, que foi realizado no Texas em 28 de março.

Donald Trump, atual presidente dos EUA, pela primeira vez em 10 anos se ausentou do encontro, o que foi atribuído a uma cisão ocorrida no MAGA (Movimento Faça a América Grande Novamente) por conta da guerra no Irã.

Ruptura com os princípios de 2016

Tucker Carlson, um dos principais defensores das ideias de Donald Trump na grande mídia, classificou a ofensiva ao Irã como abandono dos princípios de 2016 e manifestou forte indignação com o custo humano das guerras na região, incluindo a morte de civis.

Joe Kent, veterano e voz influente entre setores da base, então diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, apresentou sua renúncia por não poder continuar, “em boa consciência”, associado a uma guerra que, segundo ele, não atendia a um “interesse nacional vital”. Joe Kent argumentou que havia prometido a si mesmo, depois de suas experiências no Iraque, que não voltaria a apoiar decisões que enviassem jovens norte americanos para morrer em campos de batalha estrangeiros.

Stewart Rhodes, fundador da organização de extrema direita Oath Keepers, anunciou seu abandono do Maga, atribuindo a mudança de atitude de Donald Trump à influência do que chamou de “sionismo” e afirmando que a decisão havia provocado uma divisão interna no movimento.

No Congresso, Thomas Massie apresentou uma Resolução de Poderes de Guerra e criticou abertamente a administração por não oferecer uma justificativa clara para a intervenção. No plenário, questionou: “Não aprendemos nada?”, referindo-se aos fracassados “experimentos de mudança de regime” do passado.

Parte da direita midiática também se voltou contra a incursão no Irã, incluindo comentaristas como Megyn Kelly, durante uma divisão crescente no ecossistema Maga.

A insurreição tem como núcleo o rompimento de Donald Trump com os princípios que estruturaram sua campanha em 2016 – o fim das “guerras eternas”, o nacionalismo econômico e a prioridade ao “norte-americano esquecido”. Esses compromissos, condensados na fórmula America First.

Para compreender a natureza dessa ruptura, é necessário recuar às raízes da fragmentação da direita norte-americana no pós-Ronald Reagan, marcada pela emergência de duas correntes rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo – tradição da qual o trumpismo recupera elementos centrais.

Neoconservadores vs. paleoconservadores

O neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários, direita cristã e setores da classe média, que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico, defendendo uma projeção externa dos EUA como potência dominante no combate à União Soviética.

Com o fim da era Ronald Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão, que marcou o início de uma disputa pela alma da direita norte-americana.

Os neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para dentro, centrada na suposta homogeneidade étnico-cultural e no cristianismo –uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.

Os atentados de 11 de Setembro deram impulso definitivo à “política externa com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão civilizatória. Do outro lado da fratura, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros do “conservadorismo tradicionalista” ou “velha direita” pré-Segunda Guerra Mundial.

Pat Buchanan, pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” –a classe trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. É precisamente dessa tradição que brota a genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan America First.

Comparação Venezuela/Irã

Donald Trump, quando da captura de Niol´s Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, criou um modelo paleoconservador de intervenção, ancorada inteiramente na política interna dos Estados Unidos: combate às gangues de drogas que assolam os norte-americanos, retornos financeiros e nenhuma baixa estadunidense. Ou seja, ele equilibrou os princípios de movimento de raízes antiintervencionistas com uma ação militar ousada. Conduzida pelo Departamento de Justiça, foi uma verdadeira operação de “polícia global”.

Mas a invasão do Irã, ocorrida menos de 3 meses depois, teve uma narrativa totalmente oposta, resgatando o neoconservadorismo.

Se na Venezuela a ação foi blindada sob o rótulo de uma “operação de captura de narcoterrorista”, no Irã o governo de Donald Trump ressuscitou o espectro das intervenções de larga escala. A promessa do “risco zero” evaporou-se diante das primeiras baixas norte-americanas em solo persa, quebrando o contrato emocional de proteção aos “nossos rapazes” que fundamentava o America First.

Em vez do cálculo pragmático de recompensas, o discurso migrou para o messianismo neoconservador: a retórica de “libertar o povo iraniano” e a imposição de uma mudança de regime. Onde antes havia um espetáculo punitivo de baixo custo e alta lucratividade para consumo interno, surgiu uma guerra aberta de desgaste, drenando recursos e expondo a face de um imperialismo clássico que o eleitorado de Donald Trump acreditava ter enterrado com a “velha direita”.

Essa inflexão, embora não seja inédita, é de outra ordem: diferentemente de episódios como a Síria em 2017, trata-se agora de uma mudança sustentada, com custos humanos e políticos que tornam inviável a antiga ambiguidade do trumpismo.

Nomes como JD Vance emergem como vetores dessa inflexão ao tentarem converter a ofensiva em um exercício de pragmatismo militar e saída estratégica. Ao defender que os “objetivos foram atingidos” e focar na destruição da capacidade iraniana como passo para a negociação, JD Vance acaba por esvaziar o isolacionismo visceral do America First conferindo uma face de eficiência técnica a uma guerra que a base original do movimento preferia nunca ter iniciado.

O trumpismo, portanto, deixa de ser síntese e volta a ser campo de disputa entre tradições rivais da direita americana. A oscilação recente entre ameaça de escalada e acenos de negociação – prontamente negados por Teerã – não constitui mera ambiguidade tática, mas sinaliza a desarticulação de um projeto que já não consegue alinhar discurso, base social e ação de governo. E isso se expressou no grande encontro da direita mundial.

É verdade que o Cpac teve temas unificadores: apoio às deportações e políticas duras de segurança. Contudo, a fratura sobre o Irã foi incontornável. De um lado, o príncipe iraniano exilado Reza Pahlavi elogiou ações dos Estados Unidos contra o regime iraniano e defendeu sua derrubada como caminho para a libertação do país. Do outro, o deputado Matt Gaetz alertou que a guerra afetaria diretamente a população e deixaria os EUA mais pobres e menos seguros.

Não por acaso, Donald Trump ausentou-se do encontro pela primeira vez em 10 anos: o líder que organizava a coalizão já não consegue falar a uma base que deixou de ser una.

*Marina Basso Lacerdadoutora em ciência política pelo Iesp/Uerj, é atualmente Chefe de Gabinete do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Autora do livro O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro (Zouk). [https://amzn.to/41l3IcH]

Publicado originalmente no portal Poder360.

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