07 abril 2026

Mundo: papel mais do que relevante

Brics sob fogo cruzado
Se revela pressões externas que atravessam o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além dos outros cinco países incorporados nos últimos dois anos, a crise provocada pelos ataques ao Irã também sugere que o agrupamento pode desempenhar um papel relevante na reconstrução de canais de diálogo internacionais
Marta Fernández*/Le Monde Diplomatique   


 

Quando partimos de um campo de visão estreito, podemos concluir que os países do Brics estão em conflito entre si, como sugerem as retaliações do Irã contra bases norte-americanas e alvos civis nos Emirados Árabes Unidos. No entanto, para compreender o que está em jogo, é preciso ampliar o olhar e situar o ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã na disputa geopolítica mais ampla entre Washington e a principal potência do bloco, a China.

Se, à primeira vista, a política externa belicosa e unilateral do segundo governo Trump pode sugerir uma revitalização da hegemonia dos Estados Unidos, o recurso à força bruta frequentemente revela justamente o contrário. A coerção militar costuma emergir quando um país já não consegue impor sua vontade por outros meios – seja pelo convencimento diplomático, pela pressão econômica ou pela ameaça do uso da força. Em 2026, todos esses meios falharam: em janeiro, na Venezuela, e em fevereiro, no Irã – ambos sujeitos a sanções e ao cerco dos Estados Unidos –; no Caribe, com a maior mobilização das forças navais norte-americanas desde a Crise dos Mísseis, em 1962; e no Oriente Médio, com a maior concentração aeronaval desde a guerra contra o Iraque, em 2003. O sequestro de Nicol&aacu te;s Maduro e o assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, ao arrepio do direito internacional, abalaram a ordem internacional baseada em regras, construída sob a liderança dos Estados Unidos – embora princípios basilares dessa ordem, como soberania e não intervenção, tenham sido historicamente aplicados de forma seletiva.

Ironicamente, hoje são os países do Brics que têm defendido essa ordem em suas declarações anuais, ainda que reconfigurada para garantir maior participação aos países do Sul Global – muitos dos quais ainda estavam sob domínio colonial quando essa arquitetura foi estabelecida, com a criação das Instituições de Bretton Woods em 1944 e das Nações Unidas em 1945. Esse chamado ao respeito ao direito internacional, ao direito internacional humanitário, à soberania dos Estados e à solução pacífica de controvérsias aparece explicitamente na Declaração Conjunta do Brics[1] sobre a escalada no Oriente Médio após os ataques militares de Israel e dos Estados Unidos contra instalações nucleares iranianas em junho de 2025.

Junto com seu declínio e sua incapacidade crescente de produzir consenso internacional como no passado, Washington parece disposta a arrastar consigo a própria ordem internacional liberal do pós-guerra que ajudou a erguer, recorrendo à intimidação e à coerção para preservar sua primazia. Ambas as investidas militares, contra a Venezuela e contra o Irã, inserem-se numa disputa estrutural mais ampla, na qual a China é tida como a principal influência a ser contida. Na América Latina, esse movimento recorre a uma versão atualizada da Doutrina Monroe, orientada a limitar ou expulsar a presença chinesa da região. No Oriente Médio, por sua vez, a crescente inserção da China também passou a tensionar uma correlação de forças historicam ente favorável aos Estados Unidos, baseada em garantias de segurança e alinhamento geopolítico em troca da estabilidade do fluxo energético.[2] Com base nessa perspectiva mais ampla, atingir o Irã também significa atingir um elo estratégico da projeção chinesa no Oriente Médio, tentando limitar a capacidade de Pequim de consolidar corredores energéticos e logísticos que atravessam o território iraniano e articulam-se à Iniciativa Cinturão e Rota, alternativos à arquitetura geopolítica historicamente dominada pelos Estados Unidos.

Lógicas coloniais de guerra

A estratégia da guerra contra o Irã reativa duas velhas lógicas coloniais: a “orientalização” e o princípio do “dividir para dominar”.

A expansão do Brics – que praticamente dobrou de tamanho nos últimos dois anos com a inclusão de Irã, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia e Indonésia, além da posição ainda ambígua da Arábia Saudita, que não formalizou plenamente sua adesão – contribuiu para intensificar o processo de orientalização do agrupamento no debate internacional. Sobretudo, a entrada do Irã passou a alimentar leituras que o retratam como uma coalizão antiocidental e potencialmente desestabilizadora a ser contida.

Como argumenta Edward Said, a orientalização é um processo discursivo pelo qual o “Oriente” é construído em oposição ao “Ocidente”, em uma relação em que ambos se definem mutuamente. Ao longo de séculos, essa tradição intelectual e política produziu representações que descrevem as sociedades orientais como irracionais, instáveis ou incapazes de agir segundo os parâmetros da racionalidade política moderna. Esse imaginário atravessa a política e o debate público, como mostram declarações recentes de Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio. Para Rubio, negociar com o Irã é complicado porque Washington teria de lidar com “clérigos xiitas radicais” que não tomam decisões geopolíticas, mas adotam posições baseadas na teologia.[3] Na mesma direção, Trump afirmou que o Irã seria governado por “lunáticos fanáticos religiosos”[4] ao justificar ações militares contra o país. Essas representações não apenas descrevem o Irã, mas também criam as condições para o ataque. Afinal, contra um inimigo irracional e apocalíptico, não haveria caminho diplomático. A guerra deixa de ser vista como uma esco lha e passa a ser entendida como a única resposta possível.

Mas quem é, afinal, o ator irracional nesse cenário? Os acontecimentos recentes sugerem um quadro mais complexo. Mesmo sob um regime severo de sanções econômicas e ameaça constante de ataque militar, Teerã sinalizou disposição para negociar e participar de tratativas conduzidas em boa-fé. Segundo o chanceler de Omã, mediador das negociações, autoridades iranianas indicaram disposição para assumir o compromisso de jamais manter reservas de urânio enriquecido.[5] Ao tornar pública essa informação, Mascate sinalizou que havia avanços diplomáticos em curso – e, ao mesmo tempo, expôs a existência de alternativa s à escalada militar. Isso permite recolocar o conflito nos termos de uma guerra de escolha: uma guerra que não decorre da ausência de opções, mas da decisão deliberada de interromper a via diplomática em favor da coerção militar.

Uma segunda lógica colonial que atravessa a estratégia de confronto com o Irã é a velha máxima de “dividir para dominar”. Sinais dessa dinâmica já eram visíveis antes do ataque, quando o país enfrentou os maiores protestos desde a Revolução de 1979. Em janeiro, comerciantes iranianos foram às ruas para protestar contra as perdas econômicas provocadas pela inflação e pelo impacto das sanções. O aumento do custo de vida e a deterioração do poder de compra haviam se tornado uma fonte crescente de insatisfação social.

Essas manifestações refletiam dificuldades econômicas concretas enfrentadas pela população iraniana. Ao mesmo tempo, porém, não podem ser dissociadas da pressão externa deliberadamente intensificada sobre a economia do país. Nesse cenário, atores externos passaram a aprofundar essas fissuras. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent,[6] chegou a afirmar que Washington havia intencionalmente provocado uma escassez de dólares no Irã para levar o rial à queda livre e, assim, estimular protestos nas ruas. Essa estratégia baseou-se no bloqueio simultâneo dos dois principais canais de entrada de moeda estrangeira na economia iraniana: as exportações de petróleo e o acesso ao sistema bancário internacional. Para isso, os Estados Unidos ampliaram sanções sobre a cadeia de exportação de petróleo iraniano e intensificaram sanções secundárias que afastaram bancos e instituições financeiras estrangeiras do país, reduzindo drasticamente o fluxo de dólares para a economia iraniana. Ao mesmo tempo, Reza Pahlavi – filho do xá deposto em 1979 e hoje residente nos Estados Unidos – incentivava as mobilizações e apelava por maior apoio internacional contra o governo de Teerã. A combinação entre sufocamento econômico externo e estímulo a fissuras internas reativa, assim, a velha lógica colonial de dividir para dominar.

Dinâmicas desse tipo não são novas na história das relações entre o Irã e potências ocidentais. A exploração de tensões internas integra um padrão histórico mais amplo de intervenções externas. Compreender o Irã contemporâneo exige, portanto, ampliar também o horizonte temporal e considerar a longa trajetória de interferências no país. Um episódio central nesse processo ocorreu em 1953, quando o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh – eleito democraticamente – foi derrubado em uma operação apoiada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, dois anos após nacionalizar a Anglo-Iranian Oil Company, empresa britânica que controlava a exploração do petróleo iraniano. O golpe que se seguiu não apenas interrompeu uma experiência democrática no país, como tam bém restaurou o poder do xá Mohammad Reza Pahlavi, cuja monarquia passou a depender do apoio de Washington. Esse episódio evidencia que as tensões e instabilidades que atravessam o país não podem ser compreendidas apenas como fenômenos internos. Ao contrário, são resultado de uma longa história de cumplicidade de potências ocidentais na reconfiguração do sistema político iraniano de acordo com interesses estratégicos e energéticos mais amplos. 

Divisões projetadas sobre o Brics

As tensões no Oriente Médio, desencadeadas pela ação militar dos Estados Unidos e de Israel, fazem parte de uma longa história de intervenções externas que alimentam antagonismos e instrumentalizam diferenças geopolíticas. Essa lógica de fragmentação também se manifesta na competição geopolítica contemporânea e nas pressões dirigidas ao Brics.

Trump chegou a advertir que os Estados Unidos poderiam impor tarifas de até 100% caso os países do bloco avançassem com iniciativas de desdolarização. Embora a ameaça tenha sido dirigida ao agrupamento como um todo, a prática tem consistido em negociações diferenciadas com alguns de seus membros, o que abre espaço para tensões internas. Em agosto de 2025, por exemplo, foi imposta uma tarifa de 50% sobre produtos indianos, com o objetivo declarado de punir o país por importar petróleo russo e contribuir para financiar a guerra contra a Ucrânia. No mesmo período, porém, a China – embora seja o maior importador de petróleo bruto russo – não foi alvo de medidas equivalentes. Ao privilegiar negociações bilaterais em vez de lidar com o agrupamento como um todo, essa dinâmica tende a estimular divergências entre seus membros.

Esse contexto ajuda a explicar parte das ambiguidades recentes na posição coletiva do Brics diante da guerra no Oriente Médio. A ausência de uma declaração conjunta e a expectativa de que a próxima cúpula indiana adote um perfil mais discreto refletem não apenas diferenças de posicionamento entre os membros, mas também os distintos cálculos estratégicos que cada país faz diante de um ambiente internacional cada vez mais fragmentado.

A Índia, inspirada por uma estratégia de política externa conhecida como multialinhamento, busca equilibrar sua participação no Brics com uma aproximação estratégica crescente com Israel e os Estados Unidos, ao mesmo tempo que preserva interesses energéticos importantes, como a continuidade das importações de petróleo russo. Esse movimento reflete uma inflexão significativa em sua política externa. Durante décadas, sob a liderança de Jawaharlal Nehru, um dos arquitetos do Movimento dos Não Alinhados, Nova Déli figurou entre as vozes mais firmes em defesa da autodeterminação palestina. Nas últimas duas décadas, porém, a relação com Israel consolidou-se como um dos pilares da cooperação estratégica indiana, especialmente nas áreas de defesa e de tecnologia militar. Esse movimento oco rre em paralelo ao aprofundamento dos vínculos com Washington e à participação da Índia no Quad, ao lado de Estados Unidos, Japão e Austrália, elemento da estratégia norte-americana de contenção da China no Indo-Pacífico.

Os Emirados Árabes Unidos também têm construído sua política externa recente por meio de uma estratégia frequentemente descrita como multialinhamento, baseada na manutenção simultânea de relações estreitas com diferentes polos de poder, do Ocidente à Ásia. Esse posicionamento acompanha o próprio modelo de inserção internacional do país: um hub global de finanças, aviação e comércio que depende da abertura de rotas, da estabilidade regional e da confiança de diversos parceiros.

A guerra expôs a vulnerabilidade inerente a essa estratégia: com bases militares norte-americanas em seu território e uma infraestrutura altamente visível – aeroportos, portos, hotéis e centros financeiros –, os Emirados acabaram no fogo cruzado de um conflito que não iniciaram. Se, num primeiro momento, a frustração regional se voltou contra os Estados Unidos e Israel pelo ataque ao Irã, rapidamente a insatisfação passou a atingir também o Irã. Nesse contexto, cresce a percepção de que o país paga o preço de uma guerra alheia, alimentando um sentimento de injustiça e a quebra de confiança em relação a parceiros externos. A experiência sugere que estratégias de multialinhamento, eficazes em contextos de estabilidade e interdependência econômica, encontram limites quando rivalidades entre grandes pot&e circ;ncias se transformam em confronto aberto. Assim, tanto no caso da Índia quanto no dos Emirados, o que aparece como fissura no Brics reflete, na realidade, os efeitos de disputas geopolíticas mais amplas projetadas sobre o bloco. 

Quem pode mediar a paz?

Nesse contexto, as posições assumidas por países como o Brasil e a China apontam para outra leitura possível da crise. Ao insistirem na necessidade de cessar a escalada militar, no respeito ao direito internacional e na retomada de canais diplomáticos, ambos procuram deslocar o foco da lógica da confrontação para a reconstrução de condições mínimas para o diálogo.

Ao questionarem a normalização da escalada militar, essas vozes também buscam reabrir espaço para outras prioridades, frequentemente silenciadas pela linguagem onipresente da guerra: desenvolvimento, cooperação econômica e fortalecimento das infraestruturas sociais. Os impactos dos conflitos não se limitam ao campo militar. A escalada no Oriente Médio já pressiona o preço do petróleo, encarece fertilizantes e eleva o custo dos alimentos, com efeitos diretos sobre a segurança alimentar global – recaindo de forma desproporcional sobre os países do Sul Global e as populações situadas nos andares de baixo da economia mundial.

Essa perspectiva recoloca uma questão central para a ordem internacional contemporânea: quem tem legitimidade para promover a paz? Afinal, não deixa de ser paradoxal que atores envolvidos na escalada militar reivindiquem também o papel de mediadores.

Experiências recentes mostram, porém, que outras iniciativas são possíveis. Em 2023, a China mediou a reaproximação entre a Arábia Saudita e o Irã, convidando ambos os países a integrar o Brics em prol da estabilidade regional. A atual escalada militar, ao contrário, volta a afastar atores regionais e reintroduz a lógica da confrontação, mostrando como decisões externas podem desfazer avanços diplomáticos que haviam começado a reconstruir pontes na região.

Se a crise recente revelou pressões externas que atravessam o Brics, ela também sugere que o agrupamento pode desempenhar um papel relevante na reconstrução de canais de diálogo internacionais – uma ponte diplomática entre diferentes polos de poder.

Iniciativas de mediação vindas do Sul Global podem contribuir para recolocar no centro da política internacional não a lógica da guerra permanente, e sim o fortalecimento do multilateralismo e das instituições responsáveis pela resolução pacífica de conflitos – começando pela revitalização do papel das Nações Unidas e pela necessária reforma de seu Conselho de Segurança.

*Marta Fernández é diretora do Brics Policy Center (PUC-Rio).

Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-eua-em-apuros.html 

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