Brics sob fogo cruzado
Se revela pressões externas que
atravessam o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul,
além dos outros cinco países incorporados nos últimos dois anos, a crise
provocada pelos ataques ao Irã também sugere que o agrupamento pode desempenhar
um papel relevante na reconstrução de canais de diálogo internacionais
Marta Fernández*/Le Monde Diplomatique
Quando partimos
de um campo de visão estreito, podemos concluir que os países do Brics estão em
conflito entre si, como sugerem as retaliações do Irã contra bases
norte-americanas e alvos civis nos Emirados Árabes Unidos. No entanto, para
compreender o que está em jogo, é preciso ampliar o olhar e situar o ataque dos
Estados Unidos e de Israel contra o Irã na disputa geopolítica mais ampla entre
Washington e a principal potência do bloco, a China.
Se, à primeira
vista, a política externa belicosa e unilateral do segundo governo Trump pode
sugerir uma revitalização da hegemonia dos Estados Unidos, o recurso à força
bruta frequentemente revela justamente o contrário. A coerção militar costuma
emergir quando um país já não consegue impor sua vontade por outros meios –
seja pelo convencimento diplomático, pela pressão econômica ou pela ameaça do
uso da força. Em 2026, todos esses meios falharam: em janeiro, na Venezuela, e
em fevereiro, no Irã – ambos sujeitos a sanções e ao cerco dos Estados Unidos
–; no Caribe, com a maior mobilização das forças navais norte-americanas desde
a Crise dos Mísseis, em 1962; e no Oriente Médio, com a maior concentração
aeronaval desde a guerra contra o Iraque, em 2003. O sequestro de
Nicol&aacu te;s Maduro e o assassinato do líder supremo do Irã, Ali
Khamenei, ao arrepio do direito internacional, abalaram a ordem internacional
baseada em regras, construída sob a liderança dos Estados Unidos – embora
princípios basilares dessa ordem, como soberania e não intervenção, tenham sido
historicamente aplicados de forma seletiva.
Ironicamente,
hoje são os países do Brics que têm defendido essa ordem em suas declarações
anuais, ainda que reconfigurada para garantir maior participação aos países do
Sul Global – muitos dos quais ainda estavam sob domínio colonial quando essa
arquitetura foi estabelecida, com a criação das Instituições de Bretton Woods
em 1944 e das Nações Unidas em 1945. Esse chamado ao respeito ao direito
internacional, ao direito internacional humanitário, à soberania dos Estados e
à solução pacífica de controvérsias aparece explicitamente na Declaração Conjunta do Brics[1] sobre
a escalada no Oriente Médio após os ataques militares de Israel e dos Estados
Unidos contra instalações nucleares iranianas em junho de 2025.
Junto com seu
declínio e sua incapacidade crescente de produzir consenso internacional como
no passado, Washington parece disposta a arrastar consigo a própria ordem
internacional liberal do pós-guerra que ajudou a erguer, recorrendo à intimidação
e à coerção para preservar sua primazia. Ambas as investidas militares, contra
a Venezuela e contra o Irã, inserem-se numa disputa estrutural mais ampla, na
qual a China é tida como a principal influência a ser contida. Na América
Latina, esse movimento recorre a uma versão atualizada da Doutrina Monroe,
orientada a limitar ou expulsar a presença chinesa da região. No Oriente Médio,
por sua vez, a crescente inserção da China também passou a tensionar uma correlação de forças historicam ente favorável aos
Estados Unidos, baseada em garantias de segurança e alinhamento geopolítico em
troca da estabilidade do fluxo energético.[2] Com base nessa perspectiva mais
ampla, atingir o Irã também significa atingir um elo estratégico da projeção
chinesa no Oriente Médio, tentando limitar a capacidade de Pequim de consolidar
corredores energéticos e logísticos que atravessam o território iraniano e
articulam-se à Iniciativa Cinturão e Rota, alternativos à arquitetura
geopolítica historicamente dominada pelos Estados Unidos.
Lógicas coloniais de guerra
A estratégia da
guerra contra o Irã reativa duas velhas lógicas coloniais: a “orientalização” e
o princípio do “dividir para dominar”.
A expansão do
Brics – que praticamente dobrou de tamanho nos últimos dois anos com a inclusão
de Irã, Emirados Árabes Unidos, Egito, Etiópia e Indonésia, além da posição
ainda ambígua da Arábia Saudita, que não formalizou plenamente sua adesão –
contribuiu para intensificar o processo de orientalização do agrupamento no
debate internacional. Sobretudo, a entrada do Irã passou a alimentar leituras
que o retratam como uma coalizão antiocidental e potencialmente
desestabilizadora a ser contida.
Como argumenta
Edward Said, a orientalização é um processo discursivo pelo qual o “Oriente” é
construído em oposição ao “Ocidente”, em uma relação em que ambos se definem
mutuamente. Ao longo de séculos, essa tradição intelectual e política produziu
representações que descrevem as sociedades orientais como irracionais,
instáveis ou incapazes de agir segundo os parâmetros da racionalidade política
moderna. Esse imaginário atravessa a política e o debate público, como mostram
declarações recentes de Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio. Para
Rubio, negociar com o Irã é complicado porque Washington teria de lidar com “clérigos xiitas radicais” que não tomam decisões
geopolíticas, mas adotam posições baseadas na teologia.[3] Na mesma direção, Trump afirmou que
o Irã seria governado por “lunáticos fanáticos religiosos”[4] ao justificar ações militares contra
o país. Essas representações não apenas descrevem o Irã, mas também criam as
condições para o ataque. Afinal, contra um inimigo irracional e apocalíptico,
não haveria caminho diplomático. A guerra deixa de ser vista como uma esco lha
e passa a ser entendida como a única resposta possível.
Mas quem é, afinal,
o ator irracional nesse cenário? Os acontecimentos recentes sugerem um quadro
mais complexo. Mesmo sob um regime severo de sanções econômicas e ameaça
constante de ataque militar, Teerã sinalizou disposição para negociar e
participar de tratativas conduzidas em boa-fé. Segundo o chanceler de Omã, mediador das negociações,
autoridades iranianas indicaram disposição para assumir o compromisso de jamais
manter reservas de urânio enriquecido.[5] Ao tornar pública essa informação,
Mascate sinalizou que havia avanços diplomáticos em curso – e, ao mesmo tempo,
expôs a existência de alternativa s à escalada militar. Isso permite recolocar
o conflito nos termos de uma guerra de escolha: uma guerra que não decorre da
ausência de opções, mas da decisão deliberada de interromper a via diplomática
em favor da coerção militar.
Uma segunda
lógica colonial que atravessa a estratégia de confronto com o Irã é a velha
máxima de “dividir para dominar”. Sinais dessa dinâmica já eram visíveis antes
do ataque, quando o país enfrentou os maiores protestos desde a Revolução de
1979. Em janeiro, comerciantes iranianos foram às ruas para protestar contra as
perdas econômicas provocadas pela inflação e pelo impacto das sanções. O
aumento do custo de vida e a deterioração do poder de compra haviam se tornado uma
fonte crescente de insatisfação social.
Essas
manifestações refletiam dificuldades econômicas concretas enfrentadas pela
população iraniana. Ao mesmo tempo, porém, não podem ser dissociadas da pressão
externa deliberadamente intensificada sobre a economia do país. Nesse cenário,
atores externos passaram a aprofundar essas fissuras. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott
Bessent,[6] chegou a afirmar que Washington
havia intencionalmente provocado uma escassez de dólares no Irã para levar o
rial à queda livre e, assim, estimular protestos nas ruas. Essa estratégia
baseou-se no bloqueio simultâneo dos dois principais canais de entrada de moeda
estrangeira na economia iraniana: as exportações de petróleo e o acesso ao
sistema bancário internacional. Para isso, os Estados Unidos ampliaram sanções
sobre a cadeia de exportação de petróleo iraniano e intensificaram sanções
secundárias que afastaram bancos e instituições financeiras estrangeiras do
país, reduzindo drasticamente o fluxo de dólares para a economia iraniana. Ao
mesmo tempo, Reza Pahlavi – filho do xá deposto em 1979 e hoje residente nos
Estados Unidos – incentivava as mobilizações e apelava por maior apoio
internacional contra o governo de Teerã. A combinação entre sufocamento
econômico externo e estímulo a fissuras internas reativa, assim, a velha lógica
colonial de dividir para dominar.
Dinâmicas desse
tipo não são novas na história das relações entre o Irã e potências ocidentais.
A exploração de tensões internas integra um padrão histórico mais amplo de intervenções
externas. Compreender o Irã contemporâneo exige, portanto, ampliar também o
horizonte temporal e considerar a longa trajetória de interferências no país.
Um episódio central nesse processo ocorreu em 1953, quando o primeiro-ministro
Mohammad Mossadegh – eleito democraticamente – foi derrubado em uma operação
apoiada pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, dois anos após nacionalizar a
Anglo-Iranian Oil Company, empresa britânica que controlava a exploração do
petróleo iraniano. O golpe que se seguiu não apenas interrompeu uma experiência
democrática no país, como tam bém restaurou o poder do xá Mohammad Reza
Pahlavi, cuja monarquia passou a depender do apoio de Washington. Esse episódio
evidencia que as tensões e instabilidades que atravessam o país não podem ser
compreendidas apenas como fenômenos internos. Ao contrário, são resultado de
uma longa história de cumplicidade de potências ocidentais na reconfiguração do
sistema político iraniano de acordo com interesses estratégicos e energéticos
mais amplos.
Divisões
projetadas sobre o Brics
As tensões no
Oriente Médio, desencadeadas pela ação militar dos Estados Unidos e de Israel,
fazem parte de uma longa história de intervenções externas que alimentam
antagonismos e instrumentalizam diferenças geopolíticas. Essa lógica de
fragmentação também se manifesta na competição geopolítica contemporânea e nas
pressões dirigidas ao Brics.
Trump chegou a
advertir que os Estados Unidos poderiam impor tarifas de até 100% caso os
países do bloco avançassem com iniciativas de desdolarização. Embora a ameaça
tenha sido dirigida ao agrupamento como um todo, a prática tem consistido em
negociações diferenciadas com alguns de seus membros, o que abre espaço para
tensões internas. Em agosto de 2025, por exemplo, foi imposta uma tarifa de 50%
sobre produtos indianos, com o objetivo declarado de punir o país por importar
petróleo russo e contribuir para financiar a guerra contra a Ucrânia. No mesmo
período, porém, a China – embora seja o maior importador de petróleo bruto
russo – não foi alvo de medidas equivalentes. Ao privilegiar negociações
bilaterais em vez de lidar com o agrupamento como um todo, essa dinâmica tende
a estimular divergências entre seus membros.
Esse contexto
ajuda a explicar parte das ambiguidades recentes na posição coletiva do Brics
diante da guerra no Oriente Médio. A ausência de uma declaração conjunta e a
expectativa de que a próxima cúpula indiana adote um perfil mais discreto
refletem não apenas diferenças de posicionamento entre os membros, mas também
os distintos cálculos estratégicos que cada país faz diante de um ambiente
internacional cada vez mais fragmentado.
A Índia,
inspirada por uma estratégia de política externa conhecida como
multialinhamento, busca equilibrar sua participação no Brics com uma
aproximação estratégica crescente com Israel e os Estados Unidos, ao mesmo
tempo que preserva interesses energéticos importantes, como a continuidade das
importações de petróleo russo. Esse movimento reflete uma inflexão
significativa em sua política externa. Durante décadas, sob a liderança de
Jawaharlal Nehru, um dos arquitetos do Movimento dos Não Alinhados, Nova Déli
figurou entre as vozes mais firmes em defesa da autodeterminação palestina. Nas
últimas duas décadas, porém, a relação com Israel consolidou-se como um dos
pilares da cooperação estratégica indiana, especialmente nas áreas de defesa e
de tecnologia militar. Esse movimento oco rre em paralelo ao aprofundamento dos
vínculos com Washington e à participação da Índia no Quad, ao lado de Estados
Unidos, Japão e Austrália, elemento da estratégia norte-americana de contenção
da China no Indo-Pacífico.
Os Emirados
Árabes Unidos também têm construído sua política externa recente por meio de
uma estratégia frequentemente descrita como multialinhamento, baseada na
manutenção simultânea de relações estreitas com diferentes polos de poder, do
Ocidente à Ásia. Esse posicionamento acompanha o próprio modelo de inserção
internacional do país: um hub global de finanças, aviação e comércio que
depende da abertura de rotas, da estabilidade regional e da confiança de
diversos parceiros.
A guerra expôs a vulnerabilidade inerente a essa estratégia: com bases militares norte-americanas em seu território e uma infraestrutura altamente visível – aeroportos, portos, hotéis e centros financeiros –, os Emirados acabaram no fogo cruzado de um conflito que não iniciaram. Se, num primeiro momento, a frustração regional se voltou contra os Estados Unidos e Israel pelo ataque ao Irã, rapidamente a insatisfação passou a atingir também o Irã. Nesse contexto, cresce a percepção de que o país paga o preço de uma guerra alheia, alimentando um sentimento de injustiça e a quebra de confiança em relação a parceiros externos. A experiência sugere que estratégias de multialinhamento, eficazes em contextos de estabilidade e interdependência econômica, encontram limites quando rivalidades entre grandes pot&e circ;ncias se transformam em confronto aberto. Assim, tanto no caso da Índia quanto no dos Emirados, o que aparece como fissura no Brics reflete, na realidade, os efeitos de disputas geopolíticas mais amplas projetadas sobre o bloco.
Quem
pode mediar a paz?
Nesse contexto,
as posições assumidas por países como o Brasil e a China apontam para outra
leitura possível da crise. Ao insistirem na necessidade de cessar a escalada
militar, no respeito ao direito internacional e na retomada de canais
diplomáticos, ambos procuram deslocar o foco da lógica da confrontação para a
reconstrução de condições mínimas para o diálogo.
Ao questionarem
a normalização da escalada militar, essas vozes também buscam reabrir espaço
para outras prioridades, frequentemente silenciadas pela linguagem onipresente
da guerra: desenvolvimento, cooperação econômica e fortalecimento das
infraestruturas sociais. Os impactos dos conflitos não se limitam ao campo
militar. A escalada no Oriente Médio já pressiona o preço do petróleo, encarece
fertilizantes e eleva o custo dos alimentos, com efeitos diretos sobre a
segurança alimentar global – recaindo de forma desproporcional sobre os países
do Sul Global e as populações situadas nos andares de baixo da economia
mundial.
Essa
perspectiva recoloca uma questão central para a ordem internacional
contemporânea: quem tem legitimidade para promover a paz? Afinal, não deixa de
ser paradoxal que atores envolvidos na escalada militar reivindiquem também o
papel de mediadores.
Experiências
recentes mostram, porém, que outras iniciativas são possíveis. Em 2023, a China
mediou a reaproximação entre a Arábia Saudita e o Irã, convidando ambos os
países a integrar o Brics em prol da estabilidade regional. A atual escalada
militar, ao contrário, volta a afastar atores regionais e reintroduz a lógica
da confrontação, mostrando como decisões externas podem desfazer avanços
diplomáticos que haviam começado a reconstruir pontes na região.
Se a crise
recente revelou pressões externas que atravessam o Brics, ela também sugere que
o agrupamento pode desempenhar um papel relevante na reconstrução de canais de
diálogo internacionais – uma ponte diplomática entre diferentes polos de poder.
Iniciativas de
mediação vindas do Sul Global podem contribuir para recolocar no centro da
política internacional não a lógica da guerra permanente, e sim o
fortalecimento do multilateralismo e das instituições responsáveis pela
resolução pacífica de conflitos – começando pela revitalização do papel das
Nações Unidas e pela necessária reforma de seu Conselho de Segurança.
*Marta Fernández é diretora do Brics Policy Center (PUC-Rio).
Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-eua-em-apuros.html

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