Quando os impérios ficam perigosos
O paralelo entre Roma, o Império Otomano e os Estados Unidos
atual revela um padrão: a dívida crescente e a sobretensão militar precedem a
fragmentação
Celso Pinto de Melo*/A
Terra é Redonda
“Nada é tão difícil quanto perceber que a força já não convence” (Liev Tolstói)
Decadência, coerção e o custo crescente da hegemonia
Paul Kennedy ensinou que os impérios
não entram em crise apenas quando perdem poder, mas quando o custo de
sustentá-los passa a exceder a base econômica que os torna possíveis.[1] Raramente,
a história registra um colapso súbito – a dissolução da União Soviética é uma
exceção notável, embora também tenha sido precedida por um longo processo de
esgotamento interno.
Mais frequentemente, o que se observa é
um longo intervalo de transição – um tempo ambíguo em que o poder ainda existe,
mas já não convence; em que a autoridade se impõe, mas deixa de integrar. É
nesse momento, quando o declínio ainda não se admite, que as potências
hegemônicas tendem a se tornar mais instáveis – e mais perigosas. A coerção
substitui o consenso, a força tenta compensar a perda de legitimidade e a
política externa passa a refletir menos confiança do que ansiedade.
O debate contemporâneo sobre a política
externa dos Estados Unidos recoloca essa questão em termos particularmente
nítidos. Uma sequência recente de ações – do Caribe ao Oriente Médio, passando
por pressões sobre territórios estratégicos e o endurecimento de instrumentos
econômicos – sugere a intensificação de um padrão: a passagem de uma hegemonia
baseada em alianças e normas para formas mais diretas de projeção coercitiva de
poder, em um mundo que já não responde automaticamente à liderança
norte-americana.
A emergência da China como potência
industrial, tecnológica e geopolítica – percebida em Washington como uma
“ameaça sistêmica” – atua como catalisador desse processo. A competição com
Pequim deixou de ser episódica e passou a estruturar a política externa e de
defesa dos Estados Unidos. [2] [3] Como
argumenta Paul Kennedy, grandes potências tendem a entrar em ciclos de
sobretensão (overstretch), nos quais o custo de sustentar compromissos
globais passa a exceder a base econômica que os sustenta.
Esse padrão histórico não é novo.
O colapso do Império Romano do Ocidente
não resultou de uma derrota única nem de uma invasão decisiva. Ao contrário, foi
o desfecho de um processo de longa duração, que se estende por cerca de dois
séculos.[4]
Nesse intervalo, Roma tentou preservar
sua integridade territorial por meio da expansão do esforço militar, do aumento
da carga tributária e da crescente terceirização da segurança. A incorporação
de povos federados (foederati) ao aparato militar acabou por criar
centros de poder autônomos, cujas lealdades se tornaram progressivamente
regionais.
À medida que a base fiscal se
enfraquecia e os corredores logísticos vitais eram perdidos, o custo de manter
a presença imperial tornava-se proibitivo. A coesão, antes sustentada por
cidadania e pertencimento à res publica, passou a depender cada vez
mais da força bruta[5]
A queda, portanto, não foi um evento,
mas um processo de desagregação progressiva.
O caso otomano – exaustão, dívida e
periferias em fuga
Um paralelo instrutivo é o do Império
Otomano. Ao longo do século XIX, o sultanato sediado em Istambul tentou
preservar a integridade de seus domínios em um ambiente internacional cada vez
mais adverso.[6]
O resultado foi um ciclo clássico de
exaustão: gastos militares crescentes, endividamento externo, dependência
tecnológica e repressão intensificada nas periferias. A coerção substituiu o
consenso; a força, a legitimidade.
Como consequência, o Império Otomano
passou a ser descrito como o “doente da Europa” – expressão frequentemente
atribuída ao czar Nicolau I da Rússia. Não se tratava de uma metáfora casual,
mas de um diagnóstico geopolítico: um sistema incapaz de sustentar, com seus
próprios meios, a extensão de seu poder.
Os dados são eloquentes. A partir de
meados do século, o império recorreu a repetidos empréstimos externos. Em 1875,
declarou a moratória da sua dívida. Poucos anos depois, a criação da
Administração da Dívida Pública Otomana transferiu aos credores europeus o
controle direto das receitas fiscais estratégicas.[7]
O paralelismo com o presente não deve
ser tomado de uma forma literal. Hoje, a dívida pública dos Estados Unidos
supera 34 trilhões de dólares, situando-se em torno de 120% do PIB, enquanto os
gastos militares permanecem próximos de 900 bilhões de dólares anuais – um
nível sem paralelo histórico recente.[8] [9] Os
Estados Unidos, contudo, dispõem de instrumentos – financeiros, tecnológicos e
militares – incomparavelmente superiores. Ainda assim, a dinâmica estrutural
apresenta semelhanças importantes: amplos compromissos globais, custos
militares persistentes e pressão crescente sobre a base fiscal.
Como contraponto, a experiência chinesa
revela outro padrão. Apesar de períodos recorrentes de fragmentação, a China
preservou uma matriz institucional capaz de sustentar ciclos de reunificação[10].
Mesmo após o “século da humilhação” (c. 1840–1949), o país demonstrou notável
capacidade de reconstrução estatal e econômica, culminando em uma transformação
acelerada nas últimas décadas.
Essa diferença é crucial. Impérios
sustentados predominantemente pela coerção tendem à fragmentação quando os
custos dessa coerção se tornam insustentáveis. Estruturas capazes de manter uma
integração simbólica e administrativa dispõem de maior resiliência histórica.
O momento mais perigoso
A história raramente anuncia suas
viradas de forma clara. Impérios não desmoronam de um dia para o outro – eles
atravessam longos períodos em que continuam poderosos, mas deixam de ser
incontestáveis; em que ainda impõem sua vontade, mas já não organizam o mundo à
sua volta.
É nesse intervalo que o risco se
concentra.
Quando a capacidade de liderança se
reduz, mas os instrumentos de poder permanecem intactos – e até ampliados –,
abre-se uma assimetria perigosa. A força continua disponível; o consenso, não.
A ação se torna mais fácil do que a coordenação. A coerção, mais imediata do
que a negociação.
Foi assim em Roma. Foi assim em
Istambul.
Não porque esses impérios tenham
“decidido” entrar em declínio, mas porque passaram a operar em um mundo que já
não respondia plenamente às suas formas de poder.
A questão, hoje, não é se esse processo
está em curso – isso parece cada vez mais evidente. Mais decisiva, porém, é
outra: como uma potência reage quando descobre que já não consegue moldar o
mundo com a mesma facilidade de antes?
A história sugere respostas possíveis.
Nem todas são tranquilizadoras.
*Celso Pinto de Melo é professor
titular de física aposentado da UFPE e membro da Academia Brasileira de
Ciências.
Notas
1.
Kennedy, P., The Rise and Fall of the Great Powers. 1987, New York:
Random House.
2.
United States, National Security Strategy. 2025: Washington.
https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf.
3.
United States Department of Defense, China Military Power Report.
2025: Washington.
https://www.andrewerickson.com/wp-content/uploads/2025/12/China-Military-Power-Report_20251223.pdf.
4.
Heather, P., The Fall of the Roman Empire. 2005, Oxford: Oxford
University Press.
5.
Gibbon, E., Declínio e queda do Império Romano. 2006, São Paulo:
Companhia das Letras.
6.
Zurcher, E.J., Turkey: A Modern History. 2004, London: I.B. Tauris.
7.
Pamuk, S., A Monetary History of the Ottoman Empire. 2000,
Cambridge: Cambridge University Press.
8.
U.S. Treasury, Debt to the Penny. 2025.
https://fiscaldata.treasury.gov.
9.
Sipri, SIPRI Military Expenditure Database. 2025.
https://www.sipri.org.
10.
Arrighi, G., Adam Smith em Pequim. 2008, São Paulo: Boitempo.
Se
comentar, assine.
[Ilustração em IA]
Leia também Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-eua-em-apuros.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário