23 junho 2026

Editorial do 'Vermelho'

Irã: os povos e a paz podem, sim, vencer guerras imperialistas
Depois de quatro meses da guerra que visava a derrubada do regime para se apossar do petróleo, Trump foi obrigado a se curvar à resistência do Irã
Editorial do portal Vermelho  
 

Na primeira sessão de negociações de paz na Suíça após a assinatura do Memorando de Entendimento entre os Estados Unidos e o Irã, o presidente estadunidense, Donald Trump, voltou a protagonizar um ato de provocação. No domingo (21), a delegação iraniana chegou a abandonar o local das negociações após Trump ameaçar com novos ataques. Segundo a agência de notícia Irna, do Irã, as conversas, mediadas por Paquistão e Catar, “entraram em uma fase difícil após 80 minutos de discussões e uma interrupção, devido a uma mensagem ofensiva publicada pelo presidente dos Estados Unidos”.

Mas, de acordo com os mediadores, as conversas iniciais terminaram com “progressos encorajadores”. Foram anunciados resultados como a suspensão temporária das sanções petrolíferas contra o Irã, que pode auxiliar na retomada da economia do país, após anos de restrições, e o descongelamento de  US$ 6 bilhões iranianos. O governador do banco central do Irã, Abdolnasser Hemmati, afirmou que “os memorandos necessários foram assinados” para iniciar a liberação dos ativos, de acordo com uma entrevista publicada pela agência de notícias iraniana Tasnim.

O Memorando de Entendimento tem grande abrangência. Composto por 14 pontos, ele estabelece o fim imediato e permanente das operações militares em “todas as frentes”, incluindo o Líbano; que o Irã não terá arma nuclear (em acordos anteriores já havia esse compromisso); a criação de um fundo de US$ 300 bilhões para a “reconstrução e o desenvolvimento econômico” do país; a reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e o fim do bloqueio naval dos Estados Unidos a portos iranianos; a liberação do dinheiro de fundos do Irã no exterior; e a permissão para a comercialização do petróleo iraniano. Durante os sessenta dias de vigência do Memorando, as partes irão discutir um elenco de pontos pendentes sob o compromisso de busca de um acordo de paz.

A promessa de Trump de que não haveria acordo com o “inimigo”, mas apenas “rendição incondicional” para “mudança de regime”, encontrou no Irã um país unido e que, por estar ameaçado há muito tempo, se preparou para enfrentar a agressão e se organizou para defender a sua integridade, a sua civilização milenar, a sua soberania e as suas riquezas. Fator decisivo foi ter acumulado capacidades de defesa e ataque, bem representada pela indústria de mísseis balísticos e de drones. A guerra foi um choque entre o neocolonialismo, o saque e a rapinagem e a força da causa nacional que amalgamou a coesão no Irã. O poderoso ataque bélico dos Estados Unidos e de Israel, tendo como alvo as cidades, o povo, as autoridades religiosas e a infraestrutura do país, os crimes de guerra uniram a nação em torno da resist&eci rc;ncia.

O Irã rompeu o isolamento ao fechar o estreito de Ormuz: atacar o país passou a ser, também, afetar severamente a economia mundial. Teerã jogou por terra o mito de proteção infalível dos Estados Unidos aos seus aliados, as monarquias árabes da região. Atacou bases estadunidenses, resultando no fechamento de portos e aeroportos por longos períodos, abalando a economia desses países que, por sua vez, passaram pressionar Trump pelo fim da guerra. O Irã também usufruiu das parcerias estratégicas construídas ao longo do tempo com a China, a Rússia e outros países.

As consequências deste confronto se juntaram aos efeitos da guerra entre Ucrânia e Rússia, que se arrasta por quatro anos. Mesmo com a assinatura do Memorando, deverá acontecer a desaceleração do crescimento global para a taxa mais baixa desde o início da pandemia de Covid-19, em meio a preços de energia mais altos, inflação mais acentuada e aumento dos juros, segundo a edição mais recente do relatório Perspectivas Econômicas Globais do Grupo Banco Mundial. O documento prevê que o crescimento global caia para 2.5% em 2026, o que representa uma desaceleração em relação aos 2,9% registrados em 2025.

Essa retração atingiu grande parte do mundo, inclusive, os Estados Unidos, o que fez piorar a queda de popularidade de Trump. Esses fatores, de conjunto, esmagaram a arrogância do presidente estadunidense ao afirmar que apenas um acordo amplamente vantajoso ao seu país seria aceito, usando como comparação o acordo de 2015 fechado pelo então presidente Barack Obama, abandonado por ele unilateralmente em 2019. Diante do custo político e econômico da guerra, se curvou à realidade.

O líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, afirmou que Trump fechou o acordo “por desespero” e reafirmou que o Irã não cederia às “exigências excessivas” dos Estados Unidos. Seyed Abbas Mousavi, diplomata de carreira iraniano conhecido principalmente por sua atuação no Ministério das Relações Exteriores iraniano, disse que havia apenas um “pequeno número” de críticos em seu país e chamou o Irã de “claro vencedor” tanto da guerra quanto das negociações. Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, comparou o trabalho dos diplomatas iranianos ao das tropas “atrás dos lançadores e nas trincheiras”.

A China também manifestou otimismo. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian, afirmou que o acordo tem um significado positivo, por aliviar as tensões e consolidar o cessar-fogo. “A China saúda essa iniciativa e espera que todas as partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos e o Irã, respeitem o espírito do acordo e cumpram seus compromissos com seriedade”, afirmou, destacando que “a força não resolve problemas” e que “a negociação em pé de igualdade é o caminho certo”. “A China espera que tanto os Estados Unidos quanto o Irã abordem as negociações da segunda fase com uma atitude racional e pragmática, encontrem um meio-termo e trabalhem juntos para alcançar resultados positivos na próxima etapa das conversas”, enfatizou.

O governo de Benjamin Netanyahu, que somente sobrevive pela política de guerra permanente, em razão do forte desgaste interno, se opõe ao cessar-fogo, instaurando uma contradição momentânea com o governo Trump. A essência colonialista e neofacista do Estado de Israel sob o comando de Netanyahu, a oposição que faz a qualquer possibilidade de paz, a ocupação da Palestina e do Líbano, o genocídio em Gaza e a matança contínua na região o isolam cada vez mais no plano internacional e aumentam a fervura das contradições no próprio país.

Circunstância que favorece a pressão mundial pela paz na região, que passa pela solução dos dois Estados, assegurando o território e os demais direitos ao povo palestino e a desocupação imediata do Líbano.

Não há certezas do que acontecerá nestes sessenta dias de vigência do cessar-fogo, pela natureza do governo Trump de agressões e guerras e por maquinações que o Estado de Israel possa empreender. Mas há que se destacar que as causas indispensáveis aos povos, a defesa da paz e da soberania nacional obtiveram, pela resistência iraniana, uma vitória de grande relevância.

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