18 junho 2026

Palavra de poeta

Os três mal-amados

João Cabral de Melo Neto    

O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. 

O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. 

O amor comeu meus cartões de visita. 

O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. 

O amor comeu metros e metros de
gravatas. 

O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. 

Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. 

Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
 
[Iustração: Marila Tarabay]


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