25 junho 2026

Minha opinião

Mercado das ilusões
Luciano Siqueira      

A Copa do Mundo de futebol é uma imensa holding que promove o lucro pela exploração do sentimento.

É verdade que o futebol nunca foi apenas o jogo. Abola rolando no gramado é o pretexto. A mercadoria é a transitória emoção. Mesmo quando apenas retratada em sofisticadas imagens na TV e mídias digitais.

Ao alcançar dimensão global, o grande negócio do futebol concorre com o petróleo e a tecnologia do silício, por assim dizer.

A FIFA e os seus parceiros comerciais exploram a catarse estimulada nos canais de televisão e nos aplicativos de apostas, que associam habilmente engenhosas jogadas, como o passe de calcanhar do meia-atacante ou a defesa espetacular do goleiro desviando a bola na forquilha.  

Comercializa-se tudo, nos mínimos detalhes: o plano de streaming, a camisa oficial de preço inflacionado, a cerveja mais enaltecida pela propaganda e não-sei-o-que mais que nos ofusca na tela da TV.

Explora-se o desejo inconsciente de pertencimento, a fantasia do instante.

A consciência patriótica momentaneamente perde seus liames com o território, a cultura, a luta por direitos e a preservação da soberania. Transforma-se na bandeira nacional adicionada a rótulos vários.

O cotidiano duro, monótono, carregado de boletos e de pequenas frustrações se transmuta por quase quarenta dias numa mágica empreitada em que a vitória (qual?) se faz possível.

O torcedor não é apenas um espectador; ele se vê como figurante que paga para atuar no espetáculo da própria ilusão.

Apesar de tudo, quando o gol acontece o abraço entre desconhecidos e a celebração entre amigos se converte em instante de efusiva felicidade, ainda que efêmera.

Dizia Nelson Rodrigues que cada lance, cada drible rumo à rede carregava a aura de uma guerra épica e o drama da vida e da morte. O autor do gol assume a aura de um herói ou algoz impiedoso que promove a "destruição minuciosa" da defesa adversária, deixando-a totalmente indefesa. A personificação do torcedor por um instante livre de todas as limitações e mazelas.

A se concluir, a Copa terá ensejado novos negócios em diversas dimensões, à revelia dos seus verdadeiros atores – os atletas e o apaixonado público reunido nos estádios e diante das telas nos cinco continentes.

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"Ai de ti, futebol brasileiro" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/qual-futebol.html 

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