É de lamber os beiços: São
João chegandoAbraham B. Sicsu
Minha neta, três
anos, logo vai dizendo para minha companheira: “Vovó, gosto de cuscuzinho e
carninha!”
O flocão de milho
entremeado com queijo coalho, daquele que derrete na cuscuzeira, uma delícia.
Se colocar uma manteiga por cima então!!
O bodinho guisado,
prato das tradições nordestinas, refogado com um molho grosso com alho, cebola,
tomate e colorau. Não deixem de colocar o coentro e o cominho, lembrem-se que
isso é do Nordeste.
São João é sinônimo
de boa mesa, de comida de milho. É ela que dá o sentido, com ela se mantém a
animação.
No entanto, não é só
ele, há de se criar o clima, com música e tira-gostos.
A mesa tem que trazer
uns antecedentes para animar. A caninha boa para uma lapada, o amendoim torrado
e cozinhado, pode ter também o de casca japonês que é crocante, os queijinhos,
onde se sobressaem o de manteiga e o coalho, umas azeitonas para lembrar as
tradições portuguesas.
Não se esqueçam do
cachorro quente. O nosso, não aquele insosso americanizado. Com carne moída e
lingüiça esmiuçada, com vinagrete, sem aquela gororoba de ketchup e mostarda.
Indispensáveis, as
espigas de milho. Assado ou cozinhado. Apenas com manteiga e sal esparramados
por riba. Se tiver uma fogueira, o assado fica mais gostoso. Mas, não coloque
muito perto dela que queima.
Como já dito, o milho
é a atração principal. É nele que se baseia a comida da festa.
A pamonha feita de
milho verde ralado e embrulhada em palha da espiga. Pode ser salgada ou doce. A
salgada, com recheio de queijo e sertaneja lingüiça, minha predileção. A doce,
com leite e açúcar, a mais famosa. Às vezes colocam um pouco de coco ralado.
O mungunzá, que os
sulistas com falta de boa linguagem, chamam de canjica, com milho branco e
calda cremosa de leite de coco e açúcar, quentinho, aquece nosso estômago.
A canjica, chamada de
curau nas plagas do sul, com suco de milho verde espremido, leite e açúcar, deve
estar bem cremosa. Compro na feirinha de orgânicos, toda a semana, e faz parte
do meu café da manhã.
A seção de bolos é
verdadeira loucura. No mínimo cinco variedades. Dão gosto ao forró e arrasta pé
que domina a musicalidade e dança. Com ingredientes bem regionais. O milho, a
macaxeira, o coco, o amendoim.
Meu favorito é o de
macaxeira. Bem úmido tipo pudim, com uma casquinha dourada de fora e raspas de
coco. Como sempre alguns pedaços.
A tradição
pernambucana incorporada no Souza Leão. Muito doce, açúcar era nossa riqueza,
virou Patrimônio Cultural de Pernambuco. Massa de mandioca, muita manteiga e
ovos, adicionados a um exagero do adoçante.
O Mané Pelado, o mais
tradicional bolo de milho. Com queijo meia cura, coco fresco ralado e milho
verde. Veio do Brasil Central e aqui se estabeleceu. Nos bolos de milho existem
variações, podendo ser cremoso, de liquidificador ou tipo broa, a gosto do
freguês.
Pé de Moleque, para
mim, é sinônimo de Dona Teresa, a quituteira. Não aquele duro que quebra o
dente. Mas o nosso, feito de macaxeira, café forte, rapadura, cravo, canela e
castanha de caju. Com gosto marcante, com crocância, com cremosidade.
Por fim, a
unanimidade nacional. O Bolo de Rolo. Com camadas finas, com recheio de goiaba.
Que dá sentido ao degustar, ao sentir suavidade. Lembro e sinto ainda o paladar
do famoso que era feito por Luisa Cardoso, o primeiro que experimentei, faz
mais de cinqüenta anos.
Não se esqueçam dos
doces em calda, tradições vindas das épocas de engenhos, que, colocados sobre
os bolos tornam as iguarias meladas e deliciosas. Adoro os de goiaba e jaca.
Para terminar, não
esqueça o licor de jenipapo, podendo também ser
de graviola, mangaba, maracujá, tamarindo, umbu e jabuticaba, frutas
nossas, bem nossas, sempre preparadas para as festas juninas.
Uma mesa de São João
tem história, tem cultura, tem o Nordeste presente.
[Ilustração: Anita Malfatti]
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