19 junho 2026

Uma crônica de Abraham Sicsu

É de lamber os beiços: São João chegando
Abraham B. Sicsu 

Minha neta, três anos, logo vai dizendo para minha companheira: “Vovó, gosto de cuscuzinho e carninha!”

O flocão de milho entremeado com queijo coalho, daquele que derrete na cuscuzeira, uma delícia. Se colocar uma manteiga por cima então!!

O bodinho guisado, prato das tradições nordestinas, refogado com um molho grosso com alho, cebola, tomate e colorau. Não deixem de colocar o coentro e o cominho, lembrem-se que isso é do Nordeste.

São João é sinônimo de boa mesa, de comida de milho. É ela que dá o sentido, com ela se mantém a animação.

No entanto, não é só ele, há de se criar o clima, com música e tira-gostos.

A mesa tem que trazer uns antecedentes para animar. A caninha boa para uma lapada, o amendoim torrado e cozinhado, pode ter também o de casca japonês que é crocante, os queijinhos, onde se sobressaem o de manteiga e o coalho, umas azeitonas para lembrar as tradições portuguesas.

Não se esqueçam do cachorro quente. O nosso, não aquele insosso americanizado. Com carne moída e lingüiça esmiuçada, com vinagrete, sem aquela gororoba de ketchup e  mostarda.

Indispensáveis, as espigas de milho. Assado ou cozinhado. Apenas com manteiga e sal esparramados por riba. Se tiver uma fogueira, o assado fica mais gostoso. Mas, não coloque muito perto dela que queima.

Como já dito, o milho é a atração principal. É nele que se baseia a comida da festa.

A pamonha feita de milho verde ralado e embrulhada em palha da espiga. Pode ser salgada ou doce. A salgada, com recheio de queijo e sertaneja lingüiça, minha predileção. A doce, com leite e açúcar, a mais famosa. Às vezes colocam um pouco de coco ralado.

O mungunzá, que os sulistas com falta de boa linguagem, chamam de canjica, com milho branco e calda cremosa de leite de coco e açúcar, quentinho, aquece nosso estômago.

A canjica, chamada de curau nas plagas do sul, com suco de milho verde espremido, leite e açúcar, deve estar bem cremosa. Compro na feirinha de orgânicos, toda a semana, e faz parte do meu café da manhã.

A seção de bolos é verdadeira loucura. No mínimo cinco variedades. Dão gosto ao forró e arrasta pé que domina a musicalidade e dança. Com ingredientes bem regionais. O milho, a macaxeira, o coco, o amendoim.

Meu favorito é o de macaxeira. Bem úmido tipo pudim, com uma casquinha dourada de fora e raspas de coco. Como sempre alguns pedaços.

A tradição pernambucana incorporada no Souza Leão. Muito doce, açúcar era nossa riqueza, virou Patrimônio Cultural de Pernambuco. Massa de mandioca, muita manteiga e ovos, adicionados a um exagero do adoçante.

O Mané Pelado, o mais tradicional bolo de milho. Com queijo meia cura, coco fresco ralado e milho verde. Veio do Brasil Central e aqui se estabeleceu. Nos bolos de milho existem variações, podendo ser cremoso, de liquidificador ou tipo broa, a gosto do freguês. 

Pé de Moleque, para mim, é sinônimo de Dona Teresa, a quituteira. Não aquele duro que quebra o dente. Mas o nosso, feito de macaxeira, café forte, rapadura, cravo, canela e castanha de caju. Com gosto marcante, com crocância, com cremosidade.

Por fim, a unanimidade nacional. O Bolo de Rolo. Com camadas finas, com recheio de goiaba. Que dá sentido ao degustar, ao sentir suavidade. Lembro e sinto ainda o paladar do famoso que era feito por Luisa Cardoso, o primeiro que experimentei, faz mais de cinqüenta anos.

Não se esqueçam dos doces em calda, tradições vindas das épocas de engenhos, que, colocados sobre os bolos tornam as iguarias meladas e deliciosas. Adoro os de goiaba e jaca.

Para terminar, não esqueça o licor de jenipapo, podendo também ser  de graviola, mangaba, maracujá, tamarindo, umbu e jabuticaba, frutas nossas, bem nossas, sempre preparadas para as festas juninas.

Uma mesa de São João tem história, tem cultura, tem o Nordeste presente.

[Ilustração: Anita Malfatti]

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