Às ruas, às redes, à virada
Passado o susto, o Brasil voltou a pulsar de esperança
Juca Kfouri/Liberta
O susto do primeiro turno pôs os democratas nas ruas.
As manifestações pelo Brasil afora
devolveram aos ares a famosa força estranha que Caetano Veloso detectou.
Uma força que, logo na primeira semana
antes do segundo turno, mobilizou multidões e impediu que as primeiras
pesquisas apresentassem números previsivelmente ruins para os democratas.
Ao contrário, foram alvissareiros,
porque de cima a baixo no Brasil o combustível popular inflamou as massas e
equiparou a contagem, ao permitir, assim, até pequena vantagem para quem reage
às trevas bolsonaristas.
A novidade esteve na maneira como os
atos se deram, espontâneos, além do comando da campanha oficial.
A juventude disse presente e motivou
cabeças brancas a também mostrarem seus rostos e revelarem, mais do que os
votos secretos de quase 54 milhões de eleitores, impulso para impressionante
reviravolta nas redes sociais.
Independentemente do Partido dos
Trabalhadores, a militância progressista rapidamente mudou o panorama eleitoral
e os adeptos do obscurantismo, que, açodados, já haviam sentado na cadeira
presidencial, tiveram de alertar seus torcedores que o jogo ainda precisa ser
jogado.
O barulho das ruas é essencial, bem
sabemos, porque revigora quem luta e assusta os adversários.
Ocupar as praças é condição
necessária, embora não suficiente em tempos de algoritmos despolitizantes.
O fenômeno eleitoral Ana
Elisa, a jovem mineira de 21 anos que obteve estonteantes 524 mil votos,
maior votação feminina da história das Minas Gerais, conta que visitou
pessoalmente apenas cerca de 20 cidades, mas teve votos, via redes, nos 853
municípios do estado.
Lição mais clara, impossível.
Marcha
democrática
Vocês, rara leitora e raro leitor,
respondam: sabiam o que são os fandoms?
Se a resposta for sim, parabéns!
Há quem tenha tomado contato com tais
comunidades de fãs de influenciadores apenas ao saber que eram estas que
convocavam para a Marcha
Democrática do 11 de outubro, na Avenida Paulista, em São Paulo.
E foram para o Espigão paulistano entre
curiosos e céticos, para ver que bicho daria, surpresos até com a repentina
adesão de Lula, anunciada apenas no sábado.
De megafone nas mãos, pelas redes, o
candidato ao tetra convocou para “a maior manifestação já vista em São Paulo”.
Que tem, louco?, pensou o cético, cá
entre nós, com razão.
A presença de Lula estava prevista
para o meio-dia.
Quem chegou depois das 11h não teve a
menor chance de se aproximar do palanque.
Doze quarteirões ocupados, do alto do
trio elétrico a vista não alcançava o fim da multidão dos dois lados da avenida
e não se via pedaço algum do asfalto. No chão, então, andar exigia habilidade e
paciência.
Trezentas mil pessoas, 400 mil, um
milhão?
O DataJK não se atreve a calcular.
Seu proprietário, em declarações à
coluna, limitou-se a dizer que só no Vale do Anhangabaú, no derradeiro comício
da campanha pelas Diretas Já, em 1984, havia visto tanta gente reunida.
E olhe que ele era assíduo
frequentador tanto do Maracanã quanto do Morumbi nos tempos em que os dois
estádios tinham mais cimento do que cadeiras para sentar, ou ficar em pé.
No dia seguinte, em Copacabana, outro
mar vermelho tomou conta da praia mais famosa do mundo, para repetir o que já
havia sido visto no Recife, em Belo Horizonte, pelo país afora, graças aos
corações generosos, e sábios, do estudantes.
Da ponta dos pés na avenida para
sentar os dedos das mãos em telefones celulares, tabletes e computadores
portáteis ou de mesa, nem foi um pulo, porque já havia sido.
E o Brasil voltou a pulsar de
esperança pela reviravolta, porque, como se sabe, de virada é mais gostoso.
Resta saber se Flávio Bolsonaro terá
coragem de ir a debates ou se teme repetir o vexame
vivido em 2016, quando, candidato a prefeito carioca, borrou-se todo e teve
de ser amparado pela candidata do PCdoB, e médica, Jandira Feghali.
Ouviu-se, então, um grito na plateia:
“Comunista não mete a mão no meu filho!”.
Adivinha de quem, adivinha de quem?
De lá para cá, ele nunca mais
participou de debates, nem na sequência da campanha no Rio, nem agora no
primeiro turno, quando temeu o confronto com Renan Santos.
Às ruas, às redes, à vitória!
As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário