13 junho 2026

China x EUA

A dura realidade do comércio civilizador
A disputa entre Estados Unidos e China em torno das sanções econômicas revela transformações profundas na ordem internacional. Ao desafiar medidas impostas por Washington contra refinarias chinesas ligadas ao petróleo iraniano, Pequim sinaliza não apenas uma resistência inédita ao poder norte-americano, mas também sua disposição de sustentar uma arquitetura econômica menos dependente do dólar
Benoît Bréville*/Le Monde Diplomatique  

Depois de acusar cinco refinarias chinesas de se abastecerem de petróleo iraniano, o Tesouro norte-americano as acrescentou, em 24 de abril passado, à sua interminável lista de empresas sancionadas. Uma rotina, aparentemente. Há décadas, Washington se arroga o poder de determinar quem pode comercializar com o resto do mundo, e todos se curvam a seus ditames por medo de serem excluídos de um sistema financeiro internacional atrelado ao dólar.

No entanto, as coisas não aconteceram como previsto. A China, que até então se contentava com protestos verbais e formas discretas de drible, anunciou que não se submeteria a essas sanções e que levaria aos seus tribunais qualquer empresa chinesa que lhes obedecesse. A decisão é justificada pela necessidade de “preservar a soberania, a segurança e os interesses de desenvolvimento do país”. Em outras palavras: impedir que as sanções norte-americanas desorganizem fluxos energéticos que se tornaram essenciais para a economia regional.

As refinarias visadas abastecem vários países com gasolina e querosene, e sua inclusão na lista de proscritos fragilizaria o conjunto das cadeias de suprimento de um continente que funciona como um vasto sistema de produção integrada: hidrocarbonetos do Golfo, componentes chineses ou coreanos, montagem no Vietnã ou em Bangladesh… Nesse conjunto interdependente, uma ruptura duradoura dos fluxos energéticos – já fragilizados pelas tensões em torno do Estreito de Ormuz – poderia rapidamente desorganizar todo o aparelho produtivo.

Diante desse risco, Pequim endurece o tom, ainda mais porque agora dispõe de instrumentos que lhe permitem atenuar o efeito das sanções financeiras norte-americanas: sistema de pagamentos transfronteiriços e liquidação crescente do comércio de petróleo em yuan, acordos entre bancos centrais ou ainda projetos de moedas digitais interoperáveis. Assim, o cálculo chinês se alterou: uma queda de braço com os Estados Unidos passou a ser menos custosa do que uma perturbação prolongada dos fluxos comerciais.
 

O episódio dá mais um golpe em um sistema de sanções cada vez mais usado e cada vez menos eficaz. Ele poderia abrir caminho para estratégias mais sistemáticas de driblar as sanções, facilitadas pelo surgimento de alternativas apoiadas pela China. “A época em que Washington ditava sozinho com quem o mundo podia comercializar e via suas decisões se imporem chegou ao fim”, comemora, talvez com alguma pressa, um analista crítico dos Estados Unidos (The Morning Star, 16 maio 2026). Resta saber que ordem econômica a China pretende, por sua vez, consolidar.

Sua reação à lei de aceleração industrial apresentada no início de março por Bruxelas oferece um vislumbre disso. Promovido pela Comissão Europeia como um antídoto à desindustrialização, esse plano visa condicionar os apoios públicos a exigências de conteúdo local e de transferência de tecnologia, sobretudo no setor de baterias, de veículos elétricos e de painéis solares. Pequim denunciou imediatamente uma guinada “protecionista”, contrária às regras da Organização Mundial do Comércio. “Se a União Europeia adotar essa legislação e prejudicar os interesses das empresas chinesas, a China não terá outra escolha senão tomar medidas de retaliação”, advertiu o governo. Esses instrumentos, porém, são da mesma natureza daqueles que o país mobilizou por muito tempo para estruturar sua própria ascensão industrial e que os Estados Unidos vêm colocando em prática com zelo crescente há cerca de dez anos.

Ao contestar a hegemonia norte-americana, Pequim defende a continuidade de uma ordem livre-cambista cujos contornos Washington por muito tempo definiu. Ela retoma sua lógica: no comércio mundial, as regras importam menos do que a força de quem as impõe.

*Benoît Bréville é diretor do Le Monde Diplomatique

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

EUA: Os bilionários pedem mais guerra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/multimilionarios-senhores-da-guerra.html 

Nenhum comentário: