Efêmeros, mas eternos
A tecnologia aposentou os flyers, minipôsters
impressos que anunciavam filmes, peças e shows. Eles eram uma mídia feita para
ser vista e, depois de dar o seu recado, esquecida e jogada fora
Ruy
Castro/Folha de S. Paulo
Eu sei, é besteira lutar contra a tecnologia —por que andar a pé se
inventaram a roda?, dirão alguns—, mas não somos obrigados a aplaudir tudo,
somos? Uma das coisas que a tecnologia aposentou há tempos, e de que poucos se
deram conta, foram os flyers, aqueles volantes impressos anunciando o
lançamento de um filme, a abertura de uma exposição, a estreia de uma peça.
Eram panfletos coloridos que nos chegavam às mãos, cumpriam sua humilde função
de nos informar e, em seguida, eram deixados de lado, esquecidos, jogados fora.
Às vezes, anos depois, alguns ressurgiam dentro de um livro ou gaveta, e
despertavam boas lembranças.
Os flyers eram pôsteres em miniatura. Reproduziam a
programação visual do evento ou do objeto que anunciavam. Sua variedade gráfica
era um show. Havia-os de inúmeros estilos, designs, cores, fontes, letterings,
tudo no formato perfeito de um cartão-postal. Não quer dizer que, hoje, tenham
deixado de existir. Continuam a ser produzidos, só que para o celular ou para o computador, chamados
de "cards", e, assim que lidos, desaparecem no turbilhão de mensagens
recebidas. Se, em papel, já eram uma mídia efêmera, agora nascem e morrem no
espaço e quase ao mesmo tempo.
Há muitos livros ilustrados, luxuosos, pesados, de
coffee table, dedicados aos pôsters. Aos flyers, nunca vi nenhum. E, se já
tiverem sido feitos, qual foi o critério para selecioná-los? Por país, por
época, por especialidade? Eu escolheria todas essas possibilidades.
Por acaso, e sem nenhuma intenção definida —apenas
os achava bonitos e tinha pena de atirá-los fora—, dediquei-me nos últimos 30
anos a jogar numa caixa os flyers que recebia. Lotada aquela, providenciei
outra. E outra. Há dias, vasculhando um armário, achei aquelas caixas com
pilhas de flyers. Anunciavam livros, filmes, peças, shows, coquetéis,
exposições e palestras que, nesses anos todos, já foram para o limbo.
Ou não. Revolvendo-os ao acaso naquelas caixas, era
como se descobrisse uma eternidade em sua arte tão humilde e tão útil.
[Ilustração: Heloisa Seixas]
Qual a sua opinião?
Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário