Crônica para o guerreiro José Amaro Correia
— Desistir? Nunca! Às vezes me dá uma preguiça. Mas
dá e passa.
Urariano Mota/Vermelho
Divulguei esta crônica na Rádio Jornal do Recife, programa Movimento de Marcelo Araújo, em 4 de junho:
em um trecho do Dicionário Amoroso do Recife, escrevi:
“José Amaro Correia, Zé Amaro, ou Mário, como o chamamos, era e continua
a ser um socialista, militante político, preso em 1973 no DOI-CODI no Recife…
Quando eu lhe perguntei se depois de tanta luta, se alguma vez ele não
pensou em desistir, quando ele estava cego, e que eu sabia estar com problemas
circulatórios, pressão alta, e que piorava todas as vezes em que se emocionava,
ele me respondeu:
— Desistir? Nunca! Às vezes me dá uma preguiça. Mas dá e passa.
Então ele me conduziu, tateante, devagar, até o portão. Às vezes virava
a cabeça de lado para ver o meu vulto, quem sabe, algum traço. Talvez não visse
mais nem sequer a minha sombra. E não dizia. Mas entendo. Eu devia ser mais
real que o seu sonho, que um dia ele escreveu num poema:
‘Vivo semeando o sonho
Do fim da pobreza
De todas as crianças terem o direito
De brincar e sorrir
Vivo a semear o sonho
Do nascer igual
Perante a natureza dos homens’”.
Em 2017, numa quinta-feira à noite, ele faleceu aos 74 anos de idade.
Estava com a saúde ao fim em tudo. Sem enxergar, com infecção nos pulmões, nos
rins, no coração. Quando eu o visitei na UTI, embora ele estivesse sem
consciência, pelo que diziam, eu lhe disse na esperança de que me ouvisse:
– Você é meu irmão. Você sabe: não te faltei antes na ditadura, não vou
te faltar agora.
Pois bem, agora vem o segredo de uma revelação: na véspera do seu
falecimento, na quarta-feira, quando o ônibus parou próximo ao hospital onde
ele estava internado, subiu um grupo de três jovens que, antes de começarem a
pedir uma ajuda, começaram a cantar um rap. Um rap da liberdade.
Eu fiquei comovido até as lágrimas, porque pensava: o meu amigo no fim e
estes jovens cantando a liberdade. Era como a encarnação viva do meu próximo
romance. Eu me dizia: os jovens cantam para ele. E me vieram associadas as
palavras de John Donne:
“Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do
continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas
até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se
fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me
diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem
os sinos dobram; eles dobram por ti”.
Então os jovens cantavam para o amigo José Amaro, o nosso Mário, eu os
compreendia muito bem. Cantavam e tocavam pelos guerreiros. Então eu nunca
tinha ouvido um rap tão emocionado. E pensei também na apresentação que o
grande José Carlos Ruy escreveu para o romance “A mais longa duração da
juventude”, no trecho:
“O tempo funde as duas pontas do relato, entre o passado e o presente…
Sonho de abnegação, igualdade, de liberdade, de justiça para todos, de desapego
perante os bens materiais e construção de um mundo novo, socialista”.
Aquele canto no ônibus, a sua associação ao amigo que padecia não era
delírio. É fato. Os jovens cantavam um rap que se unia ao amigo, na mais longa
duração da juventude. Então eu aplaudi com entusiasmo, como quem grita:
presen,te! um guerreiro cai, outro se levanta. Esses jovens com violão, percussão
e canto levam adiante a resistência. Eles são inconformados como a maior razão
de viver.
Depois, com o falecimento de José Amaro Correia me bateu um breve
abatimento. Mas nós não temos esse direito. Não podemos cair e esmorecer. É
levantar a cabeça e continuar a caminhada. Se possível, até o lado ensolarado
da rua.
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Os muitos reencontros no Encontro do PCdoB https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/03/minha-opiniao_23.html

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