Quando o “combate” ao crime organizado é um crime maior
Enio Lins
NO MUNDO COR-DE-ROSA das ingenuidades mais profundas, existe quem possa
acreditar que o governo dos Estados Unidos (ao longo dos tempos) e Trump (no
particular, como presidente) se dediquem verdadeiramente ao combate às
organizações criminosas transnacionais. Mas...
NO MUNDO MULTICOLORIDO de verdade, em todos os tons das cinzas, os Estados
Unidos usam, historicamente, a justificativa de “combate ao crime organizado
internacional” para espalhar ainda mais seus tentáculos pelo globo,
apresentando-se como o xerife sem fronteiras, pressionando organizações
criminosas a transacionarem a favor dos interesses ianques. Na II Grande Guerra
Mundial, essa pressão produziu, pela primeira e única vez, um resultado
positivo, quando a Máfia foi convocada para a sabotar fascistas italianos.
VALE A PENA LER DE
NOVO algo sobre essa questão. Houve um acordo da Casa
Branca com a Máfia durante a II Grande Guerra, a Operação Submundo: operações
conjuntas entre o serviço secreto da marinha (Office of Naval Intelligence) e a
Cosa Nostra. Envolvia apoio local para a invasão da Sicília. Em contrapartida,
os chefes mafiosos presos nos Estados Unidos receberam regalias, as atividades
mafiosas foram menos policiadas, e o maior de todos os mafiosos atuantes em
território americano, Lucky Luciano, foi liberado de sua pena, e autorizado a
migrar para a Itália em 1946.
SESSENTA ANOS DEPOIS de Lucky Luciano ser anistiado pelos Estados Unidos para
seguir liderando a Cosa Nostra a partir da Itália, a BBC News Brasil publicou
uma reportagem intitulada “A medida de Trump que pode facilitar acesso do CV e
do PCC a fuzis americanos”. Só não é perfeita porque a frase certa teria de
usar “vai” no lugar de “pode”. O fato é que as mudanças na regulação do
comércio de armas, propostas por Trump, contêm pérolas como “reverter
restrições aplicadas pelo governo de Joe Biden, como a ampliação da exigência
de licença na venda de armas, e liberar o comércio online, eliminando a
necessidade de que o comprador compareça a uma loja física para conferência de
seus antecedentes criminais (...)” – ou seja, qualquer delinquente poderá
adquirir farto armamento, reduzindo drasticamente os custos dessas operações,
afinal os riscos de apreensões são reais.
EM MARÇO DE 2019, foram localizados num endereço carioca 117 fuzis
americanos modelo M16. O apartamento funcionava como oficina de montagem
operada pelo ex-PM Ronnie Lessa, amigo e vizinho do então presidente Jair – que
apresentava como uma das principais realizações de sua gestão a abertura para
compra e porte de armas no Brasil. Em 19 de janeiro de 2023 o g1 publicou:
“Governo Bolsonaro liberou em média 619 novas armas por dia para CACs; 47% dos
registros foram em 2022 (...) Dados do Exército obtidos pelo g1 mostram que,
nos quatro anos de mandato do ex-presidente, foram concedidos 904 mil novos
registros de armas para caçadores, atiradores e colecionadores”. Por sua vez, o
digital Jornal do Brasil, em 4 de março de 2024, dava conta que “Farra das
armas de Bolsonaro concedeu registros de CAC a traficantes, assassinos e até
pessoas mortas (...) Auditoria do TCU mostra que a política armamentista de
Bolsonaro facilitou acesso a armas ao crime organizado, que teria usado
laranjas em registros dos chamados Colecionadores, Atiradores e Caçadores junto
ao Exército”. Mesmo antes da presidência, Jair exercitava esse jogo duplo:
atacar o crime organizado no discurso e se apoiar no crime organizado (as
milícias, em primeiro lugar) para obter vantagens e poder.
ESSE É O JOGO da extrema-direita, alhures e aqui: jair berrando
contra o crime organizado e, simultaneamente, se aliar ao crime organizado –
procurando usar o Estado para pressionar facções que, eventualmente, lhes sejam
incômodas.
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