Entre dois mundos
Com a sombra dos EUA, mergulhar numa falha geológica entre duas placas tectônicas na Islândia revela uma paz enganosa
Jamil Chade/Liberta
De Silfra, Islândia
Submergir o rosto numa água praticamente congelada gera impactos contraditórios. Nos primeiros minutos, a sensação é a de que você perde o controle sobre os movimentos faciais. A água queima e, depois, anestesia. É necessário manter uma certa concentração para continuar respirando. Mas, quando eu consegui superar o choque e abri os olhos, numa máscara sob forte pressão, o que eu vi foi um mundo encantado.
Tons de azul, verde e cinza se misturavam e pintavam paredes que pareciam imperturbadas em Silfra, na Islândia. A água, que havia chegado ali depois de viajar entre 30 e 100 anos percorrendo uma terra vulcânica, redefinia o conceito de transparência. A visão era absoluta.
Em parte por conta desse horizonte sem fim, em parte por conta do ar na roupa, que me protegia de choque térmico, eu sentia que flutuava. A corrente gentil que me levava parecia saber que alguém precisava fazer o trabalho de me conduzir, já que o encanto me paralisava.
Mas o silêncio daquelas paredes era uma ilusão. Ali, uma paz estranha e enganosa camuflava um terremoto.
Eu estava mergulhando, literalmente, no meio das placas tectônicas das Américas e da Eurásia, uma experiência considerada pela revista National Geographics como uma das sete aventuras mais excitantes do planeta. No fundo, ali, diante dos meus olhos, estava a fronteira entre o Hemisfério Ocidental e a Europa.
Imperceptível aos olhos de quem submerge, o movimento daquelas paredes é real. Essas placas se afastam cerca de dois centímetros por ano, e é ali, portanto, que a fronteira entre dois mundos se redefine a cada instante.
Nunca, porém, esse afastamento foi tão real e acelerado quanto agora. Temerosas de que possam ser as próximas na lista de desejos de Donald Trump, parcelas da sociedade islandesa conseguiram apoio suficiente para convocar um referendo nacional, que fará uma pergunta essencial: o país deve manter sua postura de neutralidade ou aderir à União Europeia?
Referendo em agosto
A pergunta não ocorre por acaso. Os islandeses sabem que são estratégicos no mundo, assim ocorreu na Segunda Guerra Mundial, quando a ilha foi disputada por alemães e americanos. O mesmo papel seria assumido pela distante ilha no Atlântico Norte durante a Guerra Fria. O fim do embate entre americanos e soviéticos havia criado a sensação na ilha de que, fincada no Ocidente, seu destino como “ponte” entre dois continentes estava assegurado.
Mas as ambições territoriais de Donald Trump na vizinha Groenlândia obrigaram um país inteiro a rever suas estratégias e sua tranquilidade geopolítica.
Pressionadas e temendo serem os próximos alvos, as autoridades na Islândia resolveram convocar um referendo questionando a população se deveriam romper décadas de absoluta independência e aderir ao projeto de integração da UE.
A ideia de uma consulta já estava marcada para 2028. Mas as supostas confusões de Trump em chamar a Groenlândia de Islândia e os alertas diplomáticos levaram o governo local a antecipar o referendo para agosto deste ano.
Assim como a falha de Silfra parece mostrar, a Islândia está dividida sobre qual deve ser seu destino. Uma pesquisa recente da Gallup revelou que o referendo pode ser apertado. O apoio à adesão à UE conta com 52% dos votos.
O que muitos rejeitam é a mentalidade de apresentar a Islândia como um país pequeno e insignificante. Para a classe política local, em 2026 essa seria uma visão ingênua, beirando a imprudência.
Parte da oposição ao projeto, porém, não significa necessariamente a uma simpatia ao governo Trump. Um dos problemas é que aderir ao bloco europeu representa se submeter a cotas de pesca e subsídios agrícolas menores, algo que os setores islandeses rejeitam.
O governo da Islândia, numa tentativa de acalmar os grupos afetados, afirmou que o país não aceitará a adesão sem uma negociação. De fato, as autoridades locais já realizaram conversas com a UE para uma adesão. Mas o processo foi suspenso, há mais de dez anos.
Contudo, também existe uma oposição ideológica. Uma das vozes contrárias é a de Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, que foi primeiro-ministro de 2013 a 2016. No começo do ano, ele foi alvo de um escrutínio no parlamento da Islândia sobre os vínculos de seu partido com o movimento MAGA.
Por mais incoerente que pareça, é o sentimento nacionalista que transforma a pergunta do referendo em uma questão existencial. A Islândia conseguiu sua independência da Dinamarca apenas em 1944 e, desde sempre, a luta por sua autonomia foi um dos aspectos centrais da política doméstica.
Mas é esse argumento que a campanha da adesão à UE usa para dizer que, de fato, entrar para o bloco europeu irá proteger a soberania da ilha, e não o contrário. Uma das mensagens é a de que, sem a aliança europeia, a Islândia estaria sozinha no oceano.
Para os europeus, a ideia de ganhar um terreno no Atlântico Norte, nas fronteiras do Hemisfério Ocidental, seria simbólico, principalmente diante da ofensiva de Trump na Groenlândia.
Num momento em que abalos sísmicos dominam a política internacional, até o silêncio que ecoa ao mergulhar numa falha geológica parece suspeitar que os mapas estão sendo redesenhados e que, uma vez mais na história, não existem limites naturais. Toda fronteira é um ato político.
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