Os corpos de uma democracia
Brasileiros tomam as ruas e mostram que a luta pela dignidade é um movimento de massa
Jamil Chade/Liberta
Nos últimos dias, viralizou uma cena da elite carioca que, do balcão do decadente Copacabana Palace, mandava beijos e fazia gestos, provocando a multidão que saía em defesa da democracia. Com os dedos, aquelas pessoas faziam os números da candidatura de Flávio Bolsonaro. Com a alma, zombavam de trabalhadores e de seus sonhos.
Resguardados pela distância, pela certeza da impunidade e pela falta de sensibilidade, reafirmavam que daquele palácio ninguém as tiraria. Mandavam beijos e adeus aos que jamais conseguirão ter acesso à corte. Um retrato perfeito de um Brasil aristocrata e colonial.
Mas as ruas parecem não ter se intimidado. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Brasília e em tantos outros pontos do país, milhões de brasileiros entenderam que não se trata apenas de mais uma eleição. Estamos diante de uma decisão que vai definir quem somos. Um voto que vai traçar o destino da República.
De forma espontânea ou em dezenas de comitês organizados pelo país, uma parcela do país decidiu ocupar o espaço e o debate público com seus corpos. Corpos jovens. O resultado foi o maior movimento progressista desde a campanha das Diretas Já, nos anos 80.
Em Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt explicou:
“Os movimentos totalitários são organizações de massa compostas por indivíduos atomizados e isolados. Em comparação com todos os outros partidos e movimentos, sua característica externa mais marcante é a exigência de lealdade total, irrestrita, incondicional e inalterável por parte de cada membro. Essa exigência é feita pelos líderes dos movimentos totalitários mesmo antes de assumirem o poder. Ela geralmente precede a organização total do país sob seu domínio efetivo e decorre da pretensão de suas ideologias de que sua organização venha a abranger, oportunamente, toda a humanidade.”
Em 2026, o Brasil está mostrando que a defesa da democracia também pode ser um movimento de massa. Mas, ao contrário do totalitarismo, o que vemos não são indivíduos atomizados.
Na defesa da democracia brasileira, aquilombar-se parece ser o caminho escolhido. Ou, como diria Conceição Evaristo, “é tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos”.
As ruas sabem que, diante de nós, em poucos dias, estará mais uma vez uma encruzilhada. Nas urnas estará uma pergunta tão simples quanto poderosa: quem somos? Somos o negacionismo, o ódio, a mentira, a misoginia? Normalizaremos a censura e a repressão contra qualquer dissidência?
A questão não é o que o poder sem limites pode fazer. A pergunta é: o que nós estamos preparados para fazer diante desse poder? E as ruas do Brasil estão dando a resposta, inclusive para que Lula possa governar, caso saia vitorioso.
Confio nos ecos das palavras de Manuel Alegre, que nos ensina que, mesmo na noite mais triste, “em tempo de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não.”
Nas ruas, ecoam o não ao fascismo. Dos corpos de milhares de brasileiros, brotam o sonoro não à barbárie, à opressão contra qualquer um que atente contra esse poema-sinfônico chamado Brasil.
As ruas estão dizendo que a democracia não se faz em silêncio. Tampouco envergonhada. Ela se faz com a coragem que o jagunço Riobaldo, de Guimarães Rosa, nos convocou a ter.
Arte e festa
Mas as ruas também são arte e festa. O samba da Lapa, no último fim de semana, foi mais um capítulo da confirmação da tese do professor Luiz Antonio Simas, que insiste que nossas celebrações não são distrações contra uma realidade dura, contra os desmandos e a opressão. A festa não é o ópio. É parte da resposta e da resistência.
As ruas sabem que, sim, chegou a hora da encruzilhada. Do encontro. Da força dos corpos e da energia das mãos dadas que, depois de alguns segundos, passam a coordenar a batida do coração daqueles entrelaçados em seus destinos.
Ocupemos as praças, os locais de votação, as festas, os bailes, as ruas, as assembleias, as igrejas, os coretos. O coração pulsa.
O chão no Brasil treme. Seja pelo forró que brota da terra, pelo grito de gol na arquibancada, pelos protestos ou pela violência. Mas ele sempre treme. Um país que chacoalha com o imaginário do planeta.
E o mundo uma vez mais nos observa. Diante dos ventos gelados do autoritarismo, podemos ser mais uma vez a resposta e a esperança.
Nas urnas, estará a nossa capacidade de frear a extrema direita e o autoritarismo. Completar a descolonização de uma sociedade e ousar inventar um Brasil democrático estão em nossas mãos. E as ruas estão nos mostrando que somos muitos. Nós nos levantamos.
Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html

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