Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Educação libertária. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta Educação libertária. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

17 setembro 2025

Minha opinião

Dos salões para as ruas* 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65      

O ato público da última segunda-feira, no teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA), a propósito do Dia Internacional da Democracia, guarda muitos significados. 

Em recinto fechado, sim; em local marcado por tradição de luta libertária construída ao longo das últimas décadas. 

Amplo: representantes de diversos segmentos da sociedade — políticos, religiosos, acadêmicos, artísticos — expressaram com nitidez suas convicções na defesa da democracia e da soberania nacional. 

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, a presidente da UNE, Bianca Borges, o reitor Vidal Serrano Nunes, da PUC, dentre muitos manifestaram elevada compreensão acerca do momento presente e da dimensão da luta. 

Dirigentes partidários, como Walter Sorrentino, vice-presidente nacional do PCdoB, sublinharam a natureza estratégica da resistência democrática.

Destaque para Almino Affonso, ex-ministro da Educação no governo João Goulart, militante persistente aos 96 anos.

A resultante política certamente ultrapassa o horizonte do ato em si, que semeia possibilidades em seus desdobramentos.

No atual estágio da mobilização social, eventos dessa natureza além de darem consistência à convergência de ideias, arregimentam energias para que possam, adiante, desembocar em grandes manifestações populares em praça pública. 

Um detalhe relevante, pois o movimento democrático e popular brasileiro ainda não conseguiu encontrar caminhos e formas de superação da nova realidade dos trabalhadores e das grandes massas populares, na qual nem sempre é fácil colocar grandes contingentes de ativistas em praça pública.

O voluntarismo puro e simples não dá conta do desafio. Nem a mera reprodução de formas de luta e de mobilização mais afeitas ao ascenso do movimento do que ao momentâneo descenso. 

A consigna "nas redes e nas ruas" é insuficiente porque omite a necessária etapa da mobilização mais qualificada, destinada a consolidar a convergência de opiniões e a disposição comum em por em ação grandes parcelas do povo. 

Melhor propor "nas redes, nos salões e nas ruas".

*Texto da minha coluna semanal no portal Vermelho

Na foto, no telão, Walter Sorrentino, vice-presidente nacional do PCdoB

[Se comentar, identifique-se]

Leia também Convergência necessária e possível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_15.html 

11 junho 2025

Enio Lins opina

Exemplos – de autoritarismo e de resistência – que vêm do Norte
Enio Lins 

FERVEM OS ESTADOS DESUNIDOS na fogueira de iniquidades acendida por Donald Trump. Fervura pouca, se comparada ao nível de estupidezes presidenciais em cometimento. Em verdade, apenas Los Angeles deu um passo à frente no quesito “defesa da democracia e dos direitos humanos”. Mesmo solitário, o protesto angelino chama a atenção do globo, expondo a vergonha do resto da grande nação estadunidense aguentar calada a canga sobre o lombo, sem dar um pio, mantendo a consigna da pasmaceira das maiorias silenciadas frente às minorias dominadoras e endinheiradas. Los Angeles, ao se revoltar contra o oligarca Trump, risca um palito de fósforo no buraco da extrema-direita e ilumina a esperança na capacidade de reação da humanidade.

NÃO SÃO, OS ESTADOS UNIDOS, uma nação superior às demais, muito menos “a maior democracia do mundo”. Isso é mito, mentira, como – aliás – todos os mitos o são. Trump é a elite americana sem máscara, reduzindo a pó as ilusões sobre “a terra da liberdade”. Diferiram, sim, os Estados Unidos do resto do globo, como libertadores, quando proclamaram sua independência da Inglaterra, em 1776. Ali foram revolucionários. Mas, logo em seguida, as elites ianques passaram a cometer as mesmas velharias e velhacarias reacionárias dos velhos sistemas. Das 13 colônias que, no século XVIII, encantaram os corações e as mentes sedentas por liberdade em todo o planeta, a república estadunidense virou uma potência violenta, antidemocrática, corrupta e opressora: os ianques exterminaram as popula&cced il;ões nativas, assaltaram à mão armada vastidões territoriais (pilharam 55% do território mexicano, mais de dois milhões de quilômetros quadrados, entre 1830 e 1848) e espalharam suas tropas por cerca de 800 bases militares em todos os continentes, enfiadas em mais de 80 países.

TUDO O QUE ERA SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR – como constatou o Manifesto escrito por Marx e Engels em 1848, frase reproduzida como como título do best-seller de Marshall Berman (1940/2013), proeminente filósofo marxista estadunidense. Apois: tudo que era sólido no mito americano (“exemplo” de democracia, empreendedorismo, liberdades várias, ausência de tentativas de golpes de estado, inexistência de corrupção, separação dos interesses públicos e privados...) está sendo desmanchado no éter por implacáveis pauladas de Donald Trump. No colosso do Norte, a democracia está solapada, o empreendedorismo avacalhado pelo protecionismo estatal, as liberdades esmagadas, um golpe de estado foi tentado em 6 de janeiro de 2021e os golpistas perdoados em 2025, a corrupção correu desenfreada na compra de votos (feita abertamente por Musk em benefício de Trump em 2024), e a briga entre Musk e Trump descortinou contratos bilionários pelos quais o tesouro americano despeja montanhas de dólares públicos nas privadas empresas X... São os Estados Unidos, ao fim e ao cabo, mais uma república bananeira. Bananeiros tão autocratas e perversos quanto os caudilhos cucarachos, latinos e africanos, até então caricaturizados pelos ianques como oligarcas inferiores – but they are the same shit (favor consultar o tradutor google).

DO OUTRO LADO DA MOEDA, parcela significativa do povo estadunidense é exemplo de luta e resistência, como reafirmam os revoltosos californianos destes dias. Grandes jornadas de luta interna, ao longo dos séculos, foram e são referências para a humanidade, como a longa jornada pelos direitos civis e contra a discriminação racial, a resistência ao macarthismo, as batalhas pelas liberdades sexuais e comportamentais, a contracultura, a campanha contra a guerra do Vietnã... força libertária, corajosa, luminosa, que ressurge nas ruas de Los Angeles, comprovando que não pode existir união das forças democráticas com a extrema-direita em nenhum lugar – nem na América sob o tacão de Trump.

[Se comentar, assine]

Veja: Educação e ideologia na reconstrução nacionahttps://www.youtube.com/watch?v=L6XsaG5YTgg

21 outubro 2024

Postei no X

Em newsletter pró-mercado financeiro, a recomendação de que você deve se concentrar só no momento presente, sem preocupação com o futuro. Ou seja, "gado" não pensa; apenas trabalha. É a desumanização da existência. 

Leia sobre a educação libertária https://lucianosiqueira.blogspot.com/search?q=Educa%C3%A7%C3%A3o+libert%C3%A1ria

18 outubro 2024

Professores: o mito da eficiência

Raízes da letargia neoliberal nas escolas 
Sob o mito de “eficiência”, avaliações individuais, feedbacks e competição arruinam a saúde mental de professores. Porém, esse sistema é naturalizado e gera autoculpa. O Ensino deve matar esse zumbi gerencial que visa impor o realismo da precarização
Ednei de Genaro, em A Terra é Redonda/Outras Palavras  

Em 2009, Mark Fisher publicou um livro seminal — Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo — para a compreensão e atualização, no contexto do século XXI, da “lógica cultural do capitalismo tardio”, tal como Fredric Jameson preconizou, em 1991, em Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio.

Mark Fisher foi professor em instituições públicas de ensino na Inglaterra, lecionando em universidades e em programas de “educação continuada” (futher education), oferecidos a qualquer pessoa maior de 16 anos que deseje realizar cursos diversos de aperfeiçoamento ou obtenção de novas habilidades de trabalho; ou seja, no mais das vezes, um programa de especialização e de reciclagem da classe trabalhadora do país. Em sua referida obra, tais experiências enquanto profissional da educação mobilizam exemplos diversos e emblemáticos da cultura contemporânea. 

Levando em conta isso, buscarei aqui recuperar as fecundidades e sofisticações das respostas de Mark Fisher sobre o estado psicossocial realista capitalista, tendo em vista, bem particularmente, as questões e problemas referentes à escola pública, onde parece ser mais fácil imaginar o fim das escolas públicas do que o fim do gerencialismo de autoculpabilização dentro delas.

Sobre os processos diversos de neoliberalização e mercantilização do ensino, quem ainda procura pensar nisso? De outro modo, como podemos nos desembrutecer acerca dessa “coisa inominável”, sem nenhuma lei transcendente, sem limites, infinitamente plástica, que é o capitalismo? Perguntas em tom retórico, em primeira instância, para lembrar a situação atual de desengajamento e a deflação depressiva decorrentes da normalização das crises — tendo em Mark Fisher a obra literária distópica Filhos da Esperança, de P. D. James ([1992] 2013), e a adaptação cinematográfica homônima, de Alfonso Cuarón, como icônicas da ascensão do ultra-autoritarismo e ultracapitalismo, de destruição massiva dos espaços públicos, algo já presente entre nós, mas com consumação em um futuro próximo.

Uma situação, enfim, que se metamorfoseia sobretudo em posicionamentos de mundo hedonistas niilistas, escreve Mark Fisher, de modo que o aprendizado de convicções políticas e atitudes é substituído pelo desengajamento e pela observação voyeurística do mundo (Fisher, 2020, p. 13). O realismo capitalista é “[…] análogo à perspectiva deflacionária de um depressivo, que acredita que qualquer estado positivo, qualquer esperança, é uma perigosa ilusão” (Idem, p. 14).

Ao absorver toda contraposição, ao usurpar o tempo livre e ao anular qualquer atitude alternativa e independente, o capitalismo contemporâneo funciona “sem um exterior”. Do rock ao hip hop, passando pelo atual ideal gangster — para citar as exemplificações culturais marcantes de Fisher — a busca é de autenticidade e… conformação à guerra hobbesiana de todos contra todos, condicionando a produção da cultura, da educação e do trabalho. “Cair na real” significa hoje a construção de competências e friezas para o distanciamento cínico, longe assim do crítico e destinado à práxis. A ironia anticapitalista, presente agora até em filmes da Disney, “[…] mais alimenta do que ameaça o realismo capitalista” (Idem, p. 25-6).

É precisamente nestas posturas que as formas ideológicas capitalistas se reavivam. Sobre isso, segue um trecho da obra Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia, de Slavoj Žižek (1992), conforme citado por Mark Fisher: “O distanciamento cínico é só uma maneira […] de fechar os olhos para o poder estrutural da fantasia ideológica: mesmo quando não levamos as coisas a sério, mesmo quando mantemos um distanciamento irônico, nós as continuamos fazendo” (Žižek apud Fisher, 2020, p. 26).

A fantasia ideológica cínica é complementada pela inviabilidade do desempenho de uma crítica moral do capitalismo, tornada inócua, uma vez que “pobreza, fome e guerra podem ser apresentadas como aspectos incontornáveis da realidade” (Fisher, 2020, p. 35), somente reforçam o realismo capitalista, de modo que a reativação da crítica/práxis, propõe Mark Fisher, exige uma inflexão, explicitando a burocracia, que “em vez desaparecer, mudou sua forma” (p. 38) e a resultante disso, o problema de saúde mental, isto é, “o caso paradigmático de como o capitalismo realista opera” (Idem, p. 36-7), enquanto as duas aporias, por excelência, do capitalismo contemporâneo, que ensejam transtornos e aborrecimentos na população em geral, e nos expedientes das escolas públicas, de maneira muito representativa.

A abolição do otium e a transformação da escola em espaços constituintes e integrados ao negotium é um problema enraizado na própria gênese das escolas públicas na modernidade. Fato que assinalou o paradoxo de sua origem no mesmo ato de destruição do seu sentido autêntico, ou seja, da escola (scholé) como o lugar do tempo livre, de retiro, do repouso; em outras palavras, do tempo disponível à ocupação intelectual, aos estudos científicos diversos, à filosofia e à política. A dimensão do negotium em ambiente escolar se transfigurou e agravou com o modelo neoliberal introjetado no nível psicossocial das vivências e relações públicas. 

Segue a resposta de Mark Fisher ao mito da descentralização como fim da burocracia, prescrevendo a própria definição do modelo neoliberal de gestão escolar: “O fato que medidas burocráticas tenham se intensificado sob governos neoliberais que se apresentam como antiburocrático e antiestalinista pode, a princípio, parecer um mistério. No entanto, viu-se, na prática, proliferar uma nova forma de burocracia — uma burocracia de ‘objetivos’, dos ‘resultados esperados’, das ‘declarações de princípio’ — ao mesmo tempo em que ganha força a retórica neoliberal sobre o fim do comando vertical e centralizado. Pode parecer que essa volta da burocracia é algo assim como um retorno do reprimido, ironicamente reemergindo no coração de um sistema que jurou destruí-lo. Mas seu triunfo no neoliberalismo é bem mais que um atavismo ou uma anomalia” (Fisher, 2020, p. 72).

Nem atavismo e nem anomalia sociais, mas, sim, uma ordem constituída: o “stalinismo de mercado”. De forma sutil, a burocracia reemerge com novas técnicas e se intensifica. “A avaliação periódica dá lugar a uma avaliação permanente e onipresente, que não pode deixar de gerar uma ansiedade perpétua” (Idem, p. 87), ao impor “[…] à força a responsabilidade ética individual que a estrutura empresarial desvia” (Idem, p. 116).

Assim, a metabolização simbólica das classes sociais se manifesta: a responsabilidade recai em relação às tarefas e processos dos indivíduos, a despeito da estrutura social ou da instituição, alterando, pois, a própria lógica de visibilidade e estruturação dos papéis sociais, com base em dois clichês dominantes: culpar a estrutura é apenas desculpa invocada pelos fracos — o “choro dos fracos”; cada indivíduo deve dar o máximo de si para se tornar aquilo que aspira a si — o “voluntarismo mágico”, sendo estes clichês, como escreve Fisher, “[…] a ideologia dominante e a religião não oficial da sociedade capitalista contemporânea […]” (Idem, p. 140), que esculpem a mentalidade capitalista.

Os mecanismos individuais de avaliação e autoculpabilização são a chave para se gerir, conservar e desresponsabilizar a ordem institucional, mantendo seus vícios e defeitos, inclusive nos “espaços de lazer e tempo livre”, as escolas. Tudo se conserva, engolindo todos na epidemia da cultura de auditorias internas e externas, por ranqueamentos, classificações e titulações infinitas de produtividade, alimentados por dados, informações e processos compostos e insertado nos sistemas enquanto o âmago do trabalho educacional. O delírio psicológico burocrático é tanto uma violência à saúde mental dos profissionais de educação quanto a destruição de espaços coletivos e deliberativos, como colegiados de instituições de ensino, que se transformam em reuniões de feedbacks, e de espaços formativos, que se tornam treinamentos.

O gerencialismo de autoculpabilização é a perda do sentido de gerência coletiva. A descentralização e a competição entre os pares são meios para o controle e a despotencialização do coletivo subordinado. A precarização do educador, por meio de contratos temporários e sobrecarga de trabalho, arremata a condição de informalidade causal e autoritarismo silencioso que pairam sobre as cabeças dos trabalhadores.

Em resumo, uma trapaça. “As metas rapidamente deixam de ser um meio para avaliar e tornam-se a finalidade em si” (Idem, p. 77), a fim de que continuamente se repita o universo quantitativo de “valorização dos símbolos dos resultados, em detrimento do resultado efetivo” (p. 76). Lógicas falaciosas que coadunam com o espírito do capitalismo financeiro e de influencia em redes sociais, pois o valor gerado no mercado de ações e de monetizações depende menos do que um perfil ou uma empresa “realmente faz” e muito mais das percepções, visualizações e expectativas performáticas futuras (Idem, p. 77).

A ilusão de muitos que entram nas funções de gerência, com grandes esperanças, é precisamente de que eles, os indivíduos, podem mudar as coisas, que não vão repetir o que seus gerentes fizeram, que as coisas serão diferentes desta vez. Mas basta prestar atenção a qualquer um que tenha sido promovido a um cargo gerencial para perceber que não demora muito tempo para que a petrificação cinza do poder comece a engoli-lo. É aqui que a estrutura é palpável: pode-se praticamente vê-la absorvendo e tomando conta das pessoas, ouvir os juízos moribundos/mortificantes da estrutura sendo vocalizados através delas. (Idem, p. 115-6).

A incerteza ontológica e a lógica falaciosa do gerencialismo de autoculpabilização são estratégias de adaptação e ruína da saúde mental dos educadores. Em termos deleuzianos e kafkianos, isto é, nas condições atuais de poder cibernético e distribuído das sociedades de controle, as aflições, os problemas e dilemas coletivos, tratados como assuntos individuais, são submetidos a uma “postergação indefinida”: o processo se prolonga, sem fim; as aflições, problemas e dilemas nunca se resolvem; pelo contrário, são resguardos por “policiamentos internos” e atarefamentos exaustivos, que agora se levam para casa.

Uma experiência de poder dominante que liquida a ideia de ponto central de comando. Um sistema que se quer sem “operadora central”, como previu Kafka (2005), em O processo. Em última instância, em caso de altercação sobre o poder e a responsabilidade, o procedimento geral é de denegação e anunciação de um “grande outro”: “o superior que cuida disso, desculpa”. No máximo, a responsabilidade recairá sobre “[…] os indivíduos patológicos, aqueles que ‘abusam do sistema’, e não o próprio sistema” (Idem, p. 116).

Ademais, escreve Mark Fisher, “os professores se encontram hoje sob a intolerável pressão de mediar a subjetividade pós-letrada do consumidor no capitalismo tardio e as demandas do regime disciplinar (passar nos exames e coisas do tipo)” (Idem, p. 49). Como se fossem um dos últimos representantes do poder panóptico, os professores, entre muros, carteiras e cadeiras, derivam seu público, composto por “desenraizados” e flexíveis, impacientes e dispersos, buliçosos pela ausência e pelo hedonismo permissivo dos pais, desde muito cedo ansiando em ser também como os seus célebres “empreendedores online” da cultura, vistos e comentados pelas redes sociais.

A “letargia hedônica” presente hoje nos jovens designa o ponto máximo de dissolução da cultura na economia cibernetizada, de controles automáticos sobre cognições e ambientes de trabalho/lazer. Em última instância, a programação massiva de modelos assincrônicos de educação a distância demarca o fim das instituições escolares.

Os sofrimentos e a paralisia psíquica dos professores são deliberadamente cultivados e tratados como “fatos naturais” e privados. As deteriorações da psique, da cultura, da educação e do trabalho têm obviamente razões para existir: permitir a submissão fatalista das pessoas. Ora, o descontentamento privatizado, a sorte de pelo menos ter um emprego e a aceitação de que as coisas vão piorar são propositados e explicam historicamente a destruição do “estado bem-estar social” a partir da ascensão do discurso neoliberal contra a classe trabalhadora.

Na Inglaterra, país de origem das primeiras experiências políticas neoliberais, uma das medidas inaugurais foi a abolição do leite nas escolas públicas, em 1971, no momento em que Margareth Thatcher era secretária de educação… Contudo, o neoliberalismo hoje não passa de um zumbi.

O neoliberalismo perdeu a iniciativa, e persiste inercialmente, desmorto, como um zumbi. Podemos ver agora que, embora o neoliberalismo fosse necessariamente “realista capitalista”, o realismo capitalista não precisa ser neoliberal. Para se salvar, o capitalismo poderia voltar a um modelo social-democrata ou a um autoritarismo do tipo que se vê no filme Filhos da esperança. Sem uma alternativa crível e coerente ao capitalismo, o realismo capitalista continuará a governar o inconsciente político-econômico. (Idem, p. 130).

De 2009 a 2024, foram os autoritarismos fascistas e neoreacionários que se desenvolveram no mundo todo, inclusive no Brasil, inclusive dentro das escolas públicas, com os projetos cívico-militares, entregando uma compleição moribunda às democracias e as faces mais violentas do zumbi neoliberal, ao escancarar a subordinação do Estado ao capital e ao manter monopólios e oligopólios como antimercados e espaços de articulação fascistas… Afinal, questiona Mark Fisher, como elaborar estratégias políticas para matar este zumbi? Como “[…] desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”? (p. 142).

Um novo anticapitalismo, “[…] não necessariamente ligado a velhas tradições e linguagens […]” (Idem, p. 130), é possível, antes de tudo, a partir da rejeição das estratégicas que não funcionam, por exemplo: estratégias horizontalistas, de ação direta sem ações indiretas, devem ser rejeitadas. “Só a esquerda horizontalista acredita na retórica da obsolescência do Estado” (Idem, p. 148), que, pensando bem, faz deleitar o capital com a sua popularidade e inocuidade, pois aparecem como “[…] ruídos carnavalescos para o realismo capitalista” (Idem, p. 27). Por sua vez, “no caso dos professores talvez a tática das greves devesse ser abandonada, porque prejudicam apenas estudantes e membros da comunidade” (Idem, p. 131-2).

Onde se empenhar, afinal? Segue um trecho da resposta de Mark Fisher: “Se o neoliberalismo conseguiu triunfar ao incorporar os desejos da classe trabalhadora pós-1968, uma nova esquerda poderia começar agindo sobre os desejos que o neoliberalismo gerou, mas que não foi capaz de satisfazer. Por exemplo, a esquerda deveria argumentar que pode entregar o que o neoliberalismo falhou em fazer: uma redução massiva da burocracia. O que se faz necessário é travar uma nova batalha em torno do trabalho e de seu controle; uma afirmação da autonomia do trabalhador (em oposição ao controle gerencial) juntamente com a rejeição de certos tipos de trabalho (com a auditoria excessiva que se tornou uma característica tão central do trabalho no pós-fordismo). Esta é uma luta que pode ser vencida — mas apenas por meio da composição de um novo sujeito político”.

Esse novo sujeito não surgirá, pois, sem um enfoque nos elementos estruturais e nas falhas que produzem os efeitos negativos do neoliberalismo, algo que sensibilizaria e mobilizaria novamente as populações para as pautas de esquerda, a fim de que estratégias parlamentares, no seio Estado, resultem em mudanças estruturais da situação. Não obstante, na atual conjuntura brasileira, na última década, tal sensibilização e mobilização foram bem-sucedidas pela coordenação de grupos, recursos e desejos para as pautas de (extrema) direita, a partir do aproveitamento massivo das comunidades online solipsistas — “redes interpassivas de mentes semelhantes que confirmam, ao invés de desafiar, os pressupostos e preconceitos de cada um” (Idem, p. 126).

Na “guerra cultural” que se tornou a política contemporânea, o futuro das escolas públicas — e das instituições de ensino, em geral — depende imensamente da mudança de estratégias e de novos ventos na política. No Brasil, a precarização do trabalho, o gerencialismo de autoculpabilização e o modelo cívico-militar, que silenciam e dessolam a saúde mental dos professores e alunos, são prioridades na luta política progressista nas escolas públicas.

Ednei de Genaro é professor do curso de educação na Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT), Campus Tangará da Serra.


Referências

Fisher, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

James, P. D. Filhos da esperança. São Paulo: Editora Aleph, 2023.

Jameson, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1997.

Kafka, Franz. O processo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Žižek, Slavoj. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

Leia também sobre a educação libertária https://lucianosiqueira.blogspot.com/search?q=Educa%C3%A7%C3%A3o+libert%C3%A1ria 

18 janeiro 2024

Enio Lins opina

As milícias bolsonaristas e o ódio à educação cidadã

Enio Lins*


Mentes ingênuas seguem imaginando que a guerra da Democracia e da Liberdade contra as falanges do bolsonarismo estaria finda depois das vitórias nos dois turnos das eleições 2022 e na derrota do golpe miliciano de 8 de janeiro de 2023. Erro infantil.

Repetindo o já escrito aqui e alhures, o bolsonarismo apenas canaliza a maldade, a degenerescência, a corrupção e a covardia que saíram do armário ao longo dos últimos 10 anos – e eclodiram dessas trevas num desbunde apoteótico.

Essas variadas excrescências existem para além do falso messias e tão-somente encontraram em Jair o ser maldoso, degenerado, corrupto e covarde feito sob medida para representar esses ideários em nome “da pátria, de deus e da família”.

DESEDUCAR COMO PRINCÍPIO

Reportagem publicada no site The Intercept, segunda-feira, 15, desnuda as iniciativas de infiltração de grupos bolsonaristas na Conferência Nacional da Educação (CONAE), a ser concluída nos dias 29 e 30 de janeiro.

Escreve o jornalista Paulo Motoryn: “Uma mobilização secreta de grupos bolsonaristas está se preparando para influenciar a Conferência Nacional de Educação com pautas de extrema direita. O objetivo declarado da força-tarefa é ‘formar famílias em todos os estados brasileiros’ para lutar contra o ‘aparelhamento ideológico da educação’”.

Secreta não é mais, isto é certo. O incerto é se a subversão bolsonarista vai conseguir melar o CONAE, e frente a esse risco não cabe vacilação – 8 de janeiro tem de servir como alerta permanente. Golpe é o nome dessa familícia espelhada e espalhada Brasil afora.

Alvo estratégico dessa turma (que inventou falsidades como o “Kit Gay”) é a educação cidadã, laica e libertária – que, por sinal, não é praticada inteiramente em nenhum lugar do Brasil. Mas esses grupos reacionários querem impedir qualquer chance de desenvolvimento de processos educacionais mais elaborados em solo nacional.

Questões essenciais da civilidade, como educação sexual, filosofia e outras temáticas humanistas são demonizadas e vociferadas em contrário a plenos pulmões por grupos que silenciam sobre abusos de religiosos, são coniventes com tentativas de golpe, e têm como mito um miliciano que, acintosamente, é usuário confesso dos 10 pecados capitais.

NÃO FUGIR DA LUTA É A QUESTÃO

Esses grupos precisam ser enfrentados cotidianamente, pois é o futuro que está em jogo. Ter uma educação isenta de preconceitos e doutrinações é a meta. E o que são preconceitos e doutrinações nas escolas? São todos os formatos excludentes, proposições pedagógicas que cerceiem o debate e discriminem a cultura universal.

Essas tendências partidárias, reunidas no tal “Escola sem Partido”, estiveram à frente do MEC entre 2019 e 2022, na gestão mais desastrosa da história, onde quatro desqualificados ocuparam o posto de Ministro (um quinto bolsonarista não tomou posse porque teria falsificado o currículo) e meteram as patas traseiras pelas dianteiras.

Um dos ministros bolsonaristas dessa safra podre, Milton Ribeiro, chegou a ser preso pela Polícia Federal, no dia 22 de junho de 2022, juntamente com dois outros pastores, por suspeita de “operar um ‘balcão de negócios’ no MEC e na liberação de verbas do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação)” – reportou a BBC.

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

É essa turminha abominável que quer voltar a crescer e manipular os destinos da educação no Brasil. Tendência que não sumiu do mapa com as derrotas nos dias 2 e 30 de outubro de 2022, e nem após a frustrada tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023.

Querem porque querem impor suas pautas de deseducação, como analisado por Rafael Guimarães e Cleber Oliveira (Revista Eletrônica da Educação, 29/10/2020), “a deslegitimação do conhecimento, em especial das Ciências Humanas e Artes, as teorias alarmistas sobre balbúrdia nas Universidades, a inversão acusatória contra opositores”.

Alerta total contra essa gente! Impedir qualquer retrocesso na Conferência Nacional da Educação é a missão cidadã da hora.

Milei ridículo em Davos http://tinyurl.com/yc2zmzbu

08 setembro 2023

Educação libertária

"No entanto, ela se move"

O conservadorismo sabe do papel político dos conteúdos escolares e elege a escola como sua inimiga. Isso mostra que o que ensinamos pode ter impacto no modo como os alunos pensam, sentem e veem o mundo. Em outras palavras, ter uma escola que ensine conhecimento científico, artístico e filosófico não é algo menor; trata-se de algo temido pelo bolsonarismo
Helio Messeder Neto/Le Monde Diplomatique



O que a escola deve ensinar? Essa pergunta está longe de ter respostas fáceis e não passa despercebida pelo debate público. Por exemplo, são muitas as publicações na internet que, em forma de memes, insistem em dizer: “Mais um dia se passou e eu não usei a fórmula de Bhaskara em nada na minha vida”. O debate sobre que tipo de conhecimento e como ele deve aparecer na escola é antigo, e as escolhas feitas têm estreita relação com o sujeito que queremos formar. Sim, toda nação (e cada escola) tem um projeto político-pedagógico; portanto, dizer quem queremos formar e para que é responder também sobre o que queremos ensinar na escola.

O conservadorismo sabe do papel político dos conteúdos escolares e, não à toa, elege a escola como sua inimiga. Em uma fala recente,¹ Eduardo Bolsonaro comparou professores a traficantes, afirmando que um docente doutrinador causaria discórdia na família, já que ensinaria crianças a ver opressão em tudo. Tal discurso faz, nas linhas e entrelinhas, uma convocação para que a família reconheça nos professores os inimigos que querem destruir seu lar e, mais do que isso, que os conceitos ensinados na escola precisam estar de acordo com os dogmas ensinados em casa; caso contrário serão considerados destruidores da família. Isso leva, claro, os professores a ficarem temerosos em ensinar certos conteúdos, como teoria da evolução, debates de gênero e sexualidade, questões raciais e sociais, que trazem resultados contrários ao q ue o conservadorismo considera ideal.

Poderia aqui seguir argumentando com os leitores que a escola tem problemas mais graves e dificilmente consegue realizar o trabalho de ensinar (de fato) esses conteúdos em sua plenitude, e que, diante das condições materiais concretas da escola pública, gastamos mais tempo de nossa aula tentando organizar minimamente a sala e gestando problemas de comportamento. Poderia acrescentar ainda que os alunos são sujeitos do processo educativo, ou seja, refletem sobre o que os professores dizem, não sendo simplesmente receptores passivos de informação.2 No entanto, o que quero destacar é que a preocupação do bolsonarismo acerca dos conceitos escolares nos mostra, por contraste, que o que ensinamos pode ter impacto no modo como os alunos pensam, sentem e veem o mundo. Em outras palavras, ter uma escola que ensine conhecimento científico, artístico e filosófico não é algo men or; trata-se de algo temido pelo bolsonarismo.

Tamanha é a importância dos conteúdos escolares como ferramentas para questionar a realidade que a defesa de seu esvaziamento não está apenas nos discursos inflamados dos bolsonaristas. O vácuo de conceitos se concretizou, em sua face perversa, com o Novo Ensino Médio (NEM). Está mais do que claro que o NEM oferece para nossa juventude da escola pública, cuja maioria é negra e periférica, uma formação precarizada, voltada para um mercado de trabalho sucateado, retirando ou diminuindo a carga horária de disciplinas básicas, como Química, Física e Sociologia, para em troca oferecer matérias que envolvem fazer brigadeiro gourmet.3 O que temos para nossa juventude é a retirada da possibilidade de aprender conteúdos escolares, os quais são substituídos por demandas pragmáticas, imediatas, que visam aprofundar a diferen&cced il;a de classes sociais no Brasil. A revogação do NEM é urgente, e o resgate de uma escola que defenda o ensino de conteúdos fundamentais é imprescindível.

Contudo, não é todo conteúdo escolar que terá esse papel de atuar sobre a visão de mundo do estudante. A crítica de Paulo Freire a uma educação bancária, que simplesmente ensina os alunos a decorar nomes e fórmulas sem sentido, deve ser feita e é legítima. A escola precisa pensar em um ensino de conteúdos que ajudem a entender a vida real, de carne e osso. Mas veja que eu disse a vida concreta, e não apenas o dia a dia. Entender a vida quer dizer compreender a riqueza, as potências e os limites do conhecimento humano produzido e como ele foi gestado coletivamente, imerso em contradições. Aprender sobre tais aspectos é importante mesmo quando, individualmente, não lidamos com esse conhecimento em nossa profissão. Não aprendemos a fórmula de Bhaskara na escola simplesmente porque vamos ou não usá-la em nosso cotidiano, mas aprendemos (ou deveríamos aprender) para entender que não existe um dia neste mundo que a tal fórmula, desde que foi descoberta, deixou de ser útil para a humanidade produzir, projetar e resolver inúmeros problemas relacionados à ciência e à tecnologia. Entender a vida real, coletiva em suas necessidades humanas, é central numa escola que nos quer mais humanos.

Defendo aqui, portanto, que cabe à escola ensinar Ciências da Natureza, Ciências Sociais, Artes, Filosofia, Educação Física, entre outras disciplinas, pautando-se no máximo que conseguirmos avançar em nossa história humana, mostrando também seus impasses e seus limites. Uma escola viva, que ajude o estudante a olhar não só para si, mas para o coletivo, a entender o mundo em movimento e, por isso, sentir a necessidade de transformá-lo diante das mazelas sociais.

Uma escola que ensinar conteúdos nos termos que aqui apresento será uma escola comprometida com a verdade histórica e, desse modo, ajudará a compor o antídoto contra as fake news que assolam nossa vida. O ensino da Matemática concreta ampliará nossa capacidade de raciocínio lógico; as Ciências da Natureza e Sociais nos ajudam a pensar o que fazer diante de dados e fatos; as Artes nos ajudam a entender o que somos, como e por que sentimos; a Biologia, a Sociologia e a Educação Física nos ajudam a pensar o que é a cultura corporal e como ela pode se expressar em mim e no outro; a Filosofia concreta nos ajuda a ter um olhar analítico sobre diferentes proposições do mundo e até mesmo sobre as religiões. A escola que ensina conteúdos vívidos se põe contra todos os mitos e contribui para a formação do tal pensamento crítico de que tanto ouvimos falar nos discursos educacionais.

Talvez o leitor possa pensar que este texto defende uma escola chata e conteudista, na qual jovens e crianças ficam o dia todo sentados na carteira. Não é verdade. Defender que a escola ensine conteúdos artísticos, científicos e filosóficos, em vez de bobagens pragmáticas neoliberais simplificadoras, significa defender uma escola rica, que pensa o sujeito como um todo e vai além da palavra vazia, buscando as melhores formas de ensinar (dentro das condições possíveis) para vincular a dor e a delícia da humanidade de produzir seu conhecimento apontando sempre para práticas mais coletivas e respeitosas.

Pessoas e livros já foram queimados quando ousaram defender a verdade. O conhecimento sempre foi combatido pelo conservadorismo. Galileu Galilei, diante do julgamento da Inquisição, teve de negar o heliocentrismo, mas reza a lenda que, ao abjurar o movimento da Terra, teria dito em voz baixa: “No entanto, ela se move”. 

Entendo que, nestes tempos de avanços obscurantistas, precisamos continuar – dentro de nossas possibilidades individuais e coletivas – disputando o conhecimento científico, artístico e filosófico, aprendendo com os que nos antecederam e lutando pela verdade histórica. Por mais que insistam que a escola precisa se silenciar em relação ao movimento da Terra, às questões da evolução da espécie, aos debates de gênero, ao socialismo e a tantos outros conteúdos importantes, seguiremos dizendo: “Apesar de tudo, ainda nos movemos”.

*Helio Messeder Neto é educador popular, professor de Química da UFBA e doutor em Ensino de Ciências pela mesma universidade. Contato: helioneto@ufba.br.

¹ “Eduardo Bolsonaro compara professores a traficantes; PF deve analisar fala”, CNN Brasil, 10 jul. 2023.

² Para ver essa discussão com detalhes, sugiro a leitura de Gaudêncio Frigotto (org.), Escola “sem” partido, LPP-Uerj, Rio de Janeiro, 2017.

³ “Após reforma do ensino médio, alunos têm aulas de ‘O que rola por aí’, ‘RPG’ e ‘Brigadeiro caseiro’”, Exame, 13 fev. 2023.

O caleidoscópico tempo presente https://bit.ly/3Ye45TD

24 março 2023

Karl Marx

Nosso Marx, mil vezes mais uma vez!

“Falar de uma fase filosófica juvenil de Marx como algo contraposto à sua imersão mais tardia na ‘ciência’ e na economia política é uma representação grosseiramente equivocada, por trás da qual oculta-se uma singular ignorância ou distorção dos fatos mais elementares” (I. Mészáros, 1980). [1]
Sérgio Barroso/Vermelho www.vermelho.org.br

 

O artigo*, de alcance mais teórico, reafirma a defesa do “tesouro” epistemológico de Karl Marx, contra imputações fictícias e marcantemente distorcidas do processo de elaboração de seu pensamento científico. Recorda que, desde os escritos da juventude até os da maturidade, como teórico inovador das ciências sociais, o legado das obras de Marx revela rupturas e continuidades como características centrais da tessitura do conhecimento científico universal.

Como previsto, as comemorações do bicentenário do nascimento de Karl Marx correram milhares de léguas mundo afora. Sua cidade natal, Trier (Tréveris, no Renânia-Palatinado da Alemanha) imprimiu notas de euros com sua foto, em homenagem. Emblemática esfinge!

A chamada grande imprensa global teve que “clonar” a matéria de “The Economist” rogando aos capitalistas do mundo inteiro que lessem Marx. A revista, uma campeã da dissimulação – Marx a lia regularmente e dela fazia anotações – advertira ainda aos “liberais reformadores”:

“Eles deveriam usar o 200º aniversário do nascimento de Marx para se familiarizarem com o grande homem – não apenas para entenderem as falhas sérias que ele identificou brilhantemente no sistema, mas para se lembrarem do desastre que os espera se não conseguir confrontá-lo”. [2]

Ainda antes, em abril, em discurso na “Cúpula do Crescimento”, no Foro de Políticas Públicas em Toronto (Canadá), Mark Carney, [3] presidente do Banco da Inglaterra, insinuou-se como um provocador e declarou que o marxismo poderá voltar a converter-se numa força política importante no Ocidente. E argumentou ele:

“Os lucros, desde a perspectiva de um trabalhador, a partir da primeira revolução industrial, que começou na segunda metade do século XVIII, não se sentiu plenamente na produtividade e os salários até a segunda metade do século XIX. Se se substituem fábricas têxteis por plataformas, máquinas a vapor por máquinas inteligentes, o telégrafo pelo Twitter, tem-se exatamente a mesma dinâmica que existia há 150 anos, quando Karl Marx escreveu o Manifesto Comunista”.

Criticismo pretensioso

No importante Seminário “Bicentenário Karl Marx: desvendar um mundo novo no século XXI” (19 de maio, São Paulo), organizado pela Fundação Maurício Grabois, uma boa polêmica se estabeleceu acerca das dimensões e etapas do pensamento daquele genial revolucionário alemão. E opiniões à base do criticismo.

En passant, estranha-se um repeteco troncho dessa retórica, exatamente em meio às efusivas comemorações do bicentenário de Marx, pensador sabidamente revisitado à exaustão, a partir da explosão da grande crise capitalista global de 2007-8, destacando-se notadamente as inúmeras novas traduções de O Capital, sua obra magna.

Aqui, não vou dar opinião, porquanto inspirado na formulação gnosiológica do cientista e epistemólogo francês Gaston Bachelard: “Opinião não é ciência”. Vou argumentar que são absolutamente irrelevantes as afirmações que Marx foi “utópico”, e “voluntarista” ao tratar do Socialismo; que foi também “teleológico”; que Marx teria condicionado erros graves de marxistas e revolucionários – ex ante (a partir de suposição ou prognóstico); ou ainda que a tradição iluminista o aprisionava a uma “razão libertária”. São críticas que misturam pretenciosismo e ingenuidade.

É como se Marx tivesse que ter sido “desumano, demasiado desumano”, pois omite-se o processo dialético de formação do pensamento científico – e, mais ainda, os termos teóricos do processo de desenvolvimento da teoria do conhecimento.

Em “Ensaio sobre o conhecimento aproximado”, a exemplo, Bachelard afirma que:

“O conhecimento em movimento é um modo de criação contínua; o antigo explica o novo e o assimila; e vice-versa, o novo reforça o antigo e o reorganiza. (…) Por princípio, o espírito que conhece tem de ter um passado. (…) Essa inflexão do espírito, em direção ao passado, para responder à solicitação de um real inesgotável constitui o elemento dinâmico do conhecimento”. [4]

Noutro ângulo, a decisiva problemática do relativismo, ou seja, do princípio da relatividade dos nossos conhecimentos é assim brilhantemente sintetizada por V. Lênin,

“A dialética – como Hegel explicava – contém um elemento de relativismo, de negação, de ceticismo, mas não se reduz ao relativismo. A dialética materialista de Marx e de Engels contém certamente, mas não se reduz a ele, isto é, reconhece a relatividade de todos os nossos conhecimentos, não no sentido da negação da verdade objetiva, mas no sentido da condicionalidade histórica dos limites da aproximação dos nossos conhecimentos em relação a esta verdade”. [5]

A propósito, nesse estudo Lênin insiste vigorosamente em que o enquadramento epistemológico da teoria de Marx e Engels tem como pressupostos centrais: a) a ideia de que se trata de “escolasticismo” saber se ao pensamento humano pertence a verdade objetiva fora da prática, pois o ponto de vida da vida, da prática deve ser o ponto de vista primeiro e fundamental da teoria do conhecimento; b) que o desenvolvimento da consciência social reflete o ser social e seu desenvolvimento, “eis em que consiste a doutrina de Marx”, onde o reflexo poder ser “uma cópia aproximadamente fiel” do objeto refletido, sendo entretanto “absurdo falar aqui em identidade”. (Lénine, idem, pp. 103-4 e 107, e 245 respectivamente).

Não sem razões, Bachelard, ao tratar do que denomina “obstáculos epistemológicos”, [6] assevera que o “conhecimento do real é uma luz que sempre projeta algures umas sombras. Nunca é imediato e pleno”; onde as revelações do real são sempre recorrentes; o real nunca é “aquilo que se poderia crer”, porém sempre aquilo que se deveria ter pensado.

Ademais desviacionistas da profunda ruptura epistemológica que realizaram Marx e Engels, as anotadas afirmações criticistas, em verdade, carregam ainda o viés ideológico de um velho idealismo sob as vestes de preocupações com o cultivo do pensamento antidogmático e “renovador”. À medida em que seus subjetivismos reclamam uma ruptura de paradigmas, sem continuidades. Isto é, Marx deveria forjar a criação de uma teoria “inteiramente nova”, sem qualquer sombra de influências anteriores, portanto completa, perfeita e não infensa a defeitos, erros. Ou, como apresenta a questão, em outro estudo, Bachelard: [7]

“É um erro conferir a o conhecimento real um único sentido” (Op. cit., p. 15). Por isso, também, é que “O idealismo, por princípio, não consegue seguir e explicar o aspecto contínuo e progressivo do conhecimento científico” (Op. cit., p. 16); ademais porque nesse tipo de concepção “o conhecimento será sempre inteiro, mas fechado a qualquer acréscimo. Só se moverá diante de cataclismos” (Op. cit., idem, ibidem).

Aliás, duplamente a propósito da temática instigante das rupturas e continuidades epistemológicas, assinalemos que Henri Poincaré, humanista francês genial (1854-1912, matemático, filósofo, engenheiro, físico, astrônomo, poliglota, inventor) não escondia traços marcantes em suas concepções idealistas. [8] Pouco conhecido fora do âmbito dos especialistas, Poincaré, inobstante, indiscutivelmente “formulou igualmente uma teoria relativista da eletrodinâmica próxima em certos aspectos da relatividade restrita de Einstein”, escreveu recentemente o físico e historiador da ciência Michel Paty. [9]

Pois bem e ao que nos interessa, segundo o formidável Poincaré:

“Não devemos comparar a marcha da ciência com as transformações de uma cidade, onde os edifícios envelhecidos são impiedosamente demolidos para dar lugar às novas construções, e sim com a evolução contínua dos tipos zoológicos que se desenvolvem sem cessar e acabam por se tornar irreconhecíveis aos olhares comuns, mas onde um olho experimentado reencontra sempre os vestígios do trabalho anterior dos séculos passados. Não se deve crer, pois, que as teorias antiquadas são estéreis e vãs” (Op. cit.,1995, p. 9).

Irrelevantes e também criticistas, as aludidas opiniões desaguam – isto sim – numa tautológica visão finalística, como se Marx fosse não se distinguisse nitidamente de Kant e de sua “Crítica da razão pura” ou de seu transcendentalismo imanente. Ou como se Marx não tivesse rompido com o próprio “hegelianismo de esquerda”, já crítico de Hegel. Ou como se ele e Engels não tivessem superado os grandes pensadores do socialismo utópico (Owen, Fourier, Saint-Simon, Proudhon), num esforço de teorização prospectivamente novo e avançado para as condicionalidades do desenvolvimento da filosofia materialista e suas bases históricas reais: o incipiente processo de configuração da grande indústria capitalista, as recentes descobertas científicas etc.

Vulgata idealista: a reinvenção do utopismo [10]

A acusação de existir um Marx teoricamente portador de “utopias” não se eleva nem a uma piada de mal gosto. Exala, além, um requentado amargor, hoje visivelmente professado por correntes do pós-modernista – niilista e à última instância negacionistas do marxismo e da teoria que quer se configurar totalizante. [11] Desde logo, porque sequer se situa no significado do termo historicamente plasmado. Isto é, a incursão de Thomas More e seu celebrado estudo (“Utopia”, 1516), que se dá nos albores da modernidade; formatando-se paulatinamente o conceito a partir do impulso desenvolvido através da grande indústria.

Com efeito, os socialistas utópicos acima referidos já eram pensadores críticos fundamentados do processo de emergência da modernidade societária burguesa. Críticos e teóricos de elevada cultura. Conforme escreve Engels, em seu conhecido livro “Do socialismo utópico ao socialismo científico” (1880), Robert Owen, por exemplo, era o homem mais popular da Europa, sendo ouvido por empresários, estadistas e príncipes, evidentemente antes de expor em “público suas teorias comunistas”. Mas Owen permaneceu 30 anos trabalhando entre a classe operária, sendo que todos os movimentos sociais, todos os progressos efetivos que no interesse dos operários se verificaram em Inglaterra estão ligados ao nome dele – testemunhou literalmente o companheiro de Marx. [12]

Generalizando o papel dessa corrente, atesta Engels nessa obra fundamental:

“O modo de ver dos utopistas dominou, durante muito tempo, as representações socialistas do século XIX, e em parte ainda as domina. Cultivavam-no, até muito pouco tempo todos os socialistas franceses e ingleses…também o comunismo mais antigo…”. (Engels, idem, p.141).

De outra parte, recorde-se que é Marx, ainda em 1847 (“Miséria da Filosofia”) e precisamente na sua crítica demolidora a Pierre Proudhon, quem assenta a base concreta e histórica do pensamento dos socialistas utópicos, como representação de um estágio de elaboração teórica. Afirmou então Marx, ali:

“Enquanto o proletariado não está ainda suficientemente desenvolvido para se constituir em classe; enquanto a própria luta do proletariado com a burguesia não tem ainda um caráter político; e enquanto as forças produtivas não se desenvolveram ainda suficientemente…não são senão os utopistas que, para obviar às precisões das a classes oprimidas, improvisam sistemas e correm atrás de uma ciência regeneradora”. [13]

Essas duas obras referidas foram escritas num intervalo de 33 anos. O que elas atestam são uma incrível coerência de Marx e Engels quanto aos fundamentos epistemológicos que sustentam a construção da teoria dialética e materialista por eles desenvolvida, onde abriram um novo caminho de interpretação e transformação da história da sociedade capitalista.

Como diz Barata-Moura, eles dispuseram-nos a partir daí de “um balcão de perspectiva enriquecido para uma transformação do mundo que nos incumbe levar a cabo” (Op. cit., p. 50). Noutras palavras, abriram-se clareiras imensas à compreensão da realidade em movimento, largas veredas condutoras aos combates mudancistas. Mas não só: uma questão crucial da grandeza teórica de Marx e Engels no desvelamento das limitações reformistas dos utopistas é a demonstração que realizam: a) no sentido de desnudar a gênese e o caráter classista do capitalismo; b) em argumentar, mais uma vez inovadoramente, que a sociedade burguesa corresponde a um estágio transitório na história (Idem, p.63).

Marx teleológico: “tautologias vazias”

O excelente “Novo Dicionário da Filosofia e das Ciências Humanas”, de Louis-Marie (Grandes Écoles) e Jean Lefranc (honorário Paris-Sorbonne) define epistemologicamente “teleologia” como sendo “Doutrina da finalidade”. Quer dizer, uma explicação geral dos fenômenos pela consideração dos fins divinos ou humanos. Por isso, também, I. Kant falava em “prova físico-teleológica” da existência de Deus. [14]

A questão é que, definitivamente, essa matéria seguramente não é para principiantes, muito menos prosa afeitas à leviandades ou acusações ignorantes a Marx. G. Lukács, em “Para uma ontologia do ser social”, seu estudo mais badalado, discorre de modo claro sobre a temática, a partir da crítica de Marx a ele mesmo: ao poderoso filósofo (idealista) I. Kant. Porque ao tratar insistentemente do transcendentalismo divino, um problema central é que Kant encerra seu aparato teórico analítico de “teleologia” do plano cognitivo, e não no ontológico, onde deveria estar situado. Noutras palavras, mesmo que ele consiga desmontar a crítica da “teleologia superficial da teodiceia de seus predecessores” [15] – onde bastaria uma coisa beneficiar outra para a realização de uma teleologia transcendente -, Kant, entretanto, “fecha o caminho” no plano metodológico imediato, ao substituir cognição por ontologia. Aqui, conforme Lukács:

“(…) em última instância, o problema ontológico continua não resolvido e o pensamento é bloqueado dentre de um determinado limite ‘crítico’ do seu campo operativo, sem que a questão possa receber, no quadro da objetividade, uma resposta positiva ou negativa. (…) Dessa forma, o problema da causalidade e da teleologia se apresenta, do mesmo modo, na forma de um – para nós – incognoscível. Kant pode repelir o quanto quiser as pretensões da teleologia: essa negação se limita ao ‘nosso’ conhecimento, pois a teleologia aparece como pretensão de ser ciência e por isso, na medida de tal pretensão, fica sujeita à autoridade da crítica do conhecimento”. [Lukács, 2013, idem, pp. 50-51).

Em direção contrária, Lukács lembra ainda que Marx nega a existência de qualquer teleologia exceto aquela concertada pela práxis humana: a do trabalho. Dito de outra maneira por Lukács, para Marx, o trabalho não é uma das muitas formas fenomênicas da teleologia em geral, mas “o único ponto onde se pode demonstrar ontologicamente um pôr teleológico como momento real da realidade material” (Idem, p.51).

Marx “teleológico”? Ora, acusadores de Marx, deliberadamente ou não, ignoram aspectos fundamentais de sua tese doutoral “Diferenças entre a filosofia da natureza de Demócrito e Epicuro”, [16] escrita em 1841, quando Marx tinha somente 23 anos – isto é, na fase alcunhada de “o jovem Marx”.

Repondo questões relevantes Ana Albinati, discorre sobre a pesquisa de Marx, encontrada incompleta, onde, apresentando bem além uma interpretação original da filosofia de pós-aristotélica, ressalta haver nela as inquietações percucientes diante do influente pensamento da era pós-hegeliana. “Notável escavação de princípios” observa Albinati, [17] onde, a) as distintas visões atomistas dos dois filósofos gregos; e, b) e a nova problemática da “autoconsciência, assumida então por Marx, o fazem discorrer analiticamente “dois blocos filosóficos diferentes sistemáticos e coerentes”.

De outra parte, chama a atenção de que, já em “O jovem Marx e outros escritos de filosofia”, Lukács enxergando ali um embrião das teses sobre Feuerbach, considera ademais que há na dissertação de Marx uma vinculação da filosofia à oposição liberal sugerindo nexos a um “programa político” [18]. Isto já significa – afirma Albinati (Op. cit., p. 13) – que Marx, ao escolher a filosofia antiga como base de sua crítica, passa a pensar os fenômenos de seu próprio tempo, referindo-se inclusive à cisão entre os discípulos de G. Hegel como sendo também uma batalha entre duas tendências opostas, a liberal e a positiva:

“(…) [a primeira] retém como determinação principal o conceito e o princípio da filosofia, enquanto a outra retém como tal o seu não conceito, o fator da realidade. (…) O ato da primeira é a crítica e, portanto, exatamente o voltar para fora da filosofia, sendo o ato da segunda a tentativa de filosofar, e, portanto, o voltar-se para dentro de si da filosofia…” (Marx, 2017, op. cit., p. 59).

Enfim, como bem reforça Albinati, estudiosos da obra de Marx vêm nesse pioneiro estudo Marx o ponto de partida para o materialismo (Denis Collin); J. Bellamy Foster sustenta a crítica materialista de Marx a Hegel, naquela tese doutoral; o intento de descobrir e superar as insuficiências do hegelianismo também é assinalado por Lukács em sua obra sobre o jovem Marx. [19]

Marx “teleológico”? Observe-se como desfecha seu estudo, repita-se, aos 23 anos:

“Ou as provas da existência de Deus não passam de tautologia vazias – por exemplo, a prova ontológica nada diz além disto: ‘O que represento para como real (realiter) é para mim uma representação real’ que atua sobre mim, e nesse sentido todos os deuses, tanto os pagãos como os cristãos, tiveram existência real. O velho Moloque [Moloch] [20] não reinou? O Apolo de Delfos [21] não constituiu um poder real na vida dos gregos? Nesse ponto, tampouco a crítica de Kant significa algo” (Marx, 2017, idem, p.133; grifos de Marx)

(…) Nesse sentido, todas as provas da existência de Deus são provas de sua não existência, refutações de todas as representações de um deus”. (Marx, 2017, idem, p. 134; grifos de Marx).

Gramsci: “Karl Marx… É um vasto e sereno cérebro humano”

Antonio Gramsci, a quem se dispensa apresentação, sabe-se bem hoje, foi dos teóricos revolucionários marxistas mais criativos. A frase da epigrafe encontra-se no final do artigo “O nosso Marx” [22], onde Gramsci sumariza uma interpretação do papel e da significância histórica do pensador alemão, de grande densidade e alcance. Marx – escreve o italiano – não escreveu “uma doutrinazinha, não é um Messias”, tampouco nos legou “normas indiscutíveis, absolutas, fora das categorias de tempo e espaço”. Sarcasticamente parafraseando a “teleologia” do dogmatismo religioso kantista, declara, ser para Marx o “Único imperativo categórico, única norma: ‘Proletários de todos os países, unam-se!”.

Enfatizando que Marx foi homem de pensamento e ação, grande e fecundo nas duas esferas, Gramsci abordava então uma questão crucial, ainda hoje utilizada por adversários e críticos de um suposto “voluntarismo” em sua construção da prática política de sua teoria:

“(…) sua ação foi fecunda, não porque inventou a partir do nada, não porque extraiu de sua fantasia uma visão original da história, mas porque nele o fragmentário, o incompleto e o imaturo se tornaram maturidade, sistema e tomada de consciência. (…) seus livros transformaram o mundo, assim como transformaram o pensamento. Marx significa ingresso da inteligência na história da humanidade, advento da consciência”. (Op. cit., p.66).

Mas, voluntarismo na análise e ação políticas, em Marx? Segundo discerne Gramsci, a temática da ação política em Marx origina-se e relaciona-se à formação do partido político independente de classe, sua organização, por isso mesmo, distinção, diferenciação classista, organização compacta e disciplinada, visando finalidades próprias e específicas. Noutras palavras,

“Vontade, do ponto de vista marxista, significa consciência da finalidade, o que, por sua vez, significa noção exata do próprio poder e dos meios para expressa-lo na ação. (Karl Marx é para nós mestre da vida espiritual e moral, não um pastor brandindo seu cajado” (Idem, p. 68).

As considerações de Gramsci vêm bem a propósito das “críticas” da análise de Marx acerca da “Comuna de Paris”, num exemplo. Diz-se por aí que, um balanço “voluntarista”, muito simplificado sobre a questão do Estado, a partir das lições retiradas por Marx da insurreição comunarda teria influenciado erroneamente, inclusive, até a posterior forma de organização do poder político na URSS de Lênin. São críticas completamente despropositadas e claramente esquemáticas. Por que?

1. É preciso repor a verdade dos fatos, vez que, Marx, que desde 1870 advertira, em nome da Iª Internacional, ao proletariado parisiense “contra qualquer insurreição prematura”, logo a seguir não só organizou ativamente a solidariedade quando do massacre da Comuna, como não se ateve “apenas aos aspectos mais salientes dessa primeira experiência meteórica de poder operário” – e da democracia direta ali praticada. Marx: “analisou-a profunda e detalhadamente extraindo dela inferências (em especial relativas à questão do Estado)”, tendo avaliando-a “como decisiva para o projeto revolucionário”. [23]

2. Especialmente esclarecedor da formidável visão de Marx, Eugene Schulkind, no indispensável “Dicionário do Pensamento Marxista”, [24] considera que Marx afirmou não só serem as medidas tomadas pelos comunardos notáveis pela sua sagacidade e moderação, bem como especiais, mas que elas “não poderiam senão indicar a tendência” de um governo do povo e pelo povo. E complementa Schulkind:

“Longe de dever ser vista como um modelo dogmático, ou como fórmula para governos revolucionários do futuro, a Comuna de Paris foi, para Marx, ‘uma forma política totalmente expansiva ao passo que todas as outras formas anteriores de governo haviam sido enfaticamente repressivas’”.

3. São amplamente conhecidas as observações, textos e estudos de V. Lênin alisando as relações da experiência da Comuna de 1871, a revolução e o Estado, notadamente sua célebre obra “O Estado e a revolução” (1917). Mas é pouco conhecido seu artigo, bem anterior, para o jornal “Proletari” (nº 8, de 17 (4) de julho de 1905). Seguindo observações dialéticas de Marx, é precisamente nesse texto que Lênin afasta qualquer vestígio de interpretação mecanicista ou dogmática, já anunciando que não se poderia repetir tal processo nas condições históricas e sociais da velha Rússia. Não se repetir tampouco copiá-la. Conclui ali, Lênin:

“Por último,(…) ao tirarmos ensinamentos da Comuna de Paris, não devemos repetir os seus erros (não tomaram o Banco de França, não empreenderam a ofensiva contra Versalhes, não elaboraram um programa claro, etc.), mas os seus passes práticos que tiveram êxito e que apontaram o caminho certo. (…)nem repetir cegamente todas as suas diretivas; pelo contrário, devemos fazer por que ressaltem as diretivas programáticas e práticas correspondentes ao estado de coisas existente na Rússia(…)”. [25]

À guisa de conclusão

O constructo teórico-epistemológico de Karl Marx se funda no materialismo dialético, que desenvolve uma nova e revolucionária interpretação da história a partir daí. O marxismo de Marx (de Engels e de Lênin), sua teoria, opera extremos esforços da inteligibilidade humana perseguindo não se separar do sempre rebelde movimento da matéria. Só o interpreta como dogma é quem subjetivamente o deseja. Entronizado na práxis política, orienta e organiza a ação transformadora. Esta teoria do conhecimento, caminha (estagna ou retrocede) conforme a dinâmica material das conexões internas do fenômeno: as contradições. Ou, como iluminou Marx ao posfácio da 2ª edição alemã de “O capital”, [26] distinguido – indelevelmente – o “oposto” de seu método, ao de G. Hegel:

“A investigação tem que apoderar-se da matéria, em seus pormenores, de analisar suas diferentes formas de desenvolvimento, e de perquirir a conexão íntima que há entre elas. Só depois de concluído esse trabalho, é que se pode descrever, adequadamente, o movimento real. Se isto se consegue, ficará espelhado, no plano ideal, a vida da realidade pesquisada, o que se pode dará a impressão de uma construção a priori”.

Devastador, o método do qual irradia a configuração teórica de Marx não se presta a servir a devaneios subjetivistas e anticientíficos. Sim, Marx não só construiu a façanha de produzir uma síntese da economia política inglesa, da filosofia clássica alemã e do socialismo francês a cimentar os alicerces de sua obra, simultaneamente a uma fecunda e poderosa ruptura epistemológica.

Não à toa o destacado pesquisador da Mega2 [27] Rolf Hecker afirma que uma coisa são os escritos de Karl Marx, mais recentemente complementado – esta é a palavra – por manuscritos em grande parte inéditos; outra, são os que professam ter Marx espraiado “utopias”, “teleologias”, ou que erros graves foram cometidos e responsabilizados em nome de sua teoria.

Ora, segundo assevera ipsis verbis o professor Hecker, gigantes do pensamento como Marx não podem ser apagados da memória simplesmente por mudanças sociais, independentemente da maneira como elas sejam julgadas. Afinal, diz por exemplo Hecker:

“O próprio Marx dizia não ser nenhum marxista, preferindo para sua teoria o termo ‘socialismo científico’. Dessa forma, ele se delimitava de outros projetos estatais e sociais, classificados por ele como ‘socialismo utópico’ ou ‘anarquismo’”. [28]

Pouco antes escrevera Hecker uma espécie de (esclarecedor) paradoxo, afirmando que, sobre o capitalismo, Marx escreveu muito, ainda que pouco tenha experimentado dele; todavia sobre o socialismo, “Marx não escreveu quase nada, apesar de ter sido responsável por ele” (op. cit., p.13).

De outra parte, são consagrados os estudos de Nicola Badaloni [29] relacionando as concepções de Marx sobre socialismo e liberdade, exatamente sem que esta relação não se oriente pela luta política. Badaloni considera usar Marx “o método das abstrações transitórias”, onde: a) o desenvolvimento da produtividade do trabalho é compreendido na “luta pela libertação das massas”; b) libertação que se afirma pela luta de classes num processo histórico, na difusão cultural, na redução do poder e da propriedade das camadas superiores; c) o que pode ser possível se a compreensão do capitalismo enxergue blocos analíticos desta sociedade como um conjunto, isto é, onde os fenômenos sejam processo transitórios, e não “em estado puro”.

Numa mesma angular, é no excelente estudo “Os caminhos da liberdade no jovem Marx. Da emancipação política à emancipação social”, [30] que Julia Vieira procede a uma interpretação (dialética) crucial acerca do entendimento avançado de Marx dessa mesma temática – sepultando as tolices dos que julgam Marx portador de uma “razão libertária” caudatária do iluminismo. Porque – escreve ela -, se ainda entre 1837 e 1842 a finalidade da emancipação dos homens passa pela desconstrução da alienação da razão via “desenvolvimento do sufrágio universal e da educação” da consciência humana no bojo da emancipação política,

“Entre o jovem Marx republicano e o jovem Marx comunista há assim um mesmo horizonte de dissolução das cadeias dos homens entendidas como alienações: a autonomia como princípio do humanismo. A dissolução do poder de determinação da ordem social permanece como condição para ao desenvolvimento da liberdade no sentido da dissolução do poder público formal, o que mantém irrealizadas a justiça, a igualdade e a liberdade declarada no direito positivo”.

Marx Condenado pelos erros dos “marxistas”?

Escoimando o falso veredito, outro pesquisador – “L’ultimo Marx” -, Marcello Musto, quando narra os ataques de Marx ao uso de “certa fraseologia ultrarrevolucionária” entre seus partidários, recorda que ele considerava vazia, e assim posições perfeitamente delegadas aos anarquistas, estes “os pilares da ordem existente, não criadores da desordem”. [29] E adverte: Karl Marx, igualmente ficava furioso com os que se declaravam seguidor de suas ideias sem as conhecer: “Tudo o que sei é que não sou marxista” (Op. cit., p. 129).

Marx respondia assim às “opiniões” fantasiosas de que a sua teoria revelar-se-ia responsável por falcatruas e desastres em seu nome.

*Este texto é desdobramento de: “O nosso Marx – e a velha esquerda”, publicado no Portal Vermelho,  em grabois.org.br e no blog do Renato Rabelo

NOTAS

[1] Ver: “Marx ‘filósofo’”, I. Mészaros, em: “História do marxismo 1. O marxismo no tempo de Marx”, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980, pp. 160-1.

[2] Em: https://jornalistaslivres.org/the-economist-implora-um-reformador-pelo-amor-de-deus/

[3] Citado por Michael Roberts, em: http://www.sinpermiso.info/textos/marx-200-carney-bowles-y-varoufakis

[4] Em: Editora Contraponto, Rio de Janeiro, 2004, p.19.

[5] Ver: “Materialismo e empiriocriticismo. Notas críticas sobre uma filosofia reacionária”, V. I. Lénine, Lisboa/Moscou, Avante!, 1985, p.103.

[6] Ver: “A epistemologia”, G. Bachelard, Lisboa, Edições 70, 2006, p.165. Também Cf. Vincent Bontems, “Bachelard”, São Paulo, Estação Liberdade, 2017, p. 33: “[Em Bachelard] “o espírito científico progride sempre por uma retificação de seus conhecimentos que permitem sua extensão”.

[7] Ver: G. Bachelard, Op. cit., Rio de Janeiro, Contraponto, 2004.

[8] “Essa harmonia que a inteligência humana crê descobrir na natureza existirá fora dessa inteligência? Não, sem dúvida é impossível uma realidade completamente independente do espírito que a concebe, vê ou sente”. Ver: H. Poincaré, “O valor da ciência”, Rio de Janeiro, Contraponto, 1995, p. 9, 4ª reimpressão.

[9] Ver: “A física do século XX”, M. Paty, São Paulo, Ideias & Letras, 2009, p.31.

[10] A discussão desse ponto baseia-se amplamente em: “Da utopia dos mundos sonhados à transformação prática das realidades”, de J. Barata-Moura, e não à toa publicado exatamente na obra coletiva “Karl Marx: desbravando um mundo novo no século XXI” (2018), apresentada no referido seminário a da Fundação Maurício Grabois.

[11] Ver: “Pós-modernismo e a atualidade da teoria marxista”, Madalena G. Peixoto, Revista Princípios, nº 150, São Paulo, Anita Garibaldi, 2017, pp. 58-67. Peixoto distingue bem as contribuições de Frederic Jameson e David Harvey, das alinhadas com o “fim do marxismo” de F. Lyotard e J. Braudillard.

[12] Ver: “Do socialismo utópico ao socialismo científico”, F. Engels, Obras Escolhidas Marx-Engels, V. III, Lisboa/Moscou, Avante!/Progresso, 1985, pp.140-1.

[13] Marx, Apud: Barata-Moura, 2018, op. cit. p. 57.

[14] Em: Editora Instituto Piaget, Lisboa, 2005, p. 616.

[15] Ver: Lukács, op. cit, pp. 49-50, V. II, São Paulo, Boitempo, 2013.Teodiceia: do grego= justiça, processo, justificação. Em sentido estrito, teodiceia é colocada a todo filósofo e a todo teólogo que concebe um mundo governado ou criado pelo Bem (Platão, santo Agostinho, Malebranche. “O sistema dialético de Hegel, em seu conjunto, pode ser considerado como uma forma de teodiceia”. Ver: “Novo Dicionário da Filosofia e das Ciências Humanas”, op. cit., p.623.

[16] Em: Editora Boitempo, São Paulo, 2017.

[17] Marx, 2017, op.cit., Apresentação de A. Albinati, p.10.

[18] Ver: “Cadernos de Paris & Manuscritos econômicos-filosóficos de 1844”, Karl Marx, Apresentação de J. Paulo Netto, São Paulo, Expressão Popular, 2015, notas 18-19, pp. 114-115.

[19] Embora Albinati referencie-se em Aguste Cornu para considerar “idealista” a análise de Marx sobre o materialismo de Epicuro (pp. 15-16).

[20] Moloch, na referência bíblica, era o nome do deus ao qual os amonitas (etnia de Canaã ou de povos presentes na península arábica e na região do Oriente Médio) cultuavam. Também é o nome de um demônio na tradição cristã e cabalística, e, nos rituais de adoração, havia atos sexuais e sacrifícios de crianças, jogando-os em uma fogueira.

[21] Delfos refere-se a uma atual moderna cidade grega e ao local que, na antiguidade servia de oráculo ao Deus Apolo. Delfos era considerada pelo mundo grego “o centro do universo”.

[22] Em: “O leitor de Gramsci. Escritos escolhidos 1919-1935”, C. Nelson Coutinho (org.), Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2011.

[23] Ver: “O leitor de Marx”, J. Paulo Netto (org.), “Introdução”, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012, pp. 32-33.

[24] Em: Jorge Zahar Editor, Verbete Comuna de Paris, editado por Tom Bottomore, Lawrence Harris, V. G. Kierna, Ralph Miliband coeditores, Rio de Janeiro, 1988, pp.70-71.

[25] Ver: “A Comuna de Paris e as tarefas da ditadura democrática”, V. I. Lénine, 1905. Em: https://www.marxists.org/portugues/lenin/1905/07/17.htm#topp

[26] Ver: “O capital (Crítica da economia política) Livro 1, v.1 : O processo de produção capitalista”, Rio de janeiro, Civilização Brasileira, 1968, p. 16.

[27] Entre 1975 a 1989, organizada para ter 165 volumes, o projeto, então, de Moscou-Berlim, da MEGA2 sumariava: I) Obras, Artigos, Rascunhos (35 volumes); II) O capital e os escritos preparatórios (15 volumes) III); Correspondência, agora completa, com as cartas dirigidas a Marx e Engels (40 volumes); IV) Notas, material manuscrito adicional e apontamentos de livros (75 volumes). Mais de 40 volumes publicados, a sabotagem e desagregação do socialismo real do Leste europeu interrompeu e quase liquida a nova empreitada. Pesquisadores da “Fundação Internacional Marx-Engels” (IMS) de Amsterdam e a Academia de Ciências de Brandemburgo (Berlim) retomaram a iniciativa. Sediada em Berlim, redefiniu-se para 114 volumes, nas mesmas seções indicadas, e até 2013 mais 20 volumes foram publicados. Detalhes em: “Da política à filologia: a Marx-Engels Gesamtausgabe”, de Gerald Hubmann, Crítica Marxista nº34, 2012; também “‘O capital e seus escritos preparatórios’: sobre o lançamento do volume 4.3 da MEGA’”, de Jorge Grenspan, Crítica Marxista nº 37, 2013.

[28] Ver: “Marx como pensador. Novos resultados do trabalho de pesquisa sobre sua obra e biografia”, R. Hecker, São Paulo, Fundação Maurício Grabois/Anita Garibaldi, p.15.

[29] Ver: “Marx e a busca da liberdade comunista”, N. Badaloni, “História do marxismo”, vol 1, E. Hobsbawm (org.), Rio de janeiro Paz e Terra, 1979, p. 251.

[30] Em: Anita Garibaldi/Fundação Mauricio Grabois, São Paulo, 2017, pp. 317-319.

[31] Ver: “O velho Marx”, M. Musto, São Paulo, Boitempo, 2018, pp.126-9. Óbvio que “último” não quer dizer “velho”, portanto distorcida a tradução do original italiano de 2016.

Ver, compreender e agir https://bit.ly/3Ye45TD