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18 janeiro 2024

Enio Lins opina

As milícias bolsonaristas e o ódio à educação cidadã

Enio Lins*


Mentes ingênuas seguem imaginando que a guerra da Democracia e da Liberdade contra as falanges do bolsonarismo estaria finda depois das vitórias nos dois turnos das eleições 2022 e na derrota do golpe miliciano de 8 de janeiro de 2023. Erro infantil.

Repetindo o já escrito aqui e alhures, o bolsonarismo apenas canaliza a maldade, a degenerescência, a corrupção e a covardia que saíram do armário ao longo dos últimos 10 anos – e eclodiram dessas trevas num desbunde apoteótico.

Essas variadas excrescências existem para além do falso messias e tão-somente encontraram em Jair o ser maldoso, degenerado, corrupto e covarde feito sob medida para representar esses ideários em nome “da pátria, de deus e da família”.

DESEDUCAR COMO PRINCÍPIO

Reportagem publicada no site The Intercept, segunda-feira, 15, desnuda as iniciativas de infiltração de grupos bolsonaristas na Conferência Nacional da Educação (CONAE), a ser concluída nos dias 29 e 30 de janeiro.

Escreve o jornalista Paulo Motoryn: “Uma mobilização secreta de grupos bolsonaristas está se preparando para influenciar a Conferência Nacional de Educação com pautas de extrema direita. O objetivo declarado da força-tarefa é ‘formar famílias em todos os estados brasileiros’ para lutar contra o ‘aparelhamento ideológico da educação’”.

Secreta não é mais, isto é certo. O incerto é se a subversão bolsonarista vai conseguir melar o CONAE, e frente a esse risco não cabe vacilação – 8 de janeiro tem de servir como alerta permanente. Golpe é o nome dessa familícia espelhada e espalhada Brasil afora.

Alvo estratégico dessa turma (que inventou falsidades como o “Kit Gay”) é a educação cidadã, laica e libertária – que, por sinal, não é praticada inteiramente em nenhum lugar do Brasil. Mas esses grupos reacionários querem impedir qualquer chance de desenvolvimento de processos educacionais mais elaborados em solo nacional.

Questões essenciais da civilidade, como educação sexual, filosofia e outras temáticas humanistas são demonizadas e vociferadas em contrário a plenos pulmões por grupos que silenciam sobre abusos de religiosos, são coniventes com tentativas de golpe, e têm como mito um miliciano que, acintosamente, é usuário confesso dos 10 pecados capitais.

NÃO FUGIR DA LUTA É A QUESTÃO

Esses grupos precisam ser enfrentados cotidianamente, pois é o futuro que está em jogo. Ter uma educação isenta de preconceitos e doutrinações é a meta. E o que são preconceitos e doutrinações nas escolas? São todos os formatos excludentes, proposições pedagógicas que cerceiem o debate e discriminem a cultura universal.

Essas tendências partidárias, reunidas no tal “Escola sem Partido”, estiveram à frente do MEC entre 2019 e 2022, na gestão mais desastrosa da história, onde quatro desqualificados ocuparam o posto de Ministro (um quinto bolsonarista não tomou posse porque teria falsificado o currículo) e meteram as patas traseiras pelas dianteiras.

Um dos ministros bolsonaristas dessa safra podre, Milton Ribeiro, chegou a ser preso pela Polícia Federal, no dia 22 de junho de 2022, juntamente com dois outros pastores, por suspeita de “operar um ‘balcão de negócios’ no MEC e na liberação de verbas do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação)” – reportou a BBC.

A VOLTA DOS QUE NÃO FORAM

É essa turminha abominável que quer voltar a crescer e manipular os destinos da educação no Brasil. Tendência que não sumiu do mapa com as derrotas nos dias 2 e 30 de outubro de 2022, e nem após a frustrada tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023.

Querem porque querem impor suas pautas de deseducação, como analisado por Rafael Guimarães e Cleber Oliveira (Revista Eletrônica da Educação, 29/10/2020), “a deslegitimação do conhecimento, em especial das Ciências Humanas e Artes, as teorias alarmistas sobre balbúrdia nas Universidades, a inversão acusatória contra opositores”.

Alerta total contra essa gente! Impedir qualquer retrocesso na Conferência Nacional da Educação é a missão cidadã da hora.

Milei ridículo em Davos http://tinyurl.com/yc2zmzbu

28 julho 2009

Uma análise do papel atual da UNE

Na Carta Maior, por Tiago Ventura e Joanna Paroli*
A UNE no rumo certo

A imprensa brasileira não quis informar à sociedade que o apoio da Petrobras se deu também no 50º Congresso da UNE, realizado em 2007. Neste encontro, a entidade levou, em parceria com a Coordenação dos Movimentos Sociais, mais de 8 mil estudantes às ruas exigindo o "Fora Meirelles", demarcando a sua posição de discordância com a política econômica do Governo Federal e a sua autonomia política.

Nos dias 15 a 19 de julho, jovens de todos os estados do País se reuniram para realizar o 51º Congresso da União Nacional dos Estudantes. Contando com a participação de mais de 10 mil estudantes, com delegados eleitos em 92 por cento das universidades brasileiras, o encontro entrou para história como o mais representativo da entidade, reforçando a história de lutas e legitimidade da UNE no seio dos estudantes e do movimento social brasileiro.

O 51º Congresso da UNE teve como marco comemorativo os 30 anos do Congresso da UNE de Salvador, realizado em meio à ditadura militar na perspectiva de refundar a entidade, até então fechada e perseguida pelo governo militar, colocando-a ativamente na luta pela redemocratização do País. Dessa forma, um dos pontos altos do 51º CONUNE se deu em torno do direito à memória dos estudantes perseguidos e mortos durante a ditadura, como o presidente da UNE “desaparecido” Honestino Guimarães, e dos militantes envolvidos nos processos de contestação dos anos de chumbo, como a guerrilha do Araguaia.

Outros momentos importantes fizeram parte desse Congresso. A realização do ato público em defesa da Petrobras, que se desdobrava na campanha contrária à CPI instaurada pela direita privatista contra a empresa, pelo fim dos leilões de petróleo e pela criação de uma empresa estatal para exploração da camada pré-sal. O ato reforçava a luta histórica da UNE por uma nova concepção de Estado, na qual bens estratégicos como o petróleo devem ser encarados e explorados a partir do seu caráter público, tendo como finalidade o combate às desigualdades sociais, em contrapartida ao desejo da direita, que gostaria de ver a Petrobras privatizada nas mãos do capital financeiro mundial. A UNE continua na vanguarda dos movimentos sociais quando colocou, na última gestão, a Campanha pela Legalização do Aborto como pauta prioritária e a construiu nas universidades de todo o país. Nesse Congresso, dezenas de estudantes uniram-se ao Ato contra a CPI do Aborto, instaurada na Câmara Federal, reafirmando o compromisso da UNE com a luta feminista e por uma educação libertária e livre de todas as opressões.

Por fim, o 51º CONUNE reafirmou, ao longo de todas as suas atividades, principalmente nas resoluções aprovadas na plenária final, a opção acertada de diálogo com a sociedade brasileira que a UNE trilhou no último período, reconhecendo os avanços e as contradições do Governo Lula, e dos governos populares da América Latina, entendendo que somente por meio da mobilização e pressão dos movimentos sociais é possível aprofundar as mudanças e construir alternativas ao mercado e ao sistema capitalista consolidado na sociedade mundial.

Foi precisamente no sentido de reforçar o diálogo e a necessária disputa de rumos que ocorreu a participação do Presidente Lula, a primeira participação de um presidente da República em um congresso estudantil na história do país. A atividade foi marcada pelo tom crítico dado pela intervenção da ex-presidente da entidade Lúcia Stumpf, exigindo assistência estudantil aos estudantes do Prouni, a ampliação e aplicação do programa somente em universidades que possuam pesquisa e extensão e a auditoria das contas das universidades que recebem a isenção, reforçando a inclusão de parcelas expressivas da população no ensino superior e construindo marcos regulatórios importantes do ensino privado.

Como era de se esperar, no decorrer do Congresso, e, principalmente, ao seu final, a grande mídia conservadora e monopolista – com destaque negativo para a Folha de São Paulo e as Organizações Globo - produziu uma série de matérias questionando as atividades construídas ao longo do evento, acusando a entidade de estar atrelada ao Governo Federal por receber apoio para realização do Congresso da Petrobras e de ter “abandonado a educação e as bandeiras históricas”, ignorando as resoluções aprovadas após cinco dias de debates. Os ataques chegaram ao cúmulo de tentar desmoralizar individualmente o estudante Augusto Chagas, recém-eleito presidente da UNE.

Trata-se de uma nítida tentativa de criminalizar e desqualificar a atuação de uma entidade que possui 72 anos de história em defesa do povo e da juventude brasileira, exemplificada na campanha do "Petróleo é nosso", na luta pelas reformas de base e contra a ditadura militar, nas lutas pelas "Diretas Já" e pelo "Fora Collor" e na resistência à privatização da Universidade Pública, organizada pelo Governo FHC na década de 90. Enquadra-se no contexto de perseguição organizada pelos setores conservadores, com braços infiltrados desde o Poder Judiciário até o Senado Federal, aos movimentos sociais combativos da sociedade brasileira, como os lançados recentemente contra o MST e o MAB, enxergando-os como organizações terroristas, organizadas pelo Governo a partir da liberação de verbas públicas. O enredo é sempre o mesmo, pois ao lado dos movimentos sociais se encontra a UNE, e do outro lado se encontra a aliança Demo-Tucana, que tem a imprensa monopolista como grande porta-voz.

A imprensa brasileira não quis informar à sociedade que o apoio da Petrobras se deu também no 50º Congresso da UNE, realizado em 2007. Neste encontro, a entidade levou, em parceria com a Coordenação dos Movimentos Sociais, mais de 8 mil estudantes às ruas exigindo o "Fora Meirelles", demarcando a sua posição de discordância com a política econômica do Governo Federal e a sua autonomia política, que é constantemente reafirmada na política de boicote ao ENADE, nas críticas à política de comunicação e nas exigências de se avançar cada vez mais nos investimentos e democratização da Universidade brasileira, derrubando, por exemplo, os vetos dados pelo Governo FHC ao Plano Nacional de Educação e a manutenção da Desvinculação da Receita da União na área da educação.

As críticas e a perseguição por parte da imprensa são resultados sobretudo da política acertada da entidade e das resoluções aprovadas no Congresso. Ocorrem porque a imprensa das elites brasileiras é contra a inclusão do setor privado no Sistema Nacional de Educação e a ampliação de vagas nas Universidades Públicas, em especial para os negros e negras filhos da classe trabalhadora; é contra a luta pela autonomia das mulheres e obtêm lucro com a mercantilização de seus corpos e suas vidas; é contra a realização da Conferência Nacional de Comunicação e a construção de um sistema público de comunicação; é contra a abertura dos arquivos da ditadura militar, porque se encontra envolvida com os porões da chamada "ditabranda", conforme editorial da Folha de São Paulo; e, acima de tudo, ataca a Petrobras e a UNE por ser contrária à criação de uma Estatal para a exploração da camada pré-sal com seus lucros voltados prioritariamente para educação, saúde e desenvolvimento social.

À imprensa conservadora resta a UNE responder: se assim não fosse, estaríamos preocupados, se estivessem contentes, estaríamos no caminho errado. Vida longa aos 72 anos de luta e combatividade da União Nacional dos Estudantes.
*Tiago Ventura é Vice-Presidente da UNE e Joanna Paroli é Diretora da UNE, ambos eleitos no 51º CONUNE

18 outubro 2024

Professores: o mito da eficiência

Raízes da letargia neoliberal nas escolas 
Sob o mito de “eficiência”, avaliações individuais, feedbacks e competição arruinam a saúde mental de professores. Porém, esse sistema é naturalizado e gera autoculpa. O Ensino deve matar esse zumbi gerencial que visa impor o realismo da precarização
Ednei de Genaro, em A Terra é Redonda/Outras Palavras  

Em 2009, Mark Fisher publicou um livro seminal — Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo — para a compreensão e atualização, no contexto do século XXI, da “lógica cultural do capitalismo tardio”, tal como Fredric Jameson preconizou, em 1991, em Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio.

Mark Fisher foi professor em instituições públicas de ensino na Inglaterra, lecionando em universidades e em programas de “educação continuada” (futher education), oferecidos a qualquer pessoa maior de 16 anos que deseje realizar cursos diversos de aperfeiçoamento ou obtenção de novas habilidades de trabalho; ou seja, no mais das vezes, um programa de especialização e de reciclagem da classe trabalhadora do país. Em sua referida obra, tais experiências enquanto profissional da educação mobilizam exemplos diversos e emblemáticos da cultura contemporânea. 

Levando em conta isso, buscarei aqui recuperar as fecundidades e sofisticações das respostas de Mark Fisher sobre o estado psicossocial realista capitalista, tendo em vista, bem particularmente, as questões e problemas referentes à escola pública, onde parece ser mais fácil imaginar o fim das escolas públicas do que o fim do gerencialismo de autoculpabilização dentro delas.

Sobre os processos diversos de neoliberalização e mercantilização do ensino, quem ainda procura pensar nisso? De outro modo, como podemos nos desembrutecer acerca dessa “coisa inominável”, sem nenhuma lei transcendente, sem limites, infinitamente plástica, que é o capitalismo? Perguntas em tom retórico, em primeira instância, para lembrar a situação atual de desengajamento e a deflação depressiva decorrentes da normalização das crises — tendo em Mark Fisher a obra literária distópica Filhos da Esperança, de P. D. James ([1992] 2013), e a adaptação cinematográfica homônima, de Alfonso Cuarón, como icônicas da ascensão do ultra-autoritarismo e ultracapitalismo, de destruição massiva dos espaços públicos, algo já presente entre nós, mas com consumação em um futuro próximo.

Uma situação, enfim, que se metamorfoseia sobretudo em posicionamentos de mundo hedonistas niilistas, escreve Mark Fisher, de modo que o aprendizado de convicções políticas e atitudes é substituído pelo desengajamento e pela observação voyeurística do mundo (Fisher, 2020, p. 13). O realismo capitalista é “[…] análogo à perspectiva deflacionária de um depressivo, que acredita que qualquer estado positivo, qualquer esperança, é uma perigosa ilusão” (Idem, p. 14).

Ao absorver toda contraposição, ao usurpar o tempo livre e ao anular qualquer atitude alternativa e independente, o capitalismo contemporâneo funciona “sem um exterior”. Do rock ao hip hop, passando pelo atual ideal gangster — para citar as exemplificações culturais marcantes de Fisher — a busca é de autenticidade e… conformação à guerra hobbesiana de todos contra todos, condicionando a produção da cultura, da educação e do trabalho. “Cair na real” significa hoje a construção de competências e friezas para o distanciamento cínico, longe assim do crítico e destinado à práxis. A ironia anticapitalista, presente agora até em filmes da Disney, “[…] mais alimenta do que ameaça o realismo capitalista” (Idem, p. 25-6).

É precisamente nestas posturas que as formas ideológicas capitalistas se reavivam. Sobre isso, segue um trecho da obra Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia, de Slavoj Žižek (1992), conforme citado por Mark Fisher: “O distanciamento cínico é só uma maneira […] de fechar os olhos para o poder estrutural da fantasia ideológica: mesmo quando não levamos as coisas a sério, mesmo quando mantemos um distanciamento irônico, nós as continuamos fazendo” (Žižek apud Fisher, 2020, p. 26).

A fantasia ideológica cínica é complementada pela inviabilidade do desempenho de uma crítica moral do capitalismo, tornada inócua, uma vez que “pobreza, fome e guerra podem ser apresentadas como aspectos incontornáveis da realidade” (Fisher, 2020, p. 35), somente reforçam o realismo capitalista, de modo que a reativação da crítica/práxis, propõe Mark Fisher, exige uma inflexão, explicitando a burocracia, que “em vez desaparecer, mudou sua forma” (p. 38) e a resultante disso, o problema de saúde mental, isto é, “o caso paradigmático de como o capitalismo realista opera” (Idem, p. 36-7), enquanto as duas aporias, por excelência, do capitalismo contemporâneo, que ensejam transtornos e aborrecimentos na população em geral, e nos expedientes das escolas públicas, de maneira muito representativa.

A abolição do otium e a transformação da escola em espaços constituintes e integrados ao negotium é um problema enraizado na própria gênese das escolas públicas na modernidade. Fato que assinalou o paradoxo de sua origem no mesmo ato de destruição do seu sentido autêntico, ou seja, da escola (scholé) como o lugar do tempo livre, de retiro, do repouso; em outras palavras, do tempo disponível à ocupação intelectual, aos estudos científicos diversos, à filosofia e à política. A dimensão do negotium em ambiente escolar se transfigurou e agravou com o modelo neoliberal introjetado no nível psicossocial das vivências e relações públicas. 

Segue a resposta de Mark Fisher ao mito da descentralização como fim da burocracia, prescrevendo a própria definição do modelo neoliberal de gestão escolar: “O fato que medidas burocráticas tenham se intensificado sob governos neoliberais que se apresentam como antiburocrático e antiestalinista pode, a princípio, parecer um mistério. No entanto, viu-se, na prática, proliferar uma nova forma de burocracia — uma burocracia de ‘objetivos’, dos ‘resultados esperados’, das ‘declarações de princípio’ — ao mesmo tempo em que ganha força a retórica neoliberal sobre o fim do comando vertical e centralizado. Pode parecer que essa volta da burocracia é algo assim como um retorno do reprimido, ironicamente reemergindo no coração de um sistema que jurou destruí-lo. Mas seu triunfo no neoliberalismo é bem mais que um atavismo ou uma anomalia” (Fisher, 2020, p. 72).

Nem atavismo e nem anomalia sociais, mas, sim, uma ordem constituída: o “stalinismo de mercado”. De forma sutil, a burocracia reemerge com novas técnicas e se intensifica. “A avaliação periódica dá lugar a uma avaliação permanente e onipresente, que não pode deixar de gerar uma ansiedade perpétua” (Idem, p. 87), ao impor “[…] à força a responsabilidade ética individual que a estrutura empresarial desvia” (Idem, p. 116).

Assim, a metabolização simbólica das classes sociais se manifesta: a responsabilidade recai em relação às tarefas e processos dos indivíduos, a despeito da estrutura social ou da instituição, alterando, pois, a própria lógica de visibilidade e estruturação dos papéis sociais, com base em dois clichês dominantes: culpar a estrutura é apenas desculpa invocada pelos fracos — o “choro dos fracos”; cada indivíduo deve dar o máximo de si para se tornar aquilo que aspira a si — o “voluntarismo mágico”, sendo estes clichês, como escreve Fisher, “[…] a ideologia dominante e a religião não oficial da sociedade capitalista contemporânea […]” (Idem, p. 140), que esculpem a mentalidade capitalista.

Os mecanismos individuais de avaliação e autoculpabilização são a chave para se gerir, conservar e desresponsabilizar a ordem institucional, mantendo seus vícios e defeitos, inclusive nos “espaços de lazer e tempo livre”, as escolas. Tudo se conserva, engolindo todos na epidemia da cultura de auditorias internas e externas, por ranqueamentos, classificações e titulações infinitas de produtividade, alimentados por dados, informações e processos compostos e insertado nos sistemas enquanto o âmago do trabalho educacional. O delírio psicológico burocrático é tanto uma violência à saúde mental dos profissionais de educação quanto a destruição de espaços coletivos e deliberativos, como colegiados de instituições de ensino, que se transformam em reuniões de feedbacks, e de espaços formativos, que se tornam treinamentos.

O gerencialismo de autoculpabilização é a perda do sentido de gerência coletiva. A descentralização e a competição entre os pares são meios para o controle e a despotencialização do coletivo subordinado. A precarização do educador, por meio de contratos temporários e sobrecarga de trabalho, arremata a condição de informalidade causal e autoritarismo silencioso que pairam sobre as cabeças dos trabalhadores.

Em resumo, uma trapaça. “As metas rapidamente deixam de ser um meio para avaliar e tornam-se a finalidade em si” (Idem, p. 77), a fim de que continuamente se repita o universo quantitativo de “valorização dos símbolos dos resultados, em detrimento do resultado efetivo” (p. 76). Lógicas falaciosas que coadunam com o espírito do capitalismo financeiro e de influencia em redes sociais, pois o valor gerado no mercado de ações e de monetizações depende menos do que um perfil ou uma empresa “realmente faz” e muito mais das percepções, visualizações e expectativas performáticas futuras (Idem, p. 77).

A ilusão de muitos que entram nas funções de gerência, com grandes esperanças, é precisamente de que eles, os indivíduos, podem mudar as coisas, que não vão repetir o que seus gerentes fizeram, que as coisas serão diferentes desta vez. Mas basta prestar atenção a qualquer um que tenha sido promovido a um cargo gerencial para perceber que não demora muito tempo para que a petrificação cinza do poder comece a engoli-lo. É aqui que a estrutura é palpável: pode-se praticamente vê-la absorvendo e tomando conta das pessoas, ouvir os juízos moribundos/mortificantes da estrutura sendo vocalizados através delas. (Idem, p. 115-6).

A incerteza ontológica e a lógica falaciosa do gerencialismo de autoculpabilização são estratégias de adaptação e ruína da saúde mental dos educadores. Em termos deleuzianos e kafkianos, isto é, nas condições atuais de poder cibernético e distribuído das sociedades de controle, as aflições, os problemas e dilemas coletivos, tratados como assuntos individuais, são submetidos a uma “postergação indefinida”: o processo se prolonga, sem fim; as aflições, problemas e dilemas nunca se resolvem; pelo contrário, são resguardos por “policiamentos internos” e atarefamentos exaustivos, que agora se levam para casa.

Uma experiência de poder dominante que liquida a ideia de ponto central de comando. Um sistema que se quer sem “operadora central”, como previu Kafka (2005), em O processo. Em última instância, em caso de altercação sobre o poder e a responsabilidade, o procedimento geral é de denegação e anunciação de um “grande outro”: “o superior que cuida disso, desculpa”. No máximo, a responsabilidade recairá sobre “[…] os indivíduos patológicos, aqueles que ‘abusam do sistema’, e não o próprio sistema” (Idem, p. 116).

Ademais, escreve Mark Fisher, “os professores se encontram hoje sob a intolerável pressão de mediar a subjetividade pós-letrada do consumidor no capitalismo tardio e as demandas do regime disciplinar (passar nos exames e coisas do tipo)” (Idem, p. 49). Como se fossem um dos últimos representantes do poder panóptico, os professores, entre muros, carteiras e cadeiras, derivam seu público, composto por “desenraizados” e flexíveis, impacientes e dispersos, buliçosos pela ausência e pelo hedonismo permissivo dos pais, desde muito cedo ansiando em ser também como os seus célebres “empreendedores online” da cultura, vistos e comentados pelas redes sociais.

A “letargia hedônica” presente hoje nos jovens designa o ponto máximo de dissolução da cultura na economia cibernetizada, de controles automáticos sobre cognições e ambientes de trabalho/lazer. Em última instância, a programação massiva de modelos assincrônicos de educação a distância demarca o fim das instituições escolares.

Os sofrimentos e a paralisia psíquica dos professores são deliberadamente cultivados e tratados como “fatos naturais” e privados. As deteriorações da psique, da cultura, da educação e do trabalho têm obviamente razões para existir: permitir a submissão fatalista das pessoas. Ora, o descontentamento privatizado, a sorte de pelo menos ter um emprego e a aceitação de que as coisas vão piorar são propositados e explicam historicamente a destruição do “estado bem-estar social” a partir da ascensão do discurso neoliberal contra a classe trabalhadora.

Na Inglaterra, país de origem das primeiras experiências políticas neoliberais, uma das medidas inaugurais foi a abolição do leite nas escolas públicas, em 1971, no momento em que Margareth Thatcher era secretária de educação… Contudo, o neoliberalismo hoje não passa de um zumbi.

O neoliberalismo perdeu a iniciativa, e persiste inercialmente, desmorto, como um zumbi. Podemos ver agora que, embora o neoliberalismo fosse necessariamente “realista capitalista”, o realismo capitalista não precisa ser neoliberal. Para se salvar, o capitalismo poderia voltar a um modelo social-democrata ou a um autoritarismo do tipo que se vê no filme Filhos da esperança. Sem uma alternativa crível e coerente ao capitalismo, o realismo capitalista continuará a governar o inconsciente político-econômico. (Idem, p. 130).

De 2009 a 2024, foram os autoritarismos fascistas e neoreacionários que se desenvolveram no mundo todo, inclusive no Brasil, inclusive dentro das escolas públicas, com os projetos cívico-militares, entregando uma compleição moribunda às democracias e as faces mais violentas do zumbi neoliberal, ao escancarar a subordinação do Estado ao capital e ao manter monopólios e oligopólios como antimercados e espaços de articulação fascistas… Afinal, questiona Mark Fisher, como elaborar estratégias políticas para matar este zumbi? Como “[…] desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável”? (p. 142).

Um novo anticapitalismo, “[…] não necessariamente ligado a velhas tradições e linguagens […]” (Idem, p. 130), é possível, antes de tudo, a partir da rejeição das estratégicas que não funcionam, por exemplo: estratégias horizontalistas, de ação direta sem ações indiretas, devem ser rejeitadas. “Só a esquerda horizontalista acredita na retórica da obsolescência do Estado” (Idem, p. 148), que, pensando bem, faz deleitar o capital com a sua popularidade e inocuidade, pois aparecem como “[…] ruídos carnavalescos para o realismo capitalista” (Idem, p. 27). Por sua vez, “no caso dos professores talvez a tática das greves devesse ser abandonada, porque prejudicam apenas estudantes e membros da comunidade” (Idem, p. 131-2).

Onde se empenhar, afinal? Segue um trecho da resposta de Mark Fisher: “Se o neoliberalismo conseguiu triunfar ao incorporar os desejos da classe trabalhadora pós-1968, uma nova esquerda poderia começar agindo sobre os desejos que o neoliberalismo gerou, mas que não foi capaz de satisfazer. Por exemplo, a esquerda deveria argumentar que pode entregar o que o neoliberalismo falhou em fazer: uma redução massiva da burocracia. O que se faz necessário é travar uma nova batalha em torno do trabalho e de seu controle; uma afirmação da autonomia do trabalhador (em oposição ao controle gerencial) juntamente com a rejeição de certos tipos de trabalho (com a auditoria excessiva que se tornou uma característica tão central do trabalho no pós-fordismo). Esta é uma luta que pode ser vencida — mas apenas por meio da composição de um novo sujeito político”.

Esse novo sujeito não surgirá, pois, sem um enfoque nos elementos estruturais e nas falhas que produzem os efeitos negativos do neoliberalismo, algo que sensibilizaria e mobilizaria novamente as populações para as pautas de esquerda, a fim de que estratégias parlamentares, no seio Estado, resultem em mudanças estruturais da situação. Não obstante, na atual conjuntura brasileira, na última década, tal sensibilização e mobilização foram bem-sucedidas pela coordenação de grupos, recursos e desejos para as pautas de (extrema) direita, a partir do aproveitamento massivo das comunidades online solipsistas — “redes interpassivas de mentes semelhantes que confirmam, ao invés de desafiar, os pressupostos e preconceitos de cada um” (Idem, p. 126).

Na “guerra cultural” que se tornou a política contemporânea, o futuro das escolas públicas — e das instituições de ensino, em geral — depende imensamente da mudança de estratégias e de novos ventos na política. No Brasil, a precarização do trabalho, o gerencialismo de autoculpabilização e o modelo cívico-militar, que silenciam e dessolam a saúde mental dos professores e alunos, são prioridades na luta política progressista nas escolas públicas.

Ednei de Genaro é professor do curso de educação na Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT), Campus Tangará da Serra.


Referências

Fisher, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

James, P. D. Filhos da esperança. São Paulo: Editora Aleph, 2023.

Jameson, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1997.

Kafka, Franz. O processo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Žižek, Slavoj. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da ideologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

Leia também sobre a educação libertária https://lucianosiqueira.blogspot.com/search?q=Educa%C3%A7%C3%A3o+libert%C3%A1ria 

08 setembro 2023

Educação libertária

"No entanto, ela se move"

O conservadorismo sabe do papel político dos conteúdos escolares e elege a escola como sua inimiga. Isso mostra que o que ensinamos pode ter impacto no modo como os alunos pensam, sentem e veem o mundo. Em outras palavras, ter uma escola que ensine conhecimento científico, artístico e filosófico não é algo menor; trata-se de algo temido pelo bolsonarismo
Helio Messeder Neto/Le Monde Diplomatique



O que a escola deve ensinar? Essa pergunta está longe de ter respostas fáceis e não passa despercebida pelo debate público. Por exemplo, são muitas as publicações na internet que, em forma de memes, insistem em dizer: “Mais um dia se passou e eu não usei a fórmula de Bhaskara em nada na minha vida”. O debate sobre que tipo de conhecimento e como ele deve aparecer na escola é antigo, e as escolhas feitas têm estreita relação com o sujeito que queremos formar. Sim, toda nação (e cada escola) tem um projeto político-pedagógico; portanto, dizer quem queremos formar e para que é responder também sobre o que queremos ensinar na escola.

O conservadorismo sabe do papel político dos conteúdos escolares e, não à toa, elege a escola como sua inimiga. Em uma fala recente,¹ Eduardo Bolsonaro comparou professores a traficantes, afirmando que um docente doutrinador causaria discórdia na família, já que ensinaria crianças a ver opressão em tudo. Tal discurso faz, nas linhas e entrelinhas, uma convocação para que a família reconheça nos professores os inimigos que querem destruir seu lar e, mais do que isso, que os conceitos ensinados na escola precisam estar de acordo com os dogmas ensinados em casa; caso contrário serão considerados destruidores da família. Isso leva, claro, os professores a ficarem temerosos em ensinar certos conteúdos, como teoria da evolução, debates de gênero e sexualidade, questões raciais e sociais, que trazem resultados contrários ao q ue o conservadorismo considera ideal.

Poderia aqui seguir argumentando com os leitores que a escola tem problemas mais graves e dificilmente consegue realizar o trabalho de ensinar (de fato) esses conteúdos em sua plenitude, e que, diante das condições materiais concretas da escola pública, gastamos mais tempo de nossa aula tentando organizar minimamente a sala e gestando problemas de comportamento. Poderia acrescentar ainda que os alunos são sujeitos do processo educativo, ou seja, refletem sobre o que os professores dizem, não sendo simplesmente receptores passivos de informação.2 No entanto, o que quero destacar é que a preocupação do bolsonarismo acerca dos conceitos escolares nos mostra, por contraste, que o que ensinamos pode ter impacto no modo como os alunos pensam, sentem e veem o mundo. Em outras palavras, ter uma escola que ensine conhecimento científico, artístico e filosófico não é algo men or; trata-se de algo temido pelo bolsonarismo.

Tamanha é a importância dos conteúdos escolares como ferramentas para questionar a realidade que a defesa de seu esvaziamento não está apenas nos discursos inflamados dos bolsonaristas. O vácuo de conceitos se concretizou, em sua face perversa, com o Novo Ensino Médio (NEM). Está mais do que claro que o NEM oferece para nossa juventude da escola pública, cuja maioria é negra e periférica, uma formação precarizada, voltada para um mercado de trabalho sucateado, retirando ou diminuindo a carga horária de disciplinas básicas, como Química, Física e Sociologia, para em troca oferecer matérias que envolvem fazer brigadeiro gourmet.3 O que temos para nossa juventude é a retirada da possibilidade de aprender conteúdos escolares, os quais são substituídos por demandas pragmáticas, imediatas, que visam aprofundar a diferen&cced il;a de classes sociais no Brasil. A revogação do NEM é urgente, e o resgate de uma escola que defenda o ensino de conteúdos fundamentais é imprescindível.

Contudo, não é todo conteúdo escolar que terá esse papel de atuar sobre a visão de mundo do estudante. A crítica de Paulo Freire a uma educação bancária, que simplesmente ensina os alunos a decorar nomes e fórmulas sem sentido, deve ser feita e é legítima. A escola precisa pensar em um ensino de conteúdos que ajudem a entender a vida real, de carne e osso. Mas veja que eu disse a vida concreta, e não apenas o dia a dia. Entender a vida quer dizer compreender a riqueza, as potências e os limites do conhecimento humano produzido e como ele foi gestado coletivamente, imerso em contradições. Aprender sobre tais aspectos é importante mesmo quando, individualmente, não lidamos com esse conhecimento em nossa profissão. Não aprendemos a fórmula de Bhaskara na escola simplesmente porque vamos ou não usá-la em nosso cotidiano, mas aprendemos (ou deveríamos aprender) para entender que não existe um dia neste mundo que a tal fórmula, desde que foi descoberta, deixou de ser útil para a humanidade produzir, projetar e resolver inúmeros problemas relacionados à ciência e à tecnologia. Entender a vida real, coletiva em suas necessidades humanas, é central numa escola que nos quer mais humanos.

Defendo aqui, portanto, que cabe à escola ensinar Ciências da Natureza, Ciências Sociais, Artes, Filosofia, Educação Física, entre outras disciplinas, pautando-se no máximo que conseguirmos avançar em nossa história humana, mostrando também seus impasses e seus limites. Uma escola viva, que ajude o estudante a olhar não só para si, mas para o coletivo, a entender o mundo em movimento e, por isso, sentir a necessidade de transformá-lo diante das mazelas sociais.

Uma escola que ensinar conteúdos nos termos que aqui apresento será uma escola comprometida com a verdade histórica e, desse modo, ajudará a compor o antídoto contra as fake news que assolam nossa vida. O ensino da Matemática concreta ampliará nossa capacidade de raciocínio lógico; as Ciências da Natureza e Sociais nos ajudam a pensar o que fazer diante de dados e fatos; as Artes nos ajudam a entender o que somos, como e por que sentimos; a Biologia, a Sociologia e a Educação Física nos ajudam a pensar o que é a cultura corporal e como ela pode se expressar em mim e no outro; a Filosofia concreta nos ajuda a ter um olhar analítico sobre diferentes proposições do mundo e até mesmo sobre as religiões. A escola que ensina conteúdos vívidos se põe contra todos os mitos e contribui para a formação do tal pensamento crítico de que tanto ouvimos falar nos discursos educacionais.

Talvez o leitor possa pensar que este texto defende uma escola chata e conteudista, na qual jovens e crianças ficam o dia todo sentados na carteira. Não é verdade. Defender que a escola ensine conteúdos artísticos, científicos e filosóficos, em vez de bobagens pragmáticas neoliberais simplificadoras, significa defender uma escola rica, que pensa o sujeito como um todo e vai além da palavra vazia, buscando as melhores formas de ensinar (dentro das condições possíveis) para vincular a dor e a delícia da humanidade de produzir seu conhecimento apontando sempre para práticas mais coletivas e respeitosas.

Pessoas e livros já foram queimados quando ousaram defender a verdade. O conhecimento sempre foi combatido pelo conservadorismo. Galileu Galilei, diante do julgamento da Inquisição, teve de negar o heliocentrismo, mas reza a lenda que, ao abjurar o movimento da Terra, teria dito em voz baixa: “No entanto, ela se move”. 

Entendo que, nestes tempos de avanços obscurantistas, precisamos continuar – dentro de nossas possibilidades individuais e coletivas – disputando o conhecimento científico, artístico e filosófico, aprendendo com os que nos antecederam e lutando pela verdade histórica. Por mais que insistam que a escola precisa se silenciar em relação ao movimento da Terra, às questões da evolução da espécie, aos debates de gênero, ao socialismo e a tantos outros conteúdos importantes, seguiremos dizendo: “Apesar de tudo, ainda nos movemos”.

*Helio Messeder Neto é educador popular, professor de Química da UFBA e doutor em Ensino de Ciências pela mesma universidade. Contato: helioneto@ufba.br.

¹ “Eduardo Bolsonaro compara professores a traficantes; PF deve analisar fala”, CNN Brasil, 10 jul. 2023.

² Para ver essa discussão com detalhes, sugiro a leitura de Gaudêncio Frigotto (org.), Escola “sem” partido, LPP-Uerj, Rio de Janeiro, 2017.

³ “Após reforma do ensino médio, alunos têm aulas de ‘O que rola por aí’, ‘RPG’ e ‘Brigadeiro caseiro’”, Exame, 13 fev. 2023.

O caleidoscópico tempo presente https://bit.ly/3Ye45TD

21 outubro 2024

Postei no X

Em newsletter pró-mercado financeiro, a recomendação de que você deve se concentrar só no momento presente, sem preocupação com o futuro. Ou seja, "gado" não pensa; apenas trabalha. É a desumanização da existência. 

Leia sobre a educação libertária https://lucianosiqueira.blogspot.com/search?q=Educa%C3%A7%C3%A3o+libert%C3%A1ria

15 abril 2020

Germano Coelho, presente!


Germano Coelho, guerreiro do bem
Luciano Siqueira

Tristeza pela morte do amigo e companheiro de luta professor Germano Coelho.
Ao longo da vida - desde o início dos anos sessenta, quando Miguel Arraes era prefeito do Recife e Germano foi co-fundador e presidente do Movimento de Cultura Popular-MCP, aos anos recentes -, de Germano guardo na memória situações, diálogos e expectativas comuns.
Talvez mais ainda do que os dois mandatos de prefeito de Olinda e de sua rica trajetória de professor universitário, o MCP seja uma espécie de chave a partir da qual se pode ter a dimensão de sua presença na cena política pernambucana.
Ele próprio resgata essa rica experiência de sentido libertário no livro “História do Movimento de Cultura Popular”, onde aborda as escolas primárias nos bairros periféricos do Recife, as escolas radiofônicas para alfabetização de adultos, a educação sanitária, as primeiras experiências com o método de Alfabetização de Adultos proposto por Paulo Freire, o Teatro de Cultura Popular, os festivais de cinema e os laboratórios de teatro, a Galeria de Arte do Recife, o programa “Praças de cultura”, a valorização dos folguedos populares, os fóruns estudantis de cultura popular.
Com o golpe militar de 1964 o MCP foi ocupado por forças policiais e em seguida extinto.
Do MCP fui voluntário, ainda adolescente, levado pelas mãos do meu tio Paulo Rosas, amigo de Germano a vida inteira. No Sítio da Trindade e nas Praças de Cultura, onde comparecia aos fins de semana conduzido pela então jovem pedagoga Silke Weber – como a Praça do Salgueiro, na Iputinga – tudo para mim era descoberta e enlevo.
Vi e ouvi muito.
Um ambiente instigante, frequentado por Paulo Freire, Paulo Rosas, Luis Mendonça, e alguns mais jovens como a advogada Mercia Albuquerque e o ator Jose Wilker.
Depois, já sob o regime militar, no Clube Oswaldo Cruz de Ciências Naturais, que reunia colegas do curso médio, pretendentes a cientistas (o único que assim se fez foi Celso Pinto, hoje destacado físico, professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco), organizamos uma semana de debates numa das salas do Colégio Eucarístico, e Germano estre entre os palestrantes. Já quase ao final de sua fala, as luzes se apagaram, gerando certa apreensão: seria a repressão policial? Então, vislumbrando um fio de claridade vinda do corredor, ele proclamou:
- Enquanto houver uma réstia de luz seguiremos lutando pela democracia!
Sob entusiastas aplausos juvenis o debate seguiu, até que ao final a iluminação foi restabelecida.
Em outros momentos, percorrendo caminhos próximos na luta política, que se cruzaram muitas vezes, sobretudo na resistência à ditadura militar, beneficiei-me de encontros com Germano sempre voltados para a luta comum. Ele era um obcecado defensor da educação pública, gratuita, universal e de qualidade e da cultura como meio de expressão e de formação da consciência política do povo. Também sempre empolgado com a História e a tradição libertária de Olinda.
Mirando a formação de jovens prestes a ingressar no mercado de trabalho criou com amigos o CIEE-Centro de Integração Empresa-Escola, que perdura até hoje cumprindo papel social relevante.
Quando do meu último mandato de deputado estadual, por iniciativa de Germano fui homenageado com uma estatueta e um diploma alusivo à minha contribuição – que considero modesta – para o estreitamento das relações do CIEE com a Prefeitura do Recife.
Inevitável pensar que gerações que marcaram a luta pela Liberdade e pela Democracia vão se findando quando se vai um lutador como Germano. Gente que faz falta neste instante em que a sociedade brasileira se vê alvo de uma violenta tentativa de regressão civilizatória.
Mas de Germano ficam as ideias e o exemplo. E assim ele estará sempre presente em nossas trincheiras de luta, inspirando novas gerações de combatentes.

Se inscreva, fique sabendo https://bit.ly/2ySRLkm

11 outubro 2021

Poesia engajada e feminista

Homenageada da Bienal do Livro, Cida Pedrosa reafirma: "faço uma arte engajada feminista"

A pernambucana é a segunda mulher na história do evento a ser homenageada; Cida divide o tributo com Paulo Freire
Maria Lígia Barros,
Brasil de Fato

 

Poetisa, política e mulher: Cida Pedrosa é a homenageada da XIII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, ao lado do patrono da educação brasileira, Paulo Freire. O tributo sucede a consagração de Cida com dois prêmios Jabuti em 2020, tornando-a a primeira pernambucana a levar o Melhor Livro do Ano.

A autora participa intensamente na programação da Bienal, que se estende até a próxima terça-feira (13), apresentando leitura de poesias e participando de mesas redondas, debates e outras atividades voltadas para a contemplação de sua obra.

Escritora há mais de 40 anos e com dez livros publicados, Cida não dissocia sua arte do fazer político. Ao mesmo tempo em que se dedica à literatura, ela ocupa uma cadeira na Câmara dos Vereadores do Recife (PE) pelo PCdoB, tendo na sua bagagem passagens pelas secretarias de Meio Ambiente e da Mulher do Recife e uma trajetória longa de militância pelos direitos humanos.

“Escrever é um ato político, fazer arte é um ato político. Parte da minha obra é muito feminista, muito voltada para a denúncia social sem ser panfletária. Eu faço uma arte engajada feminista, e isso tem uma relação enorme com a política”, enfatiza a artista de 58 anos, natural de Bodocó, no Sertão de Pernambuco. 

O Jabuti, considerado maior prêmio literário do Brasil, marcou para Cida o reconhecimento não só do livro vencedor, “Solo para Vialejo” (Companhia Editora de Pernambuco), mas da sua carreira de luta pela literatura. “Ser artista no Brasil não é fácil. Ser artista da palavra, muito menos. E ser artista da palavra e escrever poesia, que é à margem da margem da margem, é mais difícil ainda. Mas eu estou firme e forte”, afirma. 

Agora é a vez de receber uma homenagem “em casa”, com a dedicatória da Bienal ao seu trabalho. “Me enche de alegria. Em 15 anos de Bienal, só duas mulheres foram agraciadas até agora - Luzilá Gonçalves, que é uma incrível romancista nossa, e agora eu. Eu fico muito feliz e divido esse prêmio com todas as mulheres”, comenta.

Para Cida, é “um encantamento” receber a homenagem junto a outro grande nome pernambucano, Paulo Freire, que, em 2021, completaria 100 anos. “Tenho profunda admiração por esse escritor, por esse pedagogo, por esse homem de luta. A construção dele é uma pedagogia da liberdade e se pautou na luta contra toda opressão e sistema opressor”, fala. Nesse sentido, os dois autores se aproximam: “Eu tenho uma poesia que tem função social. Eu escrevo com essa vontade de ser libertária também. Escrevo com esse mesmo princípio”, revela.

O produtor da Bienal, Rogério Robalinho, também enxerga uma congruência entre as ideias. “São pessoas que convergem com o que propusemos, que estão relacionadas com a educação, a leitura e o comprometimento por uma sociedade melhor. Os autores abordam em suas obras questões que promovem a reflexão, são debates importantes ainda mais no tempo em que vivemos”, afirma. 

“Cida vem em um momento de transição de uma linguagem cultural para outra, e, quando isso acontece, o resultado é sempre animador porque daí surgem novas leituras e novos olhares”, completa.

Desde o dia primeiro de outubro, Cida Pedrosa já participou de diversas atividades que se debruçam sobre seus textos, começando pela mesa sobre Solo para Vilarejo, com a colunista Mariana Ianelli e o escritor Wellington Melo, mediada pelo seu filho dela, o poeta e historiador Francisco Pedrosa. 

A agenda da feira também inclui uma série de espetáculos inspirados na sua obra. No  Palco Sesc Além das Letras, já foram apresentados o solo “Para um Sertão Blues”, posto no palco pelo Coletivo Caverna e sob direção de Cláudio Lira; “Todas as Mulheres de Cida”, baseado no livro “As Filhas de Lilith” (2009), adaptado pelo Grupo Cênico Calabouço e dirigido por  Bruno Fittipaldi; e o monólogo MedusaMusaMulher, interpretado pela atriz Fabiana Pirro.

Cida conta estar ansiosa para assistir ao espetáculo Claranan, produzido pelo Coletivo O Poste Soluções Luminosas e apresentado neste sábado (9) às 17h, e experimentar o menu preparado pelo chef Rivandro França com pratos inspirados nos seus poemas. 

Bienal em formato híbrido

Maior feira literária do Nordeste, a Bienal Internacional do Livro de Pernambuco espera receber 350 mil pessoas até a próxima terça-feira (13). A edição leva o tema “Só existe uma vacina contra a Ignorância. Leia” que, segundo o produtor Rogério Robalinho, foi escolhido por conta do contexto atual, em que a ciência vem sendo questionada.

Em razão da pandemia da covid-19, a programação acontece de forma híbrida, ou seja, uma parte no Centro de Convenções (Cecon), no limite de Recife e Olinda, e outra em ambiente virtual, na plataforma e-Bienal. Robalinho relembra que, em 2020, foi realizada uma versão completamente digital da Bienal. 

 “Buscamos o compromisso com o mercado editorial e livreiro do país de trazê-los para Pernambuco para realizar todo o planejamento. Com a pandemia, tivemos que pensar de outra forma, reforçamos as ações virtuais, criando a plataforma e-Bienal que, durante 2020, realizou debates, oficinas e lançamentos. Observamos que o mundo agora seria outro e então foi preciso construir um evento diferente, presencial e também virtual com a nossa plataforma”, diz

Nesse modelo, o evento apresenta 220 atividades, com mais de 60 lançamentos de livros. O espaço físico, no pavilhão de 9 mil metros quadrados do Cecon, conta com 320 estandes de 89 livrarias e editoras.

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Veja: Resistência democrática implica diálogo sem preconceitos https://bit.ly/3kbDHqq

17 setembro 2025

Minha opinião

Dos salões para as ruas* 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65      

O ato público da última segunda-feira, no teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA), a propósito do Dia Internacional da Democracia, guarda muitos significados. 

Em recinto fechado, sim; em local marcado por tradição de luta libertária construída ao longo das últimas décadas. 

Amplo: representantes de diversos segmentos da sociedade — políticos, religiosos, acadêmicos, artísticos — expressaram com nitidez suas convicções na defesa da democracia e da soberania nacional. 

O vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, a presidente da UNE, Bianca Borges, o reitor Vidal Serrano Nunes, da PUC, dentre muitos manifestaram elevada compreensão acerca do momento presente e da dimensão da luta. 

Dirigentes partidários, como Walter Sorrentino, vice-presidente nacional do PCdoB, sublinharam a natureza estratégica da resistência democrática.

Destaque para Almino Affonso, ex-ministro da Educação no governo João Goulart, militante persistente aos 96 anos.

A resultante política certamente ultrapassa o horizonte do ato em si, que semeia possibilidades em seus desdobramentos.

No atual estágio da mobilização social, eventos dessa natureza além de darem consistência à convergência de ideias, arregimentam energias para que possam, adiante, desembocar em grandes manifestações populares em praça pública. 

Um detalhe relevante, pois o movimento democrático e popular brasileiro ainda não conseguiu encontrar caminhos e formas de superação da nova realidade dos trabalhadores e das grandes massas populares, na qual nem sempre é fácil colocar grandes contingentes de ativistas em praça pública.

O voluntarismo puro e simples não dá conta do desafio. Nem a mera reprodução de formas de luta e de mobilização mais afeitas ao ascenso do movimento do que ao momentâneo descenso. 

A consigna "nas redes e nas ruas" é insuficiente porque omite a necessária etapa da mobilização mais qualificada, destinada a consolidar a convergência de opiniões e a disposição comum em por em ação grandes parcelas do povo. 

Melhor propor "nas redes, nos salões e nas ruas".

*Texto da minha coluna semanal no portal Vermelho

Na foto, no telão, Walter Sorrentino, vice-presidente nacional do PCdoB

[Se comentar, identifique-se]

Leia também Convergência necessária e possível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_15.html 

05 março 2008

Que história é essa?

No Blog de Jamildo (JC Online):
Uma realização de governo que alguns não querem ver
Luciano Siqueira

. O ambiente pré-eleitoral assanha o debate em torno da gestão que finda. Infelizmente, no que concerne à oposição, alimentado pela busca ansiosa de defeitos no que se fez, na cobrança freqüentemente distorcida sobre o que supostamente se deixou de fazer, deixando ao largo realizações de pouca ressonância na mídia, porém de considerável importância. E aí se produzem pérolas como a afirmação de que as obras realizadas por decisão da população através do mecanismo democrático do Orçamento Participativo não passariam de “maquiagem vagabunda” da cidade. Uma provocação que sequer merece resposta, tão rasteira e inconseqüente.
. Nesse contexto, cometo a ousadia de perguntar: numa perspectiva libertária, de médio e longo prazo, qual o saldo mais importante de um governo local assumidamente comprometido com a emancipação dos que vivem do trabalho? A resposta certamente em nada interessa aos que se situam no espectro político conservador; pois nos remete à formação de uma avançada consciência social, assentada no reconhecimento do cidadão como sujeito de direitos e partícipe da transformação da sociedade.
. Algo que não consta em relatórios de gestão, difícil de mensurar e de traduzir em gráficos ou tabelas – e que entretanto o prefeito João Paulo tem referido como a razão maior da obra de governo; e que abordei em artigo de junho de 2003, Que história é essa? (incluído no livro O Vermelho é Verde-Amarelo - 65 crônicas políticas, Editora Anita Garibaldi, São Paulo, 2005).
. No artigo anotamos que, na prática, muito mais simples é pavimentar ruas, ampliar as redes de educação e de saúde, recolher o lixo e manter praças e vias limpas. Essas coisas que o senso comum compreensivelmente espera do governante, visto como síndico da cidade. Difícil é encontrar oportunidades e formas de interagir com o cidadão de modo a construir um processo comum de aprendizado – técnicos e povo – que resulte na superação dos mecanismos usuais de dependência do indivíduo em relação ao Estado e na elevação da sua consciência política.
. Uma dessas oportunidades, na gestão comandada pelo prefeito João Paulo, é proporcionada pelo programa Que história é essa? , encetado pela Secretaria da Assistência Social, que inicia nova fase dia 12 próximo, por ocasião do aniversário da cidade.
. Que história é essa? é uma experiência inovadora, que funde fantasia, história e vivência da realidade presente, revelando suas contradições de classe, seus limites e possibilidades.
. O programa atende adolescentes de 15 a 18 anos, que participam de um jogo – o RPG Social – no qual “contracenam” com atores que encarnam personagens da História, reproduzindo cenas marcantes do passado, relacionando-as com a vida hoje. Nenhum deles é expectador. Todos tomam parte ativa na brincadeira. Para isso, submetem-se a uma preparação prévia de dois meses, discutindo os assuntos contidos numa espécie de cartilha e fazendo visitas monitoradas a locais que tenham a ver com o tema.
. No ciclo denominado “Saga negra”, por exemplo, num dado momento o ator que vive Joaquim Nabuco repete, no Teatro Santa Isabel, o famoso discurso abolicionista e, ao final, indaga: quem são os escravos de hoje? Em resposta, os jovens falam das atuais condições de existência do povo trabalhador e dos habitantes das áreas mais pobres da cidade. Discutem a realidade onde eles próprios estão inseridos. Desse modo, exercitam o senso crítico e a capacidade de reagirem em situações de conflito.
. Dentre eles alguns se revelam líderes natos, outros com talento para a poesia e as artes plásticas; e muitos despertam em si a consciência de que integram um povo de cuja história são herdeiros e continuadores.

14 dezembro 2009

No ato da gratuidade da UPE

Transcrevo notas curtos que registrei no Twitter através do celular:
. Gratuidade da UPE: conquista do movimento estudantil, compromisso que Eduardo cumpre.
. Por extensão, uma vitória de todo o povo.
. Virgínia Barros, presidente da UEP e Augusto Chagas, presidente da UNE, autografam camisa da Campanha p/Gratuidade p/o gov. Eduardo Campos.
. Renildo Calheiros, prefeito de Olinda, fala como ex-presidente da UNE. Resgata a tradição libertária do movimento estudantil.
. Luciana Santos destaca o papel das Universidades públicas p/o desenvolvimento nacional.
. Eduardo Campos situa a gratuidade da UPE como parte da derrota da ideologia neoliberal e do fortalecimento da educação pública.
. Detalhe: da vasta mesa participam, pelos cargos que ocupam cinco dirigentes do PCdoB, três da direção nacional. Dirigentes nacionais: Luciana Santos, Renildo Calheiros e Augusto Chagas. Estaduais: Virgínia Barros e o reitor José Weber, da UNIVASF.

25 fevereiro 2012

Brasil em perspectiva

No Vermelho, por Eduardo Bomfim
Um projeto de nação

Muitos de nós temos a devida clareza sobre o atual momento em que vive o País de persistente crescimento econômico, a incorporação de dezenas de milhões de brasileiros no mercado de trabalho, o acesso em massa a bens de consumo jamais imaginado pelas maiorias.

Com a multiplicação da massa salarial houve o aquecimento do comércio e da indústria. Além disso, as nossas exportações avançaram nesses últimos nove anos fazendo com que o PIB tenha aumentado substancialmente.

O Brasil vive uma época de respeitáveis índices de crescimento econômico (apesar da crise internacional do capitalismo) e da presença do Estado nacional em suas responsabilidades indeclináveis interrompendo, em parte, uma tendência de ortodoxia neoliberal que durou oito anos.

Mas as heranças da época hegemônica das políticas do novo liberalismo ortodoxo não desapareceram em aspectos decisivos dos fundamentos da economia e esses entulhos têm dificultado um salto em relação a um novo e mais avançado ciclo Histórico brasileiro.

A dificuldade torna-se maior quando associamos esses entraves estruturais à ausência de imprescindíveis valores políticos, culturais e ideológicos.

É preciso muita relativização das coisas para não se constatar que além do chamado "ciclo virtuoso" econômico existe uma sociedade se expandindo de maneira estabanada meio sem lenço e sem documento.

As políticas governamentais contra óbvias enfermidades sociais vão se mostrando paliativas e meramente compensatórias para males que se agravam como o aumento da violência generalizada, o lucrativo negócio das drogas pesadas, problemas em educação, saúde pública etc.

A opinião da maioria do povo brasileiro é que a nação jamais deve retornar às nefastas políticas neoliberais de ontem mas isso é pouco para enfrentar manifestações perversas no tecido social, várias delas impostas ao povo brasileiro através de valores culturais importados do que é pior entre as nações imperiais em declínio.

Se não houver edificação ideológica, cultural de uma sociedade progressista, solidária, humanista, podemos nos transformar num País economicamente próspero, mas regido pela lei do cão, do cada um por si do mais predador dos capitalismos dessa nova ordem mundial.

O projeto de nação do povo brasileiro reivindica a unidade dos trabalhadores, a luta engajada da juventude na construção de uma nova cultura política libertária e transformadora.

28 julho 2009

Minha emoção ao falar do MCP

. Coube-me falar sobre os 50 anos da fundação do MCP (Movimento de Cultura Popular), ontem à noite, no Centro de Convenções, na abertura da Conferência Municipal de Educação.
. À mesa, além do prefeito João da Costa e do secretário Cláudio Duarte, dentre outros, dois dos fundadores do MCP, Germano Coelho e Abelardo da Hora.
. Fui voluntário do MCP aos 15 anos de idade, atuando no Programa Praças de Cultura, sob a coordenação da pedagoga Silke Weber.
. Em minha breve fala o registro de imagens de um momento importante da vida da cidade e da saga libertária do nosso povo. Com muita emoção.

17 novembro 2021

Cultura de paz

A lei da paz

Paulo Moraes*

 

Com a sanção pelo prefeito João Campos da Lei Municipal nº 18.850/21, no último dia 13 de outubro, foi instituída a Política Municipal de Cultura de Paz e Justiça Restaurativa. Com ela o Recife avança para um novo patamar de sua história de tantas lutas e inovações sociais, honrando a tradição libertária do seu povo.

Com a nova legislação, todas as áreas da Prefeitura da Cidade devem incrementar suas ações cotidianas em prol da pacificação social, da não-violência e na defesa dos Direitos Humanos. Nove secretarias passam a contar com novas competências. Um total de 71 novas atribuições, algumas reiteradas, a maioria inéditas.

Como não poderia deixar de ser, esta política pública emana de ações concretas surgidas nos Centros Comunitários da Paz (COMPAZ) e em iniciativas comunitárias, em contextos muito desafiadores, mas com intensa participação popular. Ao longo de dois anos, foram diversos os debates, seminários e oficinas de capacitação, que contaram com a contribuição de especialistas e ativistas de todo o País, que culminaram na histórica primeira conferência para o tema ocorrida em dezembro de 2019. Foram 123 propostas aprovadas por 180 participantes. Vale ainda o registro do intenso debate mantido no parlamento municipal, onde os/as vereadores/as acresceram 33 emendas ao projeto do Executivo. Todos com o intuito de fortalecer e ampliar a norma, cujo consenso em torno de sua aprovação foi patente à unanimidade.

A Lei Municipal nº 18.850/21 expande para toda a cidade e para o conjunto da gestão municipal a matéria de que é feito o COMPAZ: a cultura de paz. Conjunto de valores, atitudes, modos de comportamento e de vida, que rejeitam a violência e que apostam no diálogo e na negociação para prevenir e solucionar conflitos. Esse conteúdo tem sido extremamente eficaz na pacificação social em contextos devastados pela violência e mesmo por guerras civis, como em Medellín, na Colômbia, a cidade de Iztapalapa, na região metropolitana da Cidade do México, e em outros exemplos mundo afora que reafirmam: o Recife está no caminho certo.

Em diferentes formatos e ações, a Lei Municipal nº 18.850/21 incorpora aquilo que a UNESCO define como os pilares necessários para a cultura de paz prevalecer: a educação para a paz, a tolerância e solidariedade, participação democrática, desarmamento, Direitos Humanos, desenvolvimento sustentável e igualdade de gênero. Todas essas pautas mais do que presentes no debate público nacional, muito por sua ausência nas ações do Governo Federal, mas também fruto de uma tomada de consciência da sociedade brasileira há muito esperada.

*Paulo Roberto Xavier de Moraes é advogado e Secretário Executivo de Segurança Cidadã do Recife

Veja: Uma poeta sertaneja se faz universal https://bit.ly/3BKdwhd