03 junho 2026

Testemunho

Butim de guerra ou roubo puro e simples?
Mário Miranda de Albuquerque* 

A propósito dos fatos referentes à apropriação por parte de militares e policiais, de bens pessoais de opositores aprisionados no período da ditadura, que têm sido levados a público pelo Instituto o Conhecimento Liberta (ICL), com base nos arquivos do coronel Cyro Etchegoyen, cada um deve ter casos pra contar. Conto os meus.

 1.⁠ ⁠Quando fui conduzido ao DOPS-PE, em 5/2/1971, dia em que fui preso na Praia de Maria Farinha (município de Paulista, região metropolitana de Recife), identifiquei vários dos meus torturadores usando calças e camisas a mim pertencentes, levados da primeira residência em que passei a morar com minha então companheira, Vera Maria Rocha Pereira, quando de nossa chegada à capital pernambucana. Essa residência (sediada à rua Barão de Bonito, bairro Caxangá), fora invadida por órgãos de repressão do regime, conhecidos como os mais brutais da ditadura, onde vários militantes políticos foram assassinados sob tortura. Obviamente, não fiz qualquer reclamação sobre a usurpação. Eles chamavam de “butim de guerra”.

 2.⁠ ⁠Por ocasião da minha transferência de prisão da Ilha de Itamaracá (PE) para o IPPS (Instituto Penal Paulo Sarasate), em 1975, ao abrir a mala constatei a falta de várias peças de roupa. Dessa vez a desculpa de ser “butim” não cabia, pois eu já estava há quase cinco anos preso. Afinal, eram roupas enviadas a mim por minha família. Farejei nesse episódio, então, rara oportunidade, naqueles tenebrosos tempos, de submeter a ditadura a um pequeno vexame e obter uma singela e simbólica vitória, em meio a tantas derrotas. Enviei ofício manuscrito à Auditoria Militar expondo o fato e solicitando providências no sentido de me ser devolvido o que me foi afanado. Um belo dia, pra surpresa minha e dos demais presos políticos recolhidos ao Pavilhão Sete (título do livro do historiador Airton de Farias), eis que adentra ao recinto uma comitiva de juízes militares, à frente o juiz auditor chefe, e me faz a entrega do vestuário surrupiado. Ao mesmo tempo, me comunicam que os responsáveis haviam sido identificados e punidos. Eu cheguei quase a cantar a Internacional. Logo a notícia correu o presídio todo, pois não era todo dia que se via cena como aquela, de humilhação e constrangimento público de autoridades daquele nível de superioridade. De imediato percebi que faltavam algumas peças, mas eu já amadurecera na arte do xadrez da luta política: gerar um constrangimento maior àquela altura poderia arriscar a importante batalha ganha (nem me recordo se já lera o antigo filósofo e estrategista chinês Sun Tzu). Eram outros tempos, de recuo da ditadura após a estupenda vitória da oposição nas eleições de 1974, tempos que passaram a permitir essas pequenas e ousadas manobras táticas.

*Ex-preso político 1971/79 (PE/CE). Conselheiro da Comissão Nacional de Anistia

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