Flávio Bolsonaro é o filho do
Riocentro
Nascido no dia do atentado que tentou parar a redemocratização, candidato
do PL tem longo histórico de defesa do golpe e da ditadura militar
Bernardo
Mello Franco/O Globo
Em 30 de abril de 1981, um capitão e
um sargento do Exército cruzaram o Rio em missão secreta. Transportavam duas
bombas para causar terror e pânico num show que reunia milhares de jovens em
comemoração ao Dia do Trabalhador. O plano era culpar a esquerda e sabotar o
processo de redemocratização do país.
Em
30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos
superiores como “excessivamente ambicioso”, assistiu em Resende ao nascimento
do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos
porões.
Ninguém
escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter
nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis
pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio
sempre marcou a segunda opção.
No
livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto,
ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e
matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser
tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.
A
exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que
levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como
“homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria
sido “massacrado pela mídia”.
O
filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da
ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele
ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens
Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.
O
livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava
no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou
por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada
pela extrema direita como aniversário da ditadura.
“Fica
aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime
militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que
tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e
agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009.
“A
esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em
2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso
combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o
posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou. Quem haveria de discordar?
Desde
que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo.
Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de
torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério
Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de
acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores,
atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação
Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.
A
democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a
inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato
do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já
disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o
filho do Riocentro.
Tíbio e incompetente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0953060760.html

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