26 janeiro 2026

Trabalho uberizado

Marx e a uberização: o salário por peça volta via aplicativos
A partir de Marx, Engels e Lenin, o artigo analisa como plataformas digitais atualizam formas clássicas de exploração, transferem riscos aos trabalhadores e reorganizam o controle do trabalho no século XXI
Percival Henriques/Portal Grabois https://grabois.org.br/     

O Salário por Peça Volta de Aplicativo: Marx e a Uberização do Século XXI

Há uma operação ideológica em curso que precisa ser desmontada.

Ela consiste em apresentar como novidade absoluta um fenômeno que Marx dissecou em 1867. Em fazer parecer disrupção tecnológica o que é, na verdade, regressão civilizatória. Em vender como liberdade o que os nossos clássicos já haviam identificado como a forma mais sofisticada de exploração.

Falo da uberização.

O termo soa moderno. Evoca startups, aplicativos, economia digital. Os ideólogos do capital celebram o “empreendedorismo” dos motoristas e entregadores. A mídia corporativa repete que eles são “donos do próprio tempo”. Os economistas liberais aplaudem a “flexibilidade” das novas relações de trabalho.

Mas basta abrir o Livro I de O Capital para descobrir que não há nada de novo sob o sol algorítmico.

No Capítulo XIX, Marx analisa uma forma específica de remuneração: o salário por peça. Não o salário por tempo, tanto por hora, por dia ou por mês, mas o pagamento por tarefa executada. Por unidade produzida. Por entrega realizada.

Soa familiar?

Marx observa que esta modalidade cria uma ilusão poderosa. O trabalhador passa a acreditar que recebe pelo produto do seu trabalho, não pela venda da sua força de trabalho. A aparência é de autonomia. A realidade é de subordinação intensificada.

Escreveu Marx que o salário por peça “tende a desenvolver a individualidade e com ela o sentimento de liberdade, a autonomia e o autocontrole dos operários”. Mas, e aqui está o golpe dialético, simultaneamente desenvolve “a concorrência entre eles e de uns contra os outros”.

Eis a uberização avant la lettre.

O motorista da Uber acredita ser livre porque escolhe os seus horários. O entregador do iFood sente-se autônomo porque não tem chefe visível. Mas ambos competem ferozmente entre si por corridas e entregas. Ambos correm contra o relógio algorítmico. Ambos arcam sozinhos com todos os riscos.

A plataforma, como o capitalista do século XIX, não corre risco algum.

Marx foi cirúrgico ao descrever esta transferência. Nas fábricas da Inglaterra vitoriana, quando se pagava por peça, os patrões contratavam mais operários do que o necessário. A justificativa era cínica: “como se lhes paga às peças, diz-se que não se corre nenhum risco, porque todas as perdas de tempo recairão sobre os desocupados”.

Leia novamente.

As perdas de tempo recaem sobre os desocupados. O capitalista não paga pelo tempo de espera. Não remunera a ociosidade forçada. Não assume o custo dos períodos sem demanda.

Isto é a Uber em 1867. É o iFood descrito cento e cinquenta anos antes de existir. É a 99 antecipada por um filósofo alemão que jamais viu um smartphone.

Em meu livro Direito à Realidade: Por um Constitucionalismo Digital para o Brasil, proponho o conceito de “alienação algorítmica” para capturar o que está em jogo. A alienação clássica, que Marx descreveu, separava o trabalhador do produto do seu trabalho. O operário fabricava sapatos, mas os sapatos não lhe pertenciam.

A alienação algorítmica vai além.

Ela separa o trabalhador do próprio processo de trabalho. O entregador pedala, mas não compreende por que recebe certas entregas e não outras. O motorista dirige, mas ignora os critérios que determinam seu “score”. Ambos trabalham segundo regras que desconhecem, julgados por parâmetros que não conseguem decifrar, governados por uma lógica que lhes escapa inteiramente.

É uma expropriação mais profunda. Não apenas do produto, mas da própria inteligibilidade do trabalho.

O trabalhador uberizado não sabe por que ganha o que ganha. Não entende por que foi “desativado”. Não consegue explicar a si mesmo as razões do seu sucesso ou do seu fracasso na plataforma. Ele se tornou estrangeiro não apenas em relação ao que produz, mas em relação ao modo como produz.

Marx não poderia antecipar o algoritmo. Mas antecipou a estrutura da dominação que o algoritmo viria a aperfeiçoar.

Exército de reserva na era dos aplicativos

Se Marx desvendou a mecânica da exploração pelo salário por peça, Engels revelou as condições sociais que a tornam possível.

Em 1845, o joveEngels publicou A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Tinha apenas 24 anos, mas produziu uma obra que permanece assombrosamente atual.

Engels descreveu um fenômeno que Marx depois sistematizaria teoricamente: o exército industrial de reserva. Uma massa permanente de trabalhadores desempregados ou subempregados cuja existência pressiona para baixo os salários e as condições de todos os demais.

Nas palavras de Engels, a burguesia encontrava “uma massa de trabalhadores em situação de vulnerabilidade, que lutando pela sobrevivência, aceitava todo o tipo de trabalho”. Um exército de pessoas famintas inundava as cidades, oferecendo sua força de trabalho com insistência desesperada.

O paralelo com o Brasil contemporâneo é imediato.

O país tem hoje mais de 1,5 milhão de pessoas trabalhando como motoristas ou entregadores por aplicativo. A maioria chegou às plataformas empurrada pelo desemprego. Não escolheu a uberização. Foi escolhida por ela, na falta de qualquer alternativa.

Este exército de reserva digital cumpre a mesma função que cumpria na Manchester de 1845. Mantém os ganhos por corrida e por entrega permanentemente deprimidos. Impede qualquer organização coletiva efetiva. Garante que sempre haverá alguém disposto a aceitar condições ainda piores.

A novidade não está no mecanismo. Está apenas na velocidade com que ele opera.

O algoritmo consegue calibrar em tempo real a oferta e a demanda de trabalhadores. Pode aumentar ou diminuir as tarifas instantaneamente. Pode ativar ou desativar motoristas conforme a necessidade do momento. Engels precisou de meses de pesquisa para mapear o exército de reserva de Manchester. O aplicativo da Uber faz isso a cada segundo.

É aqui que entra um conceito que desenvolvo no Direito à Realidade: a “habitualidade algoritmicamente coagida”.

O direito do trabalho tradicional distingue o trabalhador eventual do trabalhador habitual. O eventual presta serviços esporádicos, sem continuidade. O habitual trabalha com regularidade, o que caracteriza vínculo empregatício.

As plataformas exploram esta distinção. Alegam que seus “parceiros” são eventuais porque podem ligar e desligar o aplicativo quando quiserem. Ninguém os obriga a trabalhar todos os dias.

Mas o algoritmo conta outra história.

Sistemas que degradam o score do trabalhador após 72 horas de inatividade. Que o relegam ao final da fila de distribuição se fica uma semana ausente. Que zeram a reputação digital arduamente construída após um mês sem trabalhar.

O sistema não ordena “trabalhe todos os dias”. Mas arquiteta uma realidade econômica em que a eventualidade se torna luxo impagável.

É coerção por arquitetura, não por comando. Subordinação por design, não por contrato. O trabalhador existe em uma superposição paradoxal de estados: habitual pela necessidade que o algoritmo impõe, eventual pela ficção jurídica que a plataforma sustenta.

Engels reconheceria imediatamente este mecanismo. É a mesma lógica da fábrica manchesteriana, apenas traduzida para linguagem computacional.

Plataformas digitais e o parasitismo do capital financeiro

Lenin, por sua vez, ilumina outra dimensão do fenômeno.

Em O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, escrito em 1916, Lenin analisou a emergência de uma oligarquia financeira que extrai riqueza sem participar diretamente da produção. Uma camada de proprietários sem vínculos com o trabalho concreto, que vive dos lucros do capital financeiro e das “maquinações” operadas por gestores profissionais.

As plataformas digitais são a expressão mais pura desta tendência.

A Uber não possui um único carro. O iFood não emprega um único cozinheiro. O Airbnb não é dono de um único imóvel. São intermediários financeiros puros, que extraem valor de cada transação sem produzir absolutamente nada.

O trabalhador entra com o veículo, o combustível, a manutenção, o seguro, o celular e a própria vida. A plataforma entra com o algoritmo. E fica com 25% de cada corrida.

Lenin chamaria isso de parasitismo elevado à condição de modelo de negócios.

Mais ainda: as plataformas operam em escala global, extraindo mais-valia de trabalhadores em dezenas de países simultaneamente. São a realização plena do capital financeiro mundializado que Lenin descreveu. A diferença é que agora o “entrelaçamento” entre bancos, fundos e empresas acontece através de aplicativos instalados nos celulares de milhões de trabalhadores precarizados.

A objeção previsível é que os tempos mudaram. Que não se pode aplicar categorias do século XIX ao século XXI. Que a tecnologia transformou tudo.

Esta objeção revela mais sobre quem a faz do que sobre a realidade.

A tecnologia transformou a forma, não o conteúdo. Acelerou os processos, não alterou a sua natureza. Sofisticou os mecanismos de controle, não eliminou a exploração.

O entregador que pedala doze horas por dia sob o sol de João Pessoa para ganhar quarenta reais não é um “empreendedor digital”. É um trabalhador superexplorado. A mãe solteira que dirige pela madrugada em São Paulo para pagar o aluguel não é uma “parceira” da plataforma. É uma proletária do século XXI.

O que Marx, Engels e Lenin nos ensinam é precisamente a ver através da névoa ideológica.

Eles nos ensinam que a “liberdade” de escolher os próprios horários significa, na prática, a liberdade de trabalhar dezesseis horas por dia para sobreviver. Que a “flexibilidade” das novas relações significa a transferência integral dos riscos para o trabalhador. Que o “empreendedorismo” celebrado pela mídia é apenas o velho assalariamento despido de qualquer proteção.

Algoritmo como novo patrão

Há, contudo, uma dimensão que os clássicos não poderiam antecipar: a opacidade algorítmica como instrumento de dominação.

O capitalista do século XIX pelo menos era visível. O trabalhador sabia quem o explorava, conhecia o rosto do patrão, podia identificar o inimigo de classe. A luta era desigual, mas os contendores estavam à vista.

O algoritmo é um patrão invisível.

Ele determina quais corridas cada motorista recebe. Define o preço de cada entrega. Decide quem será “desativado” e quem permanecerá ativo. Pune e recompensa segundo critérios que ninguém conhece. Opera como um deus caprichoso cujos desígnios são insondáveis.

Por isso, no Direito à Realidade, defendo que a luta por “transparência qualificada” é condição necessária para qualquer resistência efetiva. Não basta que as empresas publiquem documentos técnicos incompreensíveis. É preciso que o trabalhador comum possa entender, em linguagem acessível, por que o algoritmo tomou determinada decisão sobre a sua vida.

E mais: é preciso que possa contestá-la.

O artigo 20 da Lei Geral de Proteção de Dados brasileira garante o direito à explicação de decisões automatizadas. Mas de que serve conhecer os critérios se não se pode questioná-los efetivamente? O direito formal, desacompanhado de poder material, é letra morta.

A transparência algorítmica é campo de batalha. Abrir a caixa preta é condição para que a luta de classes possa se desenvolver em terreno minimamente equilibrado.

Transparência algorítmica no campo de batalha

No Direito à Realidade, proponho sete princípios para um constitucionalismo digital brasileiro. Um deles é a “dignidade algorítmica”: sistemas automatizados devem tratar seres humanos como fins, nunca como meios.

A formulação é kantiana, mas o conteúdo é profundamente marxista.

Tratar o trabalhador como fim significa reconhecer que ele não é recurso a ser otimizado, variável a ser calibrada, input a ser processado. Significa que decisões sobre admissão, progressão e dispensa não podem ser tomadas por sistemas incompreensíveis. Significa que a eficiência algorítmica encontra limite intransponível na dignidade da pessoa humana.

O capitalismo de plataforma viola este princípio a cada segundo.

Cada trabalhador “desativado” sem explicação. Cada score rebaixado por critérios opacos. Cada punição automática sem direito de defesa. São violações sistemáticas da dignidade, perpetradas em escala industrial, legitimadas pela retórica da inovação.

Marx diria que é a velha exploração com nova roupagem. Engels reconheceria a mesma miséria que documentou em Manchester. Lenin identificaria o mesmo parasitismo financeiro que denunciou em 1916.

Os clássicos tinham razão. Continuam tendo.

Luta de classes no trabalho por aplicativo

ntregadores fazem manifestação contra novas modalidades de entrega do aplicativo Ifood, na Cinelândia, Rio de Janeiro (RJ), em 28/11/2025. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Os trabalhadores de plataforma estão começando a se organizar. No Brasil, os “breques dos apps” de 2020 mostraram que a resistência é possível. Entregadores pararam em várias capitais, exigindo melhores condições. O algoritmo, pela primeira vez, enfrentou um obstáculo que não conseguia calcular.

A consciência de classe está se formando, ainda que lentamente.

Engels observou que as condições materiais de exploração geram, dialeticamente, as condições de resistência. A concentração de trabalhadores nas fábricas criou as possibilidades de organização sindical. A miséria compartilhada forjou solidariedade.

O mesmo processo está em curso entre os trabalhadores uberizados. Os grupos de WhatsApp substituem as assembleias de fábrica. As redes sociais permitem coordenação em tempo real. A própria tecnologia que serve à exploração pode ser apropriada para a luta.

Não há determinismo tecnológico. Há luta de classes em novo terreno.

Marx, Engels e Lenin não escreveram para serem adorados como ícones. Escreveram para serem usados como armas.

Suas categorias permanecem afiadas porque a realidade que descreveram permanece essencialmente a mesma. O capitalismo mudou de roupa, não de natureza. Trocou a chaminé da fábrica pelo servidor na nuvem, mas continua extraindo mais-valia do trabalho humano.

A uberização é a prova viva de que os clássicos tinham razão.

E de que a luta continua.

Mas a luta do século XXI exige também novas ferramentas. Por isso escrevi o Direito à Realidade. Não para substituir Marx, Engels ou Lenin, mas para traduzir suas categorias para o tempo presente. Para mostrar que a crítica ao capitalismo e a construção de alternativas constitucionais não são projetos antagônicos, mas complementares.

Domesticar o poder algorítmico é tarefa urgente. E ela começa por reconhecer que, por trás de cada aplicativo reluzente, opera a mesma lógica de exploração que nossos clássicos desvendaram há mais de um século.

O salário por peça voltou. Agora se chama “corrida” ou “entrega”.

A luta também precisa voltar.

Percival Henriques de Souza Neto é físico, jurista, conselheiro do CGI.br há 14 anos, presidente da ANID e membro do Comitê Nacional de Cibersegurança. Autor de Direito à Realidade: Por um Constitucionalismo Digital para o Brasil (Editora Publius, 2025).

A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html 

Miséria norte-americana

EUA, uma potência com famintos
A abundância é para poucos: uma das nações mais poderosas do planeta vive o avanço da fome, que flagela 42 milhões. Latinos e negros são as principais vítimas. O drama é diferente do vivido no Sul global, claro, mas a decadência da “terra das oportunidades”
Celso Pinto de Melo/Outras Palavras   


A fome é uma das poucas coisas que não esperam.
Érico Veríssimo – O Tempo e o Vento (1949)


A ideia de que os Estados Unidos poderiam “entrar no mapa da fome” causa estranhamento imediato: afinal, trata-se da maior economia do planeta, potência agrícola que produz excedentes para alimentar países inteiros. Mas essa imagem encobre um dado inquietante. Em 2022, 42 milhões de pessoas viveram algum nível de falta regular de acesso a alimen tos nos EUA[i] – um número que lembra mais relatórios da FAO sobre países de renda média do que estatísticas de uma superpotência. E embora essa carência não corresponda à fome estrutural dos países pobres, o corpo humano não distingue PIB per capita: um estômago vazio reage do mesmo modo em Detroit ou em Dacar. E não há dor mais devastadora do que a de um pai ou uma mãe que vê seus filhos chorarem de fome sem ter o que colocar no prato – uma dor que nenhuma estatística consegue traduzir.

Nos Estados Unidos, a fome assume a forma tecnicamente nomeada como “insegurança alimentar”. Entre os 12,8% dos lares afetados, milhões de adultos pularam refeições, reduziram porções ou passaram um dia inteiro sem comer. O peso da desigualdade racial é evidente: essa falta de alimentos atinge 22% das famílias negras e 20% das latinas[ii]. São números que, isoladamente, se aproximam dos piores indicadores urbanos da América Latina. É uma fome diferente daquela que devasta o Sahel ou o Iêmen, mas ainda assim é fome – concreta, fisiológica, cotidiana.

Esse contraste se aprofunda quando observamos regiões onde a fome não é episódica, mas estrutural. Globalmente, segundo o UNICEF, 148 milhões de crianças menores de cinco anos sofreram desnutrição crônica em 2022[iii]. No Níger, 44% das crianças enfrentam atraso de crescimento[iv], reflexo de pobreza persistente e choques climáticos intensificados. No Iêmen, 17 milhões de pessoas enfrentam fome aguda[v], e no Haiti, 4,3 milhões não têm acesso regular a alimentos[vi]. Nessas localidades, a fome é intergeracional, atravessada por guerras, colapsos ambientais e aus& ecirc;ncia de Estado. A diferença entre a fome americana e a dos países pobres não está no corpo: está na estrutura histórica que cerca esse corpo.

A comparação ilumina também o caso brasileiro. Por aqui, a fome havia recuado significativamente até 2014, mas retornou após a recessão de 2015–2016, o desmonte das políticas de segurança alimentar e a alta do preço dos alimentos. E, assim como nos Estados Unidos, o marcador racial organiza boa parte dessa desigualdade: es tudos mostram que a fome no Brasil atinge de forma desproporcional mulheres negras, famílias chefiadas por mães solo, trabalhadores informais e moradores das periferias urbanas. Essa combinação – econômica, social e racial – levou o país de volta ao Mapa da Fome da ONU entre 2021 e 2022.

Sobre essa fome generalizada recai ainda um desastre de outra natureza: a crise dos Yanomami em 2023. Ali, a fome não decorreu da transição para alimentos industrializados, mas da destruição direta da base produtiva tradicional – caça, pesca e roças – causada pelo avanço do garimpo, pela contaminação dos rios com mercúrio e pelo abandono sanitário. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 500 crianças Yanomami morreram entre 2019 e 2022 por desnutrição e doenças evitáveis[vii]. Trata-se de um povo de floresta cuja segurança alimentar dependia do equilíbrio ecológico do território; quando esse equilíbrio é destruído, instala-se uma fome típica de colapso ambiental.

Já entre povos indígenas mais aculturados – como Xavante, Terena, Guarani e Pataxó – observa-se o fenômeno oposto: a substituição da dieta tradicional por carboidratos refinados e ultraprocessados levou a aumento expressivo de diabetes, obesidade e hipertensão, como documentam estudos epidemiológicos robustos[viii],[ix]. Assim, a violência do contato – ambiental para uns, cultural para outros – produz doenças distintas, mas igualmente reveladoras de como a ruptura de sistemas alimentares tradicionais gera fome e adoecimento em sentidos diferentes.

Dessa forma, enquanto os EUA exibem uma fome que convive com a abundância, e países pobres enfrentam fome estrutural, o Brasil convive com formas híbridas: fome conjuntural urbana; fome estrutural nas periferias; e fome induzida pela violência ambiental e histórica contra povos originários. Em todos esses cenários, a conclusão é s emelhante: fome é sempre um produto político. Nos Estados Unidos, ela denuncia a desigualdade extrema de uma economia cujo 1% mais rico detém 31% da riqueza nacional[x] enquanto milhões passam fome. Nos países pobres, revela vulnerabilidades profundas agravadas pela instabilidade climática. No Brasil, expõe tanto a fragilidade de políticas públicas desmontadas quanto a persistência de hierarquias raciais e do colonialismo interno. Comparar a insegurança alimentar dos EUA com a fome estrutural dos países pobres – e com as múltiplas formas de fome no Brasil – não significa igualá-las, mas compreender o sistema que as produz. A fome americana expõe as rachaduras de um país rico que convive com a própria sombra; a fome dos países pobres revela desigualdades globais sedimentadas; e a fome brasileira – urbana, racializada, indígena, ambiental – mostra o quanto ainda estamos presos ao colonialismo interno que decide quem tem acesso ao básico para viver. Essa realidade múltipla encontra eco na imagem incisiva de Jorge Amado em Jubiabá, quando descreve o estômago vazio como um bicho teimoso que não dá trégua: “a fome vinha como um cachorro magro, mordendo as tripas.” É essa verdade visceral que atravessa continentes e sistemas políticos – lembrando que a fome, em todas as suas formas, não respeita fronteiras, tratados ou ideologias. Porque, no fim, o estômago humano não conhece geopolítica.


Notas


[i] UNITED STATES DEPARTMENT OF AGRICULTURE. Household Food Security in the United States in 2022. Washington, D.C.: US DA, 2023. Disponível em: https://www.ers.usda.gov/publications/pub-details/?pubid=106107. Acesso em: 30 nov. 2025.
[ii] USDA. Key Statistics & Graphics: Food Security by Race and Ethnicity. Washington, D.C., 2023. Disponíve l em: https://www.ers.usda.gov/topics/food-nutrition-assistance/food-security-in-the-u-s/key-statistics-graphics/. Acesso em: 30 nov. 2025.
[iii] UNITED NATIONS CHILDREN’S FUND. Levels and Trends in Child Malnutrition 2023. New York: UNICEF, 2023. Disponível em: https://data.unicef.org/resources/jme-report-2023/. Acesso em: 30 nov. 2025.
[iv] FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. The State of Food
Security and Nutrition in the World 2023. Rome: FAO, 2023. Disponível em: https://www.fao.org/publications/sofi/2023. Acesso em: 30 nov. 2025.
[v] WORLD FOOD PROGRAMME. Yemen Emergency Overview. Rome: WFP, 2024. Disponível em: https://www.wfp.org/countries/yemen. Acesso em: 30 nov. 2025.
[vi] UNITED NATIONS. Haiti: Humanitarian Needs Overview 2024. New York: UN, 2024. Disponível em: https://www.un.org/humanitarian/. Acesso em: 30 nov. 2025.
[vii] MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Situação Sanitária do Povo Yanomami: Relat&oacut e;rio de Ações Emergenciais. Brasília: MS, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/. Acesso em: 30 nov. 2025.
[viii] LEITE, M. S. et al. Prevalence of diabetes and associated factors among Xavante Indians, Central Brazil. Revista de Saúde Pública, v. 45, n. 6, p. 1031–1038, 2011.
[ix] HORTA, B. L. et al. Health transition in indigenous populations: the Xavante case. American Journal of Human Biolo gy, v. 25, p. 841–850, 2013.
[x] WORLD INEQUALITY LAB. World Inequality Database: United States – Wealth Distribution 2023. Paris: WID, 2023 . Disponível em: https://wid.world/. Acesso em: 30 nov. 2025.

China supera US$ 1 tri de superávit e desafia EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/china-cresce.html 

Fotografia

Luciano Siqueira 

Editorial do 'Vermelho'

Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada
Trump agride países e lança mão de corrida armamentista, um desafio mundial para as forças patrióticas e democráticas
Editorial do 'Vermelho'  

O pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, revelou suas pretensões à onipresença. Além de intimidar a União Europeia, ditou regras para a Groelândia, a Palestina, a Ucrânia e a Venezuela. Se apresentou, enfim, pretensamente como líder de uma nova e tenebrosa era na história, a renúncia ao sistema estabelecido após a Segunda Guerra Mundial para impor a hegemonia estadunidense além do chamado hemisfério ocidental. O orçamento militar dos Estados Unidos, disse, crescerá 50%, atingindo US$ 1,5 trilhão em 2027, com ordem para construir “mais fábricas” para atender ao complexo militar-industrial. Leia-se mais guerras, agressões e chantagens.

Ele mesmo se definiu como “ditador” ao fazer autoelogios ao seu discurso, alegando que o mundo precisa de alguém assim, conforme um vídeo publicado no canal da Casa Branca no Youtube. Uma de suas arbitrariedades foi a afirmação de que a Europa enfrentará “grandes represálias de nossa parte” se optar por vender títulos dos Estados Unidos, ameaçou. “Temos todas as cartas na mão.”

As tensões tendem a se acirrar, para além da Europa, com o projeto de acordo sobre a Groenlândia proposto pelo secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Mark Rutte. Todavia, a Dinamarca disse que Rutte não tem procuração para negociar em seu nome. Sim, está disposta a fazer um acordo desde que não implique em perder a soberania sobre a Groelândia. Trump ambiciona o controle da região para implantar um sistema de defesa antimíssil Golden Dome e combate ao que qualifica como “influência externa maligna” da Rússia e da China, além da extração de matérias-primas, entre elas, terras raras.

Qualquer que seja o desfecho deste caso da Groelândia, somado às tarifas e às humilhações públicas aos líderes europeus, Trump persevera, para espanto dos demais países capitalistas e imperialistas, na obra de detonar, ao que parece até a ruína, a Aliança Atlântica.

Em resposta, também em Davos, o presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que a União Europeia não pode hesitar em aplicar o mecanismo anticoerção quando “não formos respeitados e não se respeitarem as regras do jogo”. Afirmou, ainda, que um dos objetivos da presidência francesa do Grupo dos Sete (G7) é “construir pontes e fortalecer a cooperação com os países do BRICS e do Grupo dos Vinte (principal fórum de cooperação econômica internacional, reunindo as 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia e a União Africana)”.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, também se manifestou nessa direção. O Ocidente coletivo é coisa do passado e jamais retornará, disse ao comentar as políticas de Trump. “A velha ordem não voltará. Num mundo de grande rivalidade entre potências, os países intermediários “devem agir em conjunto, porque se não estivermos à mesa de negociações, estaremos no cardápio”, alertou.

Esta edição do Fórum de Davos, criado no começo da década de 1970, entra para a história com seus debates caóticos e como palco para Trump amplificar suas ameaças. Refletiu a decadência do projeto que representou o seu auge nos anos 1990, a globalização neoliberal – a edição de 2000 proclamou que o mundo havia entrado num período de prosperidade, sem os percalços dos tradicionais ciclos de crescimento e recessão. Hoje, nada existe daqueles anos dourados quando se garganteava o mito da invencibilidade da Otan. O que se viu foi a fratura exposta, a quebra de confiança da União Europeia na histórica aliança com os Estados Unidos.

A criação do chamado Conselho da Paz, anunciada por Trump em Davos, foi outra manifestação de ruptura com a ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial. Todavia, dos sessenta países convidados, apenas vinte haviam dito sim, até a cerimônia de fundação que pretendia ser pomposa e robusta.

Trump presidirá o Conselho, de forma vitalícia, que assumirá a governança da Faixa de Gaza, na Palestina, e atuará em outras regiões, uma decisão contrária à resolução do Conselho de Segurança da ONU como parte do plano de paz na região. A União Europeia se dispôs a apoiar o Conselho, desde que seu mandato fosse restrito à Faixa de Gaza, afirmou Kaja Kallas, Alta Representante da organização para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, enfatizou o papel central da ONU nas relações entre os países e afirmou que, independentemente das mudanças no cenário internacional, Pequim “defende firmemente o sistema internacional com as Nações Unidas em seu centro, a ordem internacional baseada nos objetivos e princípios da Carta da ONU”, ancorado no direito internacional e nas normas fundamentais que orientam as relações entre Estados-membros.

O “Conselho Executivo Fundador” terá sete membros, composto também pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio; pelo enviado estadunidense ao Oriente Médio, Steve Witkoff; por Jared Kushner (genro de Trump), enviado à Rússia para conversar com Putin; e pelo ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. Quanto às decisões, pasmem, somente Trump terá direito a veto.

A posição de Trump é um escárnio. Ele se arvora defensor da paz, quando é o principal responsável por uma brutal ofensiva da política de guerra, afronta a ONU para debitá-la, ataca outros organismos multilaterais e participa do genocídio do Estado de Israel contra os palestinos. Acaba de oficializar a saída da Organização Mundial da Saúde (OMS). Invoca sua presunçosa e cabotina autoridade pessoal para ditar regras ao mundo, atropelando a soberanias das nações, ameaçando povos e tomando atitudes acima do direito internacional. Seu Conselho, portanto, nasce completamente desqualificado, um embuste que serve unicamente ao seu ego e à sua política de guerra.

A iniciativa de Trump é antagônica à diplomacia brasileira, que se pauta pelo multilateralismo e participou ativamente da fundação da ONU. O Brasil defende reforma do Conselho de Segurança da ONU para torná-lo mais representativo e mais democrático, na busca de um assento permanente para a sua atuação pela paz e desenvolvimento das nações. Essas premissas indicam que o Brasil caminha para recusar a proposta de Trump para integrar o seu Conselho, conduta em linha com a sua política externa. Aliás, o ex-chanceler e diplomata Celso Amorim, assessor especial do presidente Lula, já sinalizou que o Brasil deverá dizer não ao convite. O presidente Lula realiza contatos com lideranças mundiais na linha que se empreenda reformas para fortalecer a ONU. Dialogou com os presidentes da China, da Turquia, com o primeiro-ministro da Índia e, também, com o pre sidente da Autoridade Nacional Palestina.

Fica evidente que o trumpismo é neofascista, assumido por setores das classes dominantes como meio para reverter a decadência dos Estados Unidos, a proclamação de Trump em sua posse de que o declínio do país estava acabado. É a repetição dos nazifascistas, que no passado lançaram mão de todo tipo de violência com a promessa de reerguer seus países.

No caso de Trump, até ideólogos de direita, avaliam que em vez de reverter o declínio dos Estados Unidos, acontece oposto, ele estaria acelerando esse declínio, isolando a Casa Branca. A política de contenção da China também não obteve êxito. O país registrou superávit comercial recorde em 2025, atingindo cerca de US$ 1,2 trilhão, e cresceu 5% e segue angariando prestígio.

Internamente, além de não ter recuperado a economia com tarifaços, ele se vale de medidas autoritárias para fomentar violência contra o povo, como faz com sua polícia migratória, o ICE – uma verdadeira polícia política – e com as ameaças de invocar uma lei do século XIX para enviar as Forças Armadas para reprimir manifestações, inclusive com indícios de ruptura com a estrutura institucional do país.

O Brasil passou a enfrentar uma situação mais perigosa. O risco se eleva porquanto Trump se apoia na extrema-direita e de setores da direita, o clã Bolsonaro, o governador Tarcísio de Freitas et caterva, que lhe prestam total vassalagem.

É um cenário em que a diplomacia tem papel fundamental na defesa da soberania nacional, mas a necessidade de reforço da capacidade de defesa é indiscutível. A busca do diálogo deve ser reforçada com ações que perpassam governos, forças políticas democráticas, entidades e movimentos populares, organizando um amplo movimento de caráter anti-imperialista, de âmbito regional e nacional, de defesa da paz e da soberania nacional, da cooperação e do multilateralismo.

Leia também "Estética imperialista: A política do espetáculo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estetica-imperialista.html 

Sylvio: "proteção"

Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas por prudência é recomendável que os bolsonaristas coloquem um para-raios na cabeça nos seus próximos encontros golpistas e antidemocráticos.

Sylvio Belém  

À direita, todos brigam e ninguém tem razão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_22.html 

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China cresce 5% em 2025 apesar das provocações tarifárias dos Estados Unidos. Trump estrebucha frustrado e raivoso. 

Leia também: O segundo choque global da China https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/renildo-souza-opina.html 

Minha opinião

Manobra parlamentar legítima 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65   

A governadora Raquel Lyra conta com maioria na Assembleia Legislativa e é natural que dela disponha plenamente.

Cabe à oposição resistir no que pareça justo e oportuno, inclusive através de manobras regimentais usar da obstrução para adiar a tramitação de projetos do Executivo. 

Dias atrás, a mídia local deu espaço a uma polêmica desnecessária: se o retardamento da transmutação de projetos da governadora seria legítimo ou não.

Duas observações são pertinentes.

Uma: governante que conta com maioria parlamentar e não consegue trâmite legislativo normal para suas proposições padece de habilidade ou escolhe mal seus líderes. Pelo que se vê no noticiário, as duas hipóteses são plausíveis. 

Outra: é papel da oposição explicitar críticas e divergências em relação ao governo. Faz parte do jogo democrático. E, em casos excepcionais, até dificultar a tramitação de matérias importantes de modo a prolongar o debate e fazê-lo repercutir publicamente.

Alguma relação com as eleições gerais deste ano? Também. Faz parte do jogo democrático.

Leia também: “Raquel Lyra e a instabilidade persistente” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_23.html