09 setembro 2026

Respeito à Lei

Ministro do STF, Flávio Dino reintegra comando da PF e barra ordem de Mendonça
Decisão liminar preserva investigações sobre desvio de emendas parlamentares destinadas ao filme Dark Horse
Davi Dmolir/Vermelho  
 

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta quarta-feira (9) a reintegração imediata de Andrei Augusto Passos Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal (PF) e de Leandro Almada da Costa à Diretoria de Inteligência Policial.

A decisão acolhe pedido da própria direção da corporação e anula, na prática, os efeitos do afastamento preventivo decretado na terça-feira (8) pelo ministro André Mendonça.

No exercício do poder geral de cautela, Dino atua em processo sob sua relatoria que investiga o desvio de emendas parlamentares repassadas a entidades ligadas à produtora do filme Dark Horse, cinebiografia ficcional do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O ministro destacou a necessidade de evitar danos irreparáveis às investigações, uma vez que as que elas estão perto de serem concluídas. Dino também registrou que “veio a lume a informação” de que Mendonça teria recebido Daniel Vorcaro – investigado em processos da própria relatoria do ministro Mendonça – para reunião nas dependências de uma empresa privada, intermediada por agentes que também figuram em apurações no Judiciário.

O encontro de 14 de março de 2025, na sede do instituto educacional mantido por Mendonça em São Paulo, foi admitido pelo gabinete do ministro.

A decisão do ministro Flávio Dino restabeleceu integralmente as funções dos delegados, vedando novas cautelares fundadas no regular exercício de suas atribuições.

A medida de Dino contrapõe a ordem de Mendonça na PET 16.662, referente a desdobramentos da Operação Compliance Zero. Mendonça havia afastado os delegados sob a alegação de suposto monitoramento ilegal, decisão que contou com votos favoráveis dos ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques na Segunda Turma, apesar do pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

Na petição apresentada ao STF, Andrei Rodrigues alertou que o afastamento desorganizava a equipe, retardava o acesso a provas e comprometia o andamento das apurações. Dino acolheu os argumentos e criticou a paralisia imposta ao órgão policial, classificando a suspensão de relatórios de inteligência como uma medida inédita que gerava caos administrativo sobre apurações urgentes.

As apurações envolvem a destinação de emendas Pix de parlamentares do PL, como Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon, a institutos ligados aos produtores do longa-metragem. A decisão de Dino garante a continuidade das diligências que rastreiam o uso de verbas públicas na estrutura de propaganda ligada ao bolsonarismo. Há evidências que parte dos recursos foram enviados ao Texas, nos EUA, para fundo cujo acesso é de Eduardo Bolsonaro.

Crimes financeiros do clã Bolsonaro no caso “Dark Horse” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/poco-de-lama.html 

Pé na lama

Vorcaro repassou US$ 12,3 milhões a fundo ligado a Eduardo Bolsonaro
Em delação à PGR, operador financeiro diz ter feito sete transferências a mando do ex-banqueiro; PF investiga se recursos bancaram apenas o filme Dark Horse ou também Eduardo
Cear Xavier/Vermelho 
 

O operador financeiro Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, afirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) ter realizado sete transferências bancárias que totalizaram US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 69 milhões pela cotação da época, para o fundo Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.

Segundo o relato apresentado em seu acordo de colaboração premiada, os pagamentos foram feitos a pedido de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, ao longo de 2025. As informações foram divulgadas nesta terça-feira (8) pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo, e confirmadas por outros veículos.

Fundo é ligado a advogado próximo de Eduardo

O Havengate é sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado Paulo Calixto, que mantém relação profissional com Eduardo Bolsonaro (PL-SP). As autoridades investigam se os recursos foram utilizados exclusivamente para a produção do filme Dark Horse, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro, ou se parte deles teve outra finalidade.

O financiamento do filme ganhou dimensão política depois que vieram a público mensagens nas quais Flávio Bolsonaro teria solicitado recursos a Vorcaro para concluir a produção. A partir daí, os investigadores passaram a examinar não apenas o custo do longa, mas também a origem e o caminho percorrido pelos recursos.

Uma perícia privada citada nas reportagens apontou que aproximadamente 72% dos US$ 13,39 milhões gastos no projeto ocorreram nos Estados Unidos, enquanto 28% foram desembolsados no Brasil. A discrepância entre os valores enviados ao Havengate e as despesas efetivamente identificadas na produção tornou-se um dos pontos de interesse da investigação.

Entre as hipóteses examinadas está a possibilidade de que recursos enviados à estrutura nos Estados Unidos tenham ajudado a financiar a permanência de Eduardo no país. O deputado deixou o Brasil em fevereiro de 2025 e passou a atuar politicamente a partir dos Estados Unidos.

“Mineiro” descreve operações a mando de Vorcaro

A colaboração de Freixo Júnior amplia o conhecimento das autoridades sobre a forma como Vorcaro movimentava recursos. Segundo o delator, sua empresa, a Entre Investimentos e Participações, funcionava como uma espécie de braço operacional do ex-banqueiro para determinadas operações financeiras.

Freixo também teria relatado aos investigadores que, em outras ocasiões, recebeu de Vorcaro a incumbência de obter dinheiro em espécie e realizar operações consideradas fora dos procedimentos financeiros convencionais. Parte desse dinheiro seria transportada em malas e entregue a terceiros indicados pelo ex-banqueiro.

No caso dos recursos enviados ao Havengate, entretanto, o ponto central da nova revelação é que o próprio operador confirmou ter realizado as sete transferências e afirmou que agiu por determinação de Vorcaro.

Delação ainda precisa ser validada pelo STF

O acordo de colaboração de Freixo Júnior foi firmado com a PGR e encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), para análise e homologação.

Enquanto a colaboração não for validada judicialmente, as declarações do delator integram o material investigativo, mas ainda precisam ser confrontadas com documentos, registros financeiros e outros elementos de prova.

O caso faz parte das investigações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de irregularidades envolvendo o Banco Master e pessoas relacionadas ao grupo controlado por Vorcaro. A colaboração de “Mineiro” é a segunda firmada pela PGR no âmbito do caso.

A confirmação das sete transferências acrescenta, portanto, uma nova peça ao quebra-cabeça financeiro de Dark Horse: o dinheiro saiu de uma estrutura ligada a Vorcaro, passou pelo operador financeiro e chegou a um fundo administrado por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.

Firme repúdio à manobra golpista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/palavra-do-pcdob.html

Arte é vida

 

Edward Hopper

"Duplo sentido" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra_070600094.html 

"Coração de lona" em festival na França

Filme pernambucano 'Coração de Lona' é selecionado para o Festival de Cinema de Biarritz, na França
Dirigido pela cineasta Tuca Siqueira (de 'Buenosaires' e 'Amores de Chumbo'), longa será exibido durante evento dedicado à cultura da América Latina, com programação de 26 de setembro a 2 de outubro
André Guerra/Diário de Pernambuco 
   

O novo longa-metragem da diretora pernambucana Tuca Siqueira, "Coração de Lona" foi selecionado para a mostra competitiva do 35º Festival de Cinema de Biarritz América Latina, que acontecerá de 26 de setembro a 2 de outubro. O evento é um dos principais do calendário cinematográfico dedicado à cultura latina e é realizado anualmente no País Basco francês.

A trama gira em torno de Inês, dançarina que vive com sua família em um circo em decadência. Depois de perder um filho, ela descobre que o passado não é algo que deixamos para trás, mas que atravessamos.

A cineasta lançou este ano o documentário "Buenosaires", no qual trata da pequena cidade de Buenos Aires, na Zona da Mata de Pernambuco, e da relação de identificação que seus moradores constroem com a Argentina. Em 2018, ela lançou "Amores de Chumbo", seu primeiro longa de ficção, no qual refletia sobre as marcas da ditadura militar brasileira a partir de um triângulo amoroso que atravessava mais de 40 anos. 

Quando Buenos Aires viu “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/buenos-aires-o-filme.html 

Minha opinião

Excesso de tecnologia & baixo aprendizado

Luciano Siqueira    

A todo instante se divulgam estudos detalhados acerca da relação entre a tecnologia digital e os processos de aprendizado nas escolas. Nos anos iniciais, sobretudo.

Ganha destaque o recente relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) juntamente com avaliações do PISA (Programa para Avaliação Internacional de Estudantes).

O foco é o impacto da tecnologia no ambiente escolar e no desenvolvimento cognitivo e emocional de crianças e adolescentes.

Destaca-se o impacto das telas e redes sociais, com siderando que a presença excessiva de dispositivos móveis, feeds de redes sociais e notificações constantes na rotina de estudos geram distração, queda na capacidade de concentração e perda do hábito de leitura profunda entre os jovens.

O uso desregulado de telas é apontado como fator determinante da queda histórica e mesmo a estagnação do desempenho dos alunos no Pisa em diversas partes do mundo.

No Brasil, quase metade dos estudantes (48%) afirma utilizar ferramentas de IA generativa em suas rotinas escolares/acadêmicas, o que aguça a necessidade de orientar os alunos sobre o bom uso da ferramenta.

Nada simples.

Destaca-se o apoio a políticas de restrição e regulação do uso de celulares e redes sociais no ambiente de sala de aula para minimizar distrações.

Concomitantemente, incentivar a empatia, a resiliência, a automotivação e a disciplina consciente como contraposição ao vício “dopaminado” dos feeds.

É preciso capacitar os estudantes a verificar informações, avaliar dados produzidos por IA e filtrar a sobrecarga de conteúdo da internet. Também preservar espaços para atividades analógicas e momentos de atenção contínuos sem interrupções por notificações.

Um desafio nada simples é a combinação entre limites de tempo de tela tanto no ambiente doméstico quanto no escolar, pois exige íntimo entrosamento entre os ambientes escolares e familiares.

Há que se considerar o peso quase insuperável da pressão exercida pelas big techs, empenhadas essencialmente na reprodução de meios e hábitos destinados a multiplicar seus lucros estratosféricos.

Uma luta nada simples. Uma exigência em toda e qualquer politica educacional.

Leia também Ganhadores do Prêmio Nobel alertam para impactos da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/ia-em-questao.html

Abraham Sicsu opina

Utilitarismo corrói a Sociedade
Abraham B. Sicsu  

Não fico surpreso, é comum encontrar quem assim pensa, é triste constatar diretamente, escutar em alta voz. No meio intelectual e acadêmico proliferar é uma contradição. Infelizmente há quem acredite nisso e não se envergonham mais de dizer. As críticas ao funcionalismo público e, principalmente, à Universidade Pública, são constantes.

Um dos pontos mais abordados é a lógica das prioridades nos gastos governamentais. A priorização que se dá ao pagamento de salários do funcionalismo, o qual não pode atrasar, é ponto que não é aceito pelos que acreditam que o Estado deve estar a serviço dos interesses empresariais.

Dizem, “tudo pode ser postergado em termos de gastos públicos menos os salários do funcionalismo”.  Com isso, a sociedade, na opinião deles, perde, pois se adiam investimentos que podem gerar emprego e renda. Podem ser mais importantes.

Acho estranho que possa ser questionado o pagamento mensal que dá um mínimo de estabilidade financeira a uma classe tão sacrificada. Classe que muitas vezes tem dificuldades de sobrevivência e de manter os seus.

Se questionassem o funcionalismo que tem privilégios, ou mesmo, aqueles apaniguados de alguns governos, até poderia admitir, mas, questionar um direito que é básico para todo trabalhador, fundamental para a sobrevivência dos que trabalham e suas família, um contrassenso.

Ligando a isso, no caso das Universidades, fazem uma dura crítica aos profissionais que têm Dedicação Exclusiva. Deveria ser eliminada, assim pensam. Na opinião deles, boa parte não faz jus e não se dedicam às suas atividades. Defendem que deveriam ser remunerados pelo que produzissem, pelo que efetivamente entregassem à sociedade, ou melhor, a quem é detentor do direcionamento da dinâmica econômica.

Como em toda profissão, há aqueles que a desonram, não nego. Mas tirar as bases mínimas necessárias para o desenvolvimento do ensino, pesquisa e extensão jamais será a solução. Criar um sistema mais eficiente de avaliação e mesmo de controles mais efetivos podem dar resultados eficientes e evitar distorções dos maus profissionais.

A partir dessa afirmação deixam evidente que têm em mente que os pesquisadores e professores universitários deveriam estar a serviço do setor produtivo, deveriam ser pagos conforme os recursos que gerassem para as empresas. Serem instrumentos de ajudar a lucratividade e o fortalecimento do desenvolvimento capitalista.

Não entendem que a Universidade é a única instituição que pode gerar conhecimento sem atrelamento a interesses imediatos e onde se pode questionar a sociedade em que se vive sem necessariamente estar a serviço do imediatismo que direciona as lógicas de poder, inclusive econômico. Que pode ser o espaço de construir o futuro e seus caminhos, de debatê-los e mesmo de contrariar interesses dominantes. Onde se tem direito a discordar e fundamentar visões alternativas.

Ainda, perdem a noção do que é a Universidade, da multiplicidade de áreas, da importância de construir a cidadania, de formar as elites pensantes de um povo, de mostrar valores fundamentais que não são percebidos no dia a dia da frenética busca por lucro e poder.

A lógica dos críticos tresloucados se prende a uma concepção em que o tecnológico e o econômico deveriam ter primazia e o enfoque a ser dado institucionalmente ligado aos retornos de curto prazo.

Essa visão pode destruir a base social e moral da nação, seu utilitarismo leva a que se enfraqueça a cidadania, a que se percam valores que são definidores de uma ética norteadora para uma sociedade um pouco mais sadia e justa.

Para angariar simpatia dos estudantes procuram mostrar que os que se engajam nessa visão da tal lucratividade terão garantia de empregabilidade e, portanto, devem-se menosprezar áreas que não estão nessa lógica inseridas. Discurso que pode até ser percebido em períodos de crescimento econômico.

Esquecem que a economia é cíclica, que nos períodos de crescimento há aumento da demanda e de emprego. Mas, há também períodos de recessão. Nesses, uma grande parte dos trabalhadores têm seus salários aviltados e um nível de desemprego crescente é observado. Basta ver o nível alarmante de desemprego que tivemos no período de 2016 a 2022, onde, mesmo os profissionais mais qualificados da área tecnológica tiveram dificuldades de inserção no mercado de trabalho

Essa fala me fez lembrar um rico empresário brasileiro. Financiou muitas missões de formadores de opinião e de políticos para os Estados Unidos da América. O objetivo era tentar provar que nosso Sistema Educacional estava errado. Segundo seu pensamento, deveria ser dada maior ênfase aos conteúdos às Línguas Estrangeiras, Matemáticas e Matérias Específicas de Caráter Operacional e, se possível, eliminar essas “bobagens” de Filosofia, Sociologia, História, entre outros.

Visões como essas, em que a Cultura Geral é menosprezada, em que o norte é dado principalmente pelo retorno econômico, diminuem o senso crítico, apequenam a cidadania, embrutecem a sociedade, destroem as bases de uma nação que possa definir seus rumos de uma maneira autônoma e soberana.

Infelizmente, esses pensamentos proliferam sendo à base do obscurantismo mais profundo. O imediatismo utilitário tem aceitação crescente e é entusiasticamente defendido por segmentos conservadores da sociedade. Pior, fundamenta um projeto que vem se consolidando politicamente e surge como proposta de planos atuais para os próximos anos dos extremados de pensamento de direita.

Não é coincidência ver proporem a retirada das Universidades da esfera da educação para levá-las para o que chamam de inovação, ou seja, para o simples retorno econômico financeiro como parâmetro.

Luciana Santos: "Infovias: Ciência e Tecnologia a serviço da inclusão e da soberania nacional" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-luciana.html 

08 setembro 2026

Palavra de poeta

Fábula de um arquiteto
João Cabral de Melo Neto   

A arquitetura como construir portas,
de abrir; ou como construir o aberto;
construir, não como ilhar e prender,
nem construir como fechar secretos;
construir portas abertas, em portas;
casas exclusivamente portas e tecto.
O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Até que, tantos livres o amedrontando,
renegou dar a viver no claro e aberto.
Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até fechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.


[Ilustração: Philip Guston]

Leia também: "a parede e a flor", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/palavra-de-poeta_01116453344.html