O que apareceria no extrato de Flávio se ele aceitasse o desafio de Lula?
Da suspeita de cargo fantasma às rachadinhas, imóveis e negócios com Vorcaro, o histórico de Flávio voltou ao debate após Lula propor abrir seus sigilos bancário e telefônico
Lucas Toth/Vermelho
Flávio Bolsonaro foi ao debate da Band com pose de fiscal da corrupção. Durante boa parte do programa, o candidato da extrema direita passou ao largo das perguntas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre os tantos casos que rondam o 01 do clã.
Lula, no entanto, dobrou a aposta. O presidente disse que aceitaria abrir seus sigilos bancário e telefônico caso Flávio Bolsonaro fizesse o mesmo. “Em vez de ficar falando que é honesto, prove que você é honesto”, cobrou o presidente.
“Eu sou presidente, por doze anos, eu tenho um apartamento de cento e noventa metros quadrados de um milhão e meio [reais]. Esse cidadão [Flávio], que ganha o mesmo salário que eu, comprou uma casa de dez milhões e pagou à vista uma parte dela com dinheiro do BRB, que está metido no caso do banco do Vorcaro”, relembrou Lula.
O candidato do Partido Liberal (PL) não aceitou o desafio. Nas redes sociais, os internautas também passaram a cobrar que Flávio abra os sigilos e mostre ao eleitor o que há por trás da pose de guardião da moralidade.
E material para alimentar essa cobrança não falta: ao longo de décadas de vida pública do senador, a imprensa reuniu reportagens e documentos sobre negócios, patrimônio e relações políticas que fazem a imaginação do brasileiro correr.
A lista começa muito antes das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde Flávio foi acusado de participar de um esquema de desvio de salários de assessores. Antes de chegar à Alerj, Flávio já havia ocupado um cargo público que levantou sérias suspeitas.
Em dezembro de 2000, aos 19 anos, o 01 foi nomeado assistente técnico na liderança do PPB na Câmara dos Deputados, em Brasília — o partido pelo qual Jair Bolsonaro, seu pai, ocupava uma cadeira —, com jornada de 40 horas semanais.
Na mesma época, no entanto, ele cursava Direito presencialmente e fazia estágio voluntário na Defensoria Pública, ambos no Rio; antes dele, o posto na Câmara havia sido ocupado por Ana Cristina Siqueira Valle, então mulher de Jair.
Como o cargo exigia expediente em Brasília, a rotina de Flávio — que cursava Direito e fazia estágio no Rio, a mais de mil quilômetros dali — levanta suspeitas até hoje de que o filho de Jair Bolsonaro fosse funcionário fantasma.
Flávio deixou o cargo na Câmara em 2002 e, no ano seguinte, assumiu o primeiro mandato na Alerj.
Foi no gabinete estadual que o Ministério Público do Rio identificou o esquema das rachadinhas: segundo a acusação, assessores devolviam parte dos salários, e Fabrício Queiroz recolhia e movimentava o dinheiro. A investigação seguiu esse caminho até os negócios imobiliários do senador.
Os promotores apontaram R$638,4 mil em depósitos em dinheiro vivo na conta de um corretor ligados à compra de dois apartamentos e questionaram o lucro de 292% declarado por Flávio na revenda, muito acima dos 11% de valorização da região. A suspeita é de lavagem de dinheiro com o recolhimento dos salários dos servidores.
Em 2021, o STJ anulou quebras de sigilo usadas na investigação; no ano seguinte, a Justiça do Rio arquivou a denúncia. Mas a história dos imóveis não saiu do noticiário.
Naquele mesmo ano, Flávio comprou uma mansão no Lago Sul em Brasília por quase R$6 milhões, dos quais R$3,1 milhões foram financiados pelo BRB em 360 prestações. O banco não informou as condições do contrato, alegando sigilo bancário — justamente o tipo de informação que o desafio de Lula poderia ajudar a esclarecer.
Rachadinha, imóveis, Banco Master, hospitais federais e relações com personagens de outros escândalos: esse foi o repertório que Flávio deixou fora do debate. A lista a seguir reúne os principais episódios que fazem a pose de guardião da moralidade desabar.
Os casos e suspeitas que cercam Flávio
Rachadinha na Alerj: o Ministério Público do Rio apontou Flávio como figura central num esquema em que assessores devolveriam parte dos salários. Fabrício Queiroz, ex-chefe de gabinete, foi apontado como operador. Decisões judiciais anularam provas obtidas com quebras de sigilo, e Flávio não foi condenado.
Imóveis e dinheiro vivo: na mesma investigação, o MP suspeitou que Flávio e a mulher usaram dinheiro em espécie para ocultar valores em negócios imobiliários. Um relatório apontou R$638,4 mil em depósitos em dinheiro ligados à compra de dois apartamentos e questionou o lucro declarado na revenda.
A compra de uma mansão de quase R$6 milhões em Brasília também chamou atenção, em 2021, porque o senador era investigado por suspeitas envolvendo imóveis.
Banco Master e o filme Dark Horse: Flávio mentiu sobre sua relação com Daniel Vorcaro: primeiro disse que não conhecia o ex-banqueiro; depois, quando questionado sobre o financiamento do filme, chamou a informação de “mentira”.
Mensagens divulgadas mais tarde mostraram o senador negociando US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — e chamando Vorcaro de “irmão”. Ao menos US$ 12,3 milhões, mais de R$ 65 milhões, foram transferidos ao fundo que administrava os recursos do filme.
Só depois da divulgação das conversas Flávio admitiu a negociação, que passou a chamar de patrocínio privado. A Polícia Federal investiga suspeitas ligadas à origem e ao caminho do dinheiro.
Careca do INSS: reportagem do ICL mostrou que uma empresa de capacetes ligada a Flávio funcionava no mesmo endereço e usava a mesma contabilidade de empresas associadas a Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, preso no caso dos descontos ilegais em aposentadorias. A coincidência levanta suspeitas de de ligação entre o Careca do INSS e o 01.
Hospitais federais no Rio: Durante o governo do pai, Flávio interferiu nas indicações e decisões dos seis hospitais federais do Rio, embora não ocupasse cargo na área da Saúde.
Em 2019, contestou a nomeação de Paulo Cotrim para o Hospital de Bonsucesso; menos de um mês depois, Cotrim foi exonerado. Na pandemia, leitos ficaram fechados por falta de profissionais e, no fim de 2020, 3,5 mil contratos foram encerrados.
Auditorias do TCU e da CGU identificaram editais com sobrepreço de R$69 milhões em insumos e R$18,1 milhões em medicamentos.
No debate, Lula cobrou: “Eu queria fazer a pergunta, se ele tem noção da destruição que ele fez nos seis hospitais federais do Rio de Janeiro, que nós agora estamos recuperando”.
Willer Tomaz e a rede de relações de Flávio: A Polícia Federal investiga se Flávio atuou com o advogado Willer Tomaz em um suposto esquema de lavagem de dinheiro. O inquérito no STF surgiu de uma apuração sobre lavagem e evasão de divisas por meio de bets. Ao analisar os e-mails de Tomaz, a PF encontrou registros que apontam Flávio como “usuário master” de uma conta da empresa Alcazar Holdings, administrada pelo advogado, até maio de 2025.
A investigação também identificou ao menos cinco viagens internacionais feitas juntos em 2025; documentos indicam que Tomaz bancou viagens do senador e de familiares.
Em uma delas, Flávio viajou num jato operado por uma empresa que tinha Daniel Vorcaro como sócio e Tomaz como cotista de uso. Flávio chamava o advogado de “meu amigo Willer Tomaz” e também atua ao lado dele em processos judiciais.
Apartamento usado na campanha: uma representação eleitoral questionou o uso de um imóvel ligado a Willer Tomaz durante a campanha e apontou possível despesa ou doação não declarada. A denúncia ainda não comprova irregularidade.
Kopenhagen e Alexandre Santini: Flávio foi sócio de Santini numa franquia da Kopenhagen na Barra da Tijuca. A loja entrou na investigação das rachadinhas porque, segundo o Ministério Público, movimentava dinheiro em espécie e registrava um faturamento incompatível com as transações.
Mergulhado em lama fétida https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/denuncia-grave.html