Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
26 abril 2026
Fotografia
"Definitivamente, um plebeu provinciano" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_12.html
Futebol em evolução
Um novo olhar sobre o
futebol
O jogo se transformou nas últimas décadas, e
precisamos mudar a nossa visão. Ao mesmo tempo, uma ideia para um time de 2026
pode vir da década de 60
Tostão/Folha
de S. Paulo
Em outra coluna, escrevi que Gerson e Matheus Pereira podem formar uma ótima dupla no Cruzeiro, observei que deveriam alternar durante as partidas a suas posições e funções em campo.
Um leitor me disse que pensou imediatamente em
outra dupla: Tostão e Dirceu Lopes no Cruzeiro dos anos 60. É isso, nós nos
completávamos em campo. Enquanto Dirceu Lopes era extremamente hábil e rápido
e, em uma fração de segundo, passava de uma intermediária à outra, eu me
destacava mais por jogar com dois toques, pelos passes, além de marcar gols.
Eu era um meia-atacante, um camisa 10, que usava a
8, enquanto Dirceu Lopes era um meio-campista, um camisa 8, que jogava com
a 10. Entendíamo-nos pelo olhar, pelo movimento do corpo e pelo vulto. É a
comunicação analógica, menos precisa, porém mais inventiva.
Piazza era o meio-campista centralizado e mais
recuado. Formávamos um trio no meio-campo, como é hoje frequente em grandes
equipes, como o Barcelona, o Manchester City e as seleções de Espanha e Portugal. Evidentemente, os
jogadores hoje têm melhores condições físicas. Quase todos os times brasileiros
prefere a formação com dois meio-campistas (volantes) mais um meia avançado e
centralizado.
Ancelotti vive essa dúvida. Contra a
França e nos jogos anteriores, o time jogou com dois volantes, um meia avançado
e centralizado (Matheus Cunha) e um trio no ataque. Nessa formação, os dois
volantes ocupam uma faixa extensa de campo para iniciar as jogadas e proteger
os quatro defensores, e é importantíssima a volta dos pontas para marcar.
Contra a Croácia, Matheus Cunha atuou mais recuado,
marcando pela esquerda e formando um trio no meio-campo com Casemiro e Danilo.
Com isso, Vinicius Junior, pela esquerda, não precisava voltar para marcar, o
que melhora sua atuação. Além disso, Matheus Cunha consegue marcar e ainda
chegar ao ataque. Nas duas formações, a compactação ainda não foi eficiente.
Não basta mais ter ótima
estratégia e excelente elenco. Hoje, um grande time precisa ser compacto,
intenso, pressionar em todo o campo e alternar as trocas de passes e o domínio
da bola com a transição rápida da defesa para o ataque. O futebol se transformou nas últimas décadas, e
precisamos mudar o nosso olhar sobre o jogo. Continuam frequentes os antigos
clichês, as frases feitas e a repetição de conceitos.
Racismo estrutural
Uma das razões
de tantos protestos, vaias e demissões
de treinadores no futebol brasileiro é a ilusão de que os
técnicos possuem a chave do jogo. É como se tudo o que acontece no gramado
fosse por causa das ações dos treinadores. Eles são importantes, algumas vezes
mudam a história do jogo, mas são excessivamente valorizados nas vitórias e
desvalorizados nas derrotas.
No São Paulo,
Roger Machado foi bastante criticado antes mesmo de sua estreia, por causa da
saída do antecessor Hernán Crespo –que tinha uma boa média de resultados– e
porque não tem um prestígio consolidado. Muitos torcedores acham que ele é
pouco prático e dá muitas explicações incompreensíveis.
Pode haver
nessa recusa um racismo estrutural, uma absurda visão,
inconsciente ou não, de que Roger, por ser negro, não teria conhecimentos para
comandar uma grande equipe.
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A estratégia e a improvisação no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/futebol-tecnica-e-talento.html
25 abril 2026
"Caminhada dos Cravos"
A cidade que não recua: há 17 anos Niterói marcha contra o fascismo
Evento se inspira na Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, que derrubou a ditadura salazarista em Portugal
Leonardo Giordano/Revista Forum
Há 17 anos, Niterói realiza uma experiência política singular. Todos os anos, a cidade ocupa suas ruas com uma “Caminhada dos Cravos”, mobilização pública, aberta e coletiva, que afirma, na prática, valores socialistas: solidariedade, organização popular, justiça social e compromisso com a transformação da realidade. Trata-se de uma construção contínua, feita a céu aberto, onde o povo que vem se reconhece como sujeito político, participa e reafirma que a democracia só existe quando é vivida, disputada e sustentada coletivamente.
Essa mobilização tem origem em uma referência histórica que atravessou fronteiras e ganhou novo sentido no território. A Revolução dos Cravos, ocorrida em 25 de abril de 1974, foi um levante militar e popular que pôs fim à ditadura salazarista em Portugal e abriu caminho para a redemocratização do país. Em 2026, esse marco completa 52 anos e permanece como uma das mais potentes referências de ruptura democrática construída a partir da ação coletiva, quando o povo ocupou as ruas e decidiu intervir diretamente nos rumos da história. É essa experiência que inspira, orienta e atualiza, no presente, a Caminhada dos Cravos em Niterói.
Ao caminhar juntos, não ocupamos apenas o espaço físico das ruas. Ocupamos a história, reabrimos caminhos e lembramos ao tempo que ele também pode florescer. A Caminhada dos Cravos se consolidou, ao longo dessas quase duas décadas, como um espaço de encontro, mobilização e construção política, onde memória e ação se entrelaçam e produzem sentido coletivo.
Em um país marcado por ciclos de desmobilização, a permanência dessa iniciativa por 17 anos revela a existência de um campo social ativo, que se organiza, ocupa as ruas e sustenta a defesa da democracia como prática cotidiana. A caminhada foi realizada em conjunturas muito difíceis como a época do impeachment de Dilma, a prisão de Lula e os anos de Bolsonaro, sem interrupções.
Não por acaso, a Caminhada dos Cravos se sustenta em valores que historicamente estruturam o campo socialista: a centralidade do coletivo, a organização popular e a ideia de que a transformação social direta, é construída. É nesse terreno que a democracia deixa de ser apenas forma institucional e passa a ser prática concreta de igualdade e camaradagem.
Essa ação anual nos conecta a uma das imagens mais potentes da história contemporânea. Os cravos vermelhos, colocados nos fuzis dos soldados em Portugal, se tornaram símbolo de uma ruptura histórica conduzida sem a lógica da violência e baseada na ação coletiva.
Os cravos naquela revolução simbolizavam uma decisão política consciente de retirar da violência o controle sobre o destino do povo e devolver à sociedade a liberdade. A afirmação de que a paz não é passividade, mas ação organizada contra a violência com método.
A praça pública transforma a política em prática viva, rompe o isolamento imposto pelo medo e faz chamado à luta para devolver ao povo a condição de protagonista da história. Cada passo coletivo é um gesto de resistência e uma afirmação de que a luta só se sustenta com participação, organização e disposição para defendê-la.
O Brasil conhece o peso do autoritarismo. Sobreviveu a uma ditadura e a governos autoritários que perseguiram, censuraram e tentaram silenciar gerações inteiras. Sobreviveu porque houve resistência. E é essa mesma disposição que segue sendo exigida no presente. Mesmo após a redemocratização, o país nunca deixou de conviver com tentativas recorrentes de ruptura, o que revela que a democracia brasileira é uma construção permanente, marcada por conflitos e disputas.
Hoje, esse cenário se intensifica. O país atravessa um novo ciclo eleitoral em que forças autoritárias voltam a disputar espaço com intensidade. O fascismo reaparece adaptado às linguagens contemporâneas, operando pela desinformação, pela normalização da violência e pela tentativa de deslegitimar instituições e direitos. Trata-se também de uma disputa de sentidos. De um lado, projetos que operam pela exclusão, pela violência e pela desinformação. De outro, práticas coletivas que reafirmam a democracia como construção social e cultural.
Em abril, os cravos voltam a brotar novamente em Niterói. Não apenas nas mãos, mas na coragem de quem não se rende, na esperança de quem insiste e na luta de quem sabe que um outro mundo não é sonho, é construção. Há um fio vermelho que não se rompe, o fio da dignidade, da rebeldia e do povo organizado que transforma medo em movimento. No próximo dia 26, estaremos em marcha!
Leonardo Giordano é vereador de Niterói e presidente da Comissão de Cultura e Patrimônio da Câmara Municipal. Ex-secretário das Culturas do município, é também o idealizador da marcha, iniciativa que reafirma seu compromisso com a cultura como direito e com a ocupação das ruas como expressão de democracia e resistência.
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Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html
PCdoB atualiza rumos
PCdoB lança programa de reformas para romper com o neoliberalismo
Documento propõe quatro eixos de transformação estrutural, do Banco Central à reforma agrária, como caminho para o desenvolvimento soberano e o socialismo
Bárbara Luz/Vermelho
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) tornou público o documento: “Subsídios à elaboração das reformas estruturais democráticas”, programa detalhado que aponta o caminho para romper com as amarras neoliberais e neocoloniais que há décadas travam o desenvolvimento do Brasil. Fruto da elaboração coletiva de mais de 50 lideranças, militantes e estudiosos, o texto foi aprovado pela Comissão Permanente do partido no final de 2025 e agora é disponibilizado para amplo debate das forças democráticas, populares e patrióticas do país.
Segundo o diagnóstico do Partido, o Brasil acumula deformações estruturais que bloqueiam o desenvolvimento e empurram o país para retrocessos: a condição de nação dependente e semiperiférica, submetida à pressão do imperialismo estadunidense; a dominância do capital financeiro e do rentismo, que suga os recursos que deveriam financiar a produção; um Estado enfraquecido e capturado pela oligarquia financeira; a desindustrialização acelerada — a participação da indústria de transformação no PIB despencou de 36% em 1985 para apenas 11% hoje — e a crescente precarização do trabalho. A esses obstáculos se somam a enorme desigualdade social e regional, o avanço do racismo, do machismo, da misoginia e da LGBTfobia, e a ameaça permanente da extrema-direita à democracia. O documento nomeia os culpados sem hesitar: a oligarquia financeira, os setores pró-imperialistas das classes dominantes e o imperialismo estadunidense.
“O fortalecimento da nação é o caminho e o socialismo é o rumo.”
Para enfrentar esse conjunto de males, o programa organiza as reformas estruturais democráticas em quatro grandes eixos. O primeiro trata da reconstrução e democratização do Estado nacional, com propostas que vão da reforma política à defesa nacional, passando pelo sistema financeiro, pela política externa e pela regulação das plataformas digitais. O segundo eixo aposta no desenvolvimento econômico com soberania produtiva: reindustrialização em novas bases tecnológicas, reforma tributária progressiva, reforma agrária articulada à agroindustrialização e desenvolvimento sustentável. O terceiro eixo exige a universalização dos direitos sociais — seguridade social, educação, segurança pública e reforma urbana. E o quarto eixo, fundamental, trata dos conteúdos que determinam uma sociedade humanista: direitos das mulheres, da população negra, dos povos indígenas, da comunidade LGBTQIA+ e da liberdade religiosa. Não há projeto nacional sério que ignore qualquer um desses eixos.
Entre as propostas mais ousadas e urgentes está a revogação da autonomia do Banco Central, instrumento que o documento chama, sem meias palavras, de “cínico” — uma instituição orientada para e pelo mercado financeiro, não pelo povo. O programa defende que o câmbio deixe de flutuar em favor da especulação e passe a ser administrado pelo Estado, em sintonia com a Presidência da República e o Ministério da Fazenda. Defende também a criação de um Sistema Nacional de Financiamento Público da Transformação Produtiva, fortalecendo o BNDES e os bancos públicos regionais para direcionar crédito às áreas prioritárias. Na tributação, o partido propõe acabar de vez com os privilégios dos mais ricos: regulamentar o imposto sobre grandes fortunas — previsto na Constituiç&at ilde;o desde 1988 e nunca implementado —, ampliar as alíquotas para rendas acima de R$ 50 mil mensais e revisar as renúncias fiscais que beneficiam conglomerados financeiros. Quem tem mais deve pagar mais. É simples assim.
No campo da produção, o documento aposta na reindustrialização como pilar central do novo projeto nacional, referendando a Nova Indústria Brasil (NIB), política do governo Lula que organiza seis missões mobilizadoras: saúde, transformação digital, bioeconomia e transição energética, defesa, cadeias agroindustriais sustentáveis e infraestrutura urbana. O horizonte é claro: o Brasil precisa quebrar a dependência tecnológica e ocupar a fronteira da sociedade do conhecimento do século 21, e não se resignar ao papel de exportador de commodities. Na reforma política, o PCdoB defende o fim da cláusula de barreira — “remanescente do entulho autoritário da ditadura”, na definição do próprio documento —, a adoção da lista preordenada com paridade de gênero e a manutenç& atilde;o do sistema proporcional contra o voto distrital que favorece as elites. No campo dos direitos, a proposta é radical no bom sentido: a seguridade social — saúde, previdência e assistência — deve ser encarada como investimento nacional, com financiamento estável e progressivo, gestão democrática e participativa e reversão das reformas que penalizam os mais vulneráveis.
Além disso, o documento também é explícito quanto ao sujeito histórico dessas transformações. A classe trabalhadora, com ampla aliança entre trabalhadores, movimentos populares, setores da burguesia industrial e da pequena burguesia, tem a força e o dever de liderar essa jornada. As reformas não serão concedidas pela boa vontade das classes dominantes — serão conquistadas pela mobilização social, pela construção de maioria política no Congresso e pela disputa de hegemonia na sociedade. Nesse sentido, o texto reconhece que uma nova vitória de Lula nas eleições de 2026 criará condições mais favoráveis para avançar. Mas deixa claro que a jornada pelas reformas não pode esperar: ela se realiza de modo “simbiótico e sinérgico” com o objetivo eleitoral, no calor da luta pol&ia cute;tica cotidiana.
O PCdoB lança esse documento como um chamado ao combate, um convite ao debate e uma proposta concreta para a esquerda brasileira. Num momento em que o imperialismo de Trump agride a América Latina e a extrema-direita nacional conspira abertamente contra a democracia, ter clareza estratégica, liderança e determinação para mobilizar o povo é mais do que necessário — é urgente. O Brasil que o povo construiu ao longo de cinco séculos merece mais do que o zigue-zague entre avanços e retrocessos. Merece um projeto de nação à altura de sua grandeza. Esse programa é um passo concreto nessa direção.
Para ler a íntegra do documento, https://pcdob.org.br/noticias/subsidios-as-reformas-estruturais-democraticas-para-desenvolvimento-soberano/
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O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html
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Contradição entre o geral e o particular, objetivo nacional x disputa estadual: o hipotético apoio da governadora Raquel Lyra a Lula reforçaria o presidente, mas em alguma medida turvaria diferenças políticas entre ela e João Campos, hoje bem nítidas.
Roda
vida, roda pião https://lucianosiqueira.blogspot.com/





