10 setembro 2026

Palavra de poeta

Este é o prólogo
Federico García Lorca    

Deixaria neste livro
toda a minha alma.
este livro que viu
as paisagens comigo
e viveu horas santas.


Que pena dos livros
que nos enchem as mãos
de rosas e de estrelas
e lentamente passam!


Que tristeza tão funda
é olhar os retábulos
de dores e de penas
que um coração levanta!


Ver passar os espectros
de vida que se apagam,
ver o homem desnudo
em Pégaso sem asas,


ver a vida e a morte,
a síntese do mundo,
que em espaços profundos
se olham e se abraçam.


Um livro de poesias
é o outono morto:
os versos são as folhas
negras em terras brancas,


e a voz que os lê
é o sopro do vento
que lhes incute nos peitos
– entranháveis distâncias.


O poeta é uma árvore
com frutos de tristeza
e com folhas murchas
de chorar o que ama.


O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.


O poeta compreende
todo o incompreensível
e as coisas que se odeiam,
ele, amigas as chama.


Sabe que as veredas
são todas impossíveis,
e por isso de noite
vai por elas com calma.


Nos livros de versos,
entre rosas de sangue,
vão passando as tristes
e eternas caravanas


que fizeram ao poeta
quando chora nas tardes,
rodeado e cingido
por seus próprios fantasmas.


Poesia é amargura,
mel celeste que mana
de um favo invisível
que as almas fabricam.


Poesia é o impossível
feito possível. Harpa
que tem em vez de cordas
corações e chamas.


Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.


Livros doces de versos
sãos os astros que passam
pelo silêncio mudo
para o reino do Nada,
escrevendo no céu
suas estrofes de prata.


Oh! que penas tão fundas
e nunca remediadas,
as vozes dolorosas
que os poetas cantam!


Deixaria neste livro
toda a minha alma…

[Ilustração: Alexander John White]

O mundo gira. Saiba mais  https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Postei nas redes

"Dark Horse" é o nome do pesadelo que angustia Flávio Bolsonaro, enfurecido candidato da extrema direita, os dois pés atolados na lama. 

Crimes financeiros do clã Bolsonaro no caso “Dark Horse” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/poco-de-lama.html  

Minha opinião

A praça ainda é do povo?*
Luciano Siqueira     

Faz muita falta o calor das ruas, na campanha eleitoral sobretudo.

Nas pelejas dos anos mais recentes verifica-se redução dos grandes comícios na proporção em que crescem as campanhas digitais.

Tem a ver com o custo, o alcance e o modo como a maioria das pessoas se comunica hoje. E com uma espécie de perigosa superficialidade no embate de ideias.

Verdade que os comícios de rua exigem investimentos financeiros significativos em infraestrutura — palanques, sonorização, segurança e transporte.

Candidaturas aos governos estaduais, por exemplo, já não se realizam numa sequencia intensa de comícios.

Na campanha de 1986, cá em Pernambuco, em que Miguel Arraes pleiteou o governo estadual e venceu, num dado momento realizamos um volume absurdo de comícios de médio e grande porte. Começamos cedo da manhã em Pombos, cidade limítrofe da Zona da Mata e terminamos depois da meia noite em Garanhuns, no Agreste Meridional, tendo passado antes pelo Sertão Central.

No dia seguinte, Arraes e eu tomávamos o café da manhã no Hotel Tavares Correia quando o futuro governador abordou o coordenador da campanha no interior, o velho e aguerrido militante Ivan Rodrigues:

- Acabei de descobrir quem matou Tancredo Neves.

- Quem, Dr. Arraes? – perguntou Ivan em voz baixa, quase confidente.

- Foi o cara que organizou a agenda da campanha dele no interior!

A piada fazia sentido.

Agora, as redes sociais e o impulsionamento de conteúdo digital permitem atingir um número expressivamente maior de pessoas com um custo por eleitor significativamente menor.

É a realidade, sim, frustrante para os velhos militantes habituados à peleja nas ruas.

Enquanto num comício candidatos se dirigem a um público geograficamente limitado e heterogêneo, as plataformas digitais permitem a segmentação de mensagens com base em perfis, interesses e dados demográficos específicos.

É a mensagem direcionada, tecnicamente bem concebida.

Falar para milhares e até milhões é ótimo. Mas inquietante é o formato das mensagens em meios digitais: conteúdos curtos, diretos e "sob demanda" em redes como Instagram, TikTok e aplicativos de mensagens.

Dizem que o vídeo mais competente deve durar não mais do que vinte segundos!

Tudo em busca de um “engajamento” mediante replicação espontânea ou direcionada de conteúdos na internet, tornando o "comício digital" — na forma de lives ou postagens de alto alcance — uma ferramenta mais ágil eficiente de mobilização.

Costumo apelar à militância para que se envolva nas três instâncias da luta nos dias que correm: nas redes digitais, nos salões (reuniões e assembleias) e nas ruas. Indispensáveis à elevação da consciência política de centenas de milhares e milhões, como exige a luta para além das campanhas eleitorais.

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html 

Humor de resistência

 

Miguel Paiva

Na peleja em Pernambuco, o fator subjetivo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0348287597.html  

Editorial do 'Vermelho'

É imperativo dar um basta à parcialidade golpista de André Mendonça
Ministro atua como ponta de lança de uma operação da extrema direita para agravar a crise político-institucional e assim encobrir corrupção dos Bolsonaro no caso Master
Editorial do 'Vermelho'  
 

A decisão de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar por liminar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, tem graves consequências institucionais, políticas e eleitorais. O ministro tirou a toga de vez e atua, desbragadamente, com parcialidade para favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro.

Extrapolou suas prerrogativas e detonou uma crise que tem claro sentido golpista. Atinge a Suprema Corte, a PF, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e, agora, busca arrastar o Executivo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mendonça não age sozinho. A crise político-institucional resulta de um plano ardiloso da extrema direita com três objetivos básicos: blindar e proteger Flávio Bolsonaro do crime de corrupção de R$ 134 milhões do ex-banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, do Banco Master; arrastar a disputa presidencial para o terreno predileto do neofascismo, o lamaçal e o clima de caos; e atingir a campanha do presidente Lula, impondo artificialmente o tema da “corrupção” como assunto central da disputa.

Para compreender a dimensão política do caso, basta olhar para a trajetória na PF que, sob a direção de Andrei, esteve no centro das investigações que resultaram na captura e prisão do criminoso Vorcaro. E, também, a operação Carbono Oculto, que atingiu organizações criminosas ligadas ao setor de combustíveis e a complexas estruturas financeiras, e do enfrentamento dos crimes bolsonaristas relacionados ao 8 de Janeiro.

Andrei também esteve à frente da PF na investigação que levou à prisão o chamado “Careca do INSS”, enquanto Mendonça autorizou a abertura de investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, embora a própria PGR tenha questionado a relação desses fatos com a Operação Sem Desconto e pedido o envio do caso à primeira instância por ausência de foro no STF; relatório da própria PF ainda apontou “imputações sem lastro” contra ele. O objetivo era a exploração midiática do caso para prejudicar a candidatura de Lula.

E foi sob sua direção que a PF chegou aos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro. Leandro Almada, por sua vez, participou de diferentes etapas da investigação do caso Marielle e, como superintendente da PF no Rio, esteve à frente do caso na fase que resultou nas delações de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. Desde 2024, dirigia a área de Inteligência da PF.

Quando Almada era superintendente da PF na Bahia, em 2022, ele denunciou a atuação do então ministro da Justiça bolsonarista, Anderson Torres, e do então diretor-geral da PF, Márcio Nunes, de obter o apoio da PF às blitze da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para tentar impedir que eleitores exercessem o seu direito de voto, numa região sabidamente favorável ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.

Mendonça rompeu todas as fronteiras da legalidade ao atacar a PF, afastando de seu comando funcionários do Estado exemplares no combate aos golpistas que tentaram soterrar a democracia, às facções criminosas e bandidos de colarinho branco, como Vorcaro, e, ao mesmo tempo, travar por mais de 120 dias as investigações do caso Dark Horse, a corrupção de Flávio Bolsonaro.

A gravidade da decisão de Mendonça aumenta por sua conduta como relator do caso Banco Master. O ministro tornou públicas mensagens extraídas do celular de Vorcaro nas quais aparecem graves conteúdos que envolvem o ministro Alexandre de Moraes, ainda sem o escrutínio do contraditório. Todos são iguais perante a lei. Quem comentou delitos, quem quer seja, deve ser investigado.

Acontece que Mendonça pisoteou a Constituição, que assegura o devido processo legal, o direito ao contraditório e a ampla defesa. Afrontou o regimento do STF e o rito do devido processo legal. Direcionou investigações, atuou como juiz e investigador. Implacável com uns e dócil e protetor de outros. E mais: Mendonça encontrou-se sigilosamente com Vorcaro, fato reconhecido pelo próprio ministro.

A ingerência de Mendonça na PF, como se vê, não é um caso isolado. Faz parte de um plano amplo para favorecer Flávio Bolsonaro. Como sustenta a Advocacia-Geral da União (AGU) no recurso ao presidente do STF, Edson Fachin, sobre a atitude do ministro na PF, a medida invade a competência presidencial e pode desorganizar as atividades institucionais da PF. A AGU pediu a suspensão da liminar de Mendonça, invocando a competência presidencial prevista no artigo 84 da Constituição.

Há outro fato relevante. O Partido Novo, linha auxiliar do bolsonarismo, apresentou ao STF, sob relatoria de Mendonça, duas petições em rápida sucessão: primeiro, pelo afastamento cautelar de Andrei e, no dia seguinte, requereu sua prisão preventiva.

Outra comprovação do plano pró-Flávio Bolsonaro é o silêncio de Mendonça sobre a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, que confessou o envio de recursos ao fundo Havengate Development Fund, administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. São evidências de ligações com a solicitação de R$ 134 milhões por Flávio a Vorcaro para financiar a produção de Dark Horse, filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro – preso por crimes graves envolvendo tentativa de golpe de Estado –, dos quais recebeu mais de R$ 60 milhões.

Flávio Bolsonaro transformou os ataques do ministro ao Estado Democrático de Direito em eixo de sua campanha. No 7 de Setembro, atacou Alexandre de Moraes, associou o ministro a Lula e defendeu Mendonça. À exceção de São Paulo, onde a mobilização alcançou alguma relevância, embora abaixo da expectativa dos organizadores, as manifestações em outras cidades foram esvaziadas.

Óbvio que esse plano visa à contenção da tendência de vitória de Lula e a impulsionar Flávio Bolsonaro, que se liga às ações do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, de ingerência militar, econômica e política na América Latina e Caribe, região na qual o Brasil ocupa posição estratégica. O secretário de Estado, Marco Rubio, iniciou justamente nesta semana uma viagem por Colômbia, Equador e Peru destinada a fortalecer alianças com governos alinhados a Washington.

O papel de setores da mídia hegemônica também entra nesta trama de cunho golpista ao se converter em tribunal seletivo, deslocando o debate eleitoral de seus reais objetivos para uma amplificação estridente do falso combate à “corrupção”. Tira do eleitor a possibilidade de conhecimento das propostas reais sobre emprego, renda, industrialização, soberania nacional, segurança pública, política externa, infraestrutura. E assim interditam os grandes debates realmente relevantes.

Edson Fachin, na condição de presidente do STF, tem a responsabilidade de buscar solução para a crise criada por Mendonça, restaurando princípios como o amplo direito de defesa e o direito ao contraditório. O ministro Mendonça não pode continuar a agir como se sua toga lhe conferisse poderes excepcionais.

Em decisão liminar juridicamente fundamentada, o ministro Flávio Dino determinou a imediata reintegração de Andrei e Almada, submetendo a medida ao referendo do Plenário do STF. Entre os fundamentos, Dino advertiu que o afastamento “impede o andamento de – quiçá – centenas de investigações”, inclusive sob sua relatoria, e destacou que a interrupção dos trabalhos da direção da PF “interessa, sobretudo, aos investigados”.

Resta agora saber como Fachin conduzirá o caso. O plenário do STF precisa reverter os afastamentos na PF e restabelecer à Presidência da República suas prerrogativas constitucionais. A PF precisa recuperar sua estabilidade institucional. Mendonça, diante de parcialidades nítidas, deve ser imediatamente afastado das relatorias do caso Master e do INSS. É imperativo que a Suprema Corte restaure a estabilidade, sobretudo quando o país está sob ameaça externa e o golpismo volta a se exacerbar.

O objetivo do conluio da extrema-direita e do imperialismo estadunidense é empurrar a campanha de reeleição do presidente Lula para a defensiva. Acontece que a extrema direita, tendo Mendonça como aríete, foi com muita sede ao pote. A operação em marcha pela sua vertente golpista aciona um sinal vermelho entre todos e todas que prezam a democracia, as liberdades, a soberania do país e os direitos dos trabalhadores – vide, também, o papel de Flávio para sabotar a votação do fim da escala 6×1.

Instaurou-se uma situação de força contra força. De confronto. A disputa presidencial adentrou-se a uma nova etapa. Emergem novas exigências. Desmascarar Flávio Bolsonaro está entre as tarefas centrais.

A gravidade dos fatos dá oportunidade para que a campanha à reeleição do presidente Lula desencadeie a contraofensiva e retome a iniciativa política, realizando ampla mobilização em defesa da democracia e da soberania popular nas eleições.

É tarefa essencial das forças progressistas convocar personalidades democráticas, organizar manifestações populares e acionar os mecanismos institucionais para defender o Estado Democrático de Direito. A campanha do presidente Lula também precisa demarcar com clareza os campos, para desmascarar Flávio Bolsonaro e expor as manobras da extrema direita destinadas a sabotar a democracia e a privar o povo de seu sagrado direito de escolher, de forma livre e soberana, seus governantes e representantes.

Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html 

09 setembro 2026

Palavra de poeta

As tuas mãos terminam em segredo
Fernando Pessoa     

Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios esguios
E o teu perfil princesas no degredo…

Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,

Será o haver cais num mar distante…
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!

[Ilustração: Selina de Maeyer]

Leia também "Retorno", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0433487496.html