11 março 2026

Enio Lins opina

É ler para crer, e descrer, desentorpecer, contradizer
Enio Lins      

INCRÍVEL COMO UM MILIONÁRIO com bala na agulha para gastar R$ 200 milhões na festa de seu noivado, só tenha recursos para ter um único celular, um único chip. Esse é o caso, apar entemente, de Daniel Vorcaro. Segundo publicado pelo G1, 07/03/2026, “uma planilha de despesas obtida pelo G1 revela que uma festa privada organizada pelo banqueiro Daniel Vorcaro em Taormina, na Sicília, em setembro de 2023, teve custo estimado de R$ 222 milhões (US$ 42.4 milhões), considerando valores atuais”.

INCRÍVEL COMO UM BANQUEIRO colocou no bolso extraordinária fortuna, entre 2019 e 2025, através de ciclópicas fraudes, graças aos olhos bem fechados de um Banco Central conivente, e que seu único celular não tenha sequer uma mísera mensagem trocada com quem comandou o tal “BC independente” durante esse afortunado período.

INCRÍVEL COMO O ÚNICO telefone do meliante tenha ligações supostamente comprometedoras praticamente apenas com personagens tidos como “inimigos do bolsonarismo”, como o ministro Alexandre de Moraes – cuja esposa aprece na fita na condição de integrante de um dos escritórios de advocacia contratados (por uma fortuna) para fazer a defesa do banqueiro.

INCRÍVEL COMO UM PRESO, sob custódia de autoridade competente, possa ter tirado a própria vida numa cena semelhante a Vladmir Herzog (em 1974) e Jorge Luís dos Santos (em 1996), que conseguiram se matar com suas roupas. Da mesma forma, há poucos dias, Luiz Phillipi Mourão, o “Sicário”, detido pela suspeita de ser capanga de Vorcaro, morreu, ou foi morrido, numa cela da PF em BH. Será que Ustra vive?

INCRÍVEL COMO SÃO SEMELHANTES esses suicídios: cometidos sem motivação aparente pelos suicidados, usando peças das vestimentas, e com fortes componentes políticos em todos os três casos. Ah, sim: Jorge Luís dos Santos foi preso sob a acusação de ter assaltado o então deputado Jair Bolsonaro, em 4 de julho de 1995, levando-lhe a arma, a carteira, e a moto. Jorge Luís foi detido na Bahia em 4 de março de 1996, transferido imediatamente para o Rio de Janeiro, e apareceu morto no dia seguinte, na cela, pendurado pela camisa atada ao pescoço por um nó de marinheiro.

INCRÍVEL COMO A GRANDE MÍDIA, repito, não questiona a ausência de Campos Neto nessas movimentações investigatórias sobre o escândalo Banco Master. Ora, insisto: nada disso teria acontecido sem a anuência – ou a incompetência conveniente – do alto comando do BC, instituição responsável para impedir esse tipo de crime. Será necessário aparecerem mensagens explícitas entre Vorcaro e Neto para que uma leve desconfian&ccedi l;a de conluio entre os dois possa pautar o velho e bom jornalismo investigativo?

INCRÍVEL COMO NÃO APARECEM, nas reportagens, mensagens (sequer é lembrada a ausência delas) sobre as principais operações estratégicas, suspeitas de crimes financeiros graves, como a tentativa de aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília, nem sobre os investimentos volumosos feitos por governos e prefeituras dirigidas por bolsonaristas. Vorcaro não trocou nenhuma mensagem com esses seus parceiros pelo único celular que dispunha?

INCRÍVEL COMO ALEXANDRE DE MORAES, o maior expoente da magistratura brasileira (em um século, pelo menos) – referência para a consolidação do Estado Democrático de Direito no Brasil, ministro com disposição para peitar golpistas civis e militares de alto coturno, cidadão brasileiro com coragem para enfrentar Trump e a discricionária lei Magnitsky – deixa a guarda aberta para ter seu nome envolvido nessa armação master. Ressalte-se que, at&eacu te; agora, inexistem provas, sequer indícios, de que ele teria tentado aliviar os processos que liquidaram o Banco Master e levaram Vorcaro (e cúmplices) à cadeia. Mas, em tempos em que pós-verdade é anti-verdade, toda transparência é pouca.

A turma da usura abalada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_10.html

Sylvio: sem aventuras

A eleição presidencial é de suma importância este ano. O Brasil atualmente ocupa um lugar de muita importância no mundo, não podendo optar por falsas soluções que conduzam despreparados ao poder. Não vamos embarcar em aventuras que nos levem a perder as conquistas obtidas com muita luta. .

Sylvio Belém 

Política externa altiva e propositiva https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_6.html 

10 março 2026

Palavra de poeta

O poema
VII

Herberto Helder     

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.
.
Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.
.
Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.
.
É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
– Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

– Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.
.
O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.
.
– A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.

[Ilustração: Alexej von Jawlensky]

Bela e sonora, porém maltratada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_25.html 

Rigor científico

A coragem de estar errado
O conhecimento científico não se funda em fidelidade, mas em teste e revisão. Sem essa disciplina, a esfera pública retorna ao dogma
Celso Pinto de Melo/A Terra é Redonda     

“A dúvida é o primeiro passo da sabedoria” (Aforismo da tradição cartesiana)

Há um paradoxo que define o nosso tempo: nunca a sociedade dependeu tanto da ciência – para compreender epidemias, projetar sistemas técnicos complexos, antecipar riscos ambientais e enfrentar a crise climática – e, ao mesmo tempo, nunca foi tão organizado o ataque à própria ideia de evidência. Em plena era de satélites, dados massivos e inteligência artificial, reaparece com força uma tentação antiga: a de abandonar o difícil trabalho de interrogar o real e substituí-lo por certezas identitárias, confortáveis e imunes à crítica.

O negacionismo contemporâneo não é mera ignorância. Ele se apresenta como uma recusa ativa do princípio de realidade, como tentativa de substituir o mundo como ele, é por um mundo emocionalmente confortável: “minha verdade”, “minha fé”, “meu grupo”, “minha identidade”. Sob roupagem digital, ressurge o impulso pré-moderno: a verdade não como busca, mas como posse; não como argumento, mas como bandeira; não como horizonte compartilhável, mas como instrumento de poder.

Defender o método científico, portanto, não é um gesto corporativo em favor de cientistas, universidades ou laboratórios. É algo mais profundo: defender uma conquista civilizatória rara – talvez a mais preciosa de todas –, a capacidade de construir conhecimento público, cumulativo e corrigível; e, justamente por isso, progressivo.

A revolução invisível

A modernidade científica começa, simbolicamente, com Galileu – não apenas por suas descobertas, mas por seu gesto intelectual. A natureza deixa de ser interpretada como texto sagrado ou alegoria metafísica e passa a ser interrogada como um sistema que responde, com coerência, às perguntas corretas. Em vez de “o que devemos crer?”, a pergunta passa a ser: “o que acontece quando medimos com rigor?”

Esse gesto, aparentemente simples, custou caro – e ainda custa. Ele exige renúncia: renúncia à primazia da autoridade, renúncia ao conforto do dogma, renúncia ao impulso ancestral de concluir antes de examinar. O método científico inaugura uma ética do pensamento que pode ser resumida assim: a realidade tem precedência sobre nossas convicções.

Nesse sentido, ciência não é apenas técnica; é também uma educação moral do olhar. Ela impõe uma disciplina incômoda e libertadora: crenças privadas não podem governar sozinhas o conhecimento público. E, diante do universo, ela nos obriga a aceitar um rebaixamento necessário: não somos a medida do real.

Aqui está o núcleo da revolução científica: a ciência é uma das poucas atividades humanas organizadas para corrigir a si mesma de modo sistemático. Em quase todas as esferas – política, religião, moral ou estética – crenças tendem a se preservar, mesmo quando falham. A ciência é a exceção: ela progride porque admite sua fragilidade.

Sua força não decorre de promessa de infalibilidade, mas de um método de depuração. A ciência se autocorrige porque exige que hipóteses possam ser derrubadas por evidência contrária; porque submete conclusões à reprodutibilidade, isto é, ao escrutínio de terceiros; e porque se apoia numa cultura institucional de crítica, debate e revisão contínua. É esse arranjo – frio apenas na aparência, mas profundamente humano – que transforma erro em aprendizado e desacerto em etapa.

Por isso, o método científico não promete “verdades eternas”. Ele promete algo mais útil: verdades progressivas, cada vez mais robustas, menos dependentes de autoridades e mais dependentes de evidência. A ciência torna-se, assim, a forma mais sofisticada de conhecimento coletivo já inventada: ela não se sustenta pela fidelidade, mas por testes; não pela unanimidade, mas pelo controle crítico.

Essa autocorreção produz algo decisivo: o acúmulo de conhecimento. A humanidade não “opina” sobre antibióticos, órbitas planetárias ou circulação do sangue. Ela sabe – porque testou, repetiu, corrigiu. O conhecimento científico não recomeça do zero: ele se soma.

A física moderna

A transição do século XIX para o XX assistiu a um dos maiores abalos filosóficos da história humana. Até então, mesmo com a Revolução Industrial, o universo newtoniano sugeria uma imagem sedutora: um mundo contínuo, mecanicamente previsível, governado por leis claras, com o tempo e o espaço como cenários neutros. A ignorância ainda existia, mas parecia temporária.

A relatividade de Einstein abriu uma primeira fenda nessa moldura: o espaço e o tempo deixam de ser absolutos e tornam-se relativos ao observador e às condições do movimento. A gravidade deixa de ser apenas força, e torna-se geometria do espaço-tempo. Era um convite à humildade: o mundo não se organiza para confortar o senso comum.

Mas foi a mecânica quântica que produziu o golpe mais profundo – porque atingiu a própria noção do que chamamos de “realidade”. Até então, ainda se podia imaginar que o mundo “em si” fosse um palco perfeitamente definido, no qual as coisas possuíssem propriedades determinadas e apenas aguardassem que alguém as medisse. A revolução quântica dissolveu esse conforto. No domínio microscópico, a matéria deixa de se comportar como coisa sólida e previsível e passa a se apresentar como possibilidade: estados superpostos, probabilidades e limites estruturais ao que pode ser conhecido ao mesmo tempo.

A realidade, nesse nível, já não se assemelha a um inventário de objetos “prontos”; revela-se como um tecido mais complexo, em que aquilo que pode ser dito sobre o real depende do modo como o interrogamos, como experimentamos, como medimos. A lição é desconcertante: a verdade científica não é a que nos conforta; é a que resiste à prova.

Se a física relativizou certezas, a cosmologia relativizou nossa importância. A descoberta de Edwin Hubble – de que o universo está se expandindo – alterou não apenas a astronomia, mas também a própria imagem histórica que a humanidade faz do cosmos: o universo deixa de ser um cenário fixo e passa a ser entendido como um processo físico em evolução, com dinâmica, idade e direção.

O universo ganha idade – e nós, de súbito, deixamos de ser a “medida” do tempo. Nossas civilizações, guerras, identidades e disputas morais tornam-se um mero instante microscópico num tempo cosmológico incomensurável. A Terra é um ponto periférico. O sistema solar, um detalhe. A galáxia, uma entre bilhões.

Mas não se trata de pessimismo. Trata-se de perspectiva. A ciência moderna, ao deslocar o humano do centro, não diminui sua dignidade: combate a arrogância. Enfraquece a pretensão de superioridade natural de qualquer grupo, raça ou dogma. E devolve uma grandeza mais difícil: não a de ocupar o centro, mas a de compreender o que não foi feito para nós.

Se a cosmologia relativizou nosso lugar no universo, a biologia molecular relativizou a nossa separação diante da vida. A descoberta da estrutura do DNA e o desvendamento do código genético colocaram a diversidade viva sob um mesmo princípio: a vida como informação material organizada.

O efeito filosófico desse momento é imenso: o humano deixa de ser exceção e passa a ser parte. Somos continuidade evolutiva. Somos história biológica. Somos natureza consciente. Dessa revolução nasce a biotecnologia moderna: vacinas, diagnósticos, terapias-alvo, engenharia genética.

Conhecer a vida passa a significar também poder transformá-la. Abre-se um horizonte de cura – e um novo horizonte de risco. E fica claro que ciência não é catecismo moral: é ferramenta da verdade.

Tecnologia, redes e o novo terreno do obscurantismo

A revolução tecnológica recente – automação, robótica, inteligência artificial – é uma extensão do método científico à vida cotidiana: sensores, dados, modelos, inferência. O mundo passa a depender de previsão. A economia depende de validação. A organização social depende de sistemas técnicos.

Mas essa mesma infraestrutura que multiplica conhecimento também multiplica ruído. Nunca foi tão fácil fabricar certezas falsas, nem tão fácil tornar uma mentira viral. A esfera pública fragmenta-se, e a verdade se tribaliza. Nesse ambiente, o negacionismo ganha potência – não por ser racional, mas por ser emocionalmente eficiente: oferece pertencimento no lugar do argumento, segurança psicológica no lugar da dúvida, identidade no lugar da complexidade.

O negacionismo, assim, não é apenas erro: é projeto de poder. Não é debate sobre o verdadeiro; é disputa sobre quem tem o direito de impor a própria “verdade”. Em vez de autocorreção, fidelidade. Em vez de evidência, obediência.

Alguns projetos contemporâneos explicitam essa tendência ao tentar enquadrar o dissenso como ameaça e o pluralismo como desvio moral – aproximando o debate público da lógica da suspeita e da intimidação. O caso do chamado Project Esther é revelador.[1] O ponto essencial, porém, vai além do exemplo específico: quando uma sociedade converte divergência em heresia e evidência em suspeita, ela retorna a uma forma medieval de vida pública – onde a verdade não é construída, mas decretada.

E, então, a força tenta se impor sobre a razão: pela intimidação, pela censura, pela destruição do debate e pela substituição do argumento por enquadramentos morais absolutos.

Há um passo final – talvez o mais decisivo – nessa defesa do método científico: trata-se, no limite, de uma defesa da vida.

A Terra levou bilhões de anos para produzir algo raro no universo observável: uma biosfera complexa, delicada, exuberante, capaz de sustentar diversidade e consciência. A humanidade é parte dessa trama. Não estamos acima dela. Dependemos dela. E a ciência moderna – ao contrário do que sugerem seus detratores – não nos afasta da natureza: ela nos permite compreendê-la e, portanto, protegê-la.

Por isso, o negacionismo climático é mais do que uma disputa de números: é irresponsabilidade moral travestida de opinião. Ele tenta dissolver evidências em crença, transformar medições em ideologia e confundir a sociedade com ruído, justamente quando a realidade física se torna implacável. O planeta não negocia com narrativas. A atmosfera não reconhece preferências. O carbono não respeita identidades. A física do clima não se curva à retórica.

Defender a ciência, nesse terreno, é defender um pacto intergeracional: o direito dos que virão de herdar um mundo habitável. É afirmar que nenhuma “verdade privada” – religiosa, ideológica, identitária ou econômica – pode sequestrar o futuro comum.

A ciência não é infalível. Mas ela é corrigível – e essa é sua superioridade histórica. O negacionismo, ao contrário, é inflexível por princípio: alimenta-se de dogma. Não busca verdade: busca vitória.

O método científico é uma disciplina do espírito. Ensina que mudar de ideia diante da evidência é virtude, não fraqueza. Talvez esta seja hoje a fronteira decisiva: preservar a cultura da autocorreção contra a cultura da imposição.

Quando a sociedade abandona a ideia de verdade pública – testável, verificável, compartilhável –, abre-se o caminho para o império das certezas violentas. E quando isso acontece, não é apenas a ciência que se perde: perde-se a própria possibilidade de convivência.

Defender o método científico é, portanto, defender a própria razão.

E, num mundo que volta a flertar com o obscurantismo, defender a razão é também defender a própria possibilidade de futuro.

*Celso Pinto de Melo é professor titular de física aposentado da UFPE e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Nota


[1] Project Esther é o nome dado a um documento elaborado pela Heritage Foundation, apresentado como plano estratégico de combate ao antissemitismo; críticos apontam que sua arquitetura pode ser instrumentalizada para enquadrar movimentos sociais e atores acadêmicos como ameaça, pressionar universidades e restringir o espaço do dissenso.

Leia: As big techs ativas na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/big-techs-na-cena-politica.html 

Humor

 

Thiago Lucas/Jornal do Commercio

O projeto das Big Techs para substituir os Estados nacionais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/big-techs-x-estados-nacionais.html 

Trump atira no próprio pé

O desastre de Trump no Oriente Médio
Até agora, ninguém tem certeza de quais são exatamente os motivos para atacar o Irã
James N. Green/Liberta   

Os ataques conjuntos de Trump com Israel contra o Irã podem dar errado de inúmeras maneiras. O problema em avaliar os objetivos de guerra do presidente dos EUA é que ele ofereceu tantas justificativas diferentes na última semana que ninguém tem certeza de quais são exatamente os motivos para atacar o Irã. Parece que todos os resultados de guerra projetados pela Casa Branca e pelo Pentágono podem acabar enfraquecendo, fatalmente, sua presidência nos dois anos e nove meses restantes de seu mandato.

O objetivo é destruir o programa nuclear do Irã e eliminar seu sistema de mísseis balísticos? Ou é provocar uma mudança no regime, identificando e recrutando líderes dispostos a trabalhar com os Estados Unidos? Talvez seja impedir que os aliados do Irã (Hezbollah, Hamas, os Houthis e seus apoiadores na Síria e no Iraque) operem no Oriente Médio. Ou, ainda, será a meta apoiar a população civil que clama pelo fim do regime, a qual, presumivelmente, se levantará pacificamente e o derrubará?

O Rei Louco

Como Trump sabe tão bem, quando se oferecem muitas possibilidades confusas e contraditórias, basta apontar para aquela que acaba funcionando, declarar vitória e ir para casa.

Isso deve levar de um mês a cinco semanas, de acordo com o último cronograma anunciado por Trump. Durante esse período, ele e o primeiro-ministro israelense, Bibi Netanyahu, poderiam infligir danos significativamente maiores à infraestrutura militar do Irã, ou seja, às suas capacidades nucleares e de mísseis balísticos. Inevitavelmente, o número de vítimas civis também poderia aumentar exponencialmente.

Para fins de argumentação, vamos esquecer que, em junho de 2025, Trump proclamou que a força aérea dos EUA “obliterou total e completamente” as capacidades nucleares do Irã. Desde que fez essa afirmação exagerada, ninguém no atual governo dos EUA tem permissão para criticar Donald, o Rei Louco, sobre seu brilhantismo militar como comandante-em-chefe das forças armadas do país.

Assim, em agosto de 2025, quando o tenente-general Jeffrey Kruse, chefe da Agência de Inteligência de Defesa, divulgou um relatório afirmando que os ataques dos EUA apenas atrasaram o programa nuclear do Irã em alguns meses, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, o demitiu imediatamente. Parece que ninguém no governo quer imaginar o rei sem roupa.

Esquecendo, convenientemente, a ostentação do ano passado sobre a onipotência militar dos EUA, Trump ainda pode usar o argumento de que as capacidades nucleares do Irã ameaçam Israel e a paz no Oriente Médio. É uma forma de mobilizar setores céticos de sua base “América Primeiro” (MAGA, sigla do movimento Make America Great Again). Afinal, Trump tem feito campanha, desde 2016, afirmando ser contra envolvimentos estrangeiros e “guerras intermináveis”.

A ameaça militar “iminente”, que Trump e seus apoiadores alegam existir, pode encorajar os apoiadores do MAGA a se unirem em torno da bandeira e apoiarem a guerra, apesar de muitas reservas. No entanto, não devemos esquecer que essa estratégia não se mostrou muito eficaz para o presidente George W. Bush, quando insistiu, em 2003, que o Iraque possuía armas de destruição em massa (na verdade não as possuía).

E quanto a derrotar os apoiadores do Irã no Líbano, Gaza, Iêmen, Síria e Iraque? A guerra contra o Irã e a resposta do Hezbollah, com o lançamento de foguetes contra Israel, deram ao governo de Netanyahu a desculpa para infligir ainda mais danos à organização bem dentro das fronteiras do Líbano. Isso serve como sinal verde para dizimar o Hezbollah de uma vez por todas.

Entretanto, o Irã intensificou a guerra atacando países árabes que permitiram bases americanas em seus territórios, reacendendo ressentimentos e rivalidades seculares entre sunitas e xiitas. Curiosamente, nem os analistas de notícias, nem o Pentágono e a Casa Branca parecem levar em consideração essa divisão incrivelmente importante dentro do Islã.

Risco de perda de controle

Nas primeiras horas da guerra, vários países árabes, aliados dos Estados Unidos, recusaram-se a permitir que o Pentágono usasse seu espaço aéreo. No entanto, as retaliações do Irã contra os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Iraque e Jordânia os levaram a entrar na guerra. Resta saber se eles atacarão o Irã, mas existe um risco real de que a guerra possa rapidamente se tornar um conflito regional difícil de conter.

Há também a questão da mudança de regime. No primeiro dia da guerra, ataques aéreos aniquilaram quase toda a liderança do República Islâmica. Tendo capturado com sucesso Nicolás Maduro na Venezuela e permitido que sua vice-presidente, Delsy Rodríguez, permanecesse no poder, Trump agora parece acreditar que esse é o modelo a ser empregado no Irã.

Ao anunciar, em 3 de março, que “alguém de dentro” do governo iraniano poderia ser a melhor escolha para assumir o poder, assim que a campanha militar EUA-Israel terminasse, Trump, no entanto, admitiu que “a maioria das pessoas que tínhamos em mente está morta”. Ele continuou a refletir: “Agora, temos outro grupo, que também pode estar morto, segundo relatos. Então, teremos uma terceira onda. Em breve, não saberemos de ninguém.” Que belo planejamento militar estratégico para o dia seguinte.

Dois nomes importantes, entre vários outros que circulam na mídia ocidental como possíveis sucessores do aiatolá Khamenei, são seu filho linha-dura, Mojtaba Khamenei, e Hassan Khomeini, o suposto neto reformista do fundador da República Islâmica.

Há outros líderes ligados à Guarda Revolucionária Islâmica, cujos nomes são comentados. Eles fazem parte de uma estrutura governamental sofisticada e complexa, com capacidade significativa para sufocar quaisquer levantes internos contra o regime atual. Representam continuidade, não ruptura. Como Trump corretamente aponta, a situação pode ser ainda pior do que antes da guerra.

E o que acontece depois que os bombardeios cessarem? Presumivelmente, de acordo com a análise de Trump, será uma oportunidade única para centenas de milhares de iranianos irem às ruas exigir a queda da República Islâmica. A maioria dos especialistas acredita que eles serão brutalmente reprimidos, como aconteceu no ano passado, quando Trump prometeu socorrê-los e depois recuou.

Linha vermelha

Se o massacre de manifestantes for a linha vermelha que, se cruzada, provocará uma resposta vigorosa de Trump, quase inevitavelmente será necessária a intervenção de tropas estrangeiras.

Isso representa um problema para Trump com sua base anti-intervencionista e pró-América Primeiro. Figuras importantes do movimento MAGA – Tucker Carlson, Megyn Kelly e Matt Walsh – já manifestaram sua oposição à guerra, sugerindo não necessariamente uma divisão, mas sim refletindo uma potencial desmoralização de alguns eleitores republicanos e independentes.

Frustrados com a mudança radical na política de Trump, um número significativo pode se abster nas importantíssimas eleições de meio de mandato de novembro, dando o controle do Congresso aos democratas.

Embora os parlamentares republicanos tenham permanecido unidos a Trump, votando contra uma tentativa de conter sua conduta por meio do uso da Lei de Poderes de Guerra, o público não é muito convencido da atual política do presidente para o Oriente Médio. Uma pesquisa da NBC indica que 54% dos americanos são contra a guerra. Há uma diferença de 13 pontos percentuais entre aqueles que se opõem à guerra e aqueles que são a favor da atuação de Trump em relação ao Irã, com um pequeno número demonstrando incerteza.

Os resultados mostram uma polarização contínua entre democratas e republicanos, mas alguns destes últimos parecem estar abandonando o presidente.

Ainda é cedo demais para dizer quantos.

Poderíamos acrescentar a isso a possibilidade de um número crescente de baixas entre os soldados americanos, especialmente se Trump for forçado a enviar tropas terrestres. Além disso, os preços do petróleo já estão subindo rapidamente, criando inflação e minando a capacidade do presidente de reduzir os preços e abordar a questão do acesso ao combustível, que será um tema fundamental nas próximas eleições. Adeus àquela promessa crucial de campanha.

Como sugerido acima, é verdade que Trump, o vigarista, poderia simplesmente declarar que venceu a guerra em algum momento de abril e, mais uma vez, exigir que receba o Prêmio Nobel da Paz. Mas fica a dúvida se esses gestos irão apaziguar parte de sua base e os “eleitores independentes”, que precisarão comparecer em grande número para apoiar os candidatos republicanos em novembro, caso Trump queira garantir a continuidade do controle do Congresso.

Neste momento, nenhum desses cenários, nem outros, parece favorável ao presidente. Talvez ele, assim como os soldados que, segundo relatos, desprezou com comentários pejorativos no passado, também seja um perdedor? 

Multilateralismo aos frangalhos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/diplomacia-em-segundo-plano.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Meu ideal seria escrever...", crônica de Rubem Braga https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/uma-cronica-de-rubem-braga.html