08 junho 2026

Palavra de poeta

Tereza

Manuel Bandeira    

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

[Ilustração: Marie Fox]

Leia também: "Da rede tudo se ouve e se imagina" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Sua opinião


Futebol encanto e tática

Novos e velhos tempos
Frequentes discussões se a seleção brasileira deve jogar no 4-4-2, no 4-2-4 ou no 4-3-3 são obsoletas. Série da Netflix sobre o tricampeonato é bem feita e emocionante, mas há muitas cenas inventadas e sensacionalistas
Tostão/Folha de S. Paulo    

Contra o Egito, o fato positivo foi a marcação por pressão mais eficiente do que nos jogos anteriores, embora aumente os riscos por deixar mais espaços na defesa se não houver a recuperação da bola. Assim saíram os dois gols do Brasil. No primeiro tempo, os quatro do meio campo (os volantes Casemiro e Bruno Guimarães e os meias Paquetá e Raphinha) atuaram muito centralizados deixando os laterais desprotegidos. O Egito criou também algumas chances de gols. Após os amistosos contra Panamá e Egito, ninguém sabe qual será o time da estreia na Copa devido às muitas experiências feitas por Ancelotti.

Os dois jogos não diminuíram nem aumentaram as esperanças de sucesso no Mundial. Tudo continua incerto.

Além das dúvidas nas laterais, a seleção brasileira do meio para frente possui quatro titulares (Casemiro, Bruno Guimarães, Vinicius Junior e Raphinha). Alguns jogadores disputam as outras duas vagas, com diferentes posicionamentos em campo. Quando Ancelotti fala que o time vai jogar no 4-4-2, independentemente da escalação, deduzo que se refere à fase defensiva, com quatro jogadores na proteção dos quatro defensores. Este é um conceito antigo, presente na maioria das atuais equipes, iniciado com a seleção inglesa campeã do mundo em 1966.

Muitas coisas vão e voltam no futebol. Evidentemente, o jogo hoje é muito mais veloz, intenso, compacto, com as equipes marcando e atacando com muitos jogadores.

As frequentes discussões se a seleção brasileira deve jogar no 4-4-2, no 4-2-4 ou no 4-3-3 são obsoletas. Os jogadores não param de correr e, a cada instante, é formado um diferente sistema tático na prancheta. Os pontas são atacantes quando avançam e defensores quando recuam. Não há diferença entre 4-2-4 e o 4-4-2, vai depender do momento do jogo. Obviamente, as equipes possuem particularidades individuais e coletivas.

Outra discussão diária, desnecessária, é se o Brasil deve jogar com quatro atacantes ou com um terceiro jogador no meio-campo. Matheus Cunha é um armador ou um atacante, pois marca no meio-campo e chega à frente?

Antes da Copa de 70, o Brasil jogava com dois no meio-campo (Clodoaldo e Gerson), dois atacantes pelo centro (Pelé e Tostão) e dois pontas abertos e agressivos. Zagallo assumiu o comando e trocou o ponta esquerda Edu por mais um jogador de meio-campo (Rivellino). As discussões eram as mesmas de hoje, se o time deveria jogar com três no meio-campo ou com quatro atacantes (4-3-3 ou 4-2-4) e se deveria ter um clássico centroavante (Roberto) ou um meia atacante (Tostão) ao lado de Pelé. Zagallo dizia, como muitos defendem hoje, que a equipe não poderia ter apenas dois no meio-campo contra as fortes seleções europeias.

A pressão feita por Pelé e outros jogadores para Zagallo me escalar não foi explicita como mostra a série "Brasil 70 — A Saga do Tri", exibido pela Netflix. Se houve pressão, foi silenciosa, pelo olhar, nas entrelinhas e nas conversas ao pé do ouvido. Gerson, que jogava no Botafogo sob o comando de Zagallo, conversava muito com o técnico. Eu não fui até Zagallo para dizer que eu tinha de ser o titular, como mostra a série. Diferentemente do que é mostrado, Pelé era um atleta consciente, equilibrado, bem-humorado e muito forte emocionalmente. Por isso e pelas condições físicas e técnicas era o Pelé, o maior da história.

A série é bem feita, prazerosa de se ver, emocionante, possui ótimos atores, com ótima reprodução dos principais lances e gols, mas há muitas cenas inventadas e sensacionalistas para dramatizar uma grande conquista esportiva.

Leivinha

Meus sentimentos à família de Leivinha, ídolo do Palmeiras, meu companheiro de ataque na seleção brasileira, campeã da Copa das Confederações, no Maracanã, em 1972. Leivinha ocupou o lugar de Pelé, que tinha se despedido da seleção.

[Ilustração Andy Warhol]

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A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html 

Sylvio: perdedores

A extrema direita juntou tudo (Flávio Bolsonaro, Zema e Caiado), mas pouco vai adiantar. O Brasil reconhece o trabalho de Lula e quer a continuação. 

Sylvio Belém   

Ingerência inaceitável: o que pode nos afetar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/abraham-sicsu-opina.html 

Minha opinião

Trump e seu poço de areia movediça
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  

O comportamento agressivo e errático de Donald Trump causa prejuízos consideráveis aos Estados Unidos, refletindo a decadência da superpotência que dirige; e coleciona, internamente, um gol contra atrás do outro no que ainda se consideram instituições democráticas e coesão social.

Não é sem razão que amarga índices negativos de popularidade a cada rodada de pesquisa e age como que mergulhado num poço de areia movediça. Esperneia.

Num ambiente de crise interna, a negação do papel de liderança que institucionalmente lhe cabe. Ao contrário, grosseiramente fomenta divisões culturais, raciais e políticas para consolidar mirando exclusivamente sua base eleitoral.

Em artigo recente, o jornalista Thomas Friedmann, do The New York Times, comparou o comportamento de Trump ao de líderes mafiosos. Usou o termo “bandido em chefe”.

Pior ainda é uso que Trump faz da máquina governamental em seu próprio benefício e de seus amigos empresários mais próximos em confronto aberto com parte da grande mídia e do Poder Judiciário e – diz Friedmann – mesmo do FBI.

Mais: como governante repete expedientes de quando candidato, disseminando “teorias da conspiração” e fake news de toda espécie na tentativa de manter sua base social envolta numa “realidade paralela”.

O que Friedmann e outros analistas da mesma corrente não dizem é que Donald Trump protagoniza um instante de visível decadência do imperialismo norte-americano em meio à transição geopolítica mundial para um novo desenho multipolar.

[Ilustração: Gargallo]

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Leia também: Donald Trump e sua tresloucada política externa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0648315181.html 

Postei nas redes

Pesquisas confirmam que a popularidade do presidente Lula cresce quando ele defende a soberania nacional. Não se trata de artifício de propaganda, mas sim de tema ao mesmo tempo estratégico e compreensível pela maioria da população. 

Meses atrás escrevi sobre isso https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html 

Uma crônica de Ruy Castro

Efêmeros, mas eternos
A tecnologia aposentou os flyers, minipôsters impressos que anunciavam filmes, peças e shows. Eles eram uma mídia feita para ser vista e, depois de dar o seu recado, esquecida e jogada fora
Ruy Castro/Folha de S. Paulo   

Eu sei, é besteira lutar contra a tecnologia —por que andar a pé se inventaram a roda?, dirão alguns—, mas não somos obrigados a aplaudir tudo, somos? Uma das coisas que a tecnologia aposentou há tempos, e de que poucos se deram conta, foram os flyers, aqueles volantes impressos anunciando o lançamento de um filme, a abertura de uma exposição, a estreia de uma peça. Eram panfletos coloridos que nos chegavam às mãos, cumpriam sua humilde função de nos informar e, em seguida, eram deixados de lado, esquecidos, jogados fora. Às vezes, anos depois, alguns ressurgiam dentro de um livro ou gaveta, e despertavam boas lembranças.

Os flyers eram pôsteres em miniatura. Reproduziam a programação visual do evento ou do objeto que anunciavam. Sua variedade gráfica era um show. Havia-os de inúmeros estilos, designs, cores, fontes, letterings, tudo no formato perfeito de um cartão-postal. Não quer dizer que, hoje, tenham deixado de existir. Continuam a ser produzidos, só que para o celular ou para o computador, chamados de "cards", e, assim que lidos, desaparecem no turbilhão de mensagens recebidas. Se, em papel, já eram uma mídia efêmera, agora nascem e morrem no espaço e quase ao mesmo tempo.

Há muitos livros ilustrados, luxuosos, pesados, de coffee table, dedicados aos pôsters. Aos flyers, nunca vi nenhum. E, se já tiverem sido feitos, qual foi o critério para selecioná-los? Por país, por época, por especialidade? Eu escolheria todas essas possibilidades.

Por acaso, e sem nenhuma intenção definida —apenas os achava bonitos e tinha pena de atirá-los fora—, dediquei-me nos últimos 30 anos a jogar numa caixa os flyers que recebia. Lotada aquela, providenciei outra. E outra. Há dias, vasculhando um armário, achei aquelas caixas com pilhas de flyers. Anunciavam livros, filmes, peças, shows, coquetéis, exposições e palestras que, nesses anos todos, já foram para o limbo.

Ou não. Revolvendo-os ao acaso naquelas caixas, era como se descobrisse uma eternidade em sua arte tão humilde e tão útil.

[Ilustração: Heloisa Seixas]

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Leia também: A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html