A inteligência artificial chinesa
Ao contrapor o monopólio estadunidense ao modelo chinês de código aberto, a corrida pela Inteligência Artificial revela uma oportunidade histórica para a soberania tecnológica do Sul Global
MIGUEL ENRIQUE STÉDILE*/A Terra é Redonda
1.
Poucos meses antes de Donald Trump anunciar sua Estratégia de Segurança Nacional, a chamada Doutrina Donroe, que estabelecia claramente o desejo de tratar todas as nações do Ocidente como colônias, protetorados ou mero compradores da potência estadunidense, as mesmas ideias já estavam expressas em outro documento, no seu Plano Nacional de Inteligência Artificial, batizado de “Vencendo a corrida” e com o objetivo de construir um “domínio tecnológico global inquestionável”.
Poucos dias depois do plano norte-americano, a China divulgou o seu, e a distância entre os dois títulos já dizia quase tudo. O Plano de Ação para a Governança Global da Inteligência Artificial trazia treze pontos, entre eles a construção de comunidades transfronteiriças de código aberto e o compromisso de ajudar o Sul Global a “acessar e utilizar verdadeiramente a Inteligência artificial”. Um ano depois, ambos materializaram suas promessas.
Em 2026, os Estados Unidos já havia integrado a Inteligência artificial à plataforma que gerencia a caça de imigrantes nos Estados Unidos, ao genocídio em Gaza e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Já a China, anunciou, em julho de 2026, a fundação da Organização Mundial para a Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla em inglês), e apresentada como resposta “ao chamado do Sul Global”.
A definição que o presidente Xi Jinping deu à Inteligência artificial, em seu discurso, foi o de um “acervo inestimável em que está cristalizada a sabedoria coletiva de toda a humanidade”. Não um produto ou um ativo proprietário, mas um bem comum. O oposto da prática de apropriação privada que hoje sustenta as fortunas do Vale do Silício.
Vale destacar os quatro princípios anunciados pelo presidente Xi Jinping. O primeiro é o código aberto e os ganhos compartilhados como diretriz de desenvolvimento, recusando o modelo de caixa-preta como modelo de negócio e a falta de transparência na forma como são treinados os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs, na sigla em inglês). O segundo é a segurança sob controle humano, acompanhada da rejeição expressa à prática de “generalizar o conceito de segurança nacional no campo da Inteligência artificial e colocar a segurança de um país acima da de todos”.
Ao contrário de Washington, que justifica sanções, embargos de chips e o cerco tecnológico a quem ousa desafiá-lo com o argumento de “segurança nacional”. O terceiro princípio é a inclusão civilizacional, com o compromisso de que a inteligência artificial não erode “a diversidade das civilizações mundiais ou a singularidade das culturas”. O quarto é o multilateralismo efetivo, com papel central das Nações Unidas, onde a própria China já havia costurado, por consenso, uma resolução da Assembleia Geral sobre a construção de capacidades em IA nos países em desenvolvimento.
2.
Aos princípios seguiram-se compromissos: cinco mil vagas de capacitação em Inteligência artificial para países em desenvolvimento nos próximos cinco anos; centros internacionais de cooperação em aplicação da tecnologia articulados com a ASEAN, a Liga Árabe, a União Africana, a CELAC, a Organização de Cooperação de Xangai e os BRICS; e a abertura, a trinta países, do Mazu, o sistema chinês de alerta meteorológico por inteligência artificial, um instrumento de valor direto para camponeses e pescadores do Sul, que são os primeiros a pagar o preço da desordem climática.
A cooperação oferecida ao nosso lado do mundo organiza-se em quatro eixos: a co-construção de infraestrutura, o desenvolvimento conjunto e a valoração dos ativos de dados, o aprendizado mútuo de governança – a assessoria ao Parlamento de Gana na redação de sua legislação digital é um exemplo já em curso – e a formação conjunta de quadros, com a meta declarada de formar centenas de milhares de desenvolvedores.
Evidentemente, o Sul Global teria toda razão para olhar com reticência ou desconfiança para as propostas chinesas. Não faltaram “alianças para o progresso” em nossa história que prometeram muito e pouco entregaram ou eram apenas mecanismos de dominação financeira e cultural. Porém, a China tem a seu favor o fato que a WAIC só se está se propondo a fazer, em patamar global, o que já era uma política de Estado chinesa e que já vinha, episódio a episódio, revelando o quanto da política estadunidense apenas reafirmava a lógica das big techs, enquanto inflava mais uma bolha do sistema financeiro.
Para ser mais objetivo, o código aberto é o pilar estruturante da política chinesa para a IA. O caso exemplar é do modelo de linguagem Deep Seek. A empresa publicou sua metodologia central de treinamento na revista Nature, tornando-se o primeiro grande modelo de linguagem submetido a revisão por pares. Os revisores, pesquisadores da Hugging Face e da Universidade Estadual de Ohio, confirmaram que o método de aprendizado por reforço proposto era original, suficiente para os resultados alegados e reprodutível, e desmontaram no processo as acusações de “destilação” indevida de tecnologia alheia.
Ao abrir o modelo e o método, a DeepSeek quebrou o modelo de negócio do Vale do Silício na forma mais alta que a ciência conhece: método público, verificável, apropriável por qualquer instituição do mundo. A DeepSeek treinou seu modelo R1 por cerca de US$ 5,5 milhões, com dois mil GPUs, aproximadamente um centésimo do custo dos esforços americanos comparáveis, e o publicou em janeiro de 2025 sob licença MIT, permitindo uso, modificação e implantação comercial sem restrição. Em dezembro do mesmo ano, o DeepSeek-V3.2 conquistou medalhas de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática e na de Informática.
A API da empresa cobra US$ 0,28 por milhão de tokens de entrada, cerca de dezesseis vezes menos que os serviços americanos equivalentes. No mesmo caminho, os modelos da Qwen, da Alibaba, atingiram 700 milhões de downloads e se tornou o ecossistema aberto mais usado do mundo, superando o Llama da Meta. Os modelos chineses passaram a liderar os downloads globais; em 2025, 80% dos modelos chineses exportados eram abertos.
3.
Isto significa que o que exigia recursos de escala nacional cabe hoje no orçamento de uma universidade pública, de uma secretaria de educação, de um movimento social. O caso de Singapura é ilustrativo: o SEA-LION, modelo emblemático da iniciativa nacional de Inteligência artificial, abandonou em novembro de 2025 sua base no Llama da Meta e migrou para o Qwen da Alibaba, pré-treinado em 119 idiomas e dialetos, mais adequado ao Sudeste Asiático.
A Malásia lançou o NurAI, primeiro grande modelo fundamentado em princípios da xaria, sobre a estrutura da DeepSeek. E, foi exatamente assim que o MST e a Marcha Mundial das Mulheres construiram a IARAA, uma base de conhecimento inteligente para a agroecologia que roda sobre modelos abertos, mas cujo banco de dados e funcionamento foi estruturado pelos próprios movimentos.
A experiência da IARAA nos remete à outro potencial da aplicação correta da Inteligência artificial, a democratização do conhecimento. O camponês, o educador, o técnico da cooperativa que, com a ajuda de uma Inteligência artificial acessível e da linguagem natural que dispensa o domínio prévio da programação, constrói as ferramentas que sua vida exige. Ao longo de quatro décadas, a capacidade de construir instrumentos de informação foi retirada das mãos dos trabalhadores e trancada nos departamentos de engenharia de meia dúzia de corporações. Os modelos abertos sempre resistiram a esta lógica e com a IA recuperaram este potencial em outro patamar.
Existem ainda outras dimensões da experiência chinesa que merecem a atenção. Por exemplo, a regulação. A suspensão do IPO do Ant Group em 2020 e a investigação da Didi em 2021 impediram a consolidação de monopólios privados de dados no momento exato de sua formação. A exigência legal de rotulagem de todo conteúdo gerado por IA, em vigor desde setembro de 2025, atacou o problema dos meios sintéticos sem proibir a tecnologia, e conviveu com uma indústria em expansão.
E, especialmente, merece nossa atenção, a questão do Trabalho. Nos canteiros do Shanghai Construction Group, mais de quarenta tipos de robôs assumiram a amarração de vergalhões sob calor de quarenta graus e a solda em espaços confinados. Os trabalhadores substituídos foram requalificados como operadores e técnicos de manutenção, em ocupações mais seguras e mais qualificadas. Isso não aconteceu por benevolência empresarial.
Em setembro de 2024, o Comitê Central e o Conselho de Estado emitiram o primeiro documento estratégico sobre emprego da nova era, com 24 medidas que incluem responder explicitamente aos impactos da Inteligência artificial sobre o trabalho. O pacote prevê formação vocacional subsidiada para mais de 30 milhões de pessoas entre 2025 e 2027, obriga as empresas a destinar 60% de seus orçamentos de educação aos trabalhadores da linha de frente e, ponto institucional decisivo, incorpora os resultados de emprego à avaliação de desempenho dos dirigentes do Partido e do governo do nível de condado para cima.
E, por fim, a estratégia chinesa é construída e planejada, projetada, como uma articulação de políticas transversais, a “IA+”, elevada a política nacional em 2025. Assim, a Inteligência artificial tem sido efetivamente aplicada em energia, manufatura, agricultura, logística, indústrias oceânicas. A CATL usa agentes de Inteligência artificial na inspeção contínua da fabricação de baterias; a Mengniu, na supervisão sanitária do gado; mais de 600 centros de computação inteligente operam no país, e a indústria central de Inteligência artificial ultrapassou 1 trilhão de yuans.
Os dados são compreendidos como um novo fator de produção, determinantes para o planejamento, alocação de recursos e esforços e avaliação, enquanto a Inteligência artificial é vista como uma infraestrutura à maneira da eletricidade e não como categoria de produto para monetizar engajamento.
A metáfora do código aberto na TI se aplica à política em relação à China. Ela não é um modelo a se copiar. O código aberto permite que o original seja alterado, modificado, melhorado, que elementos sejam descartados. O importante é que o conhecimento e o bem original são comuns e disponíveis – como deveria ser a ciência e o conhecimento.
E é possível aproveitar a oportunidade da cooperação em Inteligência artificial pelo Sul Global para a construção de soberania própria. A capacidade de usar, adaptar e controlar modelos abertos já existentes tem seu potencial ampliado, para além da transferência de tecnologia, se ela se apoiar em continuidade do serviço, que não pode ser desligado por chantagem política ou financeira, como corremos o risco sob as plataformas da Microsoft, Google e Amazon; soberania sobre os dados; Autoridade nacional para governar o sistema e autonomia de cada setor para decidir como usa a ferramenta.
A novidade é que, pela primeira vez em muito tempo, a hegemonia tecnológica está em disputa aberta, os padrões ainda não se cristalizaram, e há uma fresta na muralha por onde um projeto próprio pode passar.
*Miguel Enrique Stedile é doutor em história pela UFRGS e integrante da coordenação do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Autor, do livro Brasil: Reforma Agrária como solução (Vozes) [https://amzn.to/435ODwZ]
Referências
XI, Jinping. Unir esforços para construir um sistema justo e razoável para a governança global da inteligência artificial. Discurso de abertura da Conferência Mundial de Inteligência artificial e da Reunião de Alto Nível sobre Governança Global de Inteligência artificial. Xangai, 17 jul. 2026. Xinhua.
XIONG, Jeff. Além do vale do Silício. São Paulo: Expressão Popular, 2026.
Se comentar, identifique-se. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html
Avanço do comércio internacional chinês desafia barreiras dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/china-x-eua.html