14 abril 2026

Minha opinião

Trump e a gangorra do petróleo
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

O otimismo que prevaleceu nos mercados na última semana com a possibilidade de encerramento do conflito Estados Unidos-Israel x Irã, e consequente liberação do Estreito de Ormuz, agora dá lugar à acentuada apreensão. 

A trégua temporária, que havia pressionado para baixo os preços do petróleo em cerca de 16% nos dias anteriores, foi abalada pelo fracasso das negociações em Islamabad. Agora o dado de realidade parece ser o prolongamento.

O maior temor dos investidores é a insegurança do fluxo global de energia. Petroleiros desviando ou interrompendo rotas após as ameaças de Trump de bloquear o estreito e interceptar navios.

O barril de petróleo havia caído abaixo de US$ 95, mas agora entra em nova pressão de alta. O nó da questão está na interrupção do fluxo de navios em Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial. 

No que se refere ao Brasil, contraditoriamente, por ser um grande exportador, o petróleo caro teoricamente ajuda o Real e a balança comercial brasileira. Um "benefício" temporário e, na prática, indesejável: como consequência, uma possível fuga de capital para o dólar e títulos americanos pode desvalorizar o Real frente ao dólar e puxar uma alta nas commodities.

Moral da história: quando canta vitória como mera farolice ou retoma absurdas ameaças contra o Irã, Donald Trump aguça a instabilidade da economia mundial.

Até quando?

Trump atira no próprio pé https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_10.html 

Fotografia

Luciano Siqueira 

"Meus amigos na varanda" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html   

Dica de leitura

 


Resenha
BOITO JR., Armando. Reforma e crise política no Brasil: os conflitos de classe nos governos do PT. Campinas: Editora da Unicamp/São Paulo: Editora Unesp, 2018.
Daniela Costanzo[1]/Boletim Lua Nova

 

Dentre os diversos esforços intelectuais recentes para compreender a última crise econômica e política que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff, encontra-se o livro Reforma e crise política no Brasil: os conflitos de classe nos governos do PT, de Armando Boito Jr. Trata-se de uma reunião de artigos escritos pelo cientista político da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na última década e, em alguns casos, em coautoria com Andréia Galvão, Alfredo Saad-Filho, Paula Marcelino e Tatiana Berringer. As interpretações de Boito Jr. sobre a política brasileira já são conhecidas do público acadêmico e entre os movimentos e partidos de esquerda, mas alguns dos textos reunidos na nova coletânea são inéditos ou lançados no Brasil pela primeira vez.

O livro se divide em duas partes nas quais o autor tenta compreender o que representaram os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) e como chegaram ao fim. Um apêndice de resposta às críticas de Igor Fuser fecha a obra. O enfoque teórico explicitado pelo autor consiste em usar o marxismo para analisar a política brasileira, aproximando-a da economia e da sociedade; assim, o livro de Boito Jr. se afasta das correntes institucionalistas da Ciência Política, as quais colocariam o processo político como autônomo das demais esferas da vida social. Nesta perspectiva, os conflitos de classe são considerados o motor central do processo político.

Nesse sentido, dois conceitos de Nicos Poulantzas são essenciais na narrativa em questão, o de burguesia interna e o de bloco no poder. Para o autor, a burguesia interna brasileira – aquela que reúne setores variados de capital nacional que vão desde o agronegócio, a mineração e a construção civil até os grandes bancos – ascendeu, com a eleição de Lula, no interior do bloco no poder, que representa as frações da burguesia cujos interesses são contemplados nas políticas do governo. Essa ascensão não teria correspondido, entretanto, a uma hegemonia no interior desse bloco.

A política que representa e evidencia a ascensão da burguesia interna é o neodesenvolvimentismo empreendido a partir dos primeiros governos petistas. Esse seria um desenvolvimentismo possível dentro do modelo neoliberal periférico, caracterizado por ter taxas de crescimento inferiores e menor capacidade de distribuir a renda em relação ao desenvolvimentismo original, por se basear em setores agrícolas e industriais de baixa densidade tecnológica e por ser voltado para o mercado externo. Segundo o cientista político, ao privilegiar uma política neodesenvolvimentista, Lula preteriu os interesses da burguesia associada, cuja principal diferença em relação à burguesia interna é que ela desejaria a expansão do imperialismo, enquanto esta última quer impor limites a essa expansão, reivindicando proteção e favorecimento do Estado em relação ao capital estrangeiro.

 Para levar adiante sua política de oposição ao capital financeiro internacional e à burguesia compradora, a burguesia interna teria tido que aceitar compor uma frente com os movimentos sindicais e populares, constituindo-se como força hegemônica desta. Diferentemente de aliança, frente é uma reunião informal de classes e frações de classes em torno de objetivos convergentes, cuja convergência nem sempre está clara para as forças componentes. Os esforços do governo Lula consistiam em manter essa frente e faziam isso também com o apoio dos trabalhadores pauperizados e desorganizados. Boito Jr. lembra que essa frente se aproximaria daquela imaginada pelos comunistas nos anos 1950, não fosse o projeto pouco ambicioso de desenvolvimento da frente atual, as diferenças da atual burguesia interna com a burguesia nacional de então e o fato de agora não se tratar de uma etapa da revolução socialista no Brasil, como os comunistas pensaram tal aliança décadas atrás.

Para explicar o impeachment e o fim da frente neodesenvolvimentista, o analista recorre às contradições internas existentes na frente, que teriam se acentuado a partir de 2013, quando o crescimento econômico dava mostras de estar se esgotando. Dentre tais contradições, é mencionada aquela entre os bancos e o capital produtivo no que diz respeito à taxa de juros e os conflitos entre trabalhadores sindicalizados e a burguesia quanto às questões de reforma trabalhista, terceirização, salários e greves. Parte importante da argumentação do cientista político, no entanto, é a observação segundo a qual nem sempre a burguesia se organizará da forma observada nos governos do PT, visto que são os momentos históricos que imprimem as divisões de classe; por isso elas devem ser analisadas com base na realidade e – ressalta o autor –  na pesquisa empírica. Portanto, a tese de Boito Jr. comportava um rearranjo tanto da burguesia quanto da frente, o qual, de maneira instigante, não foi observado na crise de 2005, do “mensalão”, quando a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) saiu em defesa do governo. Por que nessa crise foi diferente? A principal explicação é que dessa vez o campo neoliberal ortodoxo viu no baixo crescimento econômico sua chance de empreender uma ofensiva, baseada na atração processual da burguesia interna já afetada pelas contradições da frente neodesenvolvimentista, que passou a defender o ajuste fiscal.

Talvez o debate mais importante incitado pelo livro seja aquele com o também cientista político André Singer. As divergências na explicação da crise que culminou na deposição de Dilma Rousseff são as que mais chamam a atenção. Para Singer (2018), Rousseff teria “cutucado onças com varas curtas”, indo além da política conciliatória que caracterizava o lulismo, ação responsável por desfazer a chamada “coalizão produtivista” – sua versão da frente neodesenvolvimentista que, diferentemente da de Boito Jr., não inclui os grandes bancos nacionais, principais incomodados com a política de juros de Rousseff. A coalizão produtivista, apoiadora do governo, contou com a debandada dos empresários industriais que viram na política econômica e setorial de Rousseff uma ameaça a seus interesses e passaram para a oposição, juntando-se à “coalizão rentista”, formando, juntas, a “frente única antidesenvolvimentista” (SINGER, 2018, p.72).

Outro debate importante é aquele que pode ser traçado entre nosso autor e a economista Laura Carvalho sobre o caráter do neodesenvolvimentismo observado nos governos do PT. Para Boito Jr., o neodesenvolvimentismo não teria como “aumentar significativamente o investimento público, priorizar o mercado interno ou encetar uma política vigorosa de distribuição de renda” (BOITO JR., 2018, p.107) sem romper com os pilares do neoliberalismo, até por isso esse modelo de desenvolvimento seria voltado para o mercado externo. Carvalho (2018) argumenta, todavia, que, entre 2006 e 2010, o Estado expandiu o mercado interno com suas políticas de distribuição de renda, acesso ao crédito e investimentos públicos, de forma que a partir de 2006 o crescimento passou a ser liderado pelo mercado interno, ao contrário do que acontecera em 2004 e 2005, quando fora dirigido pelo boom das commodities. Esta mudança teria tornado a economia nacional mais resistente à crise de 2008, justamente pela redução de sua vulnerabilidade externa.

O livro Reforma e Crise Política no Brasil coloca-se, portanto, como fundamental no debate público brasileiro atual, dado que traz à baila determinações importantes da conjuntura nacional. Além dos tópicos abordados acima, outros, menos centrais para a análise, são encontrados na obra, como a política externa dos governos petistas, as mudanças internas ao sindicalismo no Brasil, as instituições do judiciário e a Operação Lava Jato. Convida-nos, assim, a pensar mais profundamente o país, seus caminhos e descaminhos.

Referências bibliográficas:

BOITO JR., Armando. Reforma e crise política no Brasil: os conflitos de classe nos governos do PT. Campinas: Editora da Unicamp/São Paulo: Editora Unesp, 2018.

CARVALHO, Laura. Valsa Brasileira: do boom ao caos econômico. São Paulo: Todavia, 2018.

SINGER, André. O Lulismo em crise: um quebra-cabeça do período Dilma (2011-2016). São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

[1] Doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).

Para além das faces visíveis https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Palavra do PCdoB

Pela retirada do PL 1424/2026   

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) manifesta sua firme oposição ao Projeto de Lei nº 1424/2026, de autoria da Deputada Federal pelo PSB de São Paulo, Tábata Amaral.

Sob o pretexto de combater o antissemitismo, o projeto visa criminalizar as críticas e condenações contra ações promovidas pelo Estado de Israel. A proposta atende à uma determinação do sionismo – corrente política e ideológica ultra-nacionalista, racista e colonial – de criar um mecanismo de silenciamento contra quem denuncia crimes e horrores tais como o genocídio contra o povo palestino.

O projeto pretende estabelecer dentro do ordenamento jurídico brasileiro uma definição de antissemitismo baseada nos parâmetros da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), que usa o conceito para blindar o Estado de Israel. Conforme bem sinaliza a FEPAL, aos semitas não se atribui uma “raça”, mas sim a definição de um conjunto de povos com afinidades linguísticas e históricas em comum (árabes, hebreus, aramaicos). Historicamente, ao longo dos séculos XIX e XX o antissemitismo ficou caracterizado principalmente como o racismo específico voltado aos judeus e que levou à prática do holocausto nazista no século 20. Esta forma de racismo já é criminalizada no Brasil através da lei 7716 de 1989 que define os crimes resultantes de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Diante da proposta de uma nova lei, que gera ambiguidade jurídica ao confundir propositalmente as críticas ao Estado de Israel com práticas antissemitas, o PCdoB, que sempre se opôs ao antissemitismo, defende que seu combate deve caminhar junto com a denúncia e o enfrentamento a todas as formas de racismo e preconceitos como a islamofobia, a xenofobia e outros.

A justa luta contra o antissemitismo não pode ser utilizada como ferramenta para restringir o direito à crítica, à livre expressão e manifestação e à solidariedade entre os povos. Por isso, projetos de lei como este e eventos governamentais unilaterais que se utilizam do mesmo método de encobrir as práticas sionistas, como as do governo de Benjamin Netanyahu, com o véu da condenação ao antissemitismo devem ser denunciados e combatidos.

Conclamamos a militância, os movimentos sociais e as forças progressistas a se mobilizarem pela retirada do PL 1424/2026, em defesa da liberdade de expressão, da solidariedade internacional e de uma política externa pautada pela autodeterminação dos povos e promoção da paz.

Não à criminalização da solidariedade internacional!
Não ao PL 1424/2026!

São Paulo, 8 de abril de 2026

A Comissão Executiva Nacional
Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

O mundo gira. Saiba mais  https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Arte é vida

Alice, 12 anos

Banksy deixou de ser um mistério no mundo das artes de rua? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/enio-lins-opina_24.html 

Boquirroto e inconsequente

Fala o que pensa e pensa errado
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Como pode o principal líder dos Estados Unidos, decadente porém ainda a maior potência econômica e militar do mundo, se assumir tão falastrão e imprevisível?

De modo atabalhoado, ocupa redes sociais e usa falas de improviso a repórteres para alimentar um cenário de incerteza quanto à geopolítica do Oriente Médio e, por extensão, ao cenário geopolítico mundial.

É o que muitos já chamam "diplomacia da imprevisibilidade". Acrescento: e da inconsequência.

Nas últimas semanas, combina a retórica da "paz através da força" e o slogan de campanha “America First", admitindo o custo financeiro das guerras no exterior.

Essa conduta incoerente agora se expressa numa anunciada (e ainda não consumada) escolta naval contínua sobre o Estreito de Ormuz, que se mantém sob controle do Irã.

Não são poucas as manifestações de desacordo de parte de tradicionais aliados dos Estados Unidos, no Oriente Médio e, sobretudo, na Europa, em face da ausência de uma linha diplomática clara por parte de Trump.

Nos próprios Estados Unidosampliam-se vozes críticas que consideram um governo sem estratégia de longo prazo.

Alguém tem dúvida quanto aos sinais de decadência da superpotência norte-americana?

Se comentar, assine.

Uma análise Vitória do Irã sobre a guerra neocolonialista de Trump tem alcance mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho_12.html 

Palavra de poeta

Poema de Sete Faces
Carlos Drummond de Andrade    


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também: "Primeira palavra", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_8.html