18 junho 2026

Palavra de poeta

A demora
Mia Couto    

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz,
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também: "Flores do mais", poema de Ana Cristina Cesar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/palavra-de-poeta_11.html 

17 junho 2026

Minha opinião

Benéfica globalização 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 

Muito cedo para avaliar, pois ainda estamos na primeira rodada de todos os grupos da atual Copa do Mundo de futebol, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá. Mas vale destacar o aparente progresso do futebol jogado nos países da África, Ásia, Oriente Médio e América Central.

Como se explica? 

Que tenham a palavra os especialistas no assunto — que são poucos dentre numerosos jornalistas e acadêmicos não mais do que palpiteiros.

Cá com meus modestíssimos botões, tenho pra mim que desde a transmissão dos jogos pela TV, confrontos entre os melhores times do mundo acompanhados até por beduínos ou tribos africanas em regiões mais longínquas, disseminaram a ginga brasileira, a combatividade ágil argentina e a disciplina tática europeia, fazendo surgir novos talentos em toda parte. 

Nessa Copa, revelam-se dados curiosos. No selecionado japonês, dez atletas atuam na Holanda e no selecionado holandês apenas sete jogam no seu país. O time do Uruguai tem sete dos seus atletas atuando no Brasil.

O técnico da nossa seleção é italiano e nesta Copa e não há nenhum técnico brasileiro dirigindo uma das 40 seleções inscritas na competição.

E eu que não mais frequento estádios, porém acompanho quase tudo pela TV, dê-me conta de uns oito convocados para a seleção brasileira eu nunca havia ouvido falar!

Benéfica e surpreendente é a "globalização" da técnica e da tática do futebol.

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A postura coletiva dos campeões https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/selecao-quem-vai-copa.html 

Uma crônica de Celso Pinto de Melo

O Recife escrito nas ruas
Como nomes de bairros, pontes e ruas preservam memórias que a cidade já esqueceu
Celso Pinto de Melo/Algomais

 

Há cidades que guardam sua história em museus. O Recife prefere espalhá-la pelas ruas. Não se trata apenas de memória, mas de uma forma própria de organizá-la: a cidade não explica, nomeia. Ao nomear, a cidade registra, desloca e, às vezes, suaviza o que viveu.

Quem passa hoje pela Rua do Imperador dificilmente se lembra de que ali já foi a Rua da Cadeia. A Rua da Imperatriz, por sua vez, era o antigo Aterro da Boa Vista. A mudança não é apenas estética: referências diretas à função cedem lugar a símbolos de autoridade. O que era função torna-se representação. O passado não desaparece – é reescrito. No Recife Antigo, algo semelhante ocorre. A Rua do Bom Jesus já foi Rua dos Judeus e, antes, Rua do Bode.  

Cada nome marca uma camada histórica. A rua permanece; o sentido, não. Nem todos os nomes passaram por esse “refinamento”. Alguns persistem com uma franqueza quase desconcertante: Beco da Facada, Praça Chora Menino, Rua do Fogo. Não há metáfora – há registro. Houve faca, choro, incêndio; bastou para fixar a referência. O mesmo ocorre com a Rua da Angustura: estreita, comprimida, um aperto urbano convertido em nome – como a Rua Direita e as antigas Larga e Estreita do Rosário. Vestígios de um tempo em que a cidade nomeava sem filtro. Não constroem imagem.  Registram.

Mas o Recife não vive apenas de conflito. Há nomes que projetam uma cidade desejada: ruas da Concórdia, da Amizade, do Sossego, da Aurora. Não descrevem o que foi, mas o que se quis ver. Entre o vivido e o ideal, a cidade constrói sua narrativa. 

Há ainda uma camada mais profunda, anterior ao urbano: Apipucos, Iputinga, Parnamirim, Ibura, Muribeca, Jiquiá. Nomes indígenas que descrevem diretamente a paisagem e o modo de vida. Mesmo onde o Capibaribe foi retificado ou a várzea, aterrada, permanecem como vestígios de uma geografia já incompleta.

Sobre essa base, sobrepõe-se o Recife dos engenhos – Monteiro, Cordeiro, Curado, Mustardinha – e os nomes que nascem do uso direto: Bomba do Hemetério, Linha do Tiro. Aqui, o espaço é definido por sua função. O cotidiano, quando marcante, vira registro.

Às vezes, esse princípio se repete quase didaticamente. O Recife guarda três bairros que remetem à mesma prática: Hipódromo, Derby e Prado. As corridas de cavalo desapareceram; os nomes ficaram – vestígios ainda legíveis no mapa.

Há também nomes que parecem excessivos, mas revelam outra coisa. A Rua do Hospício remete a uma casa de acolhimento religioso; os Aflitos, à devoção; Afogados, a uma paisagem de várzea; e Encanta-Moça, menos a um fato do que a uma impressão – a de um lugar que atrai e seduz. No Recife, o nome raramente coincide com o que sugere: desloca, amplia, dramatiza – e, assim, revela.

A cidade se reorganizou, renomeou ruas, cobriu rios e, ainda assim, deixou escapar fragmentos em cada esquina. Aos poucos, revela-se menos como um conjunto de lugares e mais como um texto – descontínuo, sobreposto, que se lê por aproximações.

A literatura recifense segue outro caminho. Em Clarice Lispector, o Recife surge como memória difusa – “quintal, mangue, cheiro”. Em Carlos Pena Filho, como paisagem vivida, “metade roubada ao mar, metade à imaginação”. Em ambos, trata-se de um Recife interiorizado. Os nomes das ruas operam em outro registro: mais direto, quase documental. Onde a literatura sugere, eles registram.

Talvez o melhor modo de compreender a cidade seja caminhar – como quem lê. Uma leitura de lampejos, como na Ponte Buarque de Macedo, atravessada pela sombra de Augusto dos Anjos, ou no primeiro “alumbramento” de Manuel Bandeira, às margens do Capibaribe.

Seguindo esse percurso – Rua do Sol, Rua da Aurora, Rua da União – chega-se ao Parque 13 de Maio. Ali, pela memória, reaparece a “Torre de Londres”, símbolo de um período em que o Recife buscava inscrever-se no imaginário europeu. Não explicava – sugeria. E, ao sugerir, revelava: o Recife não apenas vive sua história; ele a encena.

Mas não foi só a torre que se transformou em memória. A antiga ponte giratória – hoje fixa – evoca um Recife em que o rio ditava o ritmo da cidade. Ela se abria para os saveiros rumo ao Cais de Santa Rita. O aterro redesenhou o espaço; a ponte permaneceu – em outra relação com o rio.

Ali perto, a antiga Rua da Praia remete a um tempo em que a água fazia parte do cotidiano. Até o Século 19, famílias frequentavam o local para banhos de mar em cabines privativas. O nome ficou; a geografia, não.

No conjunto, não se trata apenas de curiosidades, mas de um sistema de inscrição histórica. Cada nome – e cada construção – é um ponto de encontro entre tempos distintos.

Talvez por isso o Recife dispense explicações longas. Como sugeriu Gilberto Freyre, o passado aqui não desaparece – apenas muda de forma.

Caminhar pelo Recife é também ler. Entre uma esquina e outra, o Recife continua falando. Cabe a nós decidir se apenas passamos – ou se, de fato, escutamos.

*Celso Pinto de Melo é professor titular aposentado da UFPE, pesquisador 1A do CNPq, membro da Academia Pernambucana de Ciências e da Academia Brasileira de Ciências.

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Leia também: A cidade que amamos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_9.html 

Postei nas redes

Calcula-se em 30 bilhões de dólares os prejuízos dos Estados Unidos com a guerra contra o Irã. Mais o desgaste político de Trump dentro e fora do país. 

EUA: Os bilionários pedem mais guerra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/multimilionarios-senhores-da-guerra.html 

Lula no G7

Voz altiva
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65 
 

Ao discursar na cúpula do G7 na Itália, onde esteve como convidado, o presidente Lula expressou, como sempre, a diplomacia altiva e propositiva praticada pelo Brasil, sob a sua liderança.

Criticou severamente as desigualdades imperantes no mundo e propôs uma tributação global sobre os super-ricos.

Mais uma vez denunciou a absurda concentração de renda, que beneficia poucos bilionários, enquanto a maioria da população mundial enfrenta crises sociais crônicas e profundas vulnerabilidades.

Também reafirmou a necessidade de se reestruturar a governança global, a partir da ONU – seu Conselho de Segurança com destaque –, mencionando que as instituições financeiras internacionais atuais não provêm do suporte necessário os países considerados em desenvolvimento.

Face o conturbado quadro geopolítico atual, reafirmou a defesa intransigente da soberania das nações.

Mais uma vez, defendeu políticas públicas de erradicação da pobreza extrema.

Mais: voltou a advertir sobre perigos decorrentes do uso desregulamentado da inteligência artificial.

Em tempo: o antecessor, Jair Bolsonaro, obviamente não seria convidado à cúpula dos pais capitalistas mais desenvolvidos. Se fosse, que baboseiras diria?

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Lula defende multilateralismo, soberania das nações e sustentabilidade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/lula-na-alemanha.html 

Seleção brasileira indefinida

Mudança de padrão tático
A seleção deveria mudar o padrão das últimas décadas. Uma seleção não pode ter laterais apenas para marcar
Tostão/Folha de S. Paulo     

No Brasil é tudo ou nada. A seleção, muito festejada antes da estreia, passou a ser bastante criticada após o empate por 1 x 1 contra a boa seleção de MarrocosCasemiro, que nos últimos 12 meses foi bastante elogiado pelo seu desempenho no Manchester United e na seleção sob o comando de Carlo Ancelotti, tem sido muito criticado pelos passes errados e pela falta de mobilidade.

Mesmo se Casemiro atuar bem o restante do mundial, as suas características técnicas e físicas, de muita marcação, porém de pouca mobilidade, leveza, estão cada dia mais desuso. Os grandes jogadores atuais de sua posição marcam, possuem ótimos passes, tocam a bola e avançam. São o elo entre o meio campo e o ataque, como Vitinha de Portugal, Valverde do Uruguai, Bouaddi de Marrocos, 18 anos, além de outros.

Casemiro deveria atuar centralizado, mais recuado, com um meio-campista de cada lado, que defendem, constroem e atacam. Não se pode confundir a estrutura tática com um trio no meio campo, em que os três, alternadamente, jogam de uma intermediaria à outra, usada por grandes times e seleções, com a formação do Brasil contra Marrocos com dois volantes (Casemiro e Bruno Guimarães) e Paquetá como um armador pela ponta.

A seleção deveria mudar o padrão das últimas décadas com pouca aproximação, pouca troca de passes no meio campo e a dependência de alguns excepcionais lances individuais, como o gol de Vinicius Junior contra o Marrocos. No Brasil, continua ainda a antiga divisão do meio campo entre os volantes que marcam e atuam do meio para trás e o meia ofensivo centralizado que joga do meio para frente.

Os 7x1 contra a Alemanha, os 4x1 contra a Argentina e tantos outros momentos ruins do futebol brasileiro nos últimos 20 anos passam pela pouca associação dos jogadores do meio campo e pela pressa de chegar ao gol. Um grande time precisa alternar as duas virtudes. Existe o tempo de acelerar, ousar e o de pausar, cadenciar.

Há outros problemas. Uma seleção não pode ter laterais apenas para marcar. Assim como uma grande equipe precisa de meio-campistas que jogam bem de uma intermediaria a outra, necessita de laterais que marcam e avançam. Não faz diferença escalar Danilo ou Ibañez na lateral direita nem Alex Sandro ou Douglas na lateral esquerda.

Raphinha tem sido muito criticado e alguns pedem a sua saída. No Barcelona, Raphinha é um jogador que brilha intensamente em poucos momentos do jogo. No restante da partida costuma ser discreto, como tem sido na seleção. Ocorre algo parecido com Vini. Ele tenta um grande número de lances individuais, erra muito e é criticado quando não faz uma bela e decisiva jogada. Se isso acontece, como no jogo contra o Marrocos, é endeusado. Os dois são importantíssimos para a seleção.

As outras seleções candidatas ao título também possuem problemas. A Espanha, sem bons reservas para os pontas Lamine Yamal e Nico Willians, que só jogaram os últimos 20 minutos, teve enormes dificuldades no empate por 0x0 contra a retranca da modesta equipe de Cabo Verde. A França, na vitória por 3x1 , deixou muitos espaços na defesa e Senegal criou 3 ótimas chances de gol. No segundo tempo, a França mostrou o seu enorme talento ofensivo. Fez 3 e poderia ter feito 6 gols.

Ancelotti está confuso com tantas possibilidades na escalação e no desenho tático ou vai usar estas opções para definir no momento certo a formação mais correta e decisiva?

[Ilustração: André Lhote]

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Goleiros com o samba no pé https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_26.html   

Humor de resistência

 

Nando Motta

Enrolados e hipócritas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_0898482679.html