10 setembro 2026

Minha opinião

A praça ainda é do povo?*
Luciano Siqueira     

Faz muita falta o calor das ruas, na campanha eleitoral sobretudo.

Nas pelejas dos anos mais recentes verifica-se redução dos grandes comícios na proporção em que crescem as campanhas digitais.

Tem a ver com o custo, o alcance e o modo como a maioria das pessoas se comunica hoje. E com uma espécie de perigosa superficialidade no embate de ideias.

Verdade que os comícios de rua exigem investimentos financeiros significativos em infraestrutura — palanques, sonorização, segurança e transporte.

Candidaturas aos governos estaduais, por exemplo, já não se realizam numa sequencia intensa de comícios.

Na campanha de 1986, cá em Pernambuco, em que Miguel Arraes pleiteou o governo estadual e venceu, num dado momento realizamos um volume absurdo de comícios de médio e grande porte. Começamos cedo da manhã em Pombos, cidade limítrofe da Zona da Mata e terminamos depois da meia noite em Garanhuns, no Agreste Meridional, tendo passado antes pelo Sertão Central.

No dia seguinte, Arraes e eu tomávamos o café da manhã no Hotel Tavares Correia quando o futuro governador abordou o coordenador da campanha no interior, o velho e aguerrido militante Ivan Rodrigues:

- Acabei de descobrir quem matou Tancredo Neves.

- Quem, Dr. Arraes? – perguntou Ivan em voz baixa, quase confidente.

- Foi o cara que organizou a agenda da campanha dele no interior!

A piada fazia sentido.

Agora, as redes sociais e o impulsionamento de conteúdo digital permitem atingir um número expressivamente maior de pessoas com um custo por eleitor significativamente menor.

É a realidade, sim, frustrante para os velhos militantes habituados à peleja nas ruas.

Enquanto num comício candidatos se dirigem a um público geograficamente limitado e heterogêneo, as plataformas digitais permitem a segmentação de mensagens com base em perfis, interesses e dados demográficos específicos.

É a mensagem direcionada, tecnicamente bem concebida.

Falar para milhares e até milhões é ótimo. Mas inquietante é o formato das mensagens em meios digitais: conteúdos curtos, diretos e "sob demanda" em redes como Instagram, TikTok e aplicativos de mensagens.

Dizem que o vídeo mais competente deve durar não mais do que vinte segundos!

Tudo em busca de um “engajamento” mediante replicação espontânea ou direcionada de conteúdos na internet, tornando o "comício digital" — na forma de lives ou postagens de alto alcance — uma ferramenta mais ágil eficiente de mobilização.

Costumo apelar à militância para que se envolva nas três instâncias da luta nos dias que correm: nas redes digitais, nos salões (reuniões e assembleias) e nas ruas. Indispensáveis à elevação da consciência política de centenas de milhares e milhões, como exige a luta para além das campanhas eleitorais.

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html 

Humor de resistência

 

Miguel Paiva

Na peleja em Pernambuco, o fator subjetivo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_0348287597.html  

Editorial do 'Vermelho'

É imperativo dar um basta à parcialidade golpista de André Mendonça
Ministro atua como ponta de lança de uma operação da extrema direita para agravar a crise político-institucional e assim encobrir corrupção dos Bolsonaro no caso Master
Editorial do 'Vermelho'  
 

A decisão de André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), de afastar por liminar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, tem graves consequências institucionais, políticas e eleitorais. O ministro tirou a toga de vez e atua, desbragadamente, com parcialidade para favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro.

Extrapolou suas prerrogativas e detonou uma crise que tem claro sentido golpista. Atinge a Suprema Corte, a PF, a Procuradoria-Geral da República (PGR) e, agora, busca arrastar o Executivo, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mendonça não age sozinho. A crise político-institucional resulta de um plano ardiloso da extrema direita com três objetivos básicos: blindar e proteger Flávio Bolsonaro do crime de corrupção de R$ 134 milhões do ex-banqueiro criminoso Daniel Vorcaro, do Banco Master; arrastar a disputa presidencial para o terreno predileto do neofascismo, o lamaçal e o clima de caos; e atingir a campanha do presidente Lula, impondo artificialmente o tema da “corrupção” como assunto central da disputa.

Para compreender a dimensão política do caso, basta olhar para a trajetória na PF que, sob a direção de Andrei, esteve no centro das investigações que resultaram na captura e prisão do criminoso Vorcaro. E, também, a operação Carbono Oculto, que atingiu organizações criminosas ligadas ao setor de combustíveis e a complexas estruturas financeiras, e do enfrentamento dos crimes bolsonaristas relacionados ao 8 de Janeiro.

Andrei também esteve à frente da PF na investigação que levou à prisão o chamado “Careca do INSS”, enquanto Mendonça autorizou a abertura de investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, embora a própria PGR tenha questionado a relação desses fatos com a Operação Sem Desconto e pedido o envio do caso à primeira instância por ausência de foro no STF; relatório da própria PF ainda apontou “imputações sem lastro” contra ele. O objetivo era a exploração midiática do caso para prejudicar a candidatura de Lula.

E foi sob sua direção que a PF chegou aos mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro. Leandro Almada, por sua vez, participou de diferentes etapas da investigação do caso Marielle e, como superintendente da PF no Rio, esteve à frente do caso na fase que resultou nas delações de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. Desde 2024, dirigia a área de Inteligência da PF.

Quando Almada era superintendente da PF na Bahia, em 2022, ele denunciou a atuação do então ministro da Justiça bolsonarista, Anderson Torres, e do então diretor-geral da PF, Márcio Nunes, de obter o apoio da PF às blitze da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para tentar impedir que eleitores exercessem o seu direito de voto, numa região sabidamente favorável ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.

Mendonça rompeu todas as fronteiras da legalidade ao atacar a PF, afastando de seu comando funcionários do Estado exemplares no combate aos golpistas que tentaram soterrar a democracia, às facções criminosas e bandidos de colarinho branco, como Vorcaro, e, ao mesmo tempo, travar por mais de 120 dias as investigações do caso Dark Horse, a corrupção de Flávio Bolsonaro.

A gravidade da decisão de Mendonça aumenta por sua conduta como relator do caso Banco Master. O ministro tornou públicas mensagens extraídas do celular de Vorcaro nas quais aparecem graves conteúdos que envolvem o ministro Alexandre de Moraes, ainda sem o escrutínio do contraditório. Todos são iguais perante a lei. Quem comentou delitos, quem quer seja, deve ser investigado.

Acontece que Mendonça pisoteou a Constituição, que assegura o devido processo legal, o direito ao contraditório e a ampla defesa. Afrontou o regimento do STF e o rito do devido processo legal. Direcionou investigações, atuou como juiz e investigador. Implacável com uns e dócil e protetor de outros. E mais: Mendonça encontrou-se sigilosamente com Vorcaro, fato reconhecido pelo próprio ministro.

A ingerência de Mendonça na PF, como se vê, não é um caso isolado. Faz parte de um plano amplo para favorecer Flávio Bolsonaro. Como sustenta a Advocacia-Geral da União (AGU) no recurso ao presidente do STF, Edson Fachin, sobre a atitude do ministro na PF, a medida invade a competência presidencial e pode desorganizar as atividades institucionais da PF. A AGU pediu a suspensão da liminar de Mendonça, invocando a competência presidencial prevista no artigo 84 da Constituição.

Há outro fato relevante. O Partido Novo, linha auxiliar do bolsonarismo, apresentou ao STF, sob relatoria de Mendonça, duas petições em rápida sucessão: primeiro, pelo afastamento cautelar de Andrei e, no dia seguinte, requereu sua prisão preventiva.

Outra comprovação do plano pró-Flávio Bolsonaro é o silêncio de Mendonça sobre a delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, que confessou o envio de recursos ao fundo Havengate Development Fund, administrado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio. São evidências de ligações com a solicitação de R$ 134 milhões por Flávio a Vorcaro para financiar a produção de Dark Horse, filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro – preso por crimes graves envolvendo tentativa de golpe de Estado –, dos quais recebeu mais de R$ 60 milhões.

Flávio Bolsonaro transformou os ataques do ministro ao Estado Democrático de Direito em eixo de sua campanha. No 7 de Setembro, atacou Alexandre de Moraes, associou o ministro a Lula e defendeu Mendonça. À exceção de São Paulo, onde a mobilização alcançou alguma relevância, embora abaixo da expectativa dos organizadores, as manifestações em outras cidades foram esvaziadas.

Óbvio que esse plano visa à contenção da tendência de vitória de Lula e a impulsionar Flávio Bolsonaro, que se liga às ações do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, de ingerência militar, econômica e política na América Latina e Caribe, região na qual o Brasil ocupa posição estratégica. O secretário de Estado, Marco Rubio, iniciou justamente nesta semana uma viagem por Colômbia, Equador e Peru destinada a fortalecer alianças com governos alinhados a Washington.

O papel de setores da mídia hegemônica também entra nesta trama de cunho golpista ao se converter em tribunal seletivo, deslocando o debate eleitoral de seus reais objetivos para uma amplificação estridente do falso combate à “corrupção”. Tira do eleitor a possibilidade de conhecimento das propostas reais sobre emprego, renda, industrialização, soberania nacional, segurança pública, política externa, infraestrutura. E assim interditam os grandes debates realmente relevantes.

Edson Fachin, na condição de presidente do STF, tem a responsabilidade de buscar solução para a crise criada por Mendonça, restaurando princípios como o amplo direito de defesa e o direito ao contraditório. O ministro Mendonça não pode continuar a agir como se sua toga lhe conferisse poderes excepcionais.

Em decisão liminar juridicamente fundamentada, o ministro Flávio Dino determinou a imediata reintegração de Andrei e Almada, submetendo a medida ao referendo do Plenário do STF. Entre os fundamentos, Dino advertiu que o afastamento “impede o andamento de – quiçá – centenas de investigações”, inclusive sob sua relatoria, e destacou que a interrupção dos trabalhos da direção da PF “interessa, sobretudo, aos investigados”.

Resta agora saber como Fachin conduzirá o caso. O plenário do STF precisa reverter os afastamentos na PF e restabelecer à Presidência da República suas prerrogativas constitucionais. A PF precisa recuperar sua estabilidade institucional. Mendonça, diante de parcialidades nítidas, deve ser imediatamente afastado das relatorias do caso Master e do INSS. É imperativo que a Suprema Corte restaure a estabilidade, sobretudo quando o país está sob ameaça externa e o golpismo volta a se exacerbar.

O objetivo do conluio da extrema-direita e do imperialismo estadunidense é empurrar a campanha de reeleição do presidente Lula para a defensiva. Acontece que a extrema direita, tendo Mendonça como aríete, foi com muita sede ao pote. A operação em marcha pela sua vertente golpista aciona um sinal vermelho entre todos e todas que prezam a democracia, as liberdades, a soberania do país e os direitos dos trabalhadores – vide, também, o papel de Flávio para sabotar a votação do fim da escala 6×1.

Instaurou-se uma situação de força contra força. De confronto. A disputa presidencial adentrou-se a uma nova etapa. Emergem novas exigências. Desmascarar Flávio Bolsonaro está entre as tarefas centrais.

A gravidade dos fatos dá oportunidade para que a campanha à reeleição do presidente Lula desencadeie a contraofensiva e retome a iniciativa política, realizando ampla mobilização em defesa da democracia e da soberania popular nas eleições.

É tarefa essencial das forças progressistas convocar personalidades democráticas, organizar manifestações populares e acionar os mecanismos institucionais para defender o Estado Democrático de Direito. A campanha do presidente Lula também precisa demarcar com clareza os campos, para desmascarar Flávio Bolsonaro e expor as manobras da extrema direita destinadas a sabotar a democracia e a privar o povo de seu sagrado direito de escolher, de forma livre e soberana, seus governantes e representantes.

Defender a soberania nacional com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_0189987053.html

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Somos todos Lula em torno de um cafezinho" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/convite-vamos-nessa.html 

09 setembro 2026

Palavra de poeta

As tuas mãos terminam em segredo
Fernando Pessoa     

Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios esguios
E o teu perfil princesas no degredo…

Entre buxos e ao pé de bancos frios
Nas entrevistas alamedas, quedo
O vento põe seu arrastado medo
Saudoso a longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
Arrasar os castelos que na areia
As crianças deixaram, meu amor,

Será o haver cais num mar distante…
Pobre do rei pai das princesas feias
No seu castelo à rosa do Levante!

[Ilustração: Selina de Maeyer]

Leia também "Retorno", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0433487496.html 

Postura altiva

Flávio Dino competente e firme
Luciano Siqueira     

Anoto de O Globo matéria assinada pela repórter Pepita Ortega, concisa, mas esclarecedora, a propósito da decisão liminar na qual o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a reintegração imediata de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal (PF). A decisão anulou a medida anterior tomada pelo ministro André Mendonça, que havia determinado o afastamento de Rodrigues e da cúpula da corporação.

São elencados “11 recados” ao ministro André Mendonça, que demarcam campos e o põem na defensiva:  

Decisão em "Causa Própria": Dino criticou a postura de André Mendonça ao tomar uma decisão que beneficiou sua própria situação. Pontuou que, caso o colega possua divergências funcionais ou pessoais com a Polícia Federal, deve buscar as vias específicas e institucionais, sem utilizar a prerrogativa do cargo para proferir decisões em benefício próprio.

Citação à Reunião Privada com Daniel Vorcaro: Dino destacou um encontro privado entre André Mendonça e o banqueiro Daniel Vorcaro nas dependências de um instituto ligado ao ministro. Sem emitir um julgamento aviso de valor doloso, ressaltou que a reunião com um alvo investigado torna ainda mais grave a interferência direta sobre a atuação da PF.

Ilegitimidade do Partido Novo: O pedido para o afastamento do diretor-geral da PF foi apresentado pelo Partido Novo. Dino frisou que partidos políticos não têm legitimidade no Código de Processo Penal para solicitar cautelares de natureza criminosa ou interferir em procedimentos penais dessa ordem.

Uso de Processos Penais para Fins Eleitorais: Observou que o Partido Novo lançou candidatura à Presidência da República e é parte interessada diretamente no cenário eleitoral, alertando que regras do processo penal não podem ser distorcidas para conveniências políticas.

Interrupção e Risco às Investigações: Ao paralisar a produção de inteligência e a chefia da Polícia Federal, a decisão anterior gerou graves prejuízos a inquéritos em andamento sob a responsabilidade de Dino, inclusive a investigação referente ao financiamento do filme Dark Horse com emendas parlamentares.

Medida que Favorece Investigados: Ressaltou que paralisar subitamente diligências e a gestão central das investigações no STF “interessa, sobretudo, aos investigados”, enfraquecendo o combate a eventuais ilegalidades.

Medida Inédita na História: Classificada como iniciada a interferência direta de um magistrado para paralisar a produção de relatórios de inteligência policial de forma ampla.

"Atropelos Processuais" e Prevalência do Plenário: Dino apontou evidências de atropelos de rito processual na decisão de afastamento e alertou que a monocrática de Mendonça se sobrepôs indevidamente às deliberações e competências do presidente da Corte e do Plenário do STF.

Interferência na Competência de Outros Relatores: Assinalou que o trabalho imposto à cúpula da PF afetou diretamente processos conduzidos por outros ministros e relatorias ativas na Suprema Corte.

Necessidade de Moderação, Equilíbrio e Prudência: Cobrou postura institucional contida de membros do Judiciário, exortando a magistratura a agir com parcimônia para evitar crises institucionais desnecessárias.

Submissão Imediata ao Plenário do STF: Para restabelecer a segurança jurídica, Dino determinou o retorno imediato da cúpula da PF aos cargos e submeteu seu próprio liminar para validação do colegiado (Plenário do STF).

Ilustração: imagem produida por IA

Leia também: Firme repúdio à manobra golpista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/palavra-do-pcdob.html

Humor de resistência


 Geuvar

Crimes financeiros do clã Bolsonaro no caso “Dark Horse” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/poco-de-lama.html