Paraguai: colapso num “paraíso” da ultradireita
Aliado a Trump, Milei e os Bolsonaro, presidente renuncia. Crise
bancária expõe “porta giratória” entre financismo e governo. Em xeque, acordo
militar com EUA e uso de Itaipu pelas big techs. Partido Colorado ainda dá as
cartas e blinda o vice
Carmem Leitão e Florencia Pelagagge/Outras Palavras
O presidente do Paraguai,
Santiago Peña, anunciou sua renúncia na manhã desta quinta-feira (5/11),
enquanto a Câmara discutia o pedido de impeachment contra ele. O
ministro do Interior entregou a carta ao Congresso. A Câmara aprovou a acusação
contra Peña por 78 votos a zero e a enviou ao Senado. Aceita a renúncia, cabe
ao vice, Pedro Alliana, completar o mandato até agosto de 2028. Dois dias
antes, clientes do Ueno Bank encontraram as agências fechadas e os serviços
digitais suspensos. O Banco Central do Paraguai (BCP) abrira o processo de fechamento
do banco após constatar que seu índice de solvência estava abaixo da metade do
mínimo exigido. A queda do banco e a renúncia de Peña abalam a imagem do
Paraguai como um paraíso liberal de suposta segurança econômica e de pouca
intervenção estatal.
Peña foi acionista da Ueno
Holding, controlada pelo Grupo Vázquez, até março de 2025. Carlos Carvallo, que
presidira a financeira antecessora do Ueno Bank, deixou o Banco Central a
pedido do presidente. Uma das operações investigadas envolve a aquisição de uma
carteira de crédito de US$ 74,4 milhões que, segundo a hipótese da promotoria,
teria sido financiada indiretamente pelo próprio Ueno. Segundo a denúncia
ampliada pelos parlamentares, em abril a supervisão do BCP já havia apontado
que o crédito a empresas vinculadas ultrapassava os limites permitidos. No
mesmo dia da renúncia do presidente, o procurador-geral encaminhou à unidade de
delitos econômicos, para avaliação, uma ampliação da denúncia que envolve Peña
e antigos dirigentes do Banco Central. Investigações da imprensa independente
paraguaia já anunciavam, antes da crise, a passagem de dirigentes de bancos
para postos estratégicos do Estado. É nesse contexto que importa esclarecer o
que as autoridades sabiam e como decidiram aplicar dinheiro público em um banco
privado.
O vice-presidente Alliana também
foi alvo de um pedido de julgamento político. Os autores lhe atribuíram a
tentativa de barrar a fiscalização parlamentar, o aval à aplicação de recursos
previdenciários no Ueno e a omissão diante de alertas sobre o crédito concedido
a empresas vinculadas. O documento também lhe atribuiu a articulação da mudança
legal que, em 2024, revogou restrições aplicáveis a certas atividades privadas
após a saída de cargos públicos. No dia seguinte, a maioria do Partido Colorado
no Legislativo rejeitou o pedido, com 48 votos contrários e 30 favoráveis. Os
deputados que votaram pelo arquivamento invocaram os limites formais das
atribuições do vice. A investigação do Ministério Público sobre as operações
bancárias segue seu curso. Ao apoiar o julgamento de Peña e preservar o
sucessor, o grupo de Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio, mostrou que ainda
dispõe de força para arbitrar a crise no Partido Colorado. A leitura de Esteban
Caballero sobre o peso do dinheiro e do comando partidário no cartismo ajuda a
entender essa capacidade de reorganização. As decisões sobre as aplicações
previdenciárias e as regras de conflito de interesses seguem no coentro do
conflito, mas a maioria parlamentar mantém Alliana na linha sucessória.
A crise bancária ocorre em um
contexto de perspectivas favoráveis para a economia paraguaia. Em setembro, o
Banco Central do Paraguai (BCP) elevou de 4,5% para 5% a projeção de
crescimento do PIB para 2026. Entretanto, os efeitos da crise sobre o crédito,
o consumo e as condições de vida da população ainda precisam ser dimensionados.
Em 2025, a informalidade atingia 60,1% das pessoas ocupadas nas atividades não
agropecuárias abrangidas pelo levantamento oficial, aproximadamente 1,66 milhão
de trabalhadores. Esse quadro amplia a preocupação com os efeitos sociais da
restrição de acesso aos recursos financeiros, especialmente entre aqueles que
dependem de rendimentos instáveis. A situação remete, guardadas as diferenças
de escala e circunstâncias, à crise argentina de 2001, quando as restrições
generalizadas aos saques ficaram conhecidas como corralito. Embora o
bloqueio no Paraguai tenha origem na liquidação de uma instituição bancária, a
comparação evidencia um problema comum: a distância entre as garantias
anunciadas e a possibilidade concreta de acesso ao dinheiro. Para famílias com
rendimentos instáveis, a proteção financeira depende também da disponibilidade
dos recursos quando precisam deles.
A imagem do Paraguai como um
“oásis conservador”, associada à estabilidade política e à segurança dos
interesses empresariais, é colocada em xeque diante da crise. Até recentemente,
perfis brasileiros nas redes sociais combinaram mensagens contra o governo Lula
com a venda de assessoria para obter residência ou abrir empresas no Paraguai.
Em 2025, brasileiras e brasileiros apresentaram 23.526 pedidos de residência,
temporária ou permanente, dos quais 18.903 temporários e 4.623 permanentes. O MigraMóvil
é uma das vias de atendimento a pessoas estrangeiras.
A crise também pode repercutir
sobre a articulação das forças conservadoras na América Latina, ao colocar em
questão a estabilidade política e econômica de um de seus importantes aliados
regionais. Peña recebeu Javier Milei na Conferência de Ação Política
Conservadora (CPAC) em Assunção, em setembro de 2025. Naquele encontro, Milei
apresentou o Paraguai como referência econômica para a Argentina e para o
restante da América do Sul. Durante as eleições brasileiras, Flávio Bolsonaro
apresentou a Argentina de Javier Milei como referência para sua agenda
econômica e incluiu o Paraguai de Santiago Peña entre os aliados políticos de
seu projeto para a América Latina.
A crise do Ueno recoloca em
debate o papel dos recursos públicos no modelo que governos ultraconservadores
aplicam na região. A “porta giratória” entre governos, empresas e plataformas
de comunicação integra a dinâmica das novas direitas latino-americanas
estudadas por Lorena Soler. Em fevereiro de 2026, o próprio Ueno patrocinou uma
gala em Mar-a-Lago à qual compareceu Eduardo Bolsonaro. A presença do banco
nesses circuitos mostra como interesses privados paraguaios buscaram projeção
em ambientes ligados à direita trumpista.
A aproximação paraguaia com Washington
também tem uma dimensão militar. A Lei 7.630/2026 aprovou o acordo sobre o
estatuto das forças (SOFA), que prevê presença temporária e concede privilégios
e imunidades a militares norte-americanos e a civis do Departamento de Defesa.
O texto reconhece a jurisdição penal dos EUA sobre esse pessoal. Em agosto, o
exercício Fuerzas Comando reuniu 17 países no Paraguai, incluindo o Brasil.
Julieta Heduvan aponta as imunidades e a imprecisão dos prazos e dos controles
como os pontos mais sensíveis do acordo. Para o Brasil, o alcance dessas
missões e sua fiscalização dizem respeito à segurança na fronteira e à
coordenação regional.
Em outubro, o Paraguai aderiu à
Pax Silica, iniciativa dos EUA que reúne cadeias de minerais críticos e
infraestrutura para inteligência artificial. Em paralelo, Crusoe e Araico
anunciaram um centro de computação alimentado por Itaipu, com implantação
inicial prevista para meados de 2027 e possibilidade de expansão para 106 MW de
capacidade de TI. O anúncio também menciona a opção de ampliar a capacidade
total para cerca de 280 MW a longo prazo. Os termos de fornecimento, os
tributos e a formação de trabalhadores definirão quanto desse investimento se
traduzirá em benefícios no Paraguai. A negociação desses projetos confere conteúdo
econômico à aproximação com Washington e continuará a exigir escrutínio público
durante a sucessão.
Os efeitos mais imediatos para o
Brasil passam pela fronteira. Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil
recebeu 59,6% das exportações paraguaias sob o regime de maquila,
voltado à produção para exportação, e a Argentina, 14,4%. Dificuldades de
pagamento podem atingir fornecedores, transportadores e o comércio, com alcance
ainda por medir. O governo Lula pode acompanhar as cadeias produtivas, prestar
assistência consular e cooperar com as autoridades paraguaias na proteção de
trabalhadores e poupadores afetados.
A crise do Ueno Bank também exige
explicações por parte da Itaipu. A margem paraguaia da binacional havia
identificado a instituição entre os bancos nos quais mantinha recursos. Na
tarde de 5 de novembro, o saldo exposto ainda aguardava divulgação. A isso se
soma a negociação sobre o uso da energia. O crescimento do consumo paraguaio
pode reduzir a parcela excedente que o Brasil adquire. A cota brasileira é
assegurada pelo tratado. A revisão do Anexo C, que trata das regras financeiras
e de comercialização, permanece em negociação. Peña via na reeleição de Lula a
oportunidade de chegar a um acordo até o fim do ano. A transição abre uma
interlocução política com o vice Alliana. O debate público precisa atender aos
critérios usados para a aplicação dos recursos da binacional, bem como às
tarifas e contrapartidas oferecidas aos grandes consumidores de energia. O
Brasil tem interesse em respeitar o direito paraguaio de usar sua parcela e de
planejar suas próprias compras de energia. Os ganhos dessa integração precisam
chegar à população e ao mundo do trabalho em ambos os países.
Governos e agências estaduais do
Sul do Brasil também participam dos circuitos econômicos com o Paraguai.
Ratinho Junior recebeu Peña em setembro de 2025 para discutir logística e
investimentos e, em outubro de 2026, apoiou Flávio Bolsonaro. Em agosto, Rediex
e Invest Santa Catarina firmaram acordo comercial na presença de Jorginho
Mello, reeleito no primeiro turno, e de Alliana, então no exercício da
Presidência do Paraguai. No Rio Grande do Sul, a transição de Eduardo Leite
para Zucco, aliado de Flávio Bolsonaro, altera a composição política regional a
partir de 2027. A sucessão em Assunção pode preservar as interlocuções que o
próprio Alliana ajudou a construir. Cabe ao governo federal coordenar as
negociações que envolvem infraestrutura e recursos nacionais.
As eleições norte-americanas
terminaram com derrota amarga de Trump e maiorias democratas nas duas Casas do
Congresso. A partir de 3 de janeiro de 2027, o novo Legislativo poderá
fiscalizar os acordos de cooperação com o Paraguai e disputar as dotações
correspondentes. A perda de força de Trump e a renúncia de Peña enfraquecem a
aposta em relações pessoais como garantia de respaldo político. Os interesses
estadunidenses em energia e em infraestrutura digital atravessam as duas
mudanças. Para o Brasil, a transição em Assunção e a nova composição do
Congresso em Washington aumentam o valor de acordos públicos e previsíveis,
conduzidos pelas instituições de cada país.
Os relatos de Assunção mostram
como as reivindicações mudaram de escopo. O Ueno Bank cresceu com recursos
provenientes de instituições públicas. Agora, a devolução dos depósitos depende
de decisões do Congresso e do Banco Central. Em 4 de novembro, poupadores(as) e
aposentados(as) voltaram às ruas para a restituição dos depósitos e a apuração
de responsabilidades. A polícia usou spray de pimenta e projéteis de borracha
perto do Congresso. No dia seguinte, trabalhadores do Ueno e do Grupo Vázquez
protestaram em frente ao Ministério do Trabalho por salários e indenizações.
Essas demandas exigem uma resposta própria, pois a garantia de depósitos
aplica-se aos saldos elegíveis. Até o momento, o Congresso aprovou um
adiantamento de até 40 salários mínimos, equivalente a cerca de 121,8 milhões
de guaranis, por depositante. O limite ordinário da garantia é de 228,3 milhões
por depositante e por instituição.
A proteção de quem perdeu renda
depende também da fiscalização das relações de trabalho e da liberdade de se
organizar e de cobrar. O Partido Colorado chega à transição com maioria
parlamentar e com a força da identidade partidária que Alejandra Najenson
identifica nas redes familiares. A convergência das reivindicações de
poupadores(as) e trabalhadores(as) dá ao campo progressista latino-americano
uma agenda que ultrapassa a disputa pelos nomes da sucessão. O governo Lula
pode apoiar a coordenação no Mercosul para proteger as pessoas afetadas e
acompanhar de perto os efeitos da crise na fronteira.
Neofascismo sofre duro revés
nos Estados Unidos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/editorial-do-vermelho_0389472228.html