09 março 2026

Minha opinião

Mídia parcial é arma de guerra

Luciano Siqueira  
instagram.com/lucianosiqueira65


O conflito EUA/Israel x Irã da oportunidade a que a grande mídia ocidental, cujas informações e “análises” nos chegam, confirme uma vez mais o seu caráter parcial em toda linha.

​​Um exemplo de como o enquadramento jornalístico pode servir a interesses geopolíticos, a partir da “chave” simplista: o "Ocidente democrático" contra a "Teocracia autoritária".

​Ações militares dos EUA são frequentemente descritas como "defensivas", "preventivas" ou "respostas a provocações", enquanto as ações iranianas são invariavelmente rotuladas como "agressões" ou "terrorismo".

Quando do assassinato do general Qasem Soleimani, em 2020, a notícia foi veiculada como uma "operação de precisão contra um alvo terrorista", minimizando o fato de que se tratou de uma execução arbitrária de um alto funcionário de um Estado soberano em solo de um terceiro país, o Iraque.

​O complexo midiático pró-EUA omite o contexto como modo de confundir. Tende a iniciar a "cronologia do conflito" a partir de um ato iraniano recente, ignorando eventos precedentes que explicam a postura iraniana. Tudo na maior superficialidade.

​Importantes eventos que ajudam a compreender o que se passa na atualidade são simplesmente omitidos: O golpe de 1953 (Operação Ajax) orquestrado pela CIA; o apoio dos EUA a Saddam Hussein durante a Guerra Irã-Iraque; a saída unilateral dos EUA do acordo nuclear (JCPOA) em 2018. Isto de modo a pintar o Irã como um "agressor irracional", e não como um ator racional agindo sob décadas de cerco econômico e militar.

​Na tentativa de tornar críveis suas versões, as grandes redes de notícias (CNN, Fox News, BBC) usam como fontes ex-oficiais do Pentágono ou analistas de think tanks financiados pela indústria militar norte-americana. Assim, a solução militar é apresentada como a única saída viável. As vozes da sociedade civil iraniana ou de acadêmicos críticos à política externa de Washington são, na maioria das vezes, relegadas a segundo plano ou simplesmente omitidas.

​A absurda parcialidade midiática se apoia na distorção dos fatos através de versões distorcidas.

Ligue a TV ou visite sites e perfis nas redes digitais confirme o quanto parcial é a cobertura jornalística deste conflito, como de resto o que acontece na arena global.

Colonialismo digital: a nova fronteira da dependência latino-americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-desafio-da-autonomia-tecnologica.html

Quando a astúcia pode vencer

Guerra de guerrilhas ao estilo do Irã
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Interessante matéria da BBC News aborda como o Irã transformou sua indústria militar ao investir em uma estratégia de "guerra assimétrica", utilizando drones suicidas (como o famoso Shahed-136) para projetar poder e desestabilizar adversários no Oriente Médio e além.

O conceito de “baixo custo", no caso, tem tudo a ver com a associação da simplificação à tecnologia de ponta. Cada instrumento em sua medida e em seu lugar.

Distintos dos mísseis de precisão norte-americanos e israelenses, como o Reaper americano (que custam milhões de dólares), os drones iranianos são fabricados com componentes "de prateleira": motores civis, até baseados em modelos de cortadores de grama ou motocicletas; eletrônicos acessíveis, como o GPS civil e componentes eletrônicos encontrados em lojas de consumo comum.

Astúcia sem limites!

Mais: estima-se que um drone Shahed custe entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, uma fração mínima do custo de um míssil interceptor usado para derrubá-lo.

Tudo apropriado à estratégia do caos: os iranianos se valem da enxames: lançam dezenas de drones, simultaneamente, sobrecarregando os sistemas de defesa antiaérea (como o Iron Dome de Israel ou os sistemas Patriot). Ainda que 90% sejam interceptados, os poucos que passam conseguem atingir alvos estratégicos, causando danos psicológicos e materiais desproporcionais ao investimento feito.

O Irã fornece essa tecnologia para aliados, como os Houthis no Iêmen, o Hezbollah no Líbano e milícias no Iraque. Isso possibilita que esses grupos ataquem infraestruturas críticas (como refinarias de petróleo na Arábia Saudita) sem que o Irã precise assumir a autoria direta.

A produção desse artefato escapa a qualquer mecanismo proibitivo de sua fabricação, inclusive porque seus componentes adotam a dualidade civil e militar.

No lado oposto, os países ocidentais gastam milhões em mísseis de alta tecnologia para abater drones que custam o preço de um carro popular.

O artifício se assemelha à guerra de guerrilhas bem sucedida no enfrentamento de um exército inimigo poderoso.

Acompanhemos os desdobramentos.

Contradições aguçadas no mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/palavra-do-pcdob.html

Urariano Mota opina

Por que falham tanto os jornalistas sobre a agressão contra o Irã?
Cobertura da mídia ocidental sobre o conflito é criticada por reproduzir narrativas geopolíticas dos EUA e Israel, ocultando vítimas civis e simplificando a guerra como defesa democrática.
Urariano Mota/Vermelho      
 

Se lemos somente os textos da mídia dominante, somos levados a crer que Israel e os Estados Unidos fazem uma guerra de defesa contra poderoso inimigo, nesta ordem: pelos valores democráticos e pelo ameaçado território da pátria imperial. Então, primeiro, vemos a enganosa palavra “guerra”, em lugar de mortes de crianças pelo imperialismo, depois vemos “democracia” e “defesa do território”. Mas tudo antecedido e coberto pelo que chamam de luta contra a ditadura do Irã. 

Outra coisa não podemos concluir diante das notícias, no g1Os Estados Unidos estão vencendo [a guerra] de forma decisiva, devastadora e sem piedade. (…) Estamos batendo neles enquanto eles estão caídos. (…) Vamos continuar atacando o Irã até decidirmos que está bom, e o regime iraniano não poderá fazer nada sobre isso”, afirmou Hegseth”.

Ou na BBC Brasil: “’Teerã está sendo pulverizada e não há plano para o dia seguinte. Iranianos não querem sair para protestar enquanto mísseis caem do céu’, diz pesquisadora”.

Ou na Folha de S.Paulo: “O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, general Eyal Zamir, disse nesta sexta-feira (6) que o ‘golpe de abertura’ foi dado, e que ‘estamos nos movendo para a próxima fase. Vamos intensificar os ataques à fundação do regime e às suas capacidades militares. Nós temos jogadas adicionais em nossas mãos’, afirmou. Nesta manhã de sexta, Israel disse que 50 de seus caças destruíram o que havia sobrado do bunker de Khamenei, ainda usado por autoridades, lançando cerca de cem bombas no local”.

Os jornais transformam a guerra num jogo de videogame. E a brincadeira de matar é esta: quem bombardear mais, que será “o nosso lado” deles, ganhará a guerra contra o terror do Irã. E no passo seguinte, já “vencemos”! Para o Irã, game over. Mas um game over para sempre.     

Como deseja o jornal O Globo: “Um Irã gravemente enfraquecido não intimidará nem ameaçará seus vizinhos da mesma forma, e o impacto regional poderá ser comparável ao colapso da União Soviética”. Tomara, ele quer dizer.

Se não lemos o Vermelho, o Brasil 247, o Jornal GGN, podemos ser levados a erro. Como bem escreve Davi Molinari no Vermelho: “Desde o início da ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em fevereiro (28), a cobertura da grande mídia ocidental tem se revelado uma extensão fiel da narrativa oficial da Casa Branca. Manchetes enviesadas e omissões sistemáticas dominam o discurso, enquanto vítimas civis são relegadas a números frios. Essa distorção reflete uma assimetria informativa que favorece Washington e Tel Aviv, diluindo responsabilidades por possíveis crimes de guerra. Um exemplo flagrante é o bombardeio da Escola Primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, que matou entre 148 e 171 meninas. A ação é tratada pela imprensa ocidental com o um ‘equívoco’ técnico — um ‘erro de alvo’ baseado em supostas falhas de inteligência —, em vez de uma denúncia explícita de massacre e violação ao direito internacional”.

E Luis Nassif, no Jornal GGN, nesta esclarecedora recuperação: “a CIA infiltrou centenas de jornalistas mundo afora para plantar narrativas, moldar opiniões e sufocar soberanias. No Brasil, o esquema ganhou solo fértil via institutos de fachada como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que operaram como Estados paralelos de 1961 a 1971. Hoje, na cobertura sobre o Irã, a herança persiste: refinada, mas intacta. A estrutura de cooptação evoluiu em algoritmos e pautas globais, garantindo que o desejo do imperialismo seja lido sempre como ‘consenso global’”.

E José Reinaldo Carvalho no Brasil 247: “O poder global não se expressa apenas por meios militares, mas também por fatores econômicos, tecnológicos, diplomáticos e institucionais. Nesse contexto, a ascensão da China tornou-se um dos elementos mais marcantes das transformações em curso. Nas últimas décadas, o país registrou crescimento econômico acelerado, impetuoso desenvolvimento multidimensional, consolidando-se como uma das maiores economias do planeta e como potência central no comércio e nas cadeias produtivas globais. Paralelamente, ampliou sua presença diplomática e política em diversas regiões, fortalecendo sua assertividade e capacidade de influência no cenário internacional”.

Mas tanto no cenário internacional quanto no do Brasil, repete-se a ofensiva da mídia contra a informação justa, digna, formadora de consciências, o que os jornais renegam com ardor.  Pelo contrário, divulgam notícias que podem confundir até mesmo jovens leitores, cidadãos ao lado do progresso. O que dizer dos “comentários”, da GloboNews, e da nova serpente do fascismo pátrio, Malu Gaspar, em O Globo? Queremos dizer, das montagens criminosas contra o ministro Alexandre de Morais nas mensagens do celular de Vorcaro?

“Segundo blog de Malu Gaspar, de O Globo, banqueiro falou de negócios. Não é possível saber o que o ministro do STF respondeu porque as mensagens são prints do bloco de notas de visualização única. Defesa de Vorcaro criticou vazamento; ministro não se manifestou”. Você viram. Em mais de uma oportunidade, ou melhor, sempre, ela é a repórter que faz notícia da insinuação. A jornalista que transforma em verdade o que o seu veneno achar que é. Imagino o que ela diria dos casos que Jesus teria cometido na maior baderna sexual com os apóstolos. Num deles, Pedro beijou Jesus. O que seria o comentário da jornalista para o escândalo? Este: “Aí tem”.

Amigos, aqui termino. E pensar que comecei a manhã de hoje a escrever sobre os 99 anos do nascimento de Gabriel García Márquez. Mas o vazamento dos crimes da mídia não deixou.

Para o Irã, vencer é simplesmente não ser vencido https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-guerra-prolongada.html 

Contra feminicídio, desigualdade e guerras

8 de Março leva multidões às ruas no Brasil e no mundo contra a violência
Manifestações denunciaram feminicídio, desigualdade e guerras, reunindo movimentos feministas e lideranças políticas em defesa dos direitos das mulheres.
Barbara Luz/Vermelho  

Milhares de mulheres foram às ruas neste 8 de março em cidades de todo o Brasil e em diversos países para marcar o Dia Internacional da Mulher com protestos contra o feminicídio, a desigualdade e a violência de gênero. As mobilizações reuniram movimentos feministas, sindicatos, organizações sociais e lideranças políticas que denunciaram a persistência da violência contra mulheres e cobraram políticas públicas mais efetivas.

As manifestações ocorreram em um contexto preocupante: o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025, com mais de 1.400 casos, segundo dados oficiais, cenário que tem impulsionado a mobilização feminista nas ruas.

Em várias capitais brasileiras, atos denunciaram a violência machista e reivindicaram igualdade de direitos, melhores condições de trabalho e políticas de proteção às mulheres.

Mobilizações pelo Brasil

Em São Paulo, milhares de mulheres marcharam pela Avenida Paulista mesmo sob chuva forte, exigindo medidas concretas contra a violência de gênero e defendendo pautas como o fim da escala de trabalho 6×1, frequentemente criticada por ampliar a sobrecarga das mulheres trabalhadoras.

Presente na manifestação, a presidenta interina do PCdoB, Nádia Campeão, destacou o significado político do ato e a persistência da mobilização mesmo diante da chuva que caiu sobre a capital paulista. “Hoje, domingo, 8 de março, aqui em São Paulo, uma chuva torrencial e a turma toda aqui ainda aguardando o final da manifestação do 8 de março. Ia ser uma enorme passeata aqui em São Paulo em defesa dos direitos da mulher, contra o feminicídio.”

Campeão também relacionou a luta feminista à defesa da soberania dos povos e à denúncia das guerras e do imperialismo. “Nossa tristeza e nosso grito de luta são também pelas meninas assassinadas pelo imperialismo. Pelas mães dessas meninas e por todas as mulheres que lutam em defesa da soberania dos povos.”

O ato em São Paulo recebeu o nome de Em Defesa da Vida das Mulheres e teve a participação de diversos movimentos sociais e sindicais entre eles, a União Nacional por Moradia Popular, o Movimento de Mulheres Camponesas, a União Nacional dos Estudantes (UNE), Marcha Mundial das Mulheres, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), entre outros. 

No Rio de Janeiro, milhares de manifestantes ocuparam a orla de Copacabana, onde cruzes foram fincadas na areia com o lema “Parem de nos matar”, em memória das vítimas de feminicídio. O protesto ocorreu no mesmo bairro onde, semanas antes, uma adolescente de 17 anos foi vítima de estupro coletivo, caso que provocou indignação nacional.

A deputada estadual Dani Balbi (PCdoB-RJ) destacou o caráter político das mobilizações do 8 de março e a centralidade das mulheres na construção da democracia. “Nesse dia 8 de março, todas as mulheres de todos os movimentos, de todas as etnias, de todos os lugares do Brasil ocupamos as ruas para dizer basta de feminicídio. Mas não só para isso: para retomar as rédeas da política no nosso país, para dizer que não haverá projeto de futuro de democracia para o Brasil sem que nós estejamos no centro.”

A parlamentar também criticou iniciativas que buscam retirar direitos das mulheres, especialmente os direitos reprodutivos. “Basta de violência contra a mulher e por uma agenda propositiva, protagonizada, construída e dirigida pelas mulheres.”

Na capital mineira, Belo Horizonte, manifestantes também denunciaram a violência contra as mulheres. Cruzes foram colocadas em espaços públicos representando vítimas de feminicídio no estado, transformando a mobilização em um ato de denúncia e memória.

Em Porto Alegre, uma performance teatral marcou a marcha: manifestantes carregaram sapatos femininos manchados de vermelho, simbolizando mulheres assassinadas no estado, enquanto gritavam os nomes das vítimas.

Outras cidades, como Campinas (SP), Recife (PE), Salvador (BA), Belém (PA), Alagoas (AL), Florianópolis (SC), Natal (RN) e Cuiabá (MT) também registraram marchas e atos públicos, reunindo coletivos feministas, sindicatos e organizações sociais que pediram o fim da violência e mais igualdade de direitos. 

A luta das mulheres também ecoa no mundo

As mobilizações do 8 de Março não se limitaram ao Brasil. Em diversos países, multidões ocuparam as ruas com reivindicações semelhantes, denunciando violência de gênero, desigualdade salarial e o avanço de políticas conservadoras que ameaçam direitos das mulheres.

Na Espanha, marchas massivas tomaram cidades como Madri e Barcelona, onde manifestantes defenderam igualdade e protestaram contra a violência machista. Algumas manifestações também levantaram bandeiras contra guerras e conflitos internacionais.

A vice-presidente do governo espanhol, Yolanda Díaz, reforçou o caráter político das mobilizações: “Está em nossas mãos parar a guerra, parar a barbárie e conquistar direitos. Nós nos declaramos em defesa da paz, do povo iraniano e das mulheres iranianas.”

Na França, dezenas de milhares de pessoas participaram de marchas feministas. A ativista Gisèle Pelicot, que se tornou símbolo da luta contra a violência sexual após denunciar o próprio ex-marido e seus cúmplices, discursou diante da multidão. “Não renunciaremos a nada!”, afirmou Pelicot ao defender a continuidade da luta pelos direitos das mulheres. 

Feminismo nas ruas

No Brasil e no mundo, o 8 de Março reafirmou que a data vai muito além de homenagens simbólicas. Nas ruas, as manifestações transformaram o luto pelas vítimas da violência em mobilização política e em pressão por mudanças estruturais.

Entre as principais reivindicações presentes nos atos estiveram:

  • combate ao feminicídio e à violência de gênero;
  • igualdade salarial e de direitos;
  • redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1;
  • ampliação de políticas públicas de proteção às mulheres;
  • defesa da democracia e dos direitos sociais

A presença massiva de mulheres nas ruas reafirma que o 8M continua sendo, sobretudo, um dia de luta coletiva por direitos, igualdade e justiça.

Em defesa do feminismo emancipacionista e anticapitalista https://vermelho.org.br/coluna/em-defesa-do-feminismo-emancipacionista-e-anticapitalista/ 

Palavra de poeta

O vento na Ilha
Pablo Neruda      

O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como atravessa o mundo
para me levar até longe.

Esconde-me nos teus braços
só esta noite,
enquanto a chuva abre
contra o mar e a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
chama por mim a galope
para me levar até longe.
A tua testa na minha testa,
a tua boca na minha boca,
os nossos corpos presos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem me conseguir levar.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me procure
a galope na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
só por esta noite
descansarei, meu amor.

[Ilustração: Andrea Antonon]

Leia "O bolero e o mar", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_17.html 

08 março 2026

Arte é vida

 

Albena Vatcheva

Leia 'A festa', poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/palavra-de-poeta_20.html 

8 de Março: história

8 de Março: a verdadeira origem da data que celebra as mulheres
Depois da chegada dos bolcheviques ao poder, o dia internacional de luta das mulheres foi oficializado entre os soviéticos como o que deu início ao processo revolucionário. Em 1975, a data foi reconhecida também pela ONU.
Portal Vermelho 

Se você já participou de alguma conversa sobre o que originou o dia internacional de luta das mulheres, provavelmente já ouviu a história de que surgiu em homenagem a trabalhadoras estadunidenses que, em greve, foram trancadas dentro de uma fábri ca têxtil em chamas. 
Houve greve e houve incêndio, mas a versão – que às vezes remete a 1857, às vezes a 1908 – de que seria esse o embrião do 8 de março é falsa. O dia internacional foi proposto pela primeira vez em um evento que reuniu mul heres socialistas de todo o mundo em 1910, na Dinamarca. 

As origens que consolidaram o 8 de março, no entanto, não se explicam apenas com esse marco. Elas estão conectadas com uma série de eventos históricos relacionados à luta de mulheres da classe trabalhadora na Rússia, nos Estados Un idos e em países europeus no início do século 20. 

O incêndio na fábrica têxtil de Nova Iorque

Era sábado à tarde, 25 de março de 1911, quando a Triangle Shirtwaist Company, na esquina das ruas nova-iorquinas Greene e Washington Place, pegou fogo. Já fazia um ano que o dia internacional de luta das mulheres havia sido proposto, na capital dinama rquesa. De acordo com a socióloga Eva Blay no artigo “8 de março: conquistas e controvérsias”, a fábrica empregava 600 pessoas, em sua maioria mulheres imigrantes de 13 a 23 anos. 

Com algumas portas trancadas e um ambiente com tecidos e chão de madeira, facilitando a propagação do fogo, muitas pessoas não conseguiram escapar. O saldo foi de 125 mulheres e 21 homens mortos. “A comoção foi imensa. No dia 5 de a bril houve um grande funeral coletivo que se transformou numa demonstração trabalhadora. Apesar da chuva, cerca de 100 mil pessoas acompanharam o enterro”, narra Blay. Hoje, o local onde houve o incêndio é a Universidade de Nova Iorque. 

A greve e o “Dia da Mulher” nos EUA

Na ocasião do incêndio da Triangle Shirtwaist Company, que repercutiu de maneira a fortalecer sindicatos estadunidenses, as trabalhadoras não estavam em greve. Esse mito é, na realidade, a mistura de dois fatos que aconteceram pouco tempo antes. Em nove mbro de 1909 foi feita uma greve de trabalhadoras da indústria têxtil de Nova Iorque, que durou até fevereiro do ano seguinte e também ficou conhecida como “o levante das 20 mil”. 

Uma de suas lideranças, na época com 23 anos, foi a ativista ucraniana e judia Clara Lemlich. Ela participou da diretoria do histórico sindicato International Ladies Garment Workers (União Internacional de Mulheres da Indústria Têxtil), um dos maiores dos EUA e o primeiro do país composto somente por mulheres. 

No ano anterior, em fevereiro de 1908, mulheres socialistas dos Estados Unidos organizaram uma manifestação por melhores condições de trabalho e pelo direito ao voto. O ato foi chamado de “Dia da Mulher”. Em 1909 repetiram a passeata que, s egundo Blay, reuniu duas mil pessoas em Manhattan. Possivelmente essa experiência influenciaria a proposta de uma data internacional unificada entre as socialistas, que seria aprovada em 1910 na Dinamarca.  

O Congresso das Mulheres Socialistas em 1910

Foi em Copenhagen, durante o 2º Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, que se formalizou a ideia de um dia para a realização de atos em defesa dos direitos das mulheres em escala global. Figura central sempre atrelada à proposição do 8 de março é a marxista alemã Clara Zetkin. Dentro do movimento operário, Zetkin se dedicava à luta pelo que na época se chamava de “igualdade entre os sexos”. Daí o nome Igualdade com o qual foi batizada a revista por ela fundada e dirigida ao longo de 16 anos.

O documento que propôs o “Dia da mulher”, ratificado pelas congressistas em 1910, é assinado por Zetkin, mas também pela menos conhecida Käte Duncker. Ambas militavam juntas no Partido Comunista Alemão. “As mulheres socialistas de todas as nacionalidades devem organizar a cada ano um Dia da Mulher, que deve promover, acima de tudo, a agitação pelo sufrágio feminino”, propuseram Zetkin e Duncker. “O Dia da Mulher deve ter caráter internacional e ser preparado cuidadosamente”, escreveram.

A ideia foi aceita, mas ainda sem data definida.  De acordo com Ana Isabel González no livro As Origens e a Comemoração do Dia Internacional das Mulheres (editora Expressão Popular), o 8 de março aconteceu internacionalmente pela primeira vez em 1914, na Alemanha, na Suécia e na Rússia. 
O impulso da Revolução Russa

Mas foi em 1917, em meio a 1ª Guerra Mundial, que o dia de luta das mulheres tomou outras proporções. Em 8 de março daquele ano (23 de fevereiro no calendário Juliano, que vigorava na Rússia czarista), russas tecelãs e familiares de soldados do exército tomaram as ruas de Petrogrado (hoje São Petersburgo). 

A despeito do inverno congelante, marcharam por “pão e paz”, reivindicando o fim da guerra, denunciando a fome que assolava o país e convocando o operariado russo a derrubar a monarquia. Convocando mesmo: batendo nas fábricas de porta em porta.
A mobilização se alastrou. Depois da chegada dos bolcheviques ao poder, o dia internacional de luta das mulheres foi oficializado entre os soviéticos como o que deu início ao processo revolucionário. Em 1975, a data foi reconhecida também pela ONU. 

Hoje

Mais de um século depois, para alguns o 8 de março é, como publicidades insistem em veicular, um dia para dar uma flor, um presente ou dizer “parabéns” a uma mulher. As lutas antissistêmicas da data, no entanto, não são esquecidas. Ao contrário: em todo o planeta, elas são atualizadas de acordo com os (não menores) desafios destes tempos.

8 de Março, palavra da UBM https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/8-de-marco-palavra-da-ubm.html