A diplomacia mundial passa por Pequim
A sequência contínua de visitas de chefes de Estado à China retrata sua ascensão no cenário mundial, em contraste com o isolamento crescente dos EUA em razão de seu declínio
Editorial do 'Vermelho'
Uma recente onda de visitas à China mostra a rápida elevação de sua importância no cenário global. A mais recente foi a do presidente da Rússia, Vladimir Putin, nos dias 19 e 20 de maio, poucos dias depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter concluído sua viagem, nos dias 13 e 15.
Antes passaram pela China, entre outros, o presidente francês, Emmanuel Macron, que visitou o país em dezembro de 2025, seguido pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, em janeiro de 2026. Logo depois seria a vez do chanceler da Alemanha Friedchrich Merz. Também estiveram na China o presidente do Vietnã, Tô Lâm, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-myung, e líderes da Irlanda, Canadá, e Finlândia, entre outros.
Este fluxo de missões diplomáticas de alto nível a Pequim acontece há tempos e só aumenta. A pujança econômica, tecnológica e financeira da República Popular da China, associada à diretriz diplomática do “desenvolvimento compartilhado”, da defesa da paz, do direito internacional, do multilateralismo e da autodeterminação dos povos, são as razões de maior vulto pela transformando Pequim numa espécie de capital mundial da diplomacia e o locus imperativo às parcerias pelo desenvolvimento soberano.
Enquanto visitar Donald Trump na Casa Branca, em Washington, representa risco aos chefes de Estado de sofrerem achincalhes e chantagens, além de uma pauta regida pela imposição de relações imperialistas, de vantagem exclusiva aos Estados Unidos, apertar a mão do líder Chinês, Xi Jinping, no Grande Palácio do Povo, em Pequim, é a certeza de um tratamento respeitoso e a possibilidade de acordos que resultem em ganhos recíprocos.
Este contraste ficou patente, agora, quando, recentemente, Donald Trump e XI Jinping ficaram face a face. O primeiro estampa o rosto da potência em declínio, que recorre ao neofascismo, à guerra, ao saque das riquezas dos países para tentar reverter a decadência. O segundo, o líder equilibrado e assertivo, que defende os interesses de sua grande nação, mas aberto às demandas dos países com os quais pactua parcerias e acordos.
Para criar um paradigma das relações entre grandes potências, Xi Jinping falou em superação da Armadilha de Tucídides, conceito de relações internacionais sobre a tendência de conflito quando uma nação emergente pode suplantar uma superpotência dominante. Com essa formulação, a China busca um entendimento estratégico nas relações China-Estados Unidos, dentro de limites definidos para evitar ruptura sistêmica, o que requer um “novo posicionamento” nas relações bilaterais em prol da estabilidade e do desenvolvimento global.
O líder chinês traçou uma linha vermelha. Xi asseverou a Trump que um erro na condução da questão da soberania chinesa sobre Taiwan empurraria a relação sino-estadunidense para uma situação de “muitos perigos”. Enquanto Trump escancarou seu real tamanho, reduzido à condição pragmática de fechar negócios para os monopólios de seu país, o que retrata bem a perda de dinamismo da economia estadunidense.
Conforme descreve a Resolução Política do 16º Congresso do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o efeito estrutural desta dinâmica é o encolhimento da indústria nos Estados Unidos e a realocação da sua base industrial. “Em consequência, a sua produção industrial caiu de 20% da produção global, em 1980, para aproximadamente 17% em 2023, enquanto a China atingiu 30%. A participação do emprego na indústria representava, em 2024, apenas 8%, demonstrando, junto com os déficits comerciais crônicos, que em 2023 atingiu US$ 1,2 trilhão, fortes indicadores de desindustrialização.”
A ascensão de novos polos mais dinâmicos no sistema, com destaque para a China, prossegue a Resolução Política, “vem rompendo gradativamente o monopólio da tecnologia e da inovação, contestando o domínio dos Estados Unidos”. “Daí a importância estratégica de alianças que contribuam para romper a dependência tecnológica. Neste contexto, os Estados Unidos definiram a China como inimigo estratégico central e têm como objetivo neutralizar ou reverter sua aliança com a Rússia. E eles também têm o objetivo de refrear o poderio militar russo.”
A aliança da China com a Rússia foi um dos pontos das conversas de Xi Jinping e com o presidente russo, Vladimir Putin. As relações China-Rússia estão em seu melhor momento histórico, de acordo com o presidente russo, “indiscutivelmente um fator de dissuasão e estabilidade”. A visita de Putin se deu no 25º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amistosa, (conhecido como Tratado Sino-Russo), assinado em 16 de julho de 2001 e renovado recentemente, que estabelece o aprofundamento da coordenação geopolítica, diplomática e econômica entre os dois países.
Uma análise no jornal chinês Global Times informou que Vladimir Putin e Xi Jinping enviaram uma mensagem clara à comunidade internacional sobre o fortalecimento da estabilidade global e ressaltaram mais uma vez a ascensão do mundo multipolar moderno, que se tornou a nova norma nas relações internacionais. A China é compradora de recursos da Rússia – principalmente petróleo – e fornecedora de produtos e serviços. Ou seja: uma resposta às táticas dos Estados Unidos de conter ou reverter o seu declínio relativo com ameaças, como o uso do tarifaço conta a China, e a tentativa de isolar a Rússia.
O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, também falou de “buscar objetivos comuns, respeitando as diferenças”, ressaltando a importância de construir um relacionamento consistente, de longo prazo, abrangente e estratégico. Emmanuel Macron, por sua vez, disse que está “comprometido em trabalhar com a China e todos os nossos parceiros nesses grandes desafios”. “Estou convencido disso: juntos podemos fazer as mudanças”, afirmou.
Acossados pelas tarifas de Trump, pela corrosão da Aliança Atlântica, os países europeus são forçados a buscar alternativas de comércio e a China é a principal delas. Por sua vez, os países do Sul Global, no âmbito da veterana jornada pelo desenvolvimento autônomo, avançam em suas parcerias com a China, entre eles o Brasil.
Como conclui a Resolução Política do 16º Congresso do PCdoB, “a China lidera, pelo exemplo, um novo tipo de relações entre os países, em plano global, baseado na paz mundial e na cooperação multilateral para um futuro compartilhado da humanidade”. “Com parcerias e projetos de integração econômica e de infraestrutura, entre projetos nacionais soberanos, o protagonismo chinês avança ocupando o espaço deixado pela crise do capitalismo.”
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