30 maio 2026

Celso Pinto de Melo opina

A farmácia do mundo: como a Índia construiu poder industrial a partir da química
Além da experiência indiana, o artigo procura oferecer elementos para uma reflexão mais ampla sobre desenvolvimento industrial no séc. XXI
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN   

O preço do remédio e o preço da dependência

Este é o primeiro de dois artigos que examinam, em perspectiva comparada, a experiência internacional da indústria farmacêutica e suas implicações estratégicas para o Brasil.

No texto introdutório que antecede esta série [2], publicado em meu Substack sob o título ‘O remédio e a fábrica: o elo invisível do poder industrial‘, argumentei que medicamentos não são apenas produtos de saúde, mas também a expressão visível de uma infraestrutura produtiva, científica e tecnológica muito mais ampla. Este primeiro artigo aprofunda essa discussão examinando o caso da Índia, talvez o exemplo mais bem-sucedido de construção deliberada dessa infraestrutura no mundo em desenvolvimento.

No início dos anos 2000, o tratamento anual contra o HIV/AIDS podia ultrapassar US$ 10 mil por paciente. Em poucos anos, esse valor caiu para algumas centenas de dólares. A mudança não foi resultado de uma ruptura científica súbita, mas de uma transformação produtiva e política: a entrada de fabricantes indianos no mercado global de medicamentos genéricos. Empresas como a Cipla passaram a produzir versões equivalentes de fármacos existentes a custos drasticamente inferiores, alterando não apenas o preço, mas o próprio acesso a tratamentos em países de baixa e média renda [1].

O episódio tornou visível um fato mais profundo: a Índia havia se tornado, silenciosamente, um dos principais polos farmacêuticos do mundo. Hoje, responde por cerca de um quinto do volume global de medicamentos genéricos, com presença consolidada em mercados regulados e forte capacidade exportadora [2].

A pergunta que se impõe não é apenas como isso foi possível, mas também o que essa trajetória revela sobre a organização do poder industrial contemporâneo.

A decisão fundadora

O ponto de inflexão remonta a 1970, quando a Índia reformou profundamente a sua legislação de propriedade intelectual. A nova lei aboliu as patentes de produto para medicamentos, mantendo apenas as de processo. Essa decisão abriu espaço para que empresas locais reproduzissem moléculas existentes por rotas alternativas de síntese, inaugurando um ciclo de aprendizado tecnológico centrado na engenharia química [3].

Longe de ser uma simples flexibilização regulatória, tratava-se de uma política industrial explícita. Ao permitir a engenharia reversa, o Estado indiano criou as condições para que empresas domésticas desenvolvessem competências em química fina e em processos produtivos. O objetivo não era competir imediatamente na fronteira da inovação, e sim construir capacidade interna.

Esse movimento deve ser compreendido à luz do contexto histórico. Como observa Chaudhuri [3], muitos países hoje desenvolvidos se utilizaram de estratégias semelhantes em fases anteriores de industrialização. A diferença, no caso indiano, foi a escala e a persistência dessa política.

Aprender produzindo

A abertura regulatória só produziu resultados porque foi acompanhada por um processo sistemático de aprendizado produtivo. Empresas indianas passaram a dominar não apenas a formulação de medicamentos, mas também as etapas intermediárias e, progressivamente, a produção de insumos farmacêuticos ativos (IFAs). Esse domínio exigiu o desenvolvimento de competências em síntese química, engenharia de processos e controle de qualidade [4].

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, consolidou-se uma base industrial capaz de produzir em escala crescente. Esse processo foi reforçado por investimentos públicos em pesquisa aplicada e pela formação de uma massa crítica de engenheiros e químicos. Instituições científicas e empresas passaram a operar em relativa proximidade, ainda que sem a formalização de sistemas de inovação nos moldes contemporâneos.

O resultado foi a construção de uma capacidade produtiva que não dependia da inovação original de moléculas, mas do domínio do “como produzir”. Esse ponto é central: a Índia construiu sua indústria farmacêutica a partir do processo, não do produto.

Escala, qualidade e inserção internacional

A partir dos anos 1990, essa base produtiva foi progressivamente integrada ao mercado global. Empresas indianas investiram em certificações internacionais, adaptaram-se a padrões regulatórios exigentes e passaram a exportar para mercados como os Estados Unidos e a União Europeia. O país deixou de ser apenas um produtor para consumo interno e tornou-se um ator relevante nas cadeias globais de valor farmacêutico [5].

Esse movimento ocorreu em paralelo à consolidação de grandes empresas nacionais, como Dr. Reddy’s Laboratories e Sun Pharma, que ampliaram sua presença internacional. A escala produtiva, combinada a custos relativamente baixos e a uma capacidade tecnológica crescente, permitiu à Índia ocupar nichos estratégicos no mercado global.

A inserção internacional não foi, portanto, um ponto de partida, e sim o resultado de um processo acumulativo de aprendizado e expansão.

O confronto com as regras globais

A criação do acordo TRIPS Agreement, no âmbito da World Trade Organization, impôs novos limites à autonomia nacional. A partir de 1995, a Índia passou a ser pressionada a reintroduzir patentes de produto. Essa adaptação se tornou inevitável, mas ocorreu de forma gradual e estratégica [6].

Durante o período de transição, o país consolidou ainda mais sua base industrial. Quando reformou sua legislação em 2005, já dispunha de empresas competitivas e era uma presença global. Além disso, introduziu salvaguardas legais, como a restrição ao “evergreening” – prática pela qual empresas estendem artificialmente a vigência de patentes por meio de modificações incrementais sem ganho terapêutico relevante –, preservando espaço para a produção de genéricos.

Esse movimento revela um aspecto central da trajetória indiana: a capacidade de utilizar o tempo como recurso estratégico. A abertura inicial permitiu o aprendizado; a adaptação posterior consolidou a posição adquirida.

A Índia não foi um caso isolado. Em diferentes momentos históricos, países como Coreia do Sul, Taiwan e, posteriormente, China utilizaram períodos relativamente prolongados de aprendizado produtivo antes de aderirem plenamente a regimes mais rígidos de propriedade intelectual. Em maior ou menor grau, esses países recorreram à engenharia reversa, à adaptação tecnológica e à coordenação estatal como instrumentos de catching up industrial.

A Coreia do Sul, por exemplo, flexibilizou durante décadas a proteção patentária em setores estratégicos enquanto consolidava conglomerados industriais nacionais. A China, mesmo após sua entrada na Organização Mundial do Comércio em 2001, continuou utilizando mecanismos de transferência tecnológica, joint ventures e política industrial ativa para acelerar sua acumulação de capacidades produtivas.

O contraste brasileiro é significativo. Durante o processo de abertura econômica e reorganização institucional dos anos 1990 – particularmente ao longo da administração Fernando Henrique Cardoso – o Brasil aderiu relativamente cedo ao novo regime internacional de propriedade intelectual estabelecido pelo acordo TRIPS. A Lei de Propriedade Industrial de 1996 internalizou rapidamente grande parte dessas exigências, incluindo mecanismos como o chamado “pipeline patent”, que permitia o reconhecimento local de patentes previamente registradas no exterior.

Essa adesão ocorreu antes que o país houvesse consolidado uma base robusta de química fina, IFAs e empresas farmacêuticas capazes de competir internacionalmente em maior escala. Enquanto países asiáticos utilizaram o tempo para construir capacidade produtiva antes do endurecimento regulatório pleno, o Brasil passou a operar sob regras típicas de economias tecnologicamente centrais sem possuir estrutura industrial equivalente.

O debate permanece atual. Em 2026, entidades científicas, industriais e ligadas à saúde pública manifestaram preocupação com a Emenda nº 4 ao PL 2.210/2022, argumentando que mecanismos de extensão patentária poderiam ampliar custos para o SUS, retardar a entrada de genéricos e reduzir o espaço para inovação incremental por empresas nacionais. O episódio evidencia que a discussão sobre propriedade intelectual continua inseparável da questão do desenvolvimento produtivo.

A cadeia farmacêutica e o lugar do poder

A trajetória indiana só pode ser plenamente compreendida quando se observa a estrutura da cadeia farmacêutica global. A produção de medicamentos envolve múltiplas etapas, desde a síntese de intermediários químicos até a formulação final e a distribuição. Cada uma delas apresenta níveis distintos de complexidade tecnológica e de captura de valor.

A Fig. 1 ilustra essa cadeia e evidencia um ponto crucial: as etapas associadas à produção de insumos estratégicos e ao desenvolvimento tecnológico concentram maior valor agregado.   

O valor não se distribui de forma homogênea ao longo da cadeia: as etapas iniciais – intensivas em conhecimento químico e controle de processo – concentram maior poder tecnológico e capacidade de captura de renda. Já as etapas finais, embora essenciais, tendem a operar com menor margem e maior competição. A trajetória indiana consistiu precisamente em avançar “para trás” na cadeia, internalizando essas etapas críticas. Ao dominá-las, a Índia deslocou sua posição na cadeia, deixando de atuar apenas como formuladora para tornar-se produtora integrada.

Da produção à exportação: a virada internacional

A consolidação produtiva foi acompanhada por uma mudança igualmente relevante na inserção externa. Ao longo das últimas três décadas, a indústria farmacêutica passou a ocupar posição crescente na pauta exportadora indiana, não apenas em volume, mas também em capilaridade geográfica e diversificação de mercados.

Como mostra a Fig. 2, essa expansão não foi episódica, mas contínua: as exportações cresceram de forma sustentada, com avanço progressivo em mercados mais exigentes do ponto de vista regulatório, o que indica não apenas ganho de escala, mas também de qualidade e confiabilidade industrial.  

Esse movimento reforça a natureza estratégica da trajetória indiana: a indústria não apenas substituiu as importações, mas também se projetou internacionalmente.

Essa figura também revela a diversificação geográfica das exportações, com presença simultânea em países desenvolvidos e em mercados de renda média e baixa – uma combinação que amplia a resiliência e reduz as vulnerabilidades externas.

O contraste brasileiro

O contraste com o Brasil é revelador. O país dispõe de um sistema de saúde abrangente, instituições científicas relevantes e empresas farmacêuticas consolidadas. Ainda assim, permanece fortemente dependente da importação de IFAs e intermediários químicos [7].

A Fig. 3 mostra a concentração dessas importações, evidenciando a dependência de poucos países fornecedores.  


Como a figura revela, uma parcela significativa dos IFAs utilizados no Brasil provém de um número reduzido de países, especialmente na Ásia, o que cria vulnerabilidades tanto econômicas quanto geopolíticas. Choques externos – sanitários, logísticos ou políticos – podem, assim, comprometer diretamente o abastecimento interno. 

Já a comparação estrutural apresentada na Fig. 4 evidencia diferenças fundamentais entre as trajetórias indiana e brasileira, particularmente no que se refere ao domínio da base produtiva e à inserção internacional.   

Essa figura sintetiza dois modelos distintos: de um lado, a Índia, que internalizou etapas críticas da cadeia e construiu capacidade exportadora; de outro, o Brasil, cuja atuação permanece concentrada nas etapas finais, com elevada dependência de insumos importados. Trata-se menos de uma diferença de recursos e mais de estratégia industrial ao longo do tempo.

Essa diferença decorre menos da presença de ativos isolados e mais da forma como cada país organizou sua trajetória produtiva ao longo do tempo. Enquanto a Índia priorizou o domínio do processo e a construção de escala, o Brasil consolidou-se principalmente na etapa final da cadeia, na qual a dependência externa permanece elevada.

O processo como estratégia: a lição central

A Índia não se tornou a farmácia do mundo por acaso. Tornou-se porque decidiu, por décadas, dominar aquilo que a maioria dos países terceirizou: o processo produtivo.

O Brasil seguiu outro caminho, marcado por uma abertura regulatória relativamente precoce e pela ausência de uma estratégia prolongada de acumulação produtiva em setores farmacêuticos críticos.

Compreender essa trajetória não significa replicá-la mecanicamente. Significa reconhecer que, na economia contemporânea, o poder industrial não reside apenas na descoberta, mas na capacidade de produzir, escalar e integrar cadeias produtivas.

Em outras palavras: a Índia compreendeu que o verdadeiro poder não estava apenas no medicamento, mas no elo invisível que conecta ciência, química, engenharia, produção e escala industrial.

Foi esse elo invisível que a Índia aprendeu a dominar. Mas compreender a trajetória indiana é apenas metade da questão. A questão que permanece aberta é saber se o Brasil será capaz de construir algo semelhante: o país já dispõe de universidades, institutos públicos, empresas farmacêuticas, sistema de saúde e capacidade científica suficientes para iniciar um caminho semelhante?

No próximo artigo veremos que o principal problema brasileiro talvez não seja a ausência de capacidades, mas a dificuldade de conectá-las em um projeto nacional de longo prazo.

Bibliografia

1.    ‘t Hoen, E.F.M., The Global Politics of Pharmaceutical Monopoly Power. 2Diemen: AMB Publishers, 2009. ISBN: 9789070143025.
2.    Indian Brand Equity Foundation, Indian Pharmaceuticals Industry Report. New Delhi: IBEF, 2023.  https://www.ibef.org/industry/pharmaceutical-india.aspx.
3.    Chaudhuri, S., The WTO and India’s Pharmaceuticals Industry: Patent Protection, TRIPS, and Developing Countries. 2005: Oxford University Press. ISBN: 9780195665034.
4.    Kale, D., From imitation to innovation: the evolution of R&D capabilities in the Indian pharmaceutical industry. Technology Analysis & Strategic Management, 2010. 22(5): p. 589–609. https://doi.org/10.1080/09537320903498477.
5.    Kaplan, W. e R. Laing, Local production of pharmaceuticals: industrial policy and access to medicines. 2005, World Bank. https://documents.worldbank.org.
6.    Correa, C.M., Intellectual Property Rights, the WTO and Developing Countries: The TRIPS Agreement and Policy Options. 2000: Zed Books. ISBN: 9781856495847.
7.    Gadelha, C.A.G., L.S. Costa e J. Maldonado, O Complexo Econômico-Industrial da Saúde e a necessidade de um enfoque dinâmico na economia da saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 2012. 17(10): p. 2537–2547. https://doi.org/10.1590/S1413-81232012001000004.
8.    World Health Organization, Global Report on Access to Medicines. 2020, WHO: Geneva. https://www.who.int/publications
9.    United Nations Conference on Trade and Development, Trade and Development Report 2021. 2021, UNCTAD: Geneva. https://unctad.org.
10.  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Relatórios sobre insumos farmacêuticos e cadeias produtivas. 2023, Governo do Brasil: Brasília. https://www.gov.br/anvisa.
11.  Pharmaceuticals Export Promotion Council of India, Annual Report 2022-2023. 2023, Government of India: Hyderabad. https://pharmexcil.com.
12.  Government of India, Export Data Portal. 2023, Ministry of Commerce and Industry: New Delhi. https://commerce.gov.in.
13.  Iqvia, The Global Use of Medicines 2023. 2023, IQVIA Institute: Durham.
https://www.iqvia.com.
14.  Organisation for Economic, Cooperation and Development, Pharmaceutical Market Trends and Global Value Chains. 2023, OECD: Paris. https://www.oecd.org.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Luciana Santos: Tecnologia e inovação na prevenção de desastres climáticos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/luciana-santos-opina.html

Postei nas redes

Pesquisa da revista The Economist indica que há 90% de chance de Trump perder a Câmara em novembro. Pesquisas no Brasil revelam tendência de derrota de Flávio Bolsonaro. Dias atrás protagonizaram um brevíssimo "encontro de derrotados". Que assim seja.

Angu de caroço https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Uma crônica de Abraham Sicsu

Soy Latino-Americano: a arte e a identidade
Abraham B. Sicsu 

Deixo claro, não sou entendido em arte e nem posso me arvorar de conhecedor de suas escolas ou concepções. Apenas gosto de apreciar e sempre que é possível vou ver exposições e admirar o belo.

Estando em São Paulo, sempre reservo uma tarde para ver o que acontece no Itaú Cultural, na Casa Japonesa, no Instituto Coreano, no Moreira Sales e, evidentemente, no MASP, com seu novo edifício.

Nele, encontro dois andares de um artista peruano. Santiago Yahuarcani, indígena do povo Uitolo que vive na região amazônica. Sua obra me impressiona. Ver o mundo na ótica dos habitantes originais da região, o sentir as perseguições que atingiram sua própria família. Sua pintura traz os mitos, a sobrevivência na região, o ciclo da borracha e sua opressão, o respeito pela natureza e seus seres enigmáticos.

Obras grandes e de um colorido que cativa. Os felinos e as matas. Tudo usando materiais do local. As pinturas feitas sobre llamchamas, telas feitas de cascas de árvores trançadas, dando um caráter ambiental muito peculiar.

A exposição se chama “O princípio do conhecimento”, interessante notar que é uma das obras em que folhas de coca passam a ter formas humanas como mãos e boca, onde saem folhas de tabaco. Os mitos presentes, o Deus Buinaima, aquele que traz a sabedoria para o povo Uitolo.

Enfim, o respeito pela natureza, pelos rios, pela floresta e pelos seres humanos, numa coexistência de harmonia. Fiquei maravilhado.

No Rio não posso deixar de ir ao MAR, ao MAM, ao CCBB e ao Paço Imperial. Sempre me trazem boas surpresas. Neste ano, o Museu de Arte Moderna apresentou algo que me fez ter orgulho de nossa brasilidade. A exposição de Rubem Valentim.

Na minha ignorância intelectual, desconhecia sua obra e seu legado. Algo imperdoável.

Rubem Valentim, na arte brasileira do século XX, revelou nossa cultura para o mundo. É considerado um mestre do concretismo.  Nasceu em Salvador no ano da Semana de Arte Moderna, 1922, e integrou o Movimento de Renovação das Artes Plásticas na Bahia junto, por exemplo, de Mário Cravo Júnior. Sua obra incorpora todo o sincretismo religioso afro brasileiro através do uso de símbolos e emblemas associados aos Orixás. As religiões de base africanas, usando figuras geométricas, são a base do seu legado artístico. Ao longo de quase cinco décadas trouxe obras em que o indígena e o negro, além de símbolos orientais, vão marcando a evolução  de sua concepção de mundo, do representar de quem somos.

A exposição percorre seu caminho de vida, em cinco ambientes que nos mostram o seu pensar. Partindo de sua origem Salvador, passando pelo Rio, Roma e Brasília, até chegar a São Paulo, onde falece em 1991.

Fiquei impressionado com a evolução das cores. Partindo de tons fortes e representativos dos Orixás, como o vermelho ou amarelo, vai aperfeiçoando, abandonando telas, centrando em entalhes de madeira, entre outras evoluções, até chegar ao branco deslumbrante de seu “Templo de Oxalá”. Nele tudo se incorpora e não é necessário mais cores, mas sim luz, luz que ressalta formas, luz que traz ao centro seus símbolos, suas imagens representativas do mundo sincrético que o orientou. Fiquei deslumbrado.

Ainda no Rio, fui ao Paço Imperial, ver uma exposição de Marcelo Silveira, artista pernambucano, que bem conheço e admiro. A exposição se chama “O que sustenta”.

Marcelo que expõe em espaços aberto, Marcelo das grandes obras, do valorizar das nossas madeiras, do juntar de memórias em quadros sistemáticos, optou por uma concepção diferente.

Um porão em que madeiras retorcidas livres para o mexer ao vento, tem sob sua estrutura novelos de linho,  com um som ao longe dizendo que está “Tudo Certo”.  Será?

E explicação oficial é rebuscada e não saberia aqui fazê-la. Mas, vale dar a minha interpretação.

O ambiente do porão, quase uma antiga senzala, com uma estrutura de madeira solta acima do solo, deu-me a impressão das nossas cidades, do sufocamento das metrópoles, da falta de ar em ambiente fechado que impossibilita movê-la. Os novelos de linho amontoados ao chão como gente que se aglomera na busca de um raio de luz, num centro em que não há privacidade. Lembrem que estava no centro do Rio. 

Não sei se foi delírio ou loucura, sei lá, mas dei significado para mim e gostei. Uma visão das metrópoles em nossa latinidade.

A mente viaja, o sentimento surge, a latinidade se reforça.

“Soy loco por ti, América “...
Loco por ti de amores”

[Ilustração: Santiago Yahuarcani]

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

Banksy deixou de ser um mistério no mundo das artes de rua? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/enio-lins-opina_24.html

Arte é vida

 

Gilberto Salvador

As voltas que o mundo dá https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 



Futebol: nuances

As histórias se repetem: Palmeiras e Flamengo na disputa do título
Na seleção também há repetição: Neymar novamente machucado, A recente ausência dos gramados pode atrapalhar a recuperação do santista
Tostão/Folha de S. Paulo   

De vez em quando alguém me pergunta por que eu não estou presente em eventos relacionados ao Cruzeiro, à CBF, à Fifa e a outras organizações. Além de gostar de meu canto e de tentar separar o público do privado, preciso, como colunista, manter uma distância para ter total liberdade e independência para criticar e elogiar.

As histórias se repetem no Brasileirão. Palmeiras e Flamengo, novamente, vão disputar o título. Na derrota do Flamengo para o Palmeiras, por 3 x 0, o primeiro gol aconteceu logo após a expulsão de Carrascal. O Flamengo, perdendo o jogo, teria de tentar o gol, ainda mais em casa, empurrado pela torcida. Nessas situações, é frequente a equipe com um jogador a menos sofrer mais gols por deixar muitos espaços na defesa. Mesmo assim, o técnico Leonardo Jardim foi duramente criticado. Por muito pouco, os treinadores se transformam de heróis em vilões pelas redes sociais e pelos gênios das estratégias.

Por que o Bahia, com frequência, não consegue marcar vários gols sem sofrer tantos? Contra o Coritiba fez 2 e sofreu 3. Seria por causa de deficiências táticas? Penso que o elenco é modesto para o time atacar e defender bem. Deveria se inspirar no modelo do equilibrado Arsenal, campeão inglês, em vez de seguir o do ousado Manchester City, clube do grupo do qual o Bahia faz parte.

Na seleção, as histórias também se repetem. Neymar está novamente machucado, com problema na panturrilha, o que reforça a opinião de que ele não deveria ter sido convocado. Ele se apresenta nesta quarta (27) junto com os outros jogadores e, mesmo se estiver em condições de treinar, os últimos dez dias de ausência dos gramados podem atrapalhar sua recuperação técnica e física. Existe também a possibilidade de Neymar continuar fora dos treinamentos ou mesmo de ser cortado.

Na época da apresentação da seleção para a Copa de 1970, eu tinha ficado seis meses sem participar de qualquer atividade física por causa da cirurgia após o descolamento da retina. Dias antes, fui aos EUA para fazer uma revisão e fui liberado pelo médico para treinar, porém separado do grupo. Carlos Alberto Parreira, que era na época auxiliar da preparação física, foi meu instrutor por cerca de 45 dias.

Na época, a moda no Brasil e no mundo era o teste de Cooper, que media quantos metros um atleta corria em 12 minutos. Logo que passei a treinar com o grupo, fiz o teste e fiquei na última colocação. A imprensa foi atrás do técnico, João Saldanha, para saber das minhas condições físicas. Ele disse: "Tostão foi o último no teste, mas já está escalado". Parecia até que eu era um supercraque, imprescindível. Não sei se Saldanha gostava mais das minhas características técnicas ou da minha pessoa, pois batíamos bons papos sobre futebol, política e outros assuntos.

Eu ainda não entendi por que Saldanha foi convidado para ser técnico da seleção, pois era um ativo participante do Partido Comunista Brasileiro no tempo da nefasta ditadura. Dizem que antes de ser demitido houve uma reunião em Brasília entre os dirigentes da CBD e o ditador Médici. Havia um sussurro entre os jogadores de que Saldanha sairia. Ficamos tristes, chateados, mas, como dizia o próprio Saldanha, "vida que segue". Entrou Zagallo e o Brasil foi campeão.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

Roda vida, roda pião https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Sylvio: "patéticos"

Ao ver nos jornais a foto dos irmãos Bolsonaro junto com Paulo Figueiredo, ladeando Trump, não  sei porque lembrei-me de um filme que me fazia rir muito na minha infância: Os três Patetas.

Sylvio Belém 

Retratos da vida https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

29 maio 2026

Palavra de poeta

Desalento

Vinícius de Moraes     


Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu chorei
Que eu morri
De arrependimento
Que o meu desalento
Já não tem mais fim
Vai e diz
Diz assim
Como sou
Infeliz
No meu descaminho
Diz que estou sozinho
E sem saber de mim

Diz que eu estive por pouco
Diz a ela que estou louco
Pra perdoar
Que seja lá como for
Por amor
Por favor
É pra ela voltar

Sim, vai e diz
Diz assim
Que eu rodei
Que eu bebi
Que eu caí
Que eu não sei
Que eu só sei
Que cansei, enfim
Dos meus desencontros
Corre e diz a ela
Que eu entrego os pontos

[Ilustração: Simon Taylor]

Leia também: O homem só https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minhaopiniao_64.html