30 março 2026

Misoginia & negócios digitais

Machosfera e ódio às mulheres como modelo de negócio
Influenciadores do ódio faturam milhões e prometem vida endinheirada aos seguidores
Nina Lemos/Liberta   

Quem quer ser um milionário? “Aprenda a fazer seu primeiro milhão”. Esse tipo de promessa é atraente desde que o capitalismo é capitalismo e já seduziu muita gente para golpes e promessas vazias.

Mas, agora, o buraco está mais embaixo. Silvio Santos, que perguntava “Quem quer dinheiro?”, parece até inocente.

Alguns homens, principalmente os jovens, têm um novo plano de riqueza: seguir os passos de  influenciadores da chamada “machosfera” (ambiente virtual que reúne red pills e outras variedades de misóginos) e, assim, alcançar dinheiro, fama e, por consequência, mulheres. Para esses influenciadores, é assim que funciona, já que “mulheres só querem saber de dinheiro”.

Para quem os segue, eles vendem a possibilidade de alcançar uma vida  parecida com a deles: cheias de luxo, carros esportivos, mulheres bonitas, propriedades em Miami e Dubai.

Não é novidade para quem se debruça sobre o tema que odiar as mulheres é hoje um negócio lucrativo. Os influenciadores do ódio faturam milhões. O que muitas vezes passa batido é que eles prometem a mesma vida endinheirada para seus seguidores. Uma fórmula que pode parecer irresistível para muitos homens insatisfeitos.

Se você quer sentir o quanto o dinheiro é farto e importante na cena red pill, vale assistir ao documentário Por Dentro da Machosfera, disponível no Netflix. Ali, fica claro como a promessa de uma vida de riqueza e ostentação pode ser uma porta de entrada para meninos nesse mundo perigoso (principalmente para as mulheres, vítimas).

Com esses influenciadores, jovens aprendem que odiar mulheres é um negócio lucrativo. Tudo funciona por exemplos e modelos, sabemos.

Se você tiver estômago para ouvir os principais podcasts red pills do Brasil, como o Red Cast, vai ver que boa parte da conversa ali é sobre relógios caros, carros importados, apartamentos de 200 metros quadrados e outros bens de luxo que eles dizem, com orgulho, possuir. O resto do tempo é usado para exaltar homens como Donald Trump, subjugar mulheres e falar “assuntos de homem”. Se eles estão ricos e falam disso com tanta naturalidade, seus seguidores acham que também podem ficar.

O ódio a mulheres é um modelo de negócios. Como resultado, temos essa tragédia que vemos todos os dias. Um dia, um grupo de um colégio progressista de São Paulo troca mensagens com a lista das meninas “mais estupráveis”. No outro, um policial é acusado de feminicídio e, nas mensagens que trocava com a mulher, a polícia encontra recados onde o homem, o tenente-coronel Geraldo Neto, se denominava um “macho alfa” e dizia que a mulher precisava se comportar como uma “mulher beta”, um discurso totalmente alinhado com o dos red pills.

É claro que a cultura difundida pela machosfera não é a única culpada pelo momento trágico que vivemos. Mas faz parte do caldo. Vamos lembrar também que homens com perfil red pill, como Trump, foram eleitos e governam os países mais poderosos do mundo. O presidente dos EUA é um exemplo clássico de um homem da machosfera. Vende a imagem do “self made man”, do que desafia o “sistema” (seja lá o que seja isso) e é abertamente misógino.  O ódio a mulheres, veja só, ajuda a ganhar dinheiro e eleições.

E a raiva das mulheres?

E nós mulheres? Como ficamos? A gente fica com raiva, claro, já que somos vítimas dessa guerra. Só que a nossa raiva não é lucrativa. Pelo contrário. Mulheres com raiva são vistas como “mal comidas”, mal amadas e por aí vai. A única raiva que somos autorizadas a sentir é a raiva de nós mesmas, aquela que nos leva a nos submetermos a regimes de fome e a ficarmos caladas por acharmos que “não somos capazes”.

Quando nossa raiva é do mundo e do atual estado péssimo das coisas, ela não é bem vista.

Mesmo sendo vítimas da guerra atual (em 2025, 1568 mulheres morreram assassinadas por feminicídio no Brasil, o maior número em dez anos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública), temos que mostrar a nossa indignação com suavidade. Se não, estamos “afastando os homens da conversa” (ou seja, continuamos sendo obrigadas a agradá-los). A gente é vítima do ódio (literalmente, muitas de nós morrem), mas, quando manifestamos nossa revolta, não somos bem vistas.

A nossa raiva não monetiza. Como jornalista, já ouvi mais de uma vez que nós, que cobrimos pautas “femininas”, estávamos “sempre com muita raiva” ou “sempre gritando”. A raiva feminina, pelo que entendi em muitos anos, afasta anunciantes e público. Será mesmo? Ou será que essa é mais uma desculpa para nos manter obedientes?

Conselho para as mulheres: continuem com raiva. Como diria uma antiga música punk: a raiva é uma energia.

[Foto: Marcelo Camargo/Liberta]

Violência contra as mulheres é estrutural https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/violencia-sexista_19.htm

Globo na lama

A operação Salva-Andréia Sadi da Globo
Não é mais possível encontrar o vídeo original. Na Globonews anunciam que foi editado para tirar o PowerPoint.
Luís Nassif/Jornal GGN  

A Globo montou uma enorme operação salvamento de sua âncora, Andréia Sadi, no episódio do Powerpoint.

Anunciou a demissão de duas produtoras de arte e mudanças no modelo de edição, passando a submeter o controle da arte aos âncoras.

É uma tentativa canhestra de salvar a responsável, Andréia Sadi, como se tivesse sido surpreendida pelo Powerpoint.

Não é mais possível encontrar o vídeo original. Na Globonews anunciam que foi editado para tirar o PowerPoint.

Mas vamos a uma descrição precisa de como foi o vídeo original, segundo o jornalista Moisés Mendes:

“Andréia anunciou que iria apresentar num telão “personagens que de uma forma ou de outra apareceram nessa teia do Caso Master e com ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro”

Lula, com o retrato no alto da teia, foi a primeira ‘aranha’ citada por causa, segundo a jornalista, da reunião de dezembro de 2024 com Vorcaro, que teve como testemunhas Gabriel Galípolo (antes de assumir o Banco Central) e os ministros Rui Costa, da Casa Civil, e Alexandre Silveira, de Minas e Energia.

Andréia vai olhando os retratos no quadro e citando, na sequência, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Alexandre de Moraes, a mulher de Moraes (que não aparecia), Ciro Nogueira, Antonio Rueda, Nikolas Ferreira, João Doria, Ricardo Lewandowski.

O cientista político Traumann pergunta: por que o Galípolo? Andréia pede que o colega espere um pouco, porque ela vai falar do PT da Bahia (há uma estrela do PT no quadro), ”só pra fechar” o raciocínio, e fala do senador baiano Jaques Wagner.

Depois de fechar, explica então que Galípolo está no powerpoint porque participou da reunião de Lula com Vorcaro. E ficou por isso mesmo. O título do painel que imita uma colagem é “Conexões de Daniel Vorcaro”. O Galípolo tinha conexões. Lula já estaria conectado.

Valdo disse que aquilo era “só um aperitivo”, porque mais gente iria aparecer, como se tentasse explicar por que outros não apareciam. Perguntou: “Dias Toffoli apareceu na arte?” Estava vendo que não.

Dapieve observou que a arte “não significa envolvimento, mas conhecimento”. Não ajudou muito. E ressaltou que o mais envolvido seria mesmo Dias Toffoli. 

Andréia falou de dois diretores do Banco Central, sem dar seus nomes (são Beline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza) e disse que ambos “jogaram o Banco Central no meio dessa crise”. Os diretores afastados dos cargos por Galípolo não apareciam no quadro.

O constrangimento se espraiou. Valdo disse que os diretores estão sob investigação. Mas ninguém lembrou que o chefe deles era Roberto Campos Netto e que os dois trabalhavam para Vorcaro dentro do BC, em salas ao lado do gabinete de Campos Neto.

Traumann observou que ACM Neto recebeu dinheiro de Vorcaro. Mas ninguém falou de Bolsonaro e de Tarcísio, que também receberam doações de campanha, ou do governador Ibaneis Rocha, que armou a tramoia da compra do Master pelo Banco de Brasília.

A conversa durou 14 minutos, mas era tão sem força, tão sem convicção, que Andréia a interrompeu de repente e pediu o intervalo, como se tentasse puxar ar e evitar a perda de controle da situação”.

Ou seja, não só sabia do conteúdo, como o endossou durante toda a reportagem.

Não é o primeiro sinal de manipulação da jornalista. Quando Lula estava em São Bernardo, preparando-se para ser preso, ela anunciou que Lula resistiria. Era o sinal para que a Polícia Federal invadisse o local, com consequências imprevisíveis.

Imediatamente o advogado Marco Aurélio ligou para ela e pediu para retificar a informação. Não foi atendido. Aí ligou para Natuza Nery que imediatamente deu a informação, impedindo a tragédia.

Leia também: Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama-2.html 

Globo na lama 2

Powerpoint da Globonews reabre as feridas de manipulação da mídia
Inédito pedido de desculpas acende as luzes nos porões das Organizações Globo
Luís Costa Pinto/Liberta 

No dia 5 de janeiro de 2023, antes mesmo que a primeira semana do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva se encerrasse com a vitória sobre o golpe de Estado dado e vencido em 8 de janeiro daquele ano, a primeira-dama Rosângela da Silva surgiu nas telas da Globo – da GloboNews, em reportagem depois reproduzida no Jornal Nacional – conduzindo a jornalista Natuza Nery pelos corredores, salas e salões do Palácio da Alvorada. Bem produzida num tailleur branco, Janja passeava pela área interna do Palácio revelando o descuido e os maus tratos do casal Bolsonaro, Jair e Michele, com a residência oficial dos presidentes da República.

O Alvorada é uma joia da arquitetura modernista. Seus vãos, os espaços vazios sustentados em beijos de concreto dados pelas colunas icônicas na laje do patamar inferior, são obras-primas que Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo (calculista sem o qual não existiria o genial arquiteto) legaram à humanidade.

Pérfidos, desumanos e toscos, Jair Bolsonaro e Michele conspurcaram aquele espaço de poder no trágico período em que o ocuparam. O descuido do clã Bolsonaro com o Palácio da Alvorada era notícia, sem dúvidas. O país vivia a lua-de-mel com o presidente que retornava ao centro das decisões nacionais, depois de tê-lo ocupado por oito anos, entre 2003 e 2010, e ter deixado o Alvorada para a sucessora surfando em índices de aprovação jamais vistos ou reproduzidos. Lambiam os patamares 90% de ótimo e bom.

A gênese do erro

Denunciar de forma exclusiva pelo microfone da Globo, nas telas do JN e da GloboNews, a incúria do ex-presidente e da ex-primeira-dama com o patrimônio arquitetônico nacional foi a janela de oportunidade usada por Rosângela Silva e pela equipe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República à época (comandada pelo ex-ministro Paulo Pimenta) para tentar quebrar a tensão e a desconfiança mútua, sempre presentes entre a Rede Globo, as direções de seus veículos e o Partido dos Trabalhadores de forma genérica – o presidente Lula, em particular.

Foi um erro. E aquele erro, fruto do deslumbramento pueril de quem acabava de ascender a um lugar de poder jamais imaginado, marca até hoje a relação do governo atual com o conjunto da mídia (inclusive a autoproclamada “mídia digital independente”) e com as Organizações Globo, em especial. Então ministro da Secom, o deputado Paulo Pimenta se viu duramente cobrado por aquela entrevista.

Jornalistas independentes, veículos e personalidades jornalísticas, que haviam assumido as trincheiras e a linha de frente do combate ao golpe sem crime de responsabilidade perpetrado na deposição de Dilma Roussef e na resistência à escalada de boçalidade e de incivilidades que conduziram a nação à Era Trágica do bolsonarismo, até mesmo petistas com histórico mais robusto de militância partidária protestaram contra a ingenuidade – para dizer o mínimo – da entrevista exclusiva iniciática dada à Globo.

Depois do deslumbramento da primeira-dama e da ingenuidade da Secom como um todo, sobreveio a arrogância atávica de petistas como Pimenta, que haviam cumprido uma dura trajetória de lutas políticas até poder sentir a glória de sentar o traseiro numa cadeira ministerial no terceiro mandato de Lula: respondeu às reclamações dando azo aos maus bofes e dizendo que ninguém governava uma primeira-dama, “muito menos a Janja”, e que seria assim porque eles é que tinham vencido as batalhas tensas da campanha eleitoral; e eles é que estavam no comando da estratégia vitoriosa. Erro atrás de erro.

Trio de ouro

Em 2003, logo quando assumiu o governo sucedendo a Fernando Henrique Cardoso e no bojo de uma caminhada de redenção democrática em que grupos políticos divergentes (mas não ferrenhamente inimigos) se sucediam no poder, o presidente Lula colocou no comando de sua articulação com a mídia três dos mais respeitados e valorosos jornalistas brasileiros – Ricardo Kotscho, secretário de imprensa; André Singer, porta-voz; e Eugênio Bucci, presidente da extinta Radiobrás (hoje EBC).

Dialogando horizontalmente com todos eles, mas posto acima do trio de ouro do jornalismo no organograma vertical do Palácio do Planalto, estava o então ministro-chefe da Secom, o ex-deputado Luiz Gushiken. “É para dar certo, mas dará muito errado”, perpetrou Kotscho, com a antevisão das águias experientes, ao escutar uma saudação elogiosa à composição da equipe de comunicação do Planalto, ainda na primeira semana do primeiro mandato de Lula. “Dará muito errado porque os donos das empresas têm ranço com o PT e com o Lula, e porque os petistas não sabem se relacionar com jornalistas… Acham que todo mundo é igual, que ninguém tem independência intelectual e que todo mundo é porta-voz de patrão”, completou um dos mais perspicazes e bem aparelhados repórteres da imprensa brasileira ainda em atividade.

Nas últimas semanas, esse histórico de confrontos, conflitos e deslindar de recalques sintetizou-se no já clássico e mal afamado “PowerPoint do Master”, levado ao ar no programa “Estúdio i”, da GloboNews, na tarde da sexta-feira (20/3). Nele, fez-se uma associação descabida e até mesmo criminosa – crime de lesa-informação – entre o presidente Lula e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e as fraudes financeiras e os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional cometidos pelo Banco Master, pelo seu ex-controlador, Daniel Vorcaro, e pelos sócios dele.

Foram colocadas fotografias de Lula e de Galípolo ao lado da efígie do ex-banqueiro Vorcaro e se deixou de colocar na peça pictórica ficcional da Globo a foto do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ligado às Organizações Globo pelos laços fúcsia do Nubank e gestor omisso da autoridade monetária nacional quando o Master produziu sua cadeia de ilegalidades e fraudes em série. Também não havia foto do cunhado e sócio de Vorcaro, além de gestor do núcleo de manipulação de informações e de encomenda de coças em jornalistas, Fabiano Zettel. O pastor Zettel, da igreja evangélica Lagoinha, atravessa o samba de todas as fraudes investigadas pelo BC, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Entretanto, não estava na arte derrogatória da Globo.

O rápido revés do jornalismo da GloboNews

O PowerPoint nefasto, levado ao ar num set onde estavam a apresentadora Andreia Sadi, editora do Estúdio i, e os jornalistas Valdo Cruz e Arthur Dapieve, não foi contestado nem rechaçado pelos profissionais no ar. Foi normalizado. Virou um escândalo instantâneo.

Emparedada por uma forte onda de protestos desencadeados nas redes sociais – quase 90% dos comentários no ecossistema da internet brasileira eram de repúdio ao crime de lesa-informação perpetrado pela Globo –, a emissora recuou e produziu um pedido de desculpas inédito no mesmo programa, “Estúdio i”, na 2ª feira 23/3. Além das desculpas, ocorreram três demissões na área de produção e de edição da GloboNews. Mal feito, catastroficamente planejado, sem um mínimo de checagem factual, a ilustração esquemática televisiva foi produto de uma cadeia de irresponsabilidades só possível quando, numa empresa jornalística, subordinados acham que não têm de velar pela verdade, porque esposam e acompanham as opiniões de seus chefes.

O pedido de desculpas foi inédito pela velocidade com a qual se deu. Afinal, a Rede Globo demorou 50 anos para admitir que apoiou a ditadura militar iniciada em 1964 e que aquilo havia sido um erro histórico. Levou 30 anos para admitir, mais de uma vez, que houve manipulação na edição do último debate presidencial de 1989, entre Lula e Fernando Collor, e que o relato televisivo do embate levado ao ar no Jornal Nacional, no dia seguinte, favorecia Collor e influenciou o resultado eleitoral. No caso do “ppt do Master”, o reconhecimento do erro chegou com menos de 72 horas e ainda se promoveu a retirada do vídeo do ar. Foi um avanço. Mas, não nos permite esquecer o gap de verdades que há nesse relacionamento.

O comando do Partido dos Trabalhadores e o núcleo de governo mais próximo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabia, desde a sagração da dura vitória eleitoral de 2022, que não havia margem para que ingenuidades fossem cometidas na relação deles com a mídia em geral – e com a Globo, em particular – nesse terceiro mandato.

O histórico de traições de confiança, de falsos equilíbrios de cobertura, de ranhetices recalcitrantes promovidas ao longo dos governos anteriores do próprio Lula e de Dilma Rousseff, não tinha espaço para deslumbramentos encantados e pueris de qualquer um que se imaginasse capaz de conter a natureza pérfida do comando das Organizações Globo no exercício do poder. Por arrogância, por arrivismo político, muitos auxiliares do presidente e mesmo a primeira-dama, Janja, ignoraram os avisos de prudência nos contatos com a Globo e de recomendável desconfiança ao serem postos a escutar cantos de sereias de improváveis mudanças de comportamento.

A dureza da reação do PT, da esquerda em geral, do governo e do lado iluminado da Força jornalística, que atuam na cena política contemporânea, e a rapidez do pedido de desculpas das Organizações Globo, além da inédita admissão de fragilidade da casca de “profissionalismo” da emissora, trazem um legado mais útil e simbólico à conjuntura política brasileira do que os quase 40 anos de relação conflituosa da empresa da família Marinho com amplo espectro da sociedade brasileira. As luzes foram acesas nos porões da Globo, enfim.

A operação Salva-Andréia Sadi da Globo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/globo-na-lama.html

Fotografia

Cris Batler

A repórter que desnudou o ChatGPT https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/resistencia-social-e-codigo-aberto.html 

Capital financeiro

John Maynard Keynes e os mistérios do dinheiro
A incerteza radical e o comportamento financeiro moldam decisões de investimento além dos modelos matemáticos
Manfred Back & Luiz Gonzaga Belluzzo*
 

Em um seminário realizado sobre o livro Teoria geral, do juro, do emprego e da renda na Universidade de Campinas, um dos escribas desse artigo teve contato com a grande economista inglesa Joan Robinson, professora em Cambridge.

Conseguiu através dela o contato de John Maynard Keynes, que topou fazer uma entrevista por e-mail. Nesse artigo, vamos destacar alguns pontos dessa entrevista histórica, sobre um dos capítulos fundamentais da Teoria geral, o capítulo XII – “O estado da expectativa a longo prazo”.

Nesse capítulo John Maynard Keynes nos brinda com a psicologia, incerteza, estado de confiança, limitação da matemática e importância da liquidez e o mercado financeiro.

Lord Keynes, ao sair em 1944, da reunião de Bretton Woods foi visionário, ao declarar: I am not a Keynesian (Eu não sou keynesiano), quando percebeu que os ditos keynesianos estavam transformando sua teoria em dogma, ficando marcado como o economista do estímulo de déficit. Essa banalidade não considera que John Maynard Keynes rompeu com as simplificações da ortodoxia.

1.

Nós: Prezado Lord, hoje vemos o predomínio da escola de expectativas racionais, onde as expectativas são formalizadas estatisticamente e matematicamente. Você, que é um grande matemático e estatístico, como vê essa crença de reproduzir dados do passado para prever o futuro?

John Maynard Keynes: “É, portanto, razoável que nos deixemos guiar, em grande parte, pelos fatos que merecem nossa confiança, mesmo se sua relevância para os resultados esperados for menos decisiva do que a de outros fatos a respeito dos quais o nosso conhecimento é vago e limitado. Por essa razão, os fatos atuais desempenham um papel que, em certo sentido, podemos julgar desproporcional na formação de nossas expectativas a longo prazo, sendo que o nosso método habitual consiste em considerar a situação atual e depois projetá-la no futuro, modificando-a apenas na medida em que tenhamos razões mais ou menos definidas para esperarmos uma mudança”.

John Maynard Keynes: posso me alongar nessa questão? Nós:com certeza!

John Maynard Keynes: “O estado da expectativa a longo prazo, que serve de base para as nossas decisões, não depende, portanto, exclusivamente do prognóstico mais provável que possamos formular. Depende, também, da confiança com a qual fazemos este prognóstico – na medida em que ponderamos a probabilidade de o nosso melhor prognóstico revelar-se inteiramente falso”.

Nós: o que deve ser observado com profundidade?

John Maynard Keynes: “Nossas conclusões devem fundamentar-se, principalmente, na observação prática dos mercados e da psicologia dos negócios”.

Nós: por quê? Mesmo com computadores, banco de dados?

John Maynard Keynes: “O fato de maior importância é a extrema precariedade da base do conhecimento sobre o qual temos que fazer os nossos cálculos das rendas esperadas. O nosso conhecimento dos fatores que regularão a renda de um investimento alguns anos mais tarde é, em geral, muito limitado e, com frequência, desprezível. Se falarmos com franqueza, temos de admitir que as bases do nosso conhecimento para calcular a renda provável dentro de dez anos de uma estrada de ferro, uma mina de cobre, uma fábrica de tecidos, a aceitação de um produto farmacêutico, um navio transatlântico ou um imóvel no centro comercial de Londres pouco significam e, às vezes, a nada levam”.

2.

Nós: sentimos uma tentativa contemporânea de parte dos economistas de quererem reinventar a roda. A moda é caracterizar tudo como financeirização,e na formação binária da corrente majoritária nos cursos de economia, essa coisa de lado real x lado monetário. E um total desconhecimento da importância do mercado financeiro como elemento constituinte do sistema. Estamos corretos?

John Maynard Keynes: “Mas a bolsa de valores reavalia, todos os dias, os investimentos e estas reavaliações proporcionam a oportunidade frequente a cada indivíduo (embora isto não ocorra para a comunidade como um todo) de rever suas aplicações. É como se um agricultor, tendo examinado seu barômetro após o café da manhã, pudesse decidir retirar seu capital da atividade agrícola entre as dez e as onze da manhã, para reconsiderar se deveria investi-lo mais tarde, durante a semana”.

Nós: Lord, no seu entendimento avaliações diárias a respeito da liquidez, podem interferir e mudar as expectativas de investimento?

Keynes: “Todavia, as reavaliações diárias da bolsa de valores, embora se destinem, principalmente, a facilitar a transferência de investimentos já realizados entre indivíduos, exercem, inevitavelmente, uma influência decisiva sobre o montante do investimento corrente. Isso porque não há sentido em criar uma empresa nova a um custo maior quando se pode adquirir uma empresa similar existente por um preço menor, ao passo que há indução a aplicar recursos em um novo projeto que possa parecer exigir uma soma exorbitante, desde que esse empreendimento possa ser liquidado na bolsa de valores com lucro imediato”.

Nós: Lord, ao longo do capítulo XII, nos indica que devemos ter humildade para fazer previsão futuro e que a incerteza não é exata, como creem muitos economistas?

John Maynard Keynes: “Os resultados reais de um investimento, no decorrer de vários anos, raras vezes coincidem com as previsões originais. Também não podemos racionalizar a nossa atitude argumentando que para um homem em estado de ignorância, os erros em qualquer sentido são igualmente prováveis e que, portanto, subsiste uma esperança estatística baseada em probabilidades iguais. Isso porque podemos facilmente demonstrar que a hipótese de probabilidades aritmeticamente iguais, baseada em um estado de ignorância, conduz a absurdos… o mercado estará sujeito a ondas de sentimentos otimistas ou pessimistas, que são pouco razoáveis e ainda assim legítimos na ausência de uma base sólida para cálculos satisfatórios”.

*Luiz Gonzaga Belluzzoeconomista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]

*Manfred Back é graduado em economia pela PUC –SP e mestre em administração pública pela FGV-SP.

Leia também: "Quem controla a tecnologia controla o jogo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ciencia-tecnologia-desenvolvimento.html 

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Folha de S. Paulo admite que "moderação alardeada por Flávio esbarra em projeto bolsonarista e no seu passado político".  Enfim, descobriu a pólvora! 

Benéfica polarização https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/enio-lins-opina_19.html 

Humor de resistência

 

Aroeira