19 outubro 2026

Minha opinião

Sinal de quê?
Luciano Siqueira   

Da França até a Albânia, incluindo outros países da Europa... – assinala o noticiário internacional, a propósito de manifestações estudantis que seguem por mais de um mês.

Os estudantes reivindicam melhores condições nas universidades, mais professores e infraestrutura para o ensino, mas na base de tudo estão a perda do poder de compra e o encarecimento do custo de vida, incluindo a crise de habitação (alta dos aluguéis) e os cortes orçamentários em serviços essenciais.

Em muitas cidades as manifestações ocorrem sob forte tensão política, depredações, bloqueios de vias e confrontos diretos com a polícia, resultando no uso de bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo pelas forças de segurança e centenas de prisões, inclusive de adolescentes.

Pais e professores formam barricadas humanas diante das forças policiais para protegerem os estudantes.

Analistas os mais diversos convergem na percepção de que mais do que descontentamento, há um sentimento de ruptura contra os governos locais e o sistema político vigente.

A palavra “revolução” vem á tona em muitos discursos. São sinais de um novo ciclo político para além da onda neofascista atual?

Corpos de uma democracia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/esperanca-nas-ruas.html

Palavra de poeta

o corpo e o relógio 
Cida Pedrosa      

o tempo de tuas mãos 
não bate com o relógio do meu corpo 
 
porque teimar em acertar ponteiros 
e colar as horas 
se o imã parou o relógio do criado-mudo 
 
a chuva molha meu corpo 
que não é à prova d'água 
 
seca solidão silêncio 
 
na janela à noite corre em direção ao mar 
 
o tempo zapa para traz
tua língua faz curvas entre meus pêlos 
 
os ponteiros voltam a girar 
tua língua zarpa para frente
 
na janela o dia corre em direção às horas
 
[Ilustração: Pablo Picasso]
 
Leia também "Espiral", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_0459516113.html 

Arte é vida

 

Luciano Pinheiro

Às ruas, às redes, à virada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/o-fio-da-meada.html 

Editorial do 'Vermelho'

Globo estende o tapete vermelho à extrema direita

Almoço da cúpula da empresa com Flávio Bolsonaro no dia da sabatina com ele expõe preferência política e afronta a isonomia eleitoral
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br     

 


A recepção de Flávio Bolsonaro pela alta direção do Grupo Globo, em almoço realizado no mesmo dia de sua sabatina no Jornal Nacional, 16 de outubro, constitui um gesto de enorme gravidade política. No momento decisivo da disputa presidencial, a direção de um dos maiores conglomerados de comunicação do país ofereceu ao candidato da extrema direita uma deferência que não dispensou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entrevistado no dia anterior.

A diferença de tratamento é inequívoca. A sinalização política, igualmente evidente, compromete a isonomia que deveria orientar a atuação de uma empresa cuja influência sobre a vida nacional é gigantesca. A disparidade não é um detalhe protocolar, tampouco uma coincidência desprovida de significado. É um evidente sinal de proximidade política e programática. É assim que o gesto se projeta sobre a opinião pública, independentemente das justificativas apresentadas posteriormente.

Não foi uma simples visita de cortesia, como tentou explicar a Globo, segundo a qual o encontro teve caráter institucional e não contou com a participação de jornalistas. A ausência de profissionais da redação não apaga a parcialidade nem neutraliza seu significado político. Tampouco se pode transferir aos jornalistas a responsabilidade por uma iniciativa da cúpula administrativa.

A distinção é necessária: os profissionais devem ser avaliados pelo seu trabalho, enquanto os dirigentes devem explicações pelas escolhas que fazem e pelos sinais que emitem. A igualdade de tratamento, a transparência das relações com candidatos e a autonomia das redações são exigências fundamentais para a credibilidade do jornalismo e para a proteção da democracia.

Diante da repercussão, Lula declarou, durante ato político em Ipatinga (MG), no mesmo dia 16, que a emissora havia perdido confiança: “Então, eu quero dizer para vocês que a partir de hoje, a Globo está sob suspeição da minha candidatura. Não vai ter confiança. Não vai ter.”

A direção da Globo conhece perfeitamente o peso político de suas decisões. Sabe também que sua influência no cenário nacional decorre tanto da dimensão de seu poder econômico quanto da natureza do serviço que presta, submetido ao regime de concessão pública. A Constituição estabelece princípios para a programação das emissoras, e a legislação eleitoral veda o tratamento privilegiado a candidatos nas condições previstas em lei.

A obrigação de respeitar a isonomia exige responsabilidade pública, respeito institucional e garantia de igualdade entre os concorrentes. Ao dispensar tratamento diferenciado a Flávio Bolsonaro, a cúpula empresarial emitiu um sinal inequívoco de preferência política e afrontou o princípio da isonomia que deve resguardar a disputa eleitoral.

O episódio assume gravidade ainda maior diante do histórico da própria Globo, especialmente o de 1989, quando a edição do debate presidencial entre Lula e Fernando Collor de Mello, exibida pelo Jornal Nacional, constituiu uma das mais graves ingerências dos meios de comunicação na soberania do voto popular. A seleção de trechos e a apresentação dos desempenhos dos candidatos favoreceram Collor, fato posteriormente reconhecido por diretores da própria emissora.

O acontecimento de 16 de outubro, envolvendo Flávio Bolsonaro, recoloca no centro do debate a mesma questão. A gravidade aumenta porque, nestas eleições, a disputa não se limita à concorrência entre candidaturas. Envolve o futuro da democracia, a soberania nacional, a autonomia do Estado e a capacidade do país de definir seus próprios rumos. O bolsonarismo acumulou um histórico de ataques às instituições, de deslegitimação do sistema eleitoral e de afronta aos fundamentos da convivência democrática. A possibilidade de retorno desse projeto ao poder representa uma questão política de enorme relevância e exige escrutínio rigoroso, informação abrangente e debate público sem privilégios.

A situação torna-se ainda mais grave porque se soma à atuação das grandes plataformas digitais, as chamadas big techs, cuja distribuição de conteúdo e publicidade política desafia a transparência e a fiscalização pela Justiça Eleitoral. A concentração de poder nos meios de comunicação, sua influência e as relações entre interesses econômicos e projetos políticos constituem desafios centrais para a integridade do processo eleitoral e para a soberania do voto popular.

Diante da gravidade do episódio, as forças democráticas, os movimentos populares, as entidades de jornalistas, os sindicatos, as organizações da sociedade civil e todos os defensores da democracia devem intensificar a mobilização. É necessário denunciar a desigualdade de tratamento, exigir transparência das empresas de comunicação, pressionar as instituições competentes para que fiscalizem o cumprimento da legislação e impedir que interesses privados se sobreponham ao direito do povo de decidir livremente seu futuro.

A democracia não pode ficar à mercê dos interesses dos conglomerados de comunicação nem da influência das grandes plataformas digitais. A soberania nacional não pode ser subordinada às conveniências de grupos que defendem seus próprios privilégios. É preciso transformar a indignação em mobilização organizada, vigilância permanente e pressão pública firme. Nenhum privilégio político, nenhum poder econômico e nenhum monopólio da comunicação estão acima da lei e dos direitos do povo brasileiro. A defesa da democracia exige ação, coragem e firmeza.

Duas coisas da campanha de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html 

Sylvio: aético

A permanência do ministro Nunes  Marques no Supremo Tribunal Federal é uma agressão ao País. Depois de adotar postura parcial e agir como defensor das causas bolsonaristas, agora surge envolvido com o corrupto Vorcaro, com familiares recebendo vantagens financeiras e participação em orgias com garotas de programa, violentando os princípios de justiça e ética, absolutamente necessários para o exercício do cargo.

Sylvio Belém

Manifesto pró-Lula une centro e direita contra ameaças bolsonaristas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/em-defesa-da-democracia.html 

18 outubro 2026

Bom sinal

Lula ultrapassa Flávio Bolsonaro em índice de popularidade digital após crescimento da campanha no 2º turno. 

Manifesto pró-Lula une centro e direita contra ameaças bolsonaristas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/em-defesa-da-democracia.html 

DNA espúrio

Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro
Nascido no dia do atentado que tentou parar a redemocratização, candidato do PL tem longo histórico de defesa do golpe e da ditadura militar
Bernardo Mello Franco/O Globo    


Em 30 de abril de 1981, um capitão e um sargento do Exército cruzaram o Rio em missão secreta. Transportavam duas bombas para causar terror e pânico num show que reunia milhares de jovens em comemoração ao Dia do Trabalhador. O plano era culpar a esquerda e sabotar o processo de redemocratização do país.

Em 30 de abril de 1981, um tenente que amava a ditadura, mas era tido pelos superiores como “excessivamente ambicioso”, assistiu em Resende ao nascimento do primeiro filho. Tempos depois, ele entraria na política como porta-voz dos porões.

Ninguém escolhe o dia em que vem ao mundo, e Flávio Bolsonaro não tem culpa de ter nascido no dia do atentado do Riocentro. No entanto, todos são responsáveis pelas escolhas feitas na idade adulta. Entre a democracia e a ditadura, Flávio sempre marcou a segunda opção.

No livro “Mito ou verdade”, o senador expõe seu ideário sem disfarces. No texto, ele exalta o golpe de 1964 e o regime autoritário que perseguiu, prendeu e matou opositores políticos. “Ao invés (sic) de marginalizados, deveriam ser ser tratados como heróis nacionais”, escreve, sobre os agentes da repressão.

A exemplo do pai, Flávio glorifica o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que levava crianças para assistirem à tortura dos pais. Descreve o militar como “homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria” e teria sido “massacrado pela mídia”.

O filho de Jair acusa a Comissão da Verdade, criada para apurar crimes da ditadura, de “tentar reescrever a História à luz da visão dos terroristas”. Ele ataca a memória de vítimas do regime e chega a sugerir que o ex-deputado Rubens Paiva, assassinado no DOI-Codi, teria sido morto por grupos de esquerda.

O livro foi lançado em 2017, quando Flávio ensaiava concorrer ao Senado. Estava no fim do quarto mandato na Assembleia Legislativa do Rio, onde se notabilizou por subir à tribuna todos os anos para festejar o 31 de março, data cultuada pela extrema direita como aniversário da ditadura.

“Fica aqui o meu repúdio a essa massificação que é feita com relação ao regime militar, esquecendo-se do grande avanço econômico, social e político que tivemos”, discursou, em 2004. “Para mim, é motivo de muito orgulho e agradecimento aos militares”, reforçou, em 2009.

“A esquerda, hoje no poder, insiste em falar que houve um golpe”, prosseguiu, em 2010. No ano seguinte, ele celebrou a “data especial” e disse que era preciso combater “a mentira de que houve um golpe militar”. “Todos já conhecem o posicionamento da família Bolsonaro”, acrescentou. Quem haveria de discordar?

Desde que entrou na política, o patriarca do clã milita na defesa do autoritarismo. Especializou-se em exaltar a violência de Estado, atuar pela impunidade de torturadores, ofender viúvas e órfãos de desaparecidos. Quando o Ministério Público Federal reabriu o caso Riocentro, em 2014, ele fez questão de acompanhar o depoimento de um militar investigado. Diante dos procuradores, atacou a Comissão da Verdade e disse sonhar com uma reedição da Operação Condor, aliança clandestina entre ditaduras do Cone Sul.

A democracia deveria ser tema central na primeira eleição após o 8 de Janeiro e a inédita condenação de generais golpistas. Os marqueteiros treinaram o candidato do PL para evitar menções à ditadura, mas não podem apagar tudo o que ele já disse e escreveu sobre o tema. Por destino e por escolha, Flávio Bolsonaro é o filho do Riocentro. 

Tíbio e incompetente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0953060760.html