PCdoB lança programa de reformas para romper com o neoliberalismo
Documento propõe quatro eixos de transformação estrutural, do Banco Central à reforma agrária, como caminho para o desenvolvimento soberano e o socialismo
Bárbara Luz/Vermelho
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) tornou público o documento: “Subsídios à elaboração das reformas estruturais democráticas”, programa detalhado que aponta o caminho para romper com as amarras neoliberais e neocoloniais que há décadas travam o desenvolvimento do Brasil. Fruto da elaboração coletiva de mais de 50 lideranças, militantes e estudiosos, o texto foi aprovado pela Comissão Permanente do partido no final de 2025 e agora é disponibilizado para amplo debate das forças democráticas, populares e patrióticas do país.
Segundo o diagnóstico do Partido, o Brasil acumula deformações estruturais que bloqueiam o desenvolvimento e empurram o país para retrocessos: a condição de nação dependente e semiperiférica, submetida à pressão do imperialismo estadunidense; a dominância do capital financeiro e do rentismo, que suga os recursos que deveriam financiar a produção; um Estado enfraquecido e capturado pela oligarquia financeira; a desindustrialização acelerada — a participação da indústria de transformação no PIB despencou de 36% em 1985 para apenas 11% hoje — e a crescente precarização do trabalho. A esses obstáculos se somam a enorme desigualdade social e regional, o avanço do racismo, do machismo, da misoginia e da LGBTfobia, e a ameaça permanente da extrema-direita à democracia. O documento nomeia os culpados sem hesitar: a oligarquia financeira, os setores pró-imperialistas das classes dominantes e o imperialismo estadunidense.
“O fortalecimento da nação é o caminho e o socialismo é o rumo.”
Para enfrentar esse conjunto de males, o programa organiza as reformas estruturais democráticas em quatro grandes eixos. O primeiro trata da reconstrução e democratização do Estado nacional, com propostas que vão da reforma política à defesa nacional, passando pelo sistema financeiro, pela política externa e pela regulação das plataformas digitais. O segundo eixo aposta no desenvolvimento econômico com soberania produtiva: reindustrialização em novas bases tecnológicas, reforma tributária progressiva, reforma agrária articulada à agroindustrialização e desenvolvimento sustentável. O terceiro eixo exige a universalização dos direitos sociais — seguridade social, educação, segurança pública e reforma urbana. E o quarto eixo, fundamental, trata dos conteúdos que determinam uma sociedade humanista: direitos das mulheres, da população negra, dos povos indígenas, da comunidade LGBTQIA+ e da liberdade religiosa. Não há projeto nacional sério que ignore qualquer um desses eixos.
Entre as propostas mais ousadas e urgentes está a revogação da autonomia do Banco Central, instrumento que o documento chama, sem meias palavras, de “cínico” — uma instituição orientada para e pelo mercado financeiro, não pelo povo. O programa defende que o câmbio deixe de flutuar em favor da especulação e passe a ser administrado pelo Estado, em sintonia com a Presidência da República e o Ministério da Fazenda. Defende também a criação de um Sistema Nacional de Financiamento Público da Transformação Produtiva, fortalecendo o BNDES e os bancos públicos regionais para direcionar crédito às áreas prioritárias. Na tributação, o partido propõe acabar de vez com os privilégios dos mais ricos: regulamentar o imposto sobre grandes fortunas — previsto na Constituiç&at ilde;o desde 1988 e nunca implementado —, ampliar as alíquotas para rendas acima de R$ 50 mil mensais e revisar as renúncias fiscais que beneficiam conglomerados financeiros. Quem tem mais deve pagar mais. É simples assim.
No campo da produção, o documento aposta na reindustrialização como pilar central do novo projeto nacional, referendando a Nova Indústria Brasil (NIB), política do governo Lula que organiza seis missões mobilizadoras: saúde, transformação digital, bioeconomia e transição energética, defesa, cadeias agroindustriais sustentáveis e infraestrutura urbana. O horizonte é claro: o Brasil precisa quebrar a dependência tecnológica e ocupar a fronteira da sociedade do conhecimento do século 21, e não se resignar ao papel de exportador de commodities. Na reforma política, o PCdoB defende o fim da cláusula de barreira — “remanescente do entulho autoritário da ditadura”, na definição do próprio documento —, a adoção da lista preordenada com paridade de gênero e a manutenç& atilde;o do sistema proporcional contra o voto distrital que favorece as elites. No campo dos direitos, a proposta é radical no bom sentido: a seguridade social — saúde, previdência e assistência — deve ser encarada como investimento nacional, com financiamento estável e progressivo, gestão democrática e participativa e reversão das reformas que penalizam os mais vulneráveis.
Além disso, o documento também é explícito quanto ao sujeito histórico dessas transformações. A classe trabalhadora, com ampla aliança entre trabalhadores, movimentos populares, setores da burguesia industrial e da pequena burguesia, tem a força e o dever de liderar essa jornada. As reformas não serão concedidas pela boa vontade das classes dominantes — serão conquistadas pela mobilização social, pela construção de maioria política no Congresso e pela disputa de hegemonia na sociedade. Nesse sentido, o texto reconhece que uma nova vitória de Lula nas eleições de 2026 criará condições mais favoráveis para avançar. Mas deixa claro que a jornada pelas reformas não pode esperar: ela se realiza de modo “simbiótico e sinérgico” com o objetivo eleitoral, no calor da luta pol&ia cute;tica cotidiana.
O PCdoB lança esse documento como um chamado ao combate, um convite ao debate e uma proposta concreta para a esquerda brasileira. Num momento em que o imperialismo de Trump agride a América Latina e a extrema-direita nacional conspira abertamente contra a democracia, ter clareza estratégica, liderança e determinação para mobilizar o povo é mais do que necessário — é urgente. O Brasil que o povo construiu ao longo de cinco séculos merece mais do que o zigue-zague entre avanços e retrocessos. Merece um projeto de nação à altura de sua grandeza. Esse programa é um passo concreto nessa direção.
Para ler a íntegra do documento, https://pcdob.org.br/noticias/subsidios-as-reformas-estruturais-democraticas-para-desenvolvimento-soberano/
[Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.]
O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html




