Machosfera e ódio às
mulheres como modelo de negócio
Influenciadores do ódio faturam milhões e prometem
vida endinheirada aos seguidores
Nina Lemos/Liberta
Quem quer ser um milionário? “Aprenda a fazer seu primeiro milhão”. Esse tipo de promessa é atraente desde que o capitalismo é capitalismo e já seduziu muita gente para golpes e promessas vazias.
Mas, agora, o buraco está mais embaixo. Silvio Santos, que perguntava “Quem quer dinheiro?”, parece até inocente.
Alguns homens, principalmente os jovens, têm um novo plano de riqueza: seguir os passos de influenciadores da chamada “machosfera” (ambiente virtual que reúne red pills e outras variedades de misóginos) e, assim, alcançar dinheiro, fama e, por consequência, mulheres. Para esses influenciadores, é assim que funciona, já que “mulheres só querem saber de dinheiro”.
Para quem os segue, eles vendem a possibilidade de alcançar uma vida parecida com a deles: cheias de luxo, carros esportivos, mulheres bonitas, propriedades em Miami e Dubai.
Não é novidade
para quem se debruça sobre o tema que odiar as mulheres é hoje um negócio
lucrativo. Os influenciadores do ódio faturam milhões. O que muitas vezes passa
batido é que eles prometem a mesma vida endinheirada para seus seguidores. Uma
fórmula que pode parecer irresistível para muitos homens insatisfeitos.
Se você quer
sentir o quanto o dinheiro é farto e importante na cena red pill, vale assistir
ao documentário Por Dentro da Machosfera, disponível
no Netflix. Ali, fica claro como a promessa de uma vida de riqueza e ostentação
pode ser uma porta de entrada para meninos nesse mundo perigoso (principalmente
para as mulheres, vítimas).
Com esses
influenciadores, jovens aprendem que odiar mulheres é um negócio lucrativo.
Tudo funciona por exemplos e modelos, sabemos.
Se você tiver
estômago para ouvir os principais podcasts red pills do Brasil, como o Red
Cast, vai ver que boa parte da conversa ali é sobre relógios caros, carros
importados, apartamentos de 200 metros quadrados e outros bens de luxo que eles
dizem, com orgulho, possuir. O resto do tempo é usado para exaltar homens como
Donald Trump, subjugar mulheres e falar “assuntos de homem”. Se eles estão
ricos e falam disso com tanta naturalidade, seus seguidores acham que também
podem ficar.
O ódio a
mulheres é um modelo de negócios. Como resultado, temos essa tragédia que vemos
todos os dias. Um dia, um grupo de um colégio progressista de São Paulo troca
mensagens com a lista das meninas “mais estupráveis”. No outro, um policial é
acusado de feminicídio e, nas mensagens que trocava com a mulher, a polícia
encontra recados onde o homem, o tenente-coronel
Geraldo Neto, se denominava um “macho alfa” e dizia que a mulher
precisava se comportar como uma “mulher beta”, um discurso totalmente alinhado
com o dos red pills.
É claro que a cultura difundida pela
machosfera não é a única culpada pelo momento trágico que vivemos. Mas faz
parte do caldo. Vamos lembrar também que homens com perfil red pill, como Trump,
foram eleitos e governam os países mais poderosos do mundo. O presidente dos
EUA é um exemplo clássico de um homem da machosfera. Vende a imagem do “self
made man”, do que desafia o “sistema” (seja lá o que seja isso) e é abertamente
misógino. O ódio a mulheres, veja só, ajuda a ganhar dinheiro e eleições.
E a
raiva das mulheres?
E nós mulheres? Como ficamos? A gente
fica com raiva, claro, já que somos vítimas dessa guerra. Só que a nossa raiva
não é lucrativa. Pelo contrário. Mulheres com raiva são vistas como “mal
comidas”, mal amadas e por aí vai. A única raiva que somos autorizadas a sentir
é a raiva de nós mesmas, aquela que nos leva a nos submetermos a regimes de
fome e a ficarmos caladas por acharmos que “não somos capazes”.
Quando nossa raiva é do mundo e do
atual estado péssimo das coisas, ela não é bem vista.
Mesmo sendo vítimas da guerra atual
(em 2025, 1568
mulheres morreram assassinadas por feminicídio no Brasil, o
maior número em dez anos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança
Pública), temos que mostrar a nossa indignação com suavidade. Se não, estamos
“afastando os homens da conversa” (ou seja, continuamos sendo obrigadas a
agradá-los). A gente é vítima do ódio (literalmente, muitas de nós morrem),
mas, quando manifestamos nossa revolta, não somos bem vistas.
A nossa raiva não monetiza. Como
jornalista, já ouvi mais de uma vez que nós, que cobrimos pautas “femininas”,
estávamos “sempre com muita raiva” ou “sempre gritando”. A raiva feminina, pelo
que entendi em muitos anos, afasta anunciantes e público. Será mesmo? Ou será
que essa é mais uma desculpa para nos manter obedientes?
Conselho para as mulheres: continuem
com raiva. Como diria uma antiga música
punk: a raiva é uma energia.
[Foto: Marcelo Camargo/Liberta]
Violência contra as mulheres é estrutural https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/violencia-sexista_19.htm





