Na política, terceira via?
Abraham
B. Sicsu
Realidade e ficção se
confundem. Um político em um ambiente altamente polarizado. Dois grupos se
digladiam em busca da hegemonia. Sabe não ter nenhuma densidade eleitoral. Mas,
eleição em dois turnos, se lança e tem menos de 4% dos votos. Tinha se definido
como Terceira Via e se cacifa para a barganha. Vira linha auxiliar da oposição
ao Governo e levanta uma série de acusações infundadas. Dá argumentos, com
discurso virulento, para um ataque baseado em notícias falsas ou não
verificáveis. Ficará quatro anos exigindo e obtendo benesses e recompensas,
dizendo que a eleição só foi ganha com seu apoio. No nosso país isso define
essa via, parece.
O fato acima parece
hipotético, mas tem elementos muito concretos de factibilidade. Com ele aprendi
três coisas. Em primeiro lugar que, em nosso sistema eleitoral, Terceira Via é
moeda de barganha. Em segundo, que é caminho fácil para desestabilizar
candidaturas e criar desconfianças. Em terceiro lugar, é instrumento de
interesses não explícitos, muitas vezes utilizado por grupos economicamente
poderosos que precisam de pretexto para não expor seus reais interesses que,
evidentemente, os beneficiam.
Na literatura
política internacional Terceira Via tem uma definição mais clara e precisa, com
certeza, diferente. Uma corrente política que acredita no mercado livre, mas
que vê a necessidade de políticas sociais robustas para evitar as assimetrias
características do processo concentrador capitalista. Opõe-se ao liberalismo e
às correntes mais a esquerda radical. Vai além da social democracia
convencional com propostas integradoras e forte combate ás disparidades de
renda e regionais.
De certa maneira
Clinton, rompendo lógicas dos democratas nos Estados Unidos, ou Blair com os
trabalhistas no Reino Unido, mesmo estando em partidos tradicionais, podem ser
considerados dentro desse perfil.
Definir-se Terceira
Via antes de ter consolidado propostas consistentes parece insensato e pouco
produtivo. A educação, a saúde, o combate à miséria e a estabilidade dos
aposentados e desfavorecidos devem passar a ser o centro de seu programa de
ação. O Estado tem papel decisivo no garantir a justiça social. Ter claro que o
mercado não se preocupa com isso. A modernização, inclusive tecnológica, das
estruturas é caminho obrigatório para reorientar o processo de desenvolvimento.
Responsabilidade tem
um duplo sentido, o econômico e o social.
Sem essas duas variáveis articuladas é mais uma aventura, não há
consistência. De certa maneira, já tivemos e temos governos, mesmo aqui no
Brasil, que procuravam se estruturar fortemente alicerçados com muitas dessas
características e visões.
Na eleição de 2022
fiz duras críticas ao que chamavam Terceira Via. Disse que não tinham lógicas
nem estruturas para romper paradigmas estabelecidos. Pior, não tinham lideranças
viáveis. Chamei de um exército de Brancaleone. Poderia ter me referido a
Quixote de Cervantes e os moinhos de vento. Um grupamento, que pode até ser bem
intencionado, mas, sem propostas claras, sem representatividade política, que,
esfarrapados, acreditavam poder desestabilizar a polarização que era
extremamente patente na economia brasileira.
Fui fortemente
achincalhado e atacado pessoalmente. Nada que me abalasse. Mas, a virulência
mostrava o ego inflado de uma classe média intelectualizada que só via em suas
pessoas/grupos, nos seus pensamentos, a possibilidade de reverter os graves
problemas estruturais do País. Sem negociar, sem dispor-se a dialogar. Sem
entender a realidade concreta de um País muito desigual. Sem tomar partido
realmente possível em momento decisivo para a democracia.
Noto que novamente
essa corrente se organiza, repetindo, no meu entender, o mesmo erro, dando
oportunidade a que possa voltar a plutocracia excludente no Brasil. E os
argumentos são os mesmos.
Dizem, se existem
dois turnos, porque entregar de cara? Ledo engano. Não percebem que farão
críticas mordazes como sempre acontece nas campanhas eleitorais, que levantarão
suspeitas sem necessariamente comprová-las, que estarão dando oportunidades e
argumentos para desestabilizar um projeto político, sem ter nenhum programa
alternativo já bem definido, sem ter liderança de peso já consolidada, sem ter
efetivamente relevância político eleitoral. Servirão de linha paralela para
confrontar um projeto de longo prazo que pode ter sólidas raízes
transformadoras. Por que não procuram ser coerentes e fazem proposições
efetivas no sentido de corrigir possíveis rumos equivocados?
Um político
intelectual, a quem muito respeito, afirmou:
“O erro dos que
consideram a alternativa de uma Terceira Via é ver os independentes como um
bloco, quando na verdade eles são divididos, não formam uma via. Para ser uma
via ela precisaria de um conjunto de propostas próprias e uma liderança com a
qual se identificassem. Enquanto isso não existir, não é alternativa....não se
constitui uma alternativa, apenas um grupo de esperneio.”
Concordando
plenamente com essa visão, vale ressaltar que isso não se constrói de uma hora
para outra. Uma liderança nacional tem que ser trabalhada com o tempo, um
programa tem que ser estruturado pela mobilização de muitos pensadores. E isso
não foi feito nos anos recentes.
Fica claro que essas
aventuras que começam a se desenhar apenas terão o papel de ajudar a criar um
clima de revanchismo, de não analisar os avanços significativos que foram dados
nos últimos três anos, de não colaborar com uma proposta para o País, de médio
e longo prazo, onde a visão social compatibilizada com avanços econômicos e
ambientais significativos, o que permitiria ter perspectivas de um Brasil inclusivo
e mais justo.
Não é essa a proposta
de nossos políticos e intelectuais auto centrados e convictos de que para haver
mudanças, seus geniais intelectos têm que ser consultados, mais que isso,
reverenciados. Não se dignam a pensar num mundo excludente em alternativas
possíveis, seus egos inflados é a razão maior que os move.
Ao que chamam
Terceira Via podemos denominar de glória vã, um movimento que pode servir
apenas para ajudar a consolidar avanço de forças reacionárias e conservadoras.
Desemprego atinge menor patamar no Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/boa-noticia_30.html