12 maio 2026

Humor de resistência

Cellus

Atomatização & pós-verdade

A crise da verdade na era digital
A ascensão do regime de pós-verdade na contemporaneidade é o ápice de um processo histórico de automatização e simulação, no qual a racionalidade algorítmica substitui progressivamente o discernimento humano
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda     

1.

A era digital mergulhou a sociedade numa crise profunda. A distinção entre a verdade e a mentira tornou-se cada vez mais nebulosa.

O problema não é apenas a existência da falsidade, presente em toda a história humana. O problema é mais grave, uma vez que os critérios coletivos que permitem separar o fato da invenção, o real do fabricado, a informação da manipulação – estão sendo perdidos.

A pós-verdade nasce exatamente desse cenário. Trata-se de um regime social em que emoções, crenças identitárias e algoritmos passam a ter mais força do que fatos verificáveis. A verdade deixa de organizar o debate público. Em seu lugar, avançam o engajamento, a indignação e a conveniência ideológica.

Essa crise, porém, não começou com a internet. Suas raízes estão no próprio desenvolvimento da técnica moderna e da computação.

Em 1950, Alan Turing apresentou o famoso jogo da imitação, depois conhecido como Teste de Turing. A pergunta central já não era apenas se uma máquina poderia pensar, mas se ela poderia simular tão bem a inteligência humana a ponto de tornar indistinguível o humano do artificial. Ali surgiu um dos grandes dilemas do nosso tempo: quando a simulação se torna perfeita, como reconhecer a autenticidade?

John von Neumann também percebeu que a computação inaugurava um novo estágio civilizatório. A automação deixava de ser simples ferramenta humana e passava a organizar a realidade. A racionalidade algorítmica começava a substituir a mediação humana na vida social.

Décadas depois, Joseph Weizenbaum, criador do ELIZA, um dos primeiros programas de processamento de linguagem natural, fez uma crítica decisiva à ilusão tecnocrática. Em Computer Power and Human Reason, advertiu que máquinas podem simular compreensão sem possuir consciência.

Esse era o risco central: confundir processamento de informação com sabedoria humana. Para Joseph Weizenbaum, o perigo maior não estava apenas nas máquinas inteligentes, mas na disposição humana de entregar julgamento moral aos sistemas computacionais.

Lewis Mumford também antecipou essa crítica. Ao refletir sobre a “megamáquina”, mostrou que a técnica moderna cria sistemas gigantescos de organização social, nos quais os seres humanos passam a funcionar como peças subordinadas de engrenagens técnicas, burocráticas e econômicas. Nesse processo, velocidade, eficiência e automação substituem experiência, memória histórica e reflexão crítica.

2.

Hoje, essa transformação alcança novo patamar com as plataformas digitais. Jean Baudrillard descreveu esse processo como a ascensão do simulacro: representações que já não apenas refletem o real, mas passam a substituí-lo.

A imagem viral, o meme, o corte de vídeo, a notícia falsa e a inteligência artificial podem adquirir mais força social do que a experiência concreta. A realidade passa a ser mediada por fluxos digitais de representação.

No campo político, Hannah Arendt já havia advertido que a destruição da verdade factual seria a condição decisiva para formas autoritárias de poder. Uma sociedade incapaz de distinguir fato de ficção perde o terreno comum necessário à democracia. Torna-se-ia vulnerável à manipulação permanente.

Os autores contemporâneos da pós-verdade aprofundam esse diagnóstico. Lee McIntyre mostra que a pós-verdade subordina os fatos às narrativas ideológicas e emocionais. Ralph Keyes aponta a naturalização social da mentira conveniente. Byung-Chul Han observa que o excesso de informação e transparência digital produz, paradoxalmente, mais desorientação, fragmentação e incapacidade de discernimento.

Shoshana Zuboff acrescenta outro elemento central associado as plataformas digitais operando segundo a lógica do capitalismo de vigilância. Dados comportamentais são capturados para prever, induzir e modular condutas humanas. Nesse modelo, a verdade importa menos do que a capacidade de gerar atenção, engajamento e lucro.

Esse é o paradoxo contemporâneo com a crise da verdade não nascendo da falta de informação, mas do seu excesso. Nunca se produziu tanto dado, imagem, opinião e conteúdo. Mas, exatamente por isso, cresce a incapacidade coletiva de discernimento. A mentira emocional circula mais rápido do que a verdade complexa. O algoritmo privilegia choque, medo e indignação porque emoções extremas geram cliques, compartilhamentos e receita.

No limite, a crise da verdade expressa uma mutação histórica profunda. A civilização fundada na mediação humana do conhecimento ficou para trás diante de outra organizada pela mediação algorítmica da realidade.

Alan Turing revelou a possibilidade técnica da imitação perfeita. John von Von Neumann estruturou a lógica computacional da automação. Joseph Weizenbaum alertou para o risco de delegar julgamento moral às máquinas. Lewis Mumford denunciou a submissão da cultura à megamáquina tecnológica. Os teóricos da pós-verdade mostraram como o capitalismo digital transformou a verdade em variável secundária diante da economia da atenção.

A questão decisiva, portanto, já não é apenas saber se a máquina imita o humano. Mas saber se a sociedade ainda pode ser capaz de reconhecer a verdade quando a mentira se tornar mais rápida, mais lucrativa e mais sedutora do que o próprio real.

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Referências


ARENDT, H. Verdade e política. In: ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972.

BAUDRILLARD, J. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.

HAN, B. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Petrópolis: Vozes, 2022.

KEYES, R. The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life. New York: St. Martin’s Press, 2004.

MCINTYRE, L. Post-Truth. Cambridge: MIT Press, 2018.

MUMFORD, L. Art and Technics. New York: CUP, 1952.

TURING, A. Computing machinery and intelligence. Mind, Oxford, v. 59, n. 236, p. 433-460, 1950.

VON NEUMANN, J. The Computer and the Brain. New Haven: YUP, 1958.

WEIZENBAUM, J. Computer Power and Human Reason: From Judgment to Calculation. San Francisco: W. H. Freeman, 1976.

ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.

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A ameaça de jogo sujo nas eleições de 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/redes-sociais-eleicoes.html   

Dica de leitura

Inferno astral de Milei  

Em artigo recente publicado no site Outras Palavras, "Milei: hipóteses sobre uma derrota catastrófica, Mariano Schuster e Pablo Stefanoni consideram que a política de "motosserra" de Javier Milei, embora tenha freado a inflação de curto prazo via recessão induzida, gerou um colapso social sem precedentes.

A destruição do consumo interno e da produção de bens criou uma armadilha econômica da qual o governo dificilmente escapará sem gerar convulsão social.

Fatores como grave e empobrecimento da chamada classe média e isolamento politico no Congresso travam reformas estruturais levam o governo à inanição.

Por outro lado, a severa repressão aos protestos populares sinaliza contribui para o crescimento isolamento politico do governo.

Segundo os autores, a derrocada de Milei pode não vir apenas pelas urnas, mas por uma implosão do sistema econômico. A aposta de que o mercado resolveria todas as mazelas ignora a fome e do desemprego, colocando o governo em vias de uma catástrofe política iminente.

Confira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/sinais-de-mudanca-na-argentina.html?m=1 

[LS] 

Postei nas redes

Quanto mais os holofotes mirarem ministros do STF pior para o presidente Lula — diz colunista do Globo. Oxente, o que é que tem a ver o cuscuz com as calças!? 

Releio e anoto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/teoria-pratica.html 

Trump em decadência

Atlas: 62% responsabilizam Trump pela piora da economia dos EUA
Pesquisa AtlasIntel mostra avanço da rejeição ao republicano, com críticas concentradas na inflação, custo de vida e condução da economia
Lucas Toth/Vermelho   

A maioria da população norte-americana atribui às políticas de Donald Trump a deterioração da economia dos Estados Unidos, segundo pesquisa AtlasIntel divulgada nesta terça-feira (12). 

O levantamento mostra que 62,8% dos entrevistados avaliam que as medidas adotadas pelo presidente agravaram a situação econômica do país, enquanto a desaprovação ao republicano atingiu o maior patamar desde sua posse.

A pesquisa, realizada entre os dias 4 e 7 de maio com 2.069 adultos norte-americanos, aponta que apenas 30,6% acreditam que as políticas de Trump melhoraram a economia. Outros 6% disseram não perceber efeitos relevantes. 

A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

Os números reforçam um desgaste crescente da Casa Branca justamente na área que Trump historicamente tratava como principal vitrine política: a economia. 

O cenário ocorre em meio ao aumento das críticas ao custo de vida, à inflação persistente e às incertezas provocadas pela política tarifária adotada pelo governo republicano.

A percepção negativa também aparece quando os entrevistados avaliam os impactos das medidas do governo sobre a própria vida financeira. 

Segundo o levantamento, 55,5% afirmaram que sua situação econômica pessoal piorou sob as políticas de Trump. Apenas 24% disseram ter percebido melhora, enquanto 19,8% afirmaram não notar mudanças significativas.

Inflação e custo de vida lideram preocupações nos EUA

Ao serem questionados sobre os principais problemas enfrentados atualmente pelos Estados Unidos, os entrevistados apontaram inflação e custo de vida como maior preocupação, com 46,8% das respostas. Em seguida aparecem “economia e mercado de trabalho”, com 41,1%, e “salvaguardar a democracia”, citado por 38,3%.

Temas frequentemente explorados por Trump em sua retórica política, como imigração, aparecem atrás das questões econômicas. Segundo a AtlasIntel, 33,6% apontaram imigração como principal preocupação nacional, enquanto 29,3% citaram os serviços de saúde.

A avaliação negativa do desempenho do presidente se espalha por praticamente todas as áreas de governo. A maioria dos entrevistados classificou como “ruim” ou “péssima” a atuação de Trump em temas como tarifas comerciais, economia, educação, saúde, imigração e defesa.

Também houve forte rejeição nas áreas de política externa. Segundo o levantamento, a condução das relações dos EUA com a Otan, a guerra na Ucrânia, o Oriente Médio, Cuba e Venezuela recebe avaliação predominantemente negativa.

Desaprovação atinge maior nível desde a posse

A pesquisa mostra ainda que 59,8% dos norte-americanos desaprovam o desempenho geral de Trump como presidente, contra cerca de 39% que aprovam sua gestão. Trata-se do maior índice de rejeição registrado pela AtlasIntel desde o início do atual mandato do republicano.

Quando perguntados diretamente sobre a performance presidencial, seis em cada dez entrevistados classificaram o governo como “ruim” ou “péssimo”. Apenas 37,2% consideraram a atuação de Trump “boa” ou “excelente”, enquanto 2,7% avaliaram como “regular”.

Os índices de rejeição são ainda maiores entre determinados grupos sociais. Segundo a pesquisa, 87,6% dos jovens entre 18 e 29 anos desaprovam Trump. Entre pessoas com renda familiar inferior a US$ 50 mil anuais, a rejeição chega a 65,2%.

Entre os grupos étnicos, a maior desaprovação aparece entre os negros norte-americanos, com 69,9%. A pesquisa também aponta rejeição mais elevada entre homens (62,8%) do que entre mulheres (57,1%)
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EUA em fragilidade histórica
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Indústria argentina no buraco

Argentina tem pior desempenho industrial do mundo ao lado da Hungria, aponta relatório
Mercado de trabalho industrial argentino teve mais de 79 mil empregos formais perdidos e fechamento de quase 2.900 empresas
ICL Notícias 

A Argentina registrou o pior desempenho industrial do mundo nos últimos dois anos, empatando com a Hungria em retração da atividade manufatureira, segundo levantamento da consultoria Audemus com base em dados da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (ONUDI).

O estudo aponta que a produção industrial argentina acumulou queda média de 7,9% entre 2023 e 2025, colocando o país no último lugar entre 80 economias analisadas.

O cenário também é acompanhado por uma forte deterioração do mercado de trabalho industrial, com mais de 79 mil empregos formais perdidos e o fechamento de quase 2.900 empresas do setor desde a mudança de governo.

De acordo com o relatório, a crise não está concentrada em apenas um segmento específico da economia. Das 16 principais áreas industriais avaliadas, 14 registraram queda na produção. Já no mercado de trabalho, 18 dos 19 segmentos analisados apresentaram redução no número de empregados. Os setores metalúrgico, têxtil e automotivo estão entre os mais afetados.

A consultoria atribui o resultado às políticas econômicas adotadas pelo governo argentino, incluindo abertura comercial acelerada, valorização cambial, redução de investimentos públicos e diminuição de incentivos à indústria nacional. Enquanto isso, países vizinhos apresentaram desempenho superior no mesmo período, como Brasil, Chile, Peru e Uruguai, que registraram crescimento industrial positivo.

O levantamento também mostra que a capacidade instalada da indústria argentina caiu para 54,1% no início de 2026, o menor nível para um primeiro bimestre em mais de uma década. Especialistas avaliam que o cenário ainda não apresenta sinais consistentes de recuperação no curto prazo.

Nos últimos meses, o avanço das importações e a chegada de grandes marcas internacionais ampliaram a pressão sobre fabricantes locais, principalmente nos setores têxtil e de bens de consumo. Entidades industriais argentinas têm alertado para o risco de aprofundamento da desindustrialização e fechamento de novas empresas ao longo de 2026.

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Milei num poço de areia movediça https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_37.html 

Arte é vida

Ademir Martins 

Sem agulha no palheiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/