13 junho 2026

Copa respingada de lama

A Copa do Mundo é deles
Nos Estados Unidos, Fifa é conivente com arbitrariedades jamais vistas em torneios anteriores
Juca Kfouri/Liberta 
 

Em 1958, depois da primeira Copa do Mundo vencida pela Seleção Brasileira, uma marchinha que tem como título A Taça do Mundo É Nossa virou espécie de hino do time e foi cantada também em 1962, quando o Brasil sagrou-se bicampeão mundial.

Só em 1970, o Pra Frente, Brasil tomou o lugar de “a taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa”, com seu “90 milhões em ação, pra frente, Brasil, do meu coração”.

Tanto a marchinha composta pelo quarteto Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dagô quanto a de Miguel Gustavo são declarações eufóricas de carinho despertadas pelas vitórias da pátria de chuteiras – a primeira composta sob o otimismo que reinava no país presidido, democraticamente, por Juscelino Kubitscheck, e a segunda sob as trevas do general-ditador Emílio Garrastazu Médici.

Vingança dos deuses

Pois eis que começou a 23ª Copa do Mundo com jogos na Cidade do México, Guadalajara, Toronto e Los Angeles, nos dias 11/6 e 12/6.

Como sabem a rara leitora e o raro leitor, só a Seleção Brasileira esteve em todas.

Se há, no entanto, uma Copa do Mundo que não é nossa, esta, definitivamente, não é.

É deles.

Deles estadunidenses, porque nem se pode dizer que seja dos norte-americanos todos, porque mexicanos e canadenses participam como sedes secundárias, apenas para limpar terreno com vistas à Copa na Arábia Saudita, em 2034.

Antes, em 2030, a varrição promovida pela Fifa será ainda mais ampla, geral e irrestrita: abre no Uruguai, para pretensamente comemorar os 100 anos do torneio, que teve sua primeira edição no país vizinho, passa rapidamente pelo Paraguai e a Argentina e embarca para Portugal, Espanha e Marrocos, com o que satisfaz três continentes.

Tudo isso porque o presidente da Fifa, Gianni Infantino, além de cretino, age como gângster multinacional a serviço do que há de pior no mundo dos poderosos trilhardários, de Donald Trump ao príncipe herdeiro saudita, e carniceiro, Mohammad bin Salman.

Você há de se lembrar das exigências absurdas da Fifa quando houve a Copa do Mundo no Brasil, com a destruição, em nome da modernização, de patrimônios arquitetônicos brasileiros como o Maracanã e o Mineirão.

Se, então, a vingança ficou por conta dos deuses dos estádios – que fizeram do estádio mineiro o palco do 7 a 1 e impediram que a Seleção jogasse no carioca –, agora o cartola ítalo-suíço se curva sorridente a quem contribuir com ervanário mais substancial.

À farra oferecida por Tio Sam Trump ele retribuiu com o bizarro prêmio Fifa da paz.

Como recompensará Salman ainda não se sabe, talvez com uma mala especial para carregar jornalistas esquartejados, como o saudita Jamal Khashoggi, brutalmente assassinado por agentes do governo em 2018, dentro do consulado da Arábia Saudita, em Istambul, na Turquia.

Khashoggi era colunista do The Washington Post e crítico do regime.

Árbitro deportado

Por enquanto, o cretino Infantino testemunha, passivamente, arbitrariedades jamais vistas em Copas do Mundo, nem mesmo na Argentina da ditadura de Jorge Videla, em 1978, ou na monarquia absolutista do Qatar, em 2022, onde, por sinal, Infantino, o cretino, se esbaldou em mordomias, a ponto de ter ido morar em Doha com a família durante um ano e meio antes da Copa, numa casa que mais parecia um palácio.

Não bastasse a proibição ou restrição de entrada de torcedores de quatro países cujas seleções estão na Copa, como Irã, Haiti, Costa do Marfim e Senegal, a competição ainda nem começou e o jogador iraquiano Aymen Hussein foi detido e interrogado durante sete horas no aeroporto de Chicago, assim como o fotógrafo da delegação, por dez horas.

Alguns membros da delegação iraniana tiveram os vistos negados e o time não poderá pernoitar nos Estados Unidos, sendo obrigado a voltar para o México depois de cada jogo.

Já o árbitro da Somália, considerado o melhor da África, Omar Artan, escalado para apitar na Copa, teve a entrada vetada e acabou deportado, com a anuência da Fifa, que, em nota oficial, declarou não poder intervir em leis de imigração do país-sede. Um nojo.

Se a extraordinária presidenta mexicana Claudia Sheinbaum faz o que pode, de um lado, e o primeiro-ministro canadense Mark Carney (que, aliás, deve sua vitória eleitoral à oposição que Trump lhe fez) age, do outro, para amenizar a beligerância estadunidense, Infantino, o cretino, tapa os olhos, a boca e o nariz.

Certamente para não sentir o fedor que exala.

 

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Por enquanto, a Copa não emociona https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0897435088.html 

Dica de leitura

IA & crise energética 

Te Li, professor assistente na Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Aberta de Yunnan, China, em artigo publicado no Boletim Aepet, sugere uma análise crítica da Inteligência Artificial (IA) sob a ótica da termodinâmica, argumentando que a tecnologia não é imaterial, mas dependente de um consumo massivo de energia e recursos naturais.

Daí a expansão da IA ​​acelerar as crises energética e ecológica, em franca contradição entre a lógica do capital, que impõe um crescimento infinito em um planeta de reconhecidos limites. Algoritmos não possuem autonomia técnica para resolver impasses globais, funcionam sob a imposição do capital.

O destino da sociedade não será determinado pela eficiência do código, mas por decisões políticas sobre quem controla a energia, diz o autor. Sem uma mudança estrutural no modo de produção, a IA apenas aprofunda a entropia social e climática. A política deve ter o comando sobre da técnica. Confira https://aepet.org.br/artigo/a-termodinamica-do-capital-inteligencia-artificial-crise-energetica-e-crise-ecologica/

[LS] 

Sylvio: mesmo time

Os indicativos econômicos e sociais demonstram claramente que o Brasil está no rumo certo, com a diminuição do desemprego,  da miséria e melhoria de vida de sua população. Daí a importância da continuidade no poder dos responsáveis por isso, sem vez para perigosas aventuras. Resumindo, em jargão futebolístico: "em time que está ganhando não se mexe".

Sylvio Belém   

A polarização e a radicalização do debate público é a essência do modelo de negócio das redes sociais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/o-brasil-e-as-big-techs.html?m=1

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Pedro Caldas

Crônica de uma vitória a conquistar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_30.html