24 julho 2026

Minha opinião

Divisor de águas

Luciano Siqueira   

A hipocrisia é explicita – combate a condições precárias de trabalho; e a ofensiva tarifária tem longo alcance – 60 países, incluindo o Brasil.

Assim é a guerra comercial sustentada por Donald Trump. Ação de natureza coercitiva, uma espécie de esperneio geopolítico unilateral.

Em relação ao Brasil, a nova taxa de 12,5% soma-se às sobretaxas anteriores, ampliando a tributação total sobre exportações para 37,5%.

Também uma tentativa de burlar condicionantes estabelecidos pela Suprema Corte norte-americana.

No que se refere às importações norte-americanas, a nova versão do tarifaço alcança cerca de 95% das transações.

Enquanto bolsonaristas aplaudem, em destrambelhada inclusão da medida como arma eleitoral (sic), o governo rechaça firmemente a medida, considerando-a injustificada, arbitrária e desrespeitosa para com as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

De quebra, o tema da soberania nacional ganha mais força e estabelece um divisor de águas entre as forças populares e progressistas que dão sustentação ao governo Lula e a extrema direita entreguista.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

Governo Lula defende o Brasil contra o tarifaço Trump-Bolsonaro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/editorial-do-vermelho_025789528.html 

Arte é vida

 

Anthony Sims Jr

"Anotações" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-palavra_02027913016.html 

Celso Pinto de Melo opina

As fissuras do dólar
Entre a resiliência da divisa americana e a insatisfação internacional, a articulação dos BRICS e do Golfo Pérsico inaugura a transição para um modelo financeiro multipolar
Celso Pinto de Melo/A Terra é Redonda    

1.

Conta a lenda que um menino holandês caminhava ao longo dos diques que protegiam sua cidade quando percebeu um pequeno vazamento na estrutura. A fenda era quase invisível. Ainda assim, compreendendo o risco, colocou o dedo na fissura e permaneceu ali durante toda a noite, impedindo que a pressão da água ampliasse a abertura.

A imagem ajuda a compreender um dos fenômenos mais importantes da geopolítica contemporânea: a crescente preocupação de Washington com as tentativas de construir mecanismos econômicos parcialmente independentes do dólar.

As declarações de Donald Trump contra os BRICS, as ameaças de tarifas punitivas e a crescente utilização das sanções econômicas como instrumento de política externa não constituem fenômenos isolados. Elas refletem uma percepção crescente, dentro do próprio establishment americano, de que a hegemonia monetária dos Estados Unidos já não é inteiramente incontestável.

Durante décadas, o dólar foi tratado quase como um fenômeno natural da economia mundial. Questionar sua centralidade parecia um exercício acadêmico distante da política concreta. No entanto, a história mostra que nenhuma divisa ocupa indefinidamente o centro do sistema internacional.

A força de uma moeda raramente deriva apenas da economia. Ela costuma refletir uma combinação mais ampla de poder produtivo, liderança tecnológica, influência política e capacidade militar. Em diferentes épocas, as moedas dominantes expressaram a posição ocupada por seus países no sistema internacional.

Após a Segunda Guerra Mundial, Bretton Woods consolidou o dólar como eixo da economia internacional.[1] Em 1971, Richard Nixon rompeu unilateralmente a conversibilidade dólar-ouro. Muitos imaginaram uma crise estrutural da moeda americana. O oposto ocorreu.

Os Estados Unidos reorganizaram a centralidade global do dólar através do petróleo.[2] Ao longo da década de 1970, especialmente após os acordos com a Arábia Saudita, consolidou-se o sistema dos petrodólares. O petróleo passou a ser negociado majoritariamente em dólares, enquanto os excedentes financeiros dos exportadores retornavam ao sistema financeiro americano, sobretudo por meio de títulos do Tesouro dos EUA.

 

2.

Desde os acordos firmados entre Washington e Riad na década de 1970, a precificação internacional do petróleo em dólares tornou-se um dos pilares da arquitetura financeira global. Por isso, qualquer diversificação monetária iniciada justamente nessa região possui um significado que vai muito além do seu volume econômico imediato.

O dólar deixou de ser apenas moeda. Tornou-se a principal infraestrutura monetária internacional, constituindo um dos pilares do poder americano. Como toda infraestrutura, o dólar tornou-se quase invisível. Durante décadas, governos, empresas e mercados simplesmente passaram a utilizá-lo sem questionar sua centralidade. É justamente quando uma infraestrutura começa a ser contornada que sua importância se torna plenamente visível.

Mais do que um instrumento financeiro, passou a funcionar como a linguagem operacional da economia mundial. Bancos, reservas internacionais, contratos de energia, mercados financeiros, cadeias globais de suprimentos e sistemas internacionais de pagamento foram progressivamente organizados em torno dele.

Além de organizar a economia mundial, essa infraestrutura passou também a funcionar como instrumento de coerção internacional. Irã, Cuba, Venezuela e Rússia enfrentaram bloqueios financeiros, congelamento de ativos e restrições ao sistema internacional de pagamentos. O congelamento das reservas russas após a guerra da Ucrânia teve um efeito particularmente importante: muitos governos passaram a perceber que a ordem monetária global possuía um centro político claramente identificado.[3]

É nesse contexto que os movimentos recentes dos BRICS passam a adquirir relevância. A China acelerou a internacionalização do yuan. Diversos países ampliaram acordos bilaterais em moedas locais. Sistemas alternativos ao SWIFT começaram a surgir. Os países do Golfo aprofundaram as relações econômicas com Pequim. E cresceu a percepção de vulnerabilidade associada à dependência exclusiva da infraestrutura financeira americana.

O objetivo desses movimentos não parece ser substituir o dólar por uma nova moeda global. Trata-se, antes, de ampliar as margens de autonomia estratégica e reduzir vulnerabilidades diante de um sistema percebido como excessivamente concentrado.[4]

Nenhuma dessas mudanças, isoladamente, ameaça o domínio do dólar. O sistema financeiro americano continua sendo o maior e mais líquido do planeta. Ainda não existe um substituto pleno para a moeda americana.

Os números ajudam a colocar essa discussão em perspectiva. Segundo o FMI, aproximadamente 58% das reservas cambiais mundiais continuam denominadas em dólares,[5] enquanto a pesquisa trienal do Banco de Compensações Internacionais (BIS) mostra que a moeda americana participa de cerca de 88% das operações no mercado global de câmbio.[6] O dólar permanece, portanto, a principal infraestrutura monetária internacional.

 

3.

É justamente aí que reside o paradoxo. Se nenhuma das mais recentes iniciativas, considerada isoladamente, é capaz de substituir o dólar, por que despertam uma reação tão intensa em Washington?

A estabilidade de uma moeda internacional depende tanto da confiança quanto da escala. Quanto maior for o número de agentes que a utilizam, maior tende a ser sua utilidade para todos os demais, criando um poderoso efeito de rede. Quando diversos atores passam a construir alternativas, ainda que pequenas, esse mecanismo começa lentamente a perder força. Não se trata apenas do volume atual das transações, mas também da possibilidade de que a dependência deixe de parecer inevitável.[7]

A razão para a inquietação talvez esteja menos no volume atual dessas iniciativas do que na dinâmica que elas inauguram. Talvez porque o problema não seja o tamanho atual das rachaduras, mas o precedente que elas estabelecem.

Grandes ordens internacionais raramente entram em colapso quando surge um competidor equivalente. Elas começam a perder estabilidade quando atores cada vez mais numerosos descobrem que já não precisam depender exclusivamente do sistema existente.

Para países como o Brasil, essa discussão possui uma enorme relevância. Mudanças na arquitetura monetária internacional afetam o financiamento do desenvolvimento, o comércio exterior, a gestão das reservas internacionais e a margem de autonomia das políticas econômicas nacionais.

Mas hegemonias não costumam entrar em crise de maneira súbita. O que começa a emergir é algo mais sutil: a multiplicação gradual de pequenas fissuras. É por isso que os movimentos no Golfo Pérsico possuem um peso simbólico particular.

Talvez na região esteja o aspecto mais simbólico desse processo. Não por causa do volume imediato das transações, mas porque foi justamente ali que se consolidou, nos anos 1970, um dos pilares históricos da ordem dos petrodólares. Durante décadas, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar atuaram como pilares centrais da ordem do petrodólar. Hoje, porém, começam a diversificar as moedas, a ampliar as negociações em moedas locais e a aprofundar as relações estratégicas com a China e os BRICS.

O movimento é importante não apenas financeiramente, mas também psicologicamente. O Golfo não estava na periferia da arquitetura monetária americana. Era parte central dela.

Ao mesmo tempo, energia, inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, data centers e infraestrutura digital passam a formar um único ecossistema geopolítico integrado. A disputa contemporânea deixou de ser apenas monetária. Tornou-se infraestrutural.

 

4.

O dólar nunca existiu isoladamente. Assim como a libra esterlina em seu tempo, ele integra um ecossistema mais amplo de poder que articula finanças, tecnologia, energia, capacidade militar e influência diplomática. É justamente esse ecossistema que começa a sofrer pressões crescentes.

Sob essa perspectiva, muitas tensões aparentemente desconexas revelam uma coerência sistêmica: rivalidade tecnológica com a China, sanções econômicas, guerra tarifária, disputa por semicondutores, formação de corredores minerais e reorganização das cadeias produtivas integram um mesmo movimento histórico.

O verdadeiro adversário do dólar não é outra moeda. É a descoberta de que a atual infraestrutura monetária internacional deixou de ser a única possível. O sistema do dólar continua extraordinariamente poderoso. Nenhum acordo bilateral em moeda local destruirá a moeda americana. Nenhuma iniciativa isolada dos BRICS substituirá o sistema financeiro dos Estados Unidos.

Mas talvez o verdadeiro significado histórico do nosso tempo esteja justamente na multiplicação desses pequenos pontos de erosão. Grandes estruturas raramente desmoronam porque alguém as derruba frontalmente. Em geral, começam a enfraquecer quando o restante do mundo descobre maneiras alternativas de contorná-las.

Para o Brasil, a questão central não é apostar contra o dólar nem imaginar um colapso iminente da ordem financeira internacional. É compreender que períodos de transição sistêmica costumam abrir espaços inéditos para países intermediários.

A ampliação dos BRICS, a diversificação monetária e a reorganização das cadeias produtivas globais representam riscos, mas também oportunidades. Em momentos como este, a questão decisiva não é prever o fim de uma hegemonia, mas identificar quais capacidades nacionais precisam ser construídas para atuar em um mundo mais complexo, competitivo e multipolar.

O problema dos diques nunca foi a existência de uma única fissura. Sempre foi a pressão acumulada da água.

Toda hegemonia parece eterna até o dia em que deixa de parecer inevitável.

Grandes diques raramente cedem devido ao primeiro vazamento. Eles cedem quando a água descobre que existe uma passagem.

*Celso Pinto de Melo é professor titular de física aposentado da UFPE e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Notas


  1. Eichengreen, B., Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar and the Future of the International Monetary System. 2011, Oxford: Oxford University Press.
  2. Spiro, D.E., The Hidden Hand of American Hegemony: Petrodollar Recycling and International Markets. Cornell Studies in Political Economy. 1999, Ithaca: Cornell University Press.
  3. Atlantic, C., Will Economic Statecraft Threaten Western Currency Dominance? Sanctions, Geopolitics and the Global Role of the Dollar. 2022, Atlantic Council GeoEconomics Center: Washington, DC.
  4. Stuenkel, O., The BRICS and the Future of Global Order. 2015, Lanham: Lexington Books.
  5. International Monetary, F., Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves (COFER). 2026, International Monetary Fund: Washington, DC.
  6. Bank for International, S., Triennial Central Bank Survey of Foreign Exchange and Over-the-counter (OTC) Derivatives Markets: 2025. 2025, Bank for International Settlements: Basel.
  7. Prasad, E.S., The Future of Money: How the Digital Revolution Is Transforming Currencies and Finance. 2021, Cambridge, MA: The Belknap Press of Harvard University Press.

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Avanço do comércio internacional chinês desafia barreiras dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/china-x-eua.html

Sylvio: Lei de Talião

O governo brasileiro deve responder com a reciprocidade ao ataque dos Estados Unidos impondo novas tarifas ao Brasil. Somos uma nação livre e soberana, o que nos dá o direito de aplicar a lei de Talião, ou seja, "dente por dente e olho por olho". É uma justa resposta à agressão de Trump e seu desejo de dominar o mundo.

Sylvio Belém  

Governo Lula defende o Brasil contra o tarifaço Trump-Bolsonaro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/editorial-do-vermelho_025789528.html 

Indústria afetada pelo tarifaço

Brasil rechaça alegações de trabalho forçado para tarifas de 12,5% dos EUA
Sobretaxa por pretexto de omissão contra trabalho forçado se soma aos 25% anteriores, soma 37,5% sobre a indústria e provoca forte reação do governo brasileiro
Davi Dmolir/Vermelho  

O governo brasileiro reagiu de forma firme e rejeitou integralmente a narrativa norte-americana para aplicação de novas tarifas ao país. Em nota oficial divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty denunciou o uso político do tema ao afirmar que, “na ausência de base legal interna para sustentar sua política comercial protecionista, o USTR optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais”.

Em resposta ao protecionismo unilateral, o Brasil avalia o acionamento do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC). Além disso, o governo federal estuda a aplicação dos instrumentos da Lei de Reciprocidade Comercial, aprovada em 2025, que autoriza contramedidas proporcionais sobre tarifas, investimentos e direitos de propriedade intelectual contra nações que imponham barreiras arbitrárias ao comércio brasileiro.

O anúncio da tarifa foi feito nesta quarta-feira (23), com um adicional de 12,5% sobre a maior parte das exportações brasileiras. A medida, formalizada pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), foi tomada sob a alegação de que o Brasil não possui e não faz cumprir uma proibição legal expressa para barrar a importação de bens produzidos com trabalho forçado de outras economias.

A nova alíquota ganha gravidade pela sua sobreposição direta a barreiras anteriores. Como o país já havia sido atingido dias antes por uma taxa de 25% (provocada em medida com objetivos também políticos, por pressão do clã Bolsonaro e  sob pretexto de divergências sobre comércio digital, propriedade intelectual, etanol e desmatamento), a sobretaxa anunciada, agora, acrescenta uma carga tarifária bruta de 37,5% em setores centrais da indústria nacional, incluindo calçados, máquinas, equipamentos, confecções e químicos não farmacêuticos.  O novo imposto entra em vigor a partir do primeiro minuto desta sexta-feira (24).

A taxação sobre o Brasil foi enquadrada no âmbito de investigações da Seção 301 do Trade Act de 1974, abertas em março de 2026 contra 60 economias. Na prática, a administração do presidente Donald Trump utiliza o dispositivo como atalho protecionista para substituir as tarifas multilaterais que foram invalidadas e cassadas pela Suprema Corte norte-americana, originalmente embasadas no International Emergency Economic Powers Act (IEEPA).

O próprio relatório do USTR admite a contradição da medida ao reconhecer que o Brasil cumpre compromissos em acordos de investimento e livre comércio. Contudo, em documento oficial publicado pelo órgão, o governo americano alega que tais dispositivos “não proíbem legalmente a importação de bens produzidos total ou parcialmente com trabalho forçado de outra economia para comercialização no mercado interno”, exigindo que os parceiros internacionais repliquem o modelo punitivo da legislação norte-americana.

Analistas e especialistas nos próprios Estados Unidos questionam abertamente a legitimidade e a eficácia das sobretaxas. Ed Gresser, ex-assistente do USTR e especialista em comércio do Progressive Policy Institute, classificou as determinações da Seção 301 sobre trabalho forçado como “irreparavelmente falhas” em estudo publicado pela entidade, estimando que a medida pode custar cerca de US$ 100 bilhões anuais aos compradores americanos. No mesmo tom, Scott Lincicome, vice-presidente de estudos de economia do Cato Institute, descreveu o expediente em análise divulgada pelo instituto como “outra rodada de tarifas fictícias” (sham tariffs), manipuladas para recriar a carga sobretaxada derrubada pela Justiça dos EUA.

Indústria manufatureira sofre o principal impacto

Com a sobreposição das duas medidas, a tarifa efetiva média sobre os produtos brasileiros atingiu picos próximos de 18% e se estabilizou em patamares elevados. O peso da alíquota cumulativa de até 37,5% recai quase integralmente sobre a indústria de transformação, enfraquecendo a competitividade dos manufaturados nacionais.

O setor de calçados figura entre os mais prejudicados, tendo o mercado norte-americano como seu principal destino externo. A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) revisou a projeção para 2026, elevando a retração esperada das exportações de 3,6% para 7,1%. Em comunicado oficial distribuído pela entidade, o presidente-executivo Haroldo Ferreira apontou o impacto direto nas empresas ao destacar que “a aplicação desta tarifa adicional reduz significativamente a competitividade do calçado brasileiro nos EUA e inviabiliza muitas operações que vinham sendo retomadas”.

Efeito semelhante atinge o setor de confecções e têxteis. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) alerta que a perda de mercado nos Estados Unidos pode acelerar a transferência de etapas produtivas para países vizinhos do Mercosul, como o Paraguai, que não foram alcançados pela sobretaxa dirigida especificamente ao Brasil. Máquinas, equipamentos, componentes e químicos não farmacêuticos enfrentam perdas equivalentes.

A seletividade da medida fica evidente na proteção conferida a suprimentos vitais para a economia americana. Produtos de grande peso na pauta bilateral, como aeronaves e peças da Embraer, petróleo, carne bovina, café, suco de laranja e insumos farmacêuticos, permaneceram isentos ou com tratamento favorecido, demonstrando que o protecionismo fustiga a manufatura de maior densidade de mão de obra e preserva o abastecimento interno dos EUA.

Ineficácia interna escancara a hipocrisia de Washington

A contradição do pretexto norte-americano fica exposta na própria ineficácia e desproporção da fiscalização realizada dentro dos Estados Unidos. Dados oficiais da U.S. Customs and Border Protection (CBP) revelam que o valor de embarques interrompidos por suspeita de importações de produtos advindos de trabalho escravo nos portos americanos é irrisório: somou US$ 1,75 bilhão em 2024 e caiu para valores ainda menores em 2025 e 2026 – uma fração insignificante diante dos trilhões de dólares em mercadorias “manchadas”  importadas anualmente pelo país.

Estudos de organizações internacionais e relatórios do próprio governo norte-americano admitem que o mercado dos EUA absorve volumes colossais de produtos contaminados por trabalho forçado através de esquemas de triangulação comercial e fraudes de origem em países terceiros. Ao aplicar retaliações tarifárias amplas contra 59 nações e a União Europeia, enquanto falha em conter a entrada de bens irregulares em seu próprio território, Washington evidencia a hipocrisia da medida, que utiliza a pauta dos direitos humanos apenas como fachada para erguer barreiras protecionistas.

Avanço da diversificação

Enquanto Brasília articula a defesa diplomática e legal, o mercado exportador acelera a busca por alternativas. No primeiro semestre de 2026, a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu para 9,4%, atingindo o menor nível da série histórica iniciada em 1997. No sentido oposto, a China absorveu a fatia redistribuída e consolidou-se ainda mais como o principal destino das mercadorias nacionais.

Em análise sobre a conjuntura do comércio exterior, o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral destacou que as barreiras impostas por Washington aceleram um movimento necessário de reorganização geográfica, transformando a gestão comercial em uma estratégia de “portfólio geográfico de risco” para mitigar dependências. Na mesma linha, o pesquisador Leonardo Paz, do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), avaliou em declarações à imprensa que a perda de espaço do mercado norte-americano reflete uma reconfiguração estrutural, observando que “a perda de protagonismo dos EUA era inevitável com a ascensão da China como principal parceiro comercial do Brasil desde 2009”.

Ao utilizar bandeiras sociais e de direitos humanos como pretexto para erguer barreiras unilaterais, os Estados Unidos expõem as contradições de sua política externa. O Brasil, que conta com mecanismos rigorosos de combate ao trabalho escravo e fiscalização permanente em seu território, responde à arbitrariedade com a defesa intransigente de sua soberania e a expansão de seus laços comerciais com novos parceiros globais.

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Governo Lula defende o Brasil contra o tarifaço Trump-Bolsonaro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/editorial-do-vermelho_025789528.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Entreguismo desavergonhado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0871197417.html 

Enio Lins opina

O Mapa da Fome da ONU e o Brasil novamente fora dele
Enio Lins   

UMA NOTÍCIA MUITO IMPORTANTE ficou semioculta na mídia nos últimos dias. Divulgada gigantesca discrição, há sete dias, escondida entre matérias menores nos maiores veículos nacionais, sussurra-se que “o Brasil continua fora do Mapa da Fome”.

PARECE COISA BANAL O BRASIL
seguir fora da lista de países com maior ocorrência da subnutrição. Afinal, afastar da fome um número expressivo dos brasileiros em situação de miséria, é tido como obrigação básica, elementar, do governo federal. E é. Mas não pode ser esquecido que, por muitos e muitos anos, o Brasil teve lugar cativo entre os países onde a falta de comida comprometia a saúde de parcela significativa de sua população.

RECAPITULANDO: A ONU,
via a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), publica o Mapa da Fome no mundo desde 1999. “O relatório é divulgado anualmente no documento O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo (SOFI), que inclui países, ou territórios, no mapeamento da fome mundial quando a proporção de sua população sem acesso à quantidade mínima de calorias fica acima de 2,5% em condição de subalimentação crônica. Abaixo desse percentual, considera-se que o problema foi superado”, conforme as enciclopédias virtuais informam.

ANTES DA ONU CRIAR O MAPA DA FOME,
a questão subalimentar brasileira foi explicitada e definida como um gravíssimo problema social e político pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. Exilado desde 1971, foi citado como “o irmão do Henfil” pelos compositores João Bosco e Aldir Blanc na canção “O Bêbado e a Equilibrista”, sucesso gravado em 1979 por Elis Regina: “Meu Brasil / que sonha com a volta do irmão do Henfil / com tanta gente que partiu…”. A música virou o hino pela Anistia em favor das pessoas perseguidas pela ditadura militar implantada em 1964. Betinho, anistiado, voltou ao Brasil no mesmo ano de 1979. Transformado em celebridade (seus longos anos de militância política na esquerda foram discretos e distantes do noticiário), dedicou-se à militância social e passou a focar no combate à fome.

BETINHO, O IRMÃO DE HENFIL,
em 1981, fundou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Em 1993, com base nos estudos realizados pelo IPEA, criou a ONG “Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida”, e lançou a campanha “Brasil Sem Fome”, alertando para a realidade de que 32 milhões de pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza. Ainda em 1993, Maceió – por inciativa do então prefeito Ronaldo Lessa – foi uma das primeiras cidades brasileiras a estabelecer contato com Betinho para incluir a capital alagoana no esforço de combate à fome.

QUANDO, EM 1999, A ONU
lançou o Mapa da Fome, e incluindo nele o Brasil, confirmado os estudos do IPEA, Betinho já havia morrido (em 1977). E, apenas em 2003, a questão da subnutrição foi encarada como política do governo federal, através do Programa Fome Zero, lançado oficialmente em 3 de fevereiro daquele ano, durante o primeiro mandato de Lula como presidente da República. O lançamento do projeto-piloto ocorreu no município de Guaribas, no estado do Piauí, uma das cidades mais pobres do país na época.

EM 2014, OS PRIMEIROS
resultados do esforço federal, ao longo de mais de 10 anos, finalmente afloraram, e o Brasil conquistou a meta de ficar de fora do Mapa da Fome. Era o governo Dilma Roussef. Em 2021, a vergonha: o Brasil voltou a ser incluído no Mapa da Fome, registrando 3,4% da população em insegurança alimentar grave – resultado do desgoverno do Jair, atual presidiário. Finalmente, no período 2025/2026, foi reconquistada a exclusão brasileira do famigerado Mapa da Fome, e consolidando o menor índice de insegurança alimentar severa da série histórica. Uma tremenda vitória do terceiro mandato Lula da Silva e que precisa ser tirada do Mapa do Silêncio.

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