04 novembro 2026

Motivos não faltam

Mídia norte-americana destaca altos preços da gasolina, a guerra impopular no Irã e a inflação persistentemente elevada como principais razões para a derrota dos republicanos. A crescente-se a rejeição crescente ao próprio Donald Trump. 

Trump derrotado além do previsto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/trump-na-lona.html 

Palavra de poeta

ARTE POÉTICA 
Vicente Huidobro     

Que o verso seja como uma chave
Que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
Quanto fitem os olhos criado seja,
E a alma de quem ouve fique tremendo.

Inventa mundos novos e cultiva a palavra;
O adjetivo, quando não dá vida, mata.

Estamos no ciclo dos nervos.
O músculo pende,
Como lembrança, nos museus;
Mas nem por isso temos menos força:
O vigor verdadeiro
Reside na cabeça.

Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema.

Somente para nós
Vivem as coisas sob o sol.

O Poeta é um pequeno deus.

[Iustração: Edgar Degas]

Leia também: "O bolero e o mar", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_30.html 

Bom sinal

Esquerda no Partido Democrata
Luciano Siqueira    

Parte do resultado das urnas nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, a ampliação do grupo de parlamentares de esquerda (Socialistas Democráticos da América - DSA) e à ala mais progressista na Câmara dos Representantes.

O grupo sustenta propostas como ampliação e universalização do acesso à saúde pública; combate à desigualdade económica e tributação dos super-ricos; transição ecológica e justiça climática; direitos trabalhistas e fortalecimento dos sindicatos.

Um passo adiante.

Trump: megalomania e crueldade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/trump-megalomania-e-crueldade.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Vitória democrata não retira de Trump poder de veto e guerra https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/trump-x-parlamento.html 

Prejuízo

Financiadoras bilionárias de candidatos republicanos, SpaceX e Tesla têm valores de suas ações reduzidos em mais de 5% após derrota nas eleições. 

Trump derrotado além do previsto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/trump-na-lona.html  

As dimensões do voto

Da república dos coronéis ao algoritmo
O voto não é um espelho automático da economia, mas tampouco flutua acima dela. Expressa escolhas individuais em uma sociedade atravessada por desigualdades, identidades, interesses e expectativas em transformação
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda    

Nos 137 anos de existência da República brasileira, o voto percorreu diferentes geografias, acompanhando as transformações do capitalismo no país. Originalmente, a hegemonia das oligarquias agrárias expressou a importância dos poderes locais até a passagem para a sociedade industrial, quando entre as décadas de1930 e 1980 ocorreu a ascensão dos trabalhadores urbanos e da classe média assalariada, sobretudo nas regiões litorâneas do sul-sudeste do país.

Desde os anos de 1990, com a dominância do receituário neoliberal, a sociedade industrial foi cedendo lugar por força da retomada do modelo econômico primário-exportador compatível com o ineditismo da disseminação dos serviços digitais por grande parte do território da nação. Para cada mudança profunda na estrutura econômica nacional, pode-se constatar as consequências nas bases sociais, territoriais e culturais da disputa pelo poder.

A hipótese que orienta esta análise é que as mudanças no padrão de desenvolvimento não transformam apenas a produção e o trabalho, pois reorganizam também interesses, identidades, relações de poder e formas de participação política. O Brasil dos coronéis, o Brasil das fábricas e o Brasil das commodities conectadas às redes digitais correspondem a diferentes configurações do capitalismo e a distintas geografias eleitorais.

Importante ressaltar que a economia não determina mecanicamente o voto. Mas tampouco o voto pode ser compreendido à margem das mudanças na distribuição da riqueza, na organização do trabalho e na localização dos centros de dinamismo econômico. Quando a economia muda de lugar, o poder pode mudar de mãos e as urnas se tornam um dos espaços geográfico em que essa transformação se manifesta.

Do coronel ao trabalhador industrial

Na Primeira República, entre 1889 e 1930, a economia brasileira permanecia fortemente vinculada à exportação de produtos primários, sobretudo o café. A concentração da propriedade da terra e a influência das oligarquias estaduais sustentavam relações de poder que restringiam a autonomia política de grande parte da população. O coronelismo, o clientelismo e a manipulação eleitoral faziam do voto um instrumento de reprodução das hierarquias locais.

Em Coronelismo, enxada e voto, Victor Nunes Leal analisou como a estrutura agrária e as relações de dependência entre proprietários e trabalhadores ajudavam a converter poder econômico em influência eleitoral. A República aboliu a exigência de renda para votar, mas manteve restrições importantes para mulheres e analfabetos e outros grupos que permaneceram excluídos do eleitorado. A proclamação do novo regime em substituição ao período monárquico não significou a universalização da cidadania política.

A partir da Revolução de 1930, a industrialização, urbanização e intervenção estatal começaram a modificar essa estrutura pregressa. Entre as décadas de 1930 e 1980, milhões de brasileiros migraram do campo para as cidades. Fábricas, comércio e serviços urbanos ganharam importância, e o trabalhador assalariado tornou-se protagonista de novas disputas sociais, especialmente nas regiões litorâneas do sul-sudeste.

O trabalhismo, os sindicatos e os movimentos populares expressaram a emergência de interesses ligados ao emprego, aos salários, à previdência e aos direitos sociais. Mais tarde, a reorganização sindical e as mobilizações urbanas contribuíram para a formação de novas forças políticas, entre elas o Partido dos Trabalhadores em pleno auge da sociedade urbana e industrial no país.

A industrialização não produziu automaticamente a democracia. A ditadura civil-militar demonstrou que a modernização econômica podia coexistir com a repressão política. Ainda assim, a transformação produtiva alterou a composição social do país e ampliou as bases para a organização coletiva dos trabalhadores e a disputa por direitos.

Da fábrica à plataforma digital

A partir dos anos 1990, a abertura econômica, a reestruturação produtiva, a financeirização e a expansão das tecnologias digitais modificaram o padrão de desenvolvimento brasileiro. A indústria não desapareceu, mas perdeu participação relativa, enquanto os serviços ampliaram sua presença na economia e no emprego, o que comprometeu a antiga base social assentada nas classes média assalariada e trabalhadora na manufatura.

A fragmentação das relações laborais enfraqueceu parte das bases tradicionais de organização coletiva. Trabalhadores informais, prestadores de serviços, profissionais especializados, pequenos empreendedores e pessoas dependentes de plataformas digitais passaram a compor um universo ocupacional heterogêneo. A experiência comum da fábrica perdeu centralidade diante de formas mais dispersas de inserção econômica, inclusive com o avanço de atividades econômicas no próprio domicílio.

Ao mesmo tempo, as plataformas digitais alteraram a circulação de informações e a formação da opinião pública. Algoritmos, redes sociais e sistemas de recomendação passaram a integrar o ambiente em que identidades políticas são construídas e disputas eleitorais acontecem.

Mas a economia digital não substituiu a produção material. Inteligência artificial, satélites, automação, sistemas logísticos e plataformas financeiras também transformam a mineração, a agricultura e a pecuária. O algoritmo conecta a economia informacional à exploração de recursos naturais, à produção de alimentos e à circulação global de mercadorias. E é nessa combinação entre alta tecnologia, serviços digitais e exportação de produtos primários que emerge uma das principais contradições do Brasil contemporâneo.

Enquanto a indústria perdia dinamismo relativo, a mineração e a agropecuária ampliavam sua importância econômica e territorial. A expansão dessas atividades fortaleceu economias regionais, estimulou cidades do interior e aumentou a demanda por energia, crédito, transportes, infraestrutura e serviços especializados.

O sentido de uma marcha para o Oeste ganhou um novo significado. Não se trata apenas de ocupar terras e abrir estradas, mas de integrar territórios às cadeias globais de extração, produção e exportação. A mineração conecta regiões brasileiras à demanda internacional por recursos minerais, ao passo que a agricultura e pecuária abastecem mercados externos com grãos, carnes e outros produtos.

Essas atividades possuem dinâmicas próprias, mas compartilham a capacidade de reorganizar o território, atrair investimentos e influenciar decisões sobre infraestrutura, uso da terra e políticas públicas. Por conta disso, novos centros de acumulação de riqueza e poder emergem no interior cada vez mais vinculados aos mercados internacionais de commodities que correspondem por parte crescente do dinamismo econômico nacional, outrora concentrado nas metrópoles do litorâneas do Sul-Sudeste por conta da industrialização.

Isso não representa simplesmente um retorno ao passado agrário. A produção mineral e agropecuária contemporânea utiliza capital, conhecimento e tecnologias avançadas. A questão é saber se essa modernização será acompanhada pela complexidade, integração e diversificação da estrutura produtiva que permita agregação de valor e criação de postos de trabalho de qualidade.

O paradoxo brasileiro é modernizar a produção sem transformar, na mesma intensidade, a estrutura produtiva. É possível utilizar inteligência artificial e automação para ampliar a produção agropecuária e mineral sem desenvolver, na mesma proporção, uma estrutura produtiova complexa, integrada e diversificada, capaz de reduzir a dependência tecnológica externa.

Commodities e voto – uma nova geografia eleitoral?

A redistribuição territorial do dinamismo econômico suscita uma questão a respeito da possível modificação da geografia do poder eleitoral no Brasil. O resultado das eleições de 2026 apresenta diferenças entre municípios e regiões que oferecem pistas para investigar essa relação. Territórios vinculados à mineração e às cadeias agroexportadoras podem reunir interesses associados ao crédito, à infraestrutura, à tributação, ao licenciamento ambiental, à propriedade da terra e à regulação do trabalho. Em outros lugares, a renda do trabalho, os serviços públicos e as políticas de proteção social podem ocupar posição central nas preocupações da população.

Não há, contudo, uma correspondência automática entre atividade econômica e preferência política. Um município minerador ou agropecuário reúne trabalhadores, empresários, agricultores familiares, comerciantes e servidores públicos com interesses distintos. A predominância de determinado setor não determina o voto de cada indivíduo, e uma coincidência territorial entre produção e resultado eleitoral não comprova causalidade.

O que importa, contudo, é investigar em que medida a expansão de certas atividades favorece novas coalizões sociais, identidades políticas e formas de organização dos interesses econômicos. A disputa não opõe simplesmente campo e cidade. Ela envolve diferentes projetos de desenvolvimento e maneiras distinta de distribuir os benefícios e os custos da atividade econômica.

A riqueza mineral e agropecuária pode, por exemplo, financiar infraestrutura, ciência e diversificação produtiva, mas também coexistir com concentração de renda, conflitos territoriais e dependência de mercados externos. O mapa eleitoral, portanto, pode ajudar a compreender como a transformação do capitalismo reorganiza as forças sociais que disputam atualmente o Estado.

A mudança da geografia econômica também repercute na cultura. A música sertaneja consolidou-se como uma das grandes forças da indústria cultural brasileira, acompanhando a projeção econômica e simbólica do interior.

O samba, bossa nova e MPB contribuíram para projetar imaginários nacionais associados às grandes cidades. A música sertaneja contemporânea, por sua vez, tornou-se uma indústria conectada a plataformas digitais, grandes eventos, publicidade e mercados consumidores de todo o país.

Não cabe opor mecanicamente uma cultura progressista do litoral a outra conservadora do interior. Os públicos são diversos, e as manifestações culturais não correspondem a blocos políticos homogêneos. O relevante é perceber que a transformação dos centros econômicos modifica mercados culturais, símbolos de pertencimento e linguagens de identificação coletiva.

A cultura não apenas reflete a economia, uma vez que participa da construção de identidades e afinidades políticas. Quando novos territórios conquistam centralidade econômica e cultural, ampliam sua capacidade de projetar referências sobre o conjunto da sociedade.

Qual Brasil chegou às urnas?

A história eleitoral brasileira também integra a trajetória das transformações das forças sociais que disputam o Estado. A sociedade agrária foi marcada pelo poder das oligarquias rurais. A industrialização fortaleceu classes medias assalariadas e trabalhadores urbanos, ampliando as disputas em torno dos direitos sociais. A reestruturação produtiva, os serviços digitais e a expansão das atividades primário-exportadoras acrescentam novas dimensões a essa trajetória.

A questão central é compreender como mineração, agronegócio, finanças e plataformas digitais reorganizam os interesses econômicos, as relações sociais e as formas de participação política. O desafio não é negar a importância desses setores, mas investigar como sua riqueza e capacidade tecnológica podem contribuir para diversificar a economia, ampliar oportunidades e reduzir desigualdades territoriais.

O Brasil pode articular recursos naturais, ciência, indústria e inovação em um projeto de desenvolvimento que agregue valor à produção e amplie a inclusão social. Também pode aprofundar uma inserção internacional concentrada na exportação de produtos primários, mantendo dependências tecnológicas estratégicas.

Essas alternativas envolvem escolhas econômicas e institucionais cujos efeitos alcançam a distribuição da riqueza, as oportunidades de trabalho e a organização dos interesses sociais. O voto não é um espelho automático da economia, mas tampouco flutua acima dela. Expressa escolhas individuais em uma sociedade atravessada por desigualdades, identidades, interesses e expectativas em transformação.

A pergunta, portanto, não é apenas quem conquista mais votos, mas como as mudanças na produção, no trabalho, na cultura e no território redefinem as condições em que os brasileiros formam suas escolhas políticas. Se a economia agrária sustentou a República dos coronéis e a industrialização ajudou a constituir o eleitor da sociedade urbana, quem está formando o eleitor da sociedade digital e primário-exportadora?

Responder a essa questão exige olhar para além das urnas. Precisa compreender o país que a economia está construindo e a geografia de poder que essa transformação faz emergir sob a ordem democrática em disputa.

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Mergulhar fundo para avançar na superfície https://lucianosiqueira.blogspot.com/2024/11/meu-artigo-no-portal-da-fundacao.html 

Arte é vida

 

Maurício Arraes

Das arquibancadas também nasce a resistência e a luta antifascista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/camila-santiago-opina.html