13 maio 2026

Entraves a superar

Por que a economia brasileira tem voo de galinha?
O custo do dinheiro e o Brasil que poderia ter sido
Luís Nassif/Jornal GGN   

O ponto de partida: a diferença de spread

O spread médio brasileiro em crédito livre para pessoas físicas e empresas ficou, nos últimos anos, frequentemente entre 25 e 35 pontos percentuais. Na França, o spread típico ficou perto de 2 a 4 pontos. A diferença estrutural é de aproximadamente 27 pontos percentuais — não é um pedágio, é um tributo imperial sobre toda atividade econômica.

O que vamos fazer é imaginar o que o Brasil poderia ter sido se o sistema bancário brasileiro tivesse um spread francês. 

Peça 1 — Sistema bancário

Os cinco maiores bancos brasileiros somaram cerca de R$ 150 bilhões de lucro líquido em 2023–2024. Seus ROEs ficam entre 16% e 25%, bem acima dos europeus, que operam entre 6% e 12%. Em relação ao PIB, o lucro do sistema bancário brasileiro representa 1,3% a 1,7% — contra 0,3% a 0,6% na França.

Se operassem com spread francês e mesmo volume de crédito, o lucro cairia para R$ 35–60 bilhões — redução de 60% a 75%. O que os bancos recusam considerar é o ganho de escala: com spread menor, o volume de crédito cresceria substancialmente, moderando a queda para um intervalo de R$ 80–110 bilhões.

Peça 2 — Indústria

O estoque de crédito para a indústria oscilou entre R$ 600 bilhões e R$ 1,5 trilhão na última década. O spread industrial brasileiro ficou entre 8% e 15%; o francês, entre 1% e 3%. A diferença estrutural média é de 8 a 10 pontos percentuais.

O excesso de spread drenou da indústria aproximadamente R$ 90 bilhões por ano. Em dez anos, R$ 900 bilhões a R$ 1,2 trilhão. Para efeito de comparação: o investimento industrial total no período foi de aproximadamente R$ 1,7 trilhão. Ou seja, para cada R$ 10 investidos pela indústria, entre R$ 5 e R$ 7 foram drenados em custo financeiro extraordinário. 

O investimento industrial teria sido 50% a 70% maior. A indústria de transformação, que chegou a 27% do PIB nos anos 1980 e hoje gira em torno de 10%, poderia estar 20% a 30% maior do que está. 


Peça 3 — Mercado de capitais

A capitalização via mercado de ações depende diretamente do custo do dinheiro. Quando a Selic despencou no período Dilma, os fundos de pensão montaram mesas específicas para renda variável. Com o retorno às taxas estratosféricas após 2016, o capital estrangeiro voltou a se concentrar em títulos públicos — que praticamente dobraram de US$ 105,7 bilhões para US$ 234,9 bilhões entre 2015 e 2024 — enquanto a posição em ações estagnou entre US$ 62 e US$ 88 bilhões. A razão ações/títulos caiu de 55% para 27% em dez anos: o capital especulativo prefere a renda garantida da Selic ao risco produtivo. 



Peça 4 — Comércio e consumo

Com spread francês no crédito ao consumidor, o alívio anual de juros seria de R$ 250 a R$ 450 bilhões. Aplicando a propensão a consumir de 65% a 80%, a injeção anual no varejo seria de R$ 160 a R$ 360 bilhões — o equivalente a um aumento de vendas de 6% a 8% ao ano sobre uma base de R$ 3,5 a R$ 4,5 trilhões de receita do varejo ampliado. 

Peça 5 — O impacto no PIB

Conta estática — somando os ganhos setoriais com ajuste por importações, poupança e vazamentos (eficiência líquida de 50% a 80%): 
Conta dinâmica — o dinheiro não entra uma vez; ele gira. Consumidor paga menos juros → sobra renda → comércio vende mais → indústria produz e investe mais → emprego e salários sobem → arrecadação cresce sem elevação de alíquota. Cinco rodadas de multiplicação:

Em valores atuais, com PIB de R$ 12 trilhões, o cenário central representa R$ 3 a R$ 4,2 trilhões a mais de produto anual ao fim do período.

Síntese

O spread alto é uma trava dupla: reduz a demanda hoje e impede o investimento que aumentaria a oferta amanhã. Os dois movimentos — bancos entre os mais rentáveis do mundo e indústria com participação no PIB pela metade em quarenta anos — não são coincidência estatística. São dois lados da mesma transferência estrutural de renda.

Com spread francês, o Brasil não teria apenas consumido mais. Teria reconstruído parte de sua base produtiva.

Nos próximos dias, vamos mostrar as razões que levaram a Selic a se amarrar ao câmbio e os spreads bancários baterem todos os recordes mundiais. E qual o caminho para romper com essa amarra.

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PCdoB lança programa de reformas para romper com o neoliberalismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/pcdob-atualiza-rumos.html

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Editorial do 'Vermelho'

Inconstitucional, Lei da Dosimetria premia o golpismo. STF deve impugná-la
Abrandamento da pena a Jair Bolsonaro e demais criminosos fragiliza defesa da democracia e incentiva novas tentativas de golpes
Editorial do 'Vermelho'     

O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) deverá julgar, em breve, as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) que propõem impugnar a Lei da Dosimetria promulgada pelo presidente do Congresso Nacional após a derrubada do veto do presidente Lula que anulava essa afronta à Constituição Federal.

O veredicto do STF terá consequências relevantes para o presente e o futuro da luta pela democracia e pelo Estado Democrático de Direito. Os benefícios aos condenados, além de violar a legalidade democrática, afrontam a soberania popular, que tem demonstrado amplamente opinião contrária às manobras favoráveis aos golpistas.

Em defesa do regime democrático foram apresentadas ações pelos partidos PCdoB, PT, PV, da Federação Brasil da Esperança, pelo PSOL e Rede Sustentabilidade, também federados, pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e pelo PDT.  A ADI protocolada pelos partidos da Federação Brasil da Esperança sustenta que há normas que ferem diretamente a Constituição e procedimentos de elaboração da lei, que resultam em inconstitucionalidade.

As alterações na Lei de Execução Penal excluem os crimes contra o Estado Democrático de Direito das normas mais severas para progressão de regime penitenciário, mesmo quando praticados com violência ou grave ameaça. Também foram acrescentados artigos no Código Penal determinando que, em caso de condenação simultânea por crimes de tipologias diferentes contra o Estado Democrático de Direito (como abolição violenta e golpe de Estado), não haverá soma, com a pena do crime mais grave absorvendo a do menos grave.

Outra mudança refere-se à diminuição de pena para os delitos contra o Estado Democrático de Direito cometidos em “contexto de multidão”, determinando que nesses casos não haverá a soma das penas de diferentes crimes cometidos no mesmo evento. A medida beneficia os réus ao impedir o acúmulo de condenações, reduzindo a pena final e facilitando a progressão de regime prisional.

Quanto aos procedimentos, houve a violação do princípio do bicameralismo pela decisão do Senado de promover alteração substancial no texto originalmente aprovado pela Câmara dos Deputados, sem devolver o Projeto de Lei para nova deliberação dos deputados. O Senado também, ao apreciar o veto integral do presidente da República, fez uma manobra, fatiando a votação, acarretando a conversão do veto integral em veto parcial.

Por não existir previsão constitucional para que um veto presidencial seja modificado pelo Congresso, a deliberação sobre o veto é nula. Quanto a esse último aspecto, vale lembrar que desde a origem do Projeto a extrema-direita e seus aliados pretendiam beneficiar tanto os golpistas quantos bandidos do pior naipe, como é caso de integrantes de facções criminosas. Devido à pressão da opinião pública, na última hora tiveram que recuar.

A resultante é que se fragiliza a defesa da democracia, pois se institui um regime que agracia com penas brandas crimes contra o Estado Democrático de Direito. Passa-se a mensagem de que o golpismo compensa.

O ministro Alexandre de Moraes decidiu não examinar o pleito dos condenados para imediata redução penal, até que o STF delibere sobre as ADIs. A oposição bolsonarista reagiu com ameaças. O líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ), busca coletar assinaturas para a apresentação de uma PEC da Anistia.

Por sua vez, o senador Carlos Viana (PSD-MG) protocolou um pedido de urgência para acelerar a tramitação de um projeto que elimina do Código Penal os crimes de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Flávio Bolsonaro já prometeu, caso eleito, subir a rampa do Palácio do Planalto ladeado pelo pai e demais comparsas da organização criminosa. Segundo declarou à imprensa, nem que tenha que recorrer à “força”.

É importante salientar que essas chicanas ocorrem no transcorrer do processo eleitoral, em pleno auge da pré-campanha da corrida pela sucessão presidencial. São artifícios para impulsionar sobretudo Flávio Bolsonaro, o ungido pelo pai para ser o candidato do clã, que tenta viabilizar-se como representante de setores da direita e da extrema direita, casuísmos que miram em especial beneficiar o principal criminoso condenado, o ex-presidente Jair Bolsonaro, além de sua cúpula golpista.

Fica bem demonstrado, portanto, que as manobras contra a decisão do STF não passam de oportunismo na busca de caminhos para a volta ao governo dos que ousaram se levantar contra a soberania popular e o arcabouço da legalidade democrática do país. Não há nada do que alegam como medidas para apaziguar e pacificar o país. A adoção das medidas contra a decisão da Justiça seria, ademais, um incentivo para aventureiros se lançarem contra a democracia quando bem entenderem, certos de que contam com a impunidade.

É dever constitucional e democrático do STF manter a diretriz que resultou na condenação inédita dos golpistas, em julgamento histórico. A pressão é grande, as ameaças são ostensivas, mas o que está em questão tem enorme relevância. Todas as forças políticas e sociais e personalidades que prezam a democracia devem se movimentar e se pronunciar pela impugnação da Lei da Dosimetria, contra o abrandamento da pena ou o perdão aos golpistas.

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A política de alianças do PCdoB:
a água e o óleo https://bit.ly/3EonuYC

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Trump diante de Xi Jinping
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Anoto de “análises” publicadas hoje em vários sites de notícia a propósito do encontro dos presidentes dos Estados Unidos e China, hoje.

Muita especulação carente de dados concretos. Ou propositadamente tendenciosos.

O fato é que Donald Trump tudo faz para conter a ascensão notável da China. Mas insiste na aplicação de tarifas alfandegárias massivas, visando reduzir o déficit comercial americano e forçar a repatriação de cadeias de suprimentos. Enxerga a China não apenas como uma concorrente comercial, mas como uma ameaça objetiva à hegemonia dos EUA.

Esperneia. E permanece em desvantagem.

A diplomacia agressiva, mas errática de Trump opera o fortalecimento de alianças bilaterais seletivas (nem sempre bem sucedidas), enfraquecendo blocos multilaterais tradicionais.

No plano simbólico, Trump explora a incerteza mediante declarações e atos contraditórios; e permanece em desvantagem diante do gigante asiático apoiado em sabedoria milenar e em extraordinária ascensão tecnológica e econômica.

Atabalhoadamente, tenta reduzir (drasticamente, segundo intenções explícitas) a dependência ocidental em relação a transações com a China.

Um confronto entre desiguais: a China potência em ascensão montada numa economia pujante; os Estados Unidos às voltas com graves problemas internos que afetam duramente a sua economia, não apenas em razão à guerra contra o Irã, mas como traço marcante de um conjunto de fatores negativos que se acumulam progressivamente.

Vejamos o que acontecerá no encontro de hoje.

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Como a China contornou o tarifaço https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-x-estados-unidos.html 

Postei nas redes

Acordo entre Xi Jiping e Donald Trump a propósito do uso sensato da Inteligência Artificial? Nada, o tema central do encontro entre eles é o sistema de tarifas nas trocas comerciais. Quem acredita em acordo com Trump? 

Como a China contornou o tarifaço https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-x-estados-unidos.html 

Trump na China

Trump e Xi Jinping se reúnem em Pequim sob sombra da guerra contra o Irã
Trump busca pressionar Xi Jinping a isolar o Irã e conter avanços em IA, enquanto Pequim foca em pragmatismo comercial e na defesa de sua soberania
Davi Molinari/Vermelho
   

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desembarca na China nesta quinta-feira (14) para uma visita de Estado de dois dias ao presidente Xi Jinping. O encontro em Pequim marca a primeira viagem oficial do republicano ao país desde 2017 e ocorre em um momento de extrema volatilidade geopolítica. A cúpula, inicialmente prevista para o início do ano, foi adiada em decorrência da escalada militar dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciada em fevereiro, que alterou o equilíbrio de forças no Oriente Médio e impôs novos desafios à diplomacia global.

De acordo com a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, a reunião busca estabilizar a relação entre as duas maiores economias do mundo. Entretanto, o cenário é de forte pressão. Washington pretende cobrar de Pequim um posicionamento mais rígido em relação a Teerã. Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Irã, absorvendo cerca de 90% das exportações de petróleo iraniano. Dentro da política de hegemonia energética, o governo estadunidense quer asfixiar o fluxo financeiro do Irã proveniente da China, alegando que ele sustenta atividades militares na região. Já  Pequim defende a legitimidade das trocas comerciais e a soberania energética.

Em manifestações recentes, Trump elevou o tom ao afirmar que a China enfrentará represálias caso envie armamentos ao Irã, reforçando a estratégia de pressão máxima sobre o eixo Pequim-Teerã-Moscou. Em contrapartida, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, mantém a diretriz de que a posição chinesa é imparcial e objetiva. O governo de Xi Jinping reafirmou o apoio ao direito do Irã ao uso pacífico de energia nuclear e sinalizou que não aceitará imposições que comprometam seus parceiros estratégicos para atender aos interesses de Washington.

Poderio militar chinês incomoda a Casa Branca

A modernização militar chinesa e o controle de arsenais nucleares também integram a pauta prioritária. O subsecretário de Controle de Armas dos EUA, Thomas DiNanno, afirmou recentemente nas Nações Unidas que foram detectados testes explosivos por parte da China e criticou a suposta falta de transparência sobre o arsenal de Pequim. Relatórios setoriais indicam o desenvolvimento de uma nova geração de armamentos com capacidades de manobra avançadas. Contudo, a China recusa-se a participar de negociações trilaterais com EUA e Rússia, argumentando que seu poderio é significativamente inferior ao americano e que limites unilaterais desequilibrariam a segurança na Ásia.

No campo tecnológico, o avanço da Inteligência Artificial (IA) é outro ponto de atrito. O lançamento do modelo chinês DeepSeek-V4, em abril de 2026, demonstrou alta eficiência a custos reduzidos, o que é interpretado por assessores de segurança nacional dos EUA como um risco estratégico. Há expectativa de que Trump e Xi anunciem a criação de um grupo técnico para discutir protocolos de segurança em sistemas de defesa, visando evitar que o uso de algoritmos em armamentos leve a erros de cálculo militares fatais.

Apesar das divergências estruturais, o pragmatismo econômico pauta as negociações envolvendo a Boeing e o setor agrícola. Pequim estuda a aquisição de até 600 aeronaves da fabricante americana, incluindo os modelos 737 MAX e 787 Dreamliner, gesto que pode ser anunciado como uma sinalização de boa vontade comercial. Além disso, discute-se a criação de um Conselho de Comércio e um Conselho de Investimento para institucionalizar o diálogo e evitar novas guerras tarifárias. Tais mecanismos visam garantir a estabilidade no fornecimento de minerais de terras raras, controlados majoritariamente pela China e essenciais para a indústria de alta tecnologia dos EUA.

Taiwan permanece como o tema mais sensível e a principal “linha vermelha” para Pequim. Enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, reforça o compromisso de Washington com a ilha sob a ótica da cooperação de defesa, o governo chinês reitera que o território é inalienável e que qualquer solução deve ocorrer sem interferência externa. Analistas destacam que, para além da soberania, o controle da produção de semicondutores em Taiwan constitui o epicentro da disputa, afetando diretamente a competitividade tecnológica e a hegemonia global no século XXI.

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A violência plurissecular dos Estados Unidos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/intervencionismo-belico-dos-estados.html 

Minha opinião

Polícia Federal autônoma 
Luciano Siqueira 
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Entrevista ao site Brasil 247, o jurista Pedro serrano diz que o Presidente da República não dispõe de instrumentos para interferir nas investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre o esquema de fraude do banco Master, assim como de qualquer outra operação investigativa. 

A Polícia Federal é polícia judiciária, intensa a qualquer interferência do poder executivo. 

Faz lembrar uma das atribuladas reuniões de Jair Bolsonaro, quando presidente, divulgada em vídeo, em que o neofascista reclamava acintosamente da PF, chegando a insinuar a necessidade de uma polícia paralela, sob o controle direto do gabinete da presidência da República.

O complexo midiático dominante sabe muito bem disso, mas insinua frequentemente que esta ou aquela operação investigativa realizada pela Polícia Federal estaria sobre a influência de Lula. 

Uma distorção lamentável da realidade concreta usada como elemento de pré-campanha contra a possível reeleição do presidente e em favor de uma alternativa de direita.

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A ameaça de jogo sujo nas eleições de 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/redes-sociais-eleicoes.html