28 agosto 2026

Minha opinião

Para além do nosso quintal
Luciano Siqueira      

O amigo, a quem dou carona, escuta no som do carro notícia sobre desastres climáticos e sentencia:

- Os pobres é que sofrem.

- Não apenas os pobres, retruquei.

- Por que não?

Vi-me dissertando sobre o assunto:

Caso da Europa, por exemplo. O calor extremo tem feito estragos quase incalculáveis e não consta que naquela região vivam apenas pobres. Ao contrário, uma população bem aquinhoada se comparada ao que outrora chamávamos “terceiro mundo” ostenta tremenda disparidade.

Mais: a “calamidade” europeia ocorre sobretudo no desempenho da economia, não necessariamente atingindo as pessoas individualmente. O PIB da União Europeia agora estimado se compara à estagnação. Quanto mais se prolonga o ciclo de temperatura elevada, maior o prejuízo econômico.

Acrescente-se que a queda da produção agrícola tem tudo a ver com a temperatura ambiente inclemente e convive com a sobrecarga acentuada das redes elétricas pela extraordinária operação de equipamentos de refrigeração ambiente; e a retração expressiva da produção industrial.

Nesse cenário, o Velho Mundo, tão atrativo para turistas dos cinco continentes, também amarga a retração acentuada de visitantes.

Em outras palavras, até os privilégios de classe e as benesses próprias de países capitalistas desenvolvidos são duramente afetados por essa espécie de “insurreição climática”.

- Tem razão, acedeu o amigo. É que costumo prestar atenção quase que só ao desastre climático em regiões mais pobres.

- Pois é, vivemos uma espécie de democratização da tragédia, acrescentei.

É no que dá essa mania de enxergar para além do nosso quintal...

A crise global de alimentos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/crise-alimentar-global.html 

Arte é vida

 

John Philip Falter

"Destino esquisito" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0446993612.html 

Entrevista da Globo

Altivo, Lula enfrenta emboscada e se sai bem em sabatina da Globo
Ao término do interrogatório, ficou evidente o contraste entre a obsessão da grande mídia pela intriga e a determinação de um projeto popular focado na reconstrução do País
André Cintra/Vermelho   

Como sabemos, as tradicionais sabatinas da TV Globo com presidenciáveis, realizadas desde 2002 – preferencialmente no Jornal Nacional (JN) –, são uma farsa. Os apresentadores escalados para a entrevista trocam o jornalismo pela inquisição. O interesse público é posto de lado em nome da estratégia de constranger o entrevistado, numa espécie de jornalismo de emboscada.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sabia dessa armadilha e se saiu bem, nesta quinta-feira (27), ao participar da sabatina com César Tralli e Renata Vasconcellos, apresentadores do JN. Lula não passou recibo. Tanto que, quando informaram que a sabatina sairia de escândalos (não comprovados) de corrupção para temas do governo, o presidente soltou uma ironia: “Parecia que eu estava no Ministério Público”.

Conforme esperado, Tralli começou a sabatina trazendo à tona acusações decorrentes de vazamentos ilegais contra Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, e a empresária Roberta Luchsinger. A grande mídia os chama, respectivamente, de “Lulinha” e “lobista”, termos que nem Fábio nem Roberta usam. “Não tem acusações. São ilações, ilações e ilações, tiradas de telefonema”, lembrou Lula.

“Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro”, disse o presidente. “Ele não será protegido por ser meu filho. Portanto, ele sabe o que fazer: ele tem que provar a inocência dele – e eu tenho certeza de que ele vai ser inocente.” Mesmo depois da resposta de Lula, a Globo insistiu por mais de 15 minutos numa sequência de acusações e suspeitas que buscavam estabelecer uma associação direta entre supostos escândalos e o presidente.

Quando Tralli tentou emplacar a tese da “fila do INSS”, estimada pela Globo em 1,3 milhão de pessoas – sem apontar a fonte –, Lula rebateu: “A espera de 45 dias vai estar apenas em 250 mil pessoas, o que é o normal. Eu te convido, Tralli, para o ato em que a gente vai comemorar com os aposentados”.

No papel de porta-voz do mercado, a Globo também procurou acossar Lula sobre a dívida pública, na faixa de 82% do PIB. Lula engatou três argumentos contundentes contra a emissora: “Fui o único presidente do Brasil que fez superávit primário durante oito anos”; “vocês defenderam a vida inteira o Banco Central independente”; “se tem aqui neste país que tem responsabilidade fiscal, sou eu”.

O presidente recordou que o governo Jair Bolsonaro (PL) deixou um rombo de R$ 94 bilhões, combatido com a chamada “PEC da Transição”. Além disso, ante a cobrança de um ajuste fiscal, Lula retrucou: “Meu estabelecimento é fazer este país crescer”. Ele disse que já acabou duas vezes com a fome no Brasil e enfrentou um país “destruído” após a gestão Bolsonaro.

Lula afirmou que os Correios não se adaptaram às mudanças de paradigma. “Surgiu muita empresa de entrega, e os Correios ficaram na mesmice”, declarou. Mas ele descartou a venda da estatal: “Não considero vender, (mas) considero recuperar os Correios para prestar serviços de qualidade ao povo brasileiro.”

Quando a sabatina entrou numa questão mais relevante e tratou de educação, Lula deitou e rolou. Ele disse que foi o presidente que “mais pôs aluno em escola em tempo integral”, além de ter criado o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) e o Pé-de-Meia. Segundo Lula, dos 800 institutos federais no Brasil, 80% foram criados sob os governos dele e de Dilma Rousseff. A população com diploma universitário saltou de 5 milhões em 2002 para 25 milhões hoje.

Ao término do interrogatório, ficou evidente o contraste entre a obsessão da grande mídia pela intriga e a determinação de um projeto popular focado na reconstrução do País. Durante boa parte do tempo, Tralli e Renata tentaram empurrar o presidente para o banco dos réus, como se a entrevista fosse a extensão de um inquérito. Mas Lula não aceitou o papel que lhe reservaram e transformou o interrogatório em vitrine de seu legado.

Lula provou que não se intimida com o jornalismo de tribunal e que tem legado, números e autoridade moral para apresentar ao povo brasileiro. A tentativa de emparedar o presidente naufragou. O que se viu na tela da Globo foi um líder altivo, pronto para defender as conquistas do seu governo e seguir avançando na transformação social do Brasil, respondendo às provocações e às acusações. Lula tinha o que defender, o que comparar e, sobretudo, um projeto para apresentar.

A política no posto de comando https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0656605756.html 

27 agosto 2026

Palavra de poeta

Consideração do poema
Carlos Drummond de Andrade       

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convém.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.
 
Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.
 
Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
— Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.
 
Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.
 
Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.
 
Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.
 
Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

 
[Ilustração: Paula Modersohn Becker]
 
Leia também A morte e a morte do amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra.html 

Postei nas redes

Repórteres  da TV Globo Trali e Renata Vasconcelos tentaram fazer da entrevista com Lula um ato de inquisição. Nada sobre as ameaças à soberania nacional, por exemplo, mas o presidente respondeu com altivez e clareza a todas as provocações. Um passo adiante na luta pela reeleição. 

A política no posto de comando https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0656605756.html 

Minha opinião

Será o preferido assim mesmo?
Luciano Siqueira 

Rejeitado como poucos na história recente do Brasil, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) teria finalmente o apoio do complexo midiático dominante?

Parece que não. Ou ainda não.

Os principais jornais do país, todos integrados a gigantes midiáticos, seguem criticando duramente o dito filho Zero Um do ex-presidente encarcerado, condenado por golpismo.

Articulistas assumidamente sintonizados com “a opinião do patrão” frequentemente batem duro no candidato.

Também não enaltecem nenhum outro. A extrema direita não produziu uma alternativa palatável ao olhar do que se convencionou chamar a Faria Lima.

Ou pelo menos uma opção competitiva.

Enquanto isso, o escolhido pelo PL segue transpirando submissão aos EUA, ao presidente Donald Trump em especial; achincalhe às  nossas instituições democráticas; e um a precariedade absurda quando instado a opinar sobre o país e a externar a sua plataforma de governo.

É o que parece, pelo menos por enquanto.

[Ilustração: Amarildo]

Qual é a da Faria Lima? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_068512590.html 

Fragmentos

Na verdade, a felicidade é uma construção permanente, diária, por toda a vida e, ao mesmo tempo, se traduz em instantes. Podemos até dizer que a sucessão desses instantes, em sequência, alternados com momentos de desprazer, dão sentido à vida. No trabalho, na luta política, na vida pessoal. Por isso, distinguir o que é bom e o que ruim, dentre acontecimentos de certo modo inevitáveis, no dia a dia, se constitui em arte. A arte de viver bem. As coisas que lhe desagradam são infinitamente secundárias diante das coisas que lhe fazem feliz. 

(Anotação minha em 19.2.14)  

Leia também: Tédio? Falta-me tempo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0262906581.html