29 abril 2026

Europa submissa

Europa transfere € 108 bilhões aos EUA e expõe dependência econômica
Dados do BCE e Eurostat mostram saída recorde de riqueza para Washington e apontam domínio norte-americano em setores estratégicos do continente
Davi Molinari/Vermelho   


A economia europeia vive um paradoxo crescente: mantém produção elevada e superávit comercial em bens, mas perde renda de forma consistente para os Estados Unidos. Em 2025, essa transferência atingiu € 108 bilhões, segundo dados do Banco Central Europeu (BCE), evidenciando um movimento estrutural de deslocamento de riqueza para fora do território europeu.

O dado — que mais que dobrou em relação aos € 49 bilhões registrados em 2024 — não se refere apenas ao intercâmbio comercial, mas ao fluxo de renda gerado por investimentos, lucros, dividendos e juros. Trata-se, na prática, de riqueza produzida na Europa que termina apropriada por empresas e investidores, majoritariamente estadunidenses. A tendência reforça o diagnóstico apresentado pela publicação The Economist, que classificou o fenômeno como uma forma de “vassalagem econômica” construída ao longo das últimas décadas.

Produção europeia, renda americana

A diferença entre a produção e a apropriação da riqueza aparece de forma clara na renda primária — indicador que mede o saldo entre o que um país recebe e paga ao exterior em lucros e investimentos. Segundo o BCE, a zona do euro passou de um superávit de € 54 bilhões em 2024 para um déficit global de € 44 bilhões em 2025. O principal fator desta inversão foi a relação com os Estados Unidos.

Dados do Eurostat mostram que, apenas no quarto trimestre de 2025, o déficit europeu em renda primária chegou a € 18 bilhões, confirmando a aceleração da saída líquida de recursos. Esse movimento significa que empresas estrangeiras — sobretudo norte-americanas — não apenas operam na Europa, mas capturam uma parcela crescente do valor gerado no continente.

EUA ampliam vantagem global

Enquanto a Europa registra saída líquida de renda, os Estados Unidos consolidam a posição inversa. Dados do Bureau of Economic Analysis indicam que a renda nacional estadunidense alcançou cerca de US$ 31,4 trilhões no final de 2025, sustentada por ganhos obtidos no exterior.

Este diferencial é estrutural: empresas dos EUA operam globalmente e repatriam lucros, enquanto economias europeias absorvem investimento estrangeiro sem reter integralmente os resultados. A transferência de renda acompanha a presença dominante de corporações norte-americanas em áreas centrais da economia europeia.

No sistema de pagamentos, Visa e Mastercard concentram a maior parte das transações. Na infraestrutura digital, Amazon (AWS) e Microsoft (Azure) lideram o mercado de nuvem e inteligência artificial. No setor energético, os EUA ampliaram sua participação como fornecedores de gás natural liquefeito. Na defesa, cresce a dependência de equipamentos militares adquiridos por meio de contratos com o Pentágono.

Vulnerabilidade e a armadilha tecnológica

A análise da The Economist sugere que o cenário de transferência de renda não é acidental. Segundo a publicação, a arquitetura regulatória europeia — com regras rigorosas em concorrência, dados e meio ambiente — teria limitado a expansão de empresas locais, abrindo espaço para as multinacionais estrangeiras. 

Entretanto, analistas ponderam que o argumento liberal ignora questões estruturais de soberania tecnológica. O domínio das corporações dos EUA não decorre apenas de normas flexíveis, mas de um vácuo de política industrial na Europa. Enquanto Washington utiliza massivos subsídios estatais para integrar seu setor de defesa às big techs, o mercado europeu, fragmentado e dependente de infraestruturas externas — como o mercado de nuvem, dominado em mais de 70% por empresas americanas —, tornou-se um exportador líquido de lucros.

Essa vulnerabilidade econômica já é reconhecida por lideranças do bloco. Em relatório recente sobre o futuro da competitividade do continente, o ex-presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, alertou para a necessidade de mudanças profundas. “A Europa está perdendo sua relevância no cenário global porque falhou em se tornar um polo de inovação tecnológica. Estamos financiando o crescimento de outros blocos enquanto nossas empresas ficam presas em um emaranhado burocrático que as impede de escalar”, afirmou Draghi.

Na mesma linha, o chanceler alemão destacou a urgência de uma maior autonomia financeira. Durante um fórum econômico em Berlim, realizado na última quinta-feira (16) de abril de 2026, declarou: “Não podemos ser apenas um mercado consumidor para as big techs americanas. A soberania europeia depende da nossa capacidade de manter os lucros e a inovação dentro de nossas fronteiras”.  Uma crise que ja havia sido antecipada pela própria presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em setembro do ano passado. “A União Europeia deve reduzir sua dependência econômica dos Estados Unidos e diversificar suas parcerias estratégicas”, afirmou

Superávit comercial não impede perda de riqueza

Mesmo com um superávit de € 199,6 bilhões em bens em 2025, a Europa não consegue reter plenamente a riqueza gerada. O motivo reside na combinação do déficit em serviços, dominado por empresas estrangeiras; na saída de renda primária (lucros e dividendos) e na dependência tecnológica e financeira. O resultado é um equilíbrio externo mais frágil do que sugerem os dados comerciais isolados.

A relação entre Europa e Estados Unidos deixou de ser apenas comercial e passou a envolver um fluxo contínuo de transferência de renda. Mais do que produzir, o ponto central da economia global contemporânea é a capacidade de capturar valor. Nesse aspecto, os Estados Unidos operam em posição vantajosa, enquanto a Europa enfrenta dificuldades para reter os ganhos gerados dentro de seu próprio território.

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Europa, a capitulação permanente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/europa-submissa.html

Humor de resistência

 

Aroeira

Acima do nível do mar https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Minha opinião

Milei num poço de areia movediça
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65      

É o que se depreende do noticiário no complexo midiático dominante que, a contragosto, noticia o agravamento da situação econômica e social na Argentina e a consequente perda de popularidade do presidente Javier Milei.

Registra-se que o governo do ultraliberal argentino atravessa forte turbulência interna. Além da crise econômica, graves contradições no núcleo dirigente.

Figuras de destaque na equipe do presidente, como o ex-chefe de gabinete Nicolás Posse saem do governo sob acusação de irregularidades, incluindo espionagem interna contra outros ministros.

Apesar de algumas vitórias em matérias sensíveis, o governo continua enfrentando uma barreira gigantesca no Congresso: a Lei Bases (o pacote de reformas ultraliberais), por exemplo, sofreu desidratações e atrasos significativos).

Registra-se um ambiente de tensão e vigilância na equipe de governo. Quem não se alinha 100% ao "estilo Milei" termina defenestrado.

O grande trunfo do governo, segundo o próprio Milei, o superávit fiscal sofre o contraponto da recessão econômica profunda, queda brutal do consumo e quase falência da atividade industrial.

Apesar de manter parcela do apoio popular, o governo segue em ambiente corrosivo.

Ponto negativo para a extrema direita do subcontinente sul-americano.

Leia também: “Milei: hipóteses sobre uma derrota catastrófica” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/sinais-de-mudanca-na-argentina.html

Sylvio: Insensatez

Trump já gastou mais de 100 bilhões em dois meses, só de mísseis, nesta absurda e irresponsável guerra contra o Irã. Até quando o mundo vai tolerar que a violência e a insensatez perdurem contra o bom senso e a vida?

Sylvio Belém   

Marcelo Barros: O imperador e o Papa  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/visoes-de-mundo-dispares.html

Poderio comercial chinês

Xing-Ling, os chineses estão chegando!
A transição da hegemonia global para o Oriente revela o triunfo da mercadoria chinesa, que converteu o antigo estigma da descartabilidade em uma sofisticada rede de dominação tecnológica e industrial
SAMUEL KILSZTAJN*/A Terra é Redonda     

O fetichismo da mercadoria

Antes da Revolução Industrial, a divisão social do trabalho era muito limitada e as trocas eram marginais. Mesmo no período do chamado “capitalismo mercantil”, a quantidade e o valor dos produtos comercializados eram muito pouco expressivos na estrutura de produção e consumo das nações. A relação entre senhores e trabalhadores (escravos, servos etc.) também não era comercial, era em espécie. Foi só a partir do capitalismo industrial que a mercadoria se generalizou, converteu o processo de produção e consumo em sistema e transformou todo mundo (trabalhadores, capitalistas etc.) em agentes econômicos, ou seja, prolongamentos da mercadoria.

Um exemplo que talvez possa ajudar: antes da Revolução Industrial, poderia haver crises climáticas, sociais, políticas, militares etc.; mas crise econômica é uma categoria específica do capitalismo industrial, em que o sistema trava, desocupando tanto os trabalhadores como os meios de produção (o capital), porque o que se procura não é o produto em si (valor de uso), mas sim a rentabilidade do investimento, com lucro e capital mensurados em dinheiro (equivalente geral) – num sistema não mercantil, o que se procura não é o valor (de troca) do produto, mas sim o produto em si.

No início do século XX, o parque industrial da Inglaterra era robusto, as máquinas duravam em média 25 anos. Nos Estados Unidos as máquinas duravam em média 15 anos. Se o progresso técnico vai tornar obsoleto o seu parque industrial em pouco tempo, para que investir em máquinas sólidas que vão parar no ferro velho? O numerador da rentabilidade é o lucro e o denominador é o valor do capital; máquinas com menor vida útil são de baixo valor; quanto menor o valor do capital, maior é a taxa de lucro (vá desculpando o economês). Além disso, sob o Império Americano, o sistema alastrou-se para o setor terciário da economia, ampliando o espaço da acumulação do capital.

Nota de rodapé: no extremo oposto, a União Soviética, que era contra o consumismo, produzia máquinas (e produtos) que poderiam durar (tecnicamente obsoletos) uma eternidade.

A Rússia derrotou Napoleão em 1812, teve que esperar um século para se livrar de sua monarquia absolutista e, fazendo uso do socialismo real (o ritmo de trabalho imposto na União Soviética deixaria Taylor e Ford encabulados), se transformou em uma potência internacional da noite para o dia. A comédia Os Russos estão chegando! Os Russos estão chegando! foi produzida durante a Guerra Fria e, apesar da paranoia existente, conseguiu agradar a gregos e goianos. Nos anos 1970, os Estados Unidos reataram relações diplomáticas e comerciais com a China como forma de isolar a União Soviética.

Nota de rodapé: em sua concepção, o “socialismo científico” nunca havia sido pensado como um modelo para industrializar economias “atrasadas”; muito pelo contrário, foi pensado como um modelo para a superação do sistema capitalista de ponta (destinado ao colapso, a tal “crise geral do capitalismo”).

A passagem do império norte-americano para o império chinês

A industrialização chinesa, mais tardia ainda do que a industrialização russa, também fez uso do socialismo real (os direitos trabalhistas em vigor na China deixariam qualquer sindicalista ocidental boquiaberto).

Nos anos 1980, para dizer que um produto era de má qualidade, você dizia que ele era xing-ling, ou seja, Made in China (leia-se meid in tchaina). E a China conquistou o mercado mundial fabricando produtos descartáveis a baixo preço. Se o negócio é ficar comprando, comprando, para que investir em um produto que vai durar para sempre?

Amigos me perguntam qual é o segredo na administração de meu fluxo de caixa. Ao que respondo que nunca tive televisão, nem celular, e não participo de redes sociais. Mas outro dia fui comprar um aparelho para cortar cabelo, perguntei a origem de um dos modelos e o vendedor disse: “meu senhor, são todos chineses”.

Outra experiência mercantil: fui comprar um monitor de pressão arterial numa farmácia e o funcionário falou que o valor do produto era 250 reais. Aí eu perguntei por que na Internet tinha aparelhos semelhantes por 40 reais. E o funcionário, rindo, disse que os da Internet eram xing-ling. Fazia muito tempo que eu não ouvia essa expressão e falei: “meu senhor, mas o seu produto também é xing-ling, são todos chineses”.

A mercadoria se generalizou pela Europa, atravessou o Atlântico e ocupou o mundo, inclusive a Rússia e a China. A Inglaterra deteve a hegemonia inconteste do capitalismo internacional no século XIX, a ponto do inglês se transformar em língua franca universal. No século XX, os Estados Unidos herdaram a hegemonia capitalista, com a União Soviética saindo do “atraso de vida” para ocupar o posto de segunda potência internacional.

No século XXI, ao que tudo indica, a China está fadada a herdar a hegemonia internacional do capitalismo, isto é, personificar a mercadoria globalmente. O governo chinês, extremamente centralizado, desenvolveu uma economia totalmente descentralizada – uma economia “socialista” de mercado, ou melhor, uma economia paternalista de mercado. Ajustada pelo custo de vida interno, a China já é a maior economia do mundo, 40% maior que a economia dos Estados Unidos.

Por acaso, a minha cultura é russa. Minha família atravessou gerações vivendo em território do Império Czarista e Alexandre Pushkin e Liev Tolstói são os meus autores de cabeceira. Mesmo não falando russo, entendo tudo o que eles dizem, principalmente quando estão bêbados.

Por algum outro acaso, sou terapeuta chinês, adepto das religiões orientais, mas quanto mais vou à China, menos entendo o país. Só sei que a China já era civilizada quando o ocidente vivia na barbárie (ainda vive), que foi submetida nas Guerras do Ópio em meados do século XIX e que está usando o padrão ocidental mercantil para se vingar do ocidente, ou melhor, está sendo usada pela mercadoria em seu processo de dominação.

De acordo com Keyu Jin, a aparente submissão cega da população às autoridades reflete a deferência a um governo paternalista que lhe garante estabilidade, segurança, paz, esperança e prosperidade. Keyu Jin enfatiza que esta característica do povo chinês é cultural, é milenar, ou seja, data do Império. O apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados do mundo.

Também, por acaso, sou palestino e entendo que os árabes muçulmanos, mesmo sendo conhecidos como exímios negociantes, não se sujeitam à mercadoria. Contudo, sendo brasileiro, fecho mesmo é com o Ailton Krenak, o nosso filósofo discípulo de Baruch Spinoza em busca de um futuro ancestral.

Post Scriptum

Em 2024, a empresa chinesa de biotecnologia MGITech inaugurou em São Paulo o Customer Experience Center (CEC), projetado para oferecer tecnologia avançada a laboratórios clínicos, hospitais e universidades, com objetivo de impulsionar avanços na saúde, agricultura e sustentabilidade ambiental. A MGITech já construiu parcerias com o Grupo Oncoclínicas, Eva Holding Group, Grupo Sabin, Unidade de Apoio ao Diagnóstico (UNADIG) e laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Também uniu esforços com a Universidade Federal do Pará –UFPA para enfrentar desafios ligados à biodiversidade amazônica por meio de tecnologias avançadas de sequenciamento.

Em 2026, a empresa chinesa de transporte ferroviário CRRC vai implantar uma unidade industrial em Araraquara, São Paulo. Além de tecnologia, os chineses já estão exportando até rappers. Apesar do mandarim ser uma língua tonal, com uma variação de sons não absorvíveis após os sete anos de idade, muitos jovens ocidentais estão se esforçando para aprender chinês. E alguns até já estão se submetendo a cirurgias que os transformam em “chineses natos”.

No início de 2026, por acaso, como sempre, eu estava na Amazônia, ao lado da Venezuela, e recebi um recado de Donald Trump para lembrar que, até prova em contrário, a América Latina ainda era o seu quintal. Em 28 de fevereiro, ao lado do Estado de Israel, Donald Trump resolveu também investir no Irã. América primeiro? Se as manobras e maquinações de Donald Trump tornaram alguma nação grande, foi a China, não os Estados Unidos. Make China Great Again! Enquanto a política norte-americana – literalmente bombástica – degringola, a China, decididamente, avança na liderança internacional.

Xing-ling, os chineses estão chegando!

*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos. [https://amzn.to/4cKKvX1]

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China reduziu a pobreza em proporção sem precedentes na história https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-reducao-da-pobreza.html

China x Estados Unidos

Como a China contornou o tarifaço
Sanções de Trump ajudaram a redesenhar o comércio chinês, que buscou outros mercados e atingiu marca recorde de exportações em 2025. Política industrial e autonomia tecnológicas foram estimuladas. E país ampliou os níveis de consumo interno
Carlos Aguiar de Medeiros/Outras Palavras      

Na segunda década do novo milênio, diversas transformações ocorreram na economia chinesa, decorrentes de pressões e desafios externos e internos. Entre os fatores externos, os principais foram a grande crise financeira de 2008, a desaceleração do crescimento do comércio mundial e o aprofundamento do protecionismo e das sanções americanas ao acesso a semicondutores avançados. Entre os fatores internos, os principais foram o boom imobiliário, a expansão dos salários reais, a implementação de uma abrangente política industrial voltada à redução da dependência tecnológica – as metas do Made in China 2025, lançadas em 2015 – e à diversificação energética, e a construção de uma ampla rede egional de comércio e investimentos (o BRI foi lançado em 2012). Estes movim entos iniciaram um deslocamento relativo das fontes de crescimento da economia chinesa, com a contração da parcela das exportações no PIB – hoje em torno de 20% –, a favor do consumo e dos investimentos em infraestrutura, e da mudança na estrutura do produto e do emprego, com forte expansão dos serviços. (Medeiros, Majerowicz, 2024).

Nos últimos anos, diversos eventos e circunstâncias, como a pandemia da Covid-19 e a guerra da Ucrânia, reforçaram o movimento voltado à redução da dependência externa e à autossuficiência em insumos e equipamentos essenciais. No primeiro ano do novo governo Trump, um novo choque tarifário foi implementado, e a utilização geopolítica do poder econômico do mercado americano, visando enquadrar aliados e atingir a China, foi ampliada. No plano interno, após a forte contração decorrente da política de Covid Zero e da crise imobiliária, a economia chinesa retomou uma taxa de crescimento superior à dos países da OCDE, ainda que inferior à dos últimos anos.
 

No 14º Plano Quinquenal (2021-5), o governo reiterou, na estratégia de “circulação dual”, publicada em 2020, a prioridade à expansão do consumo que, mesmo após um período de elevação do salário real e de transferências sociais ocorrido na última década, permanece interno – hoje cerca de 39% do PIB –, num patamar muito inferior ao das economias industriais. Sob elevadas tarifas no mercado americano e sob fortes sanções tecnológicas, os investimentos em inovação, na energia renovável, de aumento do consumo das famílias e na diversificação dos parceiros comerciais ganharam novo ímpeto. O 15º Plano quinquenal (2026-2030) prioriza a política industrial, a construção de um mercado nacional unificado e o aumento do consumo. O foco foi posto nas “Forças Produtivas de Nova Qualidade”, isto é, na modernização das indústrias tradicionais por meio da digitalização e do uso da IA, bem como no esforço científico voltado ao progresso técnico e às inovações.

As relações entre os EUA e a China possivelmente evoluirão para um tipo de acomodação (Gao, 2026) entre as duas superpotências, por meio de negociações permanentes sobre tarifas e sanções. Este movimento ficou evidente quando o governo americano, depois do choque tarifário de 150% imposto à China, adiou sua implementação e reduziu as alíquotas, após esta ter imposto fortes restrições às exportações de terras raras (reunião da APEC, na Coreia, em outubro de 2025). Tendo em vista este contexto, objetiva-se, nesta pequena nota, discutir alguns movimentos de reposicionamento das relações internacionais chinesas, como a relocalização do comércio externo, os investimentos em semicondutores e IA, a diversificação da base energética e a produção industrial de baixo carb ono. A questão da expansão do consumo das famílias, que constitui prioridade nos dois últimos planos quinquenais, está fora do escopo desta nota.

Em relação ao comércio externo, um fato notável é que, em meio ao forte protecionismo americano, as exportações globais chinesas atingiram, em 2025, um recorde histórico. Do mesmo modo, em que pese o importante crescimento das importações, o saldo comercial da China em 2025, em dólares correntes, é o maior de sua história (China Briefing, 2026). Esta corrente de comércio, entretanto, mudou de direção. O principal movimento foi a queda das exportações da China para o mercado americano. Em 2017, elas constituíam 21% das importações totais dos EUA; em 2025, já sob o regime tarifário instituído por Trump 2.0, situaram-se em 9%. (Alfaro, Chor, 2026). Sob o efeito das tarifas americanas, as exportações passaram a dirigir-se cada vez mais para outros mercados, especialmente para a ASEAN, a UE, a Améric a Latina, a Austrália e o Japão. Os países da ASEAN, especialmente Tailandia, Malásia e Vietnã, foram os principais beneficiários do desvio de comércio decorrente das tarifas impostas pelos EUA à China. Os deslocamentos das rotas de comércio que já estavam em movimento desde 2018 incluem tanto o de bens finais chineses reexportados por terceiros países para os EUA, quanto o de bens intermediários provenientes da China, contidos nas exportações dos países da ASEAN (particularmente do Vietnã) destinadas aos EUA. Estas triangulações fazem com que o declínio das exportações chinesas para os EUA não seja tão intenso quanto o indicado pelas estatísticas oficiais do comércio bilateral. Ainda que a geografia do comércio esteja em processo de mudança em direção a outros países, especia lmente os da Iniciativa Cinturão e Rota, que envolve 151 países, os principais parceiros comerciais da China são os da ASEAN, que superam tanto os EUA quanto a UE. As exportações que mais cresceram nos últimos anos são as de máquinas e equipamentos, produtos eletrônicos, painéis solares, turbinas a vento e automóveis elétricos. O deslocamento da composição setorial das exportações chinesas se dá não apenas pelo aumento da parcela de produtos de maior conteúdo tecnológico, mas também pelo fato de estes produtos possuírem marcas chinesas. Progressivamente, a principal base exportadora chinesa vem mudando de equipamentos manufaturados sob encomenda (OEM) para equipamentos manufaturados sob marca própria (OBM) (Bruh, 2024). Do lado das importações, dois movimentos centrais vieram se afirmando após a Covid-19: a forte retomada da demanda por energia, alimentos e minerais, responsável pelo crescimento do valor total das importações num período de queda dos preços das commodities, e a substituição de importações de produtos de alta tecnologia, em especial semicondutores (Outlook, 2026), que seguem sendo o principal item importado— e o petróleo, o segundo.

Associada a estas transformações nos fluxos comerciais, a China prosseguiu, ainda que em ritmo menor, suas exportações de capital sob a forma de investimentos diretos e empréstimos, especialmente destinados aos países da Iniciativa do Cinturão e Rota. Por outro lado, introduziu diversas iniciativas visando à internacionalização do RMB. Particularmente significativo foi o aumento das exportações chinesas denominadas em RMB e a sua expansão nas operações de crédito.

Em relação à questão energética e à infraestrutura, dois motores importantes para o crescimento dos investimentos chineses, os principais movimentos são a elevada expansão da capacidade de geração solar e eólica (incomparável em termos internacionais), a construção de novas usinas nucleares e, simultaneamente, tendo em vista a base energética chinesa, a expansão de novas plantas de energia a carvão. Face à demanda crescente de gás e petróleo, investimentos importantes em pipelines e em estruturas de conversão de LNG importado estão em curso. Ao lado destes investimentos, os em transportes continuam em expansão, com planos de ampliação substancial da rede de trens de alta velocidade, que já é a maior em operação na economia mundial, visando a unificar e integrar o mercado interno. ( Brüh, 2024).

Em relação a uma “innovation-driven economy” estabelecida no 14º Plano e reforçada no 15º Plano Quinquenal, o objetivo é fazer da inovação um motor central dos investimentos, por meio de estímulos ao P&D e à formação de diversos clusters industriais, visando à aproximação entre a inovação e a produção industrial. A China hoje está na liderança em algumas tecnologias críticas, especialmente associadas às energias renováveis, baterias elétricas, painéis solares, veículos elétricos e infraestrutura de telecomunicações (5G), e está muito próxima dos EUA em IA (evidente com o lançamento do DeepSeek, em 2025), computação quântica, big data, nanotecnologia e big Pharma, e vem aumentando rapidamente suas capacidades em semiconduto res, petroquímica e armamentos. O controle e as sanções estabelecidos hoje pelos EUA sobre chips sofisticados e máquinas de litografia avançadas constituem a maior ofensiva tecnológica contra a China e, ao mesmo tempo, um forte incentivo à inovação e à produção doméstica. Presentemente, a SMTC já produz chips de 7 nanômetros (e os projetos em curso são para chips menores) e as máquinas necessárias a esta produção (The Economist, 2025).

A política industrial em curso, estimulada pelas sanções e tarifas americanas, faz da inovação em tecnologias avançadas o eixo central para elevar o conteúdo tecnológico das exportações, bem como para expandir a renovação dos padrões de consumo das famílias em novos bens e serviços. Desse modo, é possível dizer – já há um relativo consenso entre especialistas – que o forte aumento do protecionismo e das sanções americanas tem levado ao aprofundamento da estratégia chinesa de diversificação e regionalização dos mercados, bem como de autonomia tecnológica iniciada há uma década.

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A China e a inteligência artificial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/ia-no-cotidiano-da-china.html

Minha opinião

Pisando em ovos
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  
 

Quando se trata de considerações críticas ao sistema financeiro, a Folha de S. Paulo, tal como conglomerados midiáticos congêneres, pisa em ovos.

As palavras parecem sussurradas.

No editorial de hoje, a proposito do escândalo do Banco Master, considera que o crescimento acelerado do Master apenas expõe uma assimetria de fiscalização entre o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Questão de métodos e não de essência.

A governança do Master e suas complexas operações de crédito geraram alertas que não foram considerados a tempo.

O episódio serve como uma ocorrência para que ambos os órgãos revisem o compartilhamento de informações e o rigor sobre instituições de médio porte, assinala.

Em suma, um teste para a alteração dos reguladores em prevenir crises semelhantes. A necessidade de uma atuação coordenada nunca foi tão urgente para garantir a estabilidade do mercado.

A agilidade regulatória precisa acompanhar a sofisticação dos novos arranjos financeiros.

Não mais do que isso.

A Nação e o povo brasileiro que se cuidem.

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De onde vem dinheiro para a grandeza da China? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/capital-financeiro-desenvolvimento-na.html