Leia também "Os teus pés", poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/palavra-de-poeta_13.html
Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
18 janeiro 2026
Palavra de poeta
Humor de resistência
As duas cabeças do monstro que assombra o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/bastioes-da-direita.html
Postei nas redes
No mundo ilusório e narcisista das redes sociais, quase já não existem pessoas comuns; todas olham-se a si mesmas com lentes de aumento multicoloridas.
Programas controlam o funcionário no home office https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/superexploracao-digital.html
Minha opinião
Enfim, descubro-me um cidadão desinformado
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Realmente, uma descoberta e tanto. Dou-me conta de que, apesar dos esforços diários, sou um cidadão relativamente desinformado. Pois li, dias atrás, em matéria de destaque na Folha de S. Paulo que a modelo Luiz Brunet fez 51 anos e decidiu retirar o silicone dos seios. E eu nem sabia que a moça tinha posto silicone, nem nos seios nem noutras partes do corpo, muito menos os motivos que a levam agora a dispensar o disfarce.
A
notícia, obviamente, é importantíssima. Se não fosse, um jornal de circulação
nacional não lhe daria tanto espaço. Eu é que estou por fora.
Isto apesar de ler cotidianamente os principais
jornais do país, visitar portais e sites de notícia e opinião - sempre com a
atenção focada no que me parece verdadeiramente importante.
Mas tenho errado, sim, nessa coisa de foco no que
vale a pena ler. Fico devendo à La Brunet por não acompanhar sua vida em
detalhes, assim como a outras celebridades e outras tantas personalidades nem
tanto.
Assim, peço desculpas ao grande empresário do setor
financeiro por somente ontem ter sabido que nas horas vagas cultiva pimentas de
diversas espécies. Para relaxar, diz ele, ao repórter atento.
Devo sim, reconheço. Como não sabia que um
ex-presidente da República, reconhecido nos salões mais sofisticados pela sua
finura e bom gosto, coleciona cinzeiro de avião - daqueles que existiam antes
da interdição aos fumantes em voo, encravados no braço do assento? Um leve
movimento com a unha e se tinha o cinzeiro à mão. Não sei quantos estão
catalogados na coleção particular do ilustre homem público, mas certamente ali
jazem como relíquias da Varig, VASP, Transbrasil e até, quem sabe, de
companhias mais antigas, como a Panair e o Loyd Aéreo. Que os guarde com o zelo
próprio dos colecionadores.
Lembro vagamente de um telefonema bisbilhotado por
repórter de jornal sensacionalista, em que o príncipe Charles dizia à amada
Camiila (ex- Parker-Bowles) que gostaria de ser um Tampax,
absorvente íntimo, para estar sempre ali naquele lugarzinho cobiçado. Mas nunca
me passou pela cabeça que o prestigiado monarca tivesse se convertido em
colecionador de milhares de marcas de absorventes comercializadas mundo afora,
conforme pude ouvir numa mesa de restaurante ao lado, onde animado grupo
debatia amenidades.
Aliás, não tenho o menor interesse nesse tipo de
informação. Mas fico com uma ponta de dúvida: que espécie de gente sou assim
tão avesso a notícias destacadas sobre hábitos e desejos de figuras badaladas?
Afinal, se a grande mídia dá tanta importância, o futuro da Humanidade pode
depender dessas coisas e eu é que não alcanço tamanha verdade. Sei não.
(Uma
crônica de novembro de 2013 novembro, 2013)
[Ilustração
Leia também: A gratidão dos bichos e os riscos da clonagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/minha-opiniao_6.html
Sylvio: na cadeia
Bandido bom não é bandido morto, como apregoa a extrema direita, mas preso na Papudinha, com muita saúde para cumprir os 27 anos de cadeia que lhe foram devidamente impostos pela Justiça.
As duas cabeças do monstro que assombra o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/bastioes-da-direita.html
A política externa de Trump
Doutrina Donroe ou
Frankenstein neoliberal?*
Exame da nova Doutrina de
Segurança Nacional dos EUA. Crítica às elites, ao globalismo e às instituições
internacionais “usurpadoras” não esconde o essencial: aposta na força, ideia de
que não há alternativase crença na primazia dos mercados
Claudia Henschel de
Lima e Antonio José Alves Junior/Outras Palavras
Estamos longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram, mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido como globalismo?
A leitura do documento National Security Strategyof the United States of America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine, ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra, para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e, por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).
Este ensaio não propõe uma genealogia
que responderia de forma definitiva à complexidade dos dias atuais; ele visa
apenas oferecer uma primeira incursão no que pode se configurar como uma
escalada do neoliberalismo com Trump 2.0. E essa escalada se
manifesta pela virulência do niilismo do America First: típico
de uma torção discursiva imanente ao neoliberalismo globalista que funde
liberdade e autoritarismo, que rejeita os limites institucionais e a
autodeterminação dos povos em nome da centralização dos Estados Unidos na
geopolítica mundial. Ignora, assim, a relevância da Carta da ONU na garantia da
estabilidade e equilíbrio de poder entre os países. Essa torção, que faz com
que o neoliberalismo se funde ao autoritarismo, foi o que Wendy Brown denominou
como o Frankenstein do Neoliberalismo.
O caso da Venezuela se encaixa nessa
virulência niilista. Sabemos que a intervenção dos Estados Unidos na região é
conhecida, desde 2002, com a aprovação da tentativa de golpe de Estado contra o
então presidente Hugo Chávez.
De lá para cá, a Venezuela vem sendo
posicionada como ameaça à segurança nacional e à política externa dos Estados
Unidos. Em Trump 2.0, testemunhamos a escalada desse niilismo,
com a rejeição do artigo 2 da Carta da ONU e a aplicação do Peace
Through Strength desde junho de 2025: a redução de Nicolás Maduro, de
presidente da Venezuela a narcoterrorista internacional, chefe do Cartel de Los
Soles, ameaçador da segurança americana, foragido e procurado pela justiça
americana com recompensa de 25 milhões de dólares pela captura; e a ação da
força militar na Venezuela, de sequestro e prisão de Nicolás Maduro. É essa
centralização dos Estados Unidos na geopolítica que justifica também a ameaça
de anexação da Groenlândia para garantir a defesa nacional e a invasão à
Colômbia com uma nova redução no horizonte: a de Gustavo Petro, presidente da
Colômbia, a um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos
Estados Unidos.
Para construir essa primeira incursão
no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump
2.0., com a virulência do niilismo do America First, propomos
destacar os eixos estruturantes da Doutrina Donroe — ela
substitui a Doutrina Monroe (“The Monroe Doctrine is a big deal, but we’ve
superseded it by a lot, by a real lot. They now call it the Donroe document”/
“A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos — e muito,
muito mesmo. Agora eles chamam isso de Documento Donroe” — declaração de
Donald Trump em 3 de janeiro de 2026): uma visão ampliada, integrada e
centralizada de poder, que articula segurança, liderança tecnológica, economia,
cultura, moral e identidade nacional. E que entendemos estar organizada em oito
eixos estruturantes:
- Redefinição
do conceito de estratégia nacional.
- Centralidade
da soberania, do nacionalismo e do America First.
- Segurança
nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura.
- Economia
no fundamento da segurança nacional.
- Peace
Through Strength e
predisposição ao não-intervencionismo.
- Concorrência
estratégica com a China, Rússia e Irã.
- Organização
regional da estratégia global.
- Crítica
às elites e às ideologias contemporâneas.
I. Os eixos estruturantes da Doutrina
Donroe
O primeiro eixo do documento se refere
à redefinição do conceito de estratégia nacional à luz da
crítica direcionada à política do pós-Guerra Fria — caracterizada como difusa,
idealista e divorciada dos interesses nacionais concretos: ou seja, uma lista
de desejos, platitudes vagas, que não definem clara e objetivamente o
que os Estados Unidos querem (p.5). Essa redefinição está alicerçada
em três perguntas: 1. O que os Estados Unidos deveriam querer?;
2. Quais são os meios disponíveis para alcançá-lo?; 3. Como podemos conectar
fins e meios em uma estratégia de segurança nacional viável?
Essas perguntas mostram como a
concepção de estratégia nacional deve se fundamentar em uma posição clara a
respeito do que os Estados Unidos querem para si e de uma articulação precisa
entre fins e meios, baseada em prioridades explícitas e na limitação do escopo
da ação externa. Tudo em nome do America First e não da
autodeterminação dos povos, defendida pela Carta da ONU.
O que nos leva diretamente ao segundo
eixo estruturante da Doutrina Donroe: centralidade da soberania, do
nacionalismo — pilares do America First.
O National Security Strategyof
the United States of America reafirma a soberania nacional como
princípio organizador da política externa e de segurança, rejeitando o
multilateralismo e as agendas globais (ambos considerados ameaças à autonomia
dos Estados). Sendo pilares do America First, a defesa da soberania
e do nacionalismo criam um muro de proteção contra tudo o que representa uma
ameaça existencial aos Estados Unidos, visando: garantir sua continuidade como
república soberana e independente; proteger a população, o território, a
propriedade intelectual, a economia e o american way of life (por
exemplo, a família tradicional americana) de ameaças internacionais/globalistas; enfrentar
as ameaças militares e não militares (migrações em massa, espionagem,
narcotráfico, influência estrangeira, propaganda).
O que nos leva, diretamente, ao
terceiro eixo estruturante da Doutrina Donroe — a segurança nacional
ampliada: fronteiras, economia e cultura. É importante destacar a
centralidade tecnológica para as forças armadas, tornando-a a mais avançada do
mundo, com vistas à dissuasão de conflitos e a vencer guerras de forma rápida e
decisiva. Essa centralidade tecnológica se manifesta na superioridade nuclear e
no desenvolvimento de sistemas de defesa antimísseis (incluindo o Golden Dome).
Mas a defesa da soberania e do nacionalismo compõe uma compreensão ampliada do
que vem a ser a segurança nacional, pois integra o enfrentamento às ameaças
militares e não militares externas à proteção da economia, do território e do american
way of life. Para isso, a segurança nacional ampliada deve cobrir: o
encerramento da era das migrações em massa; o controle total das fronteiras e
das redes de transporte; a defesa de liberdades fundamentais (especialmente, a
liberdade de expressão e de religião) em oposição a agendas, definidas no documento,
como elitistas ou tecnocráticas (principalmente, o multiculturalismo, as
políticas identitárias e de diversidade e a agenda climática e regulatória).
No escopo da segurança nacional
ampliada, chegamos ao quarto eixo estruturante da Doutrina Donroe: a economia
no fundamento da segurança nacional.
O documento sustenta que a segurança
econômica é a segurança nacional. Para isso, é fundamental que a política
econômica seja orientada pela lógica da segurança nacional e se concentre: 1)
na garantia de economia forte com uma política comercial baseada na
reciprocidade, tarifas e combate a práticas “predatórias”; 2) na proteção das
cadeias produtivas e minerais críticos; 3) no fortalecimento da indústria
nacional, especialmente a vinculada à defesa; 4) na edificação do setor
energético como ativo geopolítico (energy dominance), inseparável da
rejeição à agenda climática global; 5) na associação direta entre prosperidade
econômica interna, poder global e capacidade militar.
Essa associação direta nos conduz ao quinto
eixo: Peace Through Strength e predisposição ao
não-intervencionismo.Ele não se reduz a um slogan militar;
mas se constitui como um princípio organizador da política externa americana,
em que a paz deriva da assimetria de poder claramente reconhecida, e não da
confiança em normas e instituições. Neste sentido, o eixo situa a força como
fundamento da dissuasão, ou seja, os atores estatais ou não estatais,
suficientemente dissuadidos, não ameaçam os interesses americanos. Para isso, a
Doutrina Donroe defende o forte investimento militar. Os princípios incluem: a
superioridade militar articulada à superioridade econômica, tecnológica,
nuclear e de propriedade intelectual; a capacidade de solucionar conflitos com
rapidez,evitando sua extensão por tempo indeterminado; realinhamento da
diplomacia para a força como condição para a paz; ênfase em burden-sharing,
ou seja, os aliados devem assumir maior responsabilidade por sua própria
defesa; articulação direta entre força externa e coesão interna por meio de valores
como meritocracia e confiança nacional, que garantem a unidade dos Estados
Unidos frente a comunidade internacional.
O Peace Through Strengthnos
conduz ao sexto eixo: concorrência econômica, tecnológica e
infraestrutural com China, Rússia e Irã (que fornece armas
e drones para países como Venezuela, que ameaçam a segurança do território
continental dos EUA). O documento destaca, ainda, a China como principal
concorrente no plano econômico, tecnológico e de inovação. O que nos coloca no
sétimo eixo: a organização regional da estratégia global.
Esse eixo, na verdade, apresenta a
reestruturação da ordem global a partir da centralidade geopolítica dos Estados
Unidos — com capilaridade na América Latina. Segundo o documento, após anos de
negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe
para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para
proteger os Estados Unidos e seu acesso a geografias-chave em toda a região.
Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração do poder e da
centralidade das prioridades americanas em termos de segurança ampliada. Essa
organização regional da estratégia global exige uma avaliação crítica
das elites e ideologias contemporâneas — o oitavo eixo da Doutrina
Donroe.
Trata-se de um dos eixos estruturantes
da Doutrina Donroe. O documento diagnostica que as elites intelectuais, desde o
fim da Guerra Fria, têm ficado aquém do esperado, com listas intermináveis de
desejos ou estados finais almejados; não definiram claramente o que os Estados
Unidos queriam; em vez disso, proferiram platitudes vagas. Elites econômicas,
políticas e intelectuais teriam produzido um desvio estratégico profundo ao
calcularem muito mal a disposição dos Estados Unidos em arcar para sempre com fardos
globais, em relação aos quais o povo americano não tinha sinergia alguma. O
documento afirma que tais elites superestimaram a capacidade econômica e
política dos Estados Unidos de manter simultaneamente um Estado administrativo
expansivo e um complexo militar-diplomático global, além de terem aceitado
passivamente a transferência de encargos de defesa para os EUA por parte de
aliados. Associada a essa avaliação crítica, o documento situa ainda a rejeição
das ideologias contemporâneas. Em primeiro lugar, a ideologia da diversidade,
equidade e inclusão (DEI) — considerada tóxica aos valores dos Estados Unidos —
defende a reinstauração de uma cultura do mérito e da competência. Em segundo
lugar, a ideologia do transnacionalismo, que desloca o centro decisório para
além do Estado-nação e enfraquece a coragem, a força de vontade e o
patriotismo. Essa crítica às ideologias contemporâneas converge para uma
leitura mais ampla de declínio moral, cultural e político, em que a perda de
confiança nas tradições nacionais, na história e na identidade civilizacional
teria enfraquecido tanto a política interna quanto a projeção internacional dos
Estados Unidos.
A primeira impressão, após a exposição
dos oito eixos da Doutrina Donroe, é que configuram uma escalada do neoliberalismo,
fundindo liberdade e autoritarismo, rejeitando os limites institucionais e a
autodeterminação dos povos, em nome da centralidade dos Estados Unidos na
geopolítica mundial. Isso é feito por meio do exercício unilateral de poder,
legitimado por uma gramática moral esvaziada de limites normativos — fusão essa
denominada por Wendy Brown de Frankenstein do Neoliberalismo.
O traço distintivo da Doutrina Donroe reside nessa fusão niilista da liberdade
e do autoritarismo, que corrói a própria ideia de ordem internacional,
substituindo-a por uma geopolítica na qual a ausência de limites institucionais
deixa de ser exceção e se converte em princípio organizador da política global
no século XXI.
*Título original: A Doutrina Donroe e o
desenho de uma nova ordem global neoliberal: America First
Leia também: O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html
Irã, novo alvo de Trump
O que está acontecendo no Irã: manipulações externas e contradições internas
Objetivo estrangeiro não é apoiar o povo, mas enfraquecer um Estado que se recusa a se submeter à hegemonia global dos Estados Unidos
Ana Prestes
O Irã sempre foi um ponto sensível da geopolítica, mas nas últimas semanas a situação ficou mais mediatizada devido a uma onda de protestos. O problema é que a narrativa vendida pela mídia internacional é simples demais: de um lado, um povo oprimido e, do outro, um regime opressor prestes a cair. No entanto, a realidade é muito mais complexa e para entendê-la, precisamos olhar para dentro do país, mas também para a ingerência externa sofrida pelo Irã.
Como em qualquer lugar, no Irã existem causas populares legítimas, dificuldades econômicas, tensões sociais, geracionais e culturais. Há grupos de oposição que não aceitam a condução do governo islâmico — um modelo de Estado regido por religiosos que é muito diferente da nossa experiência de Estado laico no Brasil. Portanto não se pode negar que há motivos para manifestações e protestos. Contudo, a existência dessas contradições internas não nos isenta de analisar as manipulações externas que estão sendo feitas sobre essas contradições.
O Irã tem uma história marcada pela interferência direta de potências ocidentais. Em 1953, os Estados Unidos e o Reino Unido organizaram um golpe de Estado para controlar o petróleo iraniano. Desde então o Irã vive sob uma pressão constante. Após a Revolução Islâmica na década de 1970, a situação se intensificou, com sanções, sabotagem, guerra informacional e ações militares justificadas por uma suposta “defesa da democracia”. Hoje, os Estados Unidos aplicam ao Irã uma das políticas de sanções mais duras do planeta, que afeta diretamente a vida da população, causando falta de medicamentos, desemprego e alto custo de vida.
+ ‘Captura’: um eufemismo dos sabujos contra a soberania da Venezuela
Todo esse sofrimento causa uma situação de comoção interna, mas ele é produzido justamente para atuar dessa forma. A partir do exterior são criados elementos para gerar uma crise social e estimular revoltas internas, fatores que caracterizam as chamadas guerras híbridas. Observo também uma atuação coordenada entre meios de comunicação e plataformas digitais, onde certos discursos políticos cuidadosamente selecionados são exaltados e outros silenciados de forma proposital. Amplificar algumas vozes e silenciar outras não tem nada a ver com solidariedade internacional, mas com interferência política, ingerência e tentativa de dominação.
Embora os protestos sejam mostrados como homogêneos, como se fossem representativos de toda a população do país, a sociedade iraniana é plural e possui projetos políticos divergentes internamente, o que ficou demonstrado pelas recentes manifestações massivas em apoio ao governo. Fica claro que o objetivo estrangeiro não é apoiar o povo, mas enfraquecer um Estado que se recusa a se submeter à hegemonia global dos Estados Unidos. Esse roteiro já foi aplicado na Líbia, Síria, Iraque e Venezuela.
Defendo a soberania do Irã, o que não significa concordar com todas as decisões do seu governo – existem também críticas a ele. Mas a história nos mostra que nenhum povo se libertou através de bombardeios ou tutelas imperiais. Se forem existir mudanças dentro do Irã, elas devem partir da própria dinâmica da sociedade iraniana, sem interferências externas, chantagens econômicas ou sanções.
+ O confisco do petróleo venezuelano e o exercício do mercantilismo trumpista
Sempre que os Estados Unidos se apresentam como defensores da democracia, o resultado recorrente é o caos, destruição, perda de soberania. Chamo a atenção também para o oportunismo da antiga monarquia Pahlevi, derrubada em 1979 pela Revolução Islâmica, cujos descendentes tentam se apresentar como uma alternativa democrática para o Irã.
Os herdeiros estão se aproveitando do sofrimento social do povo iraniano e do desgaste interno gerado pelos protestos para se posicionarem politicamente, sendo que seu principal representante vive nos Estados Unidos há décadas. Estão recebendo espaço privilegiado na mídia ocidental, sendo tratados como lideranças naturais, que obviamente não são.
Esse regime monárquico foi submisso aos interesses dos Estados Unidos e de outras potências do Ocidente, marcado por repressão política, tortura sistemática, perseguição a opositores e extrema concentração de riqueza. Não havia democracia, soberania, nem direitos para as mulheres. Washington apoia o retorno da família Pahlevi com o objetivo de promover novamente uma dependência colonial do Irã em relação aos Estados Unidos.
+ Quando a história parece não ter fim: a esquerda no século XXI
Eles não falam de soberania nacional, nem do fim das sanções, mas acenam com um alinhamento ao Ocidente. Aparecem em fotos com o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e com membros do governo dos Estados Unidos. Falam em abertura do país aos mesmos interesses que o exploraram no passado. Não há nada de progressista na restauração de uma monarquia que governou o Irã de forma ditatorial.
Concluo reforçando que o Irã não enfrenta apenas uma crise interna, mas é alvo de uma guerra econômica, midiática e militar. Lamento profundamente as perdas humanas nos protestos, mas é preciso entender realmente em que circunstâncias essas mortes ocorreram e questionar os números sem consistência divulgados pela mídia para gerar comoção e uma pretensa solidariedade ao povo iraniano, quando isso pode estar sendo um grande disfarce para uma tentativa de intervenção.
Na dimensão econômica, as sanções impostas pelos Estados Unidos funcionam como um cerco que estrangula o comércio, bloqueia transações financeiras, dificulta a importação de alimentos e medicamentos para provocar essa instabilidade social.
Na dimensão militar, o Irã convive com bases estrangeiras ao seu redor e sofre ameaças constantes e ataques indiretos inclusive do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos. Ataques a instalações de enriquecimento de urânio, operações clandestinas, assassinatos seletivos de físicos, químicos, cientistas e inclusive o assassinato, em janeiro de 2020, do comandante das Forças Armadas do Irã, Qasem Soleimani.
Há um estado de guerra, embora não seja uma guerra declarada. É nesse contexto que estão acontecendo esses protestos. Ignorar essa guerra múltipla é distorcer completamente a realidade. São setores externos que estão falando de crise de legitimidade no Irã, ocultando o papel que eles mesmos desempenham na produção dessa crise. É óbvio que não se trata apenas de conflitos internos, é um país que está sob risco de intervenção.
Leia: A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html




