16 setembro 2026

Minha opinião

Abordagem capciosa
Luciano Siqueira   

Vinte e quatros horas por dia a grande mídia neoliberal martela criticas ao governo Lula por não equacionar, segundo dizem, o equilíbrio das contas públicas.

Mas praticam uma omissão grave.

Escondem os juros da dívida pública por um truque focam no Resultado Primário (receitas menos despesas sem contar os juros) e não no Resultado Nominal (que inclui os juros pagos).

A tática tendenciosa se apoia no argumento (falso) de que não cabe incluir os juros da dívida, mas tão somente o que está sob controle direto do Poder Executivo.

Ora, o governo age corretamente quanto gasta com saúde, educação, obras e funcionalismo (despesas primárias). Bons governos, como o de Lula, exercem aí a disciplina fiscal possível.

Entretanto, os juros (Selic) são definidos pelo Banco Central para controlar a inflação (política monetária). A taxa de juros é influenciada por fatores globais e expectativas de mercado, e não apenas de uma decisão orçamentária do governo.  

Nesse jogo pesado de interesses da elite financeira, se o governo gera um superávit primário, lê-se que terá capacidade de pagar ao menos parte dos juros no futuro, o que ajuda a baixar a própria taxa de juros de longo prazo.

Importa destacar que a maior fatia do crescimento do endividamento público vem do pagamento de juros altos aos detentores de títulos da dívida, e não do gasto social ou de investimentos em infraestrutura.  

Governos de direita valem-se do corte de gastos sociais para fechar a conta primária e preservar a remuneração do capital financeiro (juros) enquanto reduz a capacidade do Estado de ofertar serviços públicos básicos.

Há, portanto, um conflito claro entre os interesses dos que vivem da usura e os interesses do povo e da nação, onde ignorar os juros esconde a principal causa do endividamento e beneficia a elite financeira.

A reprimarização do Brasil e a possível virada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/brasil-desafios-do-desenvolvimento.html

Humor e resistência

 

Quinho

Basta à parcialidade golpista de André Mendonça! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/editorial-do-vermelho_02048106521.html 

Ecossistema sociotécnico

Para além da sociedade do desempenho
O avanço da inteligência artificial transforma a autocobrança humana em um ecossistema sociotécnico regulado por métricas implacáveis de eficiência
Helio Miranda Costa Junior*/A Terra é Redonda 

 

1.

Ao longo de sua obra, Byung-Chul Han descreveu diferentes dimensões da transformação contemporânea. Em A sociedade do cansaço mostrou como a lógica do desempenho substituiu a disciplina como princípio organizador da subjetividade. O desaparecimento dos rituais  voltou-se à erosão das formas simbólicas que estabilizavam a vida coletiva. Já em Não coisas o tema passou a ser a crescente substituição do mundo dos objetos por um ambiente constituído por fluxos de informação. Embora cada obra possua um problema específico, elas podem ser lidas como momentos de um mesmo diagnóstico sobre a reorganização da experiência contemporânea.

A hipótese desenvolvida neste ensaio parte desse percurso, mas propõe que uma transformação recente deslocou novamente o objeto da crítica. Se Byung-Chul Han investigou principalmente as mudanças na subjetividade, nos vínculos e na materialidade do mundo, a expansão da inteligência artificial e das arquiteturas algorítmicas parece exigir atenção para outro nível de análise: o próprio sistema que coordena essas transformações.

A sociedade do cansaço foi publicada em 2010, quando sistemas de pontuação de crédito automatizados já operavam havia décadas, plataformas como Uber e Airbnb apenas começavam a se consolidar, e algoritmos de recomendação já organizavam parte relevante do consumo de conteúdo. A mediação algorítmica é, portanto, um fenômeno anterior ao livro. A diferença relevante está em outro ponto: quando a automação passou a ocupar, ela mesma, o lugar de agente avaliado e avaliador dentro do mesmo circuito de desempenho.

Esse deslocamento se intensifica sobretudo com a difusão de modelos generativos e agentes autônomos, distinto do momento anterior, em que sistemas técnicos calculavam e pontuavam ações humanas sem participar diretamente da execução do trabalho cognitivo ou criativo. O pressuposto de que essa produção permanece ancorada, em última instância, no sujeito humano já não parece suficiente.

Hoje, parte significativa das atividades cognitivas é realizada em cooperação com sistemas artificiais: escrevemos com auxílio de modelos de linguagem, decidimos apoiados por algoritmos, e delegamos a agentes computacionais tarefas que antes exigiam julgamento humano direto. Ao mesmo tempo, indicadores e protocolos automatizados como sistemas de pontuação passaram a coordenar o funcionamento de organizações inteiras. O desempenho continua sendo o princípio organizador, ainda que não dependa mais exclusivamente da ação humana.

2.

Um exemplo próximo torna esse deslocamento palpável. O sistema de avaliação por impacto acadêmico (fator de impacto de periódicos, índices de citação, o Qualis brasileiro) nasceu como heurística de relevância: um modo indireto de estimar se uma pesquisa alcançava e influenciava seus pares. Em poucas décadas, essa heurística deixou de acompanhar a pesquisa para passar a orientá-la.

Pesquisadores ajustam temas, métodos e a própria fragmentação de resultados em múltiplos artigos para atender às exigências do índice, e revistas reorientam políticas editoriais para subir no ranking, um ajuste que se propaga até as universidades, que redistribuem recursos e cargos conforme o desempenho agregado desses números. Nenhum agente isolado desenhou esse arranjo ou o controla inteiramente: ele resulta da articulação entre bases de citação, algoritmos de ranqueamento e comitês de avaliação, calibrados por uma mesma lógica.

O efeito é cumulativo: quem já ocupa posição central tende a ser mais citado e mais visível, o que reforça essa centralidade independentemente da qualidade intrínseca de cada contribuição isolada. A arquitetura que sustenta o sistema de impacto acadêmico, distribuída entre agentes humanos e técnicos sem que ninguém a tenha desenhado sozinho, ilustra em escala menor o que este ensaio chama de sistema do desempenho.

A racionalidade descrita por Byung-Chul Han permanece válida, porém seu objeto se ampliou. Se a sociedade do desempenho explicava um momento em que o sujeito ocupava o centro da produção, o presente parece exigir outra categoria analítica: a de sistema do desempenho. A mudança desloca o foco da análise para além do vocabulário. Byung-Chul Han descreve a forma como o sujeito internaliza a exigência de desempenho e passa a explorar a si mesmo.

A hipótese aqui proposta dirige a atenção para a arquitetura que organiza essa exigência: uma propriedade que emerge da articulação entre pessoas, algoritmos, plataformas e protocolos de avaliação, integrados por uma mesma racionalidade operacional, e que ultrapassa qualquer experiência subjetiva isolada.

3.

Essa hipótese encontra uma antecipação parcial em Infocracia, obra em que Byung-Chul Han desloca a análise da psicopolítica do sujeito-empresário-de-si para os regimes de governança algorítmica que organizam a esfera pública em enxame de dados. Sua crítica, contudo, mantém o sujeito como ponto de referência normativo, ainda que dissolvido. O enxame de dados aparece, nesse relato, como aquilo que se perde para o sujeito; a arquitetura que coordena dados, protocolos e agentes de naturezas distintas segundo uma métrica comum permanece em segundo plano.

É esse segundo movimento, o da erosão do sujeito para a descrição da arquitetura que a produz, que a hipótese do sistema do desempenho procura tornar explícito.

O conceito de sistema do desempenho também precisa ser distinguido de descrições vizinhas. O “capitalismo de plataforma” (Platform capitalism), tal como Nick Srnicek o descreve, permanece fundamentalmente uma teoria de acumulação: a plataforma intermedeia e processa dados como nova forma de capital, e sua lógica central permanece econômica. A hipótese do sistema do desempenho desloca o eixo da análise da acumulação para a normatividade: para o critério que passa a avaliar a atuação de qualquer agente, humano ou técnico, dentro do mesmo circuito.

Antoinette Rouvroy descreve, por sua vez, a governamentalidade algorítmica como um poder que antecipa condutas a partir de correlações estatísticas, dispensando o sujeito como instância de referência. Otávio Morato de Andrade retoma essa hipótese no contexto brasileiro, associando-a aos riscos que a governamentalidade algorítmica representa para a democracia (Governamentalidade algorítmica: democracia em risco?). O sistema do desempenho aqui proposto não abandona o sujeito: redistribui-o como um entre vários agentes avaliados pela mesma métrica de eficiência. Continua havendo algo a exigir de alguém, mesmo quando esse alguém deixa de ocupar sozinho o centro da exigência.

Essa diferença altera a própria pergunta filosófica. A pergunta sobre como o indivíduo se torna empresário de si mesmo não abrange mais a questão inteira. Importa também compreender como um sistema passa a coordenar agentes de naturezas distintas segundo critérios comuns de eficiência, previsibilidade e otimização. Nesse contexto, a distinção entre humano e artificial segue existindo, deslocada do centro que antes ocupava como eixo organizador da análise. O que passa a importar é a capacidade de cada elemento contribuir para a produção de desempenho.

Essa perspectiva parte do diagnóstico de Byung-Chul Han, sem pretensão de corrigi-lo ou substituí-lo. A sociedade do desempenho descreveu com precisão uma etapa decisiva da modernidade tardia. A hipótese do sistema do desempenho procura compreender o passo seguinte dessa trajetória: o desempenho segue como lógica dominante, agora estendida a uma organização que ultrapassa os sujeitos, uma ecologia sociotécnica mais ampla, em que pessoas, máquinas e plataformas participam de um mesmo circuito de produção e avaliação.

*Helio Miranda Costa Junior é doutor pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-doutorado pelo InCor-USP.

O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html

Postei nas redes

"Saiba por que aparelho usado por tenista para monitorar a glicose ainda é luxo por aqui", convida o Estadão. Nem quero saber. Estou totalmente envolvido na campanha para reeleger Lula. 

A praça ainda é do povo? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/minha-opiniao_02118984853.html

Dilemas do futebol

Invenção e reinvenção do futebol
Não existe um único caminho para obter ótimos desempenhos e resultados. No instante do lance, são os grandes craques que inventam e reinventam o jogo
Tostão/Folha de S. Paulo   

Ancelotti, pela primeira vez, reconheceu que existe uma carência de grandes meio-campistas no futebol brasileiro. Disse ainda que a Espanha joga com muita posse de bola, muita troca de passes e associações no meio-campo porque tem a sorte de possuir jogadores excepcionais no setor.

Não é por sorte.

A Espanha forma um grande número de excelentes meio-campistas por convicção. No Brasil, os jogadores hábeis e criativos são deslocados para atuarem mais na frente, centralizados, no ataque ou pelas pontas.

Aqui persiste ainda a antiga divisão no meio-campo entre os volantes que marcam e os meias que atacam, embora nos últimos anos tenham surgido bons meio-campistas que atuam de uma intermediária à outra. Porém não há, com exceção de Bruno Guimarães, outro meio-campista de talento para o nível de uma seleção brasileira. Existem promessas.

A Espanha, campeã do mundo, bastante aplaudida, poderia ter jogado melhor se Pedri tivesse brilhado, como faz habitualmente, e se Lamine Yamal estivesse em forma, pois se recuperava de uma contusão durante o Mundial.

Há décadas os espanhóis priorizam o meio-campo. Uns 20 anos atrás, o Barcelona encantou o mundo e revolucionou o futebol, sob o comando de Guardiola, com um trio de craques meio-campistas formado por Busquets, Xavi e Iniesta. No mesmo modelo, a Espanha foi campeã do mundo em 2010 e bi da Europa em 2008 e 2012.

O time atual do Barcelona, com a contratação de Rodri, maestro e condutor do meio-campo da seleção, ficou ainda mais forte com a presença de outros campeões do mundo: Pedri, Olmo, o zagueiro Cubarsi, além de Raphinha.

 

Evidentemente, a maneira de jogar da Espanha não é a única eficiente. O ideal é unir, em um mesmo jogo, a posse de bola e a troca curta de passes, com as transições rápidas da defesa para o ataque, de acordo com o momento. Para isso, é necessário saber o instante certo de pausar, ficar com a bola, e o de acelerar em direção ao gol.

 

O futebol brasileiro vive um impasse. Não sabe se aposta no passado, como querem muitos saudosistas, priorizando o drible, a improvisação e as jogadas de efeito, ou se adota uma postura mais cientifica, pragmática, racional, como se tivesse um GPS para mostrar o caminho em direção ao gol.

Após o encantador futebol dos anos 60 e 70 —época de esplendor também nas artes, com o magistral "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, e o surgimento de artistas geniais, como Chico Buarque, Caetano Veloso e tantos outros— houve, a partir dos anos 80, progressivamente, uma grande transformação no futebol por causa da evolução cientifica. O jogo ficou mais estratégico, previsível e ruim.

Nos últimos 20 anos ocorreu uma reação, especialmente na Europa, com a união entre o jogo inventivo dos anos 60 e o pragmatismo e a disciplina tática. O futebol renasceu, voltou a ser bonito e eficiente, uma maneira de jogar que ainda não foi bem assimilada pelo futebol brasileiro e é uma das razões dos fracassos nos últimos seis Mundiais.

Seja qual for a época, não existe um único caminho para obter ótimos desempenhos e resultados. No instante do lance, os grandes craques inventam e reinventam o futebol.

Lições da Espanha, campeã do mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/copa-do-mundo-espanha-no-podio.html

Arte é vida

Paul Gauguin

Desejar, poema de Jorge de Lima https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_01049914644.html 

Ruy Castro opina

O berço dos Bolsonaros
Como deputados ou senadores pelo Rio, nunca apresentaram projetos sobre o estado. Mesmo supostamente baseados no Rio ou em SP, seu território sempre foi Brasília
Ruy Castro/Folha de S. Paulo   

Sempre que ouço falar do Rio como berço político da família Bolsonaro, olho em torno em busca de vestígios da passagem deles por aqui. Pfftt. O patriarca Jair Bolsonaro, por exemplo, nasceu em Glicério (SP). Só saiu de lá aos 19 anos, em 1974, para estudar e morar na Academia Militar das Agulhas Negras, onde se formou, casou e teve os filhos Flávio, Eduardo e Carlos. A Aman fica em Resende (RJ), divisa de MG e SP, a 162 km do Rio. Expulso do Exército em 1989, mudou-se para Bento Ribeiro, zona norte do Rio, e se tornou vereador. Em 1991, elegeu-se para a Câmara e foi para Brasília.

Em 27 anos como deputado federal pelo Rio, até 2018, só teve dois projetos aprovados, um deles a liberação da "pílula do câncer", de eficácia não comprovada. Seus salários custaram R$ 59 milhões à nação. Sua vivência carioca se limita a uma casa num condomínio na Barra, onde pouco ficou, e às selvagens motociatas em Copacabana quando presidente. Torce pelo Palmeiras.

Seu filho Flávio, o 01, foi deputado estadual pelo Rio de 2003 a 2019. Suas grandes medidas foram a medalha em 2005 para o miliciano Adriano da Nóbrega, chefe do Escritório do Crime, e a defesa das milícias em 2007, 2008, 2011 e 2015. Senador desde 2019, comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília com dinheiro vivo. Suplicou R$ 134 milhões dos fundos públicos desviados por seu "irmão" Daniel Vorcaro para o filme "Dark Horse" e não consegue se explicar sobre esse dinheiro.

Já Eduardo Bolsonaro, o 02, nada tem ou teve a ver com o Rio. Fez toda sua carreira como deputado federal por São Paulo —eleito em 2014, 2018 e 2022 com grandes votações—, embora seu elo com a cidade sejam duas salas alugadas no Paraíso, onde nunca foi visto. Cassado, condenado e foragido, refugia-se hoje no Texas. E Carlos Bolsonaro, o 03, foi vereador pelo Rio de 2000 a 2025, mas passava tanto tempo em Brasília que era chamado de "vereador federal". É candidato a senador por Santa Catarina, que só conhece a passeio.

E assim temos o berço político dos Bolsonaros.

[Ilustração: Aroeira]

Do homem da mala para 'Dark Horse' https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/em-cima-do-lance.html