10 abril 2026

Minha opinião

Trump atira no próprio pé
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Um erro histórico de ocorrências catastróficas é a opinião crescente entre norte-americanos, incluindo parcela expressiva dos apoiadores de Donald Trump.

Desastre na essência semelhante à guerra contra o Vietnã, de consequências geopolíticas drásticas. .

A semelhança com a Guerra do Vietnã se faz em razão de que os Estados Unidos provocaram em um conflito sem uma estratégia de saída clara, em terreno hostil e contra um adversário com alta capacidade de “resistência assimétrica”.

Também especula-se um custo humano e financeiro se supõe superiores às guerras no Iraque e no Afeganistão.

É o que noticia a grande mídia norte-americana, sem excluir, em certa medida, mesmo órgãos simpáticos ao governo Trump.

Teme-se a dispersão das forças americanas e a vulnerabilidade de bases no Oriente Médio e a imprevisibilidade quanto à ação de grupos armados aliados do Irã, como o Hezbollah.

De outra parte, na cena diplomática internacional os Estados Unidos tentam impor seus pontos de vista e buscam um apoio incondicional impossível de obter. Caso da Comunidade Europeia, com um pé atrás desde a ruptura unilateral do acordo nuclear (JCPOA) adotada por Trump.  .

As consequências para os Estados Unidos e aliados se agravam. O fechamento do Estreito de Ormuz provocou alta incontrolável dos preços do petróleo, impactando a economia mundial. De quebra, a habilidade diplomática e política da Rússia e da China em relação ao Irã e demais países do Oriente Médio projetam conquista de terreno na região com consequente enfraquecimento dos Estados Unidos.

Nesse cenário, o uso de força terrestre parece cada vez mais inapropriado aos Estados Unidos.

Enquanto isso, internamente a oposição cresce praticamente às vésperas das eleições parlamentares, com ameaça evidente da perda de maioria por parte do governo.

[Ilustração por IA]

Leia também: A disputa entre tradições rivais da direita americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/eua-direita-dividida.html

Sylvio: até quando?

Os Estados Unidos sempre estiveram envolvidos em ações de guerra, porém o discurso de seus dirigentes era diferente do de Trump, que ameaça seus inimigos com destruição total. Até quando o mundo aceitará viver sob suas ameaças, vazadas em uma linguagem de violência e intimidação?

Sylvio Belém  

Trump atira no próprio pé https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_10.html 

Finanças públicas

Do arrocho ao alívio, dois projetos e dois Brasis em disputa
Entre o ajuste regressivo de Jair Bolsonaro (PL) e a recomposição social de Lula (PT), o País revela quem paga a conta e quem colhe os resultados
Marcos Verlaine/Vermelho      

Quem paga o ajuste? A política fiscal nunca é neutra, escolhe lados, mesmo quando finge não escolher. No governo Jair Bolsonaro (PL), o ajuste recaiu, de forma clara, sobre os mais pobres.

Política fiscal é o conjunto de estratégias do governo para gerir as finanças públicas, utilizando a arrecadação de tributos e os gastos públicos para regular a atividade econômica, controlar a dívida e promover o crescimento. Essa equilibra receitas (impostos) e despesas (investimentos/serviços) para influenciar a demanda agregada, emprego e inflação.

Sem reajuste real do salário mínimo e com a tabela do Imposto de Renda da pessoa física congelada, o resultado foi aumento silencioso da carga tributária sobre os trabalhadores, sobretudo, os de baixa renda. Trata-se do chamado “ajuste invisível”: não há aumento formal de impostos, mas a corrosão inflacionária empurra mais gente para dentro da tributação.

É o tipo de política que preserva o topo enquanto comprime a base.

Custo herdado

Ao assumir o governo, Lula (PT) encontrou passivo relevante: precatórios represados e dívidas com estados que haviam sido postergadas.

No primeiro ano, foram cerca de R$ 120 bilhões destinados a quitar esses compromissos: ajuste necessário, mas que consumiu espaço fiscal.

Esse movimento, frequentemente ignorado no debate público, revela que parte da margem de ação do novo governo foi utilizada para corrigir distorções herdadas do governo anterior, e não apenas para expandir políticas.

Mudança de eixo

A diferença central entre os dois períodos — Bolsonaro e Lula — está na direção das políticas.

Lula opta por recompor renda na base da pirâmide: retomada do ganho real do salário mínimo e proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, combinada com cortes em gastos tributários.

Aqui há inversão: o ajuste deixa de ser regressivo e passa a buscar alguma progressividade. Em vez de ampliar a carga sobre quem ganha menos, tenta redistribuir o peso; ainda que com limites e resistências.

Indicadores não são neutros

Os efeitos dessa mudança aparecem nos indicadores sociais e econômicos. A inflação atinge o menor patamar dos últimos anos, o desemprego recua ao nível mais baixo da série histórica, e a economia volta a crescer em ritmo superior ao período anterior.

Mais relevante: o salário médio e a massa salarial atingem níveis recordes. Isso não é apenas estatística. É a circulação de renda, dinamismo econômico e redução de vulnerabilidades.

Indicadores não contam toda a história, mas revelam tendências. E a tendência, nesse caso, aponta para economia mais dinâmica e aquecida a partir da base.

Modelos em confronto

O contraste entre os governos não é apenas de estilo. É de modelo.

Bolsonaro operou dentro da lógica da contenção fiscal que preserva o topo e ajusta pela base.

Lula, por sua vez, tenta reativar modelo de crescimento com inclusão, ainda que condicionado por restrições fiscais e pressões do mercado.

Nenhum dos dois escapa completamente das amarras estruturais do Estado brasileiro. Mas as escolhas dentro dessas amarras fazem a diferença concreta na vida da população.

Limites e contradições

Isso não significa ausência de problemas no atual governo. A necessidade de conciliar responsabilidade fiscal com expansão social gera tensões permanentes.

Cortes de gastos tributários enfrentam resistência de setores privilegiados, enquanto a ampliação de benefícios pressiona o orçamento.

A diferença é que, ao menos no desenho, há tentativa de equilibrar as contas sem penalizar os mais vulneráveis. Algo que esteve ausente no ciclo anterior.

O Brasil que se escolhe

No fundo, o debate é simples: quem deve pagar pela estabilidade fiscal? Os de baixo, via arrocho silencioso, ou os de cima, via revisão de privilégios?

Ambos os governos deram respostas distintas à essa pergunta. E os resultados começam a aparecer.

O Brasil segue desigual, mas não é indiferente às escolhas políticas. Entre o arrocho e o alívio, entre compressão e recomposição, o País revela que a economia é, antes de tudo, disputa de poder.

O mundo gira. Saiba mais  https://lucianosiqueira.blogspot.com/

09 abril 2026

Palavra de poeta

Depoemento
Paulo Leminski   

Vocabulário?
Restrito.
Nunca digo.
Cito. Ou grito.
De palavras? Certas.
Noite, dia, longe, perto,
alas, asas, almas, pétalas.
O resto, não interessa.
 
Frases, as simples,
as puras sempre sim, sem símiles.
Mentira. Não amo frases.
Todas elas são, todas passam dos limites.
Dizer? Disseras. Sentir, sentiras.
De verdade, gosto mesmo
é de mentiras
 
Me imitem

 
[Ilustração: Nabeeha Mohamed]
 
Leia também: "Faz anos navego o incerto", poema de Caio Fernando Abreu https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_7.html 

Postei nas redes

"Se você conhece seu inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de centenas de batalhas." (Sun Tzu, A arte da guerra) 

Mais atenção à realidade concreta! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html 

Autonomia tecnológica brasileira

Soberania digital como missão nacional
Infraestrutura, dados e poder de compra do Estado – um programa concreto para reconstruir a autonomia tecnológica brasileira
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN       

O Brasil não perdeu a corrida digital por falta de capacidade. Perdeu por falta de estratégia.

Se, ao longo dos dois primeiros artigos desta série, vimos como o país financia infraestruturas tecnológicas externas e como seus próprios dados passam a ser operados com base nessas plataformas, resta agora a questão decisiva: é possível reverter esse processo?

A resposta é sim – mas não por inércia de mercado A dependência digital brasileira não é episódica. Ela é estrutural. Por isso, sua superação exige mais do que ajustes pontuais: requer organização deliberada, coordenação institucional e decisão política.

Missão nacional, não agenda setorial

A reconstrução da soberania digital brasileira não pode ser tratada como uma agenda técnica restrita a órgãos de tecnologia da informação. O que está em jogo é o controle de infraestruturas críticas, a proteção de dados estratégicos e o uso do poder de compra do Estado para formar mercados e competências.

Trata-se, portanto, de uma missão nacional no sentido forte do termo.

Missões não são listas de intenções. São processos organizados em torno de objetivos de longo prazo, com instrumentos coordenados, metas verificáveis e capacidade de indução estatal [1].

Se a dependência digital é estrutural, sua superação também precisa ser.

Sem missão nacional, a transformação digital tende a permanecer fragmentada – e não se consolidar como projeto de país.

O erro de origem

O Brasil não fracassou na transformação digital por falta de capacidade técnica. Ao contrário, construiu uma das mais abrangentes infraestruturas públicas de dados do mundo em desenvolvimento.

O fracasso foi institucional.

A digitalização foi tratada como modernização administrativa, e não como política de desenvolvimento.

Enquanto países centrais utilizaram o poder de compra estatal para construir suas capacidades tecnológicas, o Brasil consolidou um modelo em que o Estado atua como cliente, e não como indutor.

O resultado é uma dependência crescente, acompanhada de vazamento de valor e perda de capacidade decisória [2].

Infraestrutura digital é infraestrutura crítica

O primeiro passo para reverter esse quadro é reconhecer algo ainda pouco internalizado: infraestrutura digital é infraestrutura crítica.

Ela deve ser tratada no mesmo nível que energia, telecomunicações, sistema financeiro e defesa. Não se trata apenas de escolher tecnologias eficientes, mas de definir quem controla as bases sobre as quais o Estado opera.

Essa mudança desloca o foco do “que contratar” para o “como organizar”.

É nesse plano – o da arquitetura institucional – que experiências internacionais se tornam instrutivas, não como modelos a copiar, mas como evidência de que diferentes arranjos produzem resultados distintos.

Arquitetura aberta e interoperabilidade: a lição mais importante da Estônia

A experiência da Estônia tornou-se referência global não apenas pela eficiência, mas pela arquitetura institucional adotada [3, 4].

Desde o início, a Estônia estruturou sua transformação digital com base em padrões abertos, interoperabilidade e modularidade. A plataforma X-Road – uma camada que conecta bases distribuídas e permite a troca segura de informações sem centralização – integra sistemas públicos e privados, sem depender de um único fornecedor.

O modelo é híbrido. Mas seu núcleo é claro: impedir o aprisionamento tecnológico.

Dados são portáveis. Sistemas são substituíveis. As interfaces seguem padrões definidos pelo Estado.

Soberania digital não se constrói escolhendo fornecedores diferentes – constrói-se criando condições para que qualquer fornecedor seja substituível.

Escala não é desculpa

Uma objeção recorrente é a escala.

Argumenta-se que um país como o Brasil seria grande demais para implementar soluções desse tipo.

Esse argumento é equivocado.

A concepção de uma arquitetura digital – seus protocolos, padrões e princípios – é um problema de desenho institucional cujo custo é majoritariamente fixo. O que escala é a implementação.

O problema brasileiro não é excesso de escala – é insuficiência de arquitetura.

Um horizonte necessário: 2027–2050

Missões dessa natureza não cabem no tempo curto dos ciclos políticos. Elas exigem continuidade, coordenação e horizonte de longo prazo.

O percurso brasileiro pode ser compreendido como uma travessia em três tempos. O primeiro, com início ainda nesta década e projeção até 2030, é o tempo da fundação: mapear dependências, classificar dados estratégicos e reorganizar contratos. Entre 2031 e 2040, inicia-se a fase de construção, marcada pela ampliação das capacidades nacionais, pela consolidação de uma infraestrutura sob governança própria e pela estruturação de sistemas interoperáveis. Por fim, entre 2041 e 2050, chega-se ao patamar da maturidade, quando o país passa a operar com capacidade decisória própria em áreas críticas.

Não se trata de autossuficiência – trata-se de capacidade de escolha

Pensado assim, o horizonte 2027–2050 deixa de ser um cronograma burocrático e passa a funcionar como uma forma de organizar o tempo de uma escolha histórica: permanecer como usuário avançado de sistemas concebidos fora ou tornar-se, gradualmente, autor das próprias infraestruturas que estruturam sua vida econômica e política.

É dessa passagem – do tempo à ação – que emerge a necessidade de metas claras.

Metas que tornam a missão real

Sem metas verificáveis, missões se dissolvem em intenções.

No horizonte de 2030, o país precisa ser capaz de inventariar seus dados estratégicos e redirecionar parcela relevante do gasto em tecnologia para soluções sob controle efetivo. Na década seguinte, o desafio deixa de ser apenas diagnóstico e passa a ser estrutural: alcançar, até 2040, ao menos metade do processamento de dados críticos sob governança nacional. Já em 2050, a meta deve ser inequívoca: assegurar que a maior parte desses dados, idealmente acima de 80%, esteja sob controle soberano.

Sem parâmetros desse tipo, o debate tende a oscilar entre retórica e improviso.

O papel do Estado: de cliente a arquiteto

Essa transformação depende de redefinir o papel do Estado. Como argumenta Mariana Mazzucato, os Estados moldam mercados [1].

O Estado brasileiro precisa deixar de atuar como usuário de tecnologia e passar a organizá-la como estratégia.

Não se trata de isolamento – mas de capacidade de escolha

Nenhum país relevante opera em plena autonomia tecnológica – e certamente não em autarquia (isto é, em um modelo de isolamento econômico e tecnológico, praticamente inexistente no mundo contemporâneo).

A questão não é eliminar tecnologias externas, mas evitar dependência estrutural.

Isso implica garantir a portabilidade de dados, a interoperabilidade e a capacidade de substituição tecnológica.

Em termos práticos, significa que as soluções devem poder ser auditadas, integradas e substituídas sem que haja ruptura operacional.

O custo de não agir

A alternativa à construção dessa missão não é neutra.

É a continuidade da trajetória atual, marcada por uma crescente dependência tecnológica, perda de autonomia e vazamento de valor [5].

Isso não implica apenas atraso econômico, mas também a redução da capacidade do Estado de definir prioridades e de proteger ativos estratégicos.

Nesse cenário, o Brasil tende a consolidar uma posição periférica na economia digital – não apenas como consumidor de tecnologia, mas também como fornecedor de dados para sistemas controlados externamente.

Em trabalhos recentes [6], tenho argumentado que a crescente integração entre Big Techs, o aparato militar e o poder estatal configura um novo complexo industrial-digital [7].

A escolha histórica

O Brasil não parte do zero. Possui base de dados robusta, capacidade técnica e Estado relevante.

O que falta não é capacidade material.

É decisão política.

Sem missão nacional, a soberania digital continuará a aparecer nos discursos e desaparecer nas contratações.

A questão não é se o Brasil precisa de soberania digital – é se está disposto a construí-la.

Porque soberania digital não é um destino – é uma decisão reiterada ao longo do tempo.

Bibliografia

1.  Mazzucato, M., The Entrepreneurial State: Debunking Public vs. Private Sector Myths. 2013, London: Anthem Press.

2.  Srnicek, N., Platform Capitalism. 2017, Cambridge: Polity Press.

3.  Vassil, K., Estonian e-Government Ecosystem: Foundation, Applications, Outcomes. 2016, Tallinn: Tallinn University of Technology Press.

4.  Kalvet, T., Innovation: A Factor Explaining E-government Success in Estonia, in Electronic Government: An International Journal. 2012, IOS Press: Amsterdam.

5.  Varoufakis, Y., Technofeudalism: What Killed Capitalism. 2023, London: Bodley Head.

6.  de Melo, Celso P., Democracia tutelada: Big Tech, poder militar e o novo complexo industrial-digital. Le Monde Diplomatique Brasil, 2026. Disponível em: https://diplomatique.org.br/big-tech-poder-militar-e-o-novo-complexo-industrial-digital/.

7.  da Silveira, S.A., As big techs e a guerra total: o complexo militar-industrial-dataficado. 1 ed. 2025, São Paulo: Hedra.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências

IA: Como a China está vencendo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-china-vence-eua.html

EUA x Irã & crise energética

Guerra no Irã, petróleo e crise energética: choque de preços no mercado global
Iranianos respondem a ataques de EUA e Israel com medidas que afetam o transporte global de petróleo. O bloqueio no Estreito de Ormuz produz efeitos econômicos comparáveis aos de um embargo, instrumento recorrente de pressão geopolítica
Luís Eduardo Duque Dutra/Portal Grabois  

A aliança israelo-estadunidense contra o Irã e o resto do mundo

Às portas de uma crise econômica em razão da escalada do conflito militar iniciado em 28 de fevereiro, cabe perguntar até onde pode chegar a guerra desencadeada pelos ataques ao Irã. Em poucas semanas, o confronto deixou de ser regional e passou a afetar diretamente a logística energética mundial, com impactos imediatos sobre preços, cadeias produtivas e o funcionamento da economia global. Este primeiro artigo analisa o caráter sistêmico do conflito e suas consequências iniciais para o mercado internacional de petróleo e gás. No próximo texto, serão examinados os efeitos mais amplos da guerra sobre a dinâmica macroeconômica, a transição energética e o cenário geopolítico internacional.

O conflito não é periférico, nem é somente regional

ataque de Israel e dos Estados Unidos ao Irã trouxe de volta imagens do século passado que, de tão antigas, não estão gravadas na memória de quem tem menos de cinquenta anos. A Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a derrubada do Xá do Irã, em 1979, deram início às duas crises que selaram os trinta anos de prosperidade do pós-guerra. Foi a primeira vez que o petróleo serviu de arma de guerra na confrontação entre nações periféricas e hegemônicas. Embargos ao fornecimento e aumentos de preço do barril foram usados por persas, árabes, venezuelanos e indonésios para paralisarem os aliados de Israel e dos EUA. Na primeira vez, o preço quadruplicou, na segunda, ele mais que dobrou.

Nas televisões à época, as cenas eram como as de hoje: no Oriente Médio, a destruição massiva causada pelas bombas, os tanques de guerra avançando sem parar sobre todos e tudo, além de tropas armadas até os dentes. Nos países importadores, gigantescas filas de carros e motos, preço dos combustíveis em forte alta, uso das reservas estratégicas (a Agência Internacional de Energia foi criada em 1974 para organizar a resposta à OPEP), refinarias paradas por falta de matéria-prima e, por fim, o racionamento puro e simples. Em termos de planejamento energético, a lembrança leva a duas constatações: primeiro, a dependência ao petróleo permanece e, segundo, a novidade que é a relevância do gás natural liquefeito e não só do gás natural.

A decisão de iniciar a guerra foi tomada por Donald Trump e Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, em demonstração de absoluto descaso com o direito internacional. Veio na esteira da Guerra dos Doze Dias, entre 13 e 24 de junho de 2025, na qual Israel procurou acabar com o programa nuclear iraniano e do surpreendente sequestro de Nicolás Maduro, então presidente da Venezuela, em 3 de janeiro passado. O relativo sucesso e a limitada repercussão das duas agressões podem ser creditados ao meticuloso preparo de ambas, o que faltou de forma flagrante na guerra em andamen to, de acordo com a maioria das análises. A História e a Geografia foram inteiramente ignoradas: as últimas grandes guerras travadas pelo país foram incursões em países como Coreia, Vietnã, Iraque e Afeganistão. São nações de dimensões e tradições regionais que não se comparam à Civilização Persa e ao papel do Irã até hoje. Ademais, nestas guerras assimétricas, a disparidade militar não bastou para assegurar a vitória incontestável da força hegemônica; bem ao contrário.

No presente conflito, a velocidade e a intensidade da reação do Irã, a primordial assistência da inteligência russa e chinesa para tanto, os ataques às bases militares estadunidenses em países vizinhos e o vasto arsenal iraniano composto de mísseis balísticos e drones eram certamente conhecidos pelos militares. O pouco-caso em relação à competência de seus generais foi então notável, quando Donald Trump ignorou a possibilidade do Estreito de Ormuz ser fechado. Não seria a primeira vez, aconteceu durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), no segundo choque do petróleo e, faz pouco, algo semelhante ocorreu durante a Guerra dos Doze Dias, quando os Houthis, aliados dos iranianos, atacaram embarcações no Mar Vermelho.

A mais elementar análise da logística de transporte marítimo apontará dois acidentes geográficos no Oriente Médio: o Estreito de Ormuz, por onde transitam um quinto do petróleo e um quinto do gás natural liquefeito exportados no mundo e o Estreito de Bab al-Mandab, à entrada do Mar Vermelho e que dá acesso ao canal de Suez. Nesta última via, embora fretes e seguros já tenham disparado, não houve bloqueio à navegação. Contudo, no Estreito de Ormuz, em 20 de março, contavam-se cerca de 400 navios-tanques à espera de permissão para atravessar. Somente foi escoada a produção iraniana e algumas poucas embarcações destinadas aos mercados chineses, paquistaneses e indianos. É uma versão atualizada do embargo feito no primeiro choque de petróleo e tão eficiente quanto, uma vez que a ação s e concentra em apenas um ponto e é conduzida por um único país. Não resta dúvida, o estrangulamento super seletivo do Estreito tem um impacto econômico comparável a um embargo.

Breve síntese de vinte dias de guerra

Os superlativos não faltam: em décadas, é a maior guerra que o Oriente Médio experimentou, assim como é, em décadas, a maior ruptura da logística do transporte marítimo mundial. Na história, é a maior crise que os países do Golfo Pérsico enfrentaram, interrompendo o duradouro boom iniciado na década de 1970. Também na história, para mitigar o impacto no preço, é a maior liberação de reservas estratégicas já feita em conjunto por países importadores: 409 milhões de barris; menos de quatro dias do consumo mundial, ou aproximadamente vinte dias do petróleo movimentado pelo Estreito. Cabe colocar ainda: é a primeira grande guerra em uma economia mundial inteiramente globalizada.

Depois da pandemia, não se previa tamanha restrição à circulação das pessoas, ao comércio de mercadorias e ao bom funcionamento das cadeias produtivas. O grande capital multinacional está sendo submetido a interrupções operacionais inesperadas, enfrenta rupturas no abastecimento e escoamento, bem como enormes incertezas para sua futura reprodução. A continuação da guerra com a escalada militar do conflito não pode ser descartada e, portanto, a esta altura, o cenário de agravamento do conflito é aquele mais provável, ou ainda, o que melhor antevê as ameaças.

Com vinte dias de conflito, os desdobramentos se multiplicaram e ampliaram o alcance da guerra. Além dos alvos militares e do bloqueio do Estreito, foram visadas instalações petrolíferas em toda região. As petroleiras estatais como a Aramco, ADNOC, KPC e QPC suspenderam a maioria das operações. A entrada do Golfo Pérsico é um gargalo logístico crítico para os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita e Iraque. Cálculos da Rystad (empresa de consultoria norueguesa) indicam que cerca de 9 milhões de barris por dia não estão sendo escoados com o bloqueio. Grosso modo, a capacidade de produção dos cinco países soma 25 milhões de bpd, sendo que 5 milhões estavam ociosos antes da guerra.

Observe que não existem alternativas. Na Arábia Saudita, a saída é o gasoduto de Yanbu em direção ao Mar Vermelho, mas ele possui uma capacidade limitada a 6 milhões de bpd e, atualmente, movimenta cerca de 4 milhões de bpd. Nos Emirados Árabes Unidos, um segundo duto dispõe de três vezes menos capacidade, aproximadamente 1,8 milhões de bpd e leva ao porto de Fujairah, fora do Estreito. Ocorre, porém, que ele já foi alvo de alguns ataques iranianos. Por fim, no Iraque existe um oleoduto bem menor entre Kirkuk e Ceyhan (porto turco) que movimenta apenas 200 mil bpd. Praticamente toda a exportação do país, quase 5 milhões de bpd em média, passa pelo Golfo Pérsico.

Em resumo, considerando os cinco países anteriormente citados às margens do Golfo Pérsico, a produção soma 21 milhões de barris por dia, o consumo doméstico é 6 milhões de bpd e 15 milhões de bpd são exportados (em números aproximados). Destes, devido ao bloqueio, como foi colocado, 9 milhões não estão sendo escoados, ou 60% das exportações, o que dá bem a medida das perdas. Enquanto na costa do Mediterrâneo, Israel abriu um segundo front avançando sobre o Líbano, o Irã conseguiu estender o conflito para os países vizinhos. Em 13 de março, o Financial Times registrava que um quinto navio-tanque tinha sido atingido pela Guarda Revolucionária Iraniana e que, ao todo, dezoito embarcações comerciais tinham sido danificadas. Diante da disparidade do poder militar, a extensão geográfica e o prolongamento da conflagração parecem favorecer o Irã.

O preço do barril de petróleo superou cem dólares e, nos piores cenários de guerra, as projeções apostam em preços entre US$ 135 e US$ 150 por barril. Comparado ao preço médio de 2025, em torno de US$ 65 por barril, por enquanto, o aumento foi de 55%, mas pode chegar ao dobro em curto prazo. Dois setores serão os primeiros a suportar o choque de oferta: por um lado, o transporte, tanto aeroviário, quanto rodoviário, em razão do preço dos combustíveis e, por outro, a transformação petroquímica, em razão do preço da nafta, do etano e do GLP (propano e butano). O consumo das famílias também é fortemente impactado devido ao uso do GLP nas residências e em razão da importância do gás natural para gerar eletricidade na Europa, Japão e Coreia. Nos dois últimos, o gás natural liquefei to, GNL, é essencial; em especial aquele exportado pelo Qatar através do Estreito.

Entre os segmentos atingidos, cabe destacar os fertilizantes em função dos efeitos em cascata nas cadeias agropecuárias. Em 13 de março, produzida a partir do gás natural e matéria-prima para fabricação de fertilizantes, o preço da ureia alcançou US$ 700 por tonelada; um acréscimo de 45% frente ao preço da semana anterior. O The Wall Street Journal, em 13 de março último, afirmou que os agricultores do Meio-Oeste estavam comprando fertilizantes 30% mais caros, a despeito da guerra ter começado a menos de quinze dias e ocorrer a milhares de quilômetros das plantações. De qualquer modo, os preços da soja e do milho já tinham subido na bolsa de Chicago. Não faltam exemplos de choques e rupturas nas cadeias produtivas pelo mundo afora. O dióxido de enxofre é outro insumo para a fabricação de fertiliz antes, sendo o destino de seis décimos de sua produção. Ora, metade do que é exportado, também é escoado pelo Estreito de Ormuz. O ácido sulfídrico é indispensável à produção do cobre, mineral estratégico para a indústria elétrica e eletrônica. O maior produtor de cobre do mundo é o Congo. O país importa todo o ácido que usa de países banhados pelo Golfo Pérsico. Enfim, um derradeiro exemplo, agora do segmento de gases industriais: um terço do hélio tem origem nesta mesma região. Ele é essencial para “resfriar” a fabricação de semicondutores.

Como se constata, o impacto inflacionário decorre da natureza ubíqua dos hidrocarbonetos e de sua importância para a química, que também possui natureza ubíqua. Depois de criada, a substância química se espalha e toma distância do criador. Ao final, ela está em todos os lugares, em tudo e ao mesmo tempo. A ruptura do fluxo, a montante, impacta a todos. O estrangulamento do comércio à altura do Estreito de Ormuz reduz em 9 milhões de barris por dia as exportações da OPEP, que somaram 20 milhões de bpd em média no ano passado. No preço do barril, o impacto do corte de quase metade destas, fez ele sair de US$ 60 e ultrapassar US$ 100 por barril. Quanto ao GNL, entre 28 de fevereiro e 17 de março, naquele mercado mais dependente das importações do Golfo Pérsico, o preço Japan-Korean Market, JKM, saltou de US$ 11,5 para US$ 20,5 p or milhão de Btu; ou seja, praticamente dobrou. Na Europa, o movimento de preço do gás não ficou muito atrás.

Mesmo terminando amanhã, o choque gerado pela guerra terá significativas repercussões no médio e longo prazo para a indústria de hidrocarbonetos e de energia. Foi mencionado que as alternativas são muito limitadas e só permitem aos países da região escoarem pouco mais de um terço do volume exportado em fevereiro, entre 6 e 6,5 milhões de barris por dia em média. A capacidade ociosa, que somava 5 milhões de bpd, em 25 milhões bpd de capacidade total, desfez-se quase subitamente, bastaram quinze dias de conflito. E, considerando apenas os danos causados aos ativos petrolíferos até aqui, demandará mais do que alguns meses a recuperação da capacidade de produção, armazenamento e escoamento anterior. Antes, contudo, sem paz, ao menos, será preciso baixar as armas.

Além disso, com a guerra, o lado negativo de recentes mudanças estruturais na oferta acabou revelado. Desenvolvidos logo após o fim da II Guerra Mundial, os gigantescos campos em terra chegaram, ou estão chegando, à maturidade. Eles fizeram a fortuna dos países da região. A reposição está sendo realizada com o desenvolvimento de reservas de petróleo sob as águas do Golfo Pérsico e pela produção e liquefação de gás natural em enormes instalações fabris que abastecem navios-metaneiros. Atualmente, um terço da produção saudita vem de reservas offshore e quatro quintos das receitas de exportação do Catar derivam do gás natural. No caso da Aramco, os campos de Marjan, Berril e Zuluf serão aqueles que responderão pelo aument o da produção de óleo por vir e todos estão localizados no mar.

Quanto ao gás, com os megaprojetos em andamento e em carteira, Tanajib, Fadihili e Jafurah, a estatal saudita visa produzir um pouco mais de 16 bilhões de pés cúbicos por ano em 2030. Em 2021, a produção foi de 9 bilhões de pés cúbicos, o que significará um aumento de 80% na presente década. A maior novidade é a natureza não convencional da extração de Jafurah, onde uma estrutura produtiva complexa e diferenciada, em 2030, deverá escoar 2 bilhões de pés cúbicos de metano, 400 milhões de pés cúbicos de etano e mais de 600 mil barris por dia de pentano, ou condensado de gás. A sumária descrição anterior já indica que a atividade offshore e a megaescala dos projetos de gás trazem novos desafios à indústria, em especial, no que diz respeito à segurança operacional e ao risco geopolítico. Nem as questões de segurança nem de risco são desconhecidas, contudo, em decorrência da ascensão do offshore e da liquefação do gás, a guerra apontou novas ameaças e vulnerabilidades.

Referências

CHEVALIER, Jean-Marie (2004). Les grandes batailles de l’énergie : petit traité d’une économie violente. Paris: Gallimard. 

DUTRA, Luís Eduardo Duque (2019). Capital petróleo: a saga da indústria entre guerras, crises e ciclos. Rio de Janeiro: Ed. Garamond.

MARX, Karl (1867,1883 et 1884), Le capital. Moscou : Editions du Progrès (ed. francesa de 1982).

RICARDO, David (1821), On the principles of political and taxation. Cambridge: Cambridge Univerty Press (ed. de 1951).

SMIL, Vaclav (2017). Energy and civilization: An History. Cambridge, MA: MIT Press,.

SMITH, Adam (1776), An inquiry into the nature and causes of the wealth of nations. Londres: Deut (ed. de 1910).

YERGIN, Daniel (1991). The prize: the epic quest for oil, money, and power. New York: Penguin Group.


Luís Eduardo Duque Dutra é doutor em Ciências Econômicas pela Universidade de Paris-Nord e professor associado da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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