03 novembro 2026

Dica de leitura

A luta continua   

O artigo "O povo premiou a coragem: um casamento de gerações pela democracia", de Fernanda Macedo, no Le Monde Diplomatique Brasil https://diplomatique.org.br/o-povo-premiou-a-coragem-um-casamento-de-geracoes-pela-democracia/ em 30 de outubro de 2026, faz uma boa reflexão sobre a vitória eleitoral democrática e o momento vivenciado pelo Brasil.

Diferentes faixas etárias — de jovens a gerações mais velhas — se uniram nas urnas frente à ameaça autoritária bolsonarista para defender a manutenção da democracia.

A vitória de Lula traduz uma recusa explícita de um país regido pela violência política e pela transformação do adversário em inimigo.

No entanto, o resultado das urnas não é o fim dos problemas, a sociedade brasileira permanece dividida e marcada por profundas desigualdades socioeconômicas.

Impõe-se a persistência no rigor crítico e o compromisso de manter o povo politicamente vivo, cobrando do governo escuta e eficiência.  

(LS) 

Subiu o sarrafo da luta política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0999410531.html 

Humor de resistência

Izanio

A fuga das galinhas amarelas e o carcarejar do golpe https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/enio-lins-opina.html 

Palavra do presidente

Programas sociais de pé   

Dando sequência à prática de se dirigir ao público diretamente nas redes digitais através de falas curtas, em vídeo, que adotou no segundo turno da eleição, Lula reagiu contestou veementemente a fake news difundidas pela extrema direita de que cortaria programas sociais no próximo governo.

Nenhum programa social será extinto, disse.  Ao contrário, todos os compromissos assumidos durante uma campanha eleitoral serão rigorosamente cumpridos.

(LS)

Leia: Ajuste fiscal ou estelionato eleitoral? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/pressoes-do-mercado.html 

02 novembro 2026

Soberania popular x mercado

Economistas rejeitam “terceiro turno do mercado” após vitória de Lula
Manifesto “As urnas decidiram” denuncia pressão por austeridade após reeleição de Lula e defende nova regra fiscal, redução dos juros e justiça tributária.
Barbara Luz/Vermelho    

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no último domingo (25) não pode ser anulada pelas pressões do mercado financeiro. Esse é o recado do manifesto “As urnas decidiram — Não ao terceiro turno do mercado, em apoio a uma nova regra fiscal”, assinado por economistas, pesquisadores e profissionais ligados a universidades, sindicatos e instituições de pesquisa. O documento denuncia a tentativa de impor ao governo reeleito uma agenda de austeridade semelhante àquela rejeitada pela maioria dos brasileiros nas urnas.

Para os signatários, setores da Faria Lima tentam transformar a política econômica em uma espécie de terceiro turno eleitoral, pressionando por cortes nos gastos sociais, aperto fiscal e manutenção dos juros elevados. O manifesto também critica concessões do Ministério da Fazenda às exigências do mercado e sustenta que o principal problema fiscal brasileiro não é a dívida pública, mas o custo dos juros, que consome recursos que poderiam financiar investimentos, serviços públicos e políticas de desenvolvimento.

O documento apresenta quatro reivindicações centrais: redução dos juros, revisão da meta de inflação, aprovação de uma nova regra fiscal e ampliação da justiça tributária. Entre os signatários estão nomes importantes do campo progressista, como Elias Jabbour, deputado federal eleito pelo PCdoB-RJ, o ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro, os economistas Luiz Gonzaga Belluzzo e Marcelo Manzano, além do pesquisador Iago Montalvão. Para os autores, respeitar a soberania popular significa garantir que a política econômica do próximo mandato esteja comprometida com o crescimento, os direitos sociais e os interesses da classe trabalhadora. Para assinar o manifesto, clique aqui.

Leia abaixo o manifesto “As urnas decidiram”

Manifesto por uma nova regra fiscal, juros menores e a revisão da meta de inflação

Em 25 de outubro, a maioria do eleitorado reelegeu Lula e recusou o programa de Flávio Bolsonaro, que prometia cortar R$ 190 bilhões do gasto público. No dia seguinte, o mercado financeiro teve de desfazer, com perdas, a aposta na vitória de Flávio. Não soube ler as pesquisas nem suas margens de erro. O Ibovespa caiu 13,9%, o dólar subiu 8,2%, e os juros futuros passaram a apostar numa alta da Selic. Flávio fugiu para os Estados Unidos. Trump disse, sem provas, que a eleição parecia fraudulenta. Os derrotados queriam anular o resultado nos tribunais. A Faria Lima quer anulá-lo no orçamento. Rejeitamos esse terceiro turno.

Rejeitamos também as concessões do ministro da Fazenda, Dario Durigan. Em 23 de outubro, ele dizia que não dava para “vender para o mercado que no primeiro ano vai resolver esse problema”. Depois da queda da Bolsa, prometeu “buscar o centro da meta de maneira formal”. Isso significa acabar com a banda de tolerância, o que exige até R$ 36,6 bilhões a mais de aperto em 2027, e ampliar o contingenciamento. O programa derrotado volta pela porta da Fazenda.

Já vimos esse filme. Em 2024 e 2025, a Fazenda apertou o orçamento enquanto o Banco Central elevava a Selic de 10,5% para 15%. A avaliação positiva do governo caiu de 36% para 24%. A reeleição só foi garantida quando, durante a campanha eleitoral, o governo reajustou o Bolsa Família, refinanciou dívidas e propôs transferências para pequenos empresários, passe livre nos finais de semana e outras concessões que o austericídio do Ministério da Fazenda impedira até então.

Em 2015, a adesão ao programa do adversário aprofundou a recessão e abriu caminho ao golpe. Diante de um Congresso mais hostil, com 121 deputados do PL e 49 senadores de direita a partir de fevereiro, repetir a receita pode enfraquecer o apoio obtido nas ruas para a reeleição de Lula e tornar seu governo vulnerável a um novo golpe parlamentar.

O Brasil não tem crise de dívida. Tem crise do custo da dívida. Nos doze meses até agosto, os juros custaram R$ 1,18 trilhão, 8,9% do PIB, mais de catorze vezes o déficit primário de R$ 82 bilhões. A inflação de doze meses, de 4,58% em setembro, passou do teto por causa da energia e dos alimentos, choques que a Selic não corrige.

Propomos:

1. Nenhuma alta da Selic em 4 de novembro e juro menor para quem toma crédito. A volatilidade se enfrenta com intervenção cambial e liquidez, como fizeram o Banco Central e o Tesouro no dia 26. Como em 2012, o Banco do Brasil e a Caixa devem baratear o crédito e levar os bancos privados a acompanhá-los. A queda dos juros precisa chegar às famílias, que comprometem 29% da renda com o serviço de dívidas, e às empresas, sobretudo pequenas e médias. Em agosto, a inadimplência atingiu o recorde de 9,3 milhões de empresas, quase todas micro e pequenas.

2. Revisão da meta de inflação. A meta de 3% é escolha do governo, que tem dois dos três votos no Conselho Monetário Nacional (CMN). Um novo decreto deve suprimir a carência de 36 meses criada em 2024 para mudar a meta. Propomos retomar o centro de 4,5%, vigente de 2005 a 2018, alongar o horizonte de convergência e dar peso efetivo ao pleno emprego, que a lei já inclui entre os objetivos do Banco Central.

3. Uma nova regra fiscal até 22 de dezembro. A exemplo da PEC da Transição, que virou a Emenda Constitucional 126 em dezembro de 2022, deve ser votada por este Congresso. Por lei complementar, que exige maioria absoluta, ela precisa tirar do limite de gastos e da meta de resultado primário o investimento público e os aportes nas estatais e no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e tirar do limite os gastos em saúde e educação e o programa Bolsa Família. Foi por essas bandeiras que 64,3 milhões de brasileiros e brasileiras votaram pela reeleição de Lula: não para realizar o Tesouraço de Flávio. O limite atrelado a 70% da receita é incompatível com pisos de saúde e educação que crescem com a receita. As regras fiscais atuais também inibem os desafios do próximo mandato, como a reindustrialização com transição ecológica, que depende de investimento público, de aportes nas estatais e do crédito do BNDES. O que precisar de proteção pode ir para a Constituição, como se fez com os precatórios em 2025. Uma emenda só cai com três quintos das duas Casas.

4. Justiça tributária em vez de cortes sociais. A sustentabilidade da dívida depende mais do crescimento e dos juros do que do corte de gastos. A meta fiscal que o mercado cobra pode ser alcançada defendendo os interesses da maioria, pela justiça tributária, ou os da minoria, pelo corte de gastos sociais. Um governo eleito por um levante popular contra a ameaça bolsonarista não pode escolher a via defendida pelos mais ricos entre os bolsonaristas. A tributação mínima das altas rendas, aprovada em 2025, só será cobrada na declaração de 2027, e lucros acumulados até 2025 ainda podem ser distribuídos sem imposto até 2028. Aprovada por lei até 31 de dezembro, uma nova tributação do topo vale já em janeiro. Ela deve alcançar dividendos, juros sobre capital próprio e aplicações isentas. É preciso também rever isenções, regimes especiais e incentivos, que somam R$ 612,8 bilhões em gastos tributários, a começar pelos que favorecem as rendas altas ou não têm contrapartida econômica ou social demonstrável, e acabar com os supersalários.

A justiça tributária e uma taxa de juros mais baixa são fundamentais para uma trajetória fiscal mais benigna e para um país mais justo e solidário. As urnas decidiram. O mercado não pode fazer o terceiro turno.

30 de outubro de 2026. Assinam:

Elias Jabbour (economista e deputado-federal)
Renato Janine Ribeiro (Ex-ministro da Educação)
Marcelo Manzano (IE/Unicamp e Cesit)
Iago Montalvão Oliveira Campos (IE/Unicamp e Ineep)
Luiz Gonzaga Belluzzo (professor emérito da Unicamp e fundador da Facamp)
Pedro Paulo Zahluth Bastos (Unicamp)
Maria de Lourdes Rollemberg Mollo (UnB e SEP)
Alfredo Saad Filho (Queen’s University Belfast)
Vanessa Petrelli Corrêa (UFU)
José Carlos Braga (IE/Unicamp)
Rosa Maria Marques (PUC-SP)
Paulo Kliass (Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental)
Élida Graziane Pinto (FGV)
Antônio Prado (Corecon-SP)
Simone Deos (Unicamp)
Rubens Sawaya (PUC-SP)
Renata Lins (economista)
David Deccache (economista)
Juliane Furno (economista, UFF)
Júlio Miragaya (Cofecon)
Isabel Busato (UFRJ)
Breno Altman (editor de Opera Mundi)
Cristina Penido (economista)
Gilberto Maringoni (UFABC)
Larissa Naves de Deus Dornelas (UFPR)
Alex Palludeto (Unicamp)
Adriana Marcolino (diretora técnica do DIEESE)
Caio Vilella (UFF)
Ana Claudia Moreira Cardoso (socióloga e formadora sindical)
Kaio Pimentel (IE/Unicamp)
Ana Yara Paulino (socióloga)
Gabriel Porcile (Universidad de la República, Uruguai)
Beatriz Meirelles (mestre em Economia, IE/UFRJ)
André Aranha (economista, editor da Gazetinha)
Eliana Elias (Escola DIEESE de Ciências do Trabalho)
André Cardoso (DIEESE)
Patrícia Lino Costa (DIEESE)
Euzébio Jorge Silveira de Sousa (IE/UFRJ)
Renata Belzunces (Escola DIEESE de Ciências do Trabalho)
Fernando Adura Martins (DIEESE)
Solange Sanches do Prado (socióloga, ex-OIT Brasil e DIEESE)
Gustavo Livio (PUC-Rio)
Krista Lillemets (pós-doutoranda, TCINDD/Cebrap)
Jader Oliveira (Rede Josué de Castro)
Sandra Bortolon (DIEESE)
José Giacomo Baccarin (Unesp)
Milena Prado (economista do DIEESE)
José Jorge Gebara (Unesp)
Marcelo Menna Barreto (jornalista, Extra Classe)
Marcos Aurélio Souza (DIEESE e Escola DIEESE de Ciências do Trabalho)
Rodrigo Perri (publicitário)
Thiago Machado dos Santos (CNPEM)
Ilmar Ferreira (DIEESE)
Carlos Eduardo Oliveira Jr. (presidente do Sindicato dos Economistas no Estado de São Paulo)
Marcelo Depieri (economista, Ineep)

Para ver a lista completa dos signatários, acesse aqui.

O “gosto amargo” da necessária amplitude https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01301628229.html 

Palavra de poeta

Testamento do Homem Cansado
Carlos Pena Filho      

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: Ele era assim…
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em vôo se arremeda,
​​​​​​​

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve.

[Ilustração: Wellington Virgolino]

Leia também: "Poema a Boca Fechada", de José Saramago https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/palavra-de-poeta_01508344103.html 

Herdeiros nem tanto

Dilema atroz
Luciano Siqueira    

“Por que as famílias ultra ricas têm medo de deixar suas fortunas para os filhos?”, estampa em manchete o Estadão.

Não sei nem quero saber. Por isso não li a matéria.

Suponho que tenha a ver com a incapacidade dos mais novos gerirem a fortuna que seus pais e avós juntaram ao longo de muitos anos de exploração do trabalho alheio.

Naqueles filmes americanos de segunda categoria (já vi alguns, confesso), nesses casos os descendentes se deixam levar pelos prazeres do mundo moderno e terminam torrando a fortuna herdada.

Daí a profissionalização da gestão das grandes empresas.

Bancos, idem.

Noi máximo os herdeiros compõem o Conselho administrativo ou algo semelhante.

E assim o conglomerado X se perpetua por mais algumas décadas. Salvo quando se mete em negócios escusos ou mal planejados e vão à bancarrota.

Paro por aqui. Se o assunto não me interessa, não vale a pena. Apenas confesso que gosto de saber quando grandes grupos empresariais dão com os burros nágua.

A Folha diante do espelho https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_09285527.html   

Desenvolvimento regional

O Nordeste e a reindustrialização
Abraham B. Sicsu    


O Brasil, nos últimos três anos, assumiu a reindustrialização como base para modernização de sua economia e de melhoria de empregabilidade com salários mais dignos. Muito justo, uma lógica que pode modificar o quadro que vinha se configurando, quadro esse excludente e concentrador. E, resultados expressivos têm sido conseguidos.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria, em 2022 o PIB da indústria de transformação ficou em 11% aproximadamente, quando uma década atrás passava dos 22%. As indústrias tradicionais, calçados, vestuários e alimentos, são a base principal com forte sustentação em mão de obra de menor custo.

Um quadro desanimador

O Nordeste, que representava 27% da população, teve apenas 14,4% do PIB em geral e sua indústria de transformados representou apenas 12,2% da nacional. Mesmo com a vinda de indústrias automobilísticas e com polos industriais se consolidando, em uma década, cresceu apenas 0,6% sua participação nacional.

É bom lembrar que na última década, o Nordeste só avançou, modestamente, nos indicadores das indústrias de baixa e média intensidade tecnológica e nada nos segmentos de base tecnológica ou fornecedores especializados, setores baseados em avanços tecnológicos. Dos empreendimentos da indústria de transformação na região, 73,7% são microempresas, muitas de gestão familiar e pouco profissionalizadas.

Temos nos dedicado a entender como o Nordeste Brasileiro pode se inserir na nova dinâmica de desenvolvimento que vem se configurando. Uma região que em diferentes áreas técnico-científicas consolidou bases relevantes, mas, que, em boa parte, ainda estão dissociadas dos avanços tecnológicos do setor produtivo aqui implantado.

Os dois vetores estratégicos, em nossa opinião, seriam a consolidação de Sistemas Locais de Inovação e a formulação de políticas de espacialização do desenvolvimento, enfatizando que o incentivo ao desenvolvimento regional deve passar pela solução de gargalos observados nos sistemas locais de inovação.

Não se observa uma maior interação, uma visão sistêmica que permita consolidar Sistemas Territoriais de Inovação que deem sustentação a novos complexos industriais que modifiquem a realidade regional. Sua dinâmica é definida não por um planejamento integrado e sistêmico, mas por decisões empresariais individuais e, na maioria das vezes, desvinculadas da base de conhecimento local, o que leva a mudanças pouco significativas e à manutenção de uma posição periférica.

Evidentemente que a taxa de juros, no nível atual da SELIC, é um fator que muito dificulta e inibe os investimentos produtivos no País. No entanto, outros fatores devem também ser analisados e considerados, principalmente se o foco são as regiões periféricas do País.

Na lógica das Reformas, uma preocupação adicional tem surgido. A Tributária cria um novo mecanismo financeiro, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional- FNDR, para reduzir as desigualdades econômicas entre os estados e promover investimentos locais, teoricamente. Tendo em vista os critérios de distribuição dos recursos, definidos pelo Congresso, pode ter efeito ao contrário. Distribuirá os recursos usando o tamanho da população menos favorecida, o que torna São Paulo no principal beneficiário do Fundo.

No entanto, para o Nordeste poder participar efetivamente dos novos ciclos de desenvolvimento do Brasil, reduzindo drasticamente as desigualdades regionais, internalizando ganhos para a sua população e gerando oportunidades de prosperidade e cidadania intergeracionais, o que precisa ser feito?

A política industrial definida no principal Plano Governamental para a área, a Nova Indústria Brasil, que começou a ser implantada em 2023, fez uma opção correta. Optou por uma abordagem sistêmica a partir dos reais problemas nacionais.

Erradicar a fome, adequar e modernizar o complexo da saúde, enfrentar os problemas urbanos de moradia e mobilidade, aumentar a competitividade do setor produtivo através da transformação digital, abordar a questão ambiental através da transição energética e da bioeconomia, recuperar a infraestrutura bastante sucateada de escoamento da produção, aspectos ligados à soberania nacional e segurança são pontos que marcam as seis missões definidas e que são básicas para o processo de desenvolvimento.

Nesse quadro, um problema objetivo foi que a política tinha uma visão setorial, mas não regional o que, num país da dimensão do nosso, traz problemas estruturais sérios.

Se for analisado o que foi aqui investido no Nordeste, com um pouco mais de atenção, percebe-se que grande parte está em segmentos ligados à agroindústria e algo na modernização digital empresarial. Setores que não fazem parte do contexto da nova Manufatura 4.0.

 Além disso, a principal fonte nacional de recursos para novas áreas e a efetiva transformação industrial é o BNDES e, embora tenha melhorado a distribuição de recursos para a região, continua centrado nas áreas menos tecnificadas.
Também, em áreas mais intensivas em tecnologia, focam no último elo da cadeia, e muito pouco na cadeia de suprimento. As mudanças relevantes não vêm apenas, no instalar Datacenters ou trazer empresas produtoras de hidrogênio verde para Região, por exemplo.

Fundamental internalizar os complexos industriais, analisar as rotas produtivas e consolidar segmentos da cadeia de suprimento regionalmente, além de garantir o uso na região de dados armazenados nos Datacenters, além de energia para o desenvolvimento de novas atividades locais, em escala e disponibilidade adequadas.

Esses complexos locais serão básicos para as cadeias que foram definidas como prioritárias, destacando as cadeias de semicondutores, baterias e na área de Defesa. Evitar a “simples exportação de matérias-primas estratégicas” e desenvolver capacidade de beneficiamento passa a ser estratégico.
Powershoring, instalar fábricas e indústrias na região, intensivas em uso energético que estão se deslocando dos países centrais, aproveitando a relativa oferta de energia renovável abundante, barata e segura, pode ser caminho interessante, também.

Ignorar oportunidades como os complexos industriais da saúde que podem se configurar com a vinda de empresas como a Hemobrás, os Polos de Baterias que se estruturam na Bahia e Pernambuco, não ter em mente o enorme potencial de energias renováveis e em bioeconomia e transição energética, ou mesmo a potencialidade na área da indústria da segurança com Alcântara no Maranhão e mesmo com o complexo da nova escola de sargentos em Pernambuco, é ter uma visão apenas do passado e não compreender os investimentos que estão sendo desenhados para o futuro.

O Plano Mais Produção, âncora da reindustrialização, capitaneado pelo BNDES, com isso, deveria passar por uma profunda reforma metodológica em sua concessão de crédito. O que se observa é que novamente o Regional passa a ser irrelevante na estratégia traçada, a não ser na adequada ênfase que o discurso dá para as áreas de compras governamentais.

Reverter o atual direcionamento passa por consolidar e estruturar redes de Instituições de Ciência e Tecnologia associadas às missões que foram propostas, criação e consolidação de Complexos industriais territorializados, ter fontes de financiamento que levem em consideração os perfis produtivos e suas especificidades. Mudanças estruturais dependem dessas iniciativas.

A criação e consolidação de Sistemas Territoriais de Inovação, portanto, é premissa para a perspectiva de planejamento e podem ser fortalecidos. Dar continuidade à política de desconcentração da base técnico-científica, ponto estratégico para a nova indústria nos diferentes espaços da matriz industrial brasileira. Repatriar talentos que perdemos nos últimos anos no País e incentivá-los a se inserirem nos Sistemas Regionais, uma iniciativa importante.

Verificar condições objetivas que permitam uma melhor inserção regional, não com base do passado ou em estereótipos que vem a região apenas como periférica e lócus de setor produtivo de baixa intensidade tecnológica, mas com a possibilidade de reestruturar a matriz produtiva tendo por base o complexo técnico científico moderno já construído e a possibilidade de sua expansão em áreas priorizadas pela política nacional. 

É preciso a construção de uma nova agenda do Regional, baseada em:

  • Adoção de políticas de CT&I articuladas à política industrial, a uma política de transição ecológica, a uma política de recuperação de infraestrutura, alinhadas aos grandes desafios nacionais e, principalmente, espacializando os impactos, tendo clara a diversidade regional do País.
  • Consolidar redes de Instituições de Ciência e Tecnologia associadas às missões já bem definidas, avaliando da criação e consolidação de Arranjos Locais, Clusters e Complexos industriais territorializados.
  • Criação e consolidação de Sistemas Territoriais de Inovação como premissa para a Manufatura 4.0
  • Fortalecer a política de desconcentração da base técnico-científica
  •  Pensar em novos modelos de financiamento a inovações compatíveis com as lógicas regionais e seus complexos industriais.

Em fim, criar bases sólidas para a inserção das diferentes regiões do país numa nova etapa do nosso capitalismo, a da Manufatura 4.0, da Inteligência Artificial e da sustentabilidade ambiental, como premissas para o desenvolvimento socioeconômico.

Nos últimos três anos já se avançou bastante no estancar do processo de desindustrialização, mas não o suficiente. A visão regional, com uma melhor adequação da política de juros, poderia dar maior solidez e consistência ao processo.
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"Quando o futuro deixa de ser promessa" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/desenvolvimento-soberano.html