A morte e a morte do amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra.html
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
A morte e a morte do amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-palavra.html
Ali onde ninguém conversa sobre literatura e mesmo sobre livros de outra natureza, surpreendeu-me:
— Um cara que lê muito, a gente sabe pelo que você escreve...
— Verdade. Leio muito, talvez menos do que necessito.
— Já experimentou ler um conto ou uma crônica ou mesmo um artigo que jamais foi escrito?
— Como assim!?
— Imaginando...
— !?
— Sem ter nem pra quê me pego "lendo" textos não escritos.
— Se não foram escritos, como consegue?
— Na rede do meu quarto não tenho cama, nem mesa, nem cadeira, apenas a rede. Penso, imagino, arrumo na mente e depois "releio" tudo.
[Ilustração: Emirhan Yazıcı]
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Em recente debate
pela internet, o professor Cristovam Buarque se posicionou da seguinte maneira,
respondendo sobre as razões que têm levado os eleitores a preferir a posição de
direita em eleições recentes:
“Minha hipótese é que o eleitor não acredita
mais na possibilidade do “distributivismo” para dar a todos uma parte
substancial do PIB tradicional. Porque o Estado e os recursos naturais não
permitem que o progresso tradicional seja distribuído a todos. Por falta de uma
alternativa que satisfaça ao eleitor, ele não quer decrescimento, nem
dificultar o consumo, nem abrir as portas para a imigração social ou
geográfica, nem salvar o planeta para as próximas gerações, nem a ilusão
abstrata de desenvolvimento sustentável, o eleitor confia na possibilidade de
receber sua parte pela exclusão de outros, conseguida pela liberdade, o
darwinismo social praticado democraticamente. Se erra quando se acusa a atual
direita como antidemocrata, ela está sendo eleita e praticando desumanismo
ecológico (anti migratório e prisional), mas com apoio dos eleitores. A Era da
Escassez Plena (não a era da escassez parcial em que a esquerda podia prometer
tirar dos ricos para os pobres), o poder do Tecnológico da Era Antropocena, os
Limites ao Crescimento, a Planetarização da Civilização criaram uma contradição
entre Humanismo e Democracia e as forcas progressistas não têm proposta capaz
de
retomar o casamento entre estas duas ideias, e seduzir aos eleitores nacionais
e imediatistas, em qualquer pais.”
Concordo com essa
visão. O problema é procurar alternativas que venham a trazer o retorno da
empatia e da busca de sociedades mais igualitárias, propostas em que o efeito
distributivo seja aceito pela maioria e não visto como mecanismo de exclusão
daqueles que algo já possuem.
Fui formado sob a
lógica cepalina em que se acreditava que a industrialização periférica traria a
solução para a diminuição das disparidades centro periferia, em que se via no
crescimento a solução para a resolução dos males sociais e a inserção das
populações no contexto de avanço do padrão de vida. Infelizmente, pouca atenção
foi dada à questão distributiva, à lógica capitalista per si concentradora, à
exclusão de uma grande parcela da sociedade dos frutos do progresso técnico.
Avançou-se, sem dúvida, mas também se aumentou o fosso entre os incluídos na
lógica do crescimento e os excluídos das benesses dele.
O desenvolvimento
caracterizava-se pelo crescimento continuado do produto (PIB), a taxas mais
elevadas do que as do crescimento populacional, ao longo do
tempo. Se o PIB crescesse mais do que a população, o PIB/capita (ou
renda/capita) cresceria. Ou seja, bastava aumentar a produtividade da
sociedade, que cada membro da sociedade poderia comprar cada vez mais bens e
serviços e, portanto, viver melhor. Esqueceu-se da lógica capitalista de
concentração de riqueza.
Boa parte da minha
vida profissional teve o dito Desenvolvimento Sustentável como norte de um
mundo melhor. Os ensinamentos de Amartia Sen nos orientavam política e
tecnicamente. A diferenciação entre crescimento e desenvolvimento ficava
patente. Só haveria desenvolvimento se houvesse inclusão social e respeito ao
semelhante. Nas palavras da economista Nayyar, que trabalhou com Sen, assim
deveria ser definido:
“O desenvolvimento
precisa expressar-se em aperfeiçoamento das condições de vida das pessoas (do
povo). É necessário, portanto, que ele garanta a satisfação das necessidades
humanas básicas para todos: não apenas alimentação e vestuário, mas também
habitação, cuidados com a saúde e educação.”
Em tese, essa visão
ainda seria dominante hoje, mas não, na verdade o conceito de desenvolvimento
que está por trás da visão recente é outro.
No subconsciente
coletivo, o desejo é bem diferente. A maioria quer viver e ter condições de
vida idênticas às dos países centrais, tendo os Estados Unidos da América como
padrão referencial mais expressivo.
Deseja-se, então, uma
vida em que se elimine as diferenças em relação aos países mais desenvolvidos,
uma organização sócio-política que permita ter condições de saúde e educação e
segurança, por exemplo, similar aos desenvolvidos. E, nesse processo de busca
de melhores condições pessoais, vendo a impossibilidade de ser generalizado, se
aterem a garantir seus privilégios sem haver nenhuma preocupação com os excluídos.
Um problema sério.
Defendem-se políticas similares às dos países capitalistas avançados já
dominados por esses desejos incorporados. Evitar a todo o custo a imigração
entrante, políticas de segurança sem nenhuma preocupação com a reinserção
futura na sociedade, apenas como despejo e amontoamento de indivíduos em
condições subumanas, classes médias que têm “ódio” de gente pobre, etc..
Sempre me vem à mente
um provérbio nordestino que reflete essa situação. “Farinha pouca, meu pirão
primeiro”.
Mostrar políticas que
permitem melhorias profundas na situação econômica, se não mudam as condições
da classe média pouco sensibiliza. Ações que levem à melhoria dos menos
favorecidos são consideradas perigosas, na medida em que podem trazer
contingentes significativos de pessoas a disputar espaços que consideram seus e
não aceitam dividir. Mesmo as classes médias baixas têm essa percepção e
procuram se precaver para não terem os poucos recursos que dispõe ameaçados.
Na América Latina, são
claros os avanços da extrema direita. Governos conservadores têm ganho as
eleições mais recentes. Começando pelos ultraliberais de El Salvador, passando
pela Argentina e Equador, até os mais recentes como Chile, Colômbia e Peru.
A volta de Trump nos
EUA fez com que houvesse uma aposta de que uma aliança com ele diminuiria as
crises econômicas dos periféricos. Pelo menos, é isso o que é sentido e vendido
pela direita desses países.
Os anos vinte de nosso
século deixam claro que, mesmo havendo melhoras significativas nos indicadores
econômicos dos governos de centro esquerda, não conseguem sensibilizar o povo,
há uma crescente descrença de que eles possam resolver os problemas que afligem
as populações desses países, a comparação jamais é com o passado recente,
sempre desejam condições similares aos mais desenvolvidos, que nunca tiveram.
Nas pautas de
preocupações recentes segurança ganha destaque. A aliança com o Gigante do
Norte é vista como solução para melhoria da situação. Mesmo que a soberania e
autonomia de decisões nacionais sejam fortemente ameaçadas.
A inflação, gerada por
crises internacionais e guerras, muitas vezes provocada pelo trumpismo, é
sempre atribuída ao governo que está no poder e leva a posições bastante
contrárias daqueles que apenas se centram em garantir seus privilégios. A
falácia do gasto público como causador de todos os males econômicos das
famílias coloca os governos na defensiva e faz com que a mídia venda uma imagem
de ineficiência.
Aliado a isso, uma
onda de líderes populistas que prometem cortes de impostos e medidas fiscais
altamente restritivas. Nitidamente vistos, pelas populações, como um mecanismo
para tornar o custo de vida mais barato e permitir um aumento do consumo das
famílias. Condicionando e quase desestruturando os necessários gastos sociais.
A economia é sempre
cíclica, se estamos em um momento internacional de crise conjuntural, haverá a
retomada de atividades e investimentos que permitirão uma melhoria do padrão de
vida. Também, é assim com a política. Fundamental que se mantenham princípios
que não acabem com a necessidade de compromisso entre gerações, em que o avanço
econômico não leve a desastres sociais e ambientais pelo imediatismo desejado inconsequentemente.
Há sinais positivos.
Frustrações vêm surgindo fazendo com que o populismo de direita e os resultados
alcançados comecem a levar a questionamentos. Em curto espaço de tempo. Como já
acontece na América do Norte onde a popularidade do presidente cai
vertiginosamente.
Democracia é
alternância de poder. Importante manter a chama acesa na latino América e ter
lógicas de balizamento consistentes.
Mais do que nunca o
Brasil aparece como farol que poderá permitir recuperar princípios fundamentais:
humanismo, empatia, solidariedade.
A luta por manter o
País nesse direcionamento é fundamental. E tem-se todas as condições de
continuar sendo assim, mesmo com pressões e ingerências no processo eleitoral
que surgiram e surgirão.
Os ideais de centro
esquerda em que o humanismo e a busca de uma redistribuição de riqueza para
melhoria das condições de vida dos menos favorecidos têm permitido
também saltos significativos no padrão de vida, inclusive das classes médias e
alta.
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Cida: competente, corajosa, múltipla
Luciano Siqueira
Cida Pedrosa tem sido atacada
sistematicamente por vereadores da extrema direita na Câmara Municipal do
Recife. Ameaçada, para sermos mais precisos. E tem reagido com coragem, altivez
e competência. Sem arredar um milímetro dos compromissos que assume perante o
povo e o seu Partido.
Contra seus detratores, Cida
protocolou denúncia perante a Comissão de Ética da Câmara Municipal, em que
solicita que se apure e reprima condutas manifestamente incompatíveis com o
decoro parlamentar.
Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html