13 agosto 2026

Fragmentos

Voo 732 da VASP
Luciano Siqueira    

“Viaje bem, viaje VASP”, um slogan que parece em desuso. Menos mal. No voo de ontem, de número tão sonoro, aconteceu de tudo. O atraso de 2 horas na partida, o escândalo armado pela pernambucana vinda de Miami com o seu bebê (“que saiu daqui das minhas entranhas, ó”, brandia pelos corredores do aeroporto como que exibindo troféu que lhe desse o direito de agredir a pobre funcionária da empresa), o almoço no restaurante em companhia da loura feiosa interessada em se afirmar porque funcionária de uma multinacional de medicamentos, o senhor de meia idade interessado em “ganhar” a loura feiosa com galanteios inúteis, a proibição do uso da toalete do meio da aeronave destinada aos passageiros da primeira classe e a consequente fila lá nos fundos, o café pequeno frio, a velhota ao meu lado a me perguntar de instante a instante o conteúdo do que lia, de artigos da revista Bravo! Ao Jornal de Antônio Maria, edição antiga da Paz e Terra. Chego, enfim, ao sagrado solo da terra maurícia e corro aos braços de Luci, graças a Deus! (Anotação minha de10/10/98).

"Tudo muda" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01160263233.html

Palavra de poeta

Céu de confeiteiro
Cida Pedrosa     

uma fatia de céu
é dada
nesta noite de maio

quinhão que cabe ao homem
que da janela espera

a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício

uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda

quinhão que cabe ao amor

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também: "Lápide", poema de Ariano Suassuna https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_01298191428.html 

Postei nas redes

Articulista de extrema direita diz no Estadão que "ala relevante do STF e os presidentes das casas legislativas atuam neste momento para que  Lula permaneça no poder." Choro de quem já perdeu de véspera? 

André Mendonça pisoteia a Constituição https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/sem-limites.html 

José Bertotti opina

Transformação ecológica conecta estratégias de desenvolvimento de Brasil e China
Política industrial, inovação, atuação do Estado e justiça social aproximam duas estratégias que partem de realidades nacionais distintas e questionam a oposição entre crescimento econômico e sustentabilidade
José Bertotti/Portal Grabois  

Conexões entre o Plano de Transformação Ecológica do Brasil e a Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa

O Plano de Transformação Ecológica (PTE) do Brasil, abordado como caso de estudo no trabalho de Carina Vitral, Cristina Fróes de Borja Reis e Carolina Grotteraa, Políticas industriais no centro do Plano de Transformação Ecológica no Brasil (Vitral et al., 2026), e o livro recentemente publicado no Brasil pela Fundação Maurício Grabois, Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa, escrito por Zhang Yongsheng (Yongsheng, 2026), embora enraizados em contextos nacionais e históricos distintos, revelam uma profunda ressonância em seus princípios fundamentais.

Ambos transcendem a visão tradicional que trata a proteção ambiental como um “fardo” para o desenvolvimento econômico, posicionando-a, em vez disso, como uma estratégia central para impulsionar a mudança estrutural, alcançar um desenvolvimento de alta qualidade e garantir a sustentabilidade a longo prazo.

Duas estratégias, diferentes horizontes

A diferença mais fundamental entre as duas abordagens reside na profundidade estratégica de cada uma.

O Brasil adota uma perspectiva de “transformação ecológica”, que se configura essencialmente como uma mudança estrutural. O país visa alterar radicalmente sua estrutura econômica, historicamente dependente da exportação de commodities de baixo valor agregado, buscando uma reindustrialização verde que eleve sua posição nas cadeias globais de valor. O cerne dessa abordagem é evitar uma nova forma de dependência, agora “verde”, que poderia se manifestar como uma “reprimarização verde” – ou seja, a mera exportação de produtos ambientais sem agregação tecnológica e desenvolvimento industrial interno. Para o Brasil, a transformação ecológica representa uma oportunidade histórica de superar o subdesenvolvimento industrial e construir uma economia mais complexa, inovadora e soberana.

Em contraste, a China adota uma abordagem mais ampla e profunda, que pode ser descrita como um salto de forma civilizacional. Para os chineses, a perspectiva ecológica não se contenta em “transformar” dentro do velho paradigma industrial, mas busca criar uma forma de civilização que supere a lógica insustentável da industrialização tradicional. A modernização chinesa é concebida como uma reflexão e superação sistêmica da insustentabilidade inerente à civilização industrial, representando uma transição histórica comparável à passagem da civilização agrícola para a civilização industrial. Essa visão transcende a mera política ambiental para se tornar um projeto civilizacional que redefine a própria relação entre a humanidade, a economia e a natureza.

Política industrial, Estado e financiamento

Apesar dessas diferentes profundidades estratégicas, ambos os modelos compartilham uma base comum fundamental: colocam a política industrial no centro de suas estratégias para impulsionar o crescimento verde.

No Brasil, isso se manifesta de forma explícita com o Plano de Transformação Ecológica colocando a política industrial no coração de sua estratégia, integrando o PTE, a Nova Indústria Brasil (NIB) e o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para criar um esforço coordenado e abrangente de reindustrialização verde.

A China, por sua vez, utiliza o conceito de “novas forças produtivas” para posicionar o desenvolvimento verde como a base ecológica da nova industrialização, impulsionando a atualização verde de todo o setor manufatureiro e promovendo uma transição que integra inovação tecnológica, eficiência energética e sustentabilidade ambiental.

Em termos de posicionamento central, o Brasil estrutura seu PTE como um arcabouço de política econômica abrangente, que não se limita a uma agenda ambiental, mas orienta o crescimento econômico e assegura uma transição justa para uma economia de baixo carbono. O protagonismo do Ministério da Fazenda na condução do plano demonstra claramente que a política econômica é a força motriz por trás da transformação ecológica. Já o Estado chinês, enxerga sua perspectiva ecológica como uma renovação da forma de civilização, representando uma transição da civilização industrial para a civilização ecológica que supera fundamentalmente o paradigma tradicional de modernização industrial ocidental.

Os objetivos fundamentais de ambos os modelos também revelam convergências significativas. O Brasil persegue três objetivos interligados: aumentar a produtividade e o emprego verde, reduzir a intensidade de carbono da economia e garantir justiça social e uma transição justa. A China estrutura sua modernização em torno de cinco características centrais: uma modernização de enorme população, a prosperidade comum para todo o povo, a coordenação entre civilização material e espiritual, a coexistência harmoniosa entre ser humano e natureza e o desenvolvimento pacífico. Nos dois casos, a dimensão social é tão fundamental quanto a ambiental e econômica.

A integração de políticas em ambos os países reflete um compromisso com a coordenação intersetorial. O Brasil integra instrumentos fiscais, financeiros, regulatórios e industriais sob a direção unificada de descarbonização e justiça social, com o Ministério da Fazenda exercendo liderança central. A China adere a um pensamento sistêmico que protege e governa de forma integrada “montanhas, rios, florestas, terras cultiváveis, lagos, pastagens e desertos”, enfatizando a abordagem sistêmica para as metas de “duplo carbono” (pico de carbono até 2030 e neutralidade de carbono até 2060).

No que diz respeito aos conceitos centrais, o Brasil adota o termo “transformação” em vez de “transição”, enfatizando a necessidade de mudança estrutural profunda para evitar uma “reprimarização verde” e promover a atualização industrial genuína. A China reforça essa abordagem nas palavras do seu presidente Xi Jiping (2017), ao afirmar que “águas cristalinas e montanhas verdes são tão valiosas quanto montanhas de ouro e prata”, posicionando a construção da civilização ecológica como fundamental para o desenvolvimento sustentável da nação chinesa.

Em termos de inovação e indústria, o Brasil persegue uma reindustrialização verde com foco em bioeconomia, economia circular e transição energética. A China, através do conceito de “novas forças produtivas”, impulsiona o desenvolvimento da manufatura em direção a um modelo mais avançado, inteligente e verde, integrando inovação tecnológica com sustentabilidade ambiental.

Os instrumentos financeiros também mostram paralelos interessantes. O Brasil criou mecanismos inovadores como o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), em fase de implementação, e a Taxonomia Sustentável Brasileira, além de emitir títulos soberanos verdes, administrados pelo BNDES, para canalizar investimentos para atividades sustentáveis. A China desenvolveu um sistema financeiro verde abrangente, com padrões para financiamento verde e mercados para crédito, títulos e seguros verdes.

Uma convergência crucial entre as abordagens dos dois países é a redefinição do papel do Estado na economia. O Brasil, ao inserir o Ministério da Fazenda como agente ativo da agenda climática, demonstra a intenção de usar o poder do Estado para moldar mercados, financiar a inovação e atuar como um investidor de longo prazo, indo além da mera correção de falhas de mercado. A China enfatiza a combinação de um “mercado eficaz” e um “governo que cumpre seu papel”, utilizando o conceito de civilização ecológica para estruturar um sistema financeiro verde para direcionar recursos para indústrias verdes, redefinindo as funções de ambos os atores no processo de desenvolvimento.

Do ponto de vista social, o Brasil enfatiza explicitamente a transição justa, incluindo a justiça social, redução da pobreza e equidade regional como objetivos centrais de seu plano. A China enquadra sua modernização como um caminho para a prosperidade comum de todo o povo, afirmando que um ambiente ecológico saudável é o benefício público mais equitativo.

Caminhos do Sul Global

Em síntese, o Plano de Transformação Ecológica do Brasil e a Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa representam duas tentativas distintas, porém interligadas, do Sul Global de forjar caminhos de desenvolvimento que se afastam do modelo tradicional de industrialização ocidental. Ambos rompem fundamentalmente com o velho paradigma de que o desenvolvimento econômico deve vir à custa do meio ambiente, demonstrando que é possível alcançar uma relação de benefício mútuo entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental.

Sob essa nova ótica, mesmo com as restrições orçamentárias impostas pelas altas taxas de juros definidas pelo Banco Central, a economia brasileira passou a crescer em torno de 3% ao ano, retomando seu posto entre as 10 maiores economias do mundo. De acordo com o FMI, o Brasil terá crescimento no período 2023-2026 acima da média da América Latina. A inflação registrou o menor índice acumulado de um mandato presidencial na história do país, alcançando uma média anual de 4,6%. Retomamos o crescimento da nossa indústria. Entre 2023 e 2025, a indústria brasileira foi a sexta que mais cresceu no mundo entre as economias do G20, com 3,2% acumulados (Plano de Governo Lula, 2026).

Enquanto o plano brasileiro se apoia em sua imensa biodiversidade e matriz elétrica renovável para uma reindustrialização verde, a abordagem chinesa concentra-se em uma transformação sistêmica institucional e cultural para liderar uma mudança de era civilizacional. Ambos os casos demonstram que um processo de transformação ecológica bem-sucedido deve ser profundamente enraizado nas realidades nacionais, recursos e tradições culturais de cada país, oferecendo, assim, modelos diversos e valiosos para o desenvolvimento sustentável global.

O Brasil e a China, cada um a seu modo, estão construindo respostas originais para os desafios do século XXI, contribuindo para um novo repertório de políticas de desenvolvimento que integra crescimento econômico, justiça social e sustentabilidade ambiental. Os dois países enxergam a transformação ecológica não como um custo, mas como uma janela de oportunidade histórica para alavancar a inovação, aumentar a competitividade e promover a atualização industrial.

Nesse sentido, as eleições de 2026 decidirão se o Brasil conseguirá ou não persistir no rumo da reconstrução iniciada no Governo Lula III, para concluir a tarefa de realizar as reformas estruturais necessárias para o país atingir um novo patamar de civilidade e implementar um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento.

[Ilustração: Anne Marie Palaze]

Referências

Xi, Jinping. Íntegra do Relatório do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista da China. Embaixada da República Popular da China no Brasil, 2017.

Programa de governo de Lula. 2026.

Vitral, Carina; Reis, Cristina Fróes de Borja; Grottera, Carolina. Industrial Policies at the Heart of the Ecological Transformation Plan in Brazil. UCL Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP), 2026.

Zhang, Yongsheng. Perspectiva ecológica da modernização chinesa. Fundação Maurício Grabois e Editora Chongqing, 2026.


José Bertotti é pesquisador em inovação e política climática. Sócio-fundador do Instituto Toró, Clima, Tecnologia e Cultura. Foi secretário de estado em Pernambuco nas pastas de Meio Ambiente e Sustentabilidade; e de Ciência e Tecnologia. É membro da direção estadual do PCdoB em Pernambuco e um dos coordenadores do GP Transformação Ecológica e Diversificação Energética da Fundação Maurício Grabois.

PCdoB aprova manifesto por novo ciclo de desenvolvimento com Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-do-pcdob_0907726579.html 

Fotografia

 

Victor Balaguer

O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-urariano-mota.html 

Uma crônica de Urariano Mota

Caetano Veloso em seu aniversário
Contar mais de 80 não é compreender a marcha dos dias. A idade real de um criador é a dos seus tempos mais fecundos.
Urariano Mota/Vermelho    

Para nossa maior surpresa, Caetano Veloso completa hoje 84 anos. Mas como  84?! Se as estações do tempo mandam nas vida, delas podemos dizer o que Nelson Rodrigues disse em relação ao vídeo-tape em uma discussão: esse tempo é burro!

Assim dizemos porque ao ver os rostos dos criadores, nós nos vemos neles. Não tanto pela forma física, em feições quanto aos corpos, que estão melhores do que os nossos nestes dias. Em alguns, como Paulinho da Viola e Caetano Veloso, estão mais bonitos. Como uma lei geral para indivíduos que não são um primor de aparência aos 20 anos, o passar do tempo os tornou belos. Mas não é à mais recente forma física que me refiro. A verdade é que ao ver seus rostos nos refletimos neles. Mas o rosto que vemos não é o da fotografia destes dias. Por trás deles, ou melhor, bem à sua frente, estão os rostos do que fomos na sua juventude.

A idade real é a que resiste em nossa memória dos seus mais fecundos tempos e rebeldia. Mais que resiste, toma conta de tudo e se sobrepõe a qualquer outra. Daí, a burrice dos calendários que não sabem nem percebem que Caetano Veloso é

“Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui
Eu não tenho nada, quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada”

Na época, achávamos que a risada de Irene vinha a ser a metralhadora de Che na Bolívia. 

Então a refletir, descobrimos um fato contraditório nas vidas dos artistas.  Ao contrário do que recomendam os conservadores, ou a mais sensata ponderação, eles não se abrigaram da tempestade em cabanas de urgência. Ainda que não tenham vestido uma  couraça, uma roupa de herói durante a ditadura, à sua maneira eles dormiram no chão feito Ho Chi Minh no Vietnã. Eles foram expulsos da casa onde moravam, como Karl Marx em Londres. Eles estiveram próximos dos olhos vidrados de Che na Bolívia.

Eles estiveram com os heroicos militantes da resistência que foram às últimas. Isto é, eles cantaram compuseram, desafiaram, sofreram o terrorismo enquanto tudo era fascismo no horizonte do Brasil.  

Como escrevi e publiquei no romance “A mais longa duração da juventude”, traduzido para o inglês por Peter Lownds sob o título de Never-Ending Youth: 

“- É muito melhor compositor. Não acha? – Vargas me questiona.

– Hum. Quem é maior? – respondo sem entender a pergunta. 

– Caetano Veloso, é claro. Está dormindo? – Ele volta. 

– Eu? Nada. Sim, Caetano Veloso é bom – falo. 

– Ele não é bom. Ele é o melhor compositor da música popular brasileira – Vargas responde. 

– Não, aí é demais – falo. – Olhe, já é uma batalha gostar de Caetano. Mas ver Caetano como o melhor é demais”. 

E a discussão corria noite adentro em 1972. Os foquistas, como chamávamos aos guerrilheiros urbanos, que assaltavam bancos para arrancar dinheiro para a revolução, os foquistas eram partidários de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Já os partidários do movimento de massa para derrubar a ditadura, como os comunistas do Partido Comunista do Brasil, Partido Comunista Brasileiro e Ação Popular Marxista-Leninista, estávamos ao lado de Chico Buarque, Paulinho da Viola e Geraldo Vandré. Hoje, à distãnia, podemos ver que os dois lados estavam certos em suas ambições estéticas. Os geniais compositores, agora com mais de 80 anos de idade, continuam suas fecundas jornadas. 

No presente, vemos que nós não amávamos apenas a música. Nós queríamos tudo, todo o céu na terra. Nós éramos as almas vivas do nosso tempo.  Aquela   história não morreu, os grandes compositores nos cantam até agora.

Em outra página do romance “A mais longa duração da juventude” escrevi:

“Vejo as águias encanecerem, acompanho os fios brancos de suas cabeças se tornarem frágeis, quebradiços, e me falo e percebo que algumas não piscaram no alto. No píncaro do tempo, não decaíram, como se fossem uma revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se desorganiza e se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema Um e Tudo, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras formas,  mas mantiveram a permanência do ser da juventude”.

Calendário, recolhe-te à tua insignificância! Pois contar mais de 80 não é compreender a marcha dos dias. A idade real de um criador é a dos seus tempos mais fecundos. Agora e sempre, até a penúltima gota das tempestades.

Viva Caetano Veloso!

*Publicado em inglês Caetano Veloso on his birthday  

Leia também: "No embaralhar da vida", crônica de Abraham Sicsu https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html

Minha opinião

Qual é a da Faria Lima?*
Luciano Siqueira     

O complexo midiático neoliberal dominante, autofalante da elite financeira hegemônica, segue criticando duramente o principal candidato da extrema direita, senador Flávio Bolsonaro (PL), trazendo a nu suas contradições e fragilidades.

Também não consegue se ancorar nas candidaturas de Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu ema (Novo), ambos absolutamente desprovidos de ideário o mais rasteiro que seja.

Há que se perguntar: qual é a da Faria Lima?

Será que os senhores do mercado têm a percepção de que um quarto governo Lula é inevitável e, tal como as grandes legendas do Centrão, depositam suas expectavas eleitorais na manutenção de maioria conservadora e de direita no Senado e na Câmara dos Deputados?

Essa gente proclamou enfaticamente, até quando se esgotaram as possibilidades, a necessidade de uma dita “terceira via”, candidatura à presidência da República supostamente distanciada da polarização Lula versus bolsonarismo, com aparência centrista, mas de essência ultrarreacionária.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) era o nome preferencial (embora nada tenha de centrismo).
Não deu.

O fato é que, em mais alguns dias, com o início da propaganda oficial na TV e rádio, se iniciará a campanha propriamente dita. E a chamada Faria Lima com um pé dentro e o outro fora. Algo impensado meses atrás.

Isto posto, cá do outro extremo – a ampla coalização reunida em torno do presidente Lula -, que fazer?

Nada é simples. Especialmente no imenso país que somos, marcado por complexa e multifacetada diversidade econômica, social, cultural e política e convivente com legislação eleitoral porosa e contraditória, que conspira em favor de incoerências e dispersões.

Toda flexibilidade tática é necessária para construir acordos, na disputa por governos estaduais e cadeiras no Senado e na Câmara, no intuito de, a um só tempo, consolidar as possibilidades de vitória de Lula, ampliar sua base entre governadores eleitos e pelo menos amainar a adversa correlação de forças no parlamento.

Dentre os candidatos oposicionistas à presidência, o dito filho Zero Um do ex-presidente encarcerado segue como alvo principal.

Com Caiado e Zema, impossível qualquer entendimento, melhor deixar que sigam falando sozinhos.

Sustentar discurso propositivo, acentuando as conquistas alcançadas e indicando objetivos essenciais constantes da plataforma para o provável próximo governo. A defesa da soberania nacional sobretudo.

Demais, ir além da TV, rádio e redes digitais; ganhar os salões e as ruas para despertar a consciência, o entusiasmo e a disposição de luta do povo.


Ilustração: imagem produida por IA

*Texto da minha coluna semanal no portal ‘Vermelho’

Leia também: Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html