30 julho 2026

Palavra de poeta

Não saibas... imagina
Miguel Torga    

Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões…
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições…

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorri!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia…

A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html    

Enfermagem: desafios e luta

A luta sem tréguas da Enfermagem
O cotidiano paradoxal de uma das profissões mais numerosas do país. Elas salvam, cuidam e confortam, mas vivem sob baixos salários, precarização e adoecimento crescentes. Contraponto: nenhuma outra categoria tem se mobilizado tanto
Glauco Farias/Outras Palavras   

Em 21 de março de 2020, dezenas de cidades brasileiras registraram à noite pessoas aplaudindo das janelas os profissionais de saúde que estavam na linha de frente do combate à pandemia de covid-19, ainda em seu estágio inicial no país. Àquela altura, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem tornaram-se símbolos de resistência de uma tragédia sanitária que matou, segundo números oficiais, mais de 700 mil pessoas em território nacional, ceifando a vida de centenas desses profissionais, infectados na rotina do cuidado e exauridos pelo esforço.

Uma situação de emergência como aquela exigiu a mobilização de inúmeras pessoas na área, inclusive daquelas que não estavam trabalhando no momento. “Fui convocada pelo Ministério da Saúde para atuar contra a covid-19 no início de 2020. Lembro bem, era à noite em Manaus, por volta das 22h no horário local, e eu já estava me preparando para dormir quando recebi uma ligação do Ministério”, conta a enfermeira Adriane Aragão, que trabalhou em uma das cidades que sofreria mais com a disseminação do coronavírus.

“A situação em Manaus era devastadora, e eu já participava de grupos que ajudavam a repassar informações sobre onde havia oxigênio disponível, oxímetros e máscaras que estavam em falta em toda a cidade”, conta, lembrando como foi feita a admissão. “Houve uma seleção e triagem dos profissionais em uma universidade, reunidos em um pátio aberto, com testagem para covid-19. Os profissionais que não passaram na primeira triagem foram justamente os que já estavam contaminados; os que restaram, sem a doença, seguiram para a organização das equipes, com a formação de grupos de WhatsApp que existem até hoje, criados pelos laços que fizemos naquele cenário adverso.” 

Adriane foi parar no Hospital de Campanha Newton Lins, onde atuou na primeira ala voltada especificamente aos povos indígenas. Ali, a falta de pessoal foi um problema constante durante o período crítico da pandemia. “Havia dias em que minha equipe, que contava com vários técnicos de enfermagem, ficava reduzida a apenas quatro, porque muitos adoeciam ou eram remanejados para outros setores mais necessitados.” Seu corpo registrou o esforço intenso daquele período. “Eu usava o pijama cirúrgico tamanho médio e, ao final daquele período, já estava usando P, de tanta correria.”

A realidade em outros grandes centros não foi diferente. Rodrigo Bizacho, auxiliar de enfermagem no Hospital São Paulo (Unifesp) e coordenador-geral do Sintunifesp, descreve como foi a rápida adaptação em seu cotidiano: “Como eu trabalhava na enfermaria de clínica médica, o hospital rapidamente isolou o setor de doenças infectocontagiosas para receber os casos de covid. Com o aumento dos casos, novos setores e leitos foram sendo criados”. 

A preocupação com a contaminação era constante, tanto no trabalho quanto em casa. “Minha maior preocupação era com a família. Eu era casado na época e vivia com medo de chegar em casa e acabar transmitindo a doença’, relata, detalhando a rotina rigorosa de higiene para proteger os seus.”Mantinha contato só com minha esposa, e mesmo assim tentava me proteger ao máximo para que ela também não se contaminasse. Ao chegar em casa, tinha uma lavanderia do lado de fora e já tirava toda a roupa ali, colocando de molho num balde com água e sabão, e entrava direto no chuveiro. Era assim, para eliminar qualquer risco.”

O desgaste no período, tanto físico quanto psicológico, foi a tônica para muitos trabalhadores da área. Segundo a sondagem “Percepção do sofrimento mental dos profissionais de enfermagem em meio à pandemia da Covid-19”, divulgada pelo Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) em setembro de 2021, 62,1% dos profissionais de enfermagem dizem ter tido algum tipo de sofrimento mental durante a pandemia. Foram ouvidos 10.329 profissionais por meio de uma questionário online e no grupo daqueles que atestaram ter passado por sofrimento mental desde o início da pandemia até agosto daquele ano, 70,2% apresentaram sintomas físicos como fraqueza, tonturas, dores em geral, problemas para respirar, dormência, formigamentos, dificuldade de concentração e esgotamento físico. Já 64,5% relataram sintomas emocionais, como medo, sentimentos de culpa, pânico e esgotamento mental e pensamentos negativos.

Rodrigo Bizacho confirma o impacto na saúde mental. “A enfermagem, em si, foi muito afetada psicologicamente, porque era o principal elo de contato com todos os pacientes. Isso mexeu muito com a cabeça das pessoas, ver colegas e familiares morrendo”, recorda. 

Um outro levantamento, feito para a Internacional dos Serviços Públicos pelo estúdio de inteligência de dados Lagom Data, baseado em um cruzamento de dados oficiais produzidos pelo Ministério da Saúde e pelo Ministério do Trabalho, apontou que entre o início da pandemia e o final de 2021, a covid-19 matou no Brasil mais de 4.500 profissionais da saúde. 

A luta pelo piso salarial

“O reconhecimento que nós tivemos durante a pandemia veio da população em geral, mas não foi refletido pelos governos e pelas gestões tanto públicas quanto privadas”, resume Ludmila Outtes, presidenta do Sindicato dos Enfermeiros de Pernambuco (SEEPE). “Como vários colegas falam, aplauso não enche barriga, aplauso não paga conta.”

A afirmação de Outtes encontra eco em uma luta histórica dos profissionais da área pela implementação do Piso Nacional de Enfermagem. No Congresso Nacional uma das primeiras propostas foi protocolada em 1989, com o Projeto de Lei 4499, da deputada federal Benedita da Silva, e se voltava naquele momento apenas para enfermeiros. Mais tarde, com dois projetos distintos, de 2009 e 2015, o piso salarial da enfermagem voltou a ser tema legislativo, mas a categoria só conseguiu êxito no Parlamento com a aprovação do PL 2564/2020, de autoria do senador Fabiano Contarato (PT-ES), que estabelecia o piso salarial à jornada semanal de trabalho de 30 horas. Essa é a quantidade trabalhada de horas ideal recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Embora o projeto tenha sido aprovado e depois sancionado como Lei 14.434/2022, sofreu mudanças importantes durante sua tramitação, não só com a redução dos valores iniciais como também com a desvinculação da jornada. O valor estabelecido foi de R$ 4.750 para enfermeiros, R$ 3.325 para técnicos e R$ 2.375,00 para auxiliares e parteiras. Mesmo assim, a Confederação Nacional de Saúde (CNSaúde), que atua pelos interesses dos empresários da saúde privada, entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), alegando riscos de demissão e falta de definição de fontes de custeio nos setores público e privado. Em setembro de 2022, o ministro Luís Roberto Barroso concedeu uma liminar que suspendia os efeitos do piso.  

Posteriormente, a Corte estabeleceu critérios para a aplicação, com a determinação que o governo federal prestasse assistência financeira complementar para redes estaduais, municipais e entidades filantrópicas que atendessem pelo menos 60% dos pacientes pelo SUS. Nesse sentido, o Legislativo ainda aprovou duas Propostas de Emenda à Constituição para preservar os direitos dos profissionais. Já na iniciativa privada, ficou determinada a necessidade de negociação coletiva prévia entre patrões e empregados ou decisão em dissídio na Justiça do Trabalho no caso de impasse. O julgamento do mérito da ação foi paralisado em maio deste ano após um pedido de vista do ministro Luiz Fux, com votos já registrados de Barroso, hoje aposentado, e Dias Toffoli. 

A engenharia constitucional resolveu o problema do financiamento apenas no papel. Na prática, a categoria segue crescendo em números e perdendo proteção. O estudo “Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil”, elaborado pelo Ministério da Saúde em parceria com pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mostra que o contingente de profissionais cresceu mais de 2,5 vezes entre 2010 e 2021. Hoje, a enfermagem responde por 70% de toda a força de trabalho em saúde do país, contra 59% na média global. É, ao mesmo tempo, a espinha dorsal do sistema e a categoria mais exposta à precarização que o sustenta.

“A enfermagem é uma profissão superexplorada desde a sua formação e constituição como campo, de um lugar colocado para as pessoas que iriam executar tarefas muito mais do que pensar o que fazer”, explica Kênia Lara da Silva, da Escola de Enfermagem da UFMG e uma das integrantes da equipe de coordenação do estudo.

A pesquisadora aponta a composição racial e de gênero da categoria como parte da explicação histórica dessa desvalorização, e os dados confirmam o cenário. A força de trabalho em enfermagem é 87% feminina, com um crescimento de homens na profissão de 5,5% ao ano, ainda insuficiente para alterar essa maioria. Já a composição racial é mais difícil de precisar. O próprio levantamento demográfico reconhece uma subnotificação de cerca de 39,4% nos registros de raça e cor entre enfermeiros, o que mascara parcialmente a magnitude real das desigualdades raciais dentro da categoria.

Lígia Simões Ferreira, enfermeira nefrologista e doutoranda pela UFSCar, descreve o mesmo fenômeno em outro aspecto: a romantização do cuidado como vocação. “Persiste uma romantização absurda: a ideia de que a gente ‘trabalha por amor’, que não é vista como profissional, mas como figura materna. Isso é usado para justificar a precarização.”

A rotina da precarização

O piso não pago é apenas a ponta mais visível de um sistema de contratação que ajuda a fragilizar os vínculos trabalhistas. “Existe essa questão da privatização disfarçada, por meio da terceirização. Não se entrega diretamente o hospital para a iniciativa privada, mas indiretamente sim, porque, apesar dele permanecer público para a população, é gerenciado por uma empresa privada”, aponta Ludmila Outtes, ressaltando um outro problema que aparece nesse contexto.

No seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS, promovido pelo Outra Saúde em parceria com a Associação Paulista de Saúde Pública, a Faculdade de Saúde Pública da USP e o ICICT/Fiocruz, a pesquisadora e ex-secretária de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde Isabela Cardoso Pintodestacou o impacto desse modelo para quem trabalha na área. “Não é novidade o impacto que o crescimento das Organizações Sociais da Saúde (OSs) e outras modalidades de gestão no SUS têm tido sobre as condições de trabalho e remuneração das trabalhadoras e trabalhadores do SUS. O sofrimento gerado pela deterioração das relações de trabalho vem sendo explicitado em vários estudos e também pelo aumento do número de denúncias feitas pelos profissionais da saúde sobre as diversas formas de precarização do trabalho no setor”, pontuou. 

“O Estado repassa o recurso para que as OSs, ou outra forma de parceria público-privada, façam a gestão dos serviços de saúde. O Estado financia, o mercado intermedia e a ponta precariza”, resume Isabela. “Vale ressaltar que estamos falando de um contingente significativo, de uma força de trabalho formada 75% por mulheres. Nós temos hoje, segundo dados do CNES [Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde], 3,6 milhões de trabalhadores/as, mas ao olhar para os vínculos, esse número quase dobra: 5,8 milhões”, detalha a pesquisadora, que também é professora titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC-UFBA) e coordenadora do Observatório de Análise Política em Saúde (OAPS). 

“Sobre as formas de contratação, 44% dos/as trabalhadores/as estão classificados como ‘demais vínculos’ – contrato temporário, bolsa, cooperativa, uma variedade de formas de inserção que reverbera na precarização. Essa multiplicidade atinge 12 diferentes modelos de contratação, que fogem da estabilidade prevista em 1988”, completa.

Lígia Ferreira detalha como essa lógica se traduz em salário. “Quando uma OS entra num hospital universitário, ela elimina os concursos públicos. A enfermagem é uma categoria que, quando abre uma vaga numa prefeitura do interior, mil enfermeiras concorrem. Isso cria um cenário de exploração que muitos nem percebem”, conta.

A enfermeira nefrologista relata ainda outras formas de precarização ocultas sob a forma do “empreendedorismo” que também alcançam a área. “Tenho colegas que migraram para a estética ou abriram consultórios de enfermagem, e isso pode ser um avanço real, ter um consultório é conquista. Mas as OSs têm se valido disso de uma forma perversa: o enfermeiro vira PJ [pessoa jurídica], prestador de serviço, e a precarização aumenta ainda mais”, conta. “Enquanto uma consulta médica custa 100 reais, a do enfermeiro não chega a 25. Os mais jovens estão caindo na falsa ideia do empreendedorismo, vendem a ideia de que você é livre, empreendedor, mas na prática não é”.

O levantamento demográfico dá substância a esse relato. A remuneração média dos enfermeiros, medida em salários-mínimos, sofreu um achatamento na última década, com a maioria dos novos contratos concentrando-se hoje na faixa de 3 a 4 salários-mínimos, uma evidência de perda de poder aquisitivo mesmo com o piso legal em vigor. “A realidade é que a maioria dos enfermeiros trabalha em dois ou três empregos porque é mal remunerada”, diz Ferreira. “A gente deixa família, lazer, saúde para dar plantão e ganhar um pouco mais.”

“Quando a gente tem essa proposição da saúde como direito, mas essa saúde sendo assistida por trabalhadores em condições precárias, isso é uma grande contradição que precisamos enfrentar para pensar a sustentabilidade do sistema, a continuidade do cuidado e a defesa dos princípios constitucionais que são tão caros para nós.”, observa Kênia Lara da Silva.

Sobrecarga e desgaste

Não é apenas no território cinzento das relações entre público e privado que as condições da enfermagem deterioram no Brasil. Paula* trabalha na atenção primária em uma unidade de saúde da cidade do Rio de Janeiro e conta, sob condição de anonimato, que lida em seu cotidiano com questões que não são de saúde pública, mas sim de política pública.

“Temos muito desgaste psicológico com indicadores e metas que muitas vezes são impossíveis de alcançar. Por exemplo, trabalho numa clínica com oito equipes de saúde em um território extremamente extenso, com cadastros de pacientes muito grandes. O ideal seria cerca de 2.000 a 2.500 cadastros, mas às vezes trabalhamos com o dobro disso. É muita demanda da população e a gente acaba não dando conta, não por falta de capacidade profissional, mas por falta de braços, de recursos humanos”, relata a trabalhadora. 

Diante do cenário, os profissionais muitas vezes têm que enfrentar a hostilidade da população. “Muitas vezes somos muito hostilizados, a ponto de agressões verbais e físicas. Isso se tornou rotina. Principalmente porque, na maioria das unidades da minha área programática, toda demanda livre passa primeiro pelo enfermeiro. Como se o enfermeiro fizesse o papel do enfermeiro do pronto atendimento que faz classificação de risco”, explica. “Na atenção primária, precisamos encaminhar muitos pacientes para especialistas. Eles não entendem a demora. E quando o paciente vai para o especialista na rede secundária, ele volta com uma bateria de exames para ser solicitada para investigar o problema. Isso é uma saga para o paciente e para a gente.”

Paula conta que sua jornada de trabalho é de 40 horas semanais, longe do ideal preconizado pela OMS e OIT. “Eu trabalho de terça a sexta, 10 horas por dia. A unidade abre aos sábados, então criaram uma escala em que precisamos vir aos sábados, de sete da manhã ao meio-dia. Isso é computado como hora extra e gera um banco de horas. A gente não recebe essa hora extra”, diz. “Essa rotina intensiva e a extensão das horas impactam muito. Eu faço muita terapia. Vejo meus colegas com um grande absenteísmo. A gente se afasta muito por desgaste psicológico, principalmente, mais do que físico”, aponta.

“Essa busca por alcançar o indicador e essa cobrança, que chega a ser assédio, deixa a gente muito mal psicologicamente. Ouvimos em reuniões: ‘isso aqui é um grande time de futebol e se vocês não fizerem gol, a gente vai ter que substituir o jogador’. Por conta disso, acredito que tantos profissionais estejam se afastando pela psiquiatria. Ou, quando não é um atendimento psiquiátrico, o corpo fala. A gente se afasta porque a imunidade caiu, pegou uma gripe, ou está com dor na coluna, ou simplesmente está esgotado e não consegue levantar da cama”, ressalta, destacando que o regime de metas não é discutido com os trabalhadores, mas imposto de cima para baixo.

Segundo o estudo “Demografia e Mercado de Trabalho em Enfermagem no Brasil”, houve um aumento expressivo na ocorrência de afastamentos laborais na categoria a partir de 2019, mas a proporção desses afastamentos classificada oficialmente como “relacionada ao trabalho” permanece baixa, abaixo de 5% do total, o que os próprios pesquisadores apontam como indício de subnotificação ou descaracterização dessas ocorrências como doenças ocupacionais. É exatamente o mecanismo que Ludmila Outtes descreve como “dupla violência”. “A primeira violência pelas condições de trabalho que levam ao adoecimento. A segunda violência é o não reconhecimento do nexo causal entre o adoecimento e a sua ocupação.” 

Kênia Lara da Silva situa essa insegurança dentro de uma discussão mais ampla sobre projeto de sociedade. “Quanto menos organizada uma profissão, menos consciência coletiva ela tem, menos consciência social e política e menos capacidade de luta”, sustenta. Para ela, a fragilização do vínculo tem efeito direto sobre a saúde mental. “A perspectiva de ‘será que eu vou ter esse vínculo daqui a três, seis meses?’ traz questões importantes de saúde mental para os trabalhadores. Há uma série de repercussões diretamente ligadas à redução dos salários, mas também tem uma consequência em relação ao futuro. O que move as pessoas em grande medida é como elas se projetam daqui para frente.”

Existem inúmeros problemas na área, mas talvez seja Paula quem consiga resumir aquele que seria um passo fundamental para aprofundar as mudanças necessárias para a carreira de enfermagem que preservassem o trabalhador e também o sistema integrado de saúde. “O que eu gostaria que mudasse? É que nos ouvissem. Para você entender, tem que se colocar no lugar do profissional, para saber o que está acontecendo, para buscar soluções.”

*Nome fictício

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Leia também: "A soberania nacional, por exemplo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0138497997.html

Minha opinião

Disputa intramuros
Luciano Siqueira  

Antigamente era assim e hoje talvez ainda seja. Afinal, o bom senso e a habilidade transitam na sociedade humana há séculos. Na política brasileira, desde a Primeira República.

Divergências internas devem permanecer intramuros, sob o risco de desgastes desnecessários, arranhões entre aliados, dissidências.

Óbvio que nem todos os líderes, partidos ou grupos pensam assim. Há os que pensam resolver disputas pelos jornais ou redes digitais, no grito. Geralmente dá errado.

Tancredo Neves dizia ser preciso “ficar rouco de tanto ouvir”. E foi longe.

Agora, extrapolam os salões do Palácio do Campo das Princesas tensões relacionadas com a chapa majoritária (candidaturas ao Senado) na coalizão de centro-direita liderada pela governadora Raquel Lyra.

Uns permanecem discretos, na moita; outros fazem ao público suas exigências, eventuais frustrações e ameaças. Os primeiros tendem a levar vantagem.

O fato é que não cessarão por aí as dificuldades políticas da governadora. Há outro “rolo” mais difícil a encarar no curso da campanha: a candidata se manterá “neutra” quanto à eleição presidencial para contemplar aliados tão díspares em sua coligação, onde estão bolsonaristas, direitistas outros, figuras talvez de centro desgarrados na Frente Popular (liderada por João Campos)?

Quanto mais apoio, melhor; porém tantas contradições e disputas dentro de casa podem levar a empreitada ao insucesso.

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Inferno digital

Por uma resposta estrutural às bets
No mundo, US$5,9 bilhões foram gastos em apostas durante a Copa do Mundo. Problema não é só de saúde, mas o setor deve dar respostas. Elas passam por barrar publicidade e restringir acesso a plataformas – mais do que promover “jogo responsável”
Cláudia Braga/Outras Palavras   

A Copa do Mundo de 2026 acabou; o debate sobre as bets, não.

Segundo o The New York Times, estima-se que 5.9 bilhões de dólares foram apostados globalmente durante esta Copa do Mundo; 69% desse valor foram movimentados em operações de apostas não regulamentadas.

No Brasil, diversos sites de notícias noticiaram um número alto de apostas no período – as informações variam, mas indicam gastos com apostas próximos a 1 bilhão de reais, envolvendo quase 40% da população brasileira. Desse total, estima-se que mais de 70% sejam homens e 80% pertençam às faixas de renda média e renda baixa, com maior concentração de apostas nos estados do Centro-Oeste brasileiro e em alguns estados da Região Norte. 

Para quem acompanhou os jogos – não os de azar, os de futebol -, era notável a intensa propaganda de casas de apostas e mesmo o incentivo constante para apostar realizado por algumas mídias, especialmente nos jogos de azar com apostas de quota fixa (conhecidas como bets). Não à toa, esta Copa do Mundo vem sendo chamada de Copa das Bets.

O problema das apostas certamente não se reduz a uma questão de saúde, embora possa envolvê-la em algumas situações. Atribuir unicamente a prática nociva de apostas a um problema de saúde – e, mais especificamente, de saúde mental – é, mais uma vez, cair na armadilha da psiquiatrização de problemas sociais. As pessoas apostam por muitos motivos, que vão do entretenimento e da busca por excitação à prática criminosa de lavagem de dinheiro.

Mas também as pessoas apostam imaginando que poderão resolver problemas financeiros ou mesmo enriquecer. Ocorre que apostas envolvem perdas que podem, por sua vez, levar a perdas ainda maiores. Estima-se que o maior volume da receita dos jogos de azar, cerca de 60%, seja proveniente de uma minoria de apostadores, que abrange justamente aquelas pessoas que realizam apostas em níveis prejudiciais. Ou seja, o modelo econômico da indústria dos jogos de azar depende desproporcionalmente das pessoas que mais apostam.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, as apostas como um problema de saúde atingem cerca de 1.2% da população mundial. É possível que esse número aumente nos próximos anos, considerando o rápido crescimento global do mercado de apostas, impulsionado pelo maior acesso a dispositivos eletrônicos, como os celulares, que colocam não apenas as plataformas de apostas, mas um ambiente digital ao alcance das mãos.

O desafio atual e futuro será responder aos inéditos problemas criados por presença intensa e potencialmente prejudicial nos ambientes digitais – que, não esqueçamos, inclui o debate sobre uso das redes sociais por crianças e adolescentes, por exemplo –, sem cair na armadilha de reproduzir uma política alarmista e reducionista do problema das apostas em jogos de azar apenas como um problema de saúde mental, rotulado em um diagnóstico psiquiátrico. 

As propostas da The Lancet

Com a expansão global da prática de apostas em jogos de azar, que levou ao aumento do número de pessoas com problemas de saúde relacionados às apostas, em 2024, a The Lancet criou a Public Health Commission on Gambling – uma comissão de saúde pública em jogos de azar, reunindo um painel de especialistas para analisar o problema e propor respostas para o campo. Um dos objetivos da Comissão é afastar o entendimento de que se trata apenas de um problema individual ou do uso de estratégias de “jogo responsável” – uma ideia desenvolvida pela indústria dos jogos de azar que desvia a atenção da necessidade de regulação pública -, desenvolvendo reflexões e respostas que reconheçam os determinantes sociais e comerciais de saúde.

A Comissão sustenta que a prática das apostas afeta, para muito além da saúde das próprias pessoas que apostam, seu entorno, como familiares e comunidade, com impactos na economia e vida social. Este é um ponto de partida fundamental: a Comissão afirma que os danos causados pelas apostas abrangem mais do que o definido pelo CID-11 e DSM 5 como “transtornos de apostas”.

Como abordagem para o problema, a Comissão indica combinar ações voltadas às pessoas, mas com intervenções estruturais de peso, sendo enfática: “Fornecer serviços de apoio, tratamentos e proteção para indivíduos em situação de risco é, sem dúvida, importante. Aprimorar ainda mais esses recursos e tornar o apoio protetivo amplamente disponível continua sendo uma prioridade. No entanto, enquadrar o problema dessa maneira e concentrar a atenção política em um pequeno subconjunto de pessoas que jogam desvia o foco das práticas da indústria e do comportamento corporativo”.

Assim, recomenda a disponibilização de serviços de cuidado para pessoas afetadas por problemas relacionados às apostas, e enfatiza que, entre as medidas que podem ser destinadas para apoiar a redução ou mesmo interrupção da prática de apostas de maneira danosa, estão a adoção de estratégias de autoexclusão de plataformas e o desenvolvimento de ferramentas para que as pessoas monitorarem o tempo e dinheiro gastos nesses ambientes digitais.

No âmbito das intervenções estruturais, a Comissão sugere que os governos adotem estratégias semelhantes às utilizadas historicamente para responder às indústrias do tabaco e do álcool, com foco na regulação do mercado e das plataformas. Recomenda, ainda, o desenvolvimento de estratégias amplas para reduzir a exposição e o uso de plataformas de apostas, incluindo restrições à publicidade, controle de patrocínio esportivo e limitação da disponibilidade e do acesso.

O que o Brasil tem feito?

As apostas esportivas e os jogos online foram regulamentados no Brasil pela Lei nº 14.790/2023.

Em 2024, foi publicada a Portaria SPA/MF nº 1.231, “que estabelece orientações e medidas para assegurar que as operações de jogos e apostas promovam a integridade e o bem-estar dos apostadores”. A portaria reconheceu o tema como uma questão que envolve a saúde, e estabelece, entre suas diretrizes, a “prevenção e mitigação de malefícios individuais ou coletivos decorrentes da atividade”, incluindo as “consequências negativas à saúde mental do apostador em virtude de dependência, compulsão, mania ou qualquer transtorno associado ao jogo ou apostas, tais como o jogo patológico ou abusivo”.

Muito mais recentemente, em meio à polêmica em torno da publicidade de apostas durante a Copa do Mundo, foi assinada a Portaria Interministerial MF/SECOM/MJSP nº 73 que coloca regras para a publicidade de apostas conhecidas como bets.

Vale registrar outras duas iniciativas adotadas pelo governo federal. A primeira, foi a elaboração do Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, que orienta o SUS, especialmente a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), no acolhimento, acompanhamento e cuidado das pessoas afetadas por problemas relacionados às apostas. O guia inclui um “autoteste de jogo” para apoiar as pessoas na reflexão sobre sua relação com os jogos de azar.

A segunda iniciativa, que dialoga muito com as recomendações da The Lancet Public Health Commission on Gambling, foi a criação de uma ferramenta de autoexclusão de plataformas de apostas. Embora ainda não seja possível avaliar os resultados e os impactos dessa medida, dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, divulgados em reportagem da BBC News Brasil, revelam um expressivo aumento do número de pessoas que solicitaram sua autoexclusão de plataformas de apostas online durante as semanas da Copa do Mundo. A reportagem informa: “entre 15 e 28 de junho, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, gerida pelo governo federal, recebeu 250.129 pedidos de bloqueio ou de prorrogação de bloqueios feitos por usuários. (…). Isso representa uma média de 17.866 solicitações por dia no período. Para efeito de comparação, de 11 a 25 de maio, antes do início do torneio, haviam sido registrados 38.907 pedidos ao longo de 15 dias, uma média de 2.594 por dia”.

Debates a fazer, práticas a construir

Qual será o futuro das apostas online e o quanto elas irão, de fato, representar uma demanda expressiva para o SUS em razão de necessidades de cuidado em saúde e saúde mental, ainda não é possível saber.

Aliás, esse é o caso geral relacionado aos ambientes digitais. O que se pode afirmar é que a vida em ambientes digitais seguirá existindo e, caso sejam superadas as iniquidades digitais, tenderá a envolver mais e mais pessoas.

Um caminho que, até o momento, parece adequado para responder aos novos problemas que se apresentam é o desenvolvimento de estratégias centradas em intervenções nos próprios ambientes digitais, incluindo a regulamentação de plataformas. O número de pessoas que acessaram rapidamente a plataforma de autoexclusão criada pelo governo federal, no Brasil, é um indicador de que medidas do tipo podem ser de significativo alcance, cabendo investir em sua ampla divulgação.

No mais, cabe cautela. Estabelecer uma associação direta entre a prática prejudicial de apostas e o imaginário social em torno da ideia de “vício” é arriscado, especialmente pelas soluções simplificadoras que – já vimos essa história antes com a fabricada “epidemia de crack”- podem decorrer dessa compreensão e que encontram amplo apoio social. Nos últimos 40 anos, a experiência cotidiana de decodificação das demandas narradas por pessoas e comunidades em necessidades reais de cuidado no SUS e, depois, na RAPS, mostra que problemas complexos exigem respostas igualmente complexas. Um pacto em torno de entendimento do tipo, assinalando a importância de ser pautada a questão das das bets, mas evitando que isso se torne um problema de responsabilidade pessoal e que o tema seja explorado de forma predatória pelos meios de comunicação, pode ser um avanço.

Quanto ao debate sobre a necessidade de ir além e sobre a possibilidade de proibição das bets, essa parecer ser uma discussão que permanecerá em aberto, ainda que tenha apoio social para o seu fim.

[Ilustração: imagem produzida em IA]

Se comentar, identifique-se. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/06/participe.html

Leia também: "A soberania nacional, por exemplo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0138497997.html 

Humor de resistência

 

Miguel Paiva

Editorial do 'Vermelho'

Ataque de Milei ao Brasil aumenta isolamento de Flávio Bolsonaro
Presidente argentino desrespeitou o povo brasileiro e as instituições da República, atuando como linha auxiliar de Trump nas agressões à soberania do país
Editorial do 'Vermelho' 

A presença do presidente da Argentina, Javier Milei, na esvaziada convenção do Partido Liberal (PL) teve efeito contrário ao esperado pela candidatura de extrema direita de Flávio Bolsonaro. Ele atacou as instituições brasileiras e, de forma pessoal e institucional, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. Milei mirou em Lula e no STF, mas acertou, em cheio, a candidatura de seu anfitrião.

Conforme manifestação do Ministério das Relações Exteriores, o episódio é lamentável e inédito, destacando que não há precedentes de um chefe de Estado estrangeiro em território nacional assacar insultos contra as instituições e o povo brasileiro.

O embaixador do Brasil na Argentina, Júlio Bitelli, foi chamado de volta a Brasília para consultas. E o embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, recebeu uma manifestação formal de protesto do governo brasileiro. Houve também manifestações de repúdio de juristas e magistrados. No Congresso Nacional, parlamentares protocolaram um projeto para declarar Milei persona non grata no Brasil.

Segundo o jornal argentino La Nación, “dezenas de diplomatas, ex-funcionários e especialistas em relações internacionais, tanto da ativa quanto aposentados, de ambos os países, não têm dúvidas de que a maior crise diplomática do último meio século entre Argentina e Brasil acaba de ser desencadeada”. O jornal Clarin disse “o conflito rompe uma tradição histórica de dar prioridade ao bom relacionamento”.

A atitude de Milei se insere na atmosfera criada pelo governo dos Estados Unidos com as causas alegadas para o tarifaço de Donald Trump, aberta ingerências em decisões das instituições democráticas do país, e ataques a autoridades, além da recente ameaça ao processo eleitoral brasileiro com a tentativa de Washington de enviar representantes para questionar a integridade das urnas eletrônicas.

Outra ação de Trump contra o Brasil foi a prorrogação, por mais um ano, da chamada “emergência nacional”, declarada contra o Brasil, mantendo em vigor a “ordem executiva”, lei que autoriza o presidente estadunidense a adotar medidas econômicas em situações consideradas de emergência, que não requer aprovação do Congresso. O documento classifica o Brasil como uma ameaça “incomum e extraordinária” à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos.

O presidente da Argentina contou com essa cobertura para disparar sua metralhadora giratória, na verdade um espetáculo de fanfarronice. Ele também aspira ser uma espécie de vice-rei da América do Sul, o principal protagonista da extrema direita na região. Suas diatribes vêm de sua ideologia, mas a cobertura de Trump é determinante.

Milei repetiu a verborragia neofascista do secretário de Estados dos Estados Unidos, Marco Rubio, que liderou a “Reunião Ministerial sobre o Ressurgimento do Terrorismo Político”, organizada pelo governo Trump no dia 16 de julho de 2026, em Washington, reunindo representantes de mais de 60 países para debater e coordenar ações contra o que ele classificou como “terrorismo político de extrema-esquerda”.

O pano de fundo é a chamada nova estratégia de segurança nacional de Trump, centrada no lema America First (os Estados Unidos em primeiro lugar) e na retomada da Doutrina Monroe, no combate rígido à imigração e na pressão sobre a alegada influência da China no Hemisfério Ocidental.

Ou seja: quem não se curvar a Washington é classificado como “comunista”, o inimigo a ser combativo e destruído, manobra para tentar encobrir o receituário neocolonial e reciclar os ditames do neoliberalismo. Obviamente que não é possível impor essa agenda num ambiente regido pela democracia. Daí o projeto de instituir governos autoritários para impor esse receituário com mão de ferro.

Flávio Bolsonaro é o principal responsável por essa pantomima de Milei. O governador paulista Tarcísio de Freitas é corresponsável. O presidente argentino esteve com ele no Palácio dos Bandeirantes para receber a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo estado de São Paulo. Outra manifestação de extrema direita se deu com a mensagem do genocida Benjamin Netanyahu, que enviou um vídeo apoiando a candidatura de Flávio Bolsonaro.

As dificuldades do candidato da extrema-direita para ganhar votos da direita não bolsonarista, e mesmo de setores intermediários entre a sua candidatura e a de Lula, aumentaram. A ampla repercussão negativa da performance do bufão Milei se soma ao seu isolamento político, decorrência de sua lista de escândalos de corrupção e envolvimento com o crime organizado, além do vergonhoso conluio com o governo Trump para sabotar a economia e a democracia do Brasil.

A atitude de Milei é mais uma evidência de que reeleger o presidente Lula é decisivo para a defesa para a defesa da pátria e do futuro do povo brasileiro. De grande relevância também à causa da democracia e da soberania nacional dos países da América Latina e Caribe.

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Leia também: "A soberania nacional, por exemplo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0138497997.html

Sylvio: pusilânime

Chanceler argentino diz que Milei apoia Bolsonaro, mas não  quer romper com o Brasil. Fica difícil de entender depois dos insultos e agressões proferidos por ele no Brasil, num comportamento que fica entre a molecagem e a psicopatia. Assuma sua irresponsabilidade e covardia, Javier!

Sylvio Belém 

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