19 fevereiro 2026

Lula na Índia: posição avançada

Lula defende governança global da IA e alerta para dominação das big techs
Em encontro de cúpula em Délhi, presidente propõe regulação multilateral para evitar que algoritmos aprofundem a desigualdade mundial
Davi Molinari/Vermelho      

Na vanguarda do debate sobre a soberania digital, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a tribuna da quarta cúpula sobre o tema, em Délhi (Índia), nesta quinta-feira (19), para lançar um chamado urgente à governança global da Inteligência Artificial (IA). No discurso, o líder brasileiro reverenciou o país anfitrião ao lembrar que “em Délhi o mundo digital retorna à sua terra natal”, uma vez que foram os matemáticos indianos que desenvolveram, há dois milênios, o sistema binário.

Para Lula, a tecnologia posiciona-se como o grande dilema ético e político da Quarta Revolução Industrial. O presidente entende que o avanço tecnológico ocorre em um momento crítico de recuo do multilateralismo, o que exige uma postura firme das nações do Sul Global para que a inovação não se transforme em uma nova ferramenta de opressão.

Em sua análise, o presidente enfatizou o caráter duplo de toda grande inovação. “Toda inovação tecnológica de grande impacto possui caráter dual e nos confronta com questões éticas e políticas”, afirmou, citando como exemplos os avanços na aviação, energia atômica, engenharia genética e corrida espacial: “tecnologias que podem multiplicar o bem-estar ou ameaçar a humanidade”.

Por um lado, Lula elogiou os benefícios da IA, como ganhos em produtividade, serviços públicos, medicina, segurança alimentar e energética; por outro, criticou potenciais abusos provenientes do mau uso da tecnologia, como armas autônomas, discurso de ódio, desinformação, pornografia infantil, feminicídio, violência contra mulheres e precarização do trabalho. “Conteúdos falsos manipulados por IA distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia”, alertou. Para Lula, algoritmos não são neutros: “São parte de uma complexa estrutura de poder.” 

“Não estamos falando de inovação, mas de dominação”

O diagnóstico apresentado aponta para uma exclusão digital que remete às velhas formas de colonialismo. “Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação”, denunciou o presidente, ao criticar o modelo de negócios baseado na exploração de dados pessoais sem retorno de valor local. Diante desse cenário, Lula defendeu a regulação das big techs para salvaguardar direitos humanos, sustentando que “colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente”.

Embora tenha citado a importância do Brics e do diálogo com o G7, o presidente sustentou que nada substitui a universalidade da ONU e defendeu uma governança que “reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a IA fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países”.

Ao integrar a pauta da IA com a busca por autonomia em cadeias de suprimentos e energia limpa, o governo brasileiro demonstra que a soberania digital é indissociável do desenvolvimento econômico. Esta é a primeira participação de um presidente brasileiro em uma cúpula dedicada exclusivamente ao tema. Desde 2023, líderes globais passaram a se reunir em encontros específicos sobre segurança e governança da IA, inaugurados pela AI Safety Summit, no Reino Unido, seguidos pela AI Seoul Summit, em 2024, e pela AI Action Summit, em Paris, em 2025, que pavimentaram o caminho para a atual cúpula em Nova Délhi, a primeira sediada no Sul Global.

Lula e Modi trabalham convergência política bilateral

A agenda de Lula em solo indiano, que se estende até o dia 21 de fevereiro, consiste em uma visita de Estado a convite do primeiro-ministro Narendra Modi. O encontro entre os dois líderes busca consolidar um bilateralismo em ascensão, com a meta ousada de elevar o intercâmbio comercial dos atuais US$ 12,1 bilhões para US$ 20 bilhões até 2030.

As conversas bilaterais focam na cooperação em minerais críticos para a transição energética e no aprofundamento de parcerias em defesa e transformação digital. Lula e Modi trabalham para que a convergência política se traduza em acordos concretos, incluindo investimentos conjuntos em centros de dados e tecnologias de descarbonização.

Leia também: A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/uma-nova-dimensao-da-geopolitica.html

Brasil na Era Digital

Brasil: há espaço para a Soberania Digital
Atraso do país nas tecnologias do século XXI pode ser encarado. Caíram os argumentos contra a tributação das big techs. É possível obter os necessários – e livrá-los do “ajuste fiscal”. Há luta política adiante – mas, agora, um horizonte viável
James Gorgen/Outras Palavras    

Em 5 de janeiro, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) anunciou a alteração em um acordo que pode representar a maior oportunidade tributária do Brasil na era digital. Após negociações com a administração Trump, 147 países aprovaram a exclusão de multinacionais americanas do imposto mínimo global de 15% estabelecido pelo Pilar 2 do Base Erosion and Profit Shifting Project (BEPS) em um acordo de 2021. Comentando o feito, o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, foi direto ao ponto: o acordo reconhece “a soberania tributária dos Estados Unidos sobre as operações mundiais de empresas americanas e a soberania tributária de outros países sobre a atividade comercial dentro de suas próprias fronteiras”1.

Esta declaração contém uma ironia estratégica que o Brasil não pode ignorar: ao reivindicar soberania tributária absoluta para não tributar suas empresas globalmente, permitindo que Google, Meta, Amazon e outros conglomerados continuem usando estruturas de elisão fiscal e paraísos fiscais, o governo Trump reconhece implicitamente a soberania tributária de outros países sobre atividades comerciais em seus territórios. Se as Big Techs americanas não estarão mais sujeitas ao imposto mínimo global que visava evitar transferência artificial de lucros, o argumento jurídico e moral para que o Brasil as tribute localmente nunca foi tão forte. 

Fim do multilateralismo tributário

Desde a década passada, nosso país foi aconselhado a aguardar a consolidação do sistema multilateral da OCDE antes de implementar tributação de serviços digitais. O argumento era que ações unilaterais criariam fragmentação e retaliação comercial. Mesmo assim, em 2024 aprovou o imposto mínimo por meio da lei 15.079, de 27 de dezembro. A decisão pró-EUA de 5 de janeiro, que se seguiu a uma decisão do G7 tomada em junho de 2025, implodiu essa narrativa. Se a maior economia do mundo rompe unilateralmente com o compromisso multilateral a fim de proteger suas Big Techs, mantendo o argumento de que outros países devem respeitar sua “soberania tributária”, então cada país não apenas pode, mas deve exercer sua própria soberania tributária sobre atividades comerciais em seu território. O multilateralismo tr ibutário acabou não por escolha dos países em desenvolvimento, mas por decisão de Washington. Ressalte-se que a China está tentando emplacar a mesma exceção para as suas empresas2. Para países como o Brasil, isso significa que chegou o momento de finalmente implementar um sistema de tributação das plataformas digitais que capturam valor massivo de nossas economias sem contribuir proporcionalmente para os ecossistemas que as sustentam.

Assimetria legitimada

O problema não é novo, mas ganhou nova dimensão. Em 2024, conglomerados como Google, Meta, Amazon, Netflix, Apple, TikTok e Microsoft faturaram conjuntamente mais de R$ 140 bilhões no Brasil, enquanto plataformas de streaming sozinhas acumularam R$ 69 bilhões. Entretanto, estes grupos não contribuem para fomentar o ecossistema digital brasileiro. A distorção competitiva é evidente. Empresas de base tecnológica que investem no Brasil fazem aportes aos fundos setoriais vigentes. Empresas transnacionais que se beneficiam de nosso ecossistema e mercado, não.

Vários países já agiram. Na Europa, essa distorção já motivou a criação de Digital Services Taxes (DST) antes mesmo da reviravolta americana. França (3%), Reino Unido (2%), Áustria (5%), Itália (3%) e Espanha (3%) adotaram modelos próprios. A Comissão Europeia projeta que taxas dessa natureza podem gerar aproximadamente EUR 5 bilhões anuais na bloco. A Índia criou uma “equalização levy” de 2% sobre publicidade digital e comércio eletrônico entre empresas nacionais e estrangeiras, gerando aproximadamente USD 600 milhões anuais. A Austrália negociou o News Media Bargaining Code, gerando estimados AUD 200 milhões anuais para empresas jornalísticas.

No Brasil, projetos que tentam tributar as big techs foram arquivados ou aguardam tramitação há mais de um ano, sempre sob o argumento de que seria prudente aguardar a consolidação do sistema multilateral da OCDE. Esse argumento acaba de perder completamente sua validade.

Lógica americana a nosso favor 

A própria declaração de Bessent fornece a base jurídica perfeita para a ação brasileira. Se os Estados Unidos reivindicam soberania para não tributar suas empresas globalmente, o Brasil pode e deve reivindicar soberania para tributar a atividade comercial dessas mesmas empresas dentro de suas fronteiras. Publicidade digital vendida para consumidores brasileiros, streaming de conteúdo para usuários brasileiros, comércio eletrônico em plataformas que conectam vendedores e compradores brasileiros são atividades econômicas que ocorrem em território brasileiro e estão legitimamente sujeitas à tributação soberana, não se tratando de tributação extraterritorial, mas de tributação territorial legítima sobre valor gerado localmente. A Ordem Executiva de Trump instruiu o Secretário do Tesouro a investigar se paíse s estrangeiros têm regras tributárias extraterritoriais ou que afetem desproporcionalmente empresas americanas, desenvolvendo opções para retaliações. Se os Estados Unidos ameaçarem retaliação, o Brasil pode responder que está apenas seguindo o mesmo princípio que eles próprios estabeleceram: soberania tributária sobre atividades em território próprio.

O que o Brasil deve fazer agora

A janela de oportunidade criada pela decisão americana exige ação rápida e coordenada. Primeiro, o Brasil deve retomar imediatamente a tramitação de projetos de lei que instituam contribuições sobre serviços digitais, enquadrando-as explicitamente como exercício de soberania tributária territorial, nos mesmos termos usados pelos Estados Unidos. A fundamentação jurídica nunca foi tão sólida.

Segundo, o Brasil deve propor coordenação regional imediata. Uma ação simultânea com países da América Latina criaria massa crítica que dificultaria retaliação bilateral americana. Um bloco latino-americano defendendo o mesmo princípio de soberania tributária tem muito mais poder de barganha que países isolados. A narrativa deve ser clara: não se trata de confronto com os Estados Unidos, mas de aplicação do mesmo princípio que eles defendem.

Terceiro, estabelecer mecanismos de transparência e devido processo que demonstrem que a tributação é técnica e justificada, não arbitrária. Exigir que plataformas com receita significativa no Brasil constituam representação fiscal, publiquem relatórios discriminados por país e se submetam a auditorias independentes, seguindo padrões internacionais de transparência fiscal, não tem nada de diferente do que já ocorre em outros setores. Complementarmente, criar sistema de incentivos positivos para empresas que contribuírem além do mínimo legal ou que realizarem investimentos significativos no ecossistema digital brasileiro, demonstrando que o objetivo não é punição, mas construção conjunta.

O imperativo da soberania digital

A economia digital cresce entre 10% e 12% ao ano globalmente3, superando em muito o crescimento do PIB. No Brasil, a economia digital já representa entre 11% e 13% de todas as riquezas e emprega diretamente entre 4,5 e 7 milhões de pessoas, mas poderia contribuir muito mais com políticas adequadas de financiamento e fomento. Entre 2001 e 2024, o Brasil arrecadou R$ 260,9 bilhões em fundos setoriais de telecomunicações e tecnologia, mas desperdiçou sistematicamente esses recursos em fragmentação burocrática, contingenciamentos e desvios de finalidade (acompanhe a Parte 2 aqui). Enquanto isso, as Big Techs capturam valor massivo da economia brasileira sem contribuir para seu desenvolvimento econômico.

A decisão de 5 de janeiro não é uma derrota para a tributação justa da economia digital, mas uma libertação. Ao romper com o multilateralismo tributário para proteger suas Big Techs, os Estados Unidos inadvertidamente legitimaram a ação unilateral de cada país em defesa de seus interesses fiscais, reconhecendo implicitamente a soberania de outros países sobre atividades em seus territórios. O Brasil tem todos os elementos jurídicos, econômicos e morais para agir, e a recém-aprovada Reforma Tributária brasileira já prevê a responsabilidade de plataformas estrangeiras no recolhimento do IBS e CBS, demonstrando que o país está construindo capacidade institucional para monitorar essas empresas do ponto-de-vista fiscal.

Os Estados Unidos acabaram de declarar que cada país deve exercer sua soberania tributária. Precisamos tomar essa declaração ao pé da letra. A janela está aberta. O mundo pós-multilateralismo tributário será construído por países que souberem defender seus interesses soberanamente, não por aqueles que continuarem aguardando consensos internacionais que nunca virão. O Brasil pode e deve ser um deles.

1 https://home.treasury.gov/news/press-releases/sb0350

2 https://www.ft.com/content/7d8ef500-a650-4e3f-8130-29e2509de461

3 https://www.verifiedmarketreports.com/pt/product/digital-trade-market/

Leia também: A disputa mar e terra pela geopolítica dos dados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/uma-nova-dimensao-da-geopolitica.html 

Humor de resistência

 

May Solimar

Leia também: Trump fascistóide https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/trump-fascistoide.html 

Soberania & socialismo

Questão nacional e transição socialista no século XXI: soberania e desenvolvimento
A partir de Domenico Losurdo, artigo analisa o imperialismo contemporâneo e o papel do Estado e do desenvolvimento nos caminhos da emancipação socialista.
Diego Pautasso/Portal Grabois https://grabois.org.br/    

Questão nacional e transição ao socialismo no século XXI:  soberania, desenvolvimento e projeto nacional

Não obstante o aprofundamento das contradições globais do capitalismo financeiro e das novas facetas do imperialismo, torna-se imperativo resgatar e dar centralidade ao debate da questão nacional. Seu caráter complexo, controverso e persistente na tradição marxista e no movimento comunista internacional decorre do entrelaçamento estrutural com o internacionalismo proletário, bem como da polissemia associada a categorias como nação, nacionalismo, soberania e autodeterminação. Ademais, a questão nacional está colocada no centro da transição ao socialismo, sem a qual os demais processos emancipatórios perdem substância territorial e política.

Para tanto, esse texto toma, como ponto de partida, três capítulos de livros assentados na contribuição do italiano Domenico Losurdo. São eles, Marxismo e a questão nacional: Losurdo e a dialética nacional-internacional (Pautasso, Fernandes, Doria, 2020); O imperialismo como sistema complexo de dominação: uma abordagem a partir de Domenico Losurdo (Pautasso, 2021); e O socialismo real na obra de Losurdo: da autofobia à autocrítica (Pautasso, Nogara, 2023). Por fim, mas não menos importante, também retomamos reflexões do artigo Na China, um possível socialismo de abundância (Pautasso, Maia, 2025).

A questão nacional na tradição marxista

Nas formulações clássicas de Marx e Engels, a questão nacional não aparece como objeto sistemático autônomo, mas emerge de forma recorrente associada às lutas concretas contra o absolutismo, o colonialismo e a dominação imperial. Embora o Manifesto do Partido Comunista afirme que “os operários não têm pátria”, o próprio Marx reconheceu posteriormente que a emancipação do proletariado exigia considerar as particularidades nacionais e coloniais, como no caso da Irlanda sob dominação britânica, cuja libertação era condição para o avanço político das lutas de classes na Inglaterra (Marx; Engels, 2010).

O debate torna-se mais explícito no interior da II Internacional, quando a expansão imperialista europeia e o recrudescimento das lutas de libertação nacional colocam a questão nacional no centro das controvérsias marxistas. Como analisado em Marxismo e a questão nacional: Losurdo e a dialética nacional-internacional (Pautasso; Fernandes; Doria, 2020), correntes associadas a Bernstein e, em certos momentos, a Kautsky tenderam a relativizar o caráter violento do imperialismo e a subestimar a centralidade da questão nacional, enquanto Rosa Luxemburgo expressou uma crítica radical ao direito à autodeterminação, temendo que o nacionalismo operasse como instrumento exclusivo das burguesias nacionais e como desvio das lutas de classes.

Como demonstra Domenico Losurdo, essas posições partilhavam um limite comum quanto à dificuldade de apreender a questão nacional como mediação histórica concreta da luta de classes em escala mundial, sobretudo em um sistema internacional hierarquizado (Losurdo, 2015a). É precisamente esse impasse que será superado pela inflexão leninista ao situar a questão nacional no interior da teoria do imperialismo. Assim, Lênin demonstra que a negação da soberania constitui um dos principais mecanismos de reprodução da dominação capitalista global, transformando a autodeterminação em instrumento estratégico da luta anti-imperialista (Lênin, 1979; 2012).

Nessa chave, como sintetiza Losurdo (2015a), o patriotismo das nações oprimidas pode constituir uma forma concreta de internacionalismo, rompendo com o cosmopolitismo abstrato que frequentemente legitima a dominação imperial e recolocando a questão nacional como elemento constitutivo da estratégia socialista.

Imperialismo contemporâneo e soberania nacional

É a partir da tradição marxista da questão nacional que se compreende sua reconfiguração no capitalismo contemporâneo, marcado pela consolidação do imperialismo como sistema histórico de dominação. Diferentemente das leituras que anunciam um mundo pós-imperial, desterritorializado ou governado por forças supostamente supranacionais, Domenico Losurdo demonstra que o imperialismo não apenas persiste, como se reestrutura historicamente, assumindo formas mais sofisticadas e abrangentes (Losurdo, 2016). Trata-se de um sistema que reorganiza continuamente seus mecanismos de dominação, articulando expropriação econômica, coerção político-militar, excepcionalismo jurídico, controle tecnológico e poder simbólico-discursivo, compondo um sistema complexo de dominação (Pautasso, 2021). Ou seja, a repro dução das hierarquias, desigualdades e coerções assume formas variadas, desde as guerras híbridas, passando por sanções econômicas, golpes por meio do lawfare, ou mesmo intervenções diretas suportadas por uma infraestrutura de projeção de poder (bases militares) sem igual.

Nesse contexto, a soberania nacional torna-se alvo privilegiado das estratégias imperiais, sobretudo nos países periféricos, onde a subordinação econômica, tecnológica e política constitui condição funcional à reprodução da hierarquia internacional. O universalismo liberal mobilizado pelas potências centrais opera, assim, como ideologia de dominação, legitimando intervenções em nome da democracia, dos direitos humanos ou do livre mercado. Como demonstra Losurdo (2006b; 2016), esse universalismo converte-se facilmente em etnocentrismo e excepcionalismo, naturalizando hierarquias internacionais, racializações do inimigo e práticas sistemáticas de violação da soberania.

É nesse ponto que se evidenciam os limites das abordagens fragmentárias e identitárias que passaram a ocupar espaço relevante no campo das esquerdas contemporâneas. Ao dissociarem as lutas por reconhecimento, direitos e diferenças da questão nacional e da estrutura imperialista do sistema internacional, tais abordagens tendem a despolitizar a dominação global, convertendo desigualdades historicamente produzidas em problemas morais, culturais ou discursivos. Ao perderem de vista a soberania e o Estado como mediações centrais, acabam por subestimar o papel do imperialismo na produção e reprodução das opressões que pretendem combater.

Como sugere a crítica losurdiana ao cosmopolitismo liberal e ao chamado marxismo ocidental, a fragmentação das lutas emancipatórias em múltiplas agendas desconectadas facilita sua captura por narrativas universalistas abstratas, frequentemente mobilizadas pelas próprias potências imperiais. Nesses marcos, a defesa seletiva de direitos humanos ou identidades pode ser instrumentalizada como pretexto para sanções, intervenções e guerras híbridas, esvaziando seu potencial emancipatório e recolocando-as a serviço da hierarquia internacional.

Dessa forma, a crítica marxista da questão nacional não pode prescindir da crítica do imperialismo enquanto estrutura histórica concreta de poder, nem se reduzir a uma soma de lutas parciais desvinculadas da totalidade social. Ao contrário, é precisamente a compreensão do imperialismo como sistema complexo de dominação que confere novo conteúdo histórico à soberania nacional, recolocando-a como mediação indispensável da luta de classes, da articulação das lutas emancipatórias e da transição socialista no século XXI.

Socialismo real, autocrítica e autofobia

O colapso do campo socialista ao final do século XX desencadeou uma profunda crise teórica e política no marxismo. Parte significativa da esquerda passou a abordar as experiências do socialismo real a partir de tipos ideais normativos, convertendo contradições históricas concretas em provas da suposta “falência” do projeto socialista. Domenico Losurdo identifica esse movimento como autofobia, isto é, a rejeição acrítica das próprias experiências históricas do socialismo, frequentemente acompanhada da incorporação, consciente ou inconsciente, das narrativas liberais e anticomunistas produzidas no contexto da Guerra Fria (Losurdo, 2015b; 2016).

Como desenvolvido em O socialismo real na obra de Losurdo: da autofobia à autocrítica (Pautasso; Nogara, 2023), essa postura autofóbica não pode ser compreendida isoladamente, pois se entrelaça estruturalmente ao que Losurdo denominou marxismo ocidental e esquerda ausente. Trata-se de correntes que, ao romperem com as experiências históricas do socialismo realmente existente, refugiaram-se em um radicalismo teórico dissociado da práxis política concreta, assumindo posições simultaneamente maximalistas no plano normativo e estéreis no plano histórico. Ao fazê-lo, essas correntes acabaram por abdicar da análise das correlações de forças, do imperativo do desenvolvimento e da centralidade da questão nacional, substituindo-os por leituras moralizantes, identitárias ou puramente discursivas da luta de classes.

Losurdo demonstra que o marxismo ocidental, ao absolutizar a crítica ao Estado, ao poder e às instituições, converteu o internacionalismo em um cosmopolitismo abstrato e desarmado, incapaz de reconhecer o papel histórico desempenhado pelas revoluções socialistas, pelas lutas de libertação nacional e pelos Estados socialistas na contenção do imperialismo e na ampliação dos direitos sociais em escala global (Losurdo, 2018). Essa recusa em reconhecer a historicidade e a materialidade das experiências do socialismo real conduziu, paradoxalmente, a uma convergência com as narrativas liberais que celebraram o colapso do campo socialista como “fim da história”.

Contra essa tendência, Losurdo propõe uma autocrítica histórica e comparada, distinta tanto da hagiografia quanto da demonização. Trata-se de reconhecer as contradições efetivas das experiências socialistas do século XX sem dissolver seus legados estruturais, como a industrialização acelerada de sociedades atrasadas, a ampliação dos direitos sociais, a derrota do nazifascismo, a promoção dos processos de descolonização e a contenção histórica do imperialismo. Como enfatizam Pautasso e Nogara (2023), a autocrítica losurdiana rejeita tanto o messianismo quanto a autofobia capitulacionista, recolocando o socialismo como processo histórico contraditório, situado e aberto.

As experiências socialistas do século XX se desenvolveram sob intenso cerco imperial, em sociedades marcadas pelo subdesenvolvimento e por heranças coloniais profundas. Nessas condições, o fortalecimento do Estado, a centralidade da questão nacional e o desenvolvimento das forças produtivas não constituíram desvios autoritários, mas mediações históricas necessárias da transição socialista. Compreender essas experiências como processos históricos concretos, e não como traições a modelos ideais, é condição indispensável para repensar a transição ao socialismo no século XXI e para superar os impasses teóricos produzidos pelo marxismo ocidental e pela esquerda ausente.

China, soberania e transição socialista no século XXI

À luz dessa abordagem, a experiência chinesa contemporânea pode ser interpretada como uma atualização histórica da problemática da transição socialista. Como argumentado em Na China, um possível socialismo de abundância (Pautasso; Maia, 2023), a trajetória chinesa evidencia que a construção socialista passa pela construção de capacidades estatais, produtivas e tecnológicas em escala nacional.

Diferentemente das experiências socialistas do século XX, limitadas por severas restrições tecnológicas, a China opera em um patamar elevado de desenvolvimento das forças produtivas. A incorporação de big data, inteligência artificial e plataformas digitais ao planejamento estatal redefine qualitativamente a capacidade de coordenação econômica e de provisão de bens públicos.

+ A China e sua crescente liderança tecnológica

Esse processo está intrinsecamente vinculado à soberania nacional. O controle das infraestruturas estratégicas, a regulação das plataformas digitais e a limitação da captura privada da esfera pública não são opções técnicas neutras, mas elementos constitutivos de um projeto nacional que articula desenvolvimento, segurança e orientação socialista.

Brasil, projeto nacional e transição socialista

As reflexões anteriores conduzem diretamente ao caso brasileiro. A formação histórica do Brasil é marcada pela dependência estrutural, pela industrialização tardia e por uma inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. A ausência de um projeto nacional consistente constitui um dos principais obstáculos à redução das desigualdades e à construção de alternativas pós-capitalistas.

À luz da leitura losurdiana da questão nacional, a transição ao socialismo no Brasil é um processo histórico que exige a reconstrução de um projeto nacional de desenvolvimento. Para países periféricos, a luta nacional tende a se confundir com a luta contra a dependência, o subdesenvolvimento e a desigualdade estrutural. Nesse sentido, a centralidade do desenvolvimento implica a afirmação da soberania para definir os rumos do desenvolvimento econômico, social e tecnológico. A questão nacional reaparece, assim, como mediação indispensável da transição socialista no século XXI.

Considerações finais

A transição ao socialismo no século XXI recoloca a questão nacional no centro da estratégia emancipatória. Em um sistema internacional profundamente hierarquizado, soberania, Estado e desenvolvimento constituem mediações indispensáveis da luta de classes. A contribuição teórica de Domenico Losurdo permite compreender esse processo para além de esquemas abstratos. A experiência chinesa demonstra que a construção de um projeto nacional soberano permanece condição necessária para qualquer horizonte pós-capitalista. Para o Brasil, o desafio consiste em reconstruir um projeto nacional de desenvolvimento que articule soberania, democracia e justiça social, recolocando a questão nacional como elo fundamental da transição socialista no século XXI.

Referências bibliográficas

LÊNIN, Vladimir I. O direito das nações à autodeterminação. São Paulo: Centauro, 1979. LÊNIN, Vladimir I. Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2012.

LOSURDO, Domenico. Marxismo e a questão nacional: presença e permanência. São Paulo: Boitempo, 2015a.

LOSURDO, Domenico. A luta de classes: uma história política e filosófica. São Paulo: Boitempo, 2015b.

LOSURDO, Domenico. Um mundo sem guerras. Rio de Janeiro: Revan, 2016. LOSURDO, Domenico. O marxismo ocidental. São Paulo: Boitempo, 2018.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.

PAUTASSO, Diego; FERNANDES, Marcelo; DORIA, Gaio. Marxismo e a questão nacional: Losurdo e a dialética nacional-internacional. MORAES (Org.). Losurdo, presença e permanência. São Paulo: Anita Garibaldi, 2020.

PAUTASSO, Diego. O imperialismo como sistema complexo de dominação: uma abordagem a partir de Domenico Losurdo. PAUTASSO, PRESTES, Teoria das Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Contraponto, 2021.

PAUTASSO, Diego; NOGARA, Tiago. O socialismo real na obra de Losurdo: da autofobia à autocrítica. PAUTASSO; MORAES, SILVA (Org.). Domenico Losurdo, crítico do nosso tempo. São Paulo: Ideias & Letras, 2023.

PAUTASSO, Diego; MAIA, Isis Paris. Na China, um possível socialismo de abundância. Outras Palavras, 22/12/2025.

Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política e graduado em Geografia pela UFRGS. É professor do Colégio Militar de Porto Alegre, co-criador do projeto de difusão científica @fiosdechina (Instagram) e diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach). Autor dos livros Imperialismo  ainda faz sentido na Era da Globalização?; A China Atual No Legado De Mao Tsé-tung; e China e Rússia no Pós-Guerra Fria, bem como co-autor de A China e a Nova Rota da Seda; Teoria das Relações Internacionais: contribuições marxistas; e de Domenico Losurdo: crítico do nosso tempo. E-mail: dgpautasso@gmail.com

O lugar do PCdoB na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/partido-renovado-e-influente.html 

Postei nas redes

O tempo é furta cor. Vejo agora imagens deste carnaval e as comparo com outras de anos passados. O frevo e o samba são os mesmos, as cores e os modos das pessoas são outros. 

Leia: Carnaval: rebeldia e prazer https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/meu-artigo-para-o-portal-grabois-4.html 

O frevo nosso de todos os dias

É frevo o ano inteiro
Alexandre Ramos   
 
O frevo não acaba quando finda o carnaval.
Não obedeçamos calendário, nem aceitemos ser guardado nas gavetas de frevereiro.
 
Ele vem do frever antigo, quente,
que nasceu do ferver das ruas,
do povo misturado, apertado, vibrando.
Ferve o corpo,
acende o passo,
transforma chão comum em território de alegria.
 
Quando confetes viram poeira
e orquestras silenciam,
O frevo continua.
No assobio distraído de caminhantes,
na radiola pela janela.
 
Frevo não é só festa:
é patrimônio em movimento,
é o cotidiano colorido,
é o coração do Recife no ritmo da baqueta.
 
Por isso, escutaremos frevo em março, em junho, em novembro.
Escutaremos quando a vida estiver morna
porque ele nasceu para isso:
para lembrar que alegria boa é a que ferve.
 
O carnaval passa.
Mas o frevo, feito água em ebulição,
segue vivo o ano inteiro,
quente, inquieto, impossível de esfriar.

Foto: Eduardo Araújo
 
Leia também: Astronauta Gagárin, o primeiro a pousar no carnaval do Recife  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/uma-cronica-de-urariano-mota_14.html

Sylvio: falsos evangélicos

Os "evangélicos" que tanto apoiam Bolsonaro deveriam perceber que o único momento em que Jesus se mostrou violento foi quando expulsou, na chibata, os vendilhões do templo que usavam da religião para iludir os incautos. Qualquer semelhança com o que vemos atualmente não é mera coincidência.

Sylvio Belém  

A nova estratégia da direita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/reforco-entreguista.html