Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
10 maio 2026
Postei nas redes
Valores recordes apreendidos pela Polícia Federal em criptomoedas refletem a expansão das operações do crime organizado. Barra pesadíssima!
Leia: O critério de validade cognitiva é o lucro
empresarial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/02/big-tech-lucro.html
Ação contra dosimetria
PCdoB, PT e PV acionam STF contra lei da redução de pena aos golpistas
Os partidos ingressaram com uma ação direta de inconstitucionalidade contra a chamada Lei da Dosimetria, promulgada pelo presidente do Congresso
Iram Alfaia/Vermelho
O PCdoB, PT e PV protocolaram no Supremo Tribunal Fedderal (STF) uma ação direta de inconstitucionalidade (Adin) contra a chamada Lei da Dosimetria, promulgada nesta sexta-feira (8) pelo presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil).
A nova legislação reduz penas dos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e militares.
O ministro Alexandre de Moraes será o relator da Adin, uma vez que foi sorteado para relatar as ações com a mesma finalidade da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da federação PSOL-Rede.
O PCdoB e partidos aliados requerem a concessão de medida cautelar para suspensão imediata dos efeitos da lei impugnada e no mérito que a norma seja declarada integralmente inconstitucional.
Nela, os partidos pedem que Alcolumbre, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, prestem informações sobre o pedido.
A líder do PCdoB na Câmara, deputada Jandira Feghali (RJ), disse que a ação visa anular a sessão do Congresso que derrubou o veto do presidente Lula sobre o PL da Dosimetria, considerado a antessala da anistia.
“Naquela sessão, não só manobras inconstitucionais foram feitas, mas também violaram cláusulas pétreas da Constituição. Os que votaram a favor da derrubada do veto e que votaram antes da lei são protetores de bandidos de vários crimes, inclusive contra a democracia brasileira”, diz a líder.
Na ação, os autores argumentam que na aprovação do projeto pelo Senado o conteúdo do mesmo, aprovado pela Câmara, foi alterado “radicalmente” nos incisos I e II do artigo 112 da Lei de Execução Penal, mas a matéria não retornou para os deputados, o que implica em violação do devido processo legal, conforme determina a Constituição.
Os partidos também alegam que o presidente Lula vetou o projeto inteiro. Contudo, o presidente do Senado decidiu que apenas uma parte seria tratada como vetada, transformando um “não total” em um “não parcial”. Neste caso, o Congresso não tem poder para alterar a natureza de um veto presidencial; ou aceita o veto, ou derruba.
A Adin também questiona sobre o impacto prático da nova lei nas penas. Por exemplo, ela retira os crimes contra o Estado Democrático de Direito da lista de regras mais rigorosas para progressão de regime, o que vale até para crimes cometidos com violência ou grave ameaça.
Além disso, a nova lei cria um mecanismo que impede o juiz de somar penas quando alguém comete vários crimes diferentes contra as instituições, o que reduziria drasticamente o tempo total de prisão.
Criou-se ainda um benefício inédito: se o crime for cometido em meio a uma multidão, a pena é reduzida automaticamente.
Os partidos dizem que isso inverte a lógica, pois crimes cometidos em grupo costumam ser vistos como os mais graves. O texto obriga o juiz a aplicar essas reduções de forma automática, tirando do magistrado a chance de avaliar a gravidade real de cada caso individualmente.
Por fim, os partidos alegam que a lei é um retrocesso social, pois falha em proteger a democracia ao criar punições que não são proporcionais à gravidade dos ataques sofridos pelas instituições.
Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html
Unidade e luta são decisivas para o presente e o futuro dos trabalhadores https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/editorial-do-vermelho.html
Dica de leitura
A dimensão do genocídio em Gaza
Luciano
Siqueira instagram.com/lucianosiqueira65
Em artigo
publicado sob o título Gaza e o colapso do Ocidente, https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/nancy-fraser-gaza-e-o-colapso-do-ocidente/ Nancy
Fraser considera a crise atual em Gaza como sinal de falência moral e política
do projeto hegemônico ocidental.
Segundo ela, o
apoio incondicional das potências liberais a Israel desmoraliza a retórica dos
"direitos humanos" e da "ordem baseada em regras",
revelando um duplo padrão que esvazia a autoridade ética do Norte
Global. O que se verifica nesse caso não é apenas um conflito regional,
mas sinal evidente do que chama "colapso do Ocidente" no que se
refere a princípios civilizatórios.
Em outras
palavras, uma dos sinais evidentes da uma crise estrutural do capitalismo
global.
É o fim de uma era de ilusões sobre uma governança global minimamente
civilizada. Referências e argumentos assentados em fatos. Opinião útil ao
debate acerca da luta pela superação da ordem internacional vigente.
Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.
Postei nas redes
Trump publica foto feita com IA de navios afundados após novas ameaças do Irã. É o mais baixo nível de um presidente norte-americano em todos os tempos.
Releio e anoto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/teoria-pratica.html
"Rei do Baixo Clero"
O cara que é a ‘cara’ do Centrão
Desmascarado, Ciro Nogueira precisa provar que atos
suspeitos são apenas pragmatismo político
Luis Costa Pinto/Liberta
“Tic-tac-tic-tac”, costumava escrever em seus perfis nas redes sociais Ciro Nogueira, então ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, em 2022, quando queria antecipar alguma operação policial que deixaria alguém da esquerda desconfortável ou antes da divulgação de números de pesquisas pré-eleitorais que mostrariam o chefe dele se aproximando do adversário Luiz Inácio Lula da Silva. Era um provocador, irônico e despreocupadamente cínico.
Foi dessa forma – provocador, irônico e cínico – que o senador em fim de
mandato pelo Piauí construiu a reputação de político hábil e o conceito de
articulador amplo. A reputação não correspondia aos atos e nem aos fatos. Nunca
foi hábil. Sempre foi um pragmático. O dínamo que move tanto pragmatismo está
assentado nos mecanismos financeiros que conectam a ação política com a
construção de teias empresariais. Ciro Nogueira assumiu o primeiro mandato em
Brasília, aos 26 anos de idade, e sua família não era conhecida no Piauí pelo
patrimônio que detinha, mas, sim, pela fama de adesismo aos restos da ditadura
militar ainda operantes num dos estados brasileiros mais espoliados pelo
coronelismo político.
Já o conceito de articulador amplo é verdadeiro e foi erguido à sombra
da ascensão e do empoderamento do Centrão – essa geleia partidária, que faz
Brasília tremer em razão de sua malemolência ideológica e total descompromisso
com o resgate do país das diferenças sociais abissais que dividem os
brasileiros.
Ciro Nogueira Lima Filho, 57 anos, há 31 despachando no Congresso
Nacional, homem a quem Jair Bolsonaro entregou as chaves do Palácio do
Planalto, em setembro de 2021 (junto com as senhas dos cofres do erário),
converteu-se na cara do Centrão. Mas, na semana passada, o “tic-tac-tic-tac”
onomatopeico do relógio imaginário que funcionaria na cabeça dos adversários
dele se converteu num “toc-toc-toc” da Polícia Federal na
porta da casa desse cara, no Lago Sul, desmascarando-o de vez.
De pronto, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que o tinha em alta conta para ser
vice-presidente em sua pretensa chapa eleitoral deste ano, começou a
descartá-lo como “amigo”, como “próximo” e até como “aliado”. Ciro Nogueira
virou sujeito oculto numa frase vazia de condolências políticas postada nas
redes pelo senador de extrema direita.
Valle de Los Caídos
Ciro cresceu em Brasília, e não no Piauí, estado pelo qual se elegeu
quatro vezes deputado federal e duas vezes senador. O pai e o avô eram
políticos ligados a duas ditaduras. O avô foi prefeito de Pedro II, segunda
maior cidade piauiense, nomeado por Getúlio Vargas durante a ditadura do Estado
Novo. O pai foi deputado federal nos estertores da ditadura militar e sempre
perfilou ao lado dos viúvos dos ditadores.
Tendo chegado ao Congresso em 1995 com um diploma de Direito nas mãos e
nenhuma ideia de como exercer a advocacia na cabeça, acomodou-se nas franjas do
baixo clero parlamentar e passou a sentar no fundo do plenário da Câmara. Não
conheceu Ulysses Guimarães, morto em
1992 num acidente aéreo. Se tivesse conhecido, certamente, não teria escolhido
aquele lugar para sentar. Doutor Ulysses chamava o fundão do plenário da Câmara
de “Valle de Los Caídos”, assim mesmo, em castelhano.
O “Senhor Diretas”, o “Tripresidente”, o paladino da Constituição de
1988 – como Ulysses tornou-se conhecido – dizia que o local escolhido por Ciro
Nogueira no plenário era onde se reunia uma horda de deputados desimportantes,
sem futuro ou com passado parlamentar tíbio. Sendo assim, quem estivesse ali
não ascenderia na Cúria do Congresso Nacional brasileiro.
A trajetória do político piauiense, contudo, contrariou as previsões e
visão experiente de Ulysses. Os dois primeiros mandatos de Nogueira foram de
fato medianos. Em 2000, tentou virar prefeito de Teresina e não chegou sequer
ao segundo turno. Em 2002, mudou de partido (trocou o PFL pelo PP) e de foco.
Reeleito para um terceiro mandato de deputado, assumiu, em 2003, a
Quarta Secretaria da Mesa da Câmara. O cargo é burocrático e com poucos
afazeres. Porém, naqueles tempos, o gabinete destinado ao 4º Secretário da
Câmara se localizava numa ampla sala do térreo do edifício-sede do Congresso, a
meio caminho entre a Chapelaria (por onde a maioria das pessoas entrava no
prédio) e o plenário de votações da Casa (onde todos queriam estar nos momentos
decisivos).
Estrategicamente instalado num local por onde todos passavam, o então
Ciro Nogueira instituiu em sua sala uma antológica e convidativa rotina de
lanches oferecidos a qualquer um que desejasse sentar na imensa mesa de
reuniões, onde se servia um “Chá das 5” com rigor londrino – de terça a
quinta-feira, sempre às 17h – e cardápio tropical: frutas frescas, sucos, café
bem feito, biscoitos caseiros e até mesmo chá.
Colegas deputados, alguns senadores, vários jornalistas, muitos lobistas
do grupo que vivia pelos salões verde e azul do Congresso e assessores
parlamentares de todos os ministérios do primeiro governo do presidente Lula
marcavam presença contumaz. Era uma festa. Falava-se de tudo. O anfitrião,
comandante da Quarta Secretaria, por conseguinte, foi firmando a imagem de
simpatia e amplitude de relacionamentos. Ouvia a todos, conversava com qualquer
um e ganhava fama de grande articulador.
Rei do Baixo Clero
Em fevereiro de 2005, a fama produziu a primeira grande surpresa para o
país, saída de dentro do Parlamento, sob a égide daquele jovem líder do “Valle
de Los Caídos”: Ciro Nogueira Lima Filho foi o ideólogo da candidatura do
deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) à Presidência da Câmara. Se o grupo de
mandarins do Congresso era comparado à Cúria Romana por Ulysses Guimarães,
Severino era o antipapa plantado naquele meio.
Simplório, saído do pequeníssimo município de João Alfredo, no Agreste
pernambucano, Severino Cavalcanti mal sabia se expressar. Bonachão, inculto e
ávido por cargos públicos que lhe rendessem pedágios por parte de quem
indicasse para ocupá-los, foi o títere perfeito para o audacioso Ciro Nogueira,
que era quem comandava o gabinete do presidente da Câmara na fugaz gestão de
Cavalcanti.
O mandato de Severino Cavalcanti, teleguiado por Nogueira, durou escassos
cinco meses. Ele se viu obrigado a renunciar ao cargo de presidente da Mesa
Diretora da Câmara dos Deputados porque foi flagrado pedindo comissões mensais
de R$ 25 mil ao dono de uma cantina de Brasília, que havia vencido uma
licitação para operar o restaurante do 10º andar do Anexo 4 da Câmara – o maior
e mais frequentado de todo o Congresso. O antipapa pernambucano renunciou à
Presidência da Mesa Diretora e ao mandato, voltou para João Alfredo e nunca
mais se reconstituiu politicamente. Morreu só, abandonado pela turma do Centrão
que o elegera como bandeira anti-PT, em 2005, por aqueles breves cinco meses.
Ciro Nogueira, contudo, depois de limar Severino de sua trajetória
política, fortaleceu-se em Brasília na consolidação do amplo diapasão de relacionamentos.
Ele tinha inventado a candidatura do antipapa, o “Rei do Baixo Clero”, e foi
também ele quem convenceu Severino a renunciar.
Aproximação com o PT
Em 2010, ao olhar o cenário piauiense, Ciro constatou que o então
governador petista Welington Dias deixaria o cargo para tentar uma primeira
eleição para o Senado na condição de favoritíssimo a uma das vagas em disputa.
Não teve dúvidas de aproximar o seu pragmatismo do favoritismo de Dias.
Fecharam uma aliança e o objetivo era derrotar o então senador Heráclito
Fortes, personalidade histórica do hoje extinto Partido da Frente Liberal, que
perfilava no Senado como um adversário figadal do PT. Aliados, Nogueira e Dias
se elegeram senadores naquele ano. Enfim, por causa da aliança com o PT, Ciro
Nogueira conquistou o primeiro mandato majoritário e pôde sonhar mais alto na
burocracia de seu partido, o PP.
A denúncia do “escândalo do mensalão”, que começou a ser julgada em 2011
como Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal, destroçou a antiga cúpula do
PP. O presidente da sigla, Pedro Correa Neto, e o poderoso líder na Câmara dos
Deputados, José Janene, foram condenados à prisão e perderam seus mandatos.
Francisco Dornelles, político sênior, senador pelo Rio de Janeiro, era
vice-presidente do PP e assumiu a direção partidária sem ter braços ou
discernimento para operações do dia a dia. Entregou os afazeres da dinâmica do
PP a Ciro Nogueira, que logo se converteu no grande articulador da legenda. Em
2013, Dornelles entregou de vez o comando do PP a Nogueira, que se destacava
como um fiel aliado da então presidente Dilma Rousseff (PT) no Senado.
Mais uma vez, a escolha por jogar na zaga governista durante o mandato
da primeira mulher a ocupar a Presidência da República na história era mero
pragmatismo. Na mesa de jogo operacional de poder, Dilma entregou ao PP
comandado por Ciro Nogueira os ministérios das Cidades e da Integração
Nacional, além de poderosos espaços no Ministério da Agricultura. No curto
segundo mandato, em troca de apoio mais consistente no Congresso, a
ex-presidente deu a chave do Ministério da Agricultura inteiro ao PP.
Decisões cruciais de governo como planos-safra, gestão do Departamento
Nacional de Rodagens e do Denatram – Departamento Nacional de Trânsito – e, por
algum tempo, as obras de transposição do Rio São Francisco eram tomadas no
gabinete parlamentar de Ciro Nogueira no Senado. Na Esplanada dos Ministérios
todos sabiam disso e o Partido dos Trabalhadores entendia aquela dinâmica como
necessária à governabilidade. Ciro Nogueira, porém, queria mais.
Em abril de 2016, ainda que coreografasse seus atos em silêncio nos
porões de Brasília com medo de ser flagrado traindo, três dias antes de Eduardo
Cunha (MDB-RJ), à época presidente da Câmara, colocar em votação no plenário da
Casa a autorização para abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff,
o PP rompeu com o governo petista. O artífice do rompimento foi Ciro Nogueira,
claro.
Afinal, ele havia negociado com Michel Temer, o vice de Dilma que se
dizia “decorativo” no Palácio do Planalto petista, a ampliação dos espaços de
seu partido na Esplanada. Temer conservou as ocupações de sesmarias do PP e
ainda entregou à sigla o Ministério da Saúde. O orçamento da Saúde é terceiro
maior do Brasil, ficando atrás, apenas do Orçamento da União e do Orçamento do
estado de São Paulo. Nogueira indicou para o ministério o deputado paranaense
Ricardo Barros e cuidou de administrar de perto o fluxo de caixa do Ministério
da Saúde.
Em 2018, sem votos próprios no Piauí e precisando renovar a senatoria,
Nogueira se reaproximou de Welington Dias, novamente governador do estado, e
fez juras de amor de fidelidade a Lula. O traidor federal do PT reelegeu-se
senador em razão da reaproximação com o PT do Piauí. Em 2018, pediu votos para
Fernando Haddad à Presidência da República. Não tinha grande aproximação com
Jair Bolsonaro nos tempos em que foram deputados juntos – ao longo de quatro
mandatos. Não conhecia os filhos de Bolsonaro. O que precisava era de votos que
lhe dessem mais um mandato de senador para seguir como poderoso presidente de
uma das siglas mais operantes do famigerado Centrão em Brasília. Conseguiu.
Convocação de Bolsonaro
No início do governo Jair Bolsonaro, não o tendo apoiado na campanha,
Ciro Nogueira conservou distância prudente daquela turma que passava patrola e
limpa trilhos nos cargos da Esplanada. O PP preservou alguns postos de comando
orçamentário, mas esperou ser chamado a conversar. Essa, afinal, é mais uma das
regras não escritas do nogueirismo: nunca diga de graça o que você pode fazer
por um governo; espere ser convocado para dizê-lo (e ponha seu preço para
ofertar as soluções).
Em meados de julho de 2021, curtindo férias em Cancún, no México, com
empresários do setor financeiro e com um operador do sistema de gravames de
veículos automotores (área de negócios que acompanha com bastante interesse há
muitos anos) e suas respectivas namoradas, Ciro Nogueira recebeu um telefonema
urgente do Palácio do Planalto. Era Jair Bolsonaro, que vinha já numa escalada
golpista, havia trocado o Ministro da Defesa e os três comandantes militares no
fim de março, estava às turras com o Supremo Tribunal Federal e não tinha
construído uma boa relação com o Centrão no Congresso.
Bolsonaro o convidou para assumir o Ministério da Casa Civil. O senador não
aceitou de pronto. Colocou em prática a regra não escrita de apresentar preço e
condições ao ser convocado. Pediu a chave do cofre do Orçamento da União, poder
total para liberar ou glosar pagamento de emendas parlamentares e primazia no
relacionamento com os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de quem já
era sócio em muitas práticas políticas e noitadas brasilienses, e Davi
Alcolumbre (União-AP), ora em sua primeira passagem na Presidência do Senado.
Bolsonaro topou, não sem antes ter certeza de que teria o mandato garantido até
o fim sem riscos de cassação por associações do Congresso com o STF. Ciro
Nogueira garantiu. E entregou.
Amigo da vida
A escalada de Nogueira aos píncaros da glória do poder em Brasília
coincidiu com o pico de agonia negocial de Daniel Vorcaro e Augusto Lima, a
dupla de desconhecidos operadores do mercado financeiro que tinha posto o
portfólio do Banco Master debaixo do braço e partira para nacionalizá-lo a
partir de favores federais em Brasília. Festeiro como o ministro da Casa Civil,
pouco leal às relações formais de fidelidade a casamentos ou relações estáveis,
admiradores comuns da arte da sedução (inclusive de mulheres, mas não só),
Vorcaro rapidamente se converteu num “amigo da vida” de Ciro Nogueira. Quem os
apresentou foi João Roma, ministro da Cidadania dos tempos de Bolsonaro.
Pernambucano radicado na Bahia, Roma era dileto amigo de Augusto Lima – que
também era amante das feéricas noitadas que tanto aproximavam Vorcaro e Ciro
Nogue ira, estivessem onde estivessem.
Quando a fome de Daniel Vorcaro por recursos públicos e clientes
egressos dos holerites oficiais que alavancassem suas posições no mercado
financeiro aliou-se à vontade de comer presente nas mais abastadas rodas da
República de Ciro Nogueira, deu-se o match fatal entre eles. O ousado banqueiro
mineiro encontrou no pragmático senador (eventualmente, Coringa do
bolsonarismo) piauiense sua cara-metade para as estripulias despudoradamente
sem cautelas que passaram a cometer em Brasília.
Derrotado nas urnas por Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro deixou o
Palácio do Planalto e Nogueira teve de entregar a chave dos cofres à turma do
PT. Imaginava poder passar uma borracha nas traições do passado e curtir quatro
anos de mandato nas asas de caronas aéreas de empresários amigos e em viagens
oficiais promovidas pela Comissão de Relações Exteriores do Senado. Deu tudo
errado.
Tic-tac-tic-tac: o relógio do tempo, implacável,
seguiu com a corda toda nos meandros do poder e dos órgãos de investigação na
capital da República. As traições do passado estavam gravadas em mensagens de
Whatsapp, troca de telefonemas, recibos de pagamentos bancários e proposições
parlamentares redigidas nos escritórios do Master e apresentadas no Senado como
se de Ciro Nogueira fossem. Desmascarado, o cara que era a cara do Centrão foi
convocado pelos bons hábitos correcionais da República a apresentar sua defesa
a uma miríade de acusações que enxovalham o Parlamento. Se tiver vergonha na
cara e alguma boa ideia na cabeça, Nogueira fá-lo-á.
Assine
seu comentário para que possamos publicá-lo.
Crônica de uma vitória a conquistar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_30.html


.jpg)

