Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
04 julho 2026
03 julho 2026
Palavra de poeta
Espiral
Mia
Couto
No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.
Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.
Na espiral do feto,
o novelo do afeto
ensaia o seu primeiro infinito.
[Ilustração: Oswaldo Guayasamín]
Leia também: "Amor e ódio ao smartphone" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_21.html
Minha opinião
Conflito sem limites
Luciano Siqueira
A
madrasta e o enteado brigam publicamente pelo espólio do ex-presidente presidiário.
Quais
as divergências?
Algo
sobre os rumos do país? Discrepância sobre a tática eleitoral? Discordâncias sobre
possíveis alianças?
Nada
disso.
É
a briga pelo espólio político do chefe do clã antes que seja tarde. Personagens
que jamais formaram um bloco homogêneo e indestrutível, sempre envoltos numa
espécie de fogo de monturo interno, autofagia provocada pela ganância por
espaço, recursos do fundo partidário e, se possível, protagonismo eleitoral.
Na
verdade, a extrema direita como um todo não exibe um programa de governo claro com
propostas para o país. Além disso, o senador Flávio Bolsonaro, em meio à arenga
com a ex-primeira dama Michelle, envia carta ao presidente Trump implorando o
adiamento do pacote tarifário contra a economia brasileira para após as
eleições.
Complexo
de vira latas explícito! Entreguismo da mais baixa categoria!
Bom
ou ruim para o país?
Ótimo!
Por
esse caminho o bolsonarismo tem menos chances de vitória nas eleições.
Lula
será reeleito.
Imagem gerada por IA
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Duas faces da cena pré-eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_01490491014.html
Editorial do 'Vermelho'
PEC amplia entrega do controle BC ao sistema financeiro privado
O sistema monetário deve servir ao desenvolvimento nacional, em vez de subordinar-se ao capital financeiro e ao rentismo
Editorial do 'Vermelho'
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65, que amplia a entrega do Banco Central (BC) aos interesses privados, aprovada em 10 de junho último, pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, traz de volta uma antiga tese neoliberal, a fórmula mágica de “menos Estado e mais mercado”. A Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021 instituiu a “autonomia” do BC, aprovada pelo governo de Jair Bolsonaro, período em que o Estado nacional sofreu um desmonte sem precedentes.
Foi uma vitória do capital financeiro e do rentismo, que passaram a exercer tutela direta sobre a gestão da política monetária do país. Agora, essa PEC concede ao BC também “autonomia” administrativa, contábil, orçamentária, financeira, operacional e patrimonial, “com ausência de vinculação a ministério ou a qualquer órgão ou sistema da administração pública e de tutela ou subordinação hierárquica”. Com outras palavras, um ente “soberano”, público, que passa a ser gerido por mãos privadas, sem qualquer vínculo com o Estado nacional, entrelaçado ao sistema financeiro.
A receita que atualmente vai para o Tesouro Nacional e ficaria, pela PEC, com o BC, aumentaria substancialmente o seu orçamento – essa receita foi de R$ 23,3 bilhões, ao ano, entre 2017 e 2025, enquanto o orçamento do BC foi de R$ 4,8 bilhões, ao ano, no mesmo período, e substituiria o atual modelo de orçamento definido pela Lei Orçamentária Anual (LOA). De acordo com a proposta, o BC passaria a reter, no seu orçamento, receita própria criada pela senhoriagem, termo técnico histórico de gestão financeira que, resumidamente, consiste no quanto do déficit público não rolado pela emissão de dívida é coberto com emissão de moeda.
O sistema de metas de inflação determina a quantidade de moeda em circulação, o financiamento monetário do déficit, a senhoriagem. O restante da necessidade de caixa do governo deve, então, ser financiado via títulos, remunerados pela taxa de juros. O termo é histórico, mas ganhou espaço desde a década de 1960 como diagnóstico dos custos da inflação.
Há um lucro do BC derivado da emissão de moeda, a diferença entre o valor de face do dinheiro criado e o seu custo de produção. Para imprimir uma cédula de R$ 100, por exemplo, o custo é de centavos. Ou seja: a emissão de um valor alto, recebido pelo BC, tem baixo custo. Essa diferença é a senhoriagem que, apossada pelo BC, criaria uma casta altamente remunerada, espécie de quarto poder sobrepondo aos demais poderes da República.
Ou seja: seria impor a lei do mais forte – no caso, o imenso poderio do sistema financeiro – sobre a soberania popular e o papel do Estado Democrático de Direito. Seria usurpar uma prerrogativa democrática em uma questão essencial para o interesse de todos: o controle privado de um meio essencial do processo produtivo e da sua regulação coletiva, portanto pública.
O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central avaliou que a PEC traz em seu conteúdo uma série de riscos à atuação do BC, “colocando em xeque seu papel na formulação de políticas futuras e sua condição de instituição típica de Estado”. “Frente a este cenário, a categoria, após diversos debates e análises, em votação eletrônica, manifestou seu rechaço e indicou a necessidade de rejeição à matéria”, diz a entidade.
Um grupo de eminentes economistas – entre eles, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Luiz Gonzaga Belluzzo, Paulo Nogueira Batista Jr. Leda Paulani – publicou um manifesto contra a PEC, afirmando que ela facilita a cooptação do BC pelo setor financeiro. A PEC cria independência seletiva: afasta o BC do controle democrático do Estado – Congresso, Tribunal de Contas da União (TCU) e o Executivo –, mas o mantém estruturalmente poroso às influências do mercado financeiro. Perdem-se os freios dos poderes constituídos e os canais de acesso do setor privado continuam abertos, diz o manifesto.
Afirma também que a PEC fragiliza a fiscalização, o controle social e a responsabilização do BC, que “passaria a se beneficiar institucionalmente de condições macroeconômicas, que deveria administrar em nome do interesse público, e não de seu próprio orçamento”. “E como a senhoriagem depende dos juros, o BC passaria a ter conflito de incentivos em relação à manutenção de juros elevados”, diz o texto.
Em artigo publicado no site Jota, intitulado Senhoriagem não é lucro: os riscos da PEC 65 para o Banco Central do Brasil, Camila Villard Duran – professora associada de direito da ESSCA School of Management e membro do grupo Mulheres na Regulação – e Edna Velho – servidora de carreira do BC, cedida ao Sindicato Nacional dos Funcionários do BC, no qual é diretora de Relações Externas – afirmam que, ao tratar o BC como uma entidade empresarial, a PEC “distorce sua natureza jurídico-política e compromete a transparência sobre o uso de uma das prerrogativas mais essenciais do Estado – o poder soberano de emitir moeda”.
O BC não é uma firma e não busca maximizar retornos, mas preservar a estabilidade da moeda e do sistema financeiro. A senhoriagem é uma consequência desse papel, não um objetivo per se, afirmam. “Se o BC pudesse reter a senhoriagem como receita própria, entraria em conflito com seu mandato de estabilidade de preços. Em contextos de alta inflação, a emissão de moeda e a senhoriagem aumentam, ampliando os recursos da própria instituição. Ao atrelar suas receitas à criação de moeda, a PEC introduz um incentivo perverso que distorce a função essencial do BC.”
Segundo elas, “converter a senhoriagem em fonte autônoma de financiamento seria como permitir que o Exército vendesse parte de sua monopolização da força para custear o quartel”. “Assim como a defesa nacional, a emissão monetária é uma função de soberania, e sua exploração financeira corroeria o princípio de que o poder público deve servir à sociedade – não a si mesmo.”
A mídia denomina de “pautas-bomba” um conjunto de projetos de lei que se aprovado pode resultar num custo anual ao governo de R$ 111 bilhões. Todavia, pouco se diz sobre essa PEC 65. Mas ela é, sim, também, uma “pauta-bomba”. Objetiva agravar e consolidar, a “autonomia” do BC.
Gabriel Galípolo, presidente do BC, apoia a PEC. Ao fazê-lo, desempenha um papel execrável contra os interesses da nação. Mas há um longo caminho ainda para que esse retrocesso seja aprovado. A PEC precisa ser aprovada em dois turnos pelo plenário do Senado Federal e depois seguir para a Câmara dos Deputados.
O governo Lula e sua liderança no Senado e na Câmara dos Deputados precisam promover uma mobilização para esclarecer a sociedade e impedir a progressão da PEC. Cabe ao campo patriótico, popular e democrático denunciar o seu conteúdo nefasto. A gravidade da medida exige também uma luta de ideias que esclareça ao povo sobre o que está em jogo.
Nas eleições, os/as brasileiros/as elegem uma candidatura e um programa de governo. Mas, quando o presidente toma posse, os fatores decisivos para o desenvolvimento e o emprego, como a política de juros, são decididos por um BC dito “autônomo”, à revelia do programa eleito nas urnas.
Impõe-se, em perspectiva, um choque nacional autêntico, via um amplo movimento social e político, para repor a soberania do voto popular sobre a condução do BC, por meio de sua reintegração plena à estrutura do Estado nacional.
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Por que os Estados Unidos querem atingir o Pix? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/trump-contra-o-pix.html
Fotografia
Cida: luta, consciência e afeto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0343482442.html
BuenosAires, o filme
Quando Buenos Aires viu “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/buenos-aires-o-filme.html
Bolha algorítmica
O pensamento crítico na era dos algoritmos
Romper a bolha algorítmica significa enfrentar o
desconforto de sustentar uma opinião que não se encaixa perfeitamente no senso
comum ou na lógica de uma determinada “tribo” digital.
Leandro Erre/Vermelho
A ilusão da escolha e a reificação digital
Em termos técnicos, um algoritmo é apenas uma descrição matemática de um
processo. No entanto, no capitalismo contemporâneo, eles se transformaram na
infraestrutura invisível que filtra a realidade, selecionando a enorme
quantidade de informação disponível e tomando decisões por nós. O algoritmo
aprisiona e limita o pensamento, uma vez que delimita o nosso acesso a temas
fundamentais de nossa vida.
Quando permitimos que uma fórmula matemática decida a próxima notícia
que vamos ler, o próximo vídeo que vamos assistir ou a opinião que devemos ter
sobre um fato político, nossa capacidade de escolha fica restrita a interesses
que não são os nossos. Mais do que isso, estamos vivenciando o que se chama de
reificação: o processo pelo qual relações sociais e humanas (como a
comunicação, o debate e a formação de opinião) ganham o caráter de “coisas” independentes
que passam a governar nossas vidas. O algoritmo, desenhado para maximizar a
extração de lucro, reter a atenção e nos manter numa bolha que dita o que vamos
pensar e como vamos viver. Ele não tem compromisso com a verdade ou com a
profundidade, mas apenas com o engajamento. Ele prioriza o que choca e o que
conforta.
Nesse cenário, resistir ao algoritmo não significa abandonar a
tecnologia, mas recusar o que é imposto de forma passiva. É fazer escolhas
ativas para preservar nossa soberania intelectual. É, nos termos de Paulo
Freire, recusar a condição de objeto — de mero receptáculo passivo de depósitos
informacionais — e assumir-se como sujeito que lê criticamente o mundo (Freire,
1970). O pensamento crítico tornou-se nossa principal forma de resistência na
era do algoritmo.
A leitura crítica do mundo: superação dialética do senso comum
Mas precisamos entender o que é o pensamento crítico, pois existe uma
armadilha perigosa no debate sobre ele: reduzi-lo a um ceticismo genérico.
Dizer que pensar criticamente é “questionar tudo” é abrir as portas para o
cinismo paralisante e para teorias da conspiração. A dúvida pela dúvida não
constrói; a crítica sem perspectiva é inócua e serve à manutenção do poder. ela
apenas destrói e te aprisiona numa eterna negação sem rumo.
O pensamento crítico é, antes de tudo, uma postura intelectual que rompe
com a absorção passiva dos conteúdos impostos pelo algoritmo, é uma leitura
crítica do mundo — e essa leitura precede sempre a leitura da palavra (Freire,
2000). Isso significa que antes de “checar fatos” ou “verificar fontes”,
precisamos compreender as condições materiais e históricas que produzem esses
fatos.
É aqui que o materialismo histórico se torna uma ferramenta
indispensável para a construção de um pensamento crítico, sendo um dos pilares
de nossa independência intelectual. Ele nos ensina que as ideias — inclusive a
desinformação e as “fake news” — não existem no vazio. Elas são produzidas por
condições materiais específicas: o modelo de negócios das grandes plataformas
de tecnologia, a concentração da propriedade dos meios de comunicação, a
necessidade de extrair lucro através da retenção da nossa atenção. Pensar
criticamente exige identificar essas raízes materiais, não apenas combater as
ideias no plano abstrato. Parafraseando Max não basta explicar – ou entender –
a realidade, é preciso transformá-la. A superação das oposições teóricas não é
apenas uma questão de conhecimento, mas também uma exigência da vida concreta e
prática.
Freire nos ensina que essa leitura crítica envolve dois movimentos
simultâneos: a denúncia do que existe (a realidade injusta, a manipulação, a
desinformação, o capitalismo desigual) e o anúncio do que ainda não existe (o
mundo possível, a sociedade justa, o “inédito viável”, a superação do
capitalismo) (Freire, 2000). Pensar criticamente, portanto, não é apenas
desmontar mentiras, denunciar a desigualdade — é construir alternativas
concretas para a superação desta realidade. É a passagem da constatação passiva
ao projeto de transformação social.
O pensamento crítico não é um dom individual, mas uma construção
coletiva e histórica. Ele se manifesta como a transição da curiosidade ingênua
— aquela associada ao saber do senso comum — para a curiosidade epistemológica:
uma curiosidade que se torna crítica e metodicamente rigorosa em sua
aproximação ao objeto (Freire, 1996).
Essa passagem não é uma ruptura absoluta, mas uma superação dialética. A
dialética nos ensina que o desenvolvimento do pensamento não se dá descartando
o conhecimento anterior como puro erro, mas incorporando-o em formas mais ricas
e concretas. A curiosidade do trabalhador que se pergunta por que seu salário
não acompanha a inflação é a mesma curiosidade do cientista político que
investiga a concentração de renda — o que muda é o rigor metódico. O senso
comum “só se supera a partir dele e não com o desprezo arrogante dos elitistas
por ele”.
A indústria cultural algorítmica
Por que a leitura crítica do mundo é decisiva na era digital? Porque o
algoritmo funciona exatamente nos moldes daquilo que Freire chamou de educação
bancária (Freire, 1970): deposita conteúdos em sujeitos passivos, sem diálogo,
sem problematização. A timeline é o novo “banco” onde se
depositam informações fragmentadas, que servem à dominação na medida em que
impedem a visão de totalidade.
Mais profundamente, o ecossistema das redes sociais é a forma
contemporânea da Indústria Cultural, conceito central desenvolvido pela Escola
de Frankfurt. Adorno e Horkheimer mostraram como, sob o capitalismo
monopolista, a cultura é destituída de seu potencial de expressão autêntica e
passa a funcionar como mercadoria padronizada e massificada, destinada a estabilizar
a ordem social. A lógica industrial se traduz hoje nos algoritmos, que
reproduzem a mesma dinâmica: oferecem a ilusão de diversidade infinita, mas, na
prática, aprisionam os usuários em bolhas de retroalimentação, reforçando o
conformismo e neutralizando o pensamento crítico (Adorno e Horkeimer, 1944).
A Escola de Frankfurt nos alerta para o perigo da razão instrumental — a
lógica cega da eficiência e do cálculo (a própria essência do algoritmo) que se
divorcia dos fins éticos e humanos. Essa racionalidade transforma tudo em
objeto de manipulação, reduzindo pessoas a estatísticas e interações a métricas
de engajamento, sem qualquer preocupação com emancipação ou justiça. Trata-se
do desdobramento da mesma matriz de pensamento que, historicamente, atingiu seu
ápice destrutivo ao viabilizar sistemas tecnicamente eficientes, mas moralmente
devastadores, como o nazismo ou a produção da bomba atômica (Adorno e
Horkeimer, 1944).
Em contraste, a razão crítica questiona os fins e não apenas os meios:
indaga a serviço de quem está essa eficiência, quem se beneficia do tempo que
passamos rolando uma tela e se tais estruturas promovem autonomia ou apenas
reforçam a alienação. Enquanto a razão instrumental naturaliza o conformismo e
a passividade, a razão crítica denuncia as contradições e busca abrir espaço
para a reflexão e a transformação social.
Freire já antecipava essa preocupação em relação à mídia de massa:
“Não temo parecer ingênuo ao insistir não ser possível pensar sequer em
televisão sem ter em mente a questão da consciência crítica. É que pensar em
televisão ou na mídia em geral nos põe o problema da comunicação, processo
impossível de ser neutro.” (Freire, 1996).
Se substituirmos “televisão” por “algoritmo”, a advertência de Freire se
torna ainda mais urgente. O poder dominante leva uma vantagem sobre nós: “para
enfrentar o ardil ideológico de que se acha envolvida a sua mensagem na mídia,
nossa mente ou nossa curiosidade teria de funcionar epistemologicamente todo o
tempo. E isso não é fácil” (Freire, 1996). Não é fácil, mas é
necessário.
A anatomia do argumento: ferramentas objetivas
A leitura crítica do mundo, porém, precisa de ferramentas. A curiosidade
epistemológica exige rigor metódico. É aqui que a lógica informal nos
instrumentaliza (WALTON, 2012). Pensar criticamente é a capacidade de
qualificar se estamos diante de um bom ou de um mau argumento. Na lógica
informal, um argumento é um conjunto de premissas (fundamentos) que sustentam
uma conclusão.
Para testar a solidez de um discurso, seja a fala de um político ou a
manchete de um jornal, precisamos aplicar cinco critérios fundamentais:
|
Critério |
Pergunta-chave |
Exemplo de violação |
|
Validade |
A estrutura lógica (dedutiva) funciona? |
A conclusão simplesmente não decorre das premissas apresentadas. |
|
Força |
O cenário faz sentido no mundo real? |
O argumento se baseia em uma generalização apressada ou amostra
insuficiente. |
|
Clareza |
Os termos e conceitos são precisos? |
O uso de palavras ambíguas ou polissêmicas (como “Liberdade”) sem
definir para quem. |
|
Verdade |
As premissas são factualmente verdadeiras? |
Uso de dados inventados, estatísticas distorcidas ou fake news. |
|
Plausibilidade |
A afirmação é compatível com o conhecimento comum e com as evidências
disponíveis? |
A premissa adotada é mais difícil de aceitar e acreditar do que a
própria conclusão. |
A aplicação rigorosa desses critérios é, em última análise, o exercício
prático daquilo que a Escola de Frankfurt conceituou como Razão Crítica. Na
sociedade contemporânea, o discurso público é frequentemente colonizado pela
Razão Instrumental — uma lógica cega que prioriza a eficácia técnica, o cálculo
político e o engajamento a qualquer custo, esvaziando-se de compromissos éticos
ou humanos. A Razão Instrumental produz discursos esteticamente polidos e
tecnicamente eficientes, mas que operam violando deliberadamente a clareza, a
força ou a verdade para induzir o conformismo e neutralizar o debate (Adorno e
Horkeimer, 1944).
Quando um discurso viola esses critérios propositalmente para manipular
o público, estamos diante de uma falácia. É o caso do argumento Ad
Hominem, que ataca a pessoa em vez de debater a estrutura lógica do
argumento, ou da falácia do Espantalho, que distorce a posição do
oponente para enfraquecer a verdade dos fatos. Identificar essas armadilhas por
meio da razão crítica é o primeiro passo para desmascarar a racionalidade
instrumental e escapar da manipulação cotidiana.
A crítica em três camadas
A desinformação não é um acidente de percurso; é um sintoma estrutural.
Por isso, a nossa análise não pode parar na superfície. Ela exige três camadas
de profundidade:
A camada lógica é onde aplicamos os cinco critérios
acima. Mas, só ela não basta.
Precisamos da camada dialética: É aqui que investigamos as
mediações entre o objetivo e o subjetivo, perguntando: quem fala? De onde fala?
Quais interesses de classe estão subjacentes a esse discurso? Aqui lidamos com
uma forma de imposição da dominação que não usa a força. A ideologia não opera
por meio de uma imposição violenta e explícita; sua maior força reside na
capacidade de colonizar o cotidiano e moldar o vocabulário comum, fazendo com
que a dominação e as desigualdades sejam assimiladas como a ordem natural das
coisas. É no nível da linguagem que o intolerável é domesticado: quando a perda
de direitos e a precarização brutal do trabalho são rebatizadas docilmente como
“empreendedorismo”, a sobrevivência passa a ser vista como escolha, e o poder
se reproduz sem contestação. Diante disso, ir além das estruturas aparentes
exige o que Freire propõe: a leitura crítica do mundo como uma “prática educativa
crescentemente desocultadora de verdades. Verdades cuja ocultação interessa às
classes dominantes” (Freire, 1993).
É necessário, ainda, a camada histórica: Por fim,
compreendemos que as ideias não brotam no vazio. Elas são a expressão
superestrutural de uma base material concreta. Entender o contexto histórico e
econômico — ou seja, recorrer ao materialismo histórico — que
gerou um argumento, moldou uma timeline ou arquitetou uma
narrativa política é o passo definitivo para desnaturalizá-los e, finalmente,
desmontá-los.
Estratégias práticas de resistência
Como construir essa resistência sem que ela se torne um fardo exaustivo?
O pensamento crítico deve ser uma prática diária, uma passagem constante do
“senso comum” para o “bom senso” gramsciano (uma visão de mundo coerente e
emancipatória). Em termos freirianos, é a promoção permanente da curiosidade
ingênua à curiosidade epistemológica. Algumas estratégias práticas ajudam nesse
processo:
Aceleração intencional da dúvida: Crie o hábito de pausar por 10 segundos
antes de compartilhar qualquer conteúdo que cause uma reação emocional extrema
(raiva ou validação absoluta). A emoção imediata é o combustível do algoritmo.
Lembre-se: “é preciso contar de um a dez antes de fazer a afirmação categórica”
(Freire, 1996).
O teste da recomendação: Quando a plataforma sugerir o
próximo vídeo ou texto, recuse ativamente e busque um tema diferente por conta
própria. Quebre o padrão que o algoritmo desenhou para você. Isso é recusar a
“domesticação” e exercer a autonomia.
Triangulação de perspectivas: Leia a cobertura de um mesmo fato
político em veículos de linhas editoriais distintas. Anote mentalmente quais
adjetivos e recortes cada um utilizou para moldar a narrativa. Freire nos
lembra que “o papel do educador progressista é salientar que há outras
‘leituras de mundo’, diferentes da sua e às vezes antagônicas a ela” (Freire,
1992).
Sem superficialidades: Dedique tempo a textos longos e
livros. A estrutura do livro exige fôlego e encadeamento lógico, o exato oposto
da fragmentação das redes sociais. A leitura profunda é o exercício mais
completo de curiosidade epistemológica.
Debate coletivo: Participe de algum clube de leitura (logo vou
criar o Clube de Leitura Crítica), assine newsletter (como essa), enfim, busque
informação com pessoas que tenham uma visão crítica de mundo.
A leitura do mundo antes da leitura da palavra: Antes de
verificar se uma notícia é “verdadeira ou falsa”, pergunte-se: por que essa
notícia está circulando agora? Quais condições materiais (materialismo
histórico) permitem sua difusão? A quem interessa que eu sinta raiva ou medo
diante dela?
A práxis como horizonte: denúncia e anúncio
Os desafios são grandes. Romper a bolha algorítmica significa enfrentar
o desconforto de sustentar uma opinião que não se encaixa perfeitamente no
senso comum ou na lógica de uma determinada “tribo” digital. É o exercício de
pensar além das fronteiras impostas, mesmo quando isso gera estranhamento ou
resistência. Quem desenvolve o pensamento crítico adquire maior capacidade de
concentração, repertório argumentativo robusto e tolerância à complexidade,
conseguindo enxergar a realidade em sua totalidade.
Mas o pensamento crítico não é um fim em si mesmo, nem um mero exercício
acadêmico de vaidade intelectual. Seu objetivo final é a práxis — a união
indissociável entre a reflexão teórica rigorosa e a ação prática para
transformar a realidade. Não pensamos criticamente apenas para entender o
mundo, mas para mudá-lo.
Paulo Freire sintetiza isso com precisão: a leitura crítica do mundo
envolve, simultaneamente, a denúncia da realidade injusta e o anúncio do que
ainda não existe (Freire, 2000). A denúncia sem o anúncio é cinismo. O anúncio
sem a denúncia é ingenuidade. O pensamento crítico maduro articula os dois:
desmonta a mentira e constrói a alternativa. “A denúncia e o anúncio
criticamente feitos no processo de leitura do mundo dão origem ao sonho por que
lutamos” (Freire, 2000).
Ao exercitarmos o pensamento crítico assumimos o controle de nossas
escolhas, recuperamos nossa autonomia e pavimentamos o caminho para uma
sociedade genuinamente livre.
Mas não basta pensamento crítico isolado, a essência do pensamento crítico
está na sua síntese coletiva. É no debate que construímos alternativas melhores
para os problemas reais. O pensamento crítico não é fruto de alguma “mente
iluminada” que vai “descobrir” soluções mágicas. Nas palavras de Paulo Freire:
ninguém se conscientiza sozinho — nos conscientizamos em comunhão, mediatizados
pelo mundo.
Mais isso é assunto para outro dia.
Referências
Adorno, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. A
Indústria Cultural: o esclarecimento como mistificação das massas. In: ADORNO,
Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos
filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
Freire, P. Pedagogia do Oprimido. Rio
de Janeiro: Paz e Terra, 1970.
Freire, P. Pedagogia da Indignação:
Cartas Pedagógicas e Outros Escritos. São Paulo: UNESP, 2000.
Freire, P. Pedagogia da Autonomia:
Saberes Necessários à Prática Educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
Freire, P. Política e Educação. São
Paulo: Cortez, 1993.
[11] Freire, P. Pedagogia da Esperança:
Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
Walton, Douglas N. Lógica Informal: um
manual de argumentação crítica. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
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