23 outubro 2026

Palavra de poeta

Ser certo é ser torto
Adalberto Monteiro       

No cerrado ser certo
É ser torto.
Aleijado é ser ereto.
É uma questão de gosto.
Em vez da reta, do traçado masculino,
Ele tem as curvas
Do corpo feminino.

O cerrado não inveja as garbosas florestas.
Por que árvores altas se em vez de girafas
Ele tem tamanduás, antas e pebas?

No Japão,
Para explicar o que é o cerrado,
Basta dizer na palestra:
— É uma floresta… de bonzais.

Para se ver longe
Não é preciso ser alto
Já se nasceu no Planalto.

O cerrado bebe água e fogo.
Suas raízes sugam as pedras.
O cerrado é forte nada teme,
Exceto o câncer das motos-serra.

O cerrado é a casa das águas,
É onde os rios escolheram para nascer.
Ele está sendo morto.
E se ele morre, as águas falecem,
E a vida perece.

No cume do Planalto
As estrelas são uvas
Colhidas com as mãos.

— Pegue um balde, suba a Chapada
E ordenhe a Via-Láctea.

[Ilustração: Bosco Rolemberg]

Leia também: "Os Estatutos do Homem", poema de Thiago de Melo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/palavra-de-poeta_01969725833.html 

Quando dezembro vier

ONU julgará vínculos de Flávio Bolsonaro com milícias. Documentos obtidos pelo ICL Notícias revelam conteúdo da denúncia que será examinada pela ONU, em dezembro em Genebra; caso envolve morte de Ana Clara, de 5 anos de idade.

As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html


Minha opinião

Duvidosa precisão milimétrica 
Luciano Siqueira      

Tudo bem, pesquisas eleitorais são úteis — sobretudo quando realizadas por institutos especializados de comprovada credibilidade. 

Amostragens bem avaliadas revelam tendências. 

Mas não podem ser consideradas de precisão milimétrica, como certos analistas o fazem, sendo eles apenas observadores da cena política ou mesmo pesquisadores. 

Em outubro de 2024, confiado nas pesquisas, Aécio Neves convocou lideranças aliadas de todo o Brasil para acompanharem  com ele a apuração. 

Estava convicto da vitória.

Perdeu. 

Ou seja, entre a data da última pesquisa e a boca da urna fatores diversos levaram água para o moinho da presidenta Dilma Rousseff, reeleita na ocasião. 

Cá com meus modestíssimos botões, tenho a impressão de que nas pesquisas de agora, na reta final da peleja, as manifestações populares que pipocam em todo o país, nas capitais e pelo interior afora, não estão sendo devidamente captadas. 

É esperar o domingo para ver.

As ruas, as redes e o almoço do domingo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_02010278885.html 

No ring

O ministro Floriano de Azevedo Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), concedeu nesta sexta-feira (23) uma liminar que impede o presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, de determinar administrativamente uma nova suspensão do canal de WhatsApp “Exército do Lula”.   

Manifesto pró-Lula une centro e direita contra ameaças bolsonaristas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/em-defesa-da-democracia.html  

Dica de leitura

A mídia e Lula    

O experiente jornalista, crítico do monopólio midiático neoliberal, faz considerações válidas e oportunas acerca da relação mídia x Lula em artigo publicado no Jornal GGN https://jornalggn.com.br/coluna-economica/xadrez-da-grande-maratona-entre-a-midia-e-lula-por-luis-nassif/

Ele considera que a maxidesvalorização do real, em 1999, esgotou o modelo econômico neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, gerando aumento da miséria e criando espaço para uma política alternativa sólida, consolidada na liderança de Lula.

Na mesma época, os grandes jornais e revistas viveram seu período de maior rentabilidade financeira e influência política, controlando o mercado publicitário tradicional. Mas com a consolidação das grandes plataformas digitais (Google, Meta, Amazon) e do e-commerce, o bolo publicitário migrou para as Big Techs e para influenciadores digitais.

Diante da fragilização financeira, a mídia corporativa desenvolveu uma postura de aberta oposição política para tentar manter sua influência.

Hoje, segundo Nassif, a grande imprensa tradicional "respira por aparelhos" porque perdeu a capacidade de entender seu público-alvo.

Em contraposição, a trajetória de Lula, que superou a prisão e os desgastes promovidos pelas articulações entre setores da mídia, do judiciário e do meio político, tornou-se símbolo global de resistência e reversão do autoritarismo no mundo, acompanhado com atenção por outros países.

(LS)

Subiu o sarrafo da luta política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0999410531.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

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Urariano Mota opina

A razão da vida de Lula e a idade
Ao ouvir a fala de Lula, ”o que faz a gente envelhecer é a falta de uma causa”, me lembrei de imediato das lutas dos socialistas, que não envelhecem
Urariano Mota/Vermelho    

Nestes dias que antecedem a mais histórica eleição presidencial do Brasil, a capacidade de concentração para escrever é muito baixa. Mas com esforço, prazer e sacrifício, vamos tentar.

Eu fui estimulado para estas linhas ao ver uma fala do nosso presidente em 22 de outubro. Olhem por favor Lula no vídeo com Janones, ontem à noite, quando o presidente falou à grande atriz Marieta Severo, a partir do instante 16:21 minutos, com a maior simplicidade: “O que faz a gente envelhecer é a falta de uma causa”.

Eu já havia observado antes que Lula era um gênio, um autêntico escritor oral, assim como foi o Gordo em nossa primeira juventude no Recife. Mas agora acrescento que Lula é um intelectual de novo gênero, um homem dotado de um saber de experiência feito, e que fala verdades à maneira destes versos de Camões:

“Metida tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que me ensinou a viva experiência”

Assim escrevo porque durante as suas falas, em mais de uma oportunidade, a verdade universal de Lula vem da sua experiência de migrante nordestino, de filho de mulher muito pobre, que ele não esquece, e do bravo sindicalista provado nas lutas dos metalúrgicos. Mas esta fala “o que faz a gente envelhecer é a falta de uma causa”, me fez pular da cadeira onde eu assistia ao vídeo da sua entrevista com Janones. Luis Buñuel certa vez contou que pulava da cadeira quando via Antonio das Mortes na tela do cinema, no filme de Glauber Rocha. Mas eu, que jamais poderia ser nem a galáxias de distância de Buñuel, posso dizer que pulei da cadeira ao ver um político de gênio semelhante ao de Glauber Rocha.

A razão foi que ao ouvir e registrar a fala de Lula “o que faz a gente envelhecer é a falta de uma causa”, me lembrei de imediato das lutas dos socialistas, que não envelhecem porque mantêm aceso o projeto de mudança até o fim dos seus dias. E a razão mais íntima, quase pessoal, foi que a fala do nosso presidente me levou a meu romance “A mais longa duração da juventude”, quando o narrador fala ao personagem Luiz do Carmo:

“- Eu não sou um velho. Aliás, nós não somos velhos”. E Luiz do Carmo responde, magistral:

“- Eu sei. O tesão de mudar o mundo continua”.

Percebem assim o sentido mais íntimo e universal que me estimulou a estas linhas de hoje. Estamos na luta da esperança para o Brasil e desse modo não perdemos o tesão de mudar o mundo.

Às vésperas dos 81 anos de idade, que Lula completa em 27 de outubro, depois das eleições do dia 25 deste mês, vamos ter o presente da reeleição. Mas presente para quem mesmo? – Um presente para o Brasil. Nós é que mais precisamos desse nosso espelho mais alto, do lutador Lula em sua mais longa duração da juventude.

Queremos de novo a sua virada como em 2022, que vimos em Olinda. Na multidão pulando ao som de frevo.

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