Narrativa de Trump sobre “narcoestado” não se sustenta, dizem analistas
Rodrigo Vianna e Gabriel Becerra rebatem versão de Trump, destacam produção concentrada de drogas em outros países e denunciam uso político do narcotráfico
Lucas Toth/Vermelho
A justificativa usada pelo presidente Donald Trump para agredir a soberania da Venezuela neste sábado (3), sequestrando seu presidente, Nicolás Maduro, e sua esposa, a primeira-dama Cilia Flores, e bombardeando instalações do país, não se sustenta em fatos.
É o que dizem analistas ouvidos pelo Portal Vermelho. De acordo com eles, a caracterização da Venezuela como um “narcoestado”, usada como um pretexto para legitimar a intervenção e se apropriar dos recursos naturais do país, é falsa.
A principal justificativa apresentada por Trump e por integrantes de seu governo é a de que a Venezuela funcionaria como um “narcoestado”, com Maduro atuando como líder ou articulador de cartéis de drogas responsáveis por abastecer o mercado norte-americano.
“Mais de 80% da cocaína consumida nos Estados Unidos vem da Colômbia. Qual o sentido de Maduro ser chefe de cartel, se a Colômbia tem saída pelo Pacífico e pelo Atlântico? Por que alguém precisaria usar a Venezuela para fazer essa droga chegar aos Estados Unidos? Isso não faz o menor sentido”, afirma o jornalista Rodrigo Vianna.
Vianna atua no Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e esteve na Venezuela em diferentes momentos históricos, acompanhando eleições, plebiscitos e a morte do líder bolivariano Hugo Chávez. Para ele, a insistência de Trump em classificar a Venezuela como um “narcoestado” não responde a fatos verificáveis, mas à necessidade de construir uma justificativa simples e mobilizadora para os norte-americanos.
“A justificativa é para o público interno, os eleitores mais extremistas do Trump, a turma do MAGA. Se ele vai para uma intervenção internacional, como é que ele pode justificar isso? Ele precisa dar uma justificativa que tenha algum eco para esse público interno”, diz.
Avaliação semelhante faz Gabriel Becerra, deputado à Câmara de Representantes da Colômbia pelo União Patriótica.
“A Venezuela não é um país produtor de cocaína nem possui grandes hectares de cultivo. No pior dos casos, é apontada como território de trânsito dentro da cadeia do narcotráfico”, afirmou Becerra.
“É evidente que Nicolás Maduro não representa uma liderança como chefe ou articulador de um cartel e, consequentemente, é falso concluir que esse chefe de Estado seja um articulador dos cartéis de drogas”, cravou.
Ao detalhar a dinâmica regional do narcotráfico, Becerra contrasta a situação venezuelana com a dos países que concentram efetivamente a produção de cocaína na América do Sul.
“Nós, na Colômbia, temos em média cerca de 260 mil hectares de cultivo de coca e uma produção potencial de aproximadamente 3 mil toneladas métricas de cocaína. Somos, sem dúvida, um dos maiores países produtores, junto com outros países andinos como o Peru e a Bolívia. Em nenhuma cifra oficial o Estado venezuelano, a geografia da Venezuela, se aproxima desses números”, afirmou o parlamentar.
Para Vianna, a alegação do narcotráfico perde centralidade à medida que o próprio discurso de Trump passa a revelar o objetivo real da operação.
“Isso é justificativa. Eles querem o petróleo, não tem nada a ver com narcotráfico. O próprio Trump deixou isso muito claro na coletiva, quando passou a falar da administração da Venezuela e do petróleo”, diz o jornalista.
Becerra, por sua vez, chama atenção para o uso recorrente desse tipo de acusação como instrumento de política externa dos Estados Unidos.
“A categoria de ‘narcoestado’ é uma etiqueta política utilizada para justificar ações de caráter militar e intervencionista contra governos que não se alinham à lógica imperial dos Estados Unidos”, afirmou.
“Esse tipo de intervenção favorece a militarização das fronteiras, reorganiza – e não elimina – as rotas do narcotráfico e enfraquece os processos de integração regional”, avaliou.
Na opinião do deputado colombiano, a acusação também desloca indevidamente a responsabilidade pela crise das drogas nos Estados Unidos, ao atribuí-la a um país que não ocupa papel central na produção ou no abastecimento do mercado norte-americano.
“A Venezuela não pode ser responsabilizada pelo problema do narcotráfico ou das drogas nos Estados Unidos. Trata-se de um problema interno, que não está ligado à produção de cocaína no território venezuelano”, afirmou.
Ao tratar das consequências práticas desse tipo de intervenção, Becerra afirma que o impacto vai muito além da Venezuela e se manifesta de forma direta em toda a região, especialmente nas zonas de fronteira.
“Esse tipo de intervenção favorece a militarização do território e das fronteiras, contribui para a degradação humanitária nessas zonas e provoca um reacomodo das rotas do narcotráfico e das economias criminosas, que não desaparecem, mas se adaptam às novas circunstâncias”, afirmou.
Segundo Becerra, o intervencionismo tem efeitos diretos sobre a cooperação entre os países da região. A lógica adotada, segundo ele, “rompe com as possibilidades de integração regional, não prioriza a diplomacia para resolver os conflitos e atenta contra a paz e a segurança de Nossa América”.
O parlamentar sustenta ainda que a ofensiva liderada pelos Estados Unidos não deve ser lida como um episódio isolado restrito à Venezuela.
“Essa ameaça não é apenas contra a Venezuela. É uma ameaça contra toda a região latino-americana”, afirmou, ao defender a necessidade de uma resposta coletiva. A seu ver, diante da escalada intervencionista, “é preciso preparar uma resposta regional articulada” para preservar a soberania dos países da América Latina.
PCdoB: Repúdio ao criminoso ataque contra Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/pcdob-protesta.html






