Por que a
economia brasileira tem voo de galinha?
O custo do dinheiro e o Brasil que poderia ter sido
Luís Nassif/Jornal GGN
O ponto de
partida: a diferença de spread
O spread
médio brasileiro em crédito livre para pessoas físicas e empresas ficou, nos
últimos anos, frequentemente entre 25 e 35 pontos percentuais. Na França, o
spread típico ficou perto de 2 a 4 pontos. A diferença estrutural é de
aproximadamente 27 pontos percentuais — não é um pedágio, é um tributo imperial
sobre toda atividade econômica.
O
que vamos fazer é imaginar o que o Brasil poderia ter sido se o sistema
bancário brasileiro tivesse um spread francês.
Peça 1 — Sistema bancário
Os
cinco maiores bancos brasileiros somaram cerca de R$ 150 bilhões de lucro
líquido em 2023–2024. Seus ROEs ficam entre 16% e 25%, bem acima dos europeus,
que operam entre 6% e 12%. Em relação ao PIB, o lucro do sistema bancário
brasileiro representa 1,3% a 1,7% — contra 0,3% a 0,6% na França.
Se
operassem com spread francês e mesmo volume de crédito, o lucro cairia para R$
35–60 bilhões — redução de 60% a 75%. O que os bancos recusam considerar é o
ganho de escala: com spread menor, o volume de crédito cresceria
substancialmente, moderando a queda para um intervalo de R$ 80–110 bilhões.
Peça 2 — Indústria
O
estoque de crédito para a indústria oscilou entre R$ 600 bilhões e R$ 1,5
trilhão na última década. O spread industrial brasileiro ficou entre 8% e 15%;
o francês, entre 1% e 3%. A diferença estrutural média é de 8 a 10 pontos
percentuais.
O
excesso de spread drenou da indústria aproximadamente R$ 90 bilhões por ano. Em
dez anos, R$ 900 bilhões a R$ 1,2 trilhão. Para efeito de comparação: o
investimento industrial total no período foi de aproximadamente R$ 1,7 trilhão.
Ou seja, para cada
R$ 10 investidos pela indústria, entre R$ 5 e R$ 7 foram drenados em custo
financeiro extraordinário.
O investimento industrial teria sido 50% a 70% maior. A indústria de transformação, que chegou a 27% do PIB nos anos 1980 e hoje gira em torno de 10%, poderia estar 20% a 30% maior do que está.
Peça 3 — Mercado de capitais
A capitalização via mercado de ações depende diretamente do custo do dinheiro. Quando a Selic despencou no período Dilma, os fundos de pensão montaram mesas específicas para renda variável. Com o retorno às taxas estratosféricas após 2016, o capital estrangeiro voltou a se concentrar em títulos públicos — que praticamente dobraram de US$ 105,7 bilhões para US$ 234,9 bilhões entre 2015 e 2024 — enquanto a posição em ações estagnou entre US$ 62 e US$ 88 bilhões. A razão ações/títulos caiu de 55% para 27% em dez anos: o capital especulativo prefere a renda garantida da Selic ao risco produtivo.
Com
spread francês no crédito ao consumidor, o alívio anual de juros seria de R$
250 a R$ 450 bilhões. Aplicando a propensão a consumir de 65% a 80%, a injeção
anual no varejo seria de R$ 160 a R$ 360 bilhões — o equivalente a um aumento
de vendas de 6% a 8% ao ano sobre uma base de R$ 3,5 a R$ 4,5 trilhões de
receita do varejo ampliado.
Peça 5 — O impacto no PIB
Conta estática — somando os ganhos
setoriais com ajuste por importações, poupança e vazamentos (eficiência líquida
de 50% a 80%):
Conta dinâmica —
o dinheiro não entra uma vez; ele gira. Consumidor paga menos juros → sobra
renda → comércio vende mais → indústria produz e investe mais → emprego e
salários sobem → arrecadação cresce sem elevação de alíquota. Cinco rodadas de multiplicação:
Em valores atuais, com PIB de R$ 12 trilhões, o cenário central
representa R$ 3 a
R$ 4,2 trilhões a mais de produto anual ao fim do período.
Síntese
O
spread alto é uma trava dupla: reduz a demanda hoje e impede o investimento que
aumentaria a oferta amanhã. Os dois movimentos — bancos entre os mais rentáveis
do mundo e indústria com participação no PIB pela metade em quarenta anos — não
são coincidência estatística. São dois lados da mesma transferência estrutural
de renda.
Com
spread francês, o Brasil não teria apenas consumido mais. Teria reconstruído
parte de sua base produtiva.
Nos
próximos dias, vamos mostrar as razões que levaram a Selic a se amarrar ao
câmbio e os spreads bancários baterem todos os recordes mundiais. E qual o caminho
para romper com essa amarra.
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