04 janeiro 2026

Trump: argumentos falsos

Narrativa de Trump sobre “narcoestado” não se sustenta, dizem analistas
Rodrigo Vianna e Gabriel Becerra rebatem versão de Trump, destacam produção concentrada de drogas em outros países e denunciam uso político do narcotráfico
Lucas Toth/Vermelho  

A justificativa usada pelo presidente Donald Trump para agredir a soberania da Venezuela neste sábado (3), sequestrando seu presidente, Nicolás Maduro, e sua esposa, a primeira-dama Cilia Flores, e bombardeando instalações do país, não se sustenta em fatos.

É o que dizem analistas ouvidos pelo Portal Vermelho. De acordo com eles, a caracterização da Venezuela como um “narcoestado”, usada como um pretexto para legitimar a intervenção e se apropriar dos recursos naturais do país, é falsa.

A principal justificativa apresentada por Trump e por integrantes de seu governo é a de que a Venezuela funcionaria como um “narcoestado”, com Maduro atuando como líder ou articulador de cartéis de drogas responsáveis por abastecer o mercado norte-americano.

“Mais de 80% da cocaína consumida nos Estados Unidos vem da Colômbia. Qual o sentido de Maduro ser chefe de cartel, se a Colômbia tem saída pelo Pacífico e pelo Atlântico? Por que alguém precisaria usar a Venezuela para fazer essa droga chegar aos Estados Unidos? Isso não faz o menor sentido”, afirma o jornalista Rodrigo Vianna.

Vianna atua no Instituto Conhecimento Liberta (ICL) e esteve na Venezuela em diferentes momentos históricos, acompanhando eleições, plebiscitos e a morte do líder bolivariano Hugo Chávez. Para ele, a insistência de Trump em classificar a Venezuela como um “narcoestado” não responde a fatos verificáveis, mas à necessidade de construir uma justificativa simples e mobilizadora para os norte-americanos.

“A justificativa é para o público interno, os eleitores mais extremistas do Trump, a turma do MAGA. Se ele vai para uma intervenção internacional, como é que ele pode justificar isso? Ele precisa dar uma justificativa que tenha algum eco para esse público interno”, diz.

Avaliação semelhante faz Gabriel Becerra, deputado à Câmara de Representantes da Colômbia pelo União Patriótica.

“A Venezuela não é um país produtor de cocaína nem possui grandes hectares de cultivo. No pior dos casos, é apontada como território de trânsito dentro da cadeia do narcotráfico”, afirmou Becerra.

“É evidente que Nicolás Maduro não representa uma liderança como chefe ou articulador de um cartel e, consequentemente, é falso concluir que esse chefe de Estado seja um articulador dos cartéis de drogas”, cravou.

Ao detalhar a dinâmica regional do narcotráfico, Becerra contrasta a situação venezuelana com a dos países que concentram efetivamente a produção de cocaína na América do Sul.

“Nós, na Colômbia, temos em média cerca de 260 mil hectares de cultivo de coca e uma produção potencial de aproximadamente 3 mil toneladas métricas de cocaína. Somos, sem dúvida, um dos maiores países produtores, junto com outros países andinos como o Peru e a Bolívia. Em nenhuma cifra oficial o Estado venezuelano, a geografia da Venezuela, se aproxima desses números”, afirmou o parlamentar.

Para Vianna, a alegação do narcotráfico perde centralidade à medida que o próprio discurso de Trump passa a revelar o objetivo real da operação.

“Isso é justificativa. Eles querem o petróleo, não tem nada a ver com narcotráfico. O próprio Trump deixou isso muito claro na coletiva, quando passou a falar da administração da Venezuela e do petróleo”, diz o jornalista.

Becerra, por sua vez, chama atenção para o uso recorrente desse tipo de acusação como instrumento de política externa dos Estados Unidos.

“A categoria de ‘narcoestado’ é uma etiqueta política utilizada para justificar ações de caráter militar e intervencionista contra governos que não se alinham à lógica imperial dos Estados Unidos”, afirmou.

“Esse tipo de intervenção favorece a militarização das fronteiras, reorganiza – e não elimina – as rotas do narcotráfico e enfraquece os processos de integração regional”, avaliou.

Na opinião do deputado colombiano, a acusação também desloca indevidamente a responsabilidade pela crise das drogas nos Estados Unidos, ao atribuí-la a um país que não ocupa papel central na produção ou no abastecimento do mercado norte-americano.

“A Venezuela não pode ser responsabilizada pelo problema do narcotráfico ou das drogas nos Estados Unidos. Trata-se de um problema interno, que não está ligado à produção de cocaína no território venezuelano”, afirmou.

Ao tratar das consequências práticas desse tipo de intervenção, Becerra afirma que o impacto vai muito além da Venezuela e se manifesta de forma direta em toda a região, especialmente nas zonas de fronteira.

“Esse tipo de intervenção favorece a militarização do território e das fronteiras, contribui para a degradação humanitária nessas zonas e provoca um reacomodo das rotas do narcotráfico e das economias criminosas, que não desaparecem, mas se adaptam às novas circunstâncias”, afirmou.

Segundo Becerra, o intervencionismo tem efeitos diretos sobre a cooperação entre os países da região. A lógica adotada, segundo ele, “rompe com as possibilidades de integração regional, não prioriza a diplomacia para resolver os conflitos e atenta contra a paz e a segurança de Nossa América”.

O parlamentar sustenta ainda que a ofensiva liderada pelos Estados Unidos não deve ser lida como um episódio isolado restrito à Venezuela. 

“Essa ameaça não é apenas contra a Venezuela. É uma ameaça contra toda a região latino-americana”, afirmou, ao defender a necessidade de uma resposta coletiva. A seu ver, diante da escalada intervencionista, “é preciso preparar uma resposta regional articulada” para preservar a soberania dos países da América Latina.

PCdoB: Repúdio ao criminoso ataque contra Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/pcdob-protesta.html

Força bruta imperialista

O sequestro de Maduro e a nova era da Doutrina Monroe na América Latina
Ações violentas da Casa Branca rompem normas globais ao raptar líder venezuelano, resgatando táticas de força bruta para subjugar o continente
Davi Molinari/Vermelho  

A operação criminosa perpetrada pelos Estados Unidos contra a Venezuela neste início de 2026 marca uma ruptura drástica na legalidade internacional. A incursão da Força Delta, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, é classificada por analistas como uma “inflexão perigosa”. Trata-se da passagem da interferência velada para a agressão aberta, reeditando o “Big Stick” (Grande Porrete) de Theodore Roosevelt sob a roupagem do chamado Corolário Trump.

Para o jornalista José Reinaldo Carvalho, presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz, a gravidade do episódio é inédita. “Trata-se de uma operação brutal, destinada a impor pela violência aquilo que Washington já não consegue assegurar por meio da diplomacia”, afirma. Carvalho classifica a ação como “inequivocamente criminosa” por violar a Carta das Nações Unidas. Ao sequestrar um presidente constitucional, os EUA “normalizam a agressão armada como método permanente de dominação”.

O legado de agressões dos EUA na América Latina

A socióloga Rita Coitinho, secretária-geral do Cebrapaz, destaca que, embora o sequestro de um chefe de Estado na América do Sul seja um fato novo, a região carrega cicatrizes de ações similares no Caribe. Foi caso da Operação Causa Justa no Panamá (1989), uma invasão militar em larga escala com o objetivo de capturar o então líder militar Manuel Noriega, que deixara de ser um aliado truculento dos próprios Estados Unidos na América Central. A justificativa, também, foi o narcotráfico. Mas, segundo Coitinho, “uma entrada direta de forças dos EUA, de forma tão declarada e assumida publicamente em coletiva, é algo sem precedentes na América do Sul”.

A professora Ana Penido, do Instituto de Relações Internacionais e Defesa da UFRJ e pesquisadora do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (Gedes), alerta para a comparação que a mídia tem feito do ataque atual à Venezuela com o caso panamenho. Além de contexto e realidade muito diferentes, “o perigo de usar o Panamá como parâmetro é imaginar que o desfecho será o mesmo. A Venezuela tem uma retaguarda estratégica com China e Rússia que o Panamá não tinha”, pondera. Segundo Penido, o governo bolivariano permanece ativo e a mobilização para recuperar os líderes está em curso.

Na visão da professora, a defesa venezuelana se baseia em “povo intensivo e resistência prolongada”, na lógica do Vietnã. Ela revela que bombardeios atingiram áreas civis simbólicas, como o mausoléu de Hugo Chávez. “O Chávez é um consenso no país. Defender o bombardeio de áreas civis e de um Estado nacional não é algo simples, mesmo para quem é contra o Maduro”, explica.

O Brasil no alvo e a defesa da soberania

A ataque acende um alerta vermelho para o Brasil. Para José Reinaldo Carvalho, “o agressão à Venezuela é uma declaração de guerra contra toda a América Latina. O Brasil torna-se alvo potencial de pressões e desestabilização”. Nesse cenário, Rita Coitinho observa que o Brasil ainda mantém dependência de equipamentos militares dos EUA e de Israel. “Seria preciso romper com uma extensa cadeia de dependência. É necessário investimento na indústria de defesa interna”, defende.

Ana Penido conclui que o Brasil deve construir um pensamento de defesa compatível com sua estatura e em conjunto com os vizinhos. “Sozinhos, não teremos espaço nesse duelo de gigantes entre EUA, Rússia e China”. O que se desenha, como define Carvalho, é uma “nova era de colonialismo” que exigirá estratégia e unidade dos povos latino-americanos.

O Brasil e o histórico de agressões dos EUA

O Brasil, ao longo de sua história recente, sofreu ataques diretos e indiretos dos Estados Unidos em diferentes momentos: em 1964, com a Operação Brother Sam, que apoiou o golpe militar contra João Goulart e instaurou a ditadura militar de 21 anos, que é a gênese do pensamento golpista que levou aos ataques de 8 de Janeiro de 2023; e em 2013, quando as revelações de Edward Snowden expuseram a espionagem da NSA sobre as comunicações da presidência da República, visando informações estratégicas sobre o pré-sal. 

A espionagem norte-americana ocorreu justamente quando o Brasil buscava consolidar o pré-sal como ativo soberano e estratégico para seu futuro energético, mas esse projeto foi atravessado por pressões externas e internas que se intensificaram com a Operação Lava Jato, fragilizando a Petrobras, corroendo sua imagem pública e abrindo caminho para a crise política que culminou no golpe contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016; na gestão seguinte, sob Michel Temer, vieram mudanças decisivas no marco regulatório, que  retiraram a obrigatoriedade da Petrobras ser a operadora única dos blocos do pré-sal e que concederam benefícios tributários às empresas estrangeiras na exploração e produção de petróleo e gás, medidas que reduziram o papel estratégico da estatal e ampliaram a abertura do setor ao capital internacional.&nbs p;

O conjunto desses episódios, somado às questões ainda recentes do tarifaço de Donald Trump, demonstra que o Brasil permanece vulnerável às práticas de intervenção de Washington, seja pela via de apoio a rupturas institucionais, pela guerra tecnológica da informação, pela pressão econômica sobre recursos estratégicos, ou, agora, como demonstrado na Venezuela, por uma intervenção militar, diretamente.  

Linha do Tempo: O histórico de agressões dos EUA na América Latina (1950–2026)

  • 1954 – Guatemala: Operação PBSuccess derruba Jacobo Árbenz para proteger a United Fruit Co.
  • 1961 – Cuba: Fracasso da invasão da Baía dos Porcos organizada pela CIA.
  • 1964 – Brasil: Operação Brother Sam garante apoio logístico e naval ao golpe contra João Goulart, iniciando 21 anos de ditadura.
  • 1965 – Rep. Dominicana: Invasão (Operação Power Pack) para impedir o governo nacional-popular de Juan Bosch.
  • 1973 – Chile: Projeto FUBELT; apoio direto ao golpe de Pinochet contra Salvador Allende.
  • 1973 – Uruguai: Apoio político e treinamento de forças de segurança que culminaram no golpe de Juan María Bordaberry.
  • 1975–1980 – Cone Sul: Coordenação da Operação Condor, unindo os aparatos repressivos de Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia para o extermínio de opositores.
  • 1976 – Argentina: Apoio diplomático e de inteligência à junta militar liderada por Jorge Rafael Videla.
  • 1981–1990 – Nicarágua: Financiamento ilegal aos “Contras” para desestabilizar os sandinistas (Escândalo Irã-Contras).
  • 1983 – Granada: Invasão militar (Urgent Fury) para derrubar o governo de Maurice Bishop.
  • 1989 – Panamá: Operação Causa Justa; invasão militar e captura do presidente Manuel Noriega.
  • 1994/2004 – Haiti: Intervenções militares para restauração e posterior deposição forçada de Jean-Bertrand Aristide.
  • 2002 – Venezuela: Suporte político e financeiro da CIA ao golpe frustrado contra Hugo Chávez.
  • 2008 – Bolívia: Apoio a grupos opositores contra Evo Morales, levando à expulsão da DEA e da CIA do país.
  • 2009 – Honduras: Apoio tácito ao golpe militar que removeu Manuel Zelaya da presidência.
  • 2013 – Brasil (Espionagem do Pré-Sal): Revelações expõem que a NSA espionou comunicações da Presidência da República e da Petrobras para obter dados estratégicos sobre as reservas do pré-sal.
  • 2025 – Venezuela: Trump autoriza ataques letais da CIA contra embarcações venezuelanas, resultando em 27 mortes.
  • 2026 – Venezuela (Inflexão Atual): Operação da Força Delta realiza o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da liderança bolivariana, instaurando uma crise de soberania sem precedentes no século XXI.

Lula condena ataque à Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/lula-protesta-contra-agressao-venezuela.html 

Soberania ultrajada

SEQUESTRADO
Autor do crime: Donald Trump
ICL Notícias  

A não ser pela extrema direita mais fanática (como os bolsonaristas, por exemplo), são raros os políticos de peso em todo o mundo que tenham expressado aprovação pela operação militar empreendida pelos Estados Unidos neste sábado (3) para sequestrar na Venezuela o presidente do país, Nicolás Maduro. A ilegalidade do ataque ordenado por Donald Trump é flagrante e viola um pressuposto básico do direito internacional: a soberania dos países.

O destaque vai para  a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen. Mesmo opinando que “havia mil razões para condenar o regime de Nicolás Maduro: comunista, oligárquico e autoritário”, ela  destacou em sua manifestação que “a soberania dos Estados jamais é negociável, independentemente de seu tamanho, poder ou continente. É inviolável e sagrada”

A nota negativa veio do presidente francês, Emanuel Macron, que não fez objeção aos métodos de Trump, e defendeu que Edmundo González Urrutia seja oficializado como presidente.

A chefe de política externa da União Europeia, Kaja Kallas, repetiu  a opinião de que Maduro não tem legitimidade, mas apelou que os princípios do direito internacional sejam respeitados.

Também gigantes da imprensa internacional manifestaram sua condenação ao ataque de Trump à Venezuela. Foi o caso do New York Times, que expressou em editorial uma das críticas mais duras ao presidente neste segundo mandato.

No Brasil, veículos que nunca mostraram nenhuma simpatia por Maduro, como a Folha de S. Paulo, O Globo e a Globonews, também repudiaram o ataque de Trump.

Do ponto de vista jurídico, a análise mais abalizada veio da ex-juíza do Tribunal Penal Internacional, Sylvia Steiner, em entrevista ao Consultor Jurídico: o que o governo Trump fez foi crime de agressão.

Diante disso, não há dúvida de que, por mais críticas que se possam fazer a Maduro, ele está longe de ser o responsável pelos crimes de que o presidente dos Estados Unidos o acusam.

Maduro é, na verdade, vítima de sequestro ordenado por Trump.

Lula condena ataque à Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/lula-protesta-contra-agressao-venezuela.html 

Palavra de Alexandre Ramos

Oração para 2026
Alexandre Ramos   

Sempre faço uma trovinha no início do ano. Mas acho que 2026 merece uma oração. Assim sigamos:

Começamos 2026 reconhecendo
que o futuro nasce das nossas escolhas.
Venha a nós a justiça, reconhecida como valor central
e que o bem comum guie nossas preferências.
Seja feito o futuro que desejamos
e comece a ser construído agora.
Que as eleições sejam transparentes
e que a vontade do povo seja respeitada.
Assim na terra, como em quaisquer decisões coletivas.
Que os espaços de poder representem melhor a sociedade,
com menos privilégios concentrados
e mais mulheres participando da condução do país.
Que o necessário de cada dia
— o alimento, o trabalho, a dignidade —
seja garantido a todas e todos.
Que a comida seja mais saudável,
produzida com respeito à terra
e acessível como direito.
Que saibamos reconhecer erros
e corrigir caminhos,
rompendo ciclos de desigualdade e exclusão.
Que não naturalizemos a injustiça
nem a indiferença.
Que não sejamos conduzidos pelo medo,
pela mentira ou pelo ódio,
mas fortalecidos pelo cuidado,
pela escuta e pela responsabilidade compartilhada.
Porque o futuro que virá
depende do que fazemos agora.
O poder de transformá-lo está entre nós,
nas escolhas cotidianas
e na ação coletiva.
Assim entramos neste ano,
compromissados com a vida,
com a democracia
e com a humanidade.

É o que desejam Alexandre, Neguinha e filhos.

[Ilustração: Roberto Lúcio]

Leia também: "Ensinamento", um poema de Adélia Prado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/palavra-de-poeta_54.html

Arte é vida

 

Leonce Raphael Agbodjélou

Veja e ouça: Chico Buarque "Mil perdões" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/chico-buarque-mil-perdoes.html 

Minha opinião

Para não dizer que não falei em cajus
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65 

 

Mudemos de assunto, vamos falar de coisas mais amenas. Essa é uma saída comum quando estamos diante de situação conturbada ou conflitante. Na política, então, nada mais útil.

Assim, hoje, quarta-feira, 6 de junho, deste abençoado ano de 2012, bem que podemos abstrair os embaraços da política local e conversar sobre cajus. Uma boa pedida, sem dúvida.

Numa leitura despretensiosa de importante estudo escrito feito por Filadelfo Tavares de Sá, Francisco Fábio de Assis Paiva e Francisco de Assis Marinho, técnicos da Embrapa, descobri que o cultivo da fruta implica em escolher e preparar o terreno, identificar a melhor muda, a hora certa e o modo de plantar, os cuidados com a plantação e o modo de colher, armazenar e comercializar. Não é simples, implica ciência, técnica e arte.

Há quem diga que o plantio e o uso do caju vem desde a Era Neolítica, bote tempo nisso! Surgiu naturalmente, numa espécie de processo de tentativas e erros, na busca do homem primitivo de reproduzir plantas que se mostravam úteis ao seu sustento.

Curioso é que, segundo os estudiosos do assunto, o 
caju, fruto do cajueiro (Anacardium occidentale) é na verdade um pseudofruto. Ele se constitui de duas partes: o fruto propriamente dito, que é a castanha, e seu pedúnculo floral, descrito como um corpo piriforme, amarelo, rosado ou vermelho.

Nem desconfiavam seus primeiros cultivadores as múltiplas benesses do caju, conforme as temos cá em nossas palgas. Porque além de suas vantagens nurtritivas e medicinais, devidamente comprovadas em pesquisas de laboratório, tem o apreciado fruto presença indispensável em mesas de bares, botecos e nas boas casas de família, complemento a uma boa pinga. O tira-gosto, ou ponche.

De fato, o pseudofruto, aquela parte que a gente mastiga, é rico em citamina C e ferro. E não perde suas propriedades, seja consumido in natura, seja transformado em suco, mel, doce, passa, rapadura e que mais se possa com ele inventar.

O fruto, ou seja a castanha, por sua vez é rica em fibras, minerais (magnésio, ferro, potássio, selênio, cobre e zinco) e vitaminas (A, D, K, PP, E). Serve para diminuir o colesterol ruim e ajuda no tratamento de doenças renais e diabetes e ainda dá um empurrãozinho na melhora de doenças de pele decorrentes da falta de colágeno. Mais: dela se extrai o óleo de ação antisséptica e vermicida e de largo uso (seu principal componente, o ácido anacárdico) na indústria química.

E que tem isso a ver com os desafios eleitorais de 2026? No mínimo serve como fonte de inspiração aos atores na cena política dispostos a encarar contradições e conflitos mediante ação abrangente e diversificada, fazendo o bem, como o caju e a castanha em suas múltiplas serventias.

[Se comentar, identifique-se]

PCdoB: a guerra da comunicação https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-do-pcdob-guerra-da-comunicacao.html

Palavra de poeta

Falarão meus poemas pelas ruas...
Lucila Nogueira  

Falarão meus poemas pelas ruas
de cor como receita de viver
e aqueles que sorriam pelas costas
recitarão meus versos sem os ler

Falarão meus poemas pelas ruas
de cor como receita de viver
dirão que fui um mar misterioso
onde quem navegou não esqueceu

Falarão meus poemas pelas ruas
de cor como receita de viver
dirão que era poesia e não loucura
meu jeito de sonhar todos vocês

Falarão meus poemas pelas ruas
de cor como receita de viver
perguntarão por que vivi tão pouco
sem dar-lhes tempo de me perceber

— e aqueles que sorriam pelas costas
recitarão meus versos sem os ler

[Ilustração: Anastasiya Matveeva]

Como o mundo pode regular a inteligência artificial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/agencia-internacional-de-ia.html