05 novembro 2026

Editorial do 'Vermelho'

Neofascismo sofre duro revés nos Estados Unidos
A derrota do trumpismo teve o povo como protagonista e deriva de mais um fracasso do imperialismo estadunidense de tentar reverter o declínio, dessa vez pelo extremismo de direita
Editorial do 'Vermelho'       

Os eleitores estadunidenses impuseram, em 3 de novembro de 2026, uma derrota de grandes proporções ao governo de Donald Trump e ao seu Partido Republicano nas eleições de meio de mandato, retirando-lhe o controle da Câmara dos Representantes e do Senado e transferindo aos democratas a maioria nas duas casas do Congresso, em uma reconfiguração política que atingiu inclusive redutos historicamente ligados ao campo republicano. A mobilização vitoriosa da oposição reuniu jovens, trabalhadores, ampla maioria do eleitorado latino, republicanos que romperam com Trump e eleitores sem filiação ou identificação partidária.

Em dois anos, fugiu dos pés de Trump uma maioria social e política que fora capturada com a pregação ilusionista, típica do fascismo, de uma América grande outra vez e da restauração do “sonho americano” de prosperidade reduzido a pesadelo pela perda de dinamismo de sua economia sob a corrosão do rentismo e do parasitismo.

Trump, agora, se esquiva da derrota. Todavia, em cerca de vinte comícios fez um apelo para que o eleitorado votasse como se o nome dele estivesse grafado nas cédulas. Por entender de que era, exatamente, disso que se tratava, grande parte do povo rechaçou as candidaturas do Partido Republicano.

O desgaste do trumpismo ficou nítido nos índices de sua desaprovação. Levantamento do instituto estadunidense Pew Research Center, realizado entre 28 de setembro e 4 de outubro de 2026, revelou que 68% dos adultos desaprovavam a gestão de Trump. Sua conduta neofascista também é amplamente rejeitada. Levantamento do Public Religion Research Institute, em parceria com a Brookings Institution, revelou que 58% dos estadunidenses consideravam o presidente um ditador potencialmente perigoso, cujo poder deve ser limitado para impedir a destruição da democracia.

A pesquisa identificou que 61% manifestavam opinião desfavorável ao seu MAGA (Make America Great Again) – Fazer a América Grande Novamente –, um movimento de extrema-direita. Uma pesquisa da Universidade Yale também identificou ampla oposição à prática de Trump de afrontar decisões judiciais, perseguir adversários políticos por meio do Departamento de Justiça e contornar prerrogativas do Congresso.

A ofensiva contra as universidades também é amplamente rejeitada. Pesquisas nacionais registraram oposição majoritária aos cortes de financiamento científico, à interferência governamental na autonomia acadêmica e à utilização de recursos federais como instrumento de pressão política. Em levantamento divulgado em outubro de 2025, 64% dos estadunidenses rejeitaram cortes nas verbas de pesquisa científica, enquanto 70% defenderam que decisões sobre admissões, contratação de professores e currículos permanecessem sob responsabilidade das próprias instituições.

O trumpismo perdeu terreno em seu alicerce institucional e territorial. A derrota republicana não se limitou ao Capitólio. A onda eleitoral alcançou os governos estaduais, com a conquista democrata de pelo menos cinco governos antes controlados pelos republicanos, inclusive em redutos tradicionais da direita, como o Texas. Os democratas também avançaram nas assembleias legislativas estaduais, romperam maiorias republicanas e conquistaram governos estaduais completos em importantes unidades da Federação.

O resultado refletiu a convergência de fatores econômicos, sociais e geopolíticos, como o custo de vida pressionado pela inflação, os efeitos dos tarifaços sobre os preços e o consumo e a política de guerras. Trump voltou à Casa Branca em 2025, com maioria republicana nas duas casas do Congresso, prometendo restaurar a supremacia estadunidense, reverter a decadência do império e conter a ascensão da China. Dizia que faria a “América” grande novamente por meio da reindustrialização, do protecionismo, dos tarifaços e do fechamento das fronteiras aos imigrantes. Essa conduta só fez aumentar as contradições de uma economia financeirizada, socialmente desigual e altamente belicosa.

O fracasso é retumbante. A promessa de recuperar empregos industriais, trazer de volta as fábricas transferidas para o exterior e elevar os salários dos trabalhadores com a reindustrialização do país fez água. Os tarifaços não reverteram a perda de competitividade industrial, pressionaram os preços e agravaram a insegurança econômica.

A inflação e o custo de vida elevado permaneceram, enquanto a deportação em massa de imigrantes provocou indignação local e mundial pela brutalidade das operações conduzidas pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), além de aprofundar as dificuldades de setores produtivos que dependem desses trabalhadores. A ofensiva contra a China tampouco conteve a sua influência econômica, tecnológica e diplomática, nem impediu a ampliação de suas parcerias internacionais, inclusive na Europa.

O resultado das eleições expressa nitidamente a composição social predominante do eleitorado que rejeitou o trumpismo. De acordo com o jornal The Washington Post, mais de 60% dos latinos votaram nos democratas, enquanto, entre os eleitores negros, a votação oscilou entre 83% e 90%. As mulheres deram aos democratas 56% dos votos, contra 41% aos republicanos. Entre os jovens de 18 a 29 anos, a vantagem foi ainda mais acentuada, com votação democrata entre 66% e 70%, diante de 25% a 31% para os republicanos.

É importante considerar que o pujante movimento que se contrapôs ao trumpismo não se organizou somente pelas estruturas do Partido Democrata. Foi construído, em grande medida, por uma rede descentralizada de sindicatos, organizações comunitárias, movimentos de juventude, entidades de defesa dos direitos civis e associações progressistas, que estabeleceram formas próprias de mobilização, comunicação e organização eleitoral. Foi uma vitória com forte marca da tomada de posição do povo e da sociedade civil.

A resistência também se manifestou nas grandes mobilizações populares contra as políticas do governo, articulando reivindicações distintas em torno da defesa dos direitos civis, da proteção aos imigrantes, da igualdade racial e dos direitos das mulheres. O assassinato de George Floyd, em maio de 2020, constituiu um ponto de inflexão nessa dinâmica. A brutalidade policial desencadeou uma das maiores ondas de mobilização popular da história recente dos Estados Unidos.

É relevante que, no coração de um império em decadência, o maior inimigo da paz e dos povos, se manifeste essa tomada de posição do povo em defesa da paz, contra o genocídio do povo palestino, contra a política de guerra, de repulsa à verdadeira caçada aos imigrantes, contra o fascismo pela democracia, por direitos e melhor qualidade de vida e de combate aos ganhos fabulosos dos bilionários. Se o fascismo perde base social passa faltar-lhe oxigênio e tende a declinar.

O resultado das eleições estadunidenses reflete uma superpotência encurralada que não encontra caminho para reverter o declínio em contraface à ascensão assertiva da República Popular da China, independentemente do inquilino da Casa Branca. Mas é um forte sinal positivo para o mundo, posto que representa um revés para a ascensão do neofascismo.

Para o Brasil, tem o significado de fortalecimento da posição do país na geopolítica. Como observou o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, há uma relação entre a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais e a derrota do trumpismo. Esse reforço amplia a margem do presidente Lula para interlocução com autoridades mundiais, inclusive explorando as contradições que se agravam no status quo dos Estados Unidos.

Mas é preciso fazer a ressalva de que a presente derrota não equivale a um atestado de óbito de Trump. Ele tende a reagir. Ele respondeu à perda do Congresso com a imagem de um boné vermelho estampado com a palavra Veto, uma ameaça de uso do seu poder presidencial para barrar projetos aprovados pelos democratas. Disse que tem ciência de que a guerra contra o Irã lhe impôs a derrota, mas que não se arrepende de nada e faria tudo outra vez.

O próprio Partido Democrata, cuja política fracassada foi um dos fatores da eleição de Trump, em 2024, tem feito uma oposição tíbia e vacilante, resultado de sua essência programática imperialista tanto quanto a dos republicanos, embora tenha personalidades e alas que destoam e se conflitam com esse paradigma. As contradições internas e externas do império, que levam a um declínio cada vez mais acentuado, tendem a se agravar e o caminho da resistência é a mobilização do povo, como ficou demonstrado mais uma vez.

Nas redes, mas nem tanto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/meu-dialogo-digital.html  

Palavra de poeta

Sentimento do mundo
Carlos Drummond de Andrade        

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

[Ilustração: José Cláudio]

Leia também "A estrela da manhã", poema de Manuel Bandeira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_28.html 

Fotografia

 

Beatriz Díez Lopez 

Elogio a quem tem audácia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/editorial-do-vermelho.html 

Minha opinião

Vencemos. E agora?*
Luciano Siqueira        

A reeleição de Lula no segundo turno, sustentada por intensa mobilização social nas ruas e nas redes, se projeta para muito além da vitória eleitoral e impõe desafios de grande magnitude. 

Um é rechaçar trincheiras poderosas da oposição. 

A maioria parlamentar de direita e de extrema direita é uma delas. Não será simples negociar consensos pontuais e momentâneos, por maior habilidade que o presidente Lula tenha (e tem muita), assim como os nossos quadros parlamentares mais experientes e afeitos à tarefa.

Outra é o complexo midiático neoliberal - que se expressa como poderosa corrente de opinião essencialmente contrária aos interesses fundamentais da nação e do povo.

Fez esforço intenso e articulado em favor de uma candidatura presidencial de confiança, sob o rótulo de "terceira via" (preferencialmente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos) e se frustrou.

Resistiu o quanto pôde à alternativa bolsonarista, porém aderiu a Flávio Bolsonaro como instrumento disponível na tentativa de derrotar Lula. 

Desde o dia seguinte ao pleito segue o cerco sobre o governo tendo como bandeira imediata o pretendido ajuste das contas públicas em dimensão que, na prática, inviabilizaria os propósitos fundamentais do governo.

Daí o segundo desafio: manter articuladas e ativas as forças sociais que ganharam as ruas e as redes e forjaram a maioria eleitoral. 

Também não é simples. 

A mobilização que ganhou expressão praticamente em todas as partes do país, incluindo cidades médias e pequenas do interior, contém no seu bojo expectativas populares que não poderão jamais ser frustradas. 

Compreender as aspirações da maioria da população nesse instante, identificar o que há de novo no comportamento da juventude mais ativa, dos trabalhadores e da intelectualidade é um desafio. 

Isto porque não funcionaria a repetição pura e simples de formas de abordagens que vigoraram até um passado relativamente recente.

Nem a supervalorização de experiências como a do “Exército de Lula” no WhatsApp.

Para muito além da manutenção do nível do emprego e até da ampliação dos programas sociais compensatórios - Bolsa Família, Pé de Meia, Luz para Todos, Minha Casa, Minha Vida, etc. – imprescindível é arrostar a necessidade de reformas estruturais, sem as quais, a médio e longo prazo, as expectativas do povo e de segmentos sociais progressistas se frustrarão.

Aí reside um dado de consciência política programática ainda à margem do debate. Introduzi-lo implica bem sucedido esforço teórico e político  que aborde em profundidade os entraves ao desenvolvimento nacional.

Nada simples, porém possível, desde que se ponha em movimento uma massa crítica verdadeiramente empenhada e influente.

*Minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

O “gosto amargo” da necessária amplitude https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01301628229.html 

Boa notícia

Lula realiza reunião com economistas e amplia a discussão sobre cenários alternativos tendo como referência o desenvolvimento nacional e os direitos do povo. 

Em Manifesto, economistas rejeitam “terceiro turno do mercado” após vitória de Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/soberania-popula-x-mercado.html 

Arte é vida

 

Wassily Kandinsky 

Flexibilidade reacionária https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0212515101.html 

Bom sinal

Brasil gera 121,3 mil empregos formais em setembro e acumula 1,24 milhão de vagas no ano
Serviços e Nordeste puxam criação de postos com carteira assinada; mulheres e jovens até 24 anos lideram contratações. Salário médio de admissão supera R$ 2,4 mil
Cezar Xavier/Vermelho    

O mercado de trabalho brasileiro manteve a trajetória de aquecimento e gerou 121.305 novos empregos com carteira assinada em setembro de 2026. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (4) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio do Novo Caged. Com o resultado, o estoque total de trabalhadores formais no país alcançou a marca de 48,3 milhões de vínculos ativos.

O saldo positivo de setembro é reflexo de um mercado dinâmico: foram registradas 2,21 milhões de admissões contra 2,09 milhões de desligamentos. A tendência de expansão também se consolida no acumulado do ano: de janeiro a setembro de 2026, o país criou 1,24 milhão de novas vagas formais, o que representa um crescimento de 2,65%.

Um mercado dinâmico com saldo positivo significa que o tempo médio de desemprego tende a cair. Se um trabalhador perde o emprego, a probabilidade estatística de encontrar uma nova vaga formal rapidamente é maior, pois as empresas estão em ritmo de contratação, não de encolhimento.

No recorte de 12 meses (entre outubro de 2025 e setembro de 2026), o emprego formal no país avançou em 787.073 postos, registrando alta de 1,65%.

O motor dos Serviços e a força do Nordeste

A geração de vagas em setembro foi generalizada, com quatro dos cinco grandes grupos econômicos registrando saldos positivos. O setor de Serviços foi o grande protagonista, abrindo 81.241 postos. O desempenho foi impulsionado principalmente por Atividades Administrativas e Serviços Complementares (+18.386), Saúde Humana e Serviços Sociais (+15.403) e Transporte, Armazenagem e Correio (+13.240).

A Indústria (+19.285), o Comércio (+15.697) e a Construção (+9.468) também contribuíram para o resultado nacional. Apenas o setor da Agropecuária registrou retração, com o fechamento líquido de 4.381 vagas.

Geograficamente, o Nordeste liderou a criação de vagas no mês, com 49.142 novos postos, superando o Sudeste (39.404). O Norte (14.748), o Sul (9.949) e o Centro-Oeste (7.894) também fecharam o mês no azul.

No passado, o “motor” do emprego estava quase exclusivamente concentrado no eixo Sul-Sudeste, forçando milhões de pessoas a migrarem para grandes metrópoles, enfrentando custos de vida altíssimos. Agora, o Nordeste é o protagonista.

Entre os estados, 26 das 27 unidades da Federação apresentaram saldo positivo. Em números absolutos, São Paulo liderou com 19.391 novas vagas, seguido por Pernambuco (13.371) e Alagoas (11.110). Em termos relativos, Alagoas apresentou o maior crescimento do país (2,47%), seguida pelo Amapá (1,35%) e Roraima (1,23%).

Estados com crescimento relativo alto (como Alagoas, Amapá e Roraima) muitas vezes têm um custo de vida menor que São Paulo, o que faz com que o salário tenha um poder de compra ainda maior nessas localidades.

Mulheres e jovens lideram contratações

O recorte populacional do Caged revela um mês de inclusões importantes e diversidade nas contratações. As mulheres assumiram a frente na geração de vagas, com saldo de 62.989 postos, contra 59.129 dos homens.

A juventude também foi o principal beneficiário do aquecimento do mercado: a faixa etária de até 24 anos concentrou o maior volume de novas oportunidades, com 106.293 postos abertos.

Na análise por raça, trabalhadores pardos lideraram as contratações (96.805), seguidos por pretos (17.416), brancos (15.493), amarelos (229) e indígenas (80). Em relação à escolaridade, o ensino médio completo foi o nível mais contemplado, com 82.818 novas admissões, seguido pelo ensino médio incompleto (17.258).

Historicamente, jovens (no primeiro emprego), mulheres (devido a desigualdades de gênero) e população negra/parda enfrentam mais barreiras para entrar no mercado formal. Quando os números mostram que esses grupos estão liderando a criação de vagas, isso indica uma redução da desigualdade estrutural.

Rendimento real em alta

Além do volume de vagas, a qualidade do rendimento também mostrou evolução. O salário médio real de admissão em setembro foi de R$ 2.429,41, um aumento de 1,88% (R$ 44,90) na comparação com o mesmo mês de 2025.

Para os trabalhadores considerados típicos (aqueles com vínculos empregatícios tradicionais e jornadas integrais), o salário real de admissão foi de R$ 2.480,24 (2,09% acima da média geral). Já para os não típicos, a média ficou em R$ 2.054,61.

Existe diferença entre “aumento nominal” (o número no contracheque sobe, mas os preços no mercado sobem junto, anulando o ganho) e “aumento real”. O termo “real” aqui significa que o salário subiu acima da inflação. Esses R$ 44,90 extras (em média) não são corroídos pelo aumento do preço da comida ou do transporte. Eles representam um aumento genuíno no poder de compra.

Os números de setembro reforçam a resiliência da economia brasileira na reta final de 2026, demonstrando que o mercado de trabalho segue como um dos principais motores de sustentação do consumo e da atividade econômica no país. Os números não mostram apenas que a economia está “girando”. Eles mostram que esse giro está gerando empregos de qualidade (formais), incluindo grupos vulneráveis e pagando salários que realmente compram mais.

Luciana Santos destaca ações de Lula para conter fuga de cientistas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/11/palavra-de-luciana.html