Sim, a seleção brasileira melhorou muito e mereceu vencer, mas não exageremos. A Escócia joga esquematicamente, sem criatividade.
Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
24 junho 2026
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Sim, a seleção brasileira melhorou muito e mereceu vencer, mas não exageremos. A Escócia joga esquematicamente, sem criatividade.
Qual Copa do Mundo?
A
última barreira da lógica no futebol
Será
que um dia teremos uma grande surpresa nas Copas? Propagandas de apostas
invadem as transmissões dos jogos
Tostão/Folha
de S. Paulo
Na Copa 2026,
como se esperava, acontece uma maciça propaganda comercial, especialmente de
casas de apostas, até na parada para hidratação durante as partidas.
Certamente crescerão o
número de viciados e os problemas mentais e financeiros. Muitos pobres gastam
na jogatina o dinheiro reservado para necessidades essenciais. É fácil apostar,
basta um clique. A mensagem no final dos anúncios comerciais que diz
"Jogue com responsabilidade" é um cínico conselho, como já escreveu
Sérgio Rodrigues, colunista desta Folha.
As enquetes, manchetes de
recordes, estatísticas e comparações, muitas inúteis, com tantas variáveis,
aumentaram bastante no Mundial. É a máquina de informações. As estatísticas
costumam ser importantes, mas é preciso olhar, com profundidade, para o campo e
para os números, como faz o colunista PVC.
Contra o Haiti, Carlo Ancelotti colocou Rayan porque
ele tem características parecidas às de Raphinha, que entrava com velocidade em
diagonal para receber a bola nas costas dos defensores adiantados.
Nesta quarta (24), contra a
Escócia, que deve ter uma marcação recuada, perto da área, Luiz Henrique pode
ser a melhor opção, por atuar aberto. Outra alternativa é escalar um
centroavante.
Ancelotti deve manter o trio no meio-campo, com Casemiro centralizado,
Bruno Guimarães de um lado e Paquetá do outro. Pela esquerda, Paquetá, com seus
precisos lançamentos, facilita para Vinicius Junior. Além disso, Matheus Cunha,
pelo meio e mais próximo à área adversária, não precisa voltar para marcar pela
esquerda. O meio-campo com três fica mais preenchido, marca e constrói com mais
eficiência.
As seleções, como se esperava, na média, estão mais intensas, compactas,
pressionando mais para recuperar a bola no campo do adversário e fazendo mais
gols. A Argentina foge do lugar comum, pois prefere marcar
mais no meio campo em vez de pressionar, além de não ter pontas abertos,
rápidos e dribladores.
Messi fez todos os cinco gols marcados
pela seleção. Além da enorme criatividade, precisão técnica e da grande
capacidade de definir rapidamente as jogadas, de tornar simples o que é
complexo, possui a sabedoria de esperar o momento certo para brilhar. Como ele
sabe? Sabendo.
Existe um saber
inconsciente que antecede o raciocínio. Os neurologistas chamam de inteligência
cinestésica.
Na Copa de 1994, nos EUA,
há 32 anos, os americanos e os japoneses diziam que iam investir bastante no
planejamento, na ciência esportiva, na formação de jogadores e que em 20 a 30
anos se tornariam uma potência mundial no futebol.
As duas e várias outras
seleções evoluíram bastante, possuem ótimas equipes e excelentes jogadores, mas
não chegaram a ponto de ser candidatas ao título da Copa. Faltam os craques.
Por quê?
Os motivos devem ser
culturais, sociais e genéticos. Parafraseando a musica de Noel Rosa, samba e
futebol não se aprendem no colégio. Craques não são apenas os atacantes que
fazem muitos gols.
Nos outros campeonatos com
jogos mata-mata espalhados pelo mundo, como a Copa do Brasil, de vez em quando
acontece uma surpresa, a conquista do título por uma equipe que não estava
entre as favoritas. Por que nunca aconteceu em uma Copa do Mundo? Penso que a
razão principal seja a seriedade com que as grandes seleções se preparam para a
maior competição do futebol mundial.
Será que um dia teremos uma
grande surpresa? É a última barreira da lógica a ser vencida pela
imprevisibilidade do futebol.
[Ilustração: Nelson Leirner]
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Futebol: estratégia e arte https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/futebol-estrategia-e-arte.html
Palavra do PCdoB
Avançar na construção da reeleição de Lula e na
vitória do projeto eleitoral do PCdoB
Resolução da Comissão Política Nacional do
PCdoB
A acirrada disputa presidencial brasileira transcorre sob os
impactos de um cenário mundial conturbado e marcado por transformações. O
imperialismo estadunidense, em razão de sua progressiva perda de hegemonia,
torna-se cada vez mais agressivo e beligerante. Arrasta o mundo para guerras e
desata uma corrida armamentista. As potências da Europa e a Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN) prorrogam a guerra entre Ucrânia e Rússia,
sabotam as propostas de paz e injetam na Ucrânia bilhões de dólares em armas.
Seguem em vigência tarifas unilaterais dos Estados Unidos, que afetam mais de
60 países, incluindo o Brasil. Como resultante, prognósticos de organismos
internacionais apontam a desaceleração do crescimento global para a taxa mais
baixa desde o início da pandemia de Covid-19, 2,5%, em meio a preços de energia
mais altos, inflação mais acentuada e aumento dos juros.
A ofensiva do
imperialismo estadunidense sobre América Latina e Caribe prossegue, com
ingerência aberta na Venezuela e interferência nas eleições da Colômbia e do
Brasil, com assinatura de acordos militares com 17 países da região e
exacerbação da pressão militar e do bloqueio econômico a Cuba. Os Estados
Unidos atuam para criar as condições para transformar todo o hemisfério em zona
estratégica de segurança nacional, sujeita a intervenção.
Em
contraposição, a resistência dos povos se robustece e emergem articulações e
parcerias, em especial do Sul Global, pela autodeterminação dos povos e pelo
direito dos países ao desenvolvimento soberano, e crescem, em vários países, as
mobilizações populares em defesa da paz.
A vitória do
governo e do povo do Irã sobre o eixo Estados Unidos e Estado de Israel, no
curso de uma assimétrica e pesada guerra que buscava impor um governo títere e
se apossar do petróleo iraniano, é mais uma prova de que a causa da soberania
nacional pode, sim, vencer. Apesar dos crimes de guerra cometidos, os Estados
Unidos tiveram que se curvar e assinar um cessar-fogo que patenteia a derrota.
Igualmente, exemplifica a força da causa nacional a resiliência e a resistência
de Cuba, que necessita de crescente e ativa solidariedade internacional. Do
mesmo modo, a Palestina e o Líbano, que continuam sob execrável ocupação de
tropas e hediondos ataques israelenses.
Candidatura de Lula
se fortalece, a de Flávio Bolsonaro perde força
No Brasil, se
afere que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avança na preferência do
eleitorado, ante o recuo de Flavio Bolsonaro, rompendo, neste momento, um
relativo equilíbrio que persistia desde dezembro de 2025.
As revelações
dos vínculos do candidato Flávio Bolsonaro com a corrupção do Banco Master e a
cena de subserviência a Donald Trump na Casa Branca, que resultou na
classificação das facções criminosas como “organizações terroristas” e um novo
tarifaço, impuseram-lhe perdas de apoio eleitoral, inclusive do eleitorado da
direita. As empresas nacionais, o povo, os empregos, o Pix e
o setor financeiro estão sob ameaças e prejuízos. O país fica exposto ao risco
de intervenções, inclusive ações militares.
Em termos de
traição ao Brasil, o clã Bolsonaro se supera a cada dia. Eduardo Bolsonaro que
mora nos Estados Unidos foi condenado, em 16 de junho, por unanimidade pela
Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Tramou a suspensão de vistos
pelos Estados Unidos a ministros do STF e outras autoridades, igualmente a
aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, e o tarifaço imposto
pelos Estados Unidos contra os produtos brasileiros. Apunhalou o Brasil, se
aliando a uma potência estrangeira, para coagir o Poder Judiciário, na
tentativa de livrar os golpistas da cadeia, a começar de seu pai.
Progressivamente,
grande parte do eleitorado passa ver Flávio Bolsonaro e sua família tal como
são: traidores da pátria atolados em escândalos de corrupção. Realidade que
favorece a intensificação da luta de ideias, que desmascare a verdadeira face
do candidato bolsonarista para mais camadas do eleitorado.
Todavia,
apesar de todo desgaste a base bolsonarista mantém apoio a Flávio Bolsonaro. E
as demais candidaturas da direita apresentam, até aqui, um desempenho
irrisório.
Já o
presidente Lula cresce por seu mérito de governar com a defesa da soberania
nacional de forma assertiva, vincando a convicção em largas camadas do povo de
um presidente que defende o Brasil e proporciona mais direitos, repelindo os
ataques de Trump e enfrentando a subserviência do clã Bolsonaro.
Lula
beneficia-se também da percepção popular sobre medidas como a ampliação da
faixa de isenção do Imposto de Renda de Pessoa Física, que beneficia mais de 15
milhões de contribuintes; o Desenrola 2.0, que já beneficiou mais de 6 milhões
de pessoas; o programa Acelera INSS, um conjunto
de medidas para reduzir ou zerar o número de requerimentos de benefícios que
estão atrasados.
O desenrolar
da disputa vai dando mais nitidez aos perfis dos candidatos, com uma
desproporção gigantesca entre a autoridade política e moral do presidente Lula,
em seu país e no exterior, face a face com um adversário cujo principal de seu
currículo é uma ficha corrida de vínculos com as milícias, casos de corrupção e
parceria com o pai no golpismo contra a democracia. Além da mediocridade, é
claro.
De conjunto,
o campo governista deve aproveitar este momento favorável. Talvez o melhor da
pré-campanha. Mas é preciso repelir qualquer euforia e manter a consciência de
que a disputa segue dura e acirrada. Não se pode subestimar a pressão
imperialista e a produção de falcatruas para favorecer a candidatura da extrema
direita. É preciso estar alerta e exigir que a Justiça Eleitoral e as
instituições democráticas brasileiras combatam a ingerência estrangeira e os
crimes eleitorais nas eleições de 2026.
A perspectiva
de poder avivada, nesta fase, cria maiores possibilidades para ampliar os
apoios, alargar ao máximo a aliança e reforçar a composição dos palanques
estaduais.
É necessário
prosseguir com novas conquistas para o povo. No presente, se destaca a grande e
decisiva batalha para aprovar, também no Senado Federal, a significativa
vitória na Câmara dos Deputados com a aprovação da Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) que propõe o fim da escala 6×1 e a redução da jornada máxima
de trabalho. Razão pela qual a extrema direita e a direita estão bloqueando a
sua tramitação.
É imperativo
que se eleve o empenho do governo, mas a vitória, de sentido histórico, somente
será selada com empenho total da mobilização, pressão e persuasão sobre os/as
senadores/as pelo fórum das centrais sindicais, pelo conjunto dos movimentos,
dos partidos políticos, dos parlamentares democráticos e progressistas e dos
movimentos religiosos.
Na esfera do
governo, é necessário sustentar o duro combate às organizações criminosas,
persistir na garantia da paz e da segurança, em especial às pessoas que vivem
sob a opressão e a exploração das facções criminosas em territórios por elas
dominados. Daí o empenho do presidente Lula, a pressão que ele faz para que o
Senado Federal aprove a PEC da Segurança Pública. Outra causa de máxima
importância é o reforço das ações e programas contra o feminicídio, uma
terrível tragédia nacional.
E cuidar para
que o programa da reeleição do presidente tenha um conteúdo avançado, apontando
um futuro de forte soberania e mais democracia, desenvolvimento acelerado sob o
impulso da industrialização em novas bases tecnológicas e de prosperidade para
o povo.
O PCdoB está
participando da elaboração das “Diretrizes para o desenvolvimento do plano de
governo 2027-2030”. Integra um núcleo constituído pelas fundações que foram
convidadas a interagir com o trabalho. Indicou também um elenco de quadros para
os núcleos temáticos. Como sempre fez desde a redemocratização, o PCdoB em
breve apresentará suas propostas ao programa de reeleição do presidente
Lula.
Avança a
pré-campanha do PCdoB
No cômputo
geral, a pré-campanha do PCdoB se desenvolve bem, mesmo considerando gradações
e ritmos diferenciados. A escassez de recursos, obviamente, pressiona, mas, no
geral, os comitês estaduais e as candidaturas estão enfrentando o desafio com
altivez e iniciativas. A arrecadação de finanças, nos termos da lei, é tarefa
política das candidaturas e dos dirigentes, posto que o Fundo Eleitoral é
insuficiente.
É um projeto
concentrado a partir do objetivo central de ampliar nossa bancada na Câmara dos
Deputados, harmonicamente relacionado com a meta de também de assegurar boa
presença nas assembleias legislativas. O projeto também se reforça ao batalhar
pelo êxito de aliados que são candidatos/as ao Senado e aos governos estaduais.
Um dado
importante do momento é a Copa do Mundo de futebol, que impacta a dinâmica da
pré-campanha. Com criatividade, as campanhas, em todos os âmbitos, devem se
inserir nessa dinâmica para estar presente no cotidiano das pessoas nesse
momento de celebração de um símbolo nacional.
A vinculação
da campanha com as lutas concretas do conjunto dos movimentos sociais.
Campanhas que interagem e apoiam o calendário de eventos das entidades e
movimentos, a exemplo dos congressos nacionais da UBM, UJS, CONAM e a Plenária
Nacional da UNEGRO que se realizarão em junho e julho
O Partido –
os comitês estaduais, municipais e frentes de lutas – está coeso em torno de
seu projeto, num esforço para que seja a força motriz e dirigente de uma
campanha ampla, massiva, a um só tempo alegre e combativa, nas ruas e nas
redes, que engaje lideranças do povo, aliados e amigos. Uma campanha que não se
dilui, que vinca sua identidade e a face própria de suas candidaturas, com suas
ideias e programas.
Cabe ao
coletivo dirigente e ao coletivo de militantes e de filiados agarrarem com toda
energia, trabalho e total prioridade o grande desafio de construir e assegurar
a vitória do projeto eleitoral dos comunistas, decisivo para fortalecimento do
Partido.
Os comunistas na
linha de frente de um confronto histórico
Mergulhado de
corpo e alma na reeleição do presidente Lula, engajado na mobilização do povo e
dos trabalhadores para impor uma nova derrota à extrema-direita, aos
neofacistas, aos traidores da pátria, inimigos da democracia, o PCdoB e as suas
candidaturas fazem ecoar, pela voz de milhares, a perspectiva de um futuro de
desenvolvimento soberano para o país, com mais democracia, vida de
prosperidade, de paz e segurança para o povo.
Sem cantar
vitória antes da hora, alertando quanto à dureza do confronto, os comunistas
convidam a população e os trabalhadores a se engajarem nessa memorável jornada
pela vitória de Lula, pela eleição de uma forte bancada do PCdoB na Câmara dos
Deputados e nas assembleias legislativas. Venha fazer história, construir o
futuro participando da campanha de Lula e dos/as candidatos/as do PCdoB.
Brasília, 20 de junho de 2026
Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil-PCdoB
***
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Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html
Palavra de Guimarães Rosa
Idosos em suas
trincheiras https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/renovacao-conscienciosa.html
Nós e Cabo Verde
Futebol, memória e ancestralidade
O engajamento maciço
dos brasileiros com a seleção de Cabo Verde vai além do esporte e revela a
força da ancestralidade diaspórica frente à crescente artificialidade
mercadológica do futebol moderno
OLIVIA DA ROCHA ROBBA*/A Terra é
Redonda
1.
Na primeira semana da Copa do Mundo da FIFA, nos deparamos com a seleção
de Cabo Verde e, em especial, seu goleiro Josimar José Évora Dias, mais
conhecido como Vozinha, que se tornou um dos fenômenos mais marcantes do
torneio. Após a histórica atuação no empate sem gols contra a Espanha no dia 15
deste mês, o goleiro cabo-verdiano de 40 anos, fez sete defesas e conquistou
rapidamente a simpatia do público brasileiro, que mobilizou uma verdadeira
campanha de apoio nas redes sociais. Em poucos dias, seu perfil no Instagram
saltou de cerca de 50 mil seguidores para mais de 10 milhões, impulsionado
principalmente pelo engajamento de torcedores brasileiros.
O fenômeno Vozinha revela aspectos importantes das formas de
identificação construídas entre brasileiros, até mesmo aqueles que não gostam
de futebol, e seleções africanas em competições internacionais. A acolhida
recebida por Cabo Verde não pode ser explicada apenas pela admiração por uma
equipe considerada azarão diante de uma potência do futebol mundial. Em um país
profundamente marcado pela diáspora africana, a simpatia por atletas e seleções
do continente africano frequentemente mobiliza sentimentos de pertencimento,
memória e reconhecimento histórico que podem ser compreendidos a partir da
nossa ancestralidade.
Talvez parte da comoção provocada por Vozinha decorra justamente daquilo
que muitos brasileiros sentem faltar na atual seleção nacional: a capacidade de
despertar encantamento. Enquanto a equipe brasileira frequentemente aparece
associada a estratégias de marketing, discursos padronizados e uma
relação distante com a torcida, a seleção cabo-verdiana apresentou ao público
uma narrativa de autenticidade, superação e emoção. O goleiro de 40 anos, que
desafia os limites da idade imposta pelo mundo dos esportes, e enfrenta uma
potência mundial com coragem no seu jogo de estreia em copas do mundo,
tornou-se, para muitos, um símbolo de um futebol vivido com paixão e
humanidade, valores que ocupam lugar central na memória afetiva do torcedor
brasileiro.
Esse tipo de identificação não é recente. Em diferentes edições da Copa
do Mundo, seleções africanas despertaram forte simpatia entre os torcedores
brasileiros. A campanha de Camarões em 1990, na Itália, liderada por Roger
Milla, conquistou admiradores ao desafiar as hierarquias tradicionais do
futebol mundial e se tornar a primeira equipe africana a alcançar as quartas de
final. De modo semelhante, a seleção do Senegal, em 2002, tornou-se uma das
favoritas do público brasileiro após derrotar a então campeã mundial, a França,
na partida de abertura e avançar até as quartas de final. Em ambos os casos, a
admiração pela superação de equipes oriundas de países historicamente
submetidos ao colonialismo articulou-se a sentimentos de proximidade cultural e
identificação simbólica presentes na sociedade brasileira.
2.
A trajetória da República Democrática do Congo na Copa Africana de
Nações produziu uma imagem bastante emblemática. O torcedor Michel Kuka
Mboladinga chamou a atenção da imprensa internacional ao permanecer durante os
90 minutos da partida vestido com as cores nacionais, com o braço erguido e
praticamente imóvel nas arquibancadas, reproduzindo a célebre estátua de
Patrice Lumumba, líder da independência congolesa e primeiro-ministro do país,
assassinado em 1961 em meio às disputas políticas que marcaram o violento
processo de descolonização africana.
A repercussão da homenagem foi tão significativa que Michel Kuka
Mboladinga foi incorporado à delegação congolesa e convocado com a seleção para
a Copa, embora não tenha conseguido estar presente na partida de estreia do seu
time. A expectativa em torno da sua presença evidencia como o futebol pode se
transformar em um poderoso espaço de atualização da memória histórica,
permitindo que símbolos, personagens e lutas do passado sejam ressignificados e
reapropriados no presente.
Nesse contexto, a torcida ultrapassa os limites do espetáculo esportivo
e converte-se em um ato de afirmação identitária, articulando esporte,
nacionalismo e memória coletiva. A homenagem a Patrice Lumumba demonstra como
as lembranças das lutas anticoloniais continuam a desempenhar papel fundamental
na construção das identidades africanas contemporâneas, sendo mobilizadas
inclusive em eventos esportivos de alcance global.
Nesse sentido, a ancestralidade não se restringe à ideia de descendência
biológica. Refere-se a um conjunto de heranças culturais, experiências
históricas compartilhadas e vínculos simbólicos que ultrapassam as fronteiras e
nos conectam a um passado comum. A forte presença africana na formação da
sociedade brasileira, tão marcante na língua, na religiosidade, na culinária,
na música e em inúmeras manifestações culturais, contribui para que muitos
brasileiros reconheçam nas trajetórias de equipes africanas elementos de uma história
comum.
As reflexões feitas por intelectuais como Aimé Césaire e Frantz Fanon
acerca da experiência colonial e dos processos de construção identitária no
mundo afrodiaspórico nos ajudam a compreender esse fenômeno que se repete a
cada Copa do Mundo. Aimé Césaire defendia a valorização das heranças culturais
africanas e a recuperação de uma memória histórica compartilhada como formas de
resistência à desumanização produzida pelo colonialismo. Para o martinicano, a
afirmação da identidade negra constituía um processo de reconquista da
dignidade histórica dos povos submetidos à dominação colonial e à negação de
suas culturas.
Frantz Fanon, por sua vez, enfatizou os efeitos psicológicos, sociais e
políticos do colonialismo sobre os sujeitos colonizados, destacando a
importância do reconhecimento e da afirmação cultural nos processos de
emancipação. Em suas análises, a recuperação da autoestima coletiva e da
consciência histórica aparece como elemento fundamental para a superação das
hierarquias produzidas pela ordem colonial.
Sob essa perspectiva, o sucesso de seleções africanas em competições
globais pode ser interpretado como um momento simbólico de visibilidade e
reconhecimento internacional de sociedades que, durante séculos, foram
representadas por discursos de inferiorização e marginalidade.
O entusiasmo despertado por Vozinha e pela seleção cabo-verdiana durante
a Copa de 2026 pode, assim, ser compreendido como a manifestação desses laços
históricos e culturais. Mais do que uma simples torcida por uma equipe
considerada surpreendente, trata-se de um fenômeno que mobiliza memórias da
diáspora, sentimentos de ancestralidade e formas de solidariedade simbólica
construídas ao longo de séculos de conexões entre África e Brasil.
Nesse processo, o futebol converte-se em um espaço privilegiado de
expressão de identidades, afetos e reconhecimentos mútuos, revelando a
permanência de vínculos históricos que continuam a aproximar brasileiros e
africanos no imaginário da população.
*Olivia da Rocha Robba é doutoranda em história social na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Foto: ROBERTO SCHMIDT/AFP
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Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/nosso-futebol-ja-foi-o-melhor.html
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Estima-se que a FIFA deve faturar US$ 10,9 bilhões na Copa do Mundo em direitos de transmissão, ingressos e patrocínios. É o grande negócio do futebol.
A Copa do Mundo agora e no passado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0995517251.html
Humor de resistência
A Copa do Mundo agora e no passado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0995517251.html





