19 abril 2026

Estranha época, a nossa

Curar o quê?
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65      


“O ChatGPT quebra um galho danado, mas não serve de remédio”, leio em voz alta, de olho na tela do celular.

- Quem disse?, pergunta o amigo Epaminondas.

- Christian Dunker, respondo com ar de quem sabe das coisas. 

- Quem!?,  insiste o amigo meio que descrente.  

- É um especialista no assunto, respondo com um misto de convicção e dúvida.

Segue o diálogo aqui no café do shopping. 

Retorno ao texto e ficamos sabendo — o Epaminondas e eu — que se trata de renomado psicanalista, critico sobre o uso de ferramentas de inteligência artificial como conselheiros e terapeutas.

Obviamente, coisa desse tempo atribulado, curioso, cibernético e surpreendente em que vivemos. 

Robôs das mais diversas qualificações são chamados a cumprir funções outrora reservadas exclusivamente aos humanos.

(Feito Akihiko Kondo, um japonês de 41 anos que ficou conhecido no mundo inteiro ao se casar, em 2018, com um holograma 3D da cantora virtual Hatsune Miku.

Ele tocava numa tecla e de pronto a imagem aparecia diante dos seus olhos — provavelmente uma bela figura feminina — com quem conversava sem nenhum risco de atrito ou mal entendido.

Com quase cinco anos de relacionamento, Kondo caiu em depressão” e se viu “viúvo” quando a empresa Gatebox, responsável pela tecnologia, desativou o serviço de suporte ao holograma, impedindo-o de interagir com sua esposa virtual.

Não me interessei pelo desdobramento do caso, mas creio que o dito cujo terá recorrido à psicanálise, provavelmente via IA.) 

- Pois bem, doutor Christian Dunker, sobre quem estávamos conversando, será um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week — comento como que mostrando uma falsa intimidade com o assunto. 

Mas o Epaminondas, sábio como sempre, me corta com a pergunta:

- Sabe quantos craques provavelmente convocados para a seleção brasileira que disputará a Copa do Mundo jogarão nesse fim de semana em partidas decisivas na Europa?

E passou a discorrer sobre reta final da Premier League, assumindo as rédeas de nossa conversa fútil e despretensiosa em torno de um bom capuccino.

Com a minha concordância, claro!

Se comentar, identifique-se.

Dose dupla? Vade retro! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/alem-do-possivel.html

Humor de resistência

 

Jota Camelo

"Arriscada aposta economicista" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html


Futebol ofensivo

Bom senso, uma rara virtude
No futebol atual, um dos grandes prazeres é ver as melhores equipes jogando no ataque. Nenhum jogo é decidido por um único motivo, nem por um único acerto ou erro
Tostão/Folha de S. Paulo   
 

Barcelona, em Madri, ganhou por 2 a 1, mas foi o Atlético que se classificou para as semifinais da Liga dos Campeões porque venceu o primeiro jogo por 2 a 0. As duas partidas foram decididas nos detalhes. O Barcelona, como sempre, dominou os dois jogos e criou mais chances de gols, porém, como é habitual, sofreu gols por jogar com a defesa muito adiantada e não ter zagueiros de grande qualidade. Faltou o tal do equilíbrio, que reprime, mas com frequência é necessário.

O Atlético de Madrid, do jeito do técnico Simeone, de correr pouco risco, vai enfrentar o Arsenal, que eliminou o Sporting de Portugal. O time inglês passa por uma queda técnica. Diminuíram até os gols de bola parada, 30% de todos os gols marcados, um dos pontos fortes do time. PVC, que conhece todas as estatísticas e entende profundamente de futebol, disse que 32% dos gols do Palmeiras são feitos também desta maneira. É uma tendência moderna, bastante treinada por todas as equipes.

O Arsenal enfrenta neste domingo (19) o Manchester City pelo Campeonato Inglês. O Arsenal tem seis pontos de vantagem sobre o City, porém com um jogo a mais. Guardiola, após uma queda prolongada da equipe, reconstruiu o time, que está jogando muito bem.

Nenhum jogo é decidido por um único motivo, nem por um único acerto ou erro, embora muitos insistam em achar uma única explicação para as vitórias e derrotas. As opiniões mudam rapidamente.

PSG e Bayern, dois timaços, fazem a outra semifinal. Não há favorito. O PSG, atual campeão europeu, voltou a jogar muito bem após uma queda técnica. A defesa do time francês é mais protegida do que a do Bayern.

O time alemão, em um jogo de sete gols (4 a 3), como era esperado pela qualidade dos ataques, eliminou o Real Madrid. No futebol atual, um dos grandes prazeres é ver as melhores equipes jogando no ataque. Vinicius Junior atuou muito bem. Seu posicionamento pela esquerda, sem precisar voltar para marcar, ajuda Ancelotti na escalação da seleção.

O técnico possui duas alternativas. Uma, que usou contra a França e nas partidas anteriores, com Vini no centro do ataque, Martinelli pela esquerda (Raphinha ocuparia este lugar), Luís Henrique ou Estevão pela direita e Matheus Cunha de meia avançado pelo centro, próximo de Vinicius Junior.

Na outra formação, na boa atuação contra a Croácia, Vini atuou pela esquerda, mas sem recompor para marcar, João Pedro de centroavante, Luís Henrique pela direita e Matheus Cunha mais recuado, protegendo o lado esquerdo defensivo e formando um trio no meio-campo com Casemiro e Danilo. Matheus Cunha não é um craque, mas possui muita força física, velocidade e postura coletiva, capaz de marcar e chegar ao ataque.

Nos últimos anos, o Brasil começou a formar bons meio-campistas, capazes de atuar bem de uma intermediária a outra, como Bruno Guimarães, Paquetá, Danilo, Andreas Pereira. Matheus Cunha tem características de atacante, mas no Manchester United e na seleção se adaptou muito bem a um novo posicionamento. No futebol moderno, não há mais sentido dividir o meio-campo entre camisa 5, camisa 8 e camisa 10.

Uma das qualidades de Ancelotti é ter bom senso, uma rara virtude, para mudar detalhes antes e durante as partidas.

Se comentar, assine.

Leia também: A arte, a técnica e a objetividade no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/futebol-aparencia-e-essencia.html

Palavra de poeta

O Nosso Mundo

Florbela Espanca  

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Poisando em ti o meu amor eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos...

O teu olhar em mim, hoje, é mais terno...
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...

[Ilustração: Wellington Virgolino]

Escolhas e conflitos https://lucianosiqueira.blogspot.com/  

Postei nas redes

Em resposta às provocações de Donald Trump, Papa Leão 14 critica 'tiranos' que gastam bilhões em guerras e contribui para o crescente isolamento internacional dos Estados Unidos.  

Mundo, complexo mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Editorial do 'Vermelho'

Tiradentes e a sucessão presidencial acirrada
Tiradentes versus Silvério dos Reis, Lula versus Flávio Bolsonaro, sintetizam simbolicamente o antagonismo que divide o país numa eleição disputadíssima
Editorial do 'Vermelho' 
   

Toda vez que o Brasil se encontra sob pesada ameaça à sua condição de país soberano, vem como luz a frase emblemática do jornalista Barbosa Lima Sobrinho, destacado brasileiro, que se reporta ao confronto recorrente entre os traidores da pátria e os verdadeiros patriotas, sintetizados nas figuras de Tiradentes e Silvério dos Reis. Em 1964, esse antagonismo se estampou na contenda entre o presidente João Goulart e os generais golpistas, em conluio com os Estados Unidos. Em 1984, na batalha final que pôs abaixo a ditadura militar, Tancredo Neves, da frente ampla democrática, versus Paulo Maluf, do decrépito regime entreguista e ditatorial.

Agora, o pré-candidato Flávio Bolsonaro, extremista de direita, neofacista, se apresenta de forma escancarada e abjeta como serviçal de Donald Trump, o que serve como uma luva para a ofensiva neocolonial e imperialista dos Estados Unidos, que ambiciona se apossar das imensas riquezas do Brasil. Eduardo Bolsonaro, seu irmão, abandonou o mandato de deputado federal para se alojar nos Estados Unidos e melhor atuar em conluio com o governo dessa potência estrangeira contra seu próprio país, como foi no caso do tarifaço. Bolsonaro filho disse que, se eleito, Eduardo será o ministro das Relações Exteriores.

O presidente Lula, pela liderança que construiu no Brasil e a respeitabilidade que adquiriu em âmbito mundial, em defesa firme dos interesses e da soberania nacional, é quem tem estatura para liderar uma aliança ampla que derrote a um só tempo o neofascismo e essa ameaça neocolonialista dos Estados Unidos. Uma vez eleito, terá a missão de conduzir o país por um caminho novo, apoiado num projeto de país que desencadeie a realização das reformas estruturais democráticas e que ataque as vulnerabilidades, entre elas a condição de um país dependente, descortinando um ciclo de desenvolvimento soberano.

Às vésperas da semana do 21 de abril, a seis meses das eleições, como se previa, o país se encontra dividido – um quadro de relativo equilíbrio de forças – entre as pré-candidaturas de Lula e de seu principal opositor.

A partir de leituras unilaterais das pesquisas de opinião, e deliberadamente ocultando um conjunto de fatores e variáveis, setores do monopólio midiático, em junção com a máquina de fake news da extrema direita, atuam para propagar uma falsa narrativa que atribui um pretenso favoritismo ao candidato oficial do neofascismo, enquanto depreciam a força e os trunfos da candidatura do presidente Lula.

Flávio Bolsonaro cresceu nas pesquisas agregando os votos do pai, Jair Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado, no âmbito do eleitorado de extrema direita e da direita bolsonarista. Analistas de pesquisas prospectam que a velocidade desse crescimento perdeu tração e, daqui por diante, será mais difícil avançar, até pela fragmentação da direita.

E, também, por outro fator: o combate sistemático para desmascarar Bolsonaro filho começou somente agora. Até então, movimenta-se em relativo céu de brigadeiro. Isso acabou. Além do que enfrentará refregas com as demais candidaturas da direita, que terão que se diferenciar dele para arrancar votos. Caiado e outros moveram-se um ou dois pontos, ao que parece conquistando intenção de votos dos que pretendiam anular ou votar em branco. Mas esse estoque é relativamente pequeno.

São seis meses até o confronto nas urnas — numa campanha que oficialmente começa em agosto —, é muito tempo. A última pesquisa divulgada, da Genial Quaest, mostra que 57% estão convictos de sua escolha, mas 43% admitem que até a eleição podem mudar. Infere-se, perfeitamente, por essa indicação, a possibilidade de alterações, para um lado e outro. Quanto à fidelidade, 65% dos que pretendem votar em Lula afirmam que estão decididos, enquanto 35% indicam que podem optar por outro. Já para Flávio Bolsonaro, as percentagens são 60% e 40%, respectivamente, menor fidelidade, portanto.

Além do que, os fatos do próprio curso político terão enorme efeito pedagógico, ajudando sobretudo o eleitorado indeciso, pendular, a separar o joio do trigo. A tramitação da redução da jornada e fim da escala 6×1 está se iniciando. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, prometeu aos empresários travar a votação ou desfigurar o projeto. Neste momento, vai partir para os Estados Unidos uma comitiva de senadores golpistas, bolsonaristas, para implorar a Trump que conceda asilo político a Alexandre Ramagem, que fugiu do país para não cumprir a pena na Papuda, condenado que foi por tentativa de golpe. Flávio Bolsonaro, num conclave da direita, realizado em solo estadunidense, ofereceu as reservas de terras raras e minerais estratégicos do Brasil ao governo Trump.

A pré-candidatura do presidente Lula segue resiliente, mesmo com o país sofrendo os efeitos das guerras de Trump. Até os donos dos institutos de pesquisa são impelidos a salientar esse fato. Na verdade, segue agregando força, robustecendo a competitividade, construindo, passo a passo, a dura, mas plenamente viável, quarta vitória. As CPIs, manipuladas pela maioria reacionária das duas casas do Congresso, foram encerradas sem aprovar relatórios e desmoralizadas pelo grau de parcialidade e manipulação. O nome indicado pelo governo, pela base aliada, foi aprovado para o Tribunal de Contas da União. O mesmo tende a acontecer com o nome indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF). Isto demonstra uma retomada eficaz da articulação política no Congresso, com a entrada direta do presidente nos diálogos e mediações.

Enquanto a direita e a extrema direita se apresentam fragmentadas, mesmo que se saiba que se unificarão no segundo turno, o presidente Lula, pela primeira vez, uniu todo o campo progressista, já de início. E, corretamente, como também sublinha o PCdoB, o presidente busca ampliar, indo além da esquerda, tendo já conquistado partes e frações importantes do centro e da centro-direita, resultando em palanques fortes em praticamente toda a região Nordeste e nos estados de maior eleitorado do Norte, Pará e Amazonas. No Rio Grande do Sul, avança a unidade do campo democrático e popular. Em Santa Catarina, formou-se uma aliança representativa da centro-esquerda, assim como no Paraná. No triângulo dos três maiores colégios eleitorais, Lula já construiu palanques sólidos em São Paulo e no Rio de Janeiro, faltando apenas oficializar o de Minas.

A Marcha das Centrais Sindicais em Brasília, na plenária da Conclat, pode representar o prenúncio do que está por vir: a mobilização do povo, o engajamento na campanha, fator indispensável à vitória.

Como bem indicou a resolução política do Comitê Central do PCdoB, é preciso fazer ecoar, pelo país inteiro, o brado: “O Brasil para os brasileiros”. E desmascarar Flávio Bolsonaro enquanto traidor da pátria e inimigo do povo e da democracia. Batalhar pela reeleição do presidente Lula é honrar a memória e o legado de Tiradentes e de milhares que, ao longo de mais de cinco séculos, lutaram para completar a obra da Independência e firmar a soberania nacional.

Se comentar, assine.

Soberania digital como missão nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/autonomia-tecnologica-brasileira.html 

18 abril 2026

Brics: novos desafios

A hora da verdade do Brics
Guerra coloca bloco emergente em encruzilhada e dá razão aos alertas emitidos pelo Brasil
Jamil Chade/Liberta  


 

Há poucos meses, Donald Trump gerou uma onda de críticas ao dizer que o Brics já não existia mais. Segundo ele, havia sido sua pressão que obrigara o bloco a desfazer suas ambições de ser um ator internacional e um freio à hegemonia da Casa Branca e seus aliados.

Desde o dia 28 de fevereiro deste ano, a péssima notícia é a de que o bloco, de fato, está em silêncio. Mas os motivos são outros. A guerra que eclodiu no Oriente Médio colocou, de forma inesperada, diferentes membros do Brics em lados opostos do conflito.

E escancarou o que muitos na diplomacia brasileira já alertavam: um Brics ampliado teria seus limites e poderia, inclusive, viver abalos.

Sob ataque, a resposta do governo do Irã – um novo membro do Brics – foi lançar mísseis não apenas contra Israel. Mas também no Golfo Pérsico, com ataques contra interesses americanos nos Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita – dois membros que, recentemente, também aderiram ao bloco.

Divergências internas

A realidade é que, se a crise já seria grave por si só, ela ganhou um contorno inesperado: colocou em trincheiras opostas países que fazem parte mesmo do bloco das economias emergentes e que eram a aposta de muitos para conter o avanço americano pelo mundo.

A reportagem apurou que, hoje, diante da guerra entre seus próprios membros, o Brics sequer conseguiu um consenso para convocar uma reunião de emergência. O imobilismo inédito contrasta com a atitude adotada pelo bloco aos longo dos últimos anos em diversos temas internacionais.

Quando a guerra de 12 dias entre Israel e Irã eclodiu, em junho de 2025, o bloco, então presidido pelo Brasil, rapidamente declarou que os ataques conjuntos EUA-Israel contra o Irã constituíam uma “violação do direito internacional”.

Mesmo diante da invasão russa contra a Ucrânia, o bloco reconheceu a divergência entre seus membros. Ainda, o tema chegou a ser tratado em reuniões de chanceleres.

Mas nada se compara a uma crise que envolve um membro do Brics bombardeando outro. Os Emirados Árabes Unidos anunciaram, ainda em março deste ano, que também poderiam lançar mísseis contra o Irã, como resposta aos ataques que vinham sofrendo. Os sauditas alertaram que reservavam o direito de retaliar o Irã, diante dos ataques contra suas refinarias.

Entre diplomatas, porém, o problema não se limita ao enfrentamento entre iranianos e os países do Golfo. Em 2026, a presidência do bloco está com os indianos, um aliado dos EUA e com relações cordiais com Israel.

O tom usado por Nova Delhi, portanto, foi de cautela. “A Índia reitera veementemente seu apelo ao diálogo e à diplomacia. Compartilhamos claramente nossa voz a favor de um fim rápido ao conflito”, se limitou a dizer o ministério de Relações Exteriores da Índia, acrescentando que a guerra coloca em risco a estabilidade regional e a segurança de milhares de cidadãos indianos que vivem e trabalham na região do Golfo.

O primeiro-ministro Narendra Modi também saiu em defesa dos países do Golfo e criticou os ataques retaliatórios contra seus territórios.

No Conselho de Segurança da ONU, China e Rússia – dois membros do Brics – votaram contra uma resolução que havia sido apoiada pelos Emirados Árabes e pelos sauditas, pedindo uma ação para abrir o Estreito de Ormuz.

Expansão polêmica

Parte dos diplomatas, hoje, culpa a expansão do bloco por sua fragilidade.

Originalmente com quatro membros, o Brics teve uma primeira ampliação em 2009 com a adesão da África do Sul. Mas foi a partir de 2023 que a China passou a pressionar os demais membros para que uma nova expansão fosse realizada.

Brasil e Índia eram contrários à movimentação de Pequim. O temor era o de que, diverso, o grupo pudesse perder sua força como ator internacional. O chanceler Mauro Vieira chegou a alertar que os ativos conquistados pelo Brics ao longo de mais de dez anos deveriam ser “preservados”.

Outro temor de Brasil e Índia era o de que o bloco se transformasse numa espécie de estrutura para legitimar as ambições de política externa da China.

Numa reunião a portas fechadas, apenas com Luiz Inácio Lula da Silva, Xi Jinping, Narendra Modi, Vladimir Putin por vídeo conferência e Cyril Ramaphosa, foi negociado o destino do bloco, num retiro na África do Sul em 2023 e sob enorme pressão por parte de Pequim.

Aos poucos, a resistência indiana se desfez e o Brasil acabou ficando sozinho numa posição contrária à expansão. Sem alternativas, Brasília acabou cedendo.

O governo Lula tentou convencer aliados sul-americanos a aderir, numa esperança de equilibrar o jogo com a China. Brasília tentou costurar a entrada de Colômbia e Argentina. Bogotá optou por declinar o convite e, quando assumiu o governo argentino, Javier Milei rejeitou a proposta de fazer parte do bloco dos emergentes.

Pequim tentou garantir que seu aliado na região latino-americana – a Venezuela – fosse aceita. Mas, neste caso, foi o veto do Brasil que fez implodir a adesão de Caracas.

Alguns critérios, ainda assim, foram mantidos no acordo final. O primeiro deles era a exigência de que qualquer decisão continuasse sendo tomada por consenso.

Outra reivindicação de Brasil, África do Sul e Índia era a de que os novos membros se comprometeriam em apoiar o pleito dos três por uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.

No momento da expansão, entre 2023 e 2024, o convite incluía sauditas e os Emirados. Uma proposta foi feita para a Indonésia, mas acabou sendo declinado por Jacarta, sob forte pressão dos EUA. E, como alternativa, o Irã foi convidado para fazer parte do bloco.

Atores rivais

Naquele momento, a presença na mesma sala de atores rivais no Golfo foi vendida como uma sinalização de que o Brics poderia ser, até mesmo nesse caso, uma ponte entre autoridades de vários países. O Brasil tinha sérias dúvidas se esse seria o caso, enquanto negociadores alertavam sobre o risco de ter no Brics países que tinham entregue parte de sua soberania com a instalação de bases militares americanas.

O que poucos imaginavam é que, menos de dois anos depois, uma guerra eclodiria entre eles. Hoje, um dos legados do conflito é a demonstração das limitações de um bloco que representava a esperança para uma frente de países emergentes.

Entre negociadores de outros países, a incapacidade de uma ação do Brics neste momento reforça a influência do Brasil como um ator que pensa de forma estratégica o destino do bloco emergente. “Ainda que ninguém reconheça publicamente o erro, quem sai mais influente dessa crise é o Brasil”, admitiu um funcionário de uma chancelaria estrangeira.

Entre diplomatas brasileiros, os comentários reservados são claros: “nós avisamos”.

Se comentar, assine.

Brics sob fogo cruzado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/mundo-papel-mais-do-que-relevante.html