20 abril 2026

Baixo nível nas redes

Fim de feira na internet
Frutas que falam (só bobagem) compõem a nova safra da “merdificação”, uma espiral de declínio das redes sociais acelerada pela IA
Victor Calcagno/piauí  
 

“Ninguém pode saber que eu vejo isso.” Comentários assim, num tom meio envergonhado, meio debochado, são frequentes entre usuários da internet que se deparam com um novo tipo de conteúdo viral: as frutas antropomórficas. Elas aparecem em vídeos feitos com inteligência artificial que, pelo menos desde fevereiro, têm bombado no TikTok – primeiro em inglês e depois em outros idiomas. São, em geral, animações que contam histórias curtas ou meras cenas – microdramas supercoloridos, escandalosos e com roteiros simplórios, de quase nenhuma complexidade, quase sempre envolvendo alguma humilhação, adultério ou misoginia. Tudo vivido por frutas em corpos humanos. Uma mulher amarelada com uma cabeça de abacaxi, um homem todo roxo cujos cabelos são cachos de uvas, e por aí vai.

Com essa descrição, não é de se espantar que as pessoas reajam com humor e alguma perplexidade. Mas as frutas estão por toda a parte e dão audiência. A trend estourou quando surgiram vídeos desses personagens num reality show de namoro (o Fruit Love Island). Os episódios duravam de 1 a 3 minutos e rapidamente atingiram a marca de 10 milhões de visualizações cada. Desde então, as frutas aportaram em vários países, e o Brasil, que é prolífico nesse tipo de atividade, logo fez vídeos delas falando português, dançando funk, vestindo camisetas de times nacionais, trabalhando nos mercados da rede Atacadão e sofrendo violência policial. A precariedade das histórias é a mesma, mas, por aqui, as frutas ganharam ingredientes nacionais – a começar pelos nomes, como B ananildo, Moranguete, Abacatudo. Não faltou espaço para trocadilhos maliciosos, caso do personagem Tomatudo.

As frutas falantes são um caso típico de AI slop – expressão que poderia ser traduzida como “IA barata” e é usada para se referir a conteúdos malfeitos, breves e repetitivos produzidos por ferramentas de IA generativa. O que há de novo nesse fenômeno é o formato. Até então, os AI slops circulavam principalmente como imagens estáticas ou animações de poucos segundos, numa estética próxima à dos memes tradicionais. Agora, proliferam também em vídeo. O resultado disso tem sido uma inundação de conteúdo artificial nas redes sociais. Cada vez mais, postagens orgânicas de nossos amigos e familiares têm sumido dos feeds, dando lugar a animações toscas que, de forma um tanto vulgar, produzem engajamento fácil, agradando os algoritmos. 

A esse processo, o romancista, blogueiro e ativista canadense Cory Doctorow deu um nome pouco sutil: merdificação. No livro Enshittification: Why everything suddenly got worse and what to do about it (lançado em 2025 e ainda sem tradução no Brasil), Doctorow mostra como empresas de tecnologia, sobretudo as que constituem monopólios ou oligopólios, não têm hesitado em piorar de propósito seus serviços em troca de um retorno financeiro mais direto e valorização acionária. Isso, segundo ele, acontece em três etapas. “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários. Depois elas abusam dos usuários para agradar seus clientes empresariais. Em seguida, elas abusam dos clientes empresariais para recuperar para si todo o valor [gerado nas plataformas]. No final, elas se tornaram um monte gigante de merda.”

Dos casos descritos por Doctorow, destaca-se o do Google. Dona de 90% do segmento de buscas na internet, a empresa tem tanta vantagem contra os concorrentes que seu vice-presidente de Finanças chegou a afirmar, de acordo com um memorando citado no livro, que “o Google é capaz de ignorar uma das leis fundamentais da economia… a de oferta e demanda”. Na prática, conta Doctorow, isso fez a empresa piorar de propósito seu sistema de buscas, de modo que sejam necessárias mais pesquisas para se atingir o mesmo resultado – e, com isso, o usuário visualiza mais e mais propagandas, gerando receita para o Google. A situação fica ruim para quem busca informação, por motivos óbvios, mas também para os anunciantes, já que sua propaganda, misturada a milhões de outras, perde eficácia.

Embora também aborde as IAs, o livro de Doctorow foi publicado antes do surgimento de trends como as frutas falantes. O retrato que ele pinta das big techs, no entanto, ajuda a explicar os fenômenos mais recentes. Afinal, tudo indica que as plataformas estão “merdificando” nossos feeds para, com isso, promover suas ferramentas de IA. Estamos diante de um cenário em que agentes de IA produzem e postam conteúdos sintéticos, promovidos por outros agentes IA que curtem, compartilham e comentam essas postagens. São redes sociais em que robôs interagem com robôs o tempo todo e cada vez mais, até o infinito. O usuário comum, humano, se vê numa espécie de cemitério, rodeado de plataformas-zumbi – ou como coloca Doctorow, “plataformas que continuam rastejando mesmo depois que já deviam ter sido abatidas e enterradas numa cova rasa”. Difícil ler essa afirmação e não pensar no Facebook e no X. 

Na corrida pela consolidação de seus modelos de IA, que envolve bilhões de dólares em investimentos, a “merdificação” parece ser um custo que as big techs estão, até agora, dispostas a pagar. Os usuários que aguentem todo o lixo – ou apenas parem de usar essas plataformas, se estiverem dispostos a pagar o preço que isso exige hoje. 

“Por que eu tô com tesão num abacaxi?”, pergunta uma pessoa. “Já estou ficando preocupada, chorei por causa de uma uvinha doce”, diz outra. A eficácia desse tipo de vídeo não deveria surpreender ninguém a essa altura. Há muitos anos, as empresas de tecnologia se tornaram exímias manipuladoras dos nossos impulsos e emoções. Especializaram-se em prender nossa atenção em segundos e em interpretar nosso jeito de rolar o feed para nos oferecer o tipo de conteúdo mais apelativo a cada um.

O apelo das frutas antropomórficas pode ser explicado por três características principais: o visual chamativo e supercolorido, os enredos que recompensam em um minuto e as personagens sexualizadas (sobretudo mulheres). Essa tríade costuma ser recompensada pelos algoritmos devido ao seu alto poder de engajamento. Enquanto as cores e figuras à la Disney atraem a atenção de crianças e jovens, os dramas bombásticos e as interações sexualmente sugestivas são isca certa para adultos. 

“O conteúdo é uma porcaria, mas gosto de assistir para me desestressar”, diz Nicole Belastro, empresária paulistana de 40 anos que comentou num desses vídeos e, contatada pela piauí, aceitou conversar. Seu comentário, debochando da aparente inexistência de métodos contraceptivos no universo hortifruti, continha a mesma verve irônica de muitos outros. Ela atribui o sucesso das frutas falantes aos impactos da pandemia, época em que, segundo ela, muita gente se entregou ao “entretenimento volátil, que não demanda muito da nossa atenção”. Nicole conta que não deixa que o filho de 7 anos assista aos Abacatudos e Moranguetes. E diz que, apesar de ter embarcado na trend por um tempo, já enjoou. Acha que a modinha logo vai passar.

A onda de frutas falantes pode ser enquadrada naquilo que se chama de brainrot, expressão em inglês usada para se referir a conteúdos de qualidade tão duvidosa que “apodrecem” o cérebro de quem assiste. No início de 2025, o campeão nessa categoria era o brainrot italiano, uma onda de imagens produzidas por IA com personagens grotescos batizados com nomes pseudoitalianos (como o macaco Chimpanzini Bananini). As frutas falantes levaram esse tipo de material a outro nível, graças, em parte, ao aprimoramento das ferramentas audiovisuais de IA generativa, como Veo (do Google), Movie Gen (Meta), Grok Imagine (X), Seedance (da ByteDance, empresa dona do TikTok) e Sora (da OpenAI, que será descontinuado).

No Brasil, as contas de TikTok e Instagram dedicadas aos dramas tutti frutti superam as centenas. A grande semelhança entre elas – com vídeos idênticos e enredos repetidos – dá a impressão de que até mesmo a divulgação desses conteúdos é automatizada, formando uma linha de produção inteiramente sintética, em que as postagens são criadas, publicadas e promovidas por inteligência artificial. Não é nenhum delírio apocalíptico imaginar que boa parte do que vemos hoje, em nossos feeds, foi produzido por agentes IA configurados individualmente para cumprir certas tarefas. O trabalho humano, nesse caso, seria apenas o de supervisionar o processo e, claro, embolsar o dinheiro que a monetização desses vídeos tende a produzir.

Uma evidência disso é o fato de que, nesses mesmos perfis, são ofertados cursos para quem deseja “lucrar com vídeos de frutas falantes”. Um deles, segundo o anúncio, custa “aponas R$ 19,99” – erro de grafia sinalizando que, ao menos nesse texto, houve algum trabalho humano. Outra propaganda diz, em letras garrafais, que “VOCÊ ESTÁ PERDENDO A CHANCE DE FATURAR COM NICHOS VIRAIS!” Embora muitas dessas contas tenham sido criadas há pouco tempo (fato atestado pelo selo de “novo”), várias somam milhares de seguidores, o que costuma ser um indício de que robôs estão alavancando os números. A piauí tentou contato com treze perfis do gênero. Só três responderam: um negou conceder entrevista, e os outros dois, depois de aceitarem inicialmente, pararam de responder às mensagens.

Os conteúdos de AI slop são, sem dúvida, lucrativos, mas é difícil prever a durabilidade desse modelo de negócios. Embora as redes sociais constituam um oligopólio, não é totalmente improvável que o usuário comum, cansado da “merdificação” de seu próprio feed, se afaste das plataformas. Com isso, sairão também os anunciantes, que ainda são os responsáveis por grande parte das receitas no Vale do Silício. Talvez por isso, o YouTube anunciou no fim do ano passado que estava banindo ou desmonetizando canais 100% sintéticos que vinham inundando a plataforma com milhares de vídeos diários feitos sob medida para os algoritmos. O problema, porém, não foi embora, e tem afetado principalmente o público infantil, já que o YouTube Kids é um dos terrenos mais f&eacut e;rteis para a proliferação de AI slop. No começo de abril, mais de duzentas entidades e especialistas em educação infantil assinaram uma carta pública pedindo a remoção desses conteúdos da plataforma.

Nas outras redes, o circo continua solto. As frutas, provavelmente, serão em breve substituídas por novos personagens de IA tão ou mais eficazes em prender a atenção dos usuários numa fração de segundos. Resta saber até quando esse formato será lucrativo para as big techs – e até quando os humanos vão tolerar tanto entulho.

Se comentar, identifique-se.

Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro sujo e plataformas que lucram https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/mafia-digital-milionaria.html 

Postei nas redes

Briga entre Donald Trump e o Papa Leão XIV só desgasta o presidente norte-americano. 

Mundo em ebulição https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Ilegítima, ilegal e danosa

Quem está por trás da mineração em terras indígenas no Brasil?

Relatório inédito da Apib revela como empresas, investidores e governos internacionais atuam junto a políticos e ao sistema de justiça no Brasil para abrir terras indígenas à mineração

Midori Hamada/Le Monde Diplomatique    


Há conflitos que dizem respeito a um país. Outros revelam um tempo histórico. A disputa em torno da mineração em terras indígenas no Brasil se insere nesse segundo caso. O que está em jogo vai além de uma controvérsia entre crescimento econômico e ações de proteção dos direitos territoriais e do meio ambiente. Trata-se da possibilidade de que a transição energética global, apresentada como resposta à crise climática, se converta em justificativa para uma nova rodada de roubos e invasões territoriais, agora revestida de linguagem técnica, alinhada com ambição geopolítica e promessas de futuro.

No Brasil, essa mudança já aparece com força. Impulsionada pela corrida por minerais como lítio, níquel, cobre, cobalto e terras raras, usados em baterias, eletrificação e outras tecnologias, a mineração passou a se apresentar como setor central para um futuro não mais dependente de combustíveis fósseis. Em nome da transição energética e da descarbonização, o setor procura se afirmar como estratégico para o país e para sua posição no cenário global. Esse movimento amplia sua presença dentro do Estado e fortalece uma rede de influência que articula interesses econômicos com decisões políticas. O relatório “Desmascarando o lobby mineral em terras indígenas no Brasil”, produzido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) em parceria com a cosmopolíticas e lançado durante o ATL 2026, no dia 8 de abril, mostra que o avanço da mineração em terras indígenas não acontece apenas por demanda de mercado, mas por meio de uma engrenagem de financiamento, lobby e captura institucional que alcança os três poderes da República.

Os dados reunidos no relatório mostram que esse cerco não é abstrato. Apenas na Amazônia, há mais de 5 mil requerimentos minerários em aberto. Mais de 1.300 atingem terras indígenas, seja por sobreposição direta, seja por extrema proximidade. Em 2024, centenas desses pedidos continuavam ativos, aguardando nova brecha política ou jurídica para avançar com a exploração dos chamados minerais críticos que cercam mais de 45 povos. O lobby se articula muito antes de qualquer autorização formal e se instala como frente permanente de ameaça sobre os territórios.

No Congresso Nacional, essa engrenagem aparece de forma especialmente visível. Segundo a Apib, o Legislativo funciona como máquina de reapresentação contínua da mesma agenda: quando uma proposta encontra resistência, outra reaparece com nova redação, novos argumentos e os mesmos interesses. A isso se soma o Mandado de Injunção nº 7490, em que o Supremo referendou, em junho de 2025, liminar do ministro Flávio Dino dando prazo de 24 meses para o Congresso regulamentar a exploração mineral nos territórios. O atual Grupo de Trabalho sobre mineração em terras indígenas (GTMTI) no Senado não é, portanto, um espaço técnico neutro. Criado por iniciativa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil/AP) a partir da demanda do Supremo, o GT foi instalado para elaborar, em seis meses, um projeto de lei de regulamentaç&at ilde;o da pesquisa e da lavra mineral em terras indígenas. Sua coordenação ficou com a senadora Tereza Cristina (PP/MS), ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro e liderança da Frente Parlamentar Agropecuária, enquanto a relatoria foi atribuída ao senador Rogério Carvalho (PT/SE). Os PLs nº 1331/2022 e nº 6050/2023, ambos favoráveis à ampliação de atividades econômicas e minerais em terras indígenas, foram indicados para análise do colegiado. Em vez de encerrar a pauta, o GT a reorganiza e lhe dá novo fôlego institucional.

O alerta da Apib é que esse GT inaugura uma nova etapa de discussão que pode abrir caminho para a legalização da mineração em terras indígenas, com impacto direto sobre direitos garantidos na Constituição e sobre a proteção dos territórios. Esse movimento acontece dentro de um ambiente político já marcado por iniciativas que avançam nessa direção, com apoio de setores ligados à mineração, ao agronegócio e a grupos conservadores, que atuam para apresentar interesses privados como se fossem de interesse nacional.

Nesse cenário, o relatório também destaca o papel do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Com mais de 210 associados, responsáveis por grande parte da produção mineral do país segundo dados do próprio instituto, o Ibram atua como articulador dessa agenda dentro do Estado, com presença junto ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário, além da participação em conselhos estratégicos, acesso a ministérios e atuação em eventos internacionais do setor, como a canadense PDAC (sigla em inglês para Prospectores e Desenvolvedores do Canadá). Essa atuação fortalece a transformação de interesses empresariais em posições institucionais.

No Executivo, o avanço da mineração aparece de forma contínua e atravessa diferentes governos. O relatório mostra que, ao mesmo tempo em que o Congresso discutia regras sobre o tema, políticas e marcos foram sendo construídos em diálogo direto com o setor minerário. Ainda nos governos Lula e Dilma, a formulação do Novo Código Mineral contou com participação do Ibram, e o Plano Nacional de Mineração 2030 consolidou a atividade como prioridade para o país, associando áreas com reservas minerais à lógica da exploração.

A partir de 2016, essa direção se intensificou. No governo Temer, o Decreto nº 9.406/2018 regulamentou o Código de Mineração e autorizou o uso de títulos minerários como garantia financeira, ampliando o acesso a crédito e estimulando a especulação. No governo Bolsonaro, a mineração foi classificada como atividade essencial durante a pandemia, mantendo operações mesmo em áreas sensíveis. Em 2020, o Programa Mineração e Desenvolvimento buscou acelerar a exploração e reduzir regras, e, em 2021, o Programa Pró-Minerais Estratégicos colocou dezenas de projetos como prioridade nacional em nome da transição energética, incluindo áreas em conflito com comunidades indígenas. Esse conjunto de medidas evidencia o envolvimento de diferentes correntes políticas na construção de um a mbiente institucional que favorece a expansão da mineração no país.

No Judiciário, a ofensiva assume formas menos visíveis, mas igualmente graves. O relatório afirma ter identificado intensa presença de representantes do lobby mineral e de argumentos favoráveis ao setor nas audiências da Câmara de Conciliação do Marco Temporal, além de disputas interpretativas no STF que indicam a Corte como novo campo de atuação para uma regulamentação indireta da mineração em terras indígenas. O risco apontado pelas lideranças indígenas é nítido: uma mudança dessa dimensão pode avançar sem participação efetiva dos povos e sem direito de veto. 

Incidência jurídica

A Apib, junto ao lançamento do relatório durante o 4º Seminário de Mineração e Terras Raras no Congresso Nacional, aproveitando as mobilizações do ATL, protocolou, no dia 8 de abril, uma manifestação no STF dentro de uma ação que trata da mineração na área do povo Cinta Larga, entre Rondônia e Mato Grosso. Essa ação acontece depois de uma decisão do ministro Flávio Dino que reconheceu a demora do Congresso em criar uma lei sobre mineração em terras indígenas e levantou a possibilidade de avançar nesse tema por outros caminhos. Para a Apib, esse movimento abre um risco concreto de liberar a exploração sem garantir os direitos dos povos.

Na manifestação, a Apib sustenta que a Constituição não permite mineração em terras indígenas sem uma lei específica aprovada pelo Congresso e sem consulta livre, prévia e informada aos povos afetados. O documento também chama atenção para o fato de que essa consulta não pode ser tratada como um simples procedimento formal. Ela precisa respeitar o tempo, a decisão coletiva, os modos de organização de cada povo e, principalmente, o direito ao veto à lei. A Apib alerta que avançar nesse tema sem essas garantias pode agravar violências e ampliar a destruição de formas de vida que já vêm sendo impactadas por garimpo e outras atividades ilegais.

Outro ponto central da ação é o questionamento da ideia de que a mineração pode ser tratada como interesse nacional e público acima dos direitos indígenas. A Apib argumenta que esse tipo de leitura ignora o papel dos povos na proteção dos biomas e no enfrentamento da crise climática. Também aponta que abrir esse caminho pode beneficiar interesses privados e estrangeiros, sem retorno real para os povos e para o país.

Ao levar essa disputa ao STF durante o ATL, a Apib conecta a mobilização nas ruas com a atuação no campo jurídico e reforça que as denúncias do relatório sobre as pressões feitas em diferentes instâncias de poder pelas mineração não acontece só nos territórios, mas também dentro das decisões do Estado. O que está em jogo é quem define o uso dessas áreas e quais interesses orientam essas decisões.

Mobilizações e ameaças

Nos territórios, são os povos indígenas que vêm puxando essa denúncia para o centro da cena e enfrentando, na prática, o avanço da mineração. Em Altamira, no Pará, mulheres indígenas ocuparam a sede da Funai para denunciar os impactos do projeto da mineradora canadense Belo Sun, na Volta Grande do Xingu, e exigir a cassação da licença de instalação da empresa. A mobilização também cobra a retirada de invasores da Terra Indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, e da Terra Indígena Trincheira Bacajá, do povo Mebêngôkre-Xikrin. Mais do que reagir a um empreendimento, essas mulheres estão enfrentando uma nova camada de pressão sobre um território já violentado por grandes obras, pela invasão e pela presença continuada de interesses minerários.

No Espírito Santo, o povo Tupinikim sustenta há meses uma mobilização prolongada contra a Vale, a Samarco e a BHP, cobrando reparação pelos danos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Mais de dez anos depois, cerca de 1.600 indígenas seguem fora dos processos de reparação, enquanto a presença da ferrovia dentro da terra indígena, somada à vigilância constante e às restrições de circulação, é denunciada como forma permanente de controle do território.

Essas lutas ganharam projeção nacional durante o ATL 2026, em Brasília, onde lideranças de diferentes regiões se somaram para afirmar uma mesma denúncia: a mineração não é uma promessa abstrata de desenvolvimento, mas uma ameaça concreta à vida, à autonomia e ao futuro dos povos indígenas. Nesse contexto, o lançamento do relatório da Apib fortaleceu a incidência política do movimento ao conectar as violências vividas nos territórios à engrenagem institucional que as sustenta.

O que o relatório revela é que a mineração em terras indígenas não avança apenas porque há empresas interessadas. Ela avança porque se organiza simultaneamente nos três poderes e porque passa a se apresentar, sob a retórica da transição energética, como se fosse solução climática e de interesse nacional e público. Em nome do futuro, tenta-se normalizar a destruição. No entanto, a extração de minérios ameaça justamente a segurança climática do planeta ao condenar territórios e povos indígenas em zonas de sacrifício para atender interesses, principalmente, do Norte Global. A resposta dos povos indígenas, porém, já está colocada nas ruas e nos territórios: nosso futuro não está à venda.

Midori Hamada é diretora do Instituto aProteja.org e atua ao lado de grupos, organizações e movimentos que enfrentam o avanço da expropriação, da violência e da destruição sobre a terra e os territórios. Sua atuação se orienta por uma leitura crítica das relações entre economia, poder e território, com atenção especial à articulação entre infraestrutura, agronegócio e os diferentes vetores de avanço sobre terras e comunidades. Trabalha na construção de processos políticos, organizativos e formativos comprometidos com a autodeterminação dos povos, a justiça socioambiental e a defesa da vida.

Se comentar, assine.

O projeto das Big Techs para substituir os Estados nacionais 
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/big-techs-x-estados-nacionais.html 

Humor de resistência

Miguel Paiva 

19 abril 2026

Palavra de poeta

Carta aos rinocerontes
César Leal   


Não sei se estou mais presente na Terra
do que estariam uma rosa e uma dália.
Nem um milésimo das coisas que vejo diariamente
está contido em meus poemas...

Sei que o leitor poderá dizer isso agora:
"— Você não é um bom poeta! Castro Alves
é mais participante, mais exato,
transporta o mundo — ou pelo menos sua metade
no Navio Negreiro.

Mas você — que leio agora —
não me acende nenhuma luz,
agarra-se demasiadamente aos anjos,
a uma forma estéril
que não fala ao tempo,
aos pássaros,
e menos ainda ao meu coração".

Ouço-te e repito
que sou apenas pequena parte das coisas
que estão no mundo
com certeza não sou a menor parte
e, por isso, tens que me aceitar
se és um leitor e não apenas um crítico.

Se minha poesia te cansa,
peço-te: come as saladas de Souzândrade; bebe
lentamente as gotas de orvalho que fluem dos Caligramas
de Apollinaire...

Elas satisfarão tua fome e tua sede,
ou terás uma sede e uma fome tão estranhas
que suportarias ainda Maiakovski,

Evtuchenko, Voznessenki, Pound
e toda a galeria dos participantes
que ficam à tua direita e à tua esquerda?

Quanto a mim, pouco te posso oferecer:
não escrevo para los muchos
arranco de mi corazón el capitán del inferno,
establezco cláusulas indefinidamente tristes

Esgotados os estábulos aonde os teus donos
guardaram para ti alimentos tão nobres,
ainda restariam os membros do Clube dos Ultraistas,
Tzara e todos os que, à semelhança dos empregados domésticos
sopram trombetas das 6 às 6,
repetindo eternamente a contínua canção:
"somos os que andam na vanguarda do Tempo".

Quanto a mim continuarei sozinho,
solitário como um estranho rio
de um território ainda não visitado pelos geógrafos,
abrindo sem descanso a minha estrada
certo de que alguém um dia
— anjo ou demônio —
caminhará por ela até a porta do meu nome.

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também: Retrato do artista quando coisa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_25.html 

Roberta, líder nacional

46º Congresso da Ubes elege Roberta Pontes presidenta com 87% dos votos
Pernambucana é estudante de Desenvolvimento de Sistemas e já foi presidenta da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas do Recife e tesoureira na última gestão da Ubes
Priscila Lobregatte/Vermelho     

O 46º Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Conubes), realizado em São Bernardo do Campo (SP) desde o dia 16, elegeu, neste domingo (19), a pernambucana Roberta Pontes como nova presidenta da entidade. A candidatura, que teve 87% dos votos, compunha o movimento “Tudo Nosso!”, encabeçado pela União da Juventude Socialista (UJS).

“Nós seremos os inimigos número um daqueles que querem transformar a escola em quartel e num espaço de autoritarismo. A escola para nós é um lugar de fortalecer a democracia, emancipar o povo e construir a nação”, afirma a estudante, salientando um de seus objetivos à frente da Ubes.

Na sexta-feira (17), uma grande passeata dos estudantes tomou as ruas de São Bernardo do Campo, contra a crescente militarização do ensino em diferentes estados do país.

Roberta, que é a terceira mulher eleita presidenta da entidade apenas nesta década, também aponta como prioridade a realização de uma grande campanha contra o assédio e o machismo nas escolas.

Segundo ela, o crescimento de movimentos como o dos Red Pills e os discursos de ódio junto à juventude devem acender o alerta e mobilizar os secundaristas por todo o país. A dirigente também quer a Ubes mais atuante contra o machismo, a LGBTfobia e todas as formas de opressão no ambiente escolar.

Trajetória

Roberta Pontes tem sua origem na periferia do Recife (PE), é estudante de Desenvolvimento de Sistemas e tem trajetória construída desde a base do movimento estudantil: já foi presidenta de grêmio estudantil, da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Recife e tesoureira na última gestão da Ubes.

À frente da Umes-PE, teve papel central nas mobilizações pela revogação do Novo Ensino Médio e na aprovação da Lei da Primeira Merenda nas escolas estaduais.

Na tesouraria nacional da Ubes, esteve à frente de campanhas contra as escolas cívico-militares, pela ampliação da alimentação nos Institutos Federais e pela manutenção dos 10% do PIB investidos em educação.

Reconhecimento

Conforme destacou a Ubes em seu perfil nas redes sociais, a partir de agora, Roberta “assume a responsabilidade de organizar as lutas dos estudantes secundaristas brasileiros, fortalecendo as pautas por educação de qualidade, democracia e direitos para a juventude em todo o país”. 

Já a UJS salientou que a recifense “carrega o sonho de uma escola de qualidade, democrática e livre de opressões e, junto ao movimento Tudo Nosso, vai liderar a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas na luta contra a extrema direita e em defesa de um Brasil justo, soberano, desenvolvido e para todos os brasileiros”.

Saiba mais: Secundaristas de todo Brasil se reúnem em São Bernardo para o 46º Congresso da Ubes

Ao fazer um breve balanço de sua gestão, o presidente cessante Hugo Silva, destacou: “Estamos encerrando a gestão que lutou ao lado dos estudantes pela ampliação dos nossos direitos e que trouxe muitas conquistas! Garantimos os 10% do PIB pra educação, conquistamos o orçamento para alimentação escolar nos IFs (Institutos Federais), conquistamos o Pé-de-Meia e fortalecemos a luta para que seja para geral, combatemos as saunas de aula e criamos o protocolo de adaptação climática das escolas, fortalecemos os grêmios escolares e estivemos dentro das escolas, no chão das salas de aulas”.

46º Conubes

Considerado o maior encontro estudantil da América Latina, o Conubes reuniu, segundo a entidade, cerca de sete mil jovens entre os dias 16 e 19, em São Bernardo do Campo, sob o lema “Democracia e Soberania: um Brasil do Tamanho da nossa Rebeldia”.

A plenária final teve resoluções para questões como a defesa da educação pública, o enfrentamento às desigualdades, a permanência estudantil, o combate à evasão escolar, a valorização dos grêmios livres e a ampliação de direitos como o Passe Livre e a alimentação escolar de qualidade. As teses e moções do encontro também reafirmaram o compromisso da UBES com a democracia, os direitos sociais e a soberania nacional.

Se comentar, assine.

PCdoB alerta para desafios eleitorais e ofensiva imperialista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-do-pcdob.html

Postei nas redes

Quem viu Santos 2 X 3 Fluminense, hoje, não pode desejar a convocação de Neymar para a seleção brasileira. 

Seleção brasileira: "Tempos vividos e perdidos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/selecao-brasileira-para-onde.html