09 junho 2026

PCC e CV na Faria Lima

PGR investiga a conexão de fundos e fintechs com o crime organizado desde 2020
A pandemia por Covid-19 e o desmonte da Operação Lava Jato retardaram e desmobilizaram ações de procuradores que teriam evitado o avanço de PCC e CV na Faria Lima
Liberta 
 

Por dever de ofício e em razão dos cargos que ocupam na estrutura da Procuradoria Geral da República, subprocuradores-gerais que auxiliam o procurador-geral, Paulo Gonet, reabrem aos poucos e cautelosamente um acervo de informações e investigações inconclusas que poderiam ter antecipado em alguns anos a descoberta de conexões entre os mecanismos de lavagem de dinheiro das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) e as fintechs e os fundos de investimento cujos cérebros estão sediados no centro financeiro do país, a Avenida Faria Lima (São Paulo).

Entre os anos de 2020 e 2021, em razão das urgências operacionais demandadas pela pandemia de Covid-19 e pelas ilegalidades que vinham sendo reveladas em ações da Operação Lava Jato, foram paralisados os entrecruzamentos de contas e investimentos que ocultavam a origem de recursos e dispersavam a atenção de órgãos de controle. Em 2022, a PGR chegou a rascunhar acordos de cooperações internacionais de investigação com nações europeias (o “EuroJust”) e com países integrantes da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Esses acordos deveriam ter sido chancelados pelo Congresso brasileiro. Nunca foram. Senado e Câmara dos Deputados arquivaram todos os procedimentos de chancela. Esse corpo mole parlamentar foi um bálsamo para o crime organizado seguir contaminando as contas de instituições financeiras com o chorume de suas ações de lavagem de dinheiro e “branqueamento de capitais”. Agora, com a reunião de dados das operações Tank, Carbono Oculto, Carbono 086, Compliance Zero e Fluxo Oculto no “mind map” dos investigadores da Polícia Federal, Ministério Público da União, Ministério Público de São Paulo, Receita Federal, Banco Central e Coaf, abre-se nova janela de oportunidade para seguir os descaminhos do dinheiro do crime – e é isso que leva as operações investigativas para os endereços abastados da Faria Lima.

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Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

Uma crônica de Enio Lins

A copa do mundo e as memórias de um torcedor muito grosso
Enio Lins  

POR PURO PATRIOTISMO palpitei 4x0 para o Brasil pouco antes do início do jogo contra o Egito, durante entrevista na rádio Delmiro FM. Chutei. Não tinha a menor ideia da correlação de forças entre as seleções. Deu 2x1 a favor do escrete canarinho.

POR PATRIOTISMO PURO
torço danadamente para que nosso Brasil conquiste a sexta estrela. Não posso prometer que esse meu esforço de torcedor quadrienal se traduza em assistir todos os jogos, pois há muitas décadas assumi ter simpatia zero para com o futebol, sentimento igualitariamente distribuído em relação a acompanhar quase todos os esportes – à exceção do boxe e algumas modalidades olímpicas. Nada, entretanto, se aproxima da minha antipatia pela Fórmula 1, pois nunca entendi como alguém pode concentrar atenção numa competição na qual quem torce é capaz de destroncar o pescoço ao tentar acompanhar bólidos passando a mil por hora: zum! zum! zum!

TENTEI DE TODO CORAÇÃO
me ligar ao futebol. Em minha meninice isso era exigência social e rito de passagem: jogar bola, ter um time para torcer, ir ao estádio. Jogar bola sem ser ridículo sempre me foi impossível, mas fui um dos fundadores do Mangabeiras Futebol Clube, agremiação que nem sempre alcançava os 11 voluntários para disputar uma partida, e o time achava menos arriscado jogar com 10, ou nove, pois minha presença dentro das quatro linhas era um risco terrível. Testado nas 11, fiquei garantido na 12ª posição, depositado no banco. Mas era titular na redação dos ofícios manuscritos, em papel pautado, convidando times adversários para disputas quase sempre perdidas, apesar de Marcus, Marlon e Gibson jogarem bem. De vez em quando, contávamos com o craque Noé. Tive sucesso ao desenhar o escudo do MFC, copiado do Fluminense por conta do único terno de camisas que pudemos adquirir – de segunda ou terceira mão – ser tricolor no padrão verde-branco-grená. Não tivemos outra camisa, pois o time encerrou sua jornada de insucessos com menos de um ano de areiões e chão-de-barro-batido, como eram os campos em inóspitos terrenos baldios na Mangabeiras e no Jacintinho.

DOS 11 AOS 17 ANOS
de idade, entre 1968 e 1974, fui assiduamente aos estádios. Antes do Trapichão, frequentei as arquibancadas da Pajuçara e do Mutange. Por influência de minha Vó Tila (Domitila Lins da Silva), militante do cordão encarnado no Pastoril, aderi ao Clube de Regatas Brasil. Fiz parte do embrião da torcida organizada regatiana, então um punhado de gente em torno da batucada regida por Ascendino Santos (líder de um “regional”, como chamavam-se os grupos de samba, choros e outros brasileirismos). Eram quase todos homens negros, dentre os quais me recordo bem do pai do professor Edson Alcântara, um mecânico idoso com postura de rei ou xamã africano, cujo nome nunca soube, mas que me tratava como se eu fosse um neto, e não se cansava de tentar me explicar os lances em campo, pois minha ignorância era acintosa. Eu só distinguia o gol. No começo de 1974, num final de jogo no Rei Pelé procurei meu “avô africano” e expliquei que ia me afastar para estudar para o vestibular. O velho pai do professor Edson me deu força: “Está certo, rapaz. Estudo deve vir em primeiro lugar, e vestibular é coisa séria. Estude, passe, e depois volte”. Estudei, passei e não voltei mais. Contabilizo 52 anos sem ir a um estádio para ver uma partida. No final de 1994, voltei ao Rei Pelé, num CRB x CSA, mas apenas por uns minutos no intervalo – noutro artigo contarei o porquê.

INSPIRADO PELO 2x1
da partida que não assisti, repito – sem preconceito, por ter sido slogan criado pela ditadura – o brado da Copa 1970: PRÁ FRENTE BRASIL!! Minhas lembranças se concentram ali porque foi a única que acompanhei todos os jogos – pela TV, lógico – e sabia até a escalação completa. Em resumo: VIVA A SELEÇÃO! VAMOS AO HEXA!!!

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Futebol permite sonhar o sonho impossível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/futebol-ciencia-arte.html 

08 junho 2026

Palavra de poeta

Tereza

Manuel Bandeira    

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

[Ilustração: Marie Fox]

Leia também: "Da rede tudo se ouve e se imagina" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Sua opinião


Futebol encanto e tática

Novos e velhos tempos
Frequentes discussões se a seleção brasileira deve jogar no 4-4-2, no 4-2-4 ou no 4-3-3 são obsoletas. Série da Netflix sobre o tricampeonato é bem feita e emocionante, mas há muitas cenas inventadas e sensacionalistas
Tostão/Folha de S. Paulo    

Contra o Egito, o fato positivo foi a marcação por pressão mais eficiente do que nos jogos anteriores, embora aumente os riscos por deixar mais espaços na defesa se não houver a recuperação da bola. Assim saíram os dois gols do Brasil. No primeiro tempo, os quatro do meio campo (os volantes Casemiro e Bruno Guimarães e os meias Paquetá e Raphinha) atuaram muito centralizados deixando os laterais desprotegidos. O Egito criou também algumas chances de gols. Após os amistosos contra Panamá e Egito, ninguém sabe qual será o time da estreia na Copa devido às muitas experiências feitas por Ancelotti.

Os dois jogos não diminuíram nem aumentaram as esperanças de sucesso no Mundial. Tudo continua incerto.

Além das dúvidas nas laterais, a seleção brasileira do meio para frente possui quatro titulares (Casemiro, Bruno Guimarães, Vinicius Junior e Raphinha). Alguns jogadores disputam as outras duas vagas, com diferentes posicionamentos em campo. Quando Ancelotti fala que o time vai jogar no 4-4-2, independentemente da escalação, deduzo que se refere à fase defensiva, com quatro jogadores na proteção dos quatro defensores. Este é um conceito antigo, presente na maioria das atuais equipes, iniciado com a seleção inglesa campeã do mundo em 1966.

Muitas coisas vão e voltam no futebol. Evidentemente, o jogo hoje é muito mais veloz, intenso, compacto, com as equipes marcando e atacando com muitos jogadores.

As frequentes discussões se a seleção brasileira deve jogar no 4-4-2, no 4-2-4 ou no 4-3-3 são obsoletas. Os jogadores não param de correr e, a cada instante, é formado um diferente sistema tático na prancheta. Os pontas são atacantes quando avançam e defensores quando recuam. Não há diferença entre 4-2-4 e o 4-4-2, vai depender do momento do jogo. Obviamente, as equipes possuem particularidades individuais e coletivas.

Outra discussão diária, desnecessária, é se o Brasil deve jogar com quatro atacantes ou com um terceiro jogador no meio-campo. Matheus Cunha é um armador ou um atacante, pois marca no meio-campo e chega à frente?

Antes da Copa de 70, o Brasil jogava com dois no meio-campo (Clodoaldo e Gerson), dois atacantes pelo centro (Pelé e Tostão) e dois pontas abertos e agressivos. Zagallo assumiu o comando e trocou o ponta esquerda Edu por mais um jogador de meio-campo (Rivellino). As discussões eram as mesmas de hoje, se o time deveria jogar com três no meio-campo ou com quatro atacantes (4-3-3 ou 4-2-4) e se deveria ter um clássico centroavante (Roberto) ou um meia atacante (Tostão) ao lado de Pelé. Zagallo dizia, como muitos defendem hoje, que a equipe não poderia ter apenas dois no meio-campo contra as fortes seleções europeias.

A pressão feita por Pelé e outros jogadores para Zagallo me escalar não foi explicita como mostra a série "Brasil 70 — A Saga do Tri", exibido pela Netflix. Se houve pressão, foi silenciosa, pelo olhar, nas entrelinhas e nas conversas ao pé do ouvido. Gerson, que jogava no Botafogo sob o comando de Zagallo, conversava muito com o técnico. Eu não fui até Zagallo para dizer que eu tinha de ser o titular, como mostra a série. Diferentemente do que é mostrado, Pelé era um atleta consciente, equilibrado, bem-humorado e muito forte emocionalmente. Por isso e pelas condições físicas e técnicas era o Pelé, o maior da história.

A série é bem feita, prazerosa de se ver, emocionante, possui ótimos atores, com ótima reprodução dos principais lances e gols, mas há muitas cenas inventadas e sensacionalistas para dramatizar uma grande conquista esportiva.

Leivinha

Meus sentimentos à família de Leivinha, ídolo do Palmeiras, meu companheiro de ataque na seleção brasileira, campeã da Copa das Confederações, no Maracanã, em 1972. Leivinha ocupou o lugar de Pelé, que tinha se despedido da seleção.

[Ilustração Andy Warhol]

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A Buenos Aires nordestina que admira e torce pela Argentina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/surpreendente-emocionante.html 

Sylvio: perdedores

A extrema direita juntou tudo (Flávio Bolsonaro, Zema e Caiado), mas pouco vai adiantar. O Brasil reconhece o trabalho de Lula e quer a continuação. 

Sylvio Belém   

Ingerência inaceitável: o que pode nos afetar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/abraham-sicsu-opina.html 

Minha opinião

Trump e seu poço de areia movediça
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65  

O comportamento agressivo e errático de Donald Trump causa prejuízos consideráveis aos Estados Unidos, refletindo a decadência da superpotência que dirige; e coleciona, internamente, um gol contra atrás do outro no que ainda se consideram instituições democráticas e coesão social.

Não é sem razão que amarga índices negativos de popularidade a cada rodada de pesquisa e age como que mergulhado num poço de areia movediça. Esperneia.

Num ambiente de crise interna, a negação do papel de liderança que institucionalmente lhe cabe. Ao contrário, grosseiramente fomenta divisões culturais, raciais e políticas para consolidar mirando exclusivamente sua base eleitoral.

Em artigo recente, o jornalista Thomas Friedmann, do The New York Times, comparou o comportamento de Trump ao de líderes mafiosos. Usou o termo “bandido em chefe”.

Pior ainda é uso que Trump faz da máquina governamental em seu próprio benefício e de seus amigos empresários mais próximos em confronto aberto com parte da grande mídia e do Poder Judiciário e – diz Friedmann – mesmo do FBI.

Mais: como governante repete expedientes de quando candidato, disseminando “teorias da conspiração” e fake news de toda espécie na tentativa de manter sua base social envolta numa “realidade paralela”.

O que Friedmann e outros analistas da mesma corrente não dizem é que Donald Trump protagoniza um instante de visível decadência do imperialismo norte-americano em meio à transição geopolítica mundial para um novo desenho multipolar.

[Ilustração: Gargallo]

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Leia também: Donald Trump e sua tresloucada política externa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/minha-opiniao_0648315181.html