Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
26 setembro 2026
Arte é vida
Palavra de poeta
Soneto das metamorfoses
Carlos Pena Filho
Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.
Carolina, a cansada que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.
E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.
Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.
[Ilustração: João Câmara]
Leia também: "Passeio pelas ruas do espinheiro", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-de-poeta_0470369103.html
Postei nas redes
Analistas dizem que o ritmo de evolução da IA superou a capacidade dos governos e das empresas de impor barreiras de proteção eficazes. Será?
Informações distorcidas
A mídia flerta com o desastre
Cobertura das eleições joga no lixo compromisso com os valores democráticos
Rodrigo Vianna/Liberta
O primeiro sinal veio naquela tarde em que a GloboNews, no programa conduzido por Andréia Sadi, exibiu o PowerPoint terrivelmente bolsonarista que tentou colar em Lula o escândalo do banco Master. Como até as palmeiras do Jardim Botânico já sabiam, Daniel Vorcaro virou banqueiro graças à proteção de Jair Bolsonaro, Campos Neto e de sua gangue mercadista. E não por causa de Lula, que o transformou em presidiário.
Os ingênuos viram no episódio do PowerPoint apenas a ação desastrada de um editor que – mais realista que o rei – decidiu vincular a estrela do PT a Vorcaro, pensando que assim garantiria promoções internas. Acabou demitido, porque a Globo espera alguma sutileza dos que se dispõe a trabalhar em favor dos interesses da família Marinho.
Ali, em março de 2026, já se desenhava qual seria o papel da mídia hereditária diante de mais uma ameaça à democracia no país. A Globo pediu desculpas pelo PowerPoint criminoso, mas não pediu desculpas – e nem pedirá – por “normalizar” Flávio Bolsonaro, deixando de expor suas ligações com a milícia e sua disposição para transformar o Brasil numa colônia submetida a Trump.
A maior irresponsabilidade da chamada “imprensa profissional”, ao longo da atual campanha, foi tratar Flávio como um candidato normal. O silêncio das redações não foi inocente: pavimentou o caminho para o filhote de Jair avançar, vendendo a imagem impossível de um “bolsonarista moderado”.
Passaram-se os meses e, em maio, coube ao Intercept Brasil mostrar que Flávio (e não Lula) era o irmãozão de Vorcaro. O áudio em que o “01” pedia dinheiro ao banqueiro bandido vazou graças ao trabalho do jornalista Paulo Motoryn, que hoje integra a equipe do ICL Notícias.
Durante dois meses, a aliança tácita entre Flávio Bolsonaro, Faria Lima e mídia hereditária desmoronou, não sendo mais capaz de oferecer proteção ao candidato das milícias. Para completar, coube à madrasta Michelle lembrar que ele é autoritário e maltrata as mulheres – seguindo a linhagem paterna.
Junho e julho foram os piores meses da campanha para Flávio: Lula chegou a abrir dez pontos de vantagem nas pesquisas de primeiro turno. Foram os únicos meses em que a sociedade conseguiu enxergar quem é o candidato do PL, sem o véu protetor da imprensa amiga.
O galope desgovernado do dark horse ameaçava conduzir o bolsonarismo ao precipício eleitoral. Mas, então, o dispositivo midiático voltou a operar, municiado por André Mendonça e pelos lavajatistas incrustrados em seu gabinete no STF.
A mídia hereditária, comandada pela Globo, tentou empatar o jogo da corrupção, criando uma falsa equivalência entre dark horse e as ligações do filho de Lula com uma lobista de terceiro escalão. Foram semanas de bombardeio, em que Fábio Luís frequentou o Jornal Nacional, as manchetes do UOL, do G1 e de sites menores a serviço da extrema direita. Durante esse período, Flávio voltou à redoma protegida.
Coube a repórteres fora da chamada “grande imprensa” manter a luz acesa, para mostrar quem é o candidato do Partido Liberal: filhote de Jair, sim; mas filho também das rachadinhas, que permitiram à família comprar 51 imóveis em dinheiro vivo, como já havia demonstrado a repórter Juliana dal Piva. Filho dos esquemas de Willer Tomaz, o advogado que caça negócios suspeitos em safáris na África do Sul ao lado do “01”.
A tática da família Marinho (como já ocorrera em 2006, 2010 e 2014) era bombardear o candidato do PT para impedir uma vitória em primeiro turno. O dito mercado exigia um Lula mais fraco, que fosse obrigado a negociar compromissos com a banca num segundo turno.
A sabatina de Lula no JN se transformou no símbolo de um jornalismo vassalo e emporcalhado: com o país sob cerco dos Estados Unidos, os dois apresentadores globais gastaram mais da metade da entrevista com perguntas sobre o filho do presidente. Sim, uma ou duas perguntas sobre o tema talvez fossem necessárias, mas a desproporção foi absoluta: o tarifaço, as ameaças de Trump e a interferência externa na eleição foram ignorados pela Globo.
Viúvas da Lava Jato
Em meados de setembro, circularam informações – trazidas por esta Revista Liberta, na coluna Reserva Exclusiva – de que amigos da família Marinho na direita liberal estavam preocupados: a Globo havia exagerado na dose, na tentativa de enfraquecer Lula, e deixou aberto o caminho para que o filho de Jair avançasse nas pesquisas.
Para completar, as viúvas da Lava Jato na imprensa foram alimentadas pela ação calculada de André Mendonça, que jogou Alexandre de Moraes aos tubarões. Agiu como um pixuleco eleitoral do bolsonarismo, com apoio ostensivo nas redações.
Sim, Moraes deve explicações à sociedade pelas relações com Vorcaro. Mas só ele? Mais uma vez, coube a jornalistas da chamada imprensa alternativa mostrar que Mendonça, terrivelmente evangélico e golpista, estava também terrivelmente envolvido com esquemas do banqueiro bandido.
É verdade que o bolsonarismo teria força, por si só, nas redes sociais. Também é fato que Lula 3 não conseguiu criar a mesma sensação de bonança econômica verificada entre 2003 e 2012. Esses fatores e mais o cerco trumpista já tornariam o caminho difícil para Lula em 2026.
Mas a falta de compromisso de boa parte dos meios de comunicação com a defesa da democracia e da independência nacional faz com que cheguemos à reta final da eleição sob ameaça de um desastre. Durante seis meses, a prioridade dos grupos tradicionais de imprensa – que ainda cumprem o papel de pautar o debate junto a setores não polarizados – foi enfraquecer Lula e pavimentar o caminho para um candidato que nasceu das milícias e do golpismo dos quartéis.
Coube ao Estadão – jornal carcomido, e que no passado falava em nome da elite paulista – dar nome aos bois, nesta penúltima semana antes do primeiro turno. O diário publicou editorial alertando para o risco de eleger Flávio, candidato coberto pela “sombra dos milicianos”.
O alerta, talvez, esteja chegando tarde.
Se o Brasil for capaz de evitar o desastre, isso terá acontecido apesar de o “jornalismo profissional” ter jogado no lixo o compromisso com valores democráticos.
Dois mil e vinte e seis marca o momento em que jornalismo de verdade se fez fora das redações tradicionais: no ICL, no Intercept Brasil, na Piauí, na Fórum, na Carta Capital e em dezenas de sites e pequenos produtores de conteúdo que não desistiram de mostrar ao país o risco de se entregar a maior nação latino-americana nas mãos de um filho da milícia, da corrupção e da vassalagem ao Império.
A palavra contundente de Lula no Recife https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/lula-no-recife-e-em-maceio.html
Dica de leitura
Solução para os juros altos
Luciano Siqueira
Leitura oportuna,
particularmente para quem se debruça sobre os gargalos de nossa economia na
perspectiva de um quarto governo Lula.
O artigo "André Lara Resende: uma proposta para
eliminar os juros absurdos" , publicado no Portal da Fundação
Maurício Grabois https://grabois.org.br/2026/09/25/andre-lara-resende-uma-proposta-para-eliminar-os-juros-absurdos/ , lança luz sobre a política
monetária brasileira e a dinâmica fiscal do país.
O ex-diretor do Banco Central argumenta que o
verdadeiro desequilíbrio fiscal do Brasil não decorre dos gastos com serviços,
funcionalismo ou políticas sociais (déficit primário), mas sim do serviço da dívida pública imposto
pelas elevadas taxas de juros.
Os juros elevados elevam dramaticamente o custo médio da dívida brasileira,
corroendo os recursos públicos (gerando déficits nominais expressivos) e
transferindo renda para o setor financeiro e detentores de títulos.
O artigo
questiona o dogma de que manter a taxa básica de juros (Selic) em níveis
acelerados é a única forma de controlar a inflação ou garantir a renovação
fiscal.
Ao contrário,
juros extraordinariamente altos tornam a dívida pública insustentável, criando
uma verdadeira ameaça à estabilidade fiscal — pois alimentam a desconfiança
sobre a capacidade de pagamento do Estado no longo prazo.
Demais, a
taxa Selic superelevada inibe o investimento produtivo, encarece o crédito para
empresas e famílias, atua contra o crescimento do PIB e aprofunda as
desigualdades sociais.
Para
superar essa armadilha e destravar o desenvolvimento econômico, Lara Resende
defende outra agenda: transição guiada para alinhar a taxa básica de juros a
patamares neutros/razoáveis, cortando o custo da dívida; superar a fixação exclusiva em metas
de déficit primário zero ou em arrocho fiscal pontual, adotando uma visão
sistêmica sobre o arcabouço fiscal; . intervenções cambiais pontuais pelo Banco
Central para conter pressões inflacionárias decorrentes de desvalorizações do
real, sem depender unicamente do aumento da Selic para segurar o câmbio.
Ou seja, a redução dos juros é a saída para o desequilíbrio fiscal . Baixando o custo do endividamento, o Estado ganha sustentabilidade nas contas públicas e abre espaço para investimentos em infraestrutura e serviços públicos fundamentais.
Leia também: A reprimarização do Brasil e a possível virada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/brasil-desafios-do-desenvolvimento.html
Fotografia
"A rosa que inspira e a solidão que dói" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_18.html




