22 janeiro 2026

Minha opinião

À direita, todos brigam e ninguém tem razão* 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

Não se pode subestimar o potencial da polarização entre Lula e um candidato da direita, seja qual for, na disputa pela presidência da República. Uma batalha sob todos os aspectos difícil.

Isto porque a população segue dividida basicamente em dois extremos: os que apoiam Lula e se sentem em parte atraídos pela esquerda versus o imenso contingente conservador, eventualmente sensibilizado por uma alternativa situada no extremo oposto.

Praticamente todas as pesquisas até agora confirmam esse cenário. 

Daí porque tanto Lula como quem o enfrente terá o desafio de atrair parcela expressiva do eleitorado passivo de oscilação para um lado ou para o outro. 

No terreno da extrema direita e do centro mais conservador segue a arenga em torno do melhor nome que os represente. Por enquanto, nem é o senador Flávio Bolsonaro (PL), lançado pelo pai presidiário, nem o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que segue oscilante como vara verde na definição entre a tentativa de reeleição para o cargo que ocupa ou se arriscar no confronto com Lula.

Outros governadores que pretendem o posto — Romeu Zema, de Minas Gerais (Partido Novo), Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, Ronaldo Caiado (União Brasil), de Goiás e Eduardo Leite (PSDB), do Rio Grande do Sul — carecem de lastro político desde o ponto de partida. 

Mais: que projeto apresentam ao país além da retomada do desastre de Jair Bolsonaro?

Aí reside outro dilema: a defesa do legado do capitão teria viabilidade eleitoral hoje? Como adequar a base bolsonarista insana a um esforço de ampliação para outros segmentos da sociedade? 

No outro lado da ponta, o projeto de reeleição de Lula se assenta em êxitos progressivos do governo e na possibilidade de atrair para a ampla coalizão mais segmentos situados ao centro.

Óbvio que nos próximos meses muito ainda há a acontecer. A instabilidade é a marca do mundo ocidental em crise e o impacto da ganância exacerbada do capital financeiro e da agressividade de seus representantes mais salientes contribui para o acentuado grau de imprevisibilidade no desenrolar da cena política. O Brasil faz parte.

*Texto da minha semanal no portal Vermelho

As duas cabeças do monstro que assombra o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/bastioes-da-direita.html 

Futebol: desafio tático na Copa

Centroavante que se movimenta não é 'falso' 9
Brasil não acompanhou a evolução na maneira de jogar. Inventividade, fantasia e improvisação no nosso futebol não pioraram
Tostão/Folha de S. Paulo  

Muitos torcedores, treinadores e jornalistas esportivos insistem na tese de que o futebol brasileiro piorou em relação ao europeu porque diminuiu a inventividade, a fantasia e a improvisação. Penso o contrário, há décadas. Piorou porque não acompanhou a evolução na maneira de jogar. Essa diferença tem diminuído.

O futebol brasileiro venceu as Copas de 58, 62 e 70 porque já unia o talento individual com o coletivo, e não somente porque tinha muito mais brilho individual do que os europeus, como insistem em dizer. Na Copa de 58, o ponta Zagallo recuava e formava um trio no meio-campo. A defesa passou a marcar com uma linha de 4 defensores. Era o 4-3-3, uma evolução do sistema tático WM (3-2-2-3), com três defensores, dois médios, dois meias ofensivos e três atacantes.

Outro conceito ultrapassado, mas cada dia mais repetido no Brasil, é que para ser um centroavante é preciso ser um atacante central fixo, alto, forte, que atua como pivô e que finaliza muito bem. Os que se movimentam bastante e participam do jogo coletivo são chamados de falso 9, uma grosseira simplificação. Ao contrário, estes são os centroavantes completos, ainda mais se forem artilheiros.

A atual seleção brasileira possui vários bons centroavantes, com diversas características, mas não tem um centroavante fixo de altíssimo nível, como o artilheiro Haaland, nem um craque que esteja em todas as partes do ataque e que faça um número enorme de gols, como Kane.

Ancelotti tem muitas opções de acordo com o momento. Pode ser um clássico centroavante (Pedro, Igor Jesus), um que se movimenta bastante (João Pedro, Matheus Cunha) ou um centroavante veloz para receber a bola nas costas dos defensores (Vinicius Junior, Kaio Jorge, Vitor Roque). Se a Copa fosse hoje, Vinicius Junior seria o titular.

Não há uma maneira única de ganhar o Mundial. Como disse Luís Curro, o Brasil já foi campeão com dois grandes craques centroavantes de características diferentes —Romário, em 94, e Ronaldo, em 2002—, com um centroavante típico, fixo —Vavá, nas Copas de 58 e 62— e sem um clássico centroavante —Tostão, em 70.

Quando Zagallo assumiu a seleção de 70, convocou dois típicos centroavantes artilheiros (Dario e Roberto) e disse que eu seria reserva de Pelé, pois não era da posição. Modéstia à parte, eu tinha convicção de que ele mudaria de ideia, pois a seleção precisava de um centroavante armador, facilitador, para atuar entre Pelé e Jairzinho, como ocorreu. Na seleção, eu fui para Pelé e Jairzinho o que Evaldo era no Cruzeiro para mim e Dirceu Lopes.

Mesmo se o Brasil fizer tudo certo e tiver uma grande equipe no Mundial, o título, em um campeonato curto e com outras grandes seleções, será conquistado nos detalhes e no imponderável. "A vida dá muitas voltas, a vida não é da gente" (João Guimarães Rosa).

Descortino tático na disputa eleitoral https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_15.html 

Palavra de poeta

A estrela
Manuel Bandeira    

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.

[Ilustração: Diego Rivera]

Questão de perspectiva https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_11.html 

21 janeiro 2026

Boa notícia

Bolsa Família amplia acompanhamento escolar e inclui 1,55 milhão de estudantes em 2025
Dados oficiais desmentem fake news sobre evasão escolar; programa exige frequência para manter benefício
Cezar Xavier/Vermelho  



 

Em 2025, o Programa Bolsa Família registrou um marco histórico na garantia do direito à educação: mais de 1,55 milhão de crianças e adolescentes que antes não tinham matrícula ou frequência escolar registrada passaram a ser acompanhados pelo Sistema Presença. O dado, divulgado pela Secretaria Nacional de Renda e Cidadania (Senarc), do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), desmente diretamente alegações infundadas de que o benefício incentivaria a evasão escolar.

A declaração ganhou destaque após a atriz Solange Couto, participante do Big Brother Brasil 26, afirmar durante o programa da Globo que teria ouvido uma mulher aconselhar uma menina de 13 anos a abandonar os estudos “para receber mais dinheiro” com o Bolsa Família. A fala, reproduzida sem contexto, gerou uma onda de desinformação nas redes sociais — rapidamente rebatida pelo governo federal com base em dados concretos.

Busca ativa reduz em 10,5% os alunos sem registro

A chamada “busca ativa escolar”, coordenada pelo MDS em parceria com estados e municípios, identifica crianças e adolescentes fora da escola ou em risco de abandono. Entre outubro e novembro de 2025, mais de 180 mil estudantes anteriormente classificados como “não localizados” (NLOC) foram inseridos no sistema, resultando na menor taxa anual de ausência de registros e elevando para 89,2% o percentual de beneficiários com frequência escolar monitorada — o maior índice do ano.

Além disso, 95,49% das famílias cumpriram as condicionalidades educacionais, reforçando que o programa não apenas exige, mas efetivamente garante o acesso à escola.

Municípios avançam com integração intersetorial

O impacto da busca ativa também se reflete nos municípios. Em fevereiro de 2025, 788 cidades tinham menos de 75% de acompanhamento escolar dos beneficiários. Até novembro, esse número caiu para 338, uma redução de 57%. Esse avanço é atribuído ao trabalho conjunto de equipes de educação, saúde e assistência social, que utilizam plataformas digitais para mapear e reintegrar estudantes à rede escolar.

“Essa integração entre as redes e o trabalho conjunto das equipes em estados e municípios são fundamentais para seguirmos avançando no programa. Isso garante que as famílias tenham acesso a serviços essenciais, como educação de qualidade. Sabemos o quanto a educação é importante para romper o ciclo da pobreza entre gerações”, afirmou a secretária nacional de Renda de Cidadania, Eliane Aquino.

Condicionalidades reforçam permanência na escola

Longe de incentivar a evasão, o Bolsa Família vincula o recebimento do benefício ao cumprimento de condicionalidades rigorosas. Crianças de 4 a 6 anos incompletos devem ter, no mínimo, 60% de frequência escolar, enquanto estudantes de 6 a 18 anos incompletos precisam atingir 75% de presença. Sem esses dados atualizados pelas redes de ensino no Sistema Presença, o benefício pode ser suspenso.

Na área da saúde, o programa também exige vacinação em dia e acompanhamento nutricional para crianças menores de 7 anos, além de pré-natal regular para gestantes.

Governo rebate fake news com dados e políticas públicas

Diante das declarações de Solange Couto, o governo federal usou suas redes sociais para esclarecer: “Ao contrário do que disseram no programa, o Bolsa Família não tira ninguém da escola. Na verdade, os filhos menores de 18 anos que não concluíram a educação básica têm que estar matriculados e ir a 75% das aulas para o benefício ser pago.”

O Executivo também destacou o Pé-de-Meia, programa complementar que oferece incentivo financeiro a estudantes do ensino médio público beneficiários do Cadastro Único, reforçando que “não existe oposição entre estudar e receber benefício”.

Com previsão de alcançar mais de 95% de cobertura escolar em 2026, o Bolsa Família consolida-se não como um obstáculo, mas como um pilar de proteção social e promoção educacional para milhões de famílias brasileiras.

Leia também Pobreza e desigualdade caem ao menor nível em três décadas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/boa-noticia_25.html

Postei nas redes

E se Daniel Vorcaro, pivô da falcatrua do Banco Master, optar pela delação premiada, qual o tamanho do abalo no todo poderoso mercado financeiro? 

Xadrez do Master, a maior crise institucional da história do mercado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/banco-master-por-luis-nassif.html 

Enio Lins opina

Trump e o velho imperialismo americano sem maquiagem
Enio Lins     

NÃO SE PODE ACUSAR Donald Trump de ser dissimulado. Ele vai direto ao ponto – mentindo, ou falando a verdade – como ação para aterrorizar e imobilizar a vítima. Anuncia sua meta, confessando antecipadamente o crime que irá cometer. E já visou que quer anexar mais uma fatia expressiva de terra aos Estados Unidos, pode ser o Canadá ou a Groelândia, quiçá ambos, sem meias-palavras: “Ou vocês me dão de graça, ou vendem, ou eu os assalto à mão armada”. Direto na lata.

É UMA TÁTICA TRUMPISTA, personalizada. Mas a estratégia é a mesma de todos os seus antecessores desde a Doutrina Monroe (1823) e de seu aperfeiçoamento pela Política do Grande Porrete (1901), como muita gente tem lembrado. Relembrando: no governo James Monroe (entre 1817 e 1825) foi anunciada a política dos Estados Unidos contra “uma nova colonização europeia nas Américas”, mascarando – parcial e porcamente – a orientação verdadeira: “no resto do mundo, apenas os Estados Unidos podem colonizar”. No período Theodore Roosevelt (entre 1901 e 1909), a conversa mole endureceu para a consigna “fale manso e tenha na mão um grande porrete”, ou seja: é para descer o cacete em quem resistir ao papo de batedor de carteira dos americanos.

AO INSISTIR EM ROUBAR
 a Groenlândia da Dinamarca, Trump desmoraliza a OTAN, instrumento que ele considera um peso morto. Os Estados Unidos têm arcado com 2/3 do orçamento da OTAN, jogando anualmente pela janela cerca de US$ 1 trilhão (valores de 2024). A Organização do Tratado do Atlântico Norte foi inventada em 1949, para se opor a um suposto avanço da União Soviética para além das fronteiras conquistadas durante a II Grande Guerra. Essa pulada da “cortina de ferro”, jamais existiu. O Exército Vermelho se deteve rigorosamente nos limites ocupados até 1945. No restante da Europa, a marca foi entrega das armas dos grupos de esquerda no imediato pós-guerra. Na Grécia e na Itália, por exemplo, as forças de resistência contra o Nazismo se mantinham como exércitos não-convencionais de grande força e prestígio. Partizans italianos e gregos, por orientação de Moscou, desistiram de batalhas praticamente ganhas em seus países, submetendo-se a um acordo firmado entre USA e URSS para divisão do mundo em áreas de influência. Naquele cenário, a OTAN foi a primeira grande (e cara) rasteira aplicada pela Casa Branca contra o Kremlin, que só reagiu seis anos depois, em 1955, com a criação do Pacto de Varsóvia, extinto com o fim da URSS, em 1991. Rigorosamente, inexistem razões para o tesouro americano seguir pagando os jogos de guerra para europeus.

NÃO EXISTE A OTAN 
sem os Estados Unidos, assim como não existiu o Pacto de Varsóvia sem a União Soviética. A OTAN não é uma unidade operacional verdadeira, é totalmente brocha sem o adjutório químico estadunidense. E Casa Branca só libera as substâncias eréteis para outrem se for para violentar alvos preferenciais do governo americano. Na Europa, apenas Inglaterra preservou forças armadas com alguma desenvoltura, e mesmo assim penaram – entre abril e junho de 1982 – para derrotar as desmoralizadas tropas da ditadura argentina na “Guerra das Malvinas”. Naquele confronto, morreram 649 militares argentinos e 255 britânicos, numa estatística tenebrosa em que o lado vencedor sofreu praticamente 50% dos óbitos em relação aos derrotados. Fora essa exceção de 1982, todas as incursões bélicas europeias dignas de registro têm acontecido como coadjuvantes das tropas americanas, seja no Iraque, Afeganistão, ou nos conflitos africanos. Terá hoje a OTAN como peitar os marines?

OUTRO DESPAUTÉRIO
 que joga na lata do lixo as aparências da diplomacia americana é a proposta de Donald de uma “Comissão da Paz” para Gaza. Mas como o espaço aqui está findando e a página não é de elástico, voltarmos a esse tema específico depois.

O que alimenta a revolta iraniana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/ira-importa-saber.html

Humor de resistência

 

Céllus

América do Sul: um continente partido e tutelado https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/america-do-sul-ameacas-e-desafios.html