10 abril 2026

Minha opinião

Frente ampla: necessária, complexa e contraditória*

Luciano Siqueira 

instagram.com/lucianosiqueira65       


A poucos meses da eleição presidencial, a incidência de alianças políticas "caleidoscópicas" — nos dois polos opostos da disputa — ganha força.

Tirante especulações meramente subjetivas, quando não tendenciosas; e a frustração do complexo midiático dominante pelo insucesso de uma pretendida candidatura dita da "terceira via", o centro político conservador, de reconhecida força eleitoral, é alvo de disputa tanto pela ampla frente democrática e progressista reunida em torno do presidente Lula, como pela articulação de extrema direita representada pelo senador Flávio Bolsonaro.

Em editorial recente, o Portal Vermelho avalia que o governo Lula conseguiu estabilizar sua base de esquerda e procura aproveitar as fissuras na oposição para avançar sobre o eleitorado e as segmentos de centro-direita, indispensável para o êxito eleitoral pretendido. (1)

Esse movimento ganha desenhos nítidos nas composições que se formam para a disputa de governos estaduais, frequentemente destoantes do posicionamento nacional.

Tão necessária quanto contraditória

Certa vez, ao ouvir de João Amazonas sua predisposição ao diálogo com Aureliano Chaves, então vice-presidente da ditadura militar já em plena decadência, o inquiri sobre o inusitado que me parecia: "Meu caro, você conhece algum caso na História em que nossas forças avançaram sem dividir as hostes inimigas?", respondeu.

Mas se parece óbvio frequentemente não é compreendido. A estreiteza, o sectarismo e o voluntarismo míope costumam rejeitar alianças políticas diversificadas. 

Lenin, a seu tempo, travou intensa batalha contra correntes sectárias no interior do partido e grupos voluntaristas e inconsequentes que na velha Rússia também se batiam contra o czarismo, assim como nos movimentos revolucionários europeus de então.

Em “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”, de 1920, (2) ele critica concepções estreitas e imediatistas predominantes no movimento revolucionário europeu. Orientava que para derrotar o inimigo principal faz-se necessário explorar contradições no seu entorno, atrair todas as correntes suscetíveis de uma aliança, mesmo que temporária, e neutralizar as que se desgarram do inimigo mas permanecem arredias.

Ele propunha aos partidos revolucionários o máximo de amplitude e flexibilidade sem contudo perder a identidade própria. No interior da ampla coalização, a relação dialética entre a unidade e a luta – conduta que já defendera em “Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Russa”, em 1905, no curso da luta contra czarismo. (3)

Este tem sido elemento essencial na concepção tática adotada pelo PCdoB, sobretudo a partir de sua 6ª. Conferência Nacional, de 1966.

Limites da correlação de forças

No Brasil, a coalizão de forças do campo popular e democrático liderada pelo PT desde 1989 aprendeu a superar concepções estreitas e sectárias no curso de rica experiência de derrotas e êxitos.

Mas mesmo nos governos Lula 1 e Lula 2, em conjuntura internacional em muitos aspectos favorável, limitações de ordem subjetiva (carência de um projeto nacional claro e bem definido) e objetiva (força real dos segmentos da classe dominante atraídos para a coalizão) determinou limites dos resultados alcançados.

No presente governo Lula 3, em conjuntura internacional e interna desfavoráveis, maiores são esses limites tanto em relação a pontos essenciais da Plataforma da Reconstrução Nacional adotada pela frente eleitoralmente vitoriosa em 2022, quanto às políticas sociais compensatórias (Minha Casa, Minha, Luz Para Todos, Pé de Meia, etc.), que esbarram em obstáculos orçamentários sob pressão do dito mercado financeiro.

Demais, antes e agora, o discurso governamental (salvo breves lampejos circunstanciais) se mantém marcadamente “economicista” e, portanto, insuficiente para esclarecer e elevar a consciência política da sua base social.

Na verdade, a frente ampla tem incorporado (corretamente) segmentos da classe dominante que alguns analistas caracterizam como “grande burguesia interna” (4), que ora assimilam proposições progressistas (governos Lula 1 e Lula 2 e Dilma), ora servem de anteparo – no parlamento e no próprio interior do governo – a passos mais ousados que possam se confrontar com interesses do capital financeiro, do agronegócio exportador e dos monopólios do varejo (atual governo Lula 3).

Em razão disso, mesmo em conjuntura razoavelmente favorável, jamais os governos Lula 1 e Lula 2 ousaram dar passos efetivos no sentido de reformas estruturais.

Ousadia e amplitude

A Resolução Política do XVI Congresso do PCdoB propugna “uma larga frente em defesa de quatro bandeiras: soberania nacional, democracia, desenvolvimento e valorização do trabalho” como indispensável à reeleição do presidente Lula, “abarcando centro, centro-direita e esquerda, sob o impulso da unidade e mobilização do povo”; “reunir forças para defender a soberania nacional, proteger e ampliar a democracia, promover o desenvolvimento e a defesa da economia brasileira, garantir melhores salários, mais direitos, vida digna ao povo... mesmo sob pesados condicionantes, entre eles o fato de ser um governo de minoria parlamentar, com um Congresso Nacional sob a hegemonia do conservadorismo, com uma numerosa bancada da extrema-direita; o forte poder da oligarquia financeira, que se robusteceu com a nefasta “independência” do Banco Central (BC); o pesado ataque do governo Trump; e a sociedade fraturada, sob influência da política e dos valores da extrema-direita.” (5)

Ou seja, um passo adiante em relação ao atual governo, a despeito da complexa e em muitos aspectos adversa conjuntura mundial e interna.

A chave do êxito implica na elevação do nível de consciência e de organização do povo.

Isto num quadro geral de fragmentação do proletariado e demais camadas assalariadas e de ampliação do trabalho informal; ainda insipiente redesenho de formas de luta e de organização e enfrentamento da chamada “guerra cultural”.

Diante de tamanho desafio, na conclusão do atual governo e na campanha que se avizinha, indispensável é ajustar o discurso para além da costumeira prestação de contas das “entregas” sociais e econômicas imediatas” (6).

Referências

(1)  Direita e extrema direita se dividem, Lula une a esquerda e busca a centro-direita https://vermelho.org.br/editoriais/direita-e-extrema-direita-se-dividem-lula-une-a-esquerda-e-busca-a-centro-direita/

(2)  Lênin: Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo

(3)  Duas Táticas da Social-Democracia na Revolução Russa

(4)  Boito Jr., Armando: Reforma e crise política no Brasil – os conflitos de classe nos governos do PT – Editora Unicamp/Editora Unesp Editora Unicamp/Editora Unesp

(5)  Resolução Política do 16º Congresso do PCdoB https://pcdob.org.br/documentos/resolucao-politica-do-16o-congresso-do-partido-comunista-do-brasil-pcdob/

(6)  Luciano Siqueira: Guerra das tarifas abre chance da esquerda ir além do economicismo governamental. Portal Grabois https://grabois.org.br/2025/07/24/guerra-tarifas-oportunidade-esquerda-alem-economicismo-governo/

*Publicado simultaneamente no Portal Grabois https://grabois.org.br/

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Leia também: 'Mergulhar fundo para avançar na superfície" Mergulhar fundo para avançar na superfície https://grabois.org.br/2024/11/18/luciano-siqueira-mergulhar-fundo-para-avancar-na-superficie/ 

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Leio no Globo que pagamentos do banqueiro presidiário Vorcaro a políticos são considerados"atípicos" pela quantidade de beneficiários. Então existe pagamento "típico"? 

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Arte é vida

 

Abdias do Nascimento

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Enio Lins opina

Oxímoro é a cara do Jair e de seus herdeiros bolsonaristas
Enio Lins      

EM EDITORIAL publicado no dia 4 de abril, a Folha de São Paulo reconhece o que todo mundo conhece – de cor e salteado – há muitos anos: não existe “bolsonarismo moderado”. O diário paulista afirmou que o filho de Jair – aquele, candidato à presidência da República – “adota uma postura golpista ao lançar dúvidas sobre a lisura das eleições brasileiras”. Pois é: Zero-um é o pai cagado e cuspido.

TODA A FAMILÍCIA apresenta os mesmos valores iníquos que são marcas registradas do ex-capitão. Brigam entre si, mas são idênticos seres antidemocráticos, antiéticos, antipatrióticos. São unos e competentes no amealhar fortunas, seja para a aquisição repentina de 101 imóveis, seja para custear a doce vida de turista de luxo de um deles – desempregado – no exterior, dentre outros fenômenos financeiros. E filho de Jair candidato à presidência se destaca por sua alta capacidade empresarial, ao multiplicar os rendimentos de uma lojinha de chocolates, e na administração de uma impressionante indústria de rachadinhas, conforme amplamente noticiado há anos.

DISSE A FOLHA: 
“o atual pré-candidato do PL, que aparece tecnicamente empatado com Lula no Datafolha, mostrou mais uma vez que ‘bolsonarismo moderado’ é um oxímoro ao elencar um rol de ameaças e bobagens, entre elas a de que o petista só venceu o último pleito com auxílio do Supremo Tribunal Federal e interferência e auxílio financeiro do então presidente democrata, Joe Biden. Segundo o senador pelo Rio, ele será escolhido desde que haja ‘eleições livres e justas’”. E arremata: “Desde 1989, o Brasil tem tido eleições diretas para presidente, todas elas livres e justas. Há quase 40 anos, os votos são contados de modo correto, principalmente depois da adoção da urna eletrônica, em 1996, uma conquista brasileira que ainda hoje serve de modelo mundial. O pré-candidato de ultradireita deveria deixar de perseguir fantasmas e tratar de explicar aspectos nebulosos de seu passado —como as rachadinhas e as ligações perigosas com milicianos— e dirimir preocupações concretas sobre seu futuro —e o do país, caso venha a ser eleito”

BEM DEFINIDA p
ela Folha, é peculiaridade dos bolsonaros serem oxímoros ambulantes, exprimindo-se, simultaneamente, em posições antagônicas. Falam em liberdade e praticam a opressão; falam em democracia e amam a ditadura; falam em honestidade e se excedem em corrupções; arrotam patriotismo, mas entregam o país por um dólar furado; defendem eleições só se for para eles ganharem; se dizem contra o crime, mas retroalimentam-se com o pior do banditismo; rezam versículos carolas, mas são intensamente anticristãos etc. etc. O conceito “bolsonarismo moderado”, ou “bolsonarismo democrático”, é a mesma coisa que “inocente culpa”.

RELEMBRA A FOLHA: 
“Em maio de 2022, durante as tentativas do então presidente Jair Bolsonaro (PL) de desacreditar as eleições brasileiras por meio de ataques às urnas eletrônicas e outras teorias conspiratórias vazias, a Folha registrou neste espaço: ‘[Jair] atiça os ânimos de alguns poucos dispostos a participar de seus ensaios golpistas, que alternam intimidações e recuos enquanto se mantém elevado o risco de derrota em outubro. Trata-se de uma ofensiva estúpida contra uma valiosa conquista nacional e, ao fim e ao cabo, contra todos os eleitores e eleitos do país’. O peelista não somente perdeu o pleito daquele ano para o petista Luiz Inácio Lula da Silva como acabou condenado e, inelegível, cumpre prisão domiciliar por, entre outros crimes, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito. O fato de o jornal voltar ao tema da lisura das eleições brasileiras reforça a indigência do debate público advinda da ascensão da direita populista com Donald Trump, em 2016, e, no Brasil, com Bolsonaro, dois anos depois”. É isso aí.

Leia também: Patriotismo de propaganda e soberania em liquidação https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/subserviencia-desavergonhada.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Minha opinião

Trump atira no próprio pé
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65     

Um erro histórico de ocorrências catastróficas é a opinião crescente entre norte-americanos, incluindo parcela expressiva dos apoiadores de Donald Trump.

Desastre na essência semelhante à guerra contra o Vietnã, de consequências geopolíticas drásticas. .

A semelhança com a Guerra do Vietnã se faz em razão de que os Estados Unidos provocaram em um conflito sem uma estratégia de saída clara, em terreno hostil e contra um adversário com alta capacidade de “resistência assimétrica”.

Também especula-se um custo humano e financeiro se supõe superiores às guerras no Iraque e no Afeganistão.

É o que noticia a grande mídia norte-americana, sem excluir, em certa medida, mesmo órgãos simpáticos ao governo Trump.

Teme-se a dispersão das forças americanas e a vulnerabilidade de bases no Oriente Médio e a imprevisibilidade quanto à ação de grupos armados aliados do Irã, como o Hezbollah.

De outra parte, na cena diplomática internacional os Estados Unidos tentam impor seus pontos de vista e buscam um apoio incondicional impossível de obter. Caso da Comunidade Europeia, com um pé atrás desde a ruptura unilateral do acordo nuclear (JCPOA) adotada por Trump.  .

As consequências para os Estados Unidos e aliados se agravam. O fechamento do Estreito de Ormuz provocou alta incontrolável dos preços do petróleo, impactando a economia mundial. De quebra, a habilidade diplomática e política da Rússia e da China em relação ao Irã e demais países do Oriente Médio projetam conquista de terreno na região com consequente enfraquecimento dos Estados Unidos.

Nesse cenário, o uso de força terrestre parece cada vez mais inapropriado aos Estados Unidos.

Enquanto isso, internamente a oposição cresce praticamente às vésperas das eleições parlamentares, com ameaça evidente da perda de maioria por parte do governo.

[Ilustração por IA]

Leia também: A disputa entre tradições rivais da direita americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/eua-direita-dividida.html

Sylvio: até quando?

Os Estados Unidos sempre estiveram envolvidos em ações de guerra, porém o discurso de seus dirigentes era diferente do de Trump, que ameaça seus inimigos com destruição total. Até quando o mundo aceitará viver sob suas ameaças, vazadas em uma linguagem de violência e intimidação?

Sylvio Belém  

Trump atira no próprio pé https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_10.html