Brasil amplia exportações e projeta superávit recorde, apesar de Trump
Revisão mostra força das exportações brasileiras, sobretudo de petróleo e soja, apesar do tarifaço de Trump e da retração das vendas aos Estados Unidos
Cezar Xavier/Vermelho
A balança comercial brasileira pode terminar 2026 com um resultado ainda mais expressivo do que se imaginava. A Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) revisou para US$ 94 bilhões sua projeção de superávit comercial para o ano — alta de 38% ante os US$ 68,166 bilhões apurados em 2025, impulsionada principalmente pelo crescimento das exportações de petróleo e soja.
O número chama atenção porque surge em um cenário internacional adverso, marcado pelo recrudescimento da política protecionista de Donald Trump e pela imposição de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros. A revisão sugere que, embora o tarifaço produza perdas importantes em determinados setores e mercados, não conseguiu até agora impedir a expansão global das vendas externas brasileiras.
O documento lista uma série de fatores que impactam diretamente o comércio exterior brasileiro, com destaque para o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Outros vetores de impacto são o conflito entre Ucrânia e Rússia, o confronto entre Estados Unidos e Irã, os bloqueios do Estreito de Ormuz, o dinamismo comercial da China e possíveis reflexos climáticos de El Niño são outros agravantes.
O dado ganha ainda mais relevância quando comparado ao desempenho efetivamente registrado. No primeiro semestre, as exportações brasileiras cresceram 11,5%, enquanto as importações avançaram 5,1%, produzindo superávit de US$ 42,36 bilhões, 40,3% acima do registrado no mesmo período de 2025.
Petróleo assume papel central
O petróleo aparece como um dos principais motores dessa melhora.
A indústria extrativa apresentou crescimento de 58,4% nas exportações em junho, impulsionada pela forte expansão das vendas de petróleo bruto. No mês, as exportações brasileiras alcançaram US$ 36,28 bilhões, recorde para qualquer mês da série histórica.
O desempenho do petróleo não é apenas conjuntural. O Brasil consolidou-se como exportador líquido do produto e mantém superávit no comércio de petróleo e derivados desde 2018. No primeiro semestre de 2026, o saldo comercial do setor passou de US$ 15,3 bilhões para US$ 22 bilhões em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a FGV.
A expansão da produção brasileira, combinada ao comportamento dos preços internacionais, amplia a capacidade do petróleo de compensar eventuais perdas em outros segmentos.
Soja e agro ajudam a diversificar
A outra estrela é a soja.
Segundo as projeções divulgadas com a revisão da AEB, a soja pode superar US$ 50 bilhões em exportações pela primeira vez, beneficiada pela perspectiva de uma safra e de volumes embarcados elevados.
O agronegócio funciona, nesse cenário, como uma espécie de amortecedor externo. Mesmo quando um mercado específico fecha parcialmente suas portas, a produção brasileira encontra compradores em outras regiões.
Os dados oficiais ilustram esse movimento. Até a quarta semana de julho, as exportações brasileiras acumulavam US$ 212,36 bilhões, alta de 11,2% em relação ao mesmo período de 2025. As vendas de soja haviam crescido 24,6%, enquanto as de petróleo bruto avançavam 31,4%.
O tarifaço machuca, mas não paralisa
Isso não significa que as tarifas de Trump sejam inofensivas.
Os Estados Unidos continuam sendo um mercado importante para o Brasil, mas as exportações brasileiras para o país caíram 12,2% entre janeiro e julho, para US$ 21 bilhões, segundo levantamento da Amcham. Entre os produtos submetidos às sobretaxas mais elevadas, a retração chegou a 31,5%.
A diferença está na capacidade brasileira de deslocar suas vendas.
Enquanto as exportações para os Estados Unidos recuaram, as exportações totais do Brasil para o mundo cresceram 10,5% no período analisado pela Amcham. A Ásia ampliou sua participação nas exportações brasileiras, passando de 42,7% para 46,3% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026; a China, isoladamente, avançou de 28,9% para 31,6%.
É justamente aí que aparece uma das consequências estratégicas do tarifaço: ao tentar pressionar o Brasil, Washington também estimula empresas brasileiras a diversificar mercados e reduzir sua dependência relativa do consumidor norte-americano.
Uma resposta pela diversificação
O fenômeno não elimina os problemas provocados pelas tarifas. Setores industriais mais dependentes do mercado americano, especialmente aqueles sujeitos às sobretaxas mais altas, enfrentam perda de competitividade. E a nova estrutura tarifária norte-americana elevou significativamente a desvantagem brasileira diante de concorrentes internacionais.
Mas o comércio exterior brasileiro possui uma característica que ganha valor em tempos de guerra comercial: a diversidade de destinos e de produtos.
China, União Europeia, Oriente Médio e outros mercados tornam-se ainda mais importantes. A estratégia deixa de ser apenas vender mais e passa a ser vender para mais parceiros.
Nesse sentido, o desempenho da balança comercial oferece um contraponto à narrativa de que o tarifaço inevitavelmente produziria uma crise externa brasileira. Até aqui, os números apontam para uma realidade mais complexa: há perdas concentradas, mas elas vêm sendo parcialmente compensadas pela expansão de outros mercados e pelo aumento dos volumes exportados.
Um superávit que também revela desafios
Há, contudo, uma ressalva importante. Superávit comercial não é sinônimo automático de desenvolvimento econômico.
O resultado externo é particularmente positivo quando decorre da expansão de produção, investimentos, emprego e maior agregação de valor. O desafio brasileiro é justamente transformar a força exportadora de commodities em uma plataforma para ampliar a participação de produtos industrializados e tecnológicos no comércio mundial.
Ainda assim, a projeção de US$ 94 bilhões da AEB representa um sinal de resiliência da economia brasileira diante de uma conjuntura internacional marcada pelo protecionismo.
O paradoxo do tarifaço de Trump começa a aparecer nos números: ao tentar fechar o mercado americano para o Brasil, a política comercial de Washington pode estar contribuindo, involuntariamente, para acelerar uma mudança que o país já vinha buscando — uma inserção internacional mais diversificada, menos dependente de um único mercado e apoiada por relações comerciais com diferentes polos da economia mundial.
No comércio exterior, às vezes, fechar uma porta apenas ensina o exportador a procurar outras. E o Brasil, neste momento, parece estar encontrando algumas delas.
Soberania nacional é o pilar do Programa de governo de Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/editorial-do-vermelho_01066033204.html



