10 janeiro 2026

Palavra de poeta

Talvez

Pablo Neruda  


Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

[Ilustração: Gilvan Samico]

Leia também: "Canção do caminho", poema de Cecília Meireles https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_83.html 

Economia: o que pode acontecer

Perspectivas econômicas para 2026
Em 2026, o Brasil navega entre desemprego baixo e desaceleração, enquanto o mundo enfrenta estagnação avançada e bolhas de risco nos EUA
LUIZ GONZAGA BELLUZZOANDRÉ LUIZ PASSOS SANTOSNATHAN CAIXETA & 
MURILO TAMBASCO*/A Terra é Redonda    

1.

Os dias que inauguram o ano costumam ser marcados pela proliferação de elaborados panegíricos proferidos por economistas e analistas financeiros, empenhados em delinear projeções acerca do cenário político-econômico do período vindouro, oscilando entre distintos matizes de otimismo e pessimismo.

No presente artigo, pretendemos oferecer ao leitor uma apreciação rápida e ponderada das tendências em curso que conformam as perspectivas da economia brasileira e mundial para o ano de 2026, bem como assinalar potenciais focos de tensão e pontos de inflexão no ambiente econômico-financeiro, os quais podem requerer atenção redobrada por parte dos agentes econômicos e dos formuladores de políticas públicas.[i]

No contexto brasileiro, a conjuntura é cercada de perigos e incertezas. Por um lado, no período recente, o país registrou o menor desemprego da série histórica, chegando a 5,2% e foi acompanhado da menor taxa de informalidade, registrada em 37,7%. Esse movimento foi resultado direto do crescimento acelerado da economia entre o início de 2023 e a metade do ano de 2024, proporcionado pela forte expansão do consumo e do setor de serviços, além da reposição e incremento do estoque de capital em vista da maior expectativa de demanda gerada pelo impulso fiscal no ano de 2023.

Por outro, os indicadores recentes de atividade econômica revelam tendência de desaceleração da economia. Essa tendência é puxada, sobretudo, pelo fraco desempenho do consumo privado e da indústria de transformação, o que poderá, em breve, desacelerar os investimentos e reduzir o crescimento dos empregos diante de uma expectativa de demanda que dá sinais de esgotamento e de uma taxa de juros que inviabiliza o lucro empresarial, além de elevar o endividamento das famílias e encarecer o custo de capital das empresas.

Outro fator de destaque é a retração do impulso fiscal, conforme revela relatório da Secretaria de Política Econômica (SPE: após contribuir com 3,8% do PIB entre 2023 e 2024, o impulso tornou-se negativo em 2024-2025 (-2,84%), reforçando a desaceleração econômica. Ao contrário do que é frequentemente preconizado, o cenário recente reflete a combinação de políticas fiscal e monetária contracionistas.

Soma-se a isso o caráter cíclico do crescimento brasileiro. Sem elevação sustentada da taxa de investimento e da participação da indústria de transformação – hoje no menor nível histórico em relação ao PIB –, não é plausível manter taxas de crescimento acima da média da última década. A estagnação desses dois vetores centrais limita ganhos de produtividade e condena a economia a ciclos curtos de expansão baseados no consumo ou nas exportações.

2.

No debate recente, atribui-se a desaceleração ao risco fiscal, somada à suposta ineficácia da política monetária. Contudo, se as projeções se confirmarem, o governo Lula III encerrará o período com a menor inflação média desde o regime de metas, favorecida sobretudo pela valorização cambial ao longo de 2025. Ainda assim, o cmantém uma postura restritiva, condicionada por uma meta de inflação excessivamente baixa para nossos padrões históricos, adiando o afrouxamento monetário.

A combinação de juros elevados e câmbio apreciado, apesar de contribuir para o controle dos preços, é responsável pela ampliação do déficit em transações correntes, redução do superávit comercial e intensificação da remessa de lucros e dividendos ao exterior. Nesse contexto, o Banco Central antecipa choques, eleva juros rapidamente e prolonga a restrição monetária, temendo a amplificação inflacionária via demanda e indexação.

Tal arranjo impõe elevado custo fiscal. Cada aumento de 1 ponto percentual na taxa básica eleva os encargos da União em 0,49% do PIB. Atualmente, os juros consomem cerca de 7,8% do PIB e mais de 40% do orçamento federal, pressionando a trajetória da dívida. Historicamente, os juros nominais explicaram mais de 80% do crescimento da dívida líquida, enquanto o resultado primário teve contribuição limitada, exceto durante a pandemia.

Entre 2003 e 2014, crescimento econômico, expansão do gasto e superávits fiscais reduziram a dívida em proporção do PIB. O período posterior, marcado pela austeridade permanente, resultou em estagnação, déficits recorrentes e piora fiscal. Cortes sistemáticos de gastos comprimem renda, investimento, emprego e arrecadação, agravando as próprias contas públicas.

Embora o atual governo tenha se aproximado do déficit zero em 2025, persiste a pressão por um ajuste adicional de 3% a 4% do PIB, incluindo cortes em benefícios sociais e pisos constitucionais. Tal estratégia é economicamente regressiva e ameaça reverter avanços do mandato. Em contraste, a isenção do IR para rendas até R$ 5 mil, acompanhada da tributação das altas rendas, representa vitória relevante para o crescimento da demanda e a redução da desigualdade.

3.

O cenário internacional revela-se igualmente desafiador. Segundo projeções da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), embora a economia mundial tenha demonstrado relativa resiliência diante dos choques comerciais e financeiros recentes, a expansão global deve se situar em torno de 3,2%, patamar insuficiente para sustentar um ciclo robusto de crescimento nas economias emergentes.

Preocupa sobremaneira a estagnação dos países desenvolvidos que, mesmo após o fim dos ciclos de aperto monetário direcionados a combater o choque de oferta provocado pelas guerras na Rússia e em Israel, não chegaram a exibir o desempenho requerido para frear o processo de desindustrialização que acomete suas economias e a elevação do desemprego estrutural ligado ao avanço da indústria 4.0 sobre os setores industrial e de serviços.

Outro ponto de atenção diz respeito às valorações de mercado e à concentração de risco no setor tecnológico dos Estados Unidos. O grupo de empresas denominado Magnificent Seven (Sete magníficas) — composto por gigantes como Microsoft, Apple, Alphabet, Amazon, Meta, Tesla e Nvidia — alcançou uma capitalização conjunta que ultrapassa o Produto Interno Bruto de grandes economias, como a União Europeia.

A valorização desses ativos, impulsionada por expectativas otimistas sobre Inteligência artificial e lucros futuros, levou os múltiplos a níveis elevados e remete a episódios de exuberância financeira marcados por concentração de ganhos e distanciamento dos fundamentos. No S&P 500, essas empresas já representam cerca de 35% do índice, aumentando o risco sistêmico. Nos últimos cinco anos, enquanto o índice subiu 98,2%, as “sete magníficas” responderam por 57% do avanço, com crescimento agregado de 234,8%.

A valorização das ações norte-americanas já elevou o valor de mercado das empresas para cerca de 230% do PIB dos EUA, o dobro do nível pré-2008, enquanto os múltiplos de lucro se aproximam dos patamares observados antes da bolha dotcom e da Grande crise. Paralelamente, o fortalecimento do ouro e a maior demanda por títulos públicos sinalizam um reposicionamento defensivo e maior aversão ao risco. Esse conjunto de fatores sustenta a preocupação com uma nova crise financeira internacional, potencialmente mais difícil de conter do que a anterior.

*Luiz Gonzaga Belluzzoeconomista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente). [https://amzn.to/45ZBh4D]

*André Luiz Passos Santos é doutor em desenvolvimento pela Unicamp e sócio da BPCT Consultoria Econômica.

*Nathan Caixeta é mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e sócio-diretor da BPCT Consultoria.

*Murilo Tambasco é mestrando em economia na PUC-SP e sócio da BPCT Consultoria Econômica.

Nota


[i] Para acesso à análise completa, com o desenvolvimento integral dos argumentos, clique aqui.

Otimismo com 2026 cresce e vai a 69% entre os brasileiros https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/boa-noticia_28.html

Arte é vida

 

Desenho de Alice, aos 5 anos

Leia: Nem tudo o que é digital vale ouro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_16.html 

História viva

 


No Teatro Santa Isabel, no palco onde Castro Alves um dia recitou “Ode a Pedro Ivo" —, então vice-Prefeito do Recife, faço um breve discurso para alunos concluintes do ProJovem Urbano.

Leia: "Onça, câncer e comunismo" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_11.html 

Trump e diretistas servis

Fantoches latino-americanos descobrem tradução do lema ‘America First’
Expoentes da extrema direita no continente são só instrumentos de poder para Trump
Jamil Chade/Liberta  

Ao entender que teria de derrubar Nicolás Maduro, o governo de Donald Trump enfrentou uma pergunta tão desafiadora quanto organizar a queda do presidente da Venezuela: quem ficaria em seu lugar?

Por anos, a oposição venezuelana de direita tinha a certeza absoluta de que seria escolhida, quase por natureza, para ser a aliada da Casa Branca para implementar a estratégia de Washington no país, entregar suas reservas e mudar o mapa político na região. Maria Corina Machado chegou a dedicar seu Prêmio Nobel da Paz para o mandatário do Salão Oval.

Seu nome era celebrado por Eduardo Bolsonaro e outros expoentes do movimento ultraconservador do continente. Javier Milei fez questão de viajar até Olso para prestar homenagem à líder da oposição ao receber a honraria da instituição que concede o prêmio.

Mas, num documento secreto e revelado pelo Wall Street Journal, a CIA chegou a uma outra conclusão: Trump não deveria apostar na oposição venezuelana para conduzir a Venezuela pós-Maduro. E, sim, em nomes de dentro do próprio chavismo. Foi assim que Delcy Rodriguez ganhou uma chance de se provar.

A lógica não passava por ideologia. Sob pressão, seriam os chavistas que teriam as melhores condições de atender aos interesses dos EUA, sem desestabilizar o país nem criar uma guerra civil.

Teatro de sombras

A decepção para a direita ultraconservadora não poderia ter sido maior.

Corina Machado, depois da queda de Maduro, admitiu que a última vez que havia falado com Trump havia sido em outubro do ano passado. Na coletiva de imprensa, horas depois da invasão, o presidente dos EUA descartou, sem cerimônia, a participação de Corina para liderar o novo governo. “Ela não tem apoio popular”, justificou.

Ela não é a primeira a ser traída por Trump. Aposta inicial do republicano, Juan Guaidó chegou a ser recebido com honras de governo.

Mas o plano fracassou e Trump descobriu que, para atingir seus objetivos, ele não precisava necessariamente de democracia. Apenas de chantagem, armas e um acordo. E é isso que ele parece ter optado como caminho em 2026. Guaidó ganhou um prêmio de consolação: hoje trabalha em Miami num centro de pesquisas criado por um ex-funcionário do governo Trump.

De sua sala em Brasília, Jair Bolsonaro também descobriu que foi abandonado pela Casa Branca, apesar de todo o esforço de seu filho Eduardo, de um lobby descomunal por parte do neto de um ditador brasileiro e de uma gigante bandeira americana aberta para marcar o Dia da Independência do Brasil.

O ex-presidente foi usado pelos EUA para justificar a imposição de tarifas contra o Brasil. Mas, quando ficou evidenciado para Trump que a estratégia não havia funcionado e estava afetando os interesses das empresas americanas, o republicano se aproximou de Lula, teceu elogios ao petista, retirou sanções e tarifas ao país. 

O rapto de Maduro oferece lições em múltiplas dimensões para o mundo, para a América Latina e para a diplomacia. Mas ele também escancara outra realidade: a de que o conceito de traição não existe para Trump. Ele não tem amigos ou aliados, nem mesmo entre os ultraconservadores. Tem apenas interesses. Portanto, quem se sente traído pelo americano é por ter imaginado que havia uma aliança com o republicano.

Em certos momentos, os líderes da extrema direita pelo continente podem ser acolhidos por ele. Mas apenas quando puderem servir a um algum interesse da Casa Branca. São buchas de canhão, marionetes de um teatro de sombras, fantoches de uma operação de manipulação das massas.

Podem colocar o boné vermelho ou passar a vergonha de fazer um discurso em inglês num palanque em seu próprio país, na esperança de que Trump lhes escute. Mas a realidade é que são vistos apenas como instrumentos de poder para os EUA.

A história, certamente, ainda pode mudar. Nossos roteiristas são excelentes e Trump ainda pode considerar que seria útil recorrer a um desses políticos.

Por enquanto, porém, fica a lição: o lema “America First” não exige interpretação de texto nem análise profunda. É o que está escrito: América Primeiro. E ponto.

Ilustração: Charge de Cláudio/Folha de S. Paulo

2026, o Brasil diante de uma encruzilhada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/editorial-do-vermelho_27.html 

Trump em caixa de maribondo

A prisão de Maduro e as incertezas do futuro para Trump
Tempo dirá se ação na Venezuela reforça ou marca início do declínio da hegemonia dos EUA
James N. Green/Liberta  

A mídia nos Estados Unidos retratou a incursão de Trump na Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro como atos de um presidente poderoso, embora irracional e descontrolado, determinado a restabelecer o poder americano no hemisfério ocidental.

Alguns observadores políticos especularam que Trump autorizou a invasão para distrair o público interno da divulgação de mais documentos de Epstein, que poderiam conter material comprometedor sobre o presidente. Outros pensam que é uma forma de desviar a atenção da fragilidade da economia ou do iminente aumento das taxas de seguro de saúde para milhões de pessoas, que, até o final do ano passado, recebiam subsídios do governo para cobrir essas despesas.

Independentemente de quaisquer possíveis segundas intenções, políticos democratas, ex-diplomatas americanos e jornalistas condenaram a invasão.

Ao mesmo tempo, reconheceram a eficiência da força-tarefa militar que invadiu a Venezuela e, em questão de horas, capturou o chefe de Estado e sua esposa, levando-os para julgamento em Nova York sem uma única baixa militar para os EUA. (Pouco se fala sobre os cerca de 70 membros das forças de segurança venezuelanas e cubanas mortos no ataque).

Cálculo pragmático

No entanto, a política da Casa Branca é confusa. Por um lado, Trump anunciou, imediatamente, que membros-chave de sua administração – presumivelmente, Marcos Rubio, secretário de Estado; Pete Hegseth, secretário de Defesa; e Stephen Miller, vice-chefe de Gabinete para Políticas – irão “administrar” o país. Ao mesmo tempo, manteve em seus cargos os membros do governo de Maduro que, presumivelmente, juntamente com o presidente deposto e sua mulher, teriam sido cúmplices no tráfico de drogas.

Trump proclamou que a invasão cirúrgica do Pentágono na Venezuela servirá como um aviso para Delcy Rodríguez, vice-presidente de Maduro e recém-empossada presidente interina. Se ela não colaborar com o plano de Trump para assumir o controle da indústria petrolífera, ele deu a entender que um segundo ataque poderá removê-la do cargo.

A decisão de Trump de apoiar Delcy Rodríguez, em vez de María Corina Machado, líder da oposição e recente ganhadora do Prêmio Nobel da Paz (que Maduro impediu de concorrer à presidência em 2024), é um cálculo pragmático. Com um grande exército e milícias pró-Maduro ainda em atividade, apoiar Edmundo González, o candidato presidencial substituto de Corina, para assumir o poder teria exigido uma força militar dos EUA operando dentro do país para impor a vontade de Washington.

Em vez disso, pelo menos para o futuro imediato, Trump espera ameaçar, chantagear ou persuadir figuras-chave do governo de Maduro a mudar de lado e agir como seus agentes na manutenção da ordem. E, como Trump anunciou, Delcy e seus apoiadores precisarão garantir que os Estados Unidos recebam até 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade, avaliados em aproximadamente US$ 2,8 bilhões, em troca do apoio de Washington ao governo. 

Desde setembro passado, o governo Trump insiste que grandes quantidades de fentanil, um poderoso opioide sintético, passaram pela Venezuela, supostamente, com destino aos mercados americanos, embora menos de 5% da droga que chega aos Estados Unidos passe por esse país. Ainda assim, essa alegação falsa justificou o ataque e a destruição, até o momento, de 35 pequenas embarcações que navegavam nas águas da costa da Colômbia e da Venezuela, matando mais de 115 tripulantes.

Desse modo, a movimentação de 20% do poder naval dos EUA na costa da Venezuela, no final do ano passado, não teve nada a ver com o bloqueio do tráfico de drogas. Em vez disso, foi um ato de intimidação contra Maduro e forneceu o apoio militar e logístico para realizar o sequestro do presidente venezuelano.

Nem esse conflito jamais foi sobre democracia. Se fosse esse o caso, Trump teria apoiado, imediatamente, a posse de Edmundo González, que observadores internacionais consideram ter vencido as eleições presidenciais de 2024 por uma margem confortável. Em vez disso, trata-se, simplesmente, do compromisso de Trump com alguns de seus maiores doadores de campanha eleitoral no sentido de garantir o acesso total das grandes empresas petrolíferas à produção venezuelana.

Atoleiro venezuelano

Embora seja praticamente impossível prever o que Trump fará a seguir, parece que ele entrou num novo território político, onde os Estados Unidos podem facilmente se ver presos num atoleiro venezuelano. Como reagirão os setores das forças armadas do país sul-americano com vínculos financeiros com o tráfico de drogas, caso o governo atual precise demonstrar a Washington progressos na redução do movimento de substâncias ilícitas pelo país?

Caso segmentos das forças armadas e/ou milícias se rebelem contra os decretos de Trump para o país, será possível neutralizar os líderes militares colocados no poder por Maduro sem uma presença significativa de tropas dos EUA em solo venezuelano?

Da mesma forma, como os Estados Unidos responderão à medida que os apoiadores de Corina/González começarem a se mobilizar, exigindo uma mudança de governo? Delcy já iniciou uma campanha repressiva para silenciar a oposição. Caso o governo atual não consiga conter os protestos, o Pentágono poderá ser forçado a enviar tropas para controlar a dissidência.

Além de possíveis conflitos acirrados, tanto dentro do novo governo quanto com a oposição, será que o butim de US$ 2,8 bilhões que Trump extraiu de sua guerra de duas horas com a Venezuela será suficiente para apaziguar o presidente dos EUA ou esse será apenas o primeiro de muitos pagamentos de extorsão exigidos por Washington?

A Casa Branca enfrenta outro desafio sério: a opinião pública americana sobre a invasão da Venezuela.

De acordo com uma pesquisa do Washington Post, divulgada três dias após a incursão, a opinião pública está dividida sobre se Maduro deveria ter sido sequestrado pelos Estados Unidos. No entanto, 63% insistiram que Trump deveria ter obtido autorização do Congresso para realizar a operação militar.

Mais significativamente, 94% acreditam que os venezuelanos devem escolher seu próprio governo, enquanto apenas 6% pensam que os Estados Unidos deveriam selecionar seus futuros líderes.

Por fim, os apoiadores de Trump concordarão com seus esforços para a mudança de regime na Venezuela? A promoção da abordagem “América em primeiro lugar” na política internacional, defendida pelo presidente dos EUA, consolidou um ceticismo generalizado em relação a intervenções estrangeiras e gerou forte oposição ao envolvimento de tropas americanas no exterior.

Será que Trump conseguirá convencer aqueles apoiadores do MAGA que se opõem a mudanças de regime e esforços de nation building (construção de uma nação) a apoiarem sua aventura venezuelana, ou eles se absterão das eleições legislativas de novembro de 2026 nos Estados Unidos devido à desilusão com as políticas intervencionistas de Washington?

Será que Trump deu um passo importante na consolidação da hegemonia dos EUA na América Latina e no Caribe? Ou sua intervenção na Venezuela marca o início de um declínio nesses esforços? Só o tempo dirá.

James N. Green é professor emérito de História do Brasil na Brown University

Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html 

Editorial do 'Vermelho'

Defesa da soberania nacional e da democracia
O presidente Lula vetou o infame projeto de lei da dosimetria que agracia Bolsonaro e demais golpistas com redução das penas. Defesa da democracia e soberania se conflui.
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br   


O 8 de Janeiro, data símbolo da luta em defesa democracia e do combate ao golpismo, teve como ponto alto um ato cívico no Palácio do Planalto, no qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, expressando uma exigência da maioria da nação, vetou, integralmente, o projeto de lei da dosimetria, aprovado pela maioria de direita nas duas Casas do Congresso Nacional.

Tal projeto trata-se de um retrocesso, pois abranda as penas de Jair Bolsonaro, de generais e demais golpistas que tentaram sepultar o regime democrático e impor um regime autoritário-ditatorial.

David Alcolumbre e Hugo Motta, presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, respectivamente, não compareceram ao ato, mas estiveram presentes parlamentares do campo democrático, popular e patriótico.

O PCdoB marcou destacada e ativa presença, com participação de parlamentares e da presidente interina da legenda, Nádia Campeão. Nádia afirmou que o veto do presidente Lula é uma aspiração do povo brasileiro, contra a qual o Congresso não deveria se insurgir.

Disse, também, que a luta pela democracia, hoje, está diretamente, associada à jornada pela soberania nacional. Neste âmbito, repudiou o ataque neocolonial e imperialista dos Estados Unidos contra a Venezuela.

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos (presidente licenciada da legenda comunista) participou na tribuna das lideranças e autoridades. Militantes do Partido, lideranças sindicais e de diversos movimentos sociais estiveram à frente das mobilizações de caravanas de vários Estados e do Distrito Federal.

Além do ato no Palácio do Planalto, houve uma solenidade no Supremo Tribunal Federal (STF), que cumpriu papel determinante para a punição inédita dos golpistas, apesar do conluio da extrema-direita brasileira e do governo estadunidense de Donald Trump, que resultou no tarifaço e nas agressões ao STF.

Na praça dos Três Poderes, em Brasília, e em várias outras cidades do país, as centrais sindicais, as entidades estudantis, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo sem Medo, os partidos da esquerda – como PCdoB, PT e PSOL – realizaram manifestações de rua. Além do apoio ao veto do presidente Lula, ecoou forte o rechaço aos brutais atos de guerra dos Estados Unidos contra a Venezuela e a defesa da soberania nacional dos países da América Latina e do Caribe, e a paz na região.

O presidente Lula, na solenidade no ato, disse que se tratou de uma vitória “contra os traidores da pátria”. Salientou que o 8 de janeiro está marcado na história “como o dia da vitória da nossa democracia”. Vitória sobre os que tentaram tomar o poder pela força, sobre os que sempre defenderam a tortura e a ditadura; sobre os que planejaram o assassinato do presidente, do vice e do então presidente do Superior Tribunal Eleitoral. Vitória sobre “os que exigem cada vez mais privilégios para os super ricos e menos direitos para quem constrói a riqueza do Brasil com o suor de seu trabalho”. Vitória “sobre os traidores da pátria, que conspiraram contra o Brasil para causar o caos na economia e o desemprego de milhões de brasileiros”. “Eles foram derrotados. O Brasil e o povo brasileiro venceram”.

Já o vice-presidente, Geraldo Alckmin, numa nítida alusão ao que se passa na América do Sul, disse que o Brasil não quer hegemonia, mas “uma rede de países livres, com prosperidade compartilhada”. E fez um importante, destaque: a soberania nacional é condição essencial para a democracia, pois “sem ela o regime democrático se transforma em um simulacro”.

Vale comparar: de modo antagônico, neste 6 de janeiro, na passagem do 5º ano da invasão do Capitólio por uma turba à mando do então candidato derrotado Donal Trump, a Casa Branca criou um site no qual falseia os fatos e homenageia os golpistas trumpistas que foram indultados por ele.

As importantes manifestações que aconteceram neste 8 de janeiro, devem se desdobrar numa agenda crescente para pressionar o Congresso Nacional a manter o veto do presidente Lula. Embora difícil, devido a hegemonia do consórcio da direita e da extrema-direita no parlamento, não é impossível. Da votação ocorrida em dezembro, no Senado Federal, a direita obteve apenas sete votos além dos 41 necessários, enquanto na Câmara foram 34 além dos 257 votos indispensáveis, isto é, a maioria absoluta das duas Casas. (A maioria do número total de membros de cada uma das Casas Legislativas, e não o número de membros presentes em uma sessão.)

As bandeiras da soberania nacional e da democracia, nas circunstâncias atuais, se confluíram. A ofensiva imperialista de Trump sobre a América Latina e o Caribe, escancaradamente em curso contra a Venezuela, já incidem com força, em especial nas eleições presidenciais da Colômbia (maio) e no Brasil (outubro).

Além da condução política acertada do Brasil, de rechaço aos atos de pressão e guerra de Trump, de defesa da paz e da soberania, impõe-se que a campanha de reeleição do presidente Lula apresente um programa avançado, que abra caminho para o desenvolvimento soberano do país, sem o qual a democracia é fragilizada e os direitos do povo e dos trabalhadores ficam num patamar muito aquém do necessário.

Em 2025, o Brasil em ebulição https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/brasil-em-ebulicao.html