Carne de burro à mesa: o retrato social da Argentina
Crise fecha empresas, agrava a
pobreza e provoca até mudança de hábitos alimentares
Amanda Cotrim/Liberta
A
Argentina vive um drama social que nenhum tango poderia prever. O poder de
compra segue pressionado, o desemprego atingiu 7,5% no fim de 2025 – alta de
1,1% em relação ao ano anterior – e a inflação anual chegou a 32,6% em março
passado, uma das mais altas do mundo, segundo o INDEC (Instituto Nacional de
Estatísticas e Censos).
O
mal-estar se reflete nas ruas, mas, ao longo dos 28 meses de gestão de Javier
Milei, os protestos sociais, que eclodiram nos primeiros meses de governo,
passaram a ser contidos por meio da repressão – sobretudo, entre os
aposentados, hoje na linha de frente da resistência. No cotidiano, os sinais da
crise se acumulam: até a carne de burro passou a aparecer como alternativa ao
tradicional churrasco, enquanto milhares de empresas fecham as portas,
empurrando trabalhadores para a informalidade.
“O
cenário é desastroso”, diz o portenho Leandro Jesus, de 40 anos, na porta de um
açougue em Buenos Aires. Ele se surpreendeu ao saber que, em Trelew, na
província de Chubut, a 1.300 quilômetros da capital, carne de
burro foi vendida a R$ 35 o quilo – quase três vezes mais
barata do que a carne bovina, cada vez mais escassa num país que ampliou
exportações, encarecendo o consumo interno. “Achei que fosse mentira quando
li”, diz, enquanto pede a carne de porco – a mais barata do mercado – ao
atendente. “Tudo tem limite”, acrescenta.
Crise
muda hábitos alimentares
A
polêmica, que mobilizou autoridades, analistas e a associação em defesa dos
animais, expôs uma realidade indigesta: a crise está alterando os hábitos
alimentares. Num país conhecido pela qualidade da carne bovina, o churrasco
virou luxo. O preço da carne bovina subiu 64% no último ano, segundo informe da
Fundação Agropecuária para o Desenvolvimento da Argentina. O aumento foi
impulsionado, segundo especialistas ouvidos pela reportagem, pelo aumento das
exportações, que reduz a oferta interna, encarecendo o produto.
“Quem
pode fazer churrasco hoje em dia?”, questiona Leandro. Em 2026, o consumo de
carne bovina caiu 10%, atingindo o menor nível em duas décadas, de acordo com a
Câmara da Indústria e Comércio de Carnes da Argentina.
Nos
açougues e mercados da capital argentina, os cortes da carne bovina variam
entre R$ 65 e R$ 135 reais o quilo. O frango custa aproximadamente R$ 55; o
porco, R$ 30; a merluza, cerca de R$ 55. A reportagem não encontrou carne de
burro à venda em Buenos Aires.
Apesar
de não ser proibida, a carne de equinos pode ser produzida e comercializada,
desde que cumpra exigências sanitárias; e a comercialização depende, em muitos
casos, de permissões locais, como ocorreu em Chubut.
Jubilados
rebelados
Num
ponto de ônibus da estação Constitución – uma espécie de CPTM paulistano –, um
homem que aparenta ter 50 anos concedia entrevista ao canal Argentina 12. Sem
rodeios, mostrou-se exausto: “É o pior governo da história da Argentina. Está
nos matando em vida – aposentados, pessoas com deficiência, todos. Fomos
campeões do mundo e seis milhões de argentinos saíram às ruas para comemorar.
E, agora que nos estão matando em vida, não sai ninguém?” – indagou.
Os
protestos existem, mas são reprimidos. Desde dezembro de 2023, foi instaurado o
protocolo “antipiquete”, que proíbe manifestações em vias públicas. Ainda
assim, há quase dois anos, aposentados se reúnem, semanalmente, diante do
Congresso para exigir pensões dignas.
Em
12 de março de 2025, homens e mulheres de cabelos brancos, com andadores e
bengalas, foram violentamente dispersados. As imagens de policiais batendo em
idosos com cassetete e gás de pimenta chocaram a imprensa internacional. Nesse
episódio, o fotógrafo Paulo Grillo foi gravemente
ferido ao ser atingido por uma bomba de gás lacrimogêneo
disparada pela polícia. O profissional, que ficou quase um ano em reabilitação,
ainda se recupera e processa o Estado.
Segundo
a Anistia Internacional Argentina, aposentados e mulheres estão entre os mais
afetados pelo modelo de ajuste de Milei, que alcançou superávit após cortes em
saúde, educação e subsídios, além de aumentos de cerca de 300% nos preços de
produtos e serviços no início do governo, segundo dados oficiais.
Atualmente,
a aposentadoria mínima gira em torno de 380 mil pesos (equivalente a cerca de
R$ 1,3 mil) e está 9,4% abaixo – descontada a inflação – do valor registrado em
novembro de 2023, no governo do peronista Alberto Fernández. A queda interanual
real foi de 5,3%, conforme levantamento do site Chequeado.
Empresas
fechadas
Entre
dezembro de 2023 e o início de 2026, cerca de 24 mil empresas (entre micros e
macros) fecharam na Argentina, apontaram dados da Superintendência de Riscos do
Trabalho (SRT) e consultorias privadas – média de 30 por dia.
Pequenas
empresas, indústria, setor têxtil e construção foram os setores mais atingidos,
com cerca de 290 mil empregos formais perdidos. Foi o caso da FATE – principal
produtora e exportadora de pneus –, com mais de 80 anos de história, que encerrou
as atividades em fevereiro, na província de Buenos Aires,
deixando quase mil trabalhadores sem emprego.
Entre
os servidores públicos, a perda do poder de compra chegou a 40% nos últimos
dois anos, informou a Associação dos Trabalhadores do Estado. Para o
trabalhador médio, a perda estimada por consultorias privadas atinge 13%. Dados
do INDEC indicam que quase 43% da população está no mercado informal.
A
informalidade tem se refletido num fenômeno classificado por especialistas como
“multitrabalho”. Crescem os relatos de argentinos com múltiplas ocupações.
Adrián Fernández, de 30 anos, trabalha como vendedor, social media e professor
de inglês. “Um salário não basta para chegar ao fim do mês”, afirma ele. O
fenômeno se expande e já alcança até cientistas argentinos, tema abordado pelo
jornal britânico The Guardian, em julho do ano passado.
Na
ocasião, a historiadora Georgina Gluzman, pesquisadora do Conselho Nacional de
Investigações Científicas e Técnicas, um dos maiores centros de pesquisa
científica do país, criticou o governo Milei nas redes sociais, apontando a
contradição entre o discurso de mérito e a precarização.
Inflação e desgaste político
A
inflação, principal bandeira de Milei, começa a gerar desgaste. Embora menor do
que o pico de 250% ao ano no governo de Alberto Fernández, o índice atual
reflete uma recessão marcada por cortes de gastos e compressão salarial, avalia
o economista Guido Zack, da consultoria Fundar. Em março, a inflação mensal foi
de 3,4%, acumulando 32,6% em 12 meses. Milei se irritou com a alta do índice,
pediu paciência e afirmou que se trata de um “ajuste de preços relativos”.
O
desgaste político, no entanto, cresce. Apesar de sinalizar candidatura à
reeleição em 2027, pesquisas de consultorias privadas divulgadas pela imprensa
argentina indicam que mais da metade da população avalia negativamente seu
governo. As pesquisas apontaram ainda que a polarização segue alta no país.
Nenhuma força política chega ao patamar de 30% de intenções de voto para o
próximo ano, com empate técnico entre libertários e peronistas.
O
presidente argentino, concomitantemente, preparou um projeto de reforma
eleitoral, que ainda precisa ser apreciado pelo Congresso. Fato é que o ano que
vem será decisivo para o país responder se vai reforçar os votos no modelo da
motosserra ou se pedirá por mudanças.
Assine seu comentário para que possamos
publicá-lo.