Fim de feira na internet
Frutas que
falam (só bobagem) compõem a nova safra da “merdificação”, uma espiral de
declínio das redes sociais acelerada pela IA
Victor Calcagno/piauí
“Ninguém pode saber que eu vejo isso.” Comentários assim, num tom meio
envergonhado, meio debochado, são frequentes entre usuários da internet que se
deparam com um novo tipo de conteúdo viral: as frutas antropomórficas. Elas
aparecem em vídeos feitos com inteligência artificial que, pelo menos desde
fevereiro, têm bombado no TikTok – primeiro em inglês e depois em outros
idiomas. São, em geral, animações que contam histórias curtas ou meras
cenas – microdramas supercoloridos, escandalosos e com roteiros simplórios, de
quase nenhuma complexidade, quase sempre envolvendo alguma humilhação,
adultério ou misoginia. Tudo vivido por frutas em corpos humanos. Uma
mulher amarelada com uma cabeça de abacaxi, um homem todo roxo cujos cabelos
são cachos de uvas, e por aí vai.
Com essa descrição, não é de se espantar que as pessoas reajam com humor
e alguma perplexidade. Mas as frutas estão por toda a parte e dão audiência.
A trend estourou quando surgiram vídeos desses personagens
num reality show de namoro (o Fruit Love Island).
Os episódios duravam de 1 a 3 minutos e rapidamente atingiram a marca de 10
milhões de visualizações cada. Desde então, as frutas aportaram em vários
países, e o Brasil, que é prolífico nesse tipo de atividade, logo fez vídeos
delas falando português, dançando funk, vestindo camisetas de times nacionais,
trabalhando nos mercados da rede Atacadão e sofrendo violência policial. A
precariedade das histórias é a mesma, mas, por aqui, as frutas ganharam
ingredientes nacionais – a começar pelos nomes, como B ananildo, Moranguete,
Abacatudo. Não faltou espaço para trocadilhos maliciosos, caso do personagem
Tomatudo.
As frutas falantes são um caso típico de AI slop –
expressão que poderia ser traduzida como “IA barata” e é usada para se referir
a conteúdos malfeitos, breves e repetitivos produzidos por ferramentas de IA
generativa. O que há de novo nesse fenômeno é o formato. Até então, os AI
slops circulavam principalmente como imagens estáticas ou animações de
poucos segundos, numa estética próxima à dos memes tradicionais. Agora,
proliferam também em vídeo. O resultado disso tem sido uma inundação de
conteúdo artificial nas redes sociais. Cada vez mais, postagens orgânicas de
nossos amigos e familiares têm sumido dos feeds, dando lugar a
animações toscas que, de forma um tanto vulgar, produzem engajamento fácil,
agradando os algoritmos.
A esse processo, o romancista, blogueiro e ativista canadense Cory
Doctorow deu um nome pouco sutil: merdificação. No livro Enshittification:
Why everything suddenly got worse and what to do about it (lançado em
2025 e ainda sem tradução no Brasil), Doctorow mostra como empresas de
tecnologia, sobretudo as que constituem monopólios ou oligopólios, não têm
hesitado em piorar de propósito seus serviços em troca de um retorno financeiro
mais direto e valorização acionária. Isso, segundo ele, acontece em três
etapas. “Primeiro, as plataformas são boas com seus usuários. Depois elas
abusam dos usuários para agradar seus clientes empresariais. Em seguida, elas
abusam dos clientes empresariais para recuperar para si todo o valor [gerado
nas plataformas]. No final, elas se tornaram um monte gigante de merda.”
Dos casos descritos por Doctorow, destaca-se o do Google. Dona de 90% do
segmento de buscas na internet, a empresa tem tanta vantagem contra os
concorrentes que seu vice-presidente de Finanças chegou a afirmar, de acordo
com um memorando citado no livro, que “o Google é capaz de ignorar uma das leis
fundamentais da economia… a de oferta e demanda”. Na prática, conta Doctorow,
isso fez a empresa piorar de propósito seu sistema de buscas, de modo que sejam
necessárias mais pesquisas para se atingir o mesmo resultado – e, com isso, o
usuário visualiza mais e mais propagandas, gerando receita para o Google. A
situação fica ruim para quem busca informação, por motivos óbvios, mas também
para os anunciantes, já que sua propaganda, misturada a milhões de outras,
perde eficácia.
Embora também aborde as IAs, o livro de Doctorow foi publicado antes do
surgimento de trends como as frutas falantes. O retrato que
ele pinta das big techs, no entanto, ajuda a explicar os fenômenos
mais recentes. Afinal, tudo indica que as plataformas estão “merdificando”
nossos feeds para, com isso, promover suas ferramentas de IA.
Estamos diante de um cenário em que agentes de IA produzem e postam conteúdos
sintéticos, promovidos por outros agentes IA que curtem, compartilham e
comentam essas postagens. São redes sociais em que robôs interagem com robôs o
tempo todo e cada vez mais, até o infinito. O usuário comum, humano, se vê numa
espécie de cemitério, rodeado de plataformas-zumbi – ou como coloca Doctorow,
“plataformas que continuam rastejando mesmo depois que já deviam ter sido
abatidas e enterradas numa cova rasa”. Difícil ler essa afirmação e não pensar
no Facebook e no X.
Na corrida pela consolidação de seus modelos de IA, que envolve bilhões
de dólares em investimentos, a “merdificação” parece ser um custo que as big
techs estão, até agora, dispostas a pagar. Os usuários que aguentem
todo o lixo – ou apenas parem de usar essas plataformas, se estiverem dispostos
a pagar o preço que isso exige hoje.
“Por que eu tô com tesão num abacaxi?”, pergunta uma pessoa. “Já estou
ficando preocupada, chorei por causa de uma uvinha doce”, diz outra. A eficácia
desse tipo de vídeo não deveria surpreender ninguém a essa altura. Há muitos
anos, as empresas de tecnologia se tornaram exímias manipuladoras dos nossos
impulsos e emoções. Especializaram-se em prender nossa atenção em segundos e em
interpretar nosso jeito de rolar o feed para nos oferecer o
tipo de conteúdo mais apelativo a cada um.
O apelo das frutas antropomórficas pode ser explicado por três
características principais: o visual chamativo e supercolorido, os enredos que
recompensam em um minuto e as personagens sexualizadas (sobretudo mulheres).
Essa tríade costuma ser recompensada pelos algoritmos devido ao seu alto poder
de engajamento. Enquanto as cores e figuras à la Disney atraem a atenção de
crianças e jovens, os dramas bombásticos e as interações sexualmente sugestivas
são isca certa para adultos.
“O conteúdo é uma porcaria, mas gosto de assistir para me desestressar”,
diz Nicole Belastro, empresária paulistana de 40 anos que comentou num desses
vídeos e, contatada pela piauí, aceitou conversar. Seu comentário,
debochando da aparente inexistência de métodos contraceptivos no universo
hortifruti, continha a mesma verve irônica de muitos outros. Ela atribui o
sucesso das frutas falantes aos impactos da pandemia, época em que, segundo
ela, muita gente se entregou ao “entretenimento volátil, que não demanda muito
da nossa atenção”. Nicole conta que não deixa que o filho de 7 anos assista aos
Abacatudos e Moranguetes. E diz que, apesar de ter embarcado na trend por
um tempo, já enjoou. Acha que a modinha logo vai passar.
A onda de frutas falantes pode ser enquadrada naquilo que se chama
de brainrot, expressão em inglês usada para se referir a conteúdos
de qualidade tão duvidosa que “apodrecem” o cérebro de quem assiste. No
início de 2025, o campeão nessa categoria era o brainrot italiano,
uma onda de imagens produzidas por IA com personagens grotescos batizados com
nomes pseudoitalianos (como o macaco Chimpanzini Bananini). As frutas falantes
levaram esse tipo de material a outro nível, graças, em parte, ao aprimoramento
das ferramentas audiovisuais de IA generativa, como Veo (do Google), Movie Gen
(Meta), Grok Imagine (X), Seedance (da ByteDance, empresa dona do TikTok) e
Sora (da OpenAI, que será descontinuado).
No Brasil, as contas de TikTok e Instagram dedicadas aos dramas tutti
frutti superam as centenas. A grande semelhança entre elas – com
vídeos idênticos e enredos repetidos – dá a impressão de que até mesmo a
divulgação desses conteúdos é automatizada, formando uma linha de produção
inteiramente sintética, em que as postagens são criadas, publicadas e
promovidas por inteligência artificial. Não é nenhum delírio apocalíptico
imaginar que boa parte do que vemos hoje, em nossos feeds, foi
produzido por agentes IA configurados individualmente para cumprir certas
tarefas. O trabalho humano, nesse caso, seria apenas o de supervisionar o
processo e, claro, embolsar o dinheiro que a monetização desses vídeos tende a
produzir.
Uma evidência disso é o fato de que, nesses mesmos perfis, são ofertados
cursos para quem deseja “lucrar com vídeos de frutas falantes”. Um deles,
segundo o anúncio, custa “aponas R$ 19,99” – erro de grafia
sinalizando que, ao menos nesse texto, houve algum trabalho humano. Outra
propaganda diz, em letras garrafais, que “VOCÊ ESTÁ PERDENDO A CHANCE DE
FATURAR COM NICHOS VIRAIS!” Embora muitas dessas contas tenham sido criadas há
pouco tempo (fato atestado pelo selo de “novo”), várias somam milhares de
seguidores, o que costuma ser um indício de que robôs estão alavancando os
números. A piauí tentou contato com treze perfis do gênero. Só
três responderam: um negou conceder entrevista, e os outros dois, depois de
aceitarem inicialmente, pararam de responder às mensagens.
Os conteúdos de AI slop são, sem dúvida, lucrativos,
mas é difícil prever a durabilidade desse modelo de negócios. Embora as redes
sociais constituam um oligopólio, não é totalmente improvável que o usuário
comum, cansado da “merdificação” de seu próprio feed, se afaste das
plataformas. Com isso, sairão também os anunciantes, que ainda são os
responsáveis por grande parte das receitas no Vale do Silício. Talvez por isso,
o YouTube anunciou no fim do ano passado que estava banindo ou desmonetizando
canais 100% sintéticos que vinham inundando a plataforma com milhares de vídeos
diários feitos sob medida para os algoritmos. O problema, porém, não foi
embora, e tem afetado principalmente o público infantil, já que o YouTube Kids
é um dos terrenos mais f&eacut e;rteis para a proliferação de AI
slop. No começo de abril, mais de duzentas entidades e especialistas em
educação infantil assinaram uma carta pública pedindo a remoção desses
conteúdos da plataforma.
Nas outras redes, o circo continua solto. As frutas, provavelmente,
serão em breve substituídas por novos personagens de IA tão ou mais eficazes em
prender a atenção dos usuários numa fração de segundos. Resta saber até quando
esse formato será lucrativo para as big techs – e até quando
os humanos vão tolerar tanto entulho.
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Engrenagem mistura propaganda política, dinheiro
sujo e plataformas que lucram https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/mafia-digital-milionaria.html