02 fevereiro 2026

Palavra de poeta

Liberdade

Sophia de Mello Breyner Andresen     


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também: Poema de Rainer Maria Rilke: "Dançarina espanhola" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_30.html 

Sionismo dividido

O possível tombo de Israel
Pensador israelense fala com exclusividade ao Outras Palavras. Expõe as fissuras do projeto sionista. Os caminhos, inclusive digitais, para enfrentar o apagamento de Gaza. E as razões do Sul global, sem a “culpa pelo Holocausto”, liderar o movimento de solidariedade
Ilan Pappé em entrevista a Thiago Gama/Outras Palavras     


Ao observarmos as ruínas de Gaza e a reconfiguração brutal da Palestina entre os anos de 2024 e 2026, a sensação é de que a gramática política tradicional já não dá conta da escala do horror. Para compreender se estamos diante de uma repetição ou de uma mutação definitiva da tragédia, é preciso recorrer a quem dedicou a vida a escavar as fundações do Estado de Israel. Ilan Pappé, o historiador que rompeu o consenso acadêmico com sua obra seminal sobre a limpeza étnica de 1948, apresenta um diagnóstico terminal nesta conversa: o projeto sionista entrou em uma fase de “apagamento” total, movido pelo desespero de um colonialismo de povoamento que percebeu que o nativo não se curvará.

Nesta entrevista ao Outras Palavras, no alvorecer de 2026, Pappé guia o leitor por um labirinto de tensões que vai muito além das fronteiras físicas. O diálogo é aberto com uma análise crua sobre a evolu ção da violência: o que antes era “incremental” tornou-se uma política de genocídio aberto, motivado pela incapacidade histórica de Israel em resolver seu desafio demográfico através da simples expulsão. O historiador detalha ainda o fenômeno do memoricídio e do escolasticídio — a destruição sistemática de arquivos e universidades — apontando o arquivo digital e a reprodução de fontes como as novas trincheiras do direito de retorno.

A análise de Pappé traz uma reviravolta fundamental: a aparente invencibilidade militar de Israel mascara um colapso interno irreversível. As rachaduras na infraestrutura do Estado e a fragmentação da sociedade judaica — dividida entre uma teocracia de apartheid e um campo secular em agonia — sugerem que o projeto sionista caminha para o seu fim por suas próprias contradições. Ao final, Pappé convoca o Sul Global a rejeitar a “culpa europeia” e a reafirmar a natureza anticolonial da luta palestina como o único antídoto cont ra a instrumentalização do antissemitismo. O leitor tem em mãos, a seguir, a íntegra deste diálogo que define o nosso tempo.

Sua obra seminal A Limpeza Étnica da Palestina (2006) forneceu o quadro histórico para entender 1948. No entanto, olhando para Gaza entre 2024 e 2026, teríamos avançado da lógica da “limpeza” (deslocamento) para uma lógica de “apagamento” puro (genoc&iac ute;dio)? Seria este o estágio final e desesperado do projeto colonial de povoamento ao perceber que o nativo não sairá?

Acredito que sim. Como a limpeza étnica de 1948 foi incompleta, o desafio demográfico ao projeto sionista, enquanto empreendimento colonial de povoamento, permaneceu intacto. De 1967 até 2023, a limpeza étnica — ou melhor, a limpeza étnica incremental — foi o principal método para lidar com esse desafio demográfico, paralelamente a uma ocupação muito dura na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Esse método funcionou bem na Cisjordânia até agora; mas, devido à resistência na Faixa de Gaza e à sua localização geopolítica muito peculiar, tais métodos não foram eficazes ali. A desumanidade por trás da limpeza étnica torna mais fácil a decisão pelo genocídio, que é, naturalmente, um crime contra a humanidade ainda pior.

O senhor costuma falar em “memoricídio” — a destruição da história do outro. Hoje, vemos Israel destruindo universidades, bibliotecas e arquivos em Gaza (Escolasticídio). Como historiador, como preservamos a memória de um povo quando as evidências físicas de sua e xistência estão sendo pulverizadas? Seria o “Arquivo Digital” agora o campo de batalha primário para o direito de retorno palestino?

Não apenas o arquivo digital, mas também a reprodução, caso seja impossível reconstruir marcos, arquivos ou bibliotecas destruídos. É possível reconstruí-los em um lugar mais seguro. Fundei uma instituição de caridade chamada Nakba Memorial Foundation, que recolhe documentações de Israel que foram reclassificadas ou destruídas. Existem projetos semelhantes protegendo fontes palestinas e, de fato, tornando-as acessíveis online, mas também mantendo-as em bibliotecas e arquivos físicos adequados.

Em sua análise recente, o senhor argumenta que estamos testemunhando o “começo do fim” do projeto sionista, não por derrota externa, mas por contradições internas. Poderia elaborar isso para o nosso público brasileiro? Como um Estado que parece militarmente invencível pode es tar, simultaneamente, colapsando por dentro?

Existem rachaduras sérias na infraestrutura do Estado. Em particular, a sociedade judaica está perdendo sua solidez e encontra-se dividida de forma significativa como nunca antes, a ponto de ter dificuldade, no futuro, de manter a coesão necessária para sustentar o Estado. Trata-se de uma luta interna entre um campo secular/liberal e um campo religioso/nacionalis ta, no qual este último parece estar em vantagem. Essa trajetória de transformar Israel de uma democracia liberal (mesmo que apenas para os seus judeus) em uma teocracia de apartheid levará a embates intermináveis com o restante dos judeus no mundo, isolará Israel ainda mais globalmente e poderá alterar as atuais políticas de seus vizinhos árabes. Isso também exigirá uma economia de guerra por um longo período, dependendo fortemente do dinheiro americano e de um exército invencível. Isso não durará para sempre.

Vemos um esforço coordenado para equiparar o antissionismo ao antissemitismo, a ponto de historiadores judeus como o senhor serem rotulados de “autodiestratários” (self-hating). No Brasil, essa narrativa é usada para silenciar críticos de Israel. Como o Sul Global pode quebrar essa armadilha retórica? A definição de antissemitismo está sendo reescrita para servir de escudo para crimes de guerra?

Deveria ser mais fácil para os apoiadores da Palestina no Sul Global não se sentirem intimidados, já que não deveria haver a mesma culpa que os europeus ocidentais sentem, compreensivelmente, sobre sua história de antissemitismo e, particularmente, sobre o Holocausto. Diante desse cenário, é especificamente no Sul Global que tanto a natureza colonial de povoamento de Israel quanto a natureza anticolonial do movimento nacional palestino devem ser reconhecidas e enfatizadas. Isso não deve ser apenas a mensagem de ativistas e do movimento de solidariedade. Deve ser a forma como a história deste conflito é ensinada nas universidades e discutida na grande mídia. Esse seria o melhor antídoto contra a acusação de que pessoas que apoiam uma luta anticolonial são antissemitas, quando, na verdade, elas estão protestando contra o racismo sionista.

O senhor defende a Solução de um Estado Único como o único caminho moral. Críticos a chamam de utópica. Mas, olhando para os escombros da Solução de Dois Estados, a “utopia” não seria, na verdade, acreditar que a partilha pode um dia trazer a paz? Qual é o papel do historiador ao imaginar a arquitetura política do “Dia Seguinte”?

Antes de tudo, talvez seja importante ressaltar que o Estado único já está aqui. Portanto, a questão é: quão utópico é imaginar que o atual Estado de apartheid único se torne, um dia, democ rático? O historiador tem uma vantagem aqui: regimes de apartheid, ou regimes injustos fundada por movimentos coloniais de povoamento, não duraram para sempre.

Leia também: Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html 

Thiago Modenesi opina

A esquerda identitária como filha do neoliberalismo: um paradoxo contemporâneo
Enquanto o neoliberalismo dissolve a noção de classe e coletividade em favor do indivíduo consumidor, a política identitária corre o risco de substituir projetos universais
Thiago Modenesi/Vermelho      

A relação entre a atual esquerda identitária e o neoliberalismo pode parecer, à primeira vista, um contrassenso. Como pode um movimento que se opõe às desigualdades estruturais ser considerado herdeiro de uma doutrina que exalta o mercado livre e a meritocracia? No entanto, uma análise mais aprofundada revela ligações profundas e paradoxais, sugerindo que o neoliberalismo não apenas tolerou, mas em certa medida moldou e instrumentalizou a política identitária contemporânea.

Primeiramente, é crucial entender o neoliberalismo não apenas como uma teoria econômica, mas como uma racionalidade política que transforma todos os aspectos da vida em competição de mercado. O neoliberalismo precisa ser visto como um projeto cultural.

Segundo teóricos como Wendy Brown, o neoliberalismo promove um sujeito empreendedor de si mesmo, responsável por seu próprio destino. Nessa lógica, as identidades coletivas — de raça, gênero, sexualidade — podem ser reduzidas a ativos individuais a serem geridos, diversificados e performados.

A esquerda identitária, ao priorizar lutas fragmentadas (e frequentemente centradas em reconhecimento simbólico), pode inadvertidamente ecoar a lógica neoliberal de fragmentação social. Enquanto o neoliberalismo dissolve a noção de classe e coletividade em favor do indivíduo consumidor, a política identitária corre o risco de substituir projetos universais de redistribuição por demandas específicas de reconhecimento. Isso não invalida tais demandas, que são urgentes e legítimas, mas as coloca em um terreno onde podem ser facilmente cooptadas pelo mercado (a “política do arco-íris” vendida por corporações, por exemplo).

O neoliberalismo substitui o conceito de cidadão pelo de consumidor. Nesse contexto, as identidades tornam-se nichos de mercado, e as reivindicações por representatividade transformam-se em oportunidades de branding corporativo. A luta por direitos é, assim, convertida em uma busca por visibilidade dentro das estruturas existentes, em vez de questionar essas estruturas. A diversidade no topo do capitalismo (mais CEOs mulheres ou negros) passa a ser vista como fim em si mesmo, sem questionar as hierarquias econômicas que permanecem intactas.

A ênfase na identidade como categoria primária de análise pode obscurecer as bases materiais e econômicas da opressão. Como argumentou Nancy Fraser, o neoliberalismo promoveu uma “esquerda progressista” centrada em questões de reconhecimento, enquanto abandonava as lutas por redistribuição. Essa divisão beneficia o capital, pois permite que se combata o sexismo ou o racismo sem desafiar a exploração de classe, frequentemente, inclusive, usando a linguagem da diversidade para justificar mais desigualdade (“capitalismo inclusivo”). Há um processo de esvaziamento da crítica estrutural em si.

Chamar a esquerda identitária de “filha do neoliberalismo” não é negar sua importância. É, antes, alertar para um risco de convergência perversa: que as lutas por justiça social sejam absorvidas pela lógica de mercado, tornando-se gestão de diferenças em vez de transformação estrutural. A saída não está em abandonar as questões de identidade, mas em reinseri-las em um projeto amplo de emancipação que una reconhecimento e redistribuição, identidade e classe, micro e macro, apontando para a luta que rompa com o capitalismo e dialogue com a construção do socialismo. Somente assim a esquerda poderá confrontar verdadeiramente o neoliberalismo, em vez de reproduzir, em novas formas, sua lógica fragmentadora.

Leia também: Estética imperialista: A política do espetáculo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estetica-imperialista.html

Humor de resistência

Aroeira 

EUA: quem perde com Trump?

Em 1 ano, tarifaço de Trump arrecada bilhões, mas penaliza o povo dos EUA
Após elevar tarifas ao maior nível em um século, governo Trump arrecada mais e reduz déficit à fórceps, mas pressiona preços, isola os EUA diplomaticamente e provoca reação defensiva de parceiros comerciais
Cezar Xavier/Vermelho      


Um ano após o início da mais agressiva política tarifária dos Estados Unidos desde a década de 1930, os efeitos da “experiência Trump” tornam-se mais claros — e mais complexos. Segundo balanço do New York Times, as tarifas médias chegaram a cerca de 17%, patamar não visto desde a Lei Smoot-Hawley, recolocando o protecionismo no centro da política econômica norte-americana e reeditando tensões históricas no comércio internacional.

Defendidas por Donald Trump como instrumento para revitalizar a indústria e recuperar empregos, as tarifas produziram efeitos mensuráveis, mas também desencadearam distorções econômicas — que desafiam a narrativa oficial — e um desgaste diplomático significativo.

Receita em alta, custo interno

O impacto mais imediato foi fiscal. Em 2025, os Estados Unidos arrecadaram cerca de US$ 287 bilhões em tarifas, impostos e taxas alfandegárias — quase o triplo do registrado em 2024. Embora modestos frente aos mais de US$ 2 trilhões anuais do imposto de renda, esses recursos se tornaram uma fonte adicional relevante para o Tesouro.

A ressalva central, porém, é quem paga a conta. A arrecadação vem majoritariamente dos importadores oficiais, em sua maioria empresas norte-americanas. Apesar do discurso de que o custo recairia sobre produtores estrangeiros, o consenso entre economistas é que o ônus tem sido absorvido por importadores e consumidores domésticos, seja via preços mais altos, seja por redução de margens e investimentos.

O déficit comercial encolhe — mas…

O déficit comercial, outro alvo central da política de Trump, recuou nos últimos meses e atingiu em outubro de 2025 o menor nível desde 2009, antes de registrar leve alta em novembro. Mesmo isso, é fruto de uma distorção econômica que torna sua continuidade insustentável. O déficit comercial dos EUA encolheu porque as tarifas frearam as importações no curto prazo, não porque o país se tornou mais competitivo. Foi um ajuste contábil e conjuntural — não uma vitória estrutural da política industrial.

O déficit comercial dos EUA encolheu após o tarifaço de Trump por uma combinação de efeitos conjunturais e mecânicos, e não porque a economia americana tenha passado a exportar muito mais ou se reindustrializado. Os principais fatores a queda forçada das importações, porque os importadores americanos reduziram volumes, adiaram compras, cancelaram contratos, ou buscaram fornecedores alternativos (nem sempre mais baratos).

Empresas não deixaram necessariamente de importar; muitas mudaram a origem: menos compras da China, mais compras de países como México, Vietnã e Índia. Em alguns casos, o valor total importado caiu; em outros, os fluxos ficaram mais caros e mais lentos. O resultado líquido, no curto prazo, foi menor volume registrado de importações, comprimindo o déficit.

Como o déficit comercial mede a diferença entre importações e exportações, basta as importações caírem para o déficit diminuir — mesmo que as exportações não cresçam. Este foi o principal fator do recuo recente.

No início do governo Trump, houve uma corrida para importar antes da entrada em vigor das tarifas, o que inflou artificialmente o déficit nos primeiros meses. Depois que as tarifas passaram a valer, as importações despencaram e o déficit caiu por comparação com esse pico anterior. Esse efeito estatístico ajudou a produzir uma queda rápida, mas não estrutural.

As tarifas elevaram preços e aumentaram incertezas, o que contribuiu para desaceleração do consumo e menor demanda por bens importados. Déficits comerciais tendem a cair quando a economia perde fôlego — um padrão histórico observado também em recessões.

Além de tudo isso, as exportações não foram o motor do reequilíbrio da balança. As exportações americanas não cresceram de forma significativa, a base industrial não se expandiu de maneira ampla e o emprego manufatureiro continuou fraco. Ou seja, o déficit caiu porque os EUA compraram menos, não porque venderam mais.

Por isso, economistas tratam o encolhimento com cautela. O déficit já mostrou sinais de reversão após alguns meses e mudanças em consumo, câmbio ou cadeias globais podem fazê-lo subir novamente. Historicamente, déficits comerciais são influenciados mais por nível de atividade econômica, poupança interna, política fiscal e monetária, do que por tarifas isoladas.

Mesmo com a queda no déficit observada, o movimento não foi linear. No acumulado de janeiro a novembro, o saldo negativo ainda estava 4,1% acima do ano anterior, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da tendência recente.

Indústria: ganhos setoriais, frustração no emprego

No setor manufatureiro, os resultados ficaram aquém das promessas. Apesar das tarifas, a indústria continuou perdendo empregos em 2025. Apoiadores de Trump argumentam que a reindustrialização leva tempo e apontam avanços recentes na produção industrial e no investimento em capital.

Os dados mostram, porém, um quadro desigual. O crescimento observado na produção industrial concentrou-se em segmentos menos afetados pelas sobretaxas, como aeroespacial e eletrônicos. Já áreas diretamente afetadas, como a indústria automobilística e de autopeças, registraram queda na produção. Fabricantes relatam que as tarifas elevaram os custos de insumos essenciais, como aço, alumínio e máquinas, corroendo competitividade e limitou a capacidade de expansão.

Além disso, embora a construção de novas fábricas esteja acima dos níveis pré-pandemia, o ritmo é inferior ao observado no fim do governo Biden, quando subsídios a semicondutores e baterias impulsionaram investimentos.

Preços mais altos e inflação contida à força

Como previsto, as tarifas pressionaram os preços de bens importados. Indicadores mostram aceleração especialmente após o anúncio das tarifas globais em abril de 2025, revertendo uma tendência anterior de queda. Ainda assim, o impacto foi menor do que o esperado, em parte porque empresas hesitaram em repassar integralmente os custos aos consumidores, temendo perda de mercado.

A inflação geral nos EUA apresentou melhora, puxada sobretudo pela desaceleração nos serviços. Economistas, porém, calculam que sem as tarifas o resultado teria sido ainda melhor: o IPC de agosto, de 2,9%, poderia ter ficado em 2,2% sem o peso das sobretaxas comerciais.

Reação internacional e isolamento diplomático

No plano externo, o saldo é amplamente negativo. A estratégia unilateral de Trump deteriorou relações comerciais e fragilizou a diplomacia econômica dos EUA. Países atingidos pelas tarifas responderam com medidas defensivas, incluindo sobretaxas retaliatórias, redirecionamento de cadeias produtivas e acordos preferenciais entre si, contornando o mercado americano.

União Europeia, China, Canadá e países asiáticos intensificaram negociações bilaterais e regionais para reduzir dependência dos EUA. Em vez de reindustrializar o país, críticos afirmam que a política acelerou a reorganização das cadeias globais sem os Estados Unidos no centro, enfraquecendo sua influência comercial de longo prazo.

Se Trump pretendia conter a China ou a Rússia, acabou por aproximar aliados históricos (como Europa e América Latina) em torno desses países, afastando-os da hostilidade comercial dos EUA. A busca obsessiva de muitas nações pela desdolarização de suas dívidas também acende um alerta para as chantagens econômicas de Trump.

Desgaste político e opinião pública

A percepção de preços elevados e incerteza econômica também atingiu o campo político. Pesquisa do The New York Times com a Universidade de Siena mostrou que 54% dos eleitores se opõem às tarifas, e 51% avaliam que as políticas de Trump pioraram o custo de vida — um sinal de erosão de um dos principais pilares de sua base de apoio.

Após um ano, a política tarifária de Trump revela um paradoxo: ganhos fiscais e ajustes pontuais no comércio coexistem com custos econômicos internos, perdas industriais e isolamento internacional. Mais do que um experimento econômico, a estratégia redesenhou — de forma controversa — o papel dos Estados Unidos no comércio global.

Longe de uma panaceia, a experiência reacende um velho dilema da economia americana: até que ponto o protecionismo fortalece a produção nacional — e quando passa a cobrar um preço alto demais do próprio país, com efeitos que podem perdurar muito além do mandato presidencial.

[Ilustração: Charge de William]

Leia também: Empresas privadas lucram com repressão de Trump aos migrantes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-repressao-lucro.html

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Embora metida até o pescoço com o centro-direita, é natural que a governadora Raquel Lyra não descarte, pelo menos em público, a hipótese de um apoio à reeleição de Lula, fortíssimo em todas as microrregiões de Pernambuco.

Manobra parlamentar legítima https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_26.html 

Fotografia

Luciano Siqueira 

Leia: "Estou fora, muito obrigado" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_25.html