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Blog de Luciano Siqueira
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16 janeiro 2026
Palavra de poeta
A força do audiovisual
Indústria audiovisual injeta R$ 70 bi na economia e supera setores tradicionais
Estudo da Oxford Economics mostra que o audiovisual respondeu por 0,7% do PIB em 2024, gerou mais de 600 mil empregos e impulsionou exportações e turismo
Cezar Xavier/Vermelho
A indústria audiovisual brasileira consolidou-se como um dos setores mais dinâmicos da economia em 2024, deixando de ser apenas um vetor cultural. Segundo estudo da Oxford Economics encomendado pela Motion Picture Association, o setor movimentou R$ 70,2 bilhões no ano, o equivalente a cerca de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB). O desempenho já supera o de segmentos tradicionais, como os setores têxtil, extrativista e farmacêutico, e chega a ser seis vezes maior, em geração de empregos, do que a indústria automobilística.
O relatório aponta que festivais de cinema, produções nacionais e programas de capacitação são apontados como vetores de impulsionamento do setor ao promover talentos e reforçar a presença do Brasil no circuito mundial. Programas voltados à juventude como “Fazendo Meu Primeiro Filme”, o apoio da Lei Paulo Gustavo e do Fundo Setorial do Audiovisual, contribuem para uma indústria capaz de se destacar globalmente.
Empregos e salários acima da média
O relatório aponta que o audiovisual foi responsável por 608.970 postos de trabalho em 2024 — número seis vezes superior ao total de postos de trabalho da indústria automobilística no mesmo período.
Apenas a atividade direta — que inclui produção, distribuição, exibição, TV aberta, TV por assinatura e streaming — respondeu por 121.840 empregos e por uma contribuição de R$ 31,6 bilhões ao PIB. Um dos destaques é a remuneração: os salários médios do setor ficaram 84% acima da média nacional, com remuneração de cerca de R$ 6.800 mensais. Os efeitos multiplicadores também são expressivos — cada real gerado diretamente movimenta 2,2 vezes o PIB e cada emprego direto sustenta outros cinco na economia.
Além disso, sua participação no PIB (0,6%) já ultrapassa a de setores historicamente relevantes, como os ramos têxtil, extrativista e farmacêutico. O impacto fiscal também é expressivo: o setor arrecadou R$ 9,9 bilhões em impostos ao longo do ano.
Entre os segmentos, a TV aberta permanece como o maior contribuinte direto ao PIB (R$ 14,9 bi), mas é o vídeo sob demanda (VOD) — impulsionado por plataformas como Netflix, Globoplay, Prime Video e Disney+ — que apresenta o crescimento mais acelerado, com projeção de aumento médio anual de 10,2% até 2028.
Já o cinema vive um renascimento histórico com o crescimento recente da produção brasileira se refletindo nas salas, indicando recuperação do público e maior presença do conteúdo brasileiro no mercado interno. Entre maio de 2024 e maio de 2025, a bilheteria de filmes brasileiros cresceu 197%, saltando de R$ 84 milhões para R$ 251 milhões. A participação dos longas nacionais no mercado doméstico subiu de 3% para mais de 10% no mesmo período, impulsionada por produções como Ainda Estou Aqui, longa-metragem vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional.
O estudo considera toda a cadeia produtiva, incluindo produção, distribuição, exibição cinematográfica, televisão aberta e por assinatura, além de streaming e vídeo sob demanda.
Exportações culturais fortalecem soft power e turismo
Além do mercado doméstico, o audiovisual brasileiro ampliou sua presença internacional. O Brasil registra superávit comercial em serviços audiovisuais desde 2017, com crescimento médio anual de 19% nas exportações. Em 2023, esse saldo positivo adicionou R$ 2,7 bilhões ao PIB — valor equivalente a mais de um terço do PIB gerado pelas exportações de aeronaves.
Esse sucesso internacional também impulsiona o turismo: 53% dos viajantes internacionais pesquisam ou reservam destinos após vê-los em filmes ou séries. Em 2024, o Brasil recebeu 6,8 milhões de turistas internacionais. Parcerias como a da Netflix com a Embratur e o fenômeno turístico gerado por Ainda Estou Aqui — cuja casa de filmagem será transformada em museu no Rio — ilustram esse “turismo de tela”.
O relatório ressalta que esse desempenho reforça o papel estratégico do audiovisual como vetor de inserção do Brasil na economia criativa global.
Festivais e capacitação ampliam inclusão e visibilidade global
Festivais de cinema, produções nacionais e programas de capacitação são apontados como fatores-chave para fortalecer a força de trabalho do setor e ampliar a visibilidade do país no exterior.
Eventos como a Mostra de São Paulo, o Festival do Rio e o Fantaspoa atraíram juntos quase 1 milhão de espectadores em 2024 e 2025, promovendo talentos locais e reforçando a presença do Brasil no circuito cinematográfico mundial.
Paralelamente, programas como “Fazendo Meu Primeiro Filme”, voltado a jovens de comunidades periféricas, combinam formação técnica, acesso a festivais e encaminhamento profissional. Apoiados por iniciativas como a Lei Paulo Gustavo e o Fundo Setorial do Audiovisual, esses projetos ajudam a construir uma indústria mais diversa, qualificada e competitiva globalmente.
Um setor estratégico para o futuro do Brasil
Com base em dados de mais de 200 países e 100 setores, a Oxford Economics projeta continuidade do crescimento do audiovisual brasileiro até 2028. O relatório destaca que políticas de estímulo, qualificação profissional e integração com plataformas globais tendem a ampliar ainda mais a contribuição econômica e cultural do setor nos próximos anos.
Com forte impacto econômico, cultural e social, a indústria audiovisual se consolida como um ativo estratégico para o desenvolvimento sustentável do país. Seu potencial de geração de renda, emprego de alta qualidade, atração de investimentos estrangeiros e promoção da identidade brasileira no exterior coloca o setor no centro dos debates sobre inovação, soberania cultural e crescimento inclusivo.
Leia também: Êxitos concretos da Lei Rouanet https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/frutos-da-lei-rouanet.html
Editorial do 'Vermelho'
Agressões de Trump ao Irã e à Venezuela exigem rechaço dos povos
Para tentar conter declínio do imperialismo estadunidense, Donald Trump promove monstruosa escalada de agressões e pisoteia Carta das Nações Unidas
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br
Os acontecimentos simultâneos no Irã e na Venezuela que se somam a um conjunto de outros países agredidos, são produtos do mesmo ato, a ofensiva belicosa e neocolonial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Não é mera coincidência que Irã e Venezuela, a agressão da vez, respectivamente, tenham a 3ª e a 1ª reserva de petróleo do mundo.
Trump age sem pudor e apostando na impunidade ao pisotear a Carta das Nações Unidas, elaborada sob os escombros da Segunda Guerra Mundial. E vai além ao passar por cima até de aliados históricos dos Estados Unidos, como a chamada Europa Ocidental, ameaçando se apossar da Groelândia de uma forma ou de outra, forçando, inusitadamente, Alemanha, França, Suécia, Noruega, Holanda e Inglaterra a enviarem tropas à região para se juntarem a efetivos da Dinamarca.
Investido de um imaginário poder ilimitado, à frente de uma grande potência em declínio, mas detentora de uma poderosa máquina de guerra, Trump não mede palavras para disparar ameaças e justificar sua truculência que remetem a lembranças das tragédias que marcaram o século XX, sobretudo a ascensão do nazifascismo, ou à política da canhoneira do século XIX.
No Irã, convulsionado por draconianas sanções que asfixiam sua economia, Trump insufla, por meios oficiais, ações para que as instituições sejam postas abaixo e que se efetive a mudança de “regime” do país persa, uma afronta descarada ao direito internacional. São agressões contra um Estado soberano que resultam em consequências cruéis.
O caso mais recente é a imposição de tarifas de 25% aos países que comercializam com o Irã, além de sanções a empresas e a membros da segurança do país. O objetivo é agravar a crise que levou a uma forte desvalorização do rial – a moeda iraniana –, resultado da política de pressão máxima de Trump. Os protestos se espalharam, pacíficos, com as pessoas manifestando-se contra a inflação e a perda do poder de compra, um problema considerado grave pelo próprio presidente Masoud Pezeshkian, potencializado por uma severa crise hídrica.
Mas apareceram, entre os manifestantes, terroristas atirando em policiais, de acordo o governo iraniano distúrbios orquestrados pelos Estados Unidos e por Israel, uma operação cuidadosamente planejada por seus serviços de inteligência, um contraste com manifestações populares de apoio ao governo.
São desdobramentos do que Trump chamou de “guerra dos doze dias” em junho de 2025, seguida de uma espécie de cessar-fogo temporário. As mortes relatadas em centenas são lastimáveis, as famílias iranianas enlutadas recebem do povo brasileiro e de outras nações do mundo as sentidas condolências. No Irã, há legítimas demandas democráticas, mas que jamais serão resolvidas com intervenção de potências que ambicionam, pela via da guerra, saquear as riquezas da nação persa.
A meta do governo Trump é impor um governo títere, se apossar do petróleo e assumir o controle total do Oriente Médio, projeto aliado ao Estado de Israel, empenhado em liquidar a causa palestina. “É necessário denunciar com clareza que a presença de agentes infiltrados da CIA e do Mossad alterou o caráter legítimo das reivindicações populares contra a alta do custo de vida”, diz uma nota do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz Cebrapaz). Segundo o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), em nota, “o povo iraniano tem direito à soberania e a resolver suas questões internas por meio de suas próprias instituições, sem interferência externa”.
Na Venezuela, alvo de agressões imperialistas desde a tentativa de golpe de Estado em abril de 2002, a intervenção militar para sequestrar o presidente Nicolás Maduro tem a finalidade, abertamente manifestada por Trump, de saque ao petróleo, ato bárbaro apoiado por seus aliados interessados na destruição do projeto bolivariano, como a União Europeia e a direita de países da região, a exemplo do desfile de cinismo dos setores entreguistas e antipatrióticos brasileiros.
Também explicitamente, o governo estadunidense proclama o ataque à Venezuela no contexto da definição da América Latina como seu “quintal”, seu hemisfério, a exaltação da contemporaneidade da Doutrina Monroe. As ameaças se estenderam para Cuba, Colômbia, México e Nicarágua.
São expressões da tentativa de Trump de reverter o declínio dos Estados Unidos com seu Make America great again (Tornar a América grande novamente) por meio de ameaças, chantagens e guerra contra os povos, uma clara intimidação global para impor a ideia de que nenhuma nação está a salvo de suas agressões, uma escalada que passou também pelo Panamá e o Canadá. Recentemente, interveio também na eleição presidencial de Honduras.
Essa espécie de terror imperial, que pisoteia povos, ateia fogo no direito internacional, afronta a soberania dos países, acumula sangue derramado e volume de saques, aumenta a euforia de Trump com a sensação de vitória. Todavia, de conjunto isto resulta em aguda corrosão da já declinante liderança dos Estados Unidos.
É mais um sintoma de decadência do que de demonstração de força, que se manifesta também em ações contra o próprio povo estadunidense, a exemplo de mortes pela polícia migratória de Trump, o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês).
Contra isto, o governo Lula tem corretamente se levantado e se manifestado. “Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo”, diz uma nota do Ministério das Relações Exteriores.
O Brasil, com seu peso geopolítico e sua influência sobretudo na América Latina, é uma força decisiva no enfrentamento a essa escalada neocolonial e belicosa trumpista. Os movimentos sociais, as centrais sindicais, em agendas unitárias de denúncia e mobilização, também estão em combate. A solidariedade aos povos vítimas dessa barbárie e a luta conjugada em defesa da soberania dos países e pela paz tornam-se imperativas.
Lula entre Estados Unidos e Venezuela a passos firmes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_21.html
Minha opinião
De coisas que nunca sei
Luciano
Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Muito por acaso descubro que entre as minhas deficiências como leitor — embora assíduo e atento a conteúdos — é saber muito pouco dos autores de livros que ao longo da vida se destacaram ao meu olhar e permanecem em estantes da biblioteca daqui de casa.
Sei muito pouco da vida pessoal de cada um. E nunca imaginei que deveria
saber. Não me interessa.
De Drummond, li por acaso reportagem na IstoÉ acerca de um namoro que
por décadas o poeta mantivera em segredo. Só.
Eis que soube agora que Agatha Christie, autora de romances policiais da
minha predileção, aos 36 anos de idade esteve desaparecida por 11 dias em meio
a uma desavença com o marido, que lhe pedira o divórcio.
Veio a ser encontrada num pequeno hotel nos arredores de Londres, onde
se registrara com o nome da namorada do dito cujo.
Nada mais se soube e ao longo de décadas o fato permanece como um
mistério.
Imagine se fosse hoje, tanta gente abelhuda de posse do smartphone e
pronta a fotografar tudo e a todos e, de imediato, divulgar nas redes
sociais.
Com certeza, a escritora britânica inevitavelmente seria vítima de “influencers”
que explorariam o assunto como forma de conquistar seguidores e reforçar suas
reservas monetárias.
"Água na fervura de quem já passou dos cinquenta" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/etarismo-em-laboratorio.html
Frutos da Lei Rouanet
Estudo indica sucesso da Lei Rouanet que injeta R$ 25 bilhões na economia em 2024
Pesquisa inédita da FGV revela que cada real investido movimenta R$ 7,59 e reafirma a cultura como investimento estratégico capaz de gerar empregos
Davi Molinari/Vermelho
Alvo prioritário de ataques ideológicos e desinformação nos últimos anos, a Lei Rouanet teve o impacto real mensurado por um estudo minucioso da Fundação Getulio Vargas (FGV), encomendado pelo Ministério da Cultura (MinC) e pela Organização de Estados Ibero-Americanos (OEI). Os resultados de 2024 revelaram que a lei de incentivo movimentou mais de R$ 25 bilhões na economia brasileira, gerando emprego, renda e tributos em uma escala sem precedentes.
O levantamento “Impacto Econômico da Lei Rouanet – Dados 2024” revela que, para além do fomento à arte, a lei funciona como um potente motor econômico. Para cada R$ 1,00 investido através da renúncia fiscal, foram gerados R$ 7,59 na economia nacional. Esse montante considera tanto a execução direta dos projetos quanto os gastos do público visitante (transporte, alimentação, hospedagem), demonstrando a força da cadeia produtiva cultural.
Cultura como motor de emprego e arrecadação
O estudo traduz o impacto da lei em números de mercado de trabalho e conclui que, em 2024, a Rouanet foi responsável por manter ou gerar mais de 228 mil postos de trabalho em todo o país. Além disso, o Estado recupera parte do incentivo com a movimentação econômica gerada pela ações culturais que, no ano passado foi da ordem de R$ 3,9 bilhões em tributos federais, estaduais e municipais.
Para a ministra da Cultura, Margareth Menezes, os dados provam que a cultura é uma força estratégica para o desenvolvimento nacional. “Cultura não é gasto, é trabalho, renda e futuro”, defende a ministra na apresentação do estudo, enfatizando que o Pronac (Programa Nacional de Apoio à Cultura) agora é analisado com profundidade científica.
Rompendo o eixo Rio-São Paulo: a vitória da desconcentração
Um dos destaques mais significativos da pesquisa é o avanço na descentralização dos recursos. Embora o Sudeste ainda concentre volumes absolutos elevados (R$ 18,4 bilhões do impacto total), as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste registraram os maiores crescimentos proporcionais no número de projetos e valores investidos entre 2018 e 2024.
- Norte: Teve o crescimento mais expressivo, com alta de 153% nos valores investidos.
- Nordeste: Cresceu 68,5%, apresentando um Índice de Alavancagem Econômica (IAE) de R$ 7,84 para cada real gasto.
- Centro-Oeste: Registrou aumento de 22,4%.
A pesquisa aponta que 41,7% dos projetos já ocorrem em municípios que não são capitais, refletindo o esforço da atual gestão do MinC em levar a política pública para as áreas mais vulneráveis e para o interior do país.
O mito da “lei para os grandes”
Os dados da FGV também derrubam o mito de que a Rouanet beneficiaria apenas grandes estrelas ou megacorporações. Entre os proponentes (pessoas jurídicas), a grande maioria é formada por micro e pequenas empresas (MPEs) e entidades sem fins lucrativos. Dos 81 mil fornecedores e prestadores de serviço contratados pelos projetos em 2024, 85,5% são micro e pequenas empresas. A capilaridade é tamanha que quase 90% dos pagamentos realizados foram inferiores a R$ 10 mil, beneficiando técnicos de som, costureiras, gráficas e pequenos comércios locais.
Catalisadora de investimentos
Além disso, a Lei Rouanet demonstrou ser uma “selo de confiança” que atrai e “avaliza” outros recursos. Em 2024, os projetos captaram R$ 579,5 milhões adicionais de outras fontes (editais estaduais, patrocínios diretos e crowdfunding) e geraram R$ 151,3 milhões em receitas próprias (bilheteria e vendas).
Com 4.939 projetos executados no ano, abrangendo desde artes cênicas (34%) e música (26%) até patrimônio cultural e museus, a Lei Rouanet se consolida como o principal pilar de financiamento cultural do Brasil.
Foto: Fernando Frazão
A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html
Palavra de poeta
Descrição
de algo perdido
Charles Simic
Nunca teve um nome
E não me lembro de como o encontrei.
Carregava-o no bolso
Como um botão perdido
Exceto por não ser um botão.
Filmes de terror
Lanchonetes 24 horas,
Botequins escuros
E casas de bilhar
Em ruas molhadas de chuva.
Levava uma existência quieta, inexpressiva,
Como uma sombra em um sonho,
Um anjo num alfinete,
E então sumiu.
Os anos passaram com sua fila
De estações sem nome,
Até que alguém anunciou é aqui!
E tolo que eu era
Desembarquei na plataforma vazia
Sem nenhuma cidade à vista.
[Ilustração: Gervane de Paula]
Leia também: "Soneto da busca", um poema de Carlos Pena Filho https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_40.html
15 janeiro 2026
Thiago Modenesi opina
Trump joga WAR tendo o mundo como tabuleiro
Ao tratar a geopolítica como jogo de conquista, a política externa de Trump expôs desprezo pelo direito internacional, corroeu alianças e acelerou a erosão da ordem global.
Thiago Modenesi/Vermelho
Se você tem mais de 40 anos muito provavelmente pode ter passado horas jogando War com amigos e amigas em sua adolescência. O jogoreduz a geopolítica a um conjunto simples de regras: territórios são cartas a serem coletadas; países, peças a serem conquistadas; e a vitória é absoluta – o domínio total do mapa. A diplomacia é substituída pelo lance de dados, e a complexidade socioeconômica e cultural de nações inteiras é apagada. A administração Trump, particularmente em seu segundo mandato muito mais agressivo, operou sob uma cosmovisão alarmantemente semelhante à do jogo. As ações descritas, a recente invasão da Venezuela sob o pretexto de “restauração da democracia” e combate ao “narcoterrorismo de governo”, a surpreendente oferta de compra e subsequentes ameaças de anexação da Groenlândia (um “grande terreno” estratégico e rico em recursos), e as ameaças de intervenção militar no México e Colômbia para “erradicação total do narcotráfico” não são vistas como eventos isolados, mas como movimentos táticos numa grande estratégica de reconfiguração forçada do tabuleiro mundial.
A expansão territorial e controle de recursos como um fim, assim como no jogo, onde controlar continentes garante bônus de reforço, estão refletidos na política externa de Trump, que visou o controle direto ou indireto de territórios ricos em recursos. A Venezuela foi enquadrada não por sua “crise humanitária,” mas por suas vastas reservas de petróleo. A Groenlândia representa uma jogada de mestre para o projeto imperialista trumpista: controle do Ártico, acesso a minerais raros e uma posição estratégica contra a Rússia e China. A lógica não é de integração, mas de aquisição.
As alianças são vistas como um meio descartável no War, são temporárias e baseadas puramente na conveniência do momento, sendo descartadas sem cerimônia. O governo Trump levou isto ao extremo, tratando a OTAN com desdém, pressionando aliados tradicionais como Dinamarca (no caso da Groenlândia) com ameaças, e cooptando ou subordinando governos regionais, como o da Argentina, para legitimar a intervenção na Venezuela. A mensagem era clara: a lealdade é contingente à obediência e à utilidade imediata.
O conceito clausewitziano é invertido. Para Trump, a guerra (ou sua ameaça crível) era a diplomacia por outros meios. Os tuítes provocativos, os ultimatos públicos ao México (“ou fazem algo, ou nós faremos”), e a retórica belicosa contra o governo Maduro eram táticas calculadas para forçar capitulação ou criar casos de guerra. A dissuasão clássica dava lugar à coerção ostensiva.
Assim como as regras do War são autocráticas e definidas pelo vencedor, a abordagem de Trump desprezou o direito internacional. A invasão da Venezuela, sem mandato do Conselho de Segurança da ONU, violou a Carta das Nações Unidas. A ameaça de anexação de um território autônomo dinamarquês desrespeitaria o direito à autodeterminação. As ameaças de violação da soberania mexicana e colombiana pisoteariam normas seculares de não-intervenção.
A invasão da Venezuela seria o equivalente a conquistar a América do Sul no jogo, garantindo um “bônus de continente” em recursos e influência. No entanto, a realidade provou ser mais complexa. A invasão não rompeu a hegemonia do Chavismo e Bolivarianismo no poder até o momento.
As ações de Trump trazem consequências sistêmicas, quando o jogo termina, a realidade permanece. A aplicação da lógica do War resultou até agora na erosão acelerada da atual ordem internacional, o desprezo por instituições e normas minou a já frágil arquitetura pós-1945.
Além disso, progride a deslegitimação do poder norte-americano, o soft power dos EUA foi devastado pelas ações de Trump. A imagem de uma potência arbitrária e conquistadora pode dificultar futuras cooperações e manobrou até aliados para posições de resistência.
A política externa da era Trump, que guarda paralelos com a lógica simplista e brutal do jogo War, demonstrou os perigos catastróficos de se tratar a geopolítica como um jogo de soma zero. Enquanto no tabuleiro o vencedor leva tudo e o jogo pode ser reiniciado, no mundo real as conquistas são ilusórias, os custos humanos e materiais são profundos e as cicatrizes na ordem internacional são duradouras.
Os EUA, ao jogar War com o mundo, podem ter ganhado algumas batalhas táticas de impacto midiático, mas iniciaram um processo estratégico de erosão de sua própria liderança e de um sistema que, apesar de suas imperfeições, oferecia mais estabilidade do que o caos hobbesiano de um tabuleiro de jogo permanente. A lição final é que na geopolítica real, diferentemente do War, não há vencedores solitários quando o tabuleiro é incendiado.
Os fortes fazem o que querem: Trump e a Venezuela https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/celso-pinto-de-melo-opina.html








