09 maio 2026

Editorial do 'Vermelho'

Pelo desenvolvimento soberano, PCdoB vota contrário ao projeto das terras raras
Mesmo sublinhando avanços no projeto e méritos do governo e do relator na busca da melhor lei, bancada do PCdoB aponta ausência estrutural no quesito soberania e vota não
Editorial do 'Vermelho'
  

Apesar de reconhecidos avanços, o substitutivo ao projeto de lei Nº2780, de 2024 que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), aprovado pela Câmara dos Deputados na noite deste 6 de maio, não resguarda, com os fundamentos e a segurança necessários, a soberania nacional sobre essa riqueza estratégica. Esses minerais, como se sabe, são recursos indispensáveis às inovações tecnológicas que estão revolucionando a economia mundial – entre outros ramos –, a transição energética, a Defesa e a economia digital. Daí uma verdadeira guerra geopolítica que se trava em torno de suas reservas e processamento.

O Brasil, com 23% das reservas de terras raras, detém a segunda maior reserva global, superado apenas pela China, que possui 49%. Essa riqueza mineral, portanto, tem alta concentração de disponibilidade. E o domínio da tecnologia de transformação desses minerais é mais concêntrica ainda. Por isto, o Brasil é alvo de grande investida dos Estados Unidos para se apossar desse precioso patrimônio nacional. Fato que ficou patente na compra da empresa Serra Verde, que opera a mina Pela Ema de terras raras, em Minaçu, Goiás, pela mineradora estadunidense USA Rare Earth, com financiamento do governo Trump.

Mas não é só. A maioria dos projetos que já estão em andamento para explorar outras minas de minerais críticos está sob o controle societário de empresas dos Estados Unidos e de outros países como Canadá, Reino Unido e Austrália.

O principal avanço do Projeto de Lei – aprovado com apoio do governo Lula, fruto de esforços, a começar pelo relator, deputado federal Arnaldo Jardim – é a criação do Conselho Especial de Minerais Críticos e Estratégicos. Sob o controle do governo federal, o Conselho possui um conjunto de prerrogativas e atribuições que se reportam a questões chaves, tais como análise e aprovação de projetos, aprovação prévia de mudança de controle societário (vide o caso de Serra Verde), elaboração do Plano Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, definição de projetos considerados prioritários com prevalência para minerais críticos e estratégicos, essenciais para produtos e processos de alta tecnologia, e habilitação dos projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnol& oacute;gico, entre outros.

O Projeto também afirma, com ênfase, que todo processo envolvendo extração, cadeias de produção, beneficiamento, transformação dos minerais críticos, busca de autonomia tecnológica, deve ser regido pelo princípio da soberania nacional.

Todavia, o conteúdo em si, seu rol de artigos, parágrafos e incisos, não resultam em concretude do princípio da soberania nacional. Tampouco dão cobertura às importantes prerrogativas do Conselho Especial de Minerais Críticos.

Em razão dessa lacuna, dessa falha substancial, a bancada do PCdoB na Câmara dos Deputados, mesmo sublinhando seu reconhecimento pelos esforços do governo Lula, do relator, e de líderes de várias bancadas na construção do melhor texto, votou não. E mesmo divergindo até o último prazo, buscou dar uma qualidade superior ao texto, dialogando com as legendas da Federação Brasil da Esperança e outros partidos da base aliada. Apresentou, por exemplo, uma emenda que propunha restringir a participação do capital estrangeiro nos segmentos econômicos dos minerais críticos e, ainda, uma outra, que de forma patente fixava a cadeia desses minerais, da extração, passando pela transformação e até a industrialização, de interesse nacional e relevante interesse público, todavia não acatadas. Na votação dos destaques, somou votos com a base do governo, derrotando emendas da extrema direita.

A líder da bancada, deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), justificou: “Faltou no texto questões estruturantes, fundamentais, para de fato garantir um projeto nacional de desenvolvimento, de agregação de valor, de industrialização e de soberania nacional. Evitar qualquer predomínio do capital estrangeiro dentro desse processo dos minerais críticos, de terras raras.”

E argumentou que o voto do PCdoB não é apenas principista, “mas por compreender o que deve ser o Brasil de hoje. O que é estratégico para o Brasil e a disputa geopolítica mundial. Não podemos permitir que o imperialismo norte-americano, ou qualquer outro, tente vir aqui explorar as nossas riquezas estratégicas. Temos um quarto da reserva mundial e não podemos negociar isso na defensiva. Ou não afirmar a potência brasileira nesse processo. Por isso, o PCdoB, em nome da soberania nacional, em nome de um projeto nacional de desenvolvimento, de agregação de valor, nós orientamos o voto não.”

Jandira também destacou que o PCdoB segue defendendo e continuará lutando, em conjunto com o campo democrático, popular e patriótico, pela criação de uma empresa estatal, a Terrabras, jornada de lutas que guarda semelhança com o grande movimento cívico, patriótico e popular que resultou, no passado, na criação da Petrobras.

Para Nádia Campeão, presidente em exercício do PCdoB, o voto do PCdoB reconhece, na adversa correlação de forças do Congresso do Nacional, os méritos dos esforços do governo Lula.

Mas destaca que, diante da ausência de elementos indispensáveis no Projeto para dar materialidade e garantias à soberania nacional sobre os minerais críticos, o Partido entendeu que, por coerência, o voto contrário se impôs. “Nosso voto tem também sentido político, de que é preciso avançar, ir além, para grafar na lei, e da lei para vida real, o domínio do Brasil sobre suas próprias riquezas, e estas a serviço do desenvolvimento soberano e do bem-estar de nosso povo”, asseverou.

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

Humor de resistência

 

Fraga

Capital fictício versus produtivo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/onipotente-capital-financeiro.html 

Postei nas redes

O equilíbrio do tempo de televisão entre João Campos e Raquel Lyra na campanha eleitoral importa, mas não é decisivo. O confronto de ideias e a capacidade de mobilização popular farão a diferença. 

Crônica de uma vitória a conquistar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_30.html 

IA no mundo em transição

Governança da IA ​​uma nova "interseção" para a cooperação global
Global Times 

Recentemente, em um auditório na sede da ONU em Nova York, uma discussão sobre o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) foi além de algoritmos e modelos, focando-se na ideia de "um futuro compartilhado". O encontro temático do Grupo de Amigos para a Cooperação Internacional em Capacitação em IA, copresidido por representantes da China e da Zâmbia, reuniu mais de 120 representantes de mais de 50 países e organizações internacionais. Da capacidade computacional fundamental aos avanços algorítmicos, e das aplicações de engenharia à computação espacial, a tecnologia de IA está avançando rapidamente, ao mesmo tempo que cria um significativo vácuo de governança. Garantir que o princípio da IA ​​para o bem e para todos seja efetivamente implementado tornou-se, portanto, uma tarefa urgente para a comunidade internacional.

À medida que o mundo entra na era da IA, os riscos de segurança não estão mais confinados à ficção científica. Por um lado, existem oportunidades sem precedentes; por outro, surgem riscos imprevisíveis. Modelos avançados de IA podem resolver problemas complexos e detectar vulnerabilidades em uma velocidade e escala muito além da capacidade humana, mas também reduzem o limiar para o uso malicioso. Seja em comunidades de código aberto ou sistemas de código fechado, todos enfrentam o desafio assustador de alcançar uma governança eficaz e prevenir a disseminação global de riscos. O colunista do The New York Times, Thomas L. Friedman, certa vez ofereceu uma analogia vívida: dois homens em uma caverna com um laptop, acesso aos modelos de IA mais recentes e um terminal Starlink poderiam atacar a infraestrutura crítica de qualquer sociedade. Isso não é alarmismo. Especialistas em segurança cibernética alertaram que os modelos de IA de ponta reduziram o tempo necessário para identificar vulnerabilidades do sistema de semanas ou até meses para apenas minutos. Os atacantes precisam encontrar apenas uma vulnerabilidade, enquanto os defensores devem protegê-las todas.

Quando a "governança não consegue acompanhar o rápido desenvolvimento da IA" se torna um desafio compartilhado por todos os países, a necessidade de construir uma estrutura global de governança de IA baseada em ampla consulta, contribuição conjunta e benefícios compartilhados torna-se ainda mais urgente. 

De deepfakes e ataques cibernéticos ao recente uso de IA em aplicações militares em conflitos no Oriente Médio, o mau uso da tecnologia soou o alarme para a humanidade. Nenhum país pode permanecer imune, e as lacunas regulatórias em qualquer país podem se tornar fontes de risco global. Todas as partes precisam urgentemente adotar uma perspectiva mais ampla, fundamentada na construção de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade, dialogar sobre seus respectivos marcos regulatórios e legislativos e padrões de governança, e buscar um amplo consenso, ao mesmo tempo que fortalecem a coordenação de políticas em questões-chave, como a segurança da IA ​​e os fluxos de dados.

Em relação à governança global da IA, a postura da China tem sido consistentemente proativa, responsável, aberta e coerente. Guiada pela visão de um futuro compartilhado para a humanidade, a China implementou ativamente a Iniciativa de Governança Global (GGI) e a Iniciativa de Governança Global da IA, propostas pelo Presidente Xi Jinping, e manteve seu compromisso de contribuir para o desenvolvimento global e fornecer bens públicos. O país propôs e impulsionou sucessivamente iniciativas como o Plano de Ação para o Fortalecimento das Capacidades em IA para o Bem e para Todos, o Plano de Ação para a Governança Global da IA ​​e a Iniciativa de Cooperação Internacional em IA+, transformando essas visões em ações concretas. Em julho de 2024, a 78ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas adotou por consenso uma resolução proposta pela China sobre o Fortalecimento da Cooperação Internacional no Fortalecimento das Capacidades em Inteligência Artificial, que foi prontamente copatrocinada por mais de 140 países. Este é um exemplo típico da contribuição da China com sua sabedoria e soluções para a governança global da IA.

Na prática, a China já assumiu a liderança. Por meio de um planejamento estratégico responsável, o governo chinês garante que modelos de código aberto de grande porte, como o DeepSeek e o MiniMax M2.5, sejam utilizados para impulsionar uma ampla gama de indústrias, aumentar o bem-estar público e promover a cooperação internacional. 

De universidades no Brasil a instituições financeiras na África do Sul, da ajuda na construção de pontes de resgate após um grande terremoto em Mianmar ao apoio à transição do setor pesqueiro do Camboja para práticas menos intensivas, a IA chinesa, além de contribuir para o seu próprio desenvolvimento de alta qualidade, também beneficiou o mundo por meio da abertura tecnológica e da construção conjunta de ecossistemas.

Transformar a "IA para o bem" em realidade é responsabilidade e obrigação de todos os países. Nenhuma nação, por mais poderosa que seja, pode monopolizar esse vasto campo da IA, nem pode arcar sozinha com os riscos globais associados à tecnologia. Desde o início deste ano, vozes mais racionais têm surgido nos EUA, defendendo a cooperação sino-americana em IA. Em 6 de maio, o Wall Street Journal citou fontes afirmando que a China e os EUA estão considerando realizar um diálogo mais amplo e formal sobre a governança da IA. Esta é uma boa notícia para o mundo. De fato, os dois países têm mantido a coordenação na governança da IA ​​por meio de diálogos oficiais e informais nos últimos anos. No entanto, para alcançar mais progressos, a chave está em os EUA trabalharem com a China, abandonando suas restrições e medidas repressivas contra a China no campo da IA, bem como suas tentativas negativas de construir blocos exclusivos internacionalmente.

Claramente, o pensamento de soma zero e a rivalidade geopolítica tornaram-se os maiores obstáculos à governança global da IA. A IA não deve se tornar propriedade privada monopolizada por nenhum poder individual, nem uma ferramenta para clubes fechados de países selecionados, e certamente não uma espada sobre as costas da humanidade. 

Construir um sistema de governança global da IA ​​que seja inclusivo, equitativo e sustentável é vital para o futuro e o destino da humanidade. Todas as partes devem defender o multilateralismo genuíno e unir esforços no âmbito da ONU para alcançar um desenvolvimento de alta qualidade. A troca de experiências e o aprendizado mútuo são essenciais para superar os dilemas de governança. Espera-se que todas as partes demonstrem maior sinceridade em abertura e cooperação, para que a IA possa se tornar uma ponte que conecta o mundo e beneficia a sociedade.

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

Comandos e desmandos da inteligência artificial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/ia-condicao-humana.html

Sylvio: altivez

Lula conversa com quem quer que seja em pé de igualdade e sem abrir um centímetro da defesa de nossa soberania. 

Sylvio Belém  

Luciana Santos: Tecnologia e inovação na prevenção de desastres climáticos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/luciana-santos-opina.html

Palavra de poeta

instantâneo
Cida Pedrosa    

a morte passou por aqui
conduzindo a agonia
 
a cama de vara
vara o sexo
 
olhos da moça
pendurados na parede
 
barro bonina
ofusca a lente
e treme a mão
 
rosto da moça
sentado no sofá
 
meia janela meio dia todo sol
a dor em close faz a festa
 
[Ilustração: 
Andrey Remnev]

Leia também: "Cantiga para não morrer", poema de Ferreira Gullar https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/palavra-de-poeta_80.html 

Dia da Vitória

Há 81 anos, União Soviética esmagava o nazismo e redesenhava a história
O Dia da Vitória, em maio de 1945 marcou o nascimento de uma nova era. Junto à derrota do nazismo, emergiu um mundo bipolar, ideologicamente dividido e profundamente transformado pela ascensão da União Soviética.
André Cintra/Vermelho 

Em maio de 1945, o mundo assistia ao colapso definitivo do 3º Reich e à emergência de uma superpotência. Uma imagem simbolizava os dois feitos: em Berlim, um soldado soviético – o sargento Meliton Kantaria, de origem georgiana – hasteava bandeira vermelha sobre o Reichstag em chamas.

A cena, fotografada há 81 anos por Yevgeny Khaldei, registra o Dia da Vitória e é um dos documentos visuais mais poderosos do século 20. Com a rendição incondicional da Alemanha nazista, a União Soviética e o Exército Vermelho alcançavam uma vitória histórica sobre a máquina de guerra mais destrutiva que a humanidade já conheceu.

O Dia da Vitória é lembrado em datas diferentes. A maior parte da Europa Ocidental o celebra em 8 de maio. Monumentos são iluminados, sinos repinicam e veteranos de guerra (cada vez mais raros) recebem homenagens em praças públicas de Paris a Varsóvia. É o Dia da Vitória na Europa, o V-E Day (Victory in Europe Day).

A milhares de quilômetros dali, a comemoração esperará mais 24 horas. Na Rússia e em diversos países da antiga União Soviética, o Dia da Vitória é 9 de maio. A divergência se deve ao horário da capitulação final da Alemanha, assinada na noite de 8 de maio de 1945, em Berlim, a capital arrasada do 3º Reich. Devido ao fuso horário, em Moscou já era madrugada de 9 de maio.

Para os russos, a celebração é a mais importante do país. Além do tradicional desfile militar na Praça Vermelha, em Moscou, a programação inclui marchas civis, homenagens aos soldados mortos na “Grande Guerra Patriótica” e uso da fita de São Jorge. A memória soviética da guerra se baseia num aspecto irrefutável: o centro decisivo da guerra foi o front oriental – do Ártico à Crimeia –, onde se concentrou o principal esforço de destruição do nazismo.

27 milhões de mortos

Adolf Hitler queria destruir a União Soviética, exterminar o comunismo e submeter os povos eslavos ao projeto colonial nazista. Buscando ganhar tempo frente à perspectiva de uma guerra inevitável, a União Soviética assinou com a Alemanha, em agosto de 1939, o Pacto Molotov-Ribbentrop – um acordo de não agressão com prazo de dez anos.

Mas Josef Stalin sabia que os alemães quebrariam o pacto a qualquer momento – o que ocorreu em junho de 1941. Na maior invasão militar da história, mais de 3 milhões de soldados alemães foram mobilizados para a Operação Barbarossa. O 3º Reich previu mais uma vitória rápida, a fim de conquistar “espaço vital” e recursos, avançando pelo front oriental.

Foi o início de uma ofensiva que se estendeu por quatro anos (1941-1945) e teve um custo humano colossal. A União Soviética perdeu aproximadamente 27 milhões de pessoas entre civis e militares – 14% de sua população pré-guerra. Para cada soldado norte-americano ou britânico perdido, 20 soviéticos tombavam. Só o cerco de Leningrado produziu baixas humanas comparáveis – e possivelmente superiores – às sofridas por Estados Unidos e Inglaterra em toda a guerra.

Foram as mães, os operários e os camponeses da União Soviética que absorveram o choque principal do nazismo. Cidades inteiras foram arrasadas; regiões industriais desapareceram sob bombardeios; milhões morreram em cercos, massacres, campos de concentração e batalhas de extermínio.

Porém, em meio ao inverno russo e graças à determinação do Exército Vermelho, os soviéticos impuseram a derrota aos nazistas às portas de Moscou em janeiro de 1942. O fracasso da Operação Barbarossa pôs em xeque a superioridade da Wehrmacht, a força armada unificada da Alemanha Nazista, e assinalou o primeiro de três reveses do 3º Reich no território soviético.

A epopeia industrial soviética

Com a Barbarossa, a União Soviética perdeu suas regiões mais industrializadas, como a Ucrânia, a Bielorrússia e os territórios bálticos. Diante do colapso iminente, Moscou apostou num prodígio de engenharia industrial: desmontou mais de 1.500 fábricas inteiras, carregou-as em trens para o leste dos Urais, fora do alcance alemão, e as remontou no meio do inverno, nas estepes congeladas, em tempo recorde.

A audácia surtiu efeito: quando os dois países voltaram a se enfrentar nas maiores e mais sangrentas batalhas de todos os tempos, a produção soviética de tanques – especialmente o lendário T-34 – já superava a alemã. Em Stalingrado (1942-1943), o verdadeiro ponto de virada da guerra, o 6º Exército alemão – que tinha 300 mil homens e era tido como invencível –, foi cercado e arrasado. Nunca antes um exército de Hitler havia capitulado em massa.

Já em Kursk (1943), na maior batalha de tanques da história, a capacidade blindada da Wehrmacht foi definitivamente destruída. Quando os aliados desembarcaram na Normandia, em 1944, 80% da máquina de guerra alemã já havia sido aniquilada na União Soviética. Além disso, 75% das perdas militares alemãs na 2ª Guerra ocorreram na frente oriental, diante do Exército Vermelho.

O Dia da Vitória foi o ponto culminante do contra-ataque. Em 1945, os soviéticos tomaram Berlim rua por rua, bunker por bunker, obrigando a Alemanha a se render e silenciando o rugido dos canhões na Europa. O pesadelo de seis anos que destruiu nações, dizimou 70 milhões de vidas e expôs o pior da natureza humana chegava ao fim. Após um esforço gigantesco, a União Soviética esmagou o nazismo, salvou o mundo e redesenhou a história.

O comunismo no auge

Tamanha proeza transformou a União Soviética na principal potência moral e militar do pós-guerra. Foi um Estado socialista, dirigido por um partido comunista, que suportou o maior peso da luta contra o nazifascismo. Enquanto Londres e Washington retardavam a abertura de uma segunda frente no oeste europeu, o Exército Vermelho sustentava praticamente sozinho o choque principal da guerra terrestre contra o pior regime da história.

Stalin, antes visto com desconfiança em grande parte do Ocidente, foi reconhecido como o dirigente que comandou a derrota do nazismo. Como seu país havia pagado o maior preço, o líder soviético se sentou à mesa das conferências de Teerã e Yalta como igual ou superior a Franklin Roosevelt ou Winston Churchill. Chamado de “Pai da Vitória”, Stalin se tornou o principal rosto da vitória aliada. Revistas como a Time – que já o havia aclamado “Homem do Ano” por duas vezes durante a guerra – davam-lhe ainda mais destaque.

A vitória soviética também produziu uma mudança profunda na ordem mundial. O comunismo deixou de ser visto apenas como uma corrente revolucionária isolada e passou a aparecer, para milhões de pessoas, como uma força moderna, patriótica, industrializante e capaz de derrotar o fascismo. Era um modelo de sociedade a ser seguido.

Intelectuais e artistas em todo o mundo ocidental aderiram ao movimento comunista, que estava no auge de seu prestígio histórico. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir simpatizavam abertamente com o marxismo. Pablo Picasso se filiou ao Partido Comunista Francês. Nos anos seguintes à guerra, os partidos comunistas da França e da Itália – que lideraram a resistência contra o nazifascismo – tornaram-se forças políticas eleitorais de primeira grandeza.

Outras legendas marxista-leninistas cresceram rapidamente na Grécia e na China, bem como em diversos países da América Latina, África e Ásia. Ao mesmo tempo, o avanço do Exército Vermelho sobre o Leste Europeu abriu caminho para o surgimento do bloco socialista. Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia, Albânia e a própria Alemanha Oriental passaram a integrar a órbita soviética, inaugurando um novo equilíbrio global de forças.

A nova ordem mundial

A derrota do nazismo acelerou o declínio das antigas potências coloniais europeias e inspirou movimentos de libertação nacional em todo o Sul Global. Revoluções e processos anti-imperialistas passaram a enxergar na União Soviética uma referência política e estratégica. Com a ascensão socialista em escala mundial, o sonho de uma sociedade sem exploração, longe de desaparecer, alastrou-se por um terço da humanidade.

Em 1949, a República Popular da China foi proclamada por Mao Tsé-tung, após uma guerra civil em que os comunistas derrotaram os nacionalistas. O modelo soviético de revolução havia se espalhado para o país mais populoso do planeta. Em 1950, a Coreia estava em guerra, dividida exatamente na fronteira entre os dois mundos que Yalta havia desenhado. Em 1959, Fidel Castro e Che Guevara chegavam a Havana. Em 1975, o Vietnã se unificava sob bandeira vermelha.

Cada um desses eventos tinha raízes distintas e trajetórias próprias. Mas todos bebiam, de alguma forma, da fonte de legitimidade que o Dia da Vitória havia criado: a prova, escrita em sangue e fogo, de que o socialismo podia vencer.

Maio de 1945 marcou, portanto, o nascimento de uma nova era. Junto à derrota do nazismo, emergiu um mundo bipolar, ideologicamente dividido e profundamente transformado pela ascensão da União Soviética. O capitalismo ocidental já não era a única força capaz de projetar poder global. O socialismo passava a disputar os rumos da humanidade em escala planetária.

O Dia da Vitória, celebrado em 8 ou 9 de maio, permanece como memória de um feito histórico sem precedentes: a derrota do nazifascismo pelas mãos de milhões de trabalhadores, soldados e povos soviéticos que resistiram, sangraram e mudaram o destino do século 20.

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

China reduziu a pobreza em proporção sem precedentes na história https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/china-reducao-da-pobreza.html