07 março 2026

Lava Jato 2?

Pare o país, que quero descer!
A partir de agora, a Lava Jato 2 está a pleno vapor, desviando o foco dos cúmplices maiores e concentrando em quinquilharias políticas.
Luís Nassif/Jornal GGN  



Tinha-se, até então, um escândalo firmemente ancorado no Centrão, com os aportes feitos por governadores do grupo e as relações pessoais de Daniel Vorcaro. Depois, as relações foram se estendendo a outros personagens.

Com o inquérito do Master entregue à CPMI do INSS por André Mendonça, o controle dos vazamentos ficou nas mãos da Polícia Federal, ansiosa por ocupar o lugar de destaque que teve na Lava Jato 1, e com os parlamentares do Centrão.

Com os dados, divulgados hoje pelo O Globo, a bomba estourou definitivamente no centro do Supremo Tribunal Federal. Já não há espaço para dúvidas sobre o envolvimento amplo e direto do Ministro Alexandre de Moraes com o Master e, por tabela, dos negócios do Ministro Dias Toffoli.

Não há o menor sinal de bolsonarismo na história, apesar dos indícios:

  1. O celular de Vorcaro mostra uma ameaça explícita ao jornalista Lauro Jardim. Fanfarronice ou não, está registrada.
  2. Declarações do Bebiano, de 2019, já falavam dessa tentativa de assédio, em uma denúncia contra a tropa que circundava Bolsonaro. Fica nítido que se referia a esse fato.
  3. Mesmo depois de indicado em um inquérito, em 2019, Vorcaro conseguiu do Banco Central, gestão Roberto Campos Neto, a autorização para adquirir o Banco Máxima (que depois se tornou Master) e ingressar no Sistema Financeiro Nacional. As investigações mostraram o envolvimento direto de dois funcionários do BC. Mas nenhuma instituição consegue o status de entrar no SFN sem a expressa autorização do presidente do banco. Uma investigação isenta certamente comprovará relações pouco republicanas entre os diretores e seu chefe, Campos Neto.

Há outras conclusões a se tirar desses vazamentos.

Ganha verossimilhança a informação de que Alexandre de Moraes telefonou várias vezes para Gabriel Galípolo, presidente do BC, intercedendo pelo Master. Pode explicar parte da demora na liquidação do banco, mas mostra que Galípolo atuou corretamente, indo até o final.

A suposta tentativa de suicídio do tal Sicário – o barra pesada do grupo – tem uma hipótese bastante razoável, levantada pelo jornalista Dante Matiussi. É possível que tenha recebido o R$ 1 milhão mensal de Vorcaro, para comprar adesões, e tenha embolsado o dinheiro. A conversa sobre o DCM é nítida. Ele fala em pagamentos, mas o jornal continuava claramente crítico a Vorcaro.

É incrível que o homem responsável pelo mais amplo processo de corrupção da história moderna do país, tenha sido enganado por um marginal de terceira categoria. Mais incrível ainda é o fato de personalidades públicas, que sempre tiveram vida profissional correta, terem embarcado no canto de sereia de um aventureiro desse nível.

A partir de agora, a Lava Jato 2 está a pleno vapor, desviando o foco dos cúmplices maiores e concentrando em quinquilharias políticas. 

Hoje, o grande escândalo do Metrópoles é que Lulinha fez três transferências de dinheiro para uma Secretária do governo do Ceará. A Secretária é de Direitos Humanos e amiga antiga de Lulinha. E as transferências tiveram o vultoso valor de R$ 2 mil, R$ 800 e R$ 500.

E o país entrará em uma eleição decisiva com um Congresso desses, um Supremo desses, uma Polícia Federal dessas, e uma mídia dessas. Mendonça e a PF agiram em conluio, para liberar diálogos pessoais que nada tinham a ver com os casos investigados. Confirmam um país dominado pelo crime.

Pare o país, que quero descer!

Espionagem e rede de intrigas contra o STF https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/rede-de-intrigas.html

Humor de resistência

Laerte

Trump base dividida

Ataque contra irã abre mal-estar na base radical do trumpismo 
Ultraconservadores cobram promessa eleitoral do presidente de não envolver EUA em guerras
Jamil Chade/Liberta    

 

Donald Trump passou parte de sua campanha prometendo que, se vencesse as eleições de 2024, ele iria retirar os EUA de conflitos pelo mundo. Ganhou o apoio de milhares de americanos que acreditavam que seu país não deveria ser a “polícia do mundo”. Agora, diante de mais uma guerra – desta vez no Irã –, o republicano está sendo obrigado a iniciar uma verdadeira campanha de sedução para tentar convencer seu eleitorado mais radical de que sua operação militar faz sentido.

Desde o último fim de semana, porém, o movimento ultraconservador nos EUA foi tomado por um profundo mal-estar. Talvez um dos sinais mais claros disso tenha sido a ofensiva de Tucker Carlson, um podcaster de extrema direita, para convencer a Casa Branca a não ir à guerra. Em apenas um mês, ele se reuniu com Trump três vezes no Salão Oval e fez um apelo: “Você precisa se opor a Israel, ou você será destruído e o país também”.

O alerta ecoa, principalmente, num momento delicado para Trump, com as eleições legislativas no final do ano indicando que ele poderia perder sua maioria no Congresso.

Teste de lealdade

As pesquisas de opinião também revelam que o país não quer uma nova guerra. Um mês antes dos ataques, um levantamento do site Politico indicou que 45% dos americanos disseram que os EUA não deveriam tomar medidas militares contra o Irã.  Menos de um terço, 31%, disse que deveriam.

Entre os apoiadores de Trump, uma maioria de 61% dos eleitores do republicano chancelaram a ofensiva. Mas isso ocorreu antes da constatação de que o Irã resistiria e responderia com ataques e mortes contra americanos.

Uma nova pesquisa conduzida pela The Economist/YouGov e realizada no último fim de semana também constatou ampla oposição pública à ação militar contra o Irã. Entre os democratas, a rejeição ao ataque chegava a 76% dos entrevistados.

Mas é dentro do movimento ultraconservador e no Partido Republicano que a batalha será travada. Para muitos, Trump irá colocar a teste a lealdade de seus apoiadores, principalmente de candidatos no Congresso que precisam garantir votos de seus distritos e hoje enfrentam duras questões de seus eleitores.

Para os analistas dentro do movimento conversador, será a duração do conflito que irá determinar o apoio ou não ao presidente. Se caixões com soldados americanos se proliferarem e se a guerra se arrastar, o impacto pode ser importante.

Outro indício é a insatisfação do eleitorado diante do que acredita ser um foco exagerado de Trump com a política externa. Numa outra pesquisa realizada pelo site Politico, em fevereiro, 47% dos americanos se queixaram da pouca atenção dada por Trump a assuntos domésticos.

Não ajudou o fato de que, por dias, o governo Trump não explicou o motivo pelo qual a guerra foi lançada contra o Irã. Na última segunda-feira, uma fala de Marco Rubio, secretário de Estado, ampliou as críticas. Ele sugeriu que a entrada dos EUA na guerra ocorreu por conta da informação que tinham recebido de que Israel atacaria Teerã. Ou seja, Washington teria sido tragada para a guerra por Benjamin Netanyahu.

“Sabíamos que haveria uma ação israelense” contra o Irã, disse Rubio a repórteres no Capitólio, na segunda-feira (2/2). “Sabíamos que isso precipitaria um ataque contra as forças americanas” pelo regime iraniano. “E sabíamos que, se não os atacássemos preventivamente antes que lançassem esses ataques, sofreríamos mais baixas… E então estaríamos todos aqui respondendo a perguntas sobre por que sabíamos disso e não agimos”, continuou Rubio.

Para muitos na base trompista, isso vai na contramão de um dos princípios e slogans do movimento MAGA: “America First (America Primeiro)”.

Momento de choque

Nas redes sociais, a indignação foi explícita. Matt Walsh, do The Daily Wire, escreveu no X: “Então, ele está nos dizendo abertamente que estamos em guerra com o Irã porque Israel nos forçou a isso. Esta é, basicamente, a pior coisa que ele poderia ter dito.”

Mike Cernovich, uma figura proeminente pró-Trump nas redes sociais, qualificou a fala de Rubio como “um momento de choque”. “Ele disse o que a maioria já suspeitava. O fato de ele ter dito isso em voz alta representa uma mudança radical na política externa. Haverá muitos pedidos para que ele recue”, disse.

Megyn Kelly, apresentadora e comentarista política, disse que tem “sérias dúvidas sobre o que estamos fazendo”. Erik Prince, fundador da empresa de segurança Blackwater e um importante doador da campanha de Trump, alertou que a decisão “abriria uma caixa de Pandora de caos e destruição”.

O ex-conselheiro de Trump, Steve Bannon, expressou perplexidade em seu podcast War Room. “Se sabíamos que Israel atacaria e o Irã retaliaria contra nós, onde estava a coordenação?”, questionou Bannon. “Precisamos de uma explicação estratégica.”Nick Fuentes, o influente nacionalista branco que se opõe a Trump por seu apoio a Israel, escreveu no domingo: “Esta é uma guerra de agressão contra Israel.  (…) Americanos morrerão em ataques terroristas e em ataques com mísseis para que Israel possa expandir suas fronteiras em todas as direções. Trump, Vance e Rubio nos traíram”, disse Fuentes.

A ex-congressista Marjorie Taylor Greene, que chegou a ser uma aliada de Trump, denunciou a incoerência da Casa Branca. “O governo Trump realmente perguntou em uma pesquisa quantas baixas os eleitores estariam dispostos a aceitar em uma guerra com o Irã??? Que tal ZERO, seus mentirosos doentes? Nós votamos por ‘América Primeiro’ e ZERO guerras”, disse ela, nas redes sociais.

Ela ainda denunciou os ataques contra uma escola de meninas no Irã, que deixou 165 mortos. “Eu não votei nisso, nem nas eleições, nem no Congresso. Isso é de partir o coração e uma tragédia. E quantos inocentes mais morrerão? E quanto aos nossos militares? Não era isso que pensávamos que o MAGA representava. Que vergonha!”.

Para ela, o movimento MAGA chegaria ao fim se Trump atacasse o Irã.

O mal-estar na base trompista ainda ficou escancarado quando a ex-deputada chamou Laura Loomer, aliada de Trump, de “puta” nas redes sociais por conta de sua posição no Irã.

Conhecida islamofóbica, Loomer publicou que “Trump entrará para a história como um protetor da humanidade. Espero que este seja o início de sua repressão ao Islã no Ocidente.”

Não faltaram também vozes da ultradireita recuperando o posicionamento de Charlie Kirk, morto no final do ano passado. Em 17 de junho de 2025, Kirk descreveu a ideia de “mudança de regime” como “patologicamente insana”.

A frase ecoa ainda neste momento pelos movimentos mais reacionários dos EUA, para desespero de Trump.

Por tarifas, Trump admite que EUA estão quebrados https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/eua-imbroglio-finaneiro.html

Arte é vida

 

Flay Rodrigues

Como o mundo pode regular a inteligência artificial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/agencia-internacional-de-ia.html 

Futebol: comando fluido

Soberbos e iludidos, dirigentes do Flamengo acham que elenco deve vencer sempre
Troca constante de treinadores reflete a ilusão de que técnicos decidem jogos em um esporte marcado por incertezas. Do Flamengo à seleção brasileira, o futebol segue influenciado por soberba, improviso e pela ambição dos dirigentes
Tostão/Folha de S. Paulo      

Uma das principais razões de o Flamengo e muitos clubes brasileiros trocarem tanto de treinadores, influenciados por torcedores, analistas e redes sociais, é a ilusão de que são os técnicos que decidem as partidas com seus acertos e erros.

Os resultados e mesmo os desempenhos dependem de inúmeros outros fatores previsíveis e imprevisíveis. Os treinadores são muito importantes, mas nem tanto. O jogo de futebol é um sopro de incertezas.

Os dirigentes do Flamengo, soberbos, gananciosos e iludidos, acham que o time, por causa do ótimo elenco, deveria ganhar tudo e, quando não vence, é porque o técnico não é capaz.

Leonardo Jardim terá o mesmo problema de Filipe Luís, o de fazer com que Arrascaeta e Paquetá joguem em altíssimo nível, embora as posições ideais dos dois sejam a mesma, a de meia centralizado e avançado. Paquetá já atuou bem em várias funções, porém, para brilhar intensamente, os jogadores precisam encontrar o seu melhor lugar em campo.

Recentemente, quase todos os grandes times brasileiros trocaram de treinadores. É a mesma ilusão. Flamengo e Atlético-MG decidem os estaduais com novos treinadores. O jogo no Mineirão entre Atlético e Cruzeiro terá a volta da torcida dividida, o que é muito bom.

Acostumamo-nos com muitas coisas que precisam acabar no futebol. Uma delas é a torcida única. O mesmo ocorre no país. Normalizamos a violência, a criminalidade, os desastres climáticos, a corrupção disseminada e, de repente, levamos um susto com a gravidade das coisas. Estamos perdidos, sem rumo.

Conversar com os russos

seleção brasileira possui sete titulares: o goleiro Alisson, os zagueiros Marquinhos e Gabriel Magalhães, os meio-campistas Casemiro e Bruno Guimarães e os atacantes Raphinha e Vinicius Junior. Rodrygo, fora do mundial por causa de uma contusão, não estava certo entre os titulares, mas, com certeza, entre os convocados para a Copa do Mundo.

Ancelotti tem repetido a mesma formação tática com dois meio-campistas, um meia centralizado e avançado, dois pontas que voltam para marcar e um atacante adiantado pelo meio (Vinicius Junior). Ele tem outras opções, como a de ter uma linha de quatro no meio-campo e uma dupla de ataque pelo centro com Vini e um centroavante.

Está tudo pensado. Como diria Garrincha, falta Ancelotti conversar com os adversários. Em 1958, antes da partida contra a Rússia, Garrincha, após terminar a preleção de Feola, perguntou ao treinador: "já conversou com os russos?".

Donos do mundo

O Brasil, bicampeão do mundo em 1958 e 1962, foi eliminado na primeira fase da Copa de 1966. Dizem sempre que a culpa foi a falta de planejamento e da transição de gerações, pois os principais jogadores do mundial de 1962 estavam decadentes, com exceção de Pelé. Não foi só isso.

A seleção perdeu para Portugal e Hungria, que eram muito fortes. Em 1966, apenas 16 seleções disputavam o Mundial e era comum ter três grandes seleções em um mesmo grupo para duas vagas. No Mundial deste ano, serão 48 seleções, uma ganância financeira e uma mania de grandeza dos poderosos. Os presidentes da Fifa e do Flamengo fariam uma boa dupla, comandados por Trump. Querem ser os donos do futebol e do mundo.

A teoria e a prática no futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/futebol-fatores-que-se-cruzam.html

A saga europeia

Europa: 50 países em busca de um continente
Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
Flávio Aguiar/A Terra é Redonda   

 “Os Deuses vendem quando dão / Compra-se a glória com desgraça” (Fernando Pessoa, Mensagem).

1.

A Europa é o continente que tem mais países por quilômetro quadrado: 50. Nesta contagem, tomo duas liberdades. Primeira: estou incluindo o chamado Chipre Turco, a metade da ilha que se declarou independente e que só a Turquia reconhece. Segunda: excluo a Rússia, que geopoliticamente foi expulsa da Europa e passou a ser um país exclusivamente asiático, levando consigo quase 10% do território geográfico europeu.

Também é o continente cujo mapa de países soberanos e cujas fronteiras passaram por mais mudanças desde o século XIX, todas elas dramáticas e traumáticas.

O século XIX viveu sob a égide conservadora do chamado “Concerto Europeu”, nascido em 1815 no Congresso de Viena, pós-napoleônico.

A miríade de reinos, ducados e principados em que se dividia a Europa atravessou este período sob a liderança dos países vencedores, Rússia, Prússia, Grã-Bretanha e Áustria, e da França Restaurada, que virou República, depois novamente Império, e por fim de novo República.

Este “Concerto Europeu” passou por sérios abalos, como o isolamento da Rússia durante e depois da Guerra da Criméia (1853 – 1856), e a Guerra Franco-Prussiana (1870 – 1871), que terminou com a derrota humilhante da França e a proclamação do Império Alemão em pleno Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris. Assim mesmo, ele incorporou o Império Otomano e sobreviveu até seu fim apocalíptico na Primeira Guerra Mundial, quando desapareceram o Império Alemão e o Austro-Húngaro, o Imério Otomano começou a se desfazer e o Império Russo se transformou na União Soviética.

A partir daí a Europa se viu convulsionada pela ascensão do nazi-fascismo e suas anexações até o final da Segunda Guerra Mundial. A Europa que emergiu desta hecatombe viveu dividida entre o Ocidente, transformado num protetorado norte-americano através da OTAN, e o Leste, administrado pela União Soviética através do Pacto de Varsóvia.

Apesar das ditaduras na Grécia, na Espanha e em Portugal, a Europa Ocidental deste momento caracterizou-se em grande parte pela social-democracia, vista como uma alternativa democrática aos regimes comunistas.

2.

O colapso da URSS abriu espaço para a criação da União Europeia em 1999, que hoje abrange 27 países, secundada pela Zona do Euro, moeda adotada por 20 deles. Desde então houve uma aproximação dos países do antigo Leste Europeu da OTAN e dos Estados Unidos, intensificada pela Gerra na Ucrânia a partir de 2022.

A União sofreu um forte abalo com a saída do Reino Unido a partir de 2016, depois de um plebiscito catastrófico chamado pelo primeiro-ministro conservador David Cameron. Hoje também está pressionada pela política imperial adotada pelo governo de Washington, liderado por Donald Trump.

Algum tempo atrás a União Europeia e por tabela a Europa toda tinham o aspecto de um Ancien Régime equilibrado, vetusto e estável.

Entre o final da primeira e a metade da segunda década deste século este equilíbrio reinou. A inflação continental era baixa, o euro era valorizado e estável, os problemas sociais eram evitados, mitigados ou contidos. Os planos de austeridade imperavam, incontestes.

Havia uma Rainha-Mãe (Angela Merkel) severa, mas simpática e protetora; um burgomestre (Nicolas Sarkozy) saltitante e seguro de si, sucedido por outro (François Hollande) menos lustroso, mais cinzento e opaco, mas igualmente confiável para o equilíbrio das finanças. Havia uma Príncipa Herdeira, Úrsula von der Leyen, que, de fato, veio a herdar da Rainha-Mãe o reino da União Europeia.

Na ilha o brilhoso e faceiro David Cameron, Embaixador da Corte junto aos ilhéus, dava as tintas conservadoras; o mesmo fazia desde a Capela Sixtina o doutrinário e ultra-montano Capelão-Mor, Bento XVI. Havia até um Bobo da Corte em Roma, Silvio Berlusconi. E na Tesouraria quem dava as tintas no Banco Central Europeu, desde o Bundesbank em Frankfurt, o Banco Central Alemão, era Jens Weidman, que faria Roberto Campos parecer um aventureiro esquerdista.

Não faltava nem mesmo um Rasputin, Vladimir Putin, que irrigava a economia alemã e europeia com o gás russo. Para completar a cena, houve até um Príncipe Rebelde, o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, do esquerdista Syriza, cujo governo foi reduzido a frangalhos pela pressão da Rainha-Mãe e seus aliados nos bancos credores alemães e outros europeus.

Este bloco tinha a firmeza de um gigantesco iceberg, e como um iceberg ele derreteu a partir de 2016, quando David Cameron meteu os pés pelas mãos com seu desastrado plebiscito.

Hoje todos aqueles personagens são sombras do passado, com exceção de Vladimir Putin, que permanece mais vivo do que nunca, mas banido para a Ásia, sob o braço protetor de Xi Jinping.

3.

O derretimento definitivo aconteceu a partir de 2022, com a adesão da Alemanha às sanções econômicas contra a Rússia, devido à guerra na Ucrânia e a pressão norte-americana. Moscou fechou as torneiras do gás, e a crise energética abalou profundamente a economia alemã e por conseguinte a europeia. Aliás, os gasodutos entre a Rússia e a Alemanha foram sabotados num incidente até hoje não esclarecido.

Aqueles personagens acima enumerados foram substituídos pela atual coleção de mediocridades espantosas, com raras exceções: Pedro Sanchez na Espanha, Francisco I e agora Leão XIV no Vaticano e um ou outro perdido no nevoeiro em que a Europa se transformou.

No comando da União Europeia Ursula von der Leyen parece uma comandante sem comandados, já que seus súditos permanecem mais atentos às platitudes de Friedrich Merz ou aos cada vez mais raros lampejos de lucidez de Emmanuel Macron defendendo a soberania europeia, sem falar nos arrancos tonitruantes de Donald Trump.

A Europa estagnou no atoleiro de sua fragmentação. A alternativa que os principais países do continente encontraram para enfrentar a crise econômica foi apostar na indústria de armamentos. Por um lado isto procura capitalizar a russofobia como elemento de união. Por outro, o militarismo crescente impulsiona os nacionalismos xenófobos e as tradicionais bandeiras particularistas das extremas direitas, que crescem por todo lado.

A contaminação de todos os partidos pela xenofobia vem provocando a retomada dos controles policiais nas fronteiras terrestres, o que enfraquece o acordo de Schengen, que prevê a livre circulação entre os países signatários.

Dirigentes e ministros falam abertamente na inevitabilidade de uma guerra com a Rússia, o que eleva o tom com Viktor Otban, o primeiro-ministro húngaro, mais próximo de Moscou.

Politicamente os países nórdicos, antigos esteios da social-democracia, estão, como a Alemanha, acossados pela extrema-direita. Esta ocupa o governo italiano e pressiona outros. Na maior parte os partidos social-democratas e socialistas renderam-se aos princípios do neo-liberalismo e dos planos de austeridade. Muitos dirigentes dos Partidos Verdes traíram o ideal pacifista de sua fundação e aderiram ao crescente militarismo, descrito como “defensivo”.

A primeira reação da maioria dos governantes europeus diante do tarifaço de Donald Trump foi de subserviência ou contemporização. Mais recentemente Friedrich Merz e Emmanuel Macron vêm esboçando alguma reação retórica, este um pouco mais ruidoso do que aquele. Keir Starmer, do Reino Unido, vem mantendo um silêncio obsequioso.

Os partidos mais à esquerda seguem divididos e impotentes. Seu melhor desempenho acontece na França, onde os votos úteis da França Insubmissa têm assegurado a vitória de Emmanuel Macron no segundo turno, contra a extrema direita de Marine Le Pen.

Em matéria de política externa, a encarregada da pasta na União Europeia, Kara Kallas, da Estônia, é ferozmente antirrussa. Antes de Donald Trump assumir a Casa Branca os EUA vinham retomando a instalação de ogivas nucleares e mísseis na Europa. E dirigentes do antigo Leste Europeu aplaudem a retomada.

Donald Trump exorta os países europeus a investirem mais na OTAN e na própria capacidade militar. Mas até agora não falou em diminuir a presença militar dos Estados Unidos no continente. Washington mantém lá mais de 100 instalações militares. A maior delas é a Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, com cerca de 16.200 norte-americanos estacionados.

A reação entre pusilânime e tíbia da maioria dos governantes europeus diante da agressão israelense e norte-americana ao Irã mostra como ainda permanecem a reboque dos EUA em matéria de geopolítica. Emmanuel Macron exibiu uma reação um pouco mais enérgica, exortando seus “parceiros europeus” a dependerem menos de terceiros e projetando um aumento do poderio nuclear e convencional da França.

Quanto à América Latina, duas únicas vozes se levantaram defendendo a soberania da Venezuela ou criticando abertamente a invasão norte-americana: a do Papa Leão XIV e a do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, respectivamente. Este último criticou abertamente o ataque dos EUA e Israel ao Irã, e negou autorização para que Washington use bases espanholas, o que enfureceu Donald Trump.

Há iniciativas de diversificar a pauta comercial europeia, por exemplo, com a assinatura do acordo de livre-comercio com o Mercosul.

Além de na França, há resistências localizadas em países como a Itália, Polônia, Luxemburgo, Holanda, Irlanda, Áustria e Bélgica. Ursula von der Leyen declarou que vai implementar o acordo assinado, “mem que seja provisoriamente”.

Houve um avanço crucial com a Índia, com a assinatura de acordo semelhante, depois de 20 anos de negociação, restando ver quem será beneficiado. Apesar da pauta do acordo ser ampla, fala-se sobretudo em vantagens no campo da tecnologia militar.

Em resumo, é difícil visualizar que Europa sairá deste atoleiro, porque, antes de maus nada, é difícil imaginar que, no curto e médio prazos, ela sairá dele.

*Flávio Aguiar, jornalista e escritor, é professor aposentado de literatura brasileira na USP. Autor, entre outros livros, de Crônicas do mundo ao revés (Boitempo). [https://amzn.to/48UDikx]

Leia também: A crise na Ucrânia e a Europa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/europa-diante-da-guerra-russia-ucrania.html

Sylvio: petulância

Diante da manchete "Trump exige decidir sobre quem será o novo líder do Irã", uma indagação se impõe: o povo iraniano lhe deu procuração para tal?

Sylvio Belém 

As hordas do ódio https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/neofascismo.html