24 maio 2026

Palavra de poeta

Não venderei
Fabrício Carpinejar   
 

Comigo pedra não é pedra,
pedra é cada uma de minhas perdas,
pedra é a lembrança ainda intacta.

Eis comigo nas paredes
o meu casamento,
os nascimentos das crias,
três gerações, o divórcio.

Vocês não enxergam
os meus fantasmas?
Sequer condeno, fantasmas
são pessoais e intransferíveis.
Não despejarei as assombrações de amor,
elas não têm onde dormir.

Não venha pedir que me desapegue,
não venha sugerir que vire a página
e comece nova história.
Só saio daqui morta.

Familiares desejam
me convencer da seriedade
dos próprios problemas,
como se eu não
me conhecesse o suficiente.
Que o custo de manutenção
da casa é caro,
que é perigoso estar desacompanhada,
que é uma residência enorme para limpar,
que posso cair e me machucar sem socorro.
Que não tenho idade para consertar
a bomba d’água que enche o porão,
que não tenho idade para anoitecer no portão.
Desde quando a o excesso de idade é acusação?

As mesmas desculpas
para qualquer existência
no céu ou no inferno.

Pelo menos, estou no chão,
presa ao chão,
enraizada no chão.
Não dependo de eletricidade
para abrir e fechar a porta.
Não há escadas entre a rua
e a minha cama.

Não me tornarei refém
de síndico e zelador.
Não seguirei regras
de condomínio.
Não pedirei que ninguém
baixe a música
e me devolva a paz.
Não é não,
não venderei a casa.

Não adesivarei as janelas
com telefones desconhecidos.
Não desistirei de mim.
Não aguentarei até onde deu,
como a maioria faz.

Onde mexerei na terra?
Onde estenderei as roupas?
Onde as redes de pescar livros?
Onde colocarei a biblioteca?
Onde cumprimentarei os vizinhos
que passam pela minha varanda?
Onde a liberdade de passear
de pijama pelas árvores?
Onde? Num cubículo aéreo?
Não fui criada para morar em cabines
de helicóptero e aviões de concreto.
Minha vista é de mim mesma.
Não invento segredos para ser importante.

Sou rasa, rasteira,
chapa do fogão a lenha.
Meus chapéus são as panelas
pregadas na cozinha,
meu vestido é o caule do vento.

Como filha do interior,
eu sinto a chuva vindo nos ossos,
anuncio as visitas com os talheres caindo.

Eu me contento com um tanque de pedra
e os prendedores de madeira.
O pouco é muito para quem nunca
precisou de mais nada
.

[Ilustração: Livien Rózen]

Leia também:"Prelúdio", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_22.html 

Fotografia

 

Rui Mendes


"Água na fervura de quem já passou dos cinquenta" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/etarismo-em-laboratorio.html 

Enio Lins opina

Juscelino Kubitscheck e a luta pela restauração da verdade
Enio Lins    

“MORTE DE JK NÃO FOI ACIDENTE”: essa assertiva frequentou os títulos de matérias em todos os noticiários há duas semanas. Era a repercussão de furo da Folha de São Paulo, que, em 8 de maio, divulgou o relatório elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, estudo em apreciação pelo conselho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), órgão do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.

EM SI, NÃO É NOVIDADE.
 É uma obviedade que tromba com a versão oficial há 50 anos. Juscelino Kubitscheck morreu em 22 de agosto de 1976, quando o carro em que viajava foi esmagado por uma carreta no quilômetro 165 da Via Dutra, nas proximidades de Resende (RJ). Morreu juntamente com Geraldo Ribeiro, experiente motorista e amigo por mais de 30 anos, desde quando JK foi prefeito de Belo Horizonte. O relatório de Maria Cecília tem mais de cinco mil páginas, incluindo detalhadas análises documentais e periciais.

EM 1976, A DITADURA VIVIA 
uma luta intestina entre a abertura proposta pelo general que ocupava a presidência, Ernesto Geisel, e os radicais que dominavam os chamados “porões da ditadura” que, viciados em torturar, matar e roubar, não queriam abrir mão do terrorismo que praticavam. Essa chamada “linha dura” se lançou em novos assassinatos para tentar impor seu poder dentro do próprio regime. Depois da morte “acidental” de JK, os militares promoveram – abertamente – a Chacina da Lapa, em 16 de dezembro, matando três dirigentes do PCdoB, em São Paulo. Antes, em 17 de janeiro, assassinaram sob tortura o operário Manoel Fiel Filho (alagoano), na capital paulista. Em 6 de dezembro, o ex-presidente João Goulart morreu repentinamente, aos 57 anos de idade, em Mercedes, Argentina, onde estava exilado. Coincidentemente, 1976 foi o auge da criminosa Operação Condor, organizada pela CIA em parceria com os órgãos de repressão das ditaduras latino-americanas. Em 21 de setembro de 1976, o chileno Orlando Letelier, ex-chanceler do governo Allende, foi assassinado em Washigton, capital dos Estados Unidos, onde vivia exilado. Entre 1975 e 1983, se estima que essa cooperação terrorista internacional tenha assassinado, no mínimo, 402 opositores aos regimes ditatoriais na América do Sul.

IVAN BARROS,
 alagoano residente no Rio de Janeiro, então com 33 anos, repórter da revista Manchete, foi o primeiro jornalista a chegar no local da morte de JK. Testemunhou os militares alterando a cena do suposto acidente. Como advogado, protestou contra aquela irregularidade, e recebeu um seco “ordens superiores!”. Ivan conhecia pessoalmente JK e Geraldo, pois ambos frequentavam regularmente o prédio da Manchete, onde o ex-presidente tinha um escritório pessoal cedido pelo empresário Adolpho Bloch. Desde então, Ivan Barros escreve artigos, concede entrevistas e presta depoimentos sobre a morte de Juscelino Kubitscheck. É autor do livro “O Assassinato de JK” (2014, 400 páginas), trabalho consistente usado como base para outras publicações, como “O assassinato de JK pela ditadura: documentos oficiais” (2016, 800 páginas), obra que uma das autoras, a pesquisadora paulista Lea Vidigal, veio até Palmeira dos Índios especialmente para o entrevistar. Fundador do grupo Tribuna do Sertão, Ivan, o bravo palmeirense, merece redobrados parabéns por sua contribuição decisiva (e corajosa) na afirmação da verdade sobre esse acontecimento de fundamental importância para a história do Brasil e da América Latina.

NO MARCO DOS 50 ANOS 
da morte de Juscelino Kubitscheck de Oliveira – um dos mais valorosos presidentes da república brasileira, democrata histórico, humanista, desenvolvimentista –, passar a limpo as circunstâncias de sua tragédia é uma obrigação cidadã. Viva JK!

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo. https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

PCdoB lança programa de reformas para romper com o neoliberalismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/pcdob-atualiza-rumos.html 

Humor de resistência

 

Enio

Releio e anoto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/teoria-pratica.html 

Eleições: jogo duro

O adversário não pode escalar nosso time
Governo Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área econômica. Como explicar que a eleição se mostre apertada, com grande parte das intenções de voto direcionada a Flávio Bolsonaro?
Paulo Nogueira Batista Jr.  
 

Um tema do momento é a dificuldade de traduzir os resultados econômicos do governo Lula em intenções de voto para outubro. A recente crise da candidatura do principal opositor, Flávio Bolsonaro, tranquilizou os apoiadores de Lula, mas a eleição está longe de ganha, como sabemos, e o problema persiste.

O governo Lula 3 produziu, de fato, resultados razoáveis, até bons, na área econômica – crescimento do PIB (ainda que modesto, próximo de 3% a.a. em média), desemprego aberto em queda (para os menores níveis registrados), inflação controlada (embora com preços elevados de produtos críticos como alimentos), entre outros feitos. É nítida a melhora em relação à situação que vigorava nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Como explicar que a eleição se mostre apertada, com grande parte das intenções de voto direcionada a Flávio Bolsonaro?

But it’s not the economy, stupid! (mas não é a economia, estúpido!),poderíamos dizer, invertendo o célebre chavão oriundo dos Estados Unidos. Fatores não econômico pesam. E mesmo a economia não está lá essas coisas – vide os juros escorchantes, o elevado endividamento das famílias, as políticas governamentais inibidas pelo arcabouço fiscal, o reduzido investimento público e privado etc. E não vamos perder de vista que a base de comparação Temer/Bolsonaro é bem modesta, para dizer o mínimo.

Mas, para além da economia, falta algo fundamental que talvez ajude a entender as intenções de voto – o governo não tem marca, não tem audácia, não tem alma.

Desde o seu início, em 2023, o governo federal e a sua precária base parlamentar estão infestados de pessoas que pouco ou nada têm a ver com a transformação real do país. Temos de tudo: neoliberais, carreiristas, fisiológicos, até sionistas. E, meio perdidos nesse ambiente hostil, uma minoria de brasileiros que lutam dentro do governo para defender e mudar o Brasil.

Não sei se  preciso dar exemplos, mas vamos lá. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), ficou quase totalmente dominado por neoliberais. Uma recente entrevista de página inteira do atual chefe do MDIC, Elias Rosa, ao jornal Valor (4 de maio, p. A6) é sintomática do estado das artes nesse ministério. Rosa foi secretário-executivo durante toda a gestão de Geraldo Alckmin, ele próprio um neoliberal. Na entrevista, o flamante ministro defende o desvantajoso acordo econômico com a União Europeia – no qual abrimos nossos mercados industriais em troca de concessões pequenas e facilmente revogáveis para o setor agroexportador – e se vangloria de ter assinado acordos do mesmo naipe com Singapura e EFTA (European Free Trade Association – a associação de livre comércio que incl ui alguns países europeus não-membros da União Europeia). Para completar o quadro, promete um acordo com o Canadá até o final do ano.  Com essa condução da política comercial, o Brasil terminará amarrado a uma teia de acordos de corte neoliberal em que abrimos nossos mercados à competição irrestrita com as empresas de países desenvolvidos, condenando ao fracasso qualquer tentativa de reindustrialização do país. Na verdade, seria melhor passar a chamar o MDIC de Ministério do Subdesenvolvimento e da Desindustrialização.

O Itamaraty, apesar dos esforços de muitos bons diplomatas, ficou prejudicado pela presença insuficiente de quadros ligadas à tradição nacional-desenvolvimentista, que já foi tão forte na casa. Isso se reflete na condução das já referidas negociações comerciais externas, que foram levados a cabo principalmente pelo Itamaraty e pelo MDIC. Os diplomatas envolvidos nessa negociação são corresponsáveis pelo desastre.

 No Ministério da Fazenda, também faz falta a presença de quadros menos comprometidos com o neoliberalismo e o carreirismo. Há exceções, notadamente entre os mais jovens da equipe, mas foi fraca a atuação da Fazenda em vários temas candentes – na construção do arcabouço fiscal (que acabou ficando excessivamente ambicioso), na definição da diretoria do Banco Central (com a escolha de nomes que não trazem qualquer perspectiva de mudança) e na quase total omissão nas negociações comerciais externas. Foi fraca, também, a participação do ministério no processo BRICS que o Brasil presidiu em 2025. Juntamente com o Itamaraty e o Banco Central, a Fazenda liderou uma presidência vazia de resultados importantes.

No Ministério do Planejamento, pelos menos no tempo da ministra Simone Tebet que deixou o cargo há pouco, a equipe quase inteira, com poucas exceções, era de orientação neoliberal – e se existe algo que não combina de jeito nenhum com planejamento é precisamente o neoliberalismo. E do Banco Central, bem, deste nem preciso falar mais. Já tratei dele em artigo recente (“A política de juros do Banco Central é um desastre”, 1 de maio de 2026).

Meu pai, que morreu em 1994, costumava dizer: “O problema do Brasil é que deixamos o adversário escalar nosso time.” Esse problema crônico, que se manifestou, em maior ou menor medida, em todos os governos nas décadas recentes, aparece claramente no atual. Um dos maiores diplomatas, se não o maior da sua geração, meu pai era um exemplo notável desse problema. Ele teve carreira brilhante, mas nunca chegou a ser ministro de Estado e nem secretário-geral. E, no entanto, posso dizer com tranquilidade, e sem favor de filho para pai: ele era, como diplomata e homem público, muito superior à maioria dos que exerceram essas funções. Havia um problema, entretanto. A sua nomeação incomodaria os nossos amigos do Norte. Melhor não arriscar, pensaram sucessivos presidentes.

Imagine, leitor ou leitora, quantos brasileiras e brasileiros existem em todas as áreas que têm inclinação para atuar no setor público, que possuem qualidades para tal, mas não são convocados por serem honestos demais, independentes demais, combativos demais! São vetados por políticos venais, por interesses econômicos e por forças estrangeiras e seus aliados domésticos. Refiro-me ao sistema financeiro e outros lobbies empresariais, à mídia corporativa, e a entidades locais que representam ou são controladas por ideologias e interesses estrangeiros. Da Febraban à Conib, da Fiesp à Rede Globo, da CNA à CNI.

Resultado: o time escalado fica, na melhor das hipóteses, repleto de pessoas hábeis, jeitosas, mas sem coragem e imaginação. São poucos os que entram em bola dividida. E há muito cabeça de bagre. No fundo, no fundo, infelizmente, a escalação é a própria imagem do Brasil – país em que sobra jogo de cintura, mas falta espinha dorsal.

Na nossa seleção atual, temos como centroavante, capitão e técnico do time um presidente da República experiente, tarimbado, um jogador de fama internacional. Perde uns gols incríveis, é verdade, mas a sua capacidade é inegável. Eis o problema, porém: a bola chega nele? Ou ele é forçado a voltar à intermediária para buscá-la? A verdade é que o centroavante acaba sem opções de jogo, uma vez que boa parte do resto do time passa a bola para o lado ou para trás – quando não faz gol contra!

Porém, convenhamos, o capitão pode reclamar? Afinal, quem senão ele permitiu que os adversários escalassem a nossa seleção?

E ficamos  assim com um time que joga para o empate ou até para perder de pouco. Com esse tipo de time, claro, não se ganha partida nenhuma e muito menos campeonato.

Ilustração: imagem produzida em IA

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

Filme falseia a história para transformar Bolsonaro em mártir e vender conspirações https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/dark-horse.html 

Postei nas redes

Em menos de um mês, programa 'Novo Desenrola' do governo Lula aliviou dívidas de mais de 1 milhão de pessoas. 

Extrema direita patina na lama https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_01219044875.html 

23 maio 2026

Resistência cubana

Cuba reage a acusações contra Raúl Castro e denuncia escalada dos EUA
Havana afirma que Washington tenta criminalizar a Revolução Cubana; China e PCdoB criticam ofensiva norte-americana.
Lucas Toth/Vermelho 

Os Estados Unidos deram nesta quarta-feira (20) um novo passo na escalada de agressões contra Cuba ao indiciar o ex-presidente e líder revolucionário Raúl Castro, de 94 anos, pela resposta militar cubana às incursões da organização anticastrista Hermanos al Rescate no espaço aéreo da ilha, em 1996. 

A decisão do Departamento de Justiça do governo Donald Trump reabre um episódio ocorrido há 30 anos e é denunciada por Havana como parte de uma ofensiva destinada a criminalizar a Revolução Cubana e ampliar a pressão contra o país.

O governo cubano afirma que Washington manipula judicialmente o caso para criminalizar sua soberania, apagar as reiteradas violações de seu espaço aéreo por grupos sediados em Miami e construir uma narrativa favorável a novas agressões contra o país.

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel classificou o indiciamento como “uma manobra política, desprovida de qualquer fundamento legal” e afirmou que a medida parece destinada a justificar ações militares contra a ilha. 
 

Já o vice-chanceler Carlos Fernández de Cossío classificou as acusações como um “ato canalha” e afirmou que a movimentação  “deve ser vista como parte da escalada agressiva, crescente, que vimos ao longo deste ano por parte dos EUA contra Cuba”.

A China também reagiu à ofensiva contra Cuba. O porta-voz do ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, afirmou que Pequim “se opõe firmemente” ao fato de os Estados Unidos “abusarem de meios judiciais” para pressionar Cuba. 

Segundo ele, Washington deve “parar de usar sanções e o aparato judicial como ferramentas de opressão contra Cuba” e “se abster de fazer ameaças de força a qualquer momento”.

Em nota divulgada nesta quarta-feira, o Partido Comunista do Brasil também condenou o que chamou de “ato persecutório” contra Raúl Castro e afirmou que a medida possui “caráter provocador, revanchista e intervencionista”. 

Segundo o partido, Washington busca “criminalizar a história da Revolução Cubana” e “motivos para justificar uma invasão”, em meio ao endurecimento do bloqueio econômico imposto à ilha há mais de seis décadas.

A movimentação também elevou o alerta em Havana por ocorrer poucos meses após a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro deste ano. 

Para Cuba e seus aliados, o precedente venezuelano reforça o temor de que acusações judiciais estejam sendo utilizadas por Washington como instrumento de pressão política e eventual justificativa para ações mais agressivas contra governos latino-americanos considerados adversários dos interesses norte-americanos.
 

Cuba afirma que agiu para proteger sua soberania

O governo cubano sustenta que o episódio utilizado agora pelos Estados Unidos para indiciar Raúl Castro ocorreu após anos de violações do espaço aéreo da ilha por parte da organização anticastrista Hermanos al Rescate, sediada em Miami e liderada pelo ex-agente da CIA José Basulto. 

Segundo Havana, as incursões não eram secretas e eram frequentemente divulgadas publicamente pelos próprios organizadores, que afirmavam atuar com total impunidade diante das autoridades norte-americanas.

De acordo com o vice-chanceler cubano Carlos Fernández de Cossío, entre 1994 e 1996 Cuba apresentou ao menos 25 advertências formais ao Departamento de Estado dos EUA, à Administração Federal de Aviação norte-americana e à Organização da Aviação Civil Internacional denunciando as incursões e alertando para o risco de um confronto. 

Havana afirma que solicitou reiteradamente que Washington retirasse as licenças dos pilotos envolvidos nas operações, mas não recebeu resposta efetiva.

Fernández de Cossío afirmou ainda que, em janeiro de 1996, semanas antes do incidente, o governo cubano comunicou oficialmente que qualquer aeronave que ingressasse sem autorização no espaço aéreo do país poderia ser interceptada e neutralizada. 

Segundo o diplomata, a Casa Branca tinha pleno conhecimento da situação e das consequências que as provocações poderiam gerar. “A Casa Branca sabia disso e não agiu”, declarou.

Para Havana, a resposta militar de fevereiro de 1996 ocorreu dentro do direito de defesa da soberania nacional previsto pela Carta das Nações Unidas e pelos tratados internacionais de aviação civil. 

O governo cubano afirma que as aeronaves da Hermanos al Rescate realizavam ações provocativas recorrentes sobre o território da ilha em meio a um histórico de hostilidade, sabotagens e operações organizadas a partir da Flórida contra a Revolução Cubana.

O governo cubano também afirma que documentos posteriormente desclassificados nos Estados Unidos demonstraram que autoridades norte-americanas reconheciam o caráter ilegal das incursões e a possibilidade concreta de uma reação defensiva de Cuba. 

Para Havana, a tentativa de transformar agora o episódio em processo criminal contra Raúl Castro busca apagar esse contexto e apresentar como crime uma ação que o país considera parte da proteção de sua integridade territorial.

Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sua-opiniao.html

Como os EUA podem tornar-se potência obsoleta https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-eua-em-apuros.html