Mercado das ilusões
Luciano Siqueira
A Copa do
Mundo de futebol é uma imensa holding que promove o lucro pela exploração do sentimento.
É verdade
que o futebol nunca foi apenas o jogo. Abola rolando no gramado é o pretexto. A
mercadoria é a transitória emoção. Mesmo quando apenas retratada em sofisticadas
imagens na TV e mídias digitais.
Ao
alcançar dimensão global, o grande negócio do futebol concorre com o petróleo e
a tecnologia do silício, por assim dizer.
A FIFA e
os seus parceiros comerciais exploram a catarse estimulada nos canais de
televisão e nos aplicativos de apostas, que associam habilmente engenhosas
jogadas, como o passe de calcanhar do meia-atacante ou a defesa espetacular do
goleiro desviando a bola na forquilha.
Comercializa-se
tudo, nos mínimos detalhes: o plano de streaming, a camisa oficial de preço
inflacionado, a cerveja mais enaltecida pela propaganda e não-sei-o-que mais
que nos ofusca na tela da TV.
Explora-se
o desejo inconsciente de pertencimento, a fantasia do instante.
A consciência
patriótica momentaneamente perde seus liames com o território, a cultura, a
luta por direitos e a preservação da soberania. Transforma-se na bandeira nacional
adicionada a rótulos vários.
O cotidiano
duro, monótono, carregado de boletos e de pequenas frustrações se transmuta por
quase quarenta dias numa mágica empreitada em que a vitória (qual?) se faz
possível.
O
torcedor não é apenas um espectador; ele se vê como figurante que paga para
atuar no espetáculo da própria ilusão.
Apesar de
tudo, quando o gol acontece o abraço entre desconhecidos e a celebração entre
amigos se converte em instante de efusiva felicidade, ainda que efêmera.
Dizia Nelson
Rodrigues que
cada lance, cada drible rumo à rede carregava a aura de uma guerra épica e o
drama da vida e da morte. O autor do gol assume a aura de um herói ou algoz
impiedoso que promove a "destruição minuciosa" da defesa adversária,
deixando-a totalmente indefesa. A personificação do torcedor por um instante
livre de todas as limitações e mazelas.
A
se concluir, a Copa terá
ensejado novos negócios em diversas dimensões, à revelia dos seus verdadeiros
atores – os atletas e o apaixonado público reunido nos estádios e diante das
telas nos cinco continentes.
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"Ai de ti, futebol brasileiro" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/qual-futebol.html






