09 março 2026

EUA-Israel x Irã: até quando?

Erro de cálculo?
A superpotência delinquente e o estado genocida atacam o Irã
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho      

Os colunistas de jornal, revista e internet costumam se queixar de falta de assunto ou da dificuldade de dizer coisas novas sobre temas candentes. Dostoiévski e Nelson Rodrigues, dois dos maiores colunistas de todos os tempos, volta e meia reclamavam disso. Dostoiévski em especial expressou, com humor e verve, a banalidade do que se publicava e o enorme esforço requerido para dizer o que ele chamava de “uma palavra nova”. E transformava isso mesmo em tema de crônicas e colunas.

Com a eclosão da guerra criminosa contra o Irã, movida pela superpotência delinquente, os Estados Unidos, e pelo estado genocida de Israel, não sofremos de falta de assunto, ao contrário. May you live in interesting times (que você viva em tempos interessantes), antiga maldição que continua verdadeira (ainda que desgastada por excesso de uso). Persiste, entretanto, a dificuldade de acrescentar algo original. Se o gênio russo enfrentava esse drama, imagine o que acontece com colunistas modestos como eu.

Mas vamos lá.  Começo com as crianças, lembrando o bombardeio estarrecedor de uma escola de meninas no Irã, que matou mais de 160 pessoas. Do sofrimento das crianças, escreveu Dostoievsky,  pode-se derivar o absurdo de toda a realidade histórica. Apesar de tudo, ele acreditava em Deus. No meu livro mais recente, Estilhaços, fui mais longe, dizendo que “o sofrimento das crianças não só desmente a existência de Deus, como prova a do Diabo.”

Nos dias de hoje, o Diabo toma a forma de Donald Trump e Benjamim Netanyahu. O tempo dirá, mas parece que a dupla diabólica cometeu um gigantesco erro de cálculo. Ou seria melhor inverter a ordem e escrever Netanyahu e Trump? Já que no comando dessa agressão estão Israel e o poderoso lobby sionista em Washington e Nova Iorque, como revelou, de maneira simplória, o ministro das relações exteriores dos EUA, Marco Rubio. Veja, leitor ou leitora, o que disse esse mentecapto para justificar a agressão ao Irã. “Havia uma ameaça iminente aos EUA”, sustentou. “Sabíamos que se o Irã fosse atacado por Israel, eles imediatamente nos atacariam”. Segundo ele, o governo Trump agiu “proativamente” e  “de forma defensiva”, ao agredir o Irã. Parece claro que Israel é quem dá as cartas, definindo o momento do ataque.

Talvez eu esteja exagerando um pouco. Os Estados Unidos têm seus próprios objetivos de dominação no Oriente Médio. Seja como for, uma coisa ficou evidente. O Irã é um osso duro de roer. Não é a Palestina indefesa, submetida a destruição e massacre pela covardia israelense. Não é o Líbano, também indefeso e sob ataque de Israel. Não é a Síria, despedaçada por uma agressão dos EUA, de Israel e da Turquia. Nem é uma Líbia. Nem um Iraque. E não é uma Venezuela, que foi subjugada com facilidade por uma intervenção relâmpago dos Estados Unidos.

O Irã é uma potência militar que vem conseguindo impor pesadas perdas aos agressores, inclusive aos aliados ou satélites árabes dos Estados Unidos e Israel no Golfo Pérsico. Esses países árabes (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar e Bahrein) abrigam bases militares americanas em seu território. Dessas bases, ataques são feitos ao Irã, o que converte o território desses países em alvo legítimo para os iranianos.  

Eles dependem, ademais, da passagem pelo Estreito de Ormuz para escoar as suas exportações de petróleo e gás natural (dos cinco mencionados, só a Arábia Saudita conta com outros canais). O Irã fechou esse estreito cirurgicamente, excetuando apenas os navios dos seus aliados estratégicos – Rússia e, sobretudo, China. Os outros navios que tentam passar estão sendo bombardeados.

Como envelheceu mal, diga-se de passagem, a recente declaração do presidente Lula, poucos dias antes do início da guerra, quando estava a caminho de Abu Dhabi: “Não estou preocupado com o que os Estados Unidos vai fazer com o Irã” (!), mas sim, disse, com o comércio e as relações entre os Emirados Árabes Unidos e o Brasil! Uma de muitas declarações infelizes que o presidente brasileiro vem dando desde o ataque à Venezuela. Vejam bem: o presidente de um país que se declara pacifista “não se preocupa” com uma agressão militar iminente. Além disso, ironicamente, o nosso comércio com os Emirados, a prioridade definida por ele, ficará reduzido a zero ou quase zero com a eclosão da guerra. Contudo, depois do início da guerra, essa derrapada foi corrigida por manifestações oficiais brasileiras condenando o ataque ao Irã.

Uma civilização milenar e pacífica, um grande país

O Irã  é uma civilização milenar. Trata-se de um país orgulhoso de suas tradições. Nunca foi uma colônia, embora tenha sido submetido a uma relação semicolonial em certos períodos por potências estrangeiras, principalmente Inglaterra e Estados Unidos. A última invasão do Irã a algum país remonta ao século 18.

Agora, os iranianos não estavam atacando ninguém e nem se preparavam para fazê-lo. Ao contrário, tentavam uma solução negociada com os Estados Unidos, quando foram apunhalados pelas costas.

Não se deve perder de vista a dimensão do Irã. São mais de 90 milhões de iranianos, vivendo num território maior do que a soma dos territórios da França, Espanha, Alemanha e Itália. Comparem com a pequena Palestina, com população inferior a 6 milhões, vítima do genocídio e limpeza étnica praticados por Israel. O Irã não será varrido do mapa.

Os iranianos vem-se preparando há décadas para esse enfrentamento. Apesar das sanções aplicadas pelos Estados Unidos durante mais de 40 anos, com a colaboração de outras nações do Ocidente coletivo, o Irã acumulou grande capacidade de retaliação, como estamos vendo agora. A consciência iraniana de que essa preparação era necessária remonta a 1980, quando o Irã foi atacado pelo Iraque de Sadam Hussein (sim, ele mesmo!), armado e incentivado pelos Estados Unidos e por Israel. O Irã foi pego de surpresa e se deu conta das suas vulnerabilidades militares. E tirou a lição correta, transformando-se numa potência militar.

A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Khamenei. Uma liderança extraordinária, um homem fora do comum foi transformado em mártir e símbolo da resistência iraniana à ameaça existencial que o país enfrenta. Portou-se como um herói. Nunca será esquecido.

A verdade é que os Estados Unidos e Israel são sociedades profundamente doentes. Trump e Netanyahu expressam essa doença. E esses dois países converteram-se em ameaça para os demais.

O que pretende a dupla diabólica? Os Estados Unidos buscam escapar do declínio e naufrágio civilizacional do Ocidente. E estão dispostos a tudo. Querem retomar à força a sua hegemonia mundial, crescentemente contestada. O alvo último é a China, “o país mais poderoso relativamente a nós desde o século 19”, como destacou o documento de estratégia de defesa nacional dos EUA, divulgado agora em janeiro.

Israel, por seu turno, quer levar adiante o projeto de domínio do Oriente Médio. Apenas dois países de peso se opõem a esse projeto – Irã e Turquia. Se o Irã sucumbir, a Turquia será provavelmente a próxima vítima.

E o Brasil?

Somos um país vulnerável. Há muito tempo. Durante a década de 1980, quando passamos por uma redemocratização pacifista e antimilitar, o problema se agravou. Basta lembrar, leitor ou leitora, que os constituintes introduziram na Constituição de 1988 um dispositivo que renuncia à energia nuclear como instrumento de defesa – como se tivéssemos sido derrotados em uma guerra! Depois veio o entreguista-mor, Fernando Henrique Cardoso, um mero procônsul do Império, e aderiu vergonhosamente ao Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Em oito anos na Presidência (1995 a 2022), o que fez FHC para fortalecer a defesa nacional? Para fortalecer as escolas militares? Nada. Isso não fazia parte do projeto político implementado pela corja tucana.

Depois vieram Lula 1 (2003 a 2006), Lula 2 (2007 a 2010), Dilma 1 (2011 a 2014), Dilma 2 (2015 e parte de 2016) e Lula 3 (2023 até hoje). O que fizeram os governos comandados pelo PT para fortalecer a defesa nacional em mais de 16 anos? O que fizeram os ministros da Defesa desses governos? Tomaram, ou tentaram tomar, iniciativas importantes no campo da defesa nacional. Mas não nos retiraram da condição de vulnerabilidade militar.

Com Temer e depois Bolsonaro, meros fantoches do Império, a nossa situação piorou. Bolsonaro, em especial, um imitador servil e ignorante de Donald Trump, só fez agravar a fragilidade militar nacional, intensificando a cooperação em matéria de defesa com os Estados Unidos e chegando a ponto de inscrever o Brasil como “importante aliado extra OTAN”, designação adotada por Washington para aliados militares não membros da organização.  

Por essas e várias outras razões, é que devemos considerar a eleição de 2026 como a mais importante da nossa História. Lula, com todas as suas limitações, ainda mantém certa resistência ao projeto colonial e assassino comandado por Trump e Netanyahu. O governo brasileiro condenou o genocídio em Gaza, recusou-se a aderir às sanções contra a Rússia, manteve relações estratégicas com a China e acabou condenando também o ataque ao Irã.

Se cairmos nos braços de Flávio Bolsonaro, o Brasil ficará reduzido à posição subordinada da Argentina de Milei. No atual ambiente internacional, isso significará a destruição da soberania brasileira.

Multilateralismo aos frangalhos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/diplomacia-em-segundo-plano.html

O "espetáculo" da guerra

O sadismo digital da Casa Branca diante da morte de iranianos
Trump converte a Operação Epic Fury em espetáculo digital, usando memes e estética de games para desumanizar vítimas e mascarar crimes de guerra no Irã
Davi Molinari/Vermelho  

O horror da guerra encontra um novo e perverso aliado: a gamificação da morte. Sob o comando de Donald Trump, a Casa Branca e o Pentágono converteram a tragédia da “Operação Epic Fury” em um espetáculo de escárnio digital. Enquanto 1.230 civis iranianos jazem sob escombros, os perfis oficiais do governo dos EUA inundam as redes sociais com memes, vídeos inspirados em filmes de Hollywood e estéticas de videogames, vendendo o extermínio de seres humanos como se fosse uma partida de Call of Duty.

A barbárie viral: sangue transformado em likes

A estratégia é tão sofisticada quanto cruel. Vídeos de 15 a 60 segundos, que já acumulam dezenas de milhões de visualizações no X, TikTok e Instagram, misturam imagens reais de ataques de drones com computação gráfica. Em um dos conteúdos mais chocantes, o personagem Bob Esponja aparece rindo sobre explosões em instalações iranianas com a legenda debochada: “Querem me ver fazer de novo?!”.

Outros vídeos utilizam o contador de “kills” (mortes) típico de jogos de tiro enquanto um caça F-35 persegue alvos reais. Até mesmo animações da Disney Pixar, como o personagem de Elio, são subvertidas para simular o “toque” em telas que detonam hospitais e escolas. Para o público “MAGA” e os jovens cooptados pela estética da extrema direita, a guerra deixou de ser uma tragédia geopolítica para se tornar entretenimento niilista.

O eco de Goebbels: a pedagogia da desumanização

Não se trata apenas de mau gosto, mas de uma tática sistemática de desumanização que encontra paralelo direto na máquina de propaganda de Joseph Goebbels. Assim como o ministro nazista retratava judeus e inimigos como “vermes” em cartoons para justificar o Holocausto, a atual administração estadunidense transforma meninas iranianas em “pontos no placar”.

Goebbels usava o humor sádico para anestesiar a empatia da população alemã. Hoje, a Casa Branca repete a fórmula: ao tratar hospitais bombardeados como power-ups de um jogo e mortes reais como imagens de arquivo recicladas, o governo Trump busca sufocar qualquer consciência crítica. A vítima é despojada de sua humanidade até se tornar um pixel descartável em uma narrativa presunçosa e dominadora.

Enquanto os memes viralizam nas redes sociais, a realidade no solo iraniano revela uma crueza insuportável, marcada pelo massacre na escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, que foi atingida por três mísseis em pleno horário de aula. O episódio, já classificado pela UNESCO como crime de guerra, resultou na morte de mais de uma centena de meninas com idades entre 7 e 12 anos, somando-se a um cenário de colapso hospitalar onde treze unidades foram atingidas e médicos da OMS são forçados a operar em tendas sem suprimentos básicos.

Em meio a essa crise humanitária galopante, prevalece o silêncio dos agressores, com postagens oficiais que celebram a força bruta sem mencionar nomes, rostos ou as histórias das vítimas. Até mesmo as baixas do lado americano, com a confirmação de seis soldados mortos, são tratadas com uma tristeza superficial pelo General Caine, jamais alcançando o protagonismo conferido aos vídeos épicos que exaltam a tecnologia de destruição.

A Injustiça Gamificada

Ao trocar a diplomacia pela promoção da morte usando games de guerra de múltiplos jogadores, Trump mergulha o mundo em uma era onde o extermínio do “outro” é celebrado com um emoji de risada. Por trás de cada explosão “cool” no TikTok, existe o choro inconsolável de famílias em Teerã e o sangue de crianças que nunca verão o amanhã. A propaganda de guerra mudou de formato, mas o cheiro de enxofre permanece o mesmo.

A Guerra EUA x Irã e Clausewitz https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/minha-opiniao_5.html

Minha opinião

Mídia parcial é arma de guerra

Luciano Siqueira  
instagram.com/lucianosiqueira65


O conflito EUA/Israel x Irã da oportunidade a que a grande mídia ocidental, cujas informações e “análises” nos chegam, confirme uma vez mais o seu caráter parcial em toda linha.

​​Um exemplo de como o enquadramento jornalístico pode servir a interesses geopolíticos, a partir da “chave” simplista: o "Ocidente democrático" contra a "Teocracia autoritária".

​Ações militares dos EUA são frequentemente descritas como "defensivas", "preventivas" ou "respostas a provocações", enquanto as ações iranianas são invariavelmente rotuladas como "agressões" ou "terrorismo".

Quando do assassinato do general Qasem Soleimani, em 2020, a notícia foi veiculada como uma "operação de precisão contra um alvo terrorista", minimizando o fato de que se tratou de uma execução arbitrária de um alto funcionário de um Estado soberano em solo de um terceiro país, o Iraque.

​O complexo midiático pró-EUA omite o contexto como modo de confundir. Tende a iniciar a "cronologia do conflito" a partir de um ato iraniano recente, ignorando eventos precedentes que explicam a postura iraniana. Tudo na maior superficialidade.

​Importantes eventos que ajudam a compreender o que se passa na atualidade são simplesmente omitidos: O golpe de 1953 (Operação Ajax) orquestrado pela CIA; o apoio dos EUA a Saddam Hussein durante a Guerra Irã-Iraque; a saída unilateral dos EUA do acordo nuclear (JCPOA) em 2018. Isto de modo a pintar o Irã como um "agressor irracional", e não como um ator racional agindo sob décadas de cerco econômico e militar.

​Na tentativa de tornar críveis suas versões, as grandes redes de notícias (CNN, Fox News, BBC) usam como fontes ex-oficiais do Pentágono ou analistas de think tanks financiados pela indústria militar norte-americana. Assim, a solução militar é apresentada como a única saída viável. As vozes da sociedade civil iraniana ou de acadêmicos críticos à política externa de Washington são, na maioria das vezes, relegadas a segundo plano ou simplesmente omitidas.

​A absurda parcialidade midiática se apoia na distorção dos fatos através de versões distorcidas.

Ligue a TV ou visite sites e perfis nas redes digitais confirme o quanto parcial é a cobertura jornalística deste conflito, como de resto o que acontece na arena global.

Colonialismo digital: a nova fronteira da dependência latino-americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-desafio-da-autonomia-tecnologica.html

Quando a astúcia pode vencer

Guerra de guerrilhas ao estilo do Irã
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65    

Interessante matéria da BBC News aborda como o Irã transformou sua indústria militar ao investir em uma estratégia de "guerra assimétrica", utilizando drones suicidas (como o famoso Shahed-136) para projetar poder e desestabilizar adversários no Oriente Médio e além.

O conceito de “baixo custo", no caso, tem tudo a ver com a associação da simplificação à tecnologia de ponta. Cada instrumento em sua medida e em seu lugar.

Distintos dos mísseis de precisão norte-americanos e israelenses, como o Reaper americano (que custam milhões de dólares), os drones iranianos são fabricados com componentes "de prateleira": motores civis, até baseados em modelos de cortadores de grama ou motocicletas; eletrônicos acessíveis, como o GPS civil e componentes eletrônicos encontrados em lojas de consumo comum.

Astúcia sem limites!

Mais: estima-se que um drone Shahed custe entre US$ 20 mil e US$ 50 mil, uma fração mínima do custo de um míssil interceptor usado para derrubá-lo.

Tudo apropriado à estratégia do caos: os iranianos se valem da enxames: lançam dezenas de drones, simultaneamente, sobrecarregando os sistemas de defesa antiaérea (como o Iron Dome de Israel ou os sistemas Patriot). Ainda que 90% sejam interceptados, os poucos que passam conseguem atingir alvos estratégicos, causando danos psicológicos e materiais desproporcionais ao investimento feito.

O Irã fornece essa tecnologia para aliados, como os Houthis no Iêmen, o Hezbollah no Líbano e milícias no Iraque. Isso possibilita que esses grupos ataquem infraestruturas críticas (como refinarias de petróleo na Arábia Saudita) sem que o Irã precise assumir a autoria direta.

A produção desse artefato escapa a qualquer mecanismo proibitivo de sua fabricação, inclusive porque seus componentes adotam a dualidade civil e militar.

No lado oposto, os países ocidentais gastam milhões em mísseis de alta tecnologia para abater drones que custam o preço de um carro popular.

O artifício se assemelha à guerra de guerrilhas bem sucedida no enfrentamento de um exército inimigo poderoso.

Acompanhemos os desdobramentos.

Contradições aguçadas no mundo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/palavra-do-pcdob.html

Urariano Mota opina

Por que falham tanto os jornalistas sobre a agressão contra o Irã?
Cobertura da mídia ocidental sobre o conflito é criticada por reproduzir narrativas geopolíticas dos EUA e Israel, ocultando vítimas civis e simplificando a guerra como defesa democrática.
Urariano Mota/Vermelho      
 

Se lemos somente os textos da mídia dominante, somos levados a crer que Israel e os Estados Unidos fazem uma guerra de defesa contra poderoso inimigo, nesta ordem: pelos valores democráticos e pelo ameaçado território da pátria imperial. Então, primeiro, vemos a enganosa palavra “guerra”, em lugar de mortes de crianças pelo imperialismo, depois vemos “democracia” e “defesa do território”. Mas tudo antecedido e coberto pelo que chamam de luta contra a ditadura do Irã. 

Outra coisa não podemos concluir diante das notícias, no g1Os Estados Unidos estão vencendo [a guerra] de forma decisiva, devastadora e sem piedade. (…) Estamos batendo neles enquanto eles estão caídos. (…) Vamos continuar atacando o Irã até decidirmos que está bom, e o regime iraniano não poderá fazer nada sobre isso”, afirmou Hegseth”.

Ou na BBC Brasil: “’Teerã está sendo pulverizada e não há plano para o dia seguinte. Iranianos não querem sair para protestar enquanto mísseis caem do céu’, diz pesquisadora”.

Ou na Folha de S.Paulo: “O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, general Eyal Zamir, disse nesta sexta-feira (6) que o ‘golpe de abertura’ foi dado, e que ‘estamos nos movendo para a próxima fase. Vamos intensificar os ataques à fundação do regime e às suas capacidades militares. Nós temos jogadas adicionais em nossas mãos’, afirmou. Nesta manhã de sexta, Israel disse que 50 de seus caças destruíram o que havia sobrado do bunker de Khamenei, ainda usado por autoridades, lançando cerca de cem bombas no local”.

Os jornais transformam a guerra num jogo de videogame. E a brincadeira de matar é esta: quem bombardear mais, que será “o nosso lado” deles, ganhará a guerra contra o terror do Irã. E no passo seguinte, já “vencemos”! Para o Irã, game over. Mas um game over para sempre.     

Como deseja o jornal O Globo: “Um Irã gravemente enfraquecido não intimidará nem ameaçará seus vizinhos da mesma forma, e o impacto regional poderá ser comparável ao colapso da União Soviética”. Tomara, ele quer dizer.

Se não lemos o Vermelho, o Brasil 247, o Jornal GGN, podemos ser levados a erro. Como bem escreve Davi Molinari no Vermelho: “Desde o início da ofensiva conjunta dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, em fevereiro (28), a cobertura da grande mídia ocidental tem se revelado uma extensão fiel da narrativa oficial da Casa Branca. Manchetes enviesadas e omissões sistemáticas dominam o discurso, enquanto vítimas civis são relegadas a números frios. Essa distorção reflete uma assimetria informativa que favorece Washington e Tel Aviv, diluindo responsabilidades por possíveis crimes de guerra. Um exemplo flagrante é o bombardeio da Escola Primária Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, que matou entre 148 e 171 meninas. A ação é tratada pela imprensa ocidental com o um ‘equívoco’ técnico — um ‘erro de alvo’ baseado em supostas falhas de inteligência —, em vez de uma denúncia explícita de massacre e violação ao direito internacional”.

E Luis Nassif, no Jornal GGN, nesta esclarecedora recuperação: “a CIA infiltrou centenas de jornalistas mundo afora para plantar narrativas, moldar opiniões e sufocar soberanias. No Brasil, o esquema ganhou solo fértil via institutos de fachada como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) e o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), que operaram como Estados paralelos de 1961 a 1971. Hoje, na cobertura sobre o Irã, a herança persiste: refinada, mas intacta. A estrutura de cooptação evoluiu em algoritmos e pautas globais, garantindo que o desejo do imperialismo seja lido sempre como ‘consenso global’”.

E José Reinaldo Carvalho no Brasil 247: “O poder global não se expressa apenas por meios militares, mas também por fatores econômicos, tecnológicos, diplomáticos e institucionais. Nesse contexto, a ascensão da China tornou-se um dos elementos mais marcantes das transformações em curso. Nas últimas décadas, o país registrou crescimento econômico acelerado, impetuoso desenvolvimento multidimensional, consolidando-se como uma das maiores economias do planeta e como potência central no comércio e nas cadeias produtivas globais. Paralelamente, ampliou sua presença diplomática e política em diversas regiões, fortalecendo sua assertividade e capacidade de influência no cenário internacional”.

Mas tanto no cenário internacional quanto no do Brasil, repete-se a ofensiva da mídia contra a informação justa, digna, formadora de consciências, o que os jornais renegam com ardor.  Pelo contrário, divulgam notícias que podem confundir até mesmo jovens leitores, cidadãos ao lado do progresso. O que dizer dos “comentários”, da GloboNews, e da nova serpente do fascismo pátrio, Malu Gaspar, em O Globo? Queremos dizer, das montagens criminosas contra o ministro Alexandre de Morais nas mensagens do celular de Vorcaro?

“Segundo blog de Malu Gaspar, de O Globo, banqueiro falou de negócios. Não é possível saber o que o ministro do STF respondeu porque as mensagens são prints do bloco de notas de visualização única. Defesa de Vorcaro criticou vazamento; ministro não se manifestou”. Você viram. Em mais de uma oportunidade, ou melhor, sempre, ela é a repórter que faz notícia da insinuação. A jornalista que transforma em verdade o que o seu veneno achar que é. Imagino o que ela diria dos casos que Jesus teria cometido na maior baderna sexual com os apóstolos. Num deles, Pedro beijou Jesus. O que seria o comentário da jornalista para o escândalo? Este: “Aí tem”.

Amigos, aqui termino. E pensar que comecei a manhã de hoje a escrever sobre os 99 anos do nascimento de Gabriel García Márquez. Mas o vazamento dos crimes da mídia não deixou.

Para o Irã, vencer é simplesmente não ser vencido https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ira-guerra-prolongada.html 

Contra feminicídio, desigualdade e guerras

8 de Março leva multidões às ruas no Brasil e no mundo contra a violência
Manifestações denunciaram feminicídio, desigualdade e guerras, reunindo movimentos feministas e lideranças políticas em defesa dos direitos das mulheres.
Barbara Luz/Vermelho  

Milhares de mulheres foram às ruas neste 8 de março em cidades de todo o Brasil e em diversos países para marcar o Dia Internacional da Mulher com protestos contra o feminicídio, a desigualdade e a violência de gênero. As mobilizações reuniram movimentos feministas, sindicatos, organizações sociais e lideranças políticas que denunciaram a persistência da violência contra mulheres e cobraram políticas públicas mais efetivas.

As manifestações ocorreram em um contexto preocupante: o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025, com mais de 1.400 casos, segundo dados oficiais, cenário que tem impulsionado a mobilização feminista nas ruas.

Em várias capitais brasileiras, atos denunciaram a violência machista e reivindicaram igualdade de direitos, melhores condições de trabalho e políticas de proteção às mulheres.

Mobilizações pelo Brasil

Em São Paulo, milhares de mulheres marcharam pela Avenida Paulista mesmo sob chuva forte, exigindo medidas concretas contra a violência de gênero e defendendo pautas como o fim da escala de trabalho 6×1, frequentemente criticada por ampliar a sobrecarga das mulheres trabalhadoras.

Presente na manifestação, a presidenta interina do PCdoB, Nádia Campeão, destacou o significado político do ato e a persistência da mobilização mesmo diante da chuva que caiu sobre a capital paulista. “Hoje, domingo, 8 de março, aqui em São Paulo, uma chuva torrencial e a turma toda aqui ainda aguardando o final da manifestação do 8 de março. Ia ser uma enorme passeata aqui em São Paulo em defesa dos direitos da mulher, contra o feminicídio.”

Campeão também relacionou a luta feminista à defesa da soberania dos povos e à denúncia das guerras e do imperialismo. “Nossa tristeza e nosso grito de luta são também pelas meninas assassinadas pelo imperialismo. Pelas mães dessas meninas e por todas as mulheres que lutam em defesa da soberania dos povos.”

O ato em São Paulo recebeu o nome de Em Defesa da Vida das Mulheres e teve a participação de diversos movimentos sociais e sindicais entre eles, a União Nacional por Moradia Popular, o Movimento de Mulheres Camponesas, a União Nacional dos Estudantes (UNE), Marcha Mundial das Mulheres, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), entre outros. 

No Rio de Janeiro, milhares de manifestantes ocuparam a orla de Copacabana, onde cruzes foram fincadas na areia com o lema “Parem de nos matar”, em memória das vítimas de feminicídio. O protesto ocorreu no mesmo bairro onde, semanas antes, uma adolescente de 17 anos foi vítima de estupro coletivo, caso que provocou indignação nacional.

A deputada estadual Dani Balbi (PCdoB-RJ) destacou o caráter político das mobilizações do 8 de março e a centralidade das mulheres na construção da democracia. “Nesse dia 8 de março, todas as mulheres de todos os movimentos, de todas as etnias, de todos os lugares do Brasil ocupamos as ruas para dizer basta de feminicídio. Mas não só para isso: para retomar as rédeas da política no nosso país, para dizer que não haverá projeto de futuro de democracia para o Brasil sem que nós estejamos no centro.”

A parlamentar também criticou iniciativas que buscam retirar direitos das mulheres, especialmente os direitos reprodutivos. “Basta de violência contra a mulher e por uma agenda propositiva, protagonizada, construída e dirigida pelas mulheres.”

Na capital mineira, Belo Horizonte, manifestantes também denunciaram a violência contra as mulheres. Cruzes foram colocadas em espaços públicos representando vítimas de feminicídio no estado, transformando a mobilização em um ato de denúncia e memória.

Em Porto Alegre, uma performance teatral marcou a marcha: manifestantes carregaram sapatos femininos manchados de vermelho, simbolizando mulheres assassinadas no estado, enquanto gritavam os nomes das vítimas.

Outras cidades, como Campinas (SP), Recife (PE), Salvador (BA), Belém (PA), Alagoas (AL), Florianópolis (SC), Natal (RN) e Cuiabá (MT) também registraram marchas e atos públicos, reunindo coletivos feministas, sindicatos e organizações sociais que pediram o fim da violência e mais igualdade de direitos. 

A luta das mulheres também ecoa no mundo

As mobilizações do 8 de Março não se limitaram ao Brasil. Em diversos países, multidões ocuparam as ruas com reivindicações semelhantes, denunciando violência de gênero, desigualdade salarial e o avanço de políticas conservadoras que ameaçam direitos das mulheres.

Na Espanha, marchas massivas tomaram cidades como Madri e Barcelona, onde manifestantes defenderam igualdade e protestaram contra a violência machista. Algumas manifestações também levantaram bandeiras contra guerras e conflitos internacionais.

A vice-presidente do governo espanhol, Yolanda Díaz, reforçou o caráter político das mobilizações: “Está em nossas mãos parar a guerra, parar a barbárie e conquistar direitos. Nós nos declaramos em defesa da paz, do povo iraniano e das mulheres iranianas.”

Na França, dezenas de milhares de pessoas participaram de marchas feministas. A ativista Gisèle Pelicot, que se tornou símbolo da luta contra a violência sexual após denunciar o próprio ex-marido e seus cúmplices, discursou diante da multidão. “Não renunciaremos a nada!”, afirmou Pelicot ao defender a continuidade da luta pelos direitos das mulheres. 

Feminismo nas ruas

No Brasil e no mundo, o 8 de Março reafirmou que a data vai muito além de homenagens simbólicas. Nas ruas, as manifestações transformaram o luto pelas vítimas da violência em mobilização política e em pressão por mudanças estruturais.

Entre as principais reivindicações presentes nos atos estiveram:

  • combate ao feminicídio e à violência de gênero;
  • igualdade salarial e de direitos;
  • redução da jornada de trabalho e fim da escala 6×1;
  • ampliação de políticas públicas de proteção às mulheres;
  • defesa da democracia e dos direitos sociais

A presença massiva de mulheres nas ruas reafirma que o 8M continua sendo, sobretudo, um dia de luta coletiva por direitos, igualdade e justiça.

Em defesa do feminismo emancipacionista e anticapitalista https://vermelho.org.br/coluna/em-defesa-do-feminismo-emancipacionista-e-anticapitalista/ 

Palavra de poeta

O vento na Ilha
Pablo Neruda      

O vento é um cavalo:
ouve como ele corre
pelo mar, pelo céu.

Quer levar-me: escuta
como atravessa o mundo
para me levar até longe.

Esconde-me nos teus braços
só esta noite,
enquanto a chuva abre
contra o mar e a terra
a sua boca inumerável.

Escuta como o vento
chama por mim a galope
para me levar até longe.
A tua testa na minha testa,
a tua boca na minha boca,
os nossos corpos presos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem me conseguir levar.

Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me procure
a galope na sombra,
enquanto eu, submerso
sob os teus grandes olhos,
só por esta noite
descansarei, meu amor.

[Ilustração: Andrea Antonon]

Leia "O bolero e o mar", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_17.html