Xing-Ling, os chineses estão chegando!
A transição da hegemonia global para o Oriente
revela o triunfo da mercadoria chinesa, que converteu o antigo estigma da
descartabilidade em uma sofisticada rede de dominação tecnológica e industrial
SAMUEL
KILSZTAJN*/A Terra é Redonda
O fetichismo da mercadoria
Antes
da Revolução Industrial, a divisão social do trabalho era muito limitada e as
trocas eram marginais. Mesmo no período do chamado “capitalismo mercantil”, a
quantidade e o valor dos produtos comercializados eram muito pouco expressivos
na estrutura de produção e consumo das nações. A relação entre senhores e
trabalhadores (escravos, servos etc.) também não era comercial, era em espécie.
Foi só a partir do capitalismo industrial que a mercadoria se generalizou,
converteu o processo de produção e consumo em sistema e transformou todo mundo
(trabalhadores, capitalistas etc.) em agentes econômicos, ou seja,
prolongamentos da mercadoria.
Um
exemplo que talvez possa ajudar: antes da Revolução Industrial, poderia haver
crises climáticas, sociais, políticas, militares etc.; mas crise econômica é
uma categoria específica do capitalismo industrial, em que o sistema trava,
desocupando tanto os trabalhadores como os meios de produção (o capital),
porque o que se procura não é o produto em si (valor de uso), mas sim a
rentabilidade do investimento, com lucro e capital mensurados em dinheiro
(equivalente geral) – num sistema não mercantil, o que se procura não é o valor
(de troca) do produto, mas sim o produto em si.
No
início do século XX, o parque industrial da Inglaterra era robusto, as máquinas
duravam em média 25 anos. Nos Estados Unidos as máquinas duravam em média 15
anos. Se o progresso técnico vai tornar obsoleto o seu parque industrial em
pouco tempo, para que investir em máquinas sólidas que vão parar no ferro
velho? O numerador da rentabilidade é o lucro e o denominador é o valor do
capital; máquinas com menor vida útil são de baixo valor; quanto menor o valor
do capital, maior é a taxa de lucro (vá desculpando o economês). Além disso,
sob o Império Americano, o sistema alastrou-se para o setor terciário da
economia, ampliando o espaço da acumulação do capital.
Nota
de rodapé: no extremo oposto, a União Soviética, que era contra o consumismo,
produzia máquinas (e produtos) que poderiam durar (tecnicamente obsoletos) uma
eternidade.
A
Rússia derrotou Napoleão em 1812, teve que esperar um século para se livrar de
sua monarquia absolutista e, fazendo uso do socialismo real (o ritmo de
trabalho imposto na União Soviética deixaria Taylor e Ford encabulados), se
transformou em uma potência internacional da noite para o dia. A comédia Os Russos estão chegando! Os Russos estão chegando! foi
produzida durante a Guerra Fria e, apesar da paranoia existente, conseguiu
agradar a gregos e goianos. Nos anos 1970, os Estados Unidos reataram relações
diplomáticas e comerciais com a China como forma de isolar a União Soviética.
Nota
de rodapé: em sua concepção, o “socialismo científico” nunca havia sido pensado
como um modelo para industrializar economias “atrasadas”; muito pelo contrário,
foi pensado como um modelo para a superação do sistema capitalista de ponta
(destinado ao colapso, a tal “crise geral do capitalismo”).
A passagem do império
norte-americano para o império chinês
A
industrialização chinesa, mais tardia ainda do que a industrialização russa,
também fez uso do socialismo real (os direitos trabalhistas em vigor na China
deixariam qualquer sindicalista ocidental boquiaberto).
Nos
anos 1980, para dizer que um produto era de má qualidade, você dizia que ele
era xing-ling, ou seja, Made in China (leia-se meid
in tchaina). E a China conquistou o mercado mundial fabricando
produtos descartáveis a baixo preço. Se o negócio é ficar comprando, comprando,
para que investir em um produto que vai durar para sempre?
Amigos
me perguntam qual é o segredo na administração de meu fluxo de caixa. Ao que
respondo que nunca tive televisão, nem celular, e não participo de redes
sociais. Mas outro dia fui comprar um aparelho para cortar cabelo, perguntei a
origem de um dos modelos e o vendedor disse: “meu senhor, são todos chineses”.
Outra
experiência mercantil: fui comprar um monitor de pressão arterial numa farmácia
e o funcionário falou que o valor do produto era 250 reais. Aí eu perguntei por
que na Internet tinha aparelhos semelhantes por 40 reais. E o funcionário,
rindo, disse que os da Internet eram xing-ling. Fazia muito tempo que eu não
ouvia essa expressão e falei: “meu senhor, mas o seu produto também é
xing-ling, são todos chineses”.
A
mercadoria se generalizou pela Europa, atravessou o Atlântico e ocupou o mundo,
inclusive a Rússia e a China. A Inglaterra deteve a hegemonia inconteste do
capitalismo internacional no século XIX, a ponto do inglês se transformar em
língua franca universal. No século XX, os Estados Unidos herdaram a hegemonia
capitalista, com a União Soviética saindo do “atraso de vida” para ocupar o
posto de segunda potência internacional.
No
século XXI, ao que tudo indica, a China está fadada a herdar a hegemonia
internacional do capitalismo, isto é, personificar a mercadoria globalmente. O
governo chinês, extremamente centralizado, desenvolveu uma economia totalmente
descentralizada – uma economia “socialista” de mercado, ou melhor, uma economia
paternalista de mercado. Ajustada pelo custo de vida interno, a China já é a
maior economia do mundo, 40% maior que a economia dos Estados Unidos.
Por
acaso, a minha cultura é russa. Minha família atravessou gerações vivendo em
território do Império Czarista e Alexandre Pushkin e Liev Tolstói são os meus
autores de cabeceira. Mesmo não falando russo, entendo tudo o que eles dizem,
principalmente quando estão bêbados.
Por
algum outro acaso, sou terapeuta chinês, adepto das religiões orientais, mas
quanto mais vou à China, menos entendo o país. Só sei que a China já era
civilizada quando o ocidente vivia na barbárie (ainda vive), que foi submetida
nas Guerras do Ópio em meados do século XIX e que está usando o padrão
ocidental mercantil para se vingar do ocidente, ou melhor, está sendo usada
pela mercadoria em seu processo de dominação.
De
acordo com Keyu Jin, a aparente submissão cega da
população às autoridades reflete a deferência a um governo paternalista que lhe
garante estabilidade, segurança, paz, esperança e prosperidade. Keyu Jin
enfatiza que esta característica do povo chinês é cultural, é milenar, ou seja,
data do Império. O apoio popular ao governo (90%) está entre os mais elevados
do mundo.
Também,
por acaso, sou palestino e entendo que os árabes muçulmanos, mesmo sendo
conhecidos como exímios negociantes, não se sujeitam à mercadoria. Contudo, sendo
brasileiro, fecho mesmo é com o Ailton Krenak, o nosso filósofo discípulo de
Baruch Spinoza em busca de um futuro ancestral.
Post Scriptum
Em
2024, a empresa
chinesa de biotecnologia MGITech inaugurou em São Paulo o
Customer Experience Center (CEC), projetado para oferecer tecnologia avançada a
laboratórios clínicos, hospitais e universidades, com objetivo de impulsionar
avanços na saúde, agricultura e sustentabilidade ambiental. A MGITech já
construiu parcerias com o Grupo Oncoclínicas, Eva Holding Group, Grupo Sabin,
Unidade de Apoio ao Diagnóstico (UNADIG) e laboratórios da Fundação Oswaldo
Cruz (Fiocruz). Também uniu esforços com a Universidade Federal do Pará –UFPA
para enfrentar desafios ligados à biodiversidade amazônica por meio de
tecnologias avançadas de sequenciamento.
Em
2026, a empresa chinesa de transporte ferroviário CRRC vai implantar uma unidade industrial em Araraquara, São Paulo.
Além de tecnologia, os chineses já estão exportando até rappers. Apesar do mandarim ser uma língua
tonal, com uma variação de sons não absorvíveis após os sete anos de idade,
muitos jovens ocidentais estão se esforçando para aprender chinês. E alguns até
já estão se submetendo a cirurgias que os transformam em “chineses
natos”.
No
início de 2026, por acaso, como sempre, eu estava na Amazônia, ao lado da
Venezuela, e recebi um recado de Donald Trump para lembrar que, até prova em
contrário, a América Latina ainda era o seu quintal. Em 28 de fevereiro, ao
lado do Estado de Israel, Donald Trump resolveu também investir no Irã. América
primeiro? Se as manobras e maquinações de Donald Trump tornaram alguma nação
grande, foi a China, não os Estados Unidos. Make China Great Again! Enquanto
a política norte-americana – literalmente bombástica – degringola, a
China, decididamente, avança na liderança internacional.
Xing-ling,
os chineses estão chegando!
*Samuel Kilsztajn é
professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de 1968, sonhos e pesadelos.
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