29 outubro 2026

Minha opinião

O “gosto amargo” da necessária amplitude 
Luciano Siqueira   


Vencemos no segundo turno por 64.256.232 de votos dados a Lula contra 59.826.041 do candidato da extrema direita. 

Com um detalhe: a vitória foi possível porque milhões de brasileiros e brasileiras ocuparam as ruas e as redes, despertando energias para muito além dos partidos políticos envolvidos. 

Mas a correlação de forças no parlamento piorou: tanto na Câmara, como no Senado, os partidos que se assumem como direita ou de centro-direita fizeram forte maioria numérica.

O PL, do candidato derrotado, elegeu 121 deputados federais e 29 senadores.

Daí decorrem dois desafios aparentemente contraditórios: seguir mobilizando a sociedade, na forma e na intensidade convenientes, conforme o evolver da situação; e estabelecer alianças, as mais amplas e diversificadas possíveis, materializadas inclusive em acordos com bancadas parlamentares das legendas de centro e centro-direita, isolando a extrema direita.

Mesmo que certas composições circunstanciais tenham o gosto amargo da superação de concepções ou expectativas estreitas e sectárias.

Sempre foi assim, aqui e alhures.

Na Revolução Russa de 1917 - exemplo marcante da História no Século XX -, sob a liderança de Lênin, os bolcheviques contaram com aliados mais sólidos e também com outros circunstancias e temporários.

Atraíram todas as forças suscetíveis de alianças e neutralizaram outras, que embora desgarradas do czarismo, se mantiveram resistentes a qualquer entendimento.

No último domingo, em seu primeiro pronunciamento, tão logo proclamado o resultado do pleito, Lula declarou que governará com o parlamento que o povo elegeu.

Já no dia seguinte, retomou o diálogo com os presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre (União Brasil - AP) e Hugo Motta (Republicanos – PB), para fazer fluir a pauta legislativa imediata.

Como desdobramento, a hipótese de reeleição de ambos mediante composições que excluam e enfraqueçam o PL bolsonarista.

Está certo.

Como também estará certíssimo se inaugurar uma conduta que não adotou nos seus três governos anteriores: o apelo ao povo e aos mais amplos segmentos da sociedade para que se pronunciem nas ruas e pelos demais meios de expressão, toda vez que seja necessário, pressionando o Congresso em favor da agenda propositiva do governo.

*Texto da minha coluna semanal no “Vermelho” www.vermelho.org.br

Subiu o sarrafo da luta política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0999410531.html 

Fotografia

 

Sebastião Salgado

"Imediatismo tático consequente" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_01019364034.html 

Boca suja

Trump chama Noruega de ‘país de merda’ e diz que não quer imigrantes após perder Nobel da Paz. É a diplomacia de quinta categoria da superpotência decadente.  

Trump: megalomania e crueldade https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/trump-megalomania-e-crueldade.html 

Pusilânime, por que não?

A fuga do amarelão
Não faltam sinônimos para definir Flávio Bolsonaro como covarde e mentiroso. Os braços musculosos sob a camiseta amarela são incapazes de encarar a lei
Ruy Castro/Folha de S. Paulo 

 

Qual você prefere? Amarelão, covarde, medroso, pusilânime, frangote, maricas, desertor, foragido, poltrão, peidão, pipoqueiro, frouxo, trêmulo, borrão, arregão? Ou, numa palavra, cagão —digo, fujão? Se você for um dos meus fiéis leitores bolsonaristas ou um dos 59.826.041 eleitores que cravaram o número de Flávio Bolsonaro na urna neste domingo (25), a escolha é farta. Todas definem o caráter do homem que, não fosse por outros 64.256.232 brasileiros, poderia ser agora o presidente da República. Derrotado e sujeito a investigação e processo por uma quantidade de acusações —a escolha também é farta—, preferiu escafeder-se a enfrentar a Justiça. Onde está o machão que ele fingia ser?

Menos de 12 horas depois de produzir um vídeo em que bateu no peito e desmentiu a possibilidade de fugir do país —ao contrário, entregaria os passaportes e ficaria para liderar a oposição, retomar o Brasil e fazer e acontecer—, meteu-se na escuridão, tomou um avião na moita ou atravessou de cócoras a fronteira e foi se esconder sob a gravata vermelha de seu chefe, Donald Trump.

Como ficaram seus seguidores que assistiram ao vídeo e acreditaram nele? Como passaram a vê-lo depois desta? Se quiserem, aqui vão sugestões: falso, embusteiro, fingido, enganador, trapaceiro, mendaz, pérfido, perjuro, desleal, simulado, charlatão, cascateiro, impostor, xavequeiro, patureba, trambiqueiro. Ou, também, em uma palavra, mentiroso.

É uma atitude decepcionante para alguém que, assim como seus adeptos, fala grosso, faz arminha, ronca motocicletas e exibe braços musculosos sob as camisetas amarelas, mas é incapaz de enfrentar uma Justiça armada apenas com fatos, números e provas. A contrapô-los com seus próprios fatos, números e provas, escolheu vazar, escapar, ciscar, dar o pira, cair fora, dar no pé, picar a mula. Em resumo, fugir.

Ao abandonar seus eleitores —na verdade, traí-los—, Flávio Bolsonaro apenas repetiu o que levou toda a campanha fazendo: mentir para eles, iludi-los, ludibriá-los, fazê-los de otários.

Mulheres, jovens e idosos nas redes e nas ruas https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/a-forca-das-ruas-e-das-redes.html 

Palavra de poeta

Olhadela
João Batista de Carvalho       

quando o marulho
dos teus olhos
me atravessa
distancio-me das coisas
que não sou
e me transformo em plumas
em nuvens
em folhas…
nessas coisas que o vento aluga
e leva
sem a pressa do repouso

[Ilustração: Tereza Costa Rêgo]

Leia também "O Poço", poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/palavra-de-poeta_01059093239.html 

Alto luxo

Camas, cozinha a bordo e sistema para entreter passageiros na aeronave de alto luxo, pertencente a argentino acusado de corrupção, em que Flávio Bolsonaro fugiu com a família.  

Esclarecer é preciso https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/esclarecer-e-preciso.html  

28 outubro 2026

Minha opinião

Flexibilidade reacionária 
Luciano Siqueira      

Quem acompanhou na grande mídia neoliberal dominante a cobertura do segundo turno da eleição presidencial terá percebido a escancarada parcialidade em favor do candidato da extrema direita, hoje foragido, Flávio Bolsonaro.

Suas fragilidades e a superficialidade como abordava questões centrais da sociedade brasileira e das alternativas da economia eram simplesmente contornadas. 

E a todo instante, se esgrimiam dados de pesquisa que supostamente indicavam a derrota do presidente Lula. 

Ou seja, o filho do ex-presidente encarcerado jamais foi o candidato preferido da elite dominante, que chegou a respaldar a hipótese de uma candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mas o protegeu como pôde. 

Quanto ao presidente Lula, toda e qualquer medida em favor do povo foi tratada sistemicamente como "eleitoreira".

Agora, o noticiário e as "análises" acerca do candidato fugitivo da Justiça põem a nu a sua trajetória marcada pela corrupção e pelo comprometimento com milícias dominantes Rio de Janeiro, assim como as ligações com notórios bandidos da esfera financeira e das bets, reveladas por operações da Polícia Federal, que respaldam ações judiciais do STF.

Trata-se de uma mídia furta-cor na aparência e terrivelmente reacionária na essência.

[Ilustração: imagem produzida por IA]

A vitória épica de Lula e a necessidade de disputar o futuro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/elias-jabbour-opina.html