Globo estende o tapete vermelho à
extrema direita
Almoço da cúpula da empresa com Flávio
Bolsonaro no dia da sabatina com ele expõe preferência política e afronta a
isonomia eleitoral
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br
A recepção de Flávio Bolsonaro pela
alta direção do Grupo Globo, em almoço realizado no mesmo dia de sua sabatina
no Jornal Nacional,
16 de outubro, constitui um gesto de enorme gravidade política. No momento
decisivo da disputa presidencial, a direção de um dos maiores conglomerados de
comunicação do país ofereceu ao candidato da extrema direita uma deferência que
não dispensou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entrevistado no dia anterior.
A diferença de tratamento é
inequívoca. A sinalização política, igualmente evidente, compromete a isonomia
que deveria orientar a atuação de uma empresa cuja influência sobre a vida
nacional é gigantesca. A disparidade não é um detalhe protocolar, tampouco uma
coincidência desprovida de significado. É um evidente sinal de proximidade
política e programática. É assim que o gesto se projeta sobre a opinião
pública, independentemente das justificativas apresentadas posteriormente.
Não foi uma simples visita de
cortesia, como tentou explicar a Globo, segundo a qual o encontro teve caráter
institucional e não contou com a participação de jornalistas. A ausência de
profissionais da redação não apaga a parcialidade nem neutraliza seu
significado político. Tampouco se pode transferir aos jornalistas a
responsabilidade por uma iniciativa da cúpula administrativa.
A distinção é necessária: os
profissionais devem ser avaliados pelo seu trabalho, enquanto os dirigentes
devem explicações pelas escolhas que fazem e pelos sinais que emitem. A
igualdade de tratamento, a transparência das relações com candidatos e a
autonomia das redações são exigências fundamentais para a credibilidade do
jornalismo e para a proteção da democracia.
Diante da repercussão, Lula declarou,
durante ato político em Ipatinga (MG), no mesmo dia 16, que a emissora havia
perdido confiança: “Então, eu quero dizer para vocês que a partir de hoje, a
Globo está sob suspeição da minha candidatura. Não vai ter confiança. Não vai
ter.”
A direção da Globo conhece
perfeitamente o peso político de suas decisões. Sabe também que sua influência
no cenário nacional decorre tanto da dimensão de seu poder econômico quanto da
natureza do serviço que presta, submetido ao regime de concessão pública. A
Constituição estabelece princípios para a programação das emissoras, e a
legislação eleitoral veda o tratamento privilegiado a candidatos nas condições
previstas em lei.
A obrigação de respeitar a isonomia
exige responsabilidade pública, respeito institucional e garantia de igualdade
entre os concorrentes. Ao dispensar tratamento diferenciado a Flávio Bolsonaro,
a cúpula empresarial emitiu um sinal inequívoco de preferência política e
afrontou o princípio da isonomia que deve resguardar a disputa eleitoral.
O episódio assume gravidade ainda
maior diante do histórico da própria Globo, especialmente o de 1989, quando a
edição do debate presidencial entre Lula e Fernando Collor de Mello, exibida
pelo Jornal Nacional,
constituiu uma das mais graves ingerências dos meios de comunicação na
soberania do voto popular. A seleção de trechos e a apresentação dos
desempenhos dos candidatos favoreceram Collor, fato posteriormente reconhecido
por diretores da própria emissora.
O acontecimento de 16 de outubro,
envolvendo Flávio Bolsonaro, recoloca no centro do debate a mesma questão. A
gravidade aumenta porque, nestas eleições, a disputa não se limita à
concorrência entre candidaturas. Envolve o futuro da democracia, a soberania
nacional, a autonomia do Estado e a capacidade do país de definir seus próprios
rumos. O bolsonarismo acumulou um histórico de ataques às instituições, de
deslegitimação do sistema eleitoral e de afronta aos fundamentos da convivência
democrática. A possibilidade de retorno desse projeto ao poder representa uma questão
política de enorme relevância e exige escrutínio rigoroso, informação
abrangente e debate público sem privilégios.
A situação torna-se ainda mais grave
porque se soma à atuação das grandes plataformas digitais, as chamadas big techs, cuja
distribuição de conteúdo e publicidade política desafia a transparência e a
fiscalização pela Justiça Eleitoral. A concentração de poder nos meios de
comunicação, sua influência e as relações entre interesses econômicos e
projetos políticos constituem desafios centrais para a integridade do processo
eleitoral e para a soberania do voto popular.
Diante da gravidade do episódio, as
forças democráticas, os movimentos populares, as entidades de jornalistas, os
sindicatos, as organizações da sociedade civil e todos os defensores da
democracia devem intensificar a mobilização. É necessário denunciar a
desigualdade de tratamento, exigir transparência das empresas de comunicação,
pressionar as instituições competentes para que fiscalizem o cumprimento da legislação
e impedir que interesses privados se sobreponham ao direito do povo de decidir
livremente seu futuro.
A democracia não pode ficar à mercê
dos interesses dos conglomerados de comunicação nem da influência das grandes
plataformas digitais. A soberania nacional não pode ser subordinada às
conveniências de grupos que defendem seus próprios privilégios. É preciso
transformar a indignação em mobilização organizada, vigilância permanente e
pressão pública firme. Nenhum privilégio político, nenhum poder econômico e
nenhum monopólio da comunicação estão acima da lei e dos direitos do povo
brasileiro. A defesa da democracia exige ação, coragem e firmeza.
Duas coisas da campanha
de agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/minha-opiniao_0613695841.html