13 março 2026

Palavra de poeta

Aprendamos, amor
José Saramago   

Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes

E desçamos ao mar do nosso leito.

[Ilustração: Andrey Remnev]

Leia também: "Vinil", um poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_19.html  

Irritante insistência

Não desejo, nem preciso 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65   

Há mais ou menos 7 anos troquei de carro: tinha um Fiat Grand Siena e passei a um HB20 Hyundai. 

Estacionei na garagem da prefeitura. Foi o suficiente para ganhar da minha equipe, reproduzidas em papel A4, cópias de fotos de surfistas conduzindo num carrinho semelhante ao meu a sua prancha, seguindo estrada afora. 

Eu nem sabia que se tratava de um modelo prestigiado pelos surfistas. Pesaram o preço, o valor das prestações a prazo e a simplicidade do veículo. 

Até hoje foram 54 mil km rodados, mais ou menos. Ando pouco na cidade e foram raras as viagens para fora de Pernambuco. 

Por duas vezes tive que substituir velas e bobinas, que o mecânico garante não ser nada estranhho: partes das instalações elétricas, impossível prever se falharão ou não. 

Chego até a pensar que será o último veículo que compro para uso pessoal, pois já estou concluindo a sétima década de vida... 

Pois bem. Tem quase um mês que uma concessionária da Hyundai me manda por e-mail mensagens persistentes, mais de uma ao dia, insistindo que eu deva trocar o carro por um modelo atual, zero km. 

Comecei respondendo com o meu desinteresse pela proposta. Parece que os algoritmos entenderam o contrário: as mensagens se intensificaram. 

A partir da última segunda-feira, toda vez que vou verificar meus e-mails me deparo com a mensagem da dita concessionária: "Luciano, o que falta para você adquirir um HB20 zero km?"

Sou tentado a responder: faltam-me a necessidade, o dinheiro e a vontade, ora!

Mas fico quieto, pois bem sei que os algoritmos se sentirão estimulados a me enviarem mais mensagens ainda! Um inferno. 

Opto pela indiferença. Espero que dê certo, pois tem funcionado em relação a outras ofertas impertinentes. 

Vade retro, santanás!

Leia também: “O fascinio da lata de sardinhas” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_2.html

Postei nas redes

Se uma xícara cai e se quebra, o Estadão diz que pode afetar a reeleição de Lula. O STF julga deputados do PL acusados de pedirem ‘pedágio’ de R$ 1,6 milhão em emendas e nenhuma mensão à pré-candidatura bolsonarista. Jornalismo "bichado".

Jogo duro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/minha-opiniao_26.html?m=1

12 março 2026

Escala 6x1

Quem sustenta o PIB não descansa: a disputa em torno da escala 6×1
Previsões econômicas alarmistas e resistências no Congresso cercam o debate sobre a jornada, que revela conflitos históricos sobre quem controla o tempo de trabalho
Luis Carlos Pereira/Portal Grabois https://grabois.org.br/     

“Ócio demais faz mal”. Foi com essa frase que o deputado Marcos Pereira, presidente do partido Republicanos (PR), enquadrou o debate sobre o possível fim da escala 6×1 em entrevista concedida à Folha de S. Paulo. A declaração sintetiza uma das linhas centrais de argumentação mobilizadas contra a redução da jornada de trabalho: a ideia de que ampliar o tempo livre dos trabalhadores representaria uma ameaça ao dinamismo econômico.

Nas últimas semanas, o tema ganhou centralidade no Congresso Nacional, repercutiu na grande mídia e mobilizou intensamente as redes sociais. Multiplicam-se, em certos setores da imprensa e do empresariado, discursos alarmistas que anunciam impactos catastróficos sobre a economia brasileira, em especial uma suposta queda expressiva do PIB caso o regime de trabalho 6×1 seja revisto.

Em fevereiro de 2026, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou estudo que analisa a redução da jornada de trabalho sob a perspectiva dos custos do trabalho formal. Segundo o levantamento, os gastos com mão de obra poderiam aumentar entre 4,7% e 7%, o que representaria um acréscimo estimado entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões. A magnitude desse impacto dependeria da estratégia adotada pelas empresas para compensar a redução da jornada, seja por meio da contratação de novos trabalhadores, seja pelo pagamento de horas extras.

Esses resultados fazem parte da argumentação corporativa de que mudanças na jornada de trabalho — incluindo propostas que impactem a escala 6×1 — precisam ser avaliadas não só em termos sociais, mas também econômicos, por meio de custos empresariais, efeitos sobre competitividade e possíveis consequências para a produção nacional.

Em contraposição a essa argumentação, um estudo conduzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), divulgado também em fevereiro de 2026 na Nota Técnica nº 123, apresenta evidências empíricas que relativizam os impactos econômicos associados ao fim da escala 6×1. O documento contribui para qualificar o debate público ao questionar parte dos prognósticos alarmistas que têm marcado a discussão sobre o tema.

A análise demonstra que a escala 6×1 não está expressamente prevista na legislação como modelo obrigatório, mas resulta da combinação entre o limite constitucional de 44 horas semanais, a jornada diária de até oito horas e as regras de descanso semanal remunerado.

A escala 6×1 constitui, portanto, uma forma específica de organização do tempo de trabalho que se consolidou a partir do arranjo legal vigente. Sua eventual superação não se resume a um simples ajuste operacional, podendo demandar alterações normativas, especialmente caso envolva a redução da jornada máxima constitucional.

Do ponto de vista econômico, o IPEA indica que os impactos sobre o custo do trabalho são administráveis e comparáveis a choques já absorvidos anteriormente pela economia brasileira, como aqueles decorrentes da política de valorização do salário-mínimo, sem efeitos negativos estruturais sobre o emprego ou a atividade econômica.

Além disso, uma parcela significativa dos setores produtivos já opera com jornadas iguais ou inferiores a 40 horas semanais, o que revela que o fim da escala 6×1 não representa uma ruptura no funcionamento da economia, mas a ampliação de práticas já existentes e consolidadas em diversos segmentos.

No plano social, os dados apresentados pelo IPEA indicam que jornadas extensas estão associadas a menores salários, maior rotatividade e maior incidência entre trabalhadores de menor escolaridade, o que sugere que a escala 6×1 funciona, na prática, como um mecanismo de precarização do trabalho.

Ao mesmo tempo, o estudo aponta que o atual contexto do mercado de trabalho brasileiro reúne condições relativamente favoráveis para a adoção de mudanças regulatórias, especialmente se essas forem acompanhadas por políticas de transição voltadas aos setores mais afetados.

Assim, longe de representar uma ameaça inevitável ao crescimento econômico, o debate sobre o fim da escala 6×1 revela-se, sobretudo, uma escolha política sobre como a sociedade organiza o tempo de trabalho e distribui os custos e benefícios da produção.

Mais do que uma questão estritamente técnica ou empresarial, trata-se de uma disputa sobre quem controla o tempo social e em que condições se reproduz a vida da classe trabalhadora.

Tempo de trabalho e limites da exploração na tradição econômica

A disputa contemporânea em torno da organização da jornada não surge no vazio. Ao contrário, ela retoma uma questão que atravessa toda a tradição da economia política: quais são os limites do trabalho e quem define o uso do tempo social. Desde os autores clássicos, o tempo de trabalho aparece como um elemento central para compreender tanto a dinâmica da produção quanto as condições de reprodução da força de trabalho.

Em A Riqueza das Nações, Adam Smith discute as condições necessárias à reprodução do trabalhador ao tratar dos salários do trabalho. Para o autor, a remuneração deve permitir a subsistência e a manutenção da capacidade laboral. Ao mesmo tempo, Smith associa o aumento da produção não à simples ampliação das horas trabalhadas, mas sobretudo à organização do processo produtivo e aos ganhos de produtividade decorrentes da divisão do trabalho (Smith, 1983).

David Ricardo, embora não desenvolva uma teoria específica da jornada de trabalho, também oferece elementos relevantes para essa discussão. Ao formular o conceito de salário natural — entendido como aquele necessário à subsistência e à reprodução da força de trabalho —, Ricardo sugere que existem limites econômicos às condições de trabalho. Jornadas excessivamente degradantes tenderiam a comprometer a estabilidade do próprio sistema ao pressionar salários e reduzir margens de lucro (Ricardo, 1982).

John Stuart Mill amplia essa reflexão ao relacionar o progresso econômico à ampliação do bem-estar social. Em seu debate sobre o chamado “estado estacionário”, Mill argumenta que o desenvolvimento de uma sociedade não deve ser medido apenas pelo crescimento da produção material, mas também pela expansão do tempo livre e pelas possibilidades de desenvolvimento humano (Mill, 1983). Essa perspectiva abre espaço para uma crítica às jornadas extensas de trabalho e à subordinação integral da vida social às exigências da produção.

Na crítica da economia política desenvolvida por Karl Marx, a jornada de trabalho assume papel ainda mais central. Em O Capital, Marx demonstra que a ampliação da jornada constitui um dos principais mecanismos de extração da mais-valia absoluta. A extensão do tempo de trabalho não decorre de necessidades produtivas neutras, mas da lógica própria da valorização do capital, que busca converter o máximo possível de tempo de vida em tempo de trabalho (Marx, 2013).

A luta pela redução da jornada, portanto, não se limita à esfera econômica. Ela expressa uma disputa mais ampla pelo controle do tempo de vida e pelas condições de reprodução social da classe trabalhadora.

Essa perspectiva permite interpretar regimes contemporâneos de organização do trabalho, como a escala 6×1, como expressões atuais do controle capitalista sobre o tempo social. Ainda que inseridas em marcos legais distintos daqueles do século XIX, tais formas de organização mantêm uma lógica semelhante: a intensificação ou prolongamento do tempo de trabalho como meio de ampliação da extração de valor.

No Brasil contemporâneo, essa disputa assume contornos particularmente relevantes em razão da própria estrutura do mercado de trabalho. A distribuição setorial do emprego, bem como as desigualdades sociais que atravessam o mundo do trabalho, ajudam a compreender por que determinados grupos estão mais expostos a regimes de jornada e condições laborais mais precárias.

A escala 6×1 concentra-se sobretudo nos setores de comércio e serviços, que representam parcela significativa da população ocupada no país (Pochmann; Silva, 2023). Estudos sobre o trabalho no comércio varejista e em outras atividades do setor de serviços evidenciam jornadas extensas, baixos salários, elevada rotatividade e intensificação laboral, características frequentemente associadas a condições mais precárias de trabalho (Claro, 2022; Dal Rosso, 2008; Minayo; Pena, 2010).

Além disso, tais segmentos apresentam forte presença de mulheres e população negra, refletindo a histórica divisão racial e sexual do trabalho no Brasil (Hirata, 2018; IBGE, 2023).

Dados recentes indicam que trabalhadores negros estão sobrerrepresentados nas ocupações de menor rendimento médio e maior precarização, especialmente nos serviços e no trabalho informal (Belandi, 2023).

A expansão do setor de serviços precarizados, marcada por vínculos laborais mais frágeis e maior instabilidade ocupacional, tem sido amplamente analisada na literatura sobre as transformações recentes do trabalho (Antunes, 2018).

No setor de teleatendimento e nas atividades plataformizadas, pesquisas apontam intensificação do trabalho, controle rigoroso do tempo e maior exposição ao adoecimento, frequentemente acompanhados de precarização contratual e forte presença feminina (Nogueira; Sad, 2023; Antunes, 2020).

Nesse contexto, a escala 6×1 não incide de forma homogênea sobre o conjunto da força de trabalho. Ao contrário, ela tende a se concentrar justamente nos segmentos mais vulneráveis do mercado de trabalho.

Assim, a discussão sobre a escala 6×1 não pode ser dissociada das desigualdades estruturais que atravessam o mercado de trabalho brasileiro, nas quais gênero, raça e posição ocupacional definem quem suporta de forma mais intensa a compressão do tempo livre.

Nesse sentido, a disputa pela jornada de trabalho pode ser compreendida como parte de uma disputa mais ampla pelo controle do tempo social — dimensão já identificada por Marx como central para a reprodução do capital.

A reflexão de Milton Santos permite ampliar essa análise ao deslocar o debate do tempo de trabalho para o tempo social. Para o geógrafo, a organização do espaço e da economia nas sociedades contemporâneas produz uma distribuição profundamente desigual do tempo da vida cotidiana.

Em Por Uma Outra Globalização, Santos argumenta que o sistema econômico cria “um tempo único para alguns e tempos fragmentados para a maioria” (Santos, 2000), evidenciando que a disputa pela jornada de trabalho também é, em última instância, uma disputa pela distribuição social do tempo e pelo direito de viver para além do trabalho.

Uma janela histórica: tempo de trabalho e mobilização sindical

Pesquisa realizada pela Quaest, divulgada em 2 de julho de 2025, indica que 70% dos deputados federais eram contrários ao fim da escala 6×1. A rejeição mostrou-se particularmente elevada entre parlamentares de oposição, alcançando 92%. Entre os deputados que se declararam independentes, o percentual de rejeição chegava a 74%, enquanto entre os governistas atingia 55%.

Em relação ao apoio à proposta, os dados mostravam que a maior parte se concentrava entre os parlamentares governistas (44%), seguidos pelos deputados independentes (23%) e, por fim, pelos parlamentares de oposição (6%).

Gráfico da pesquisa Genial/Quaest mostra o posicionamento de deputados federais sobre diferentes propostas de políticas públicas. O levantamento indica forte rejeição parlamentar ao fim da escala 6×1, com 70% dos deputados contrários e apenas 22% favoráveis. Foto: Reprodução/Genial Quaest.

Os números indicam um cenário de correlação de forças inicialmente desfavorável à aprovação da pauta no Congresso Nacional, evidenciando as dificuldades institucionais para avançar em mudanças na organização da jornada de trabalho.

No entanto, quando se observa a opinião pública, o quadro apresenta outra configuração. Levantamento realizado pela Nexus — Pesquisa e Inteligência de Dados, divulgado em 10 de março de 2025, apontou que 65% dos brasileiros se declaram favoráveis à redução da jornada associada à escala 6×1.

Outra pesquisa da mesma instituição, divulgada em 23 de fevereiro de 2026, buscou avaliar o peso do tema no cenário eleitoral. Segundo o levantamento, 58% dos brasileiros consideram que a redução da jornada de trabalho será um fator decisivo nas eleições daquele ano.

Esse contraste revela um aparente descompasso entre a opinião pública e a composição do Congresso Nacional. Enquanto a maioria da população manifesta apoio à redução da jornada, parcela significativa dos parlamentares permanece contrária à mudança.

Essa assimetria evidencia que o debate sobre a escala 6×1 não se restringe a uma discussão técnica ou fiscal. Trata-se também de uma disputa política em torno da representação de interesses e da forma como demandas sociais se transformam — ou não — em agendas legislativas.

Nesse cenário, o calendário eleitoral tende a alterar os incentivos políticos. Se uma parcela significativa da população considera o tema relevante para a escolha de seus representantes, o custo político de se posicionar contra a pauta pode se elevar, especialmente para parlamentares que disputam bases urbanas com forte presença de trabalhadores do comércio e dos serviços.

A escala 6×1 deixa, assim, de ser apenas um arranjo específico de organização produtiva e passa a operar como um marcador de posicionamento social e político.

É justamente nesse ponto que o papel das centrais sindicais ganha relevância estratégica. Para além da mobilização episódica, o desafio consiste em transformar uma demanda difusa — evidenciada nas pesquisas de opinião — em pressão social organizada e contínua.

A história das conquistas trabalhistas demonstra que avanços na regulação da jornada raramente resultaram de consensos parlamentares espontâneos. Ao contrário, foram frequentemente produto da combinação entre mobilização social, articulação institucional e conjunturas políticas favoráveis.

A janela histórica que se abre, portanto, não é automática. Ela depende da capacidade de converter maioria social em maioria política, articulando movimentos sociais, sindicatos, partidos e lideranças capazes de deslocar o debate do campo estrito do “custo econômico” para o campo da justiça distributiva e da democratização do tempo social — afinal, quem sustenta o PIB também tem direito ao tempo de viver.

Referências

Antunes, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

Antunes, Ricardo (org.). Uberização, trabalho digital e indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020.

Confederação Nacional da Indústria (CNI). Redução da jornada de trabalho e impactos sobre o custo do trabalho no Brasil. Brasília: CNI, 2026.

Claro, Maria M. F. Condições de vida, trabalho e saúde dos trabalhadores do comércio. 2022.

Dal Rosso, Sadi. Mais trabalho! A intensificação do labor na sociedade contemporânea. São Paulo: Boitempo, 2008.

Folha de S. Paulo. “Ócio demais faz mal”, diz Marcos Pereira sobre o debate do fim da escala 6×1. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2026.

Hirata, Helena. Gênero, patriarcado, trabalho e classe. Trabalho Necessário, Niterói, v. 16, n. 29, 2018.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Mudanças na jornada e na escala de trabalho: elementos empíricos para o debate. Nota Técnica nº 123. Brasília: Ipea, 2026.

Marx, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I: O processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013.

Mill, John Stuart. Princípios de economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).

Minayo, Maria Cecília; PENA, Paulo. Premissas para a compreensão da saúde dos trabalhadores no setor serviço. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 19, n. 2, 2010.

Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados. Levantamento sobre redução da jornada de trabalho. São Paulo: Nexus, 2025.

Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados. Impacto eleitoral da redução da jornada de trabalho. São Paulo: Nexus, 2026.

Nogueira, Claudia M.; SAD, Caroline. A fenomenologia da exploração das teleoperadoras. In: ANTUNES, Ricardo (org.). Icebergs à deriva: o trabalho nas plataformas digitais. São Paulo: Boitempo, 2023.

Pochmann, Marcio; SILVA, Luiz Carlos. O Brasil no capitalismo do século XXI. Campinas: Unicamp, 2023.

QUAEST Pesquisa e Consultoria. Levantamento sobre posicionamento parlamentar acerca da escala 6×1. São Paulo: Quaest, 2025.

Ricardo, David. Princípios de economia política e tributação. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

Santos, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.

Smith, Adam. A riqueza das nações. São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Economistas).


Luis Carlos de S. Pereira é economista, mestre em Economia Política pela PUC-SP e especialista em Gerenciamento de Projetos pela FGV. É diretor do Centro de Estudos Avançados Brasil-China (Cebrach) e desenvolve pesquisas nas áreas de educação, financiamento público e desenvolvimento econômico.

Leia também: A lógica mercantil em detrimento do bem-estar humano https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/abraham-sicsu-opina_29.html

Eólica privatizada

A “transição energética” nas mãos dos rentistas
Como grandes empresas e fundos de investimento dominaram os parques eólicos e solares no Brasil. A colaboração do Estado para a captura. Efeitos: caos elétrico, tarifas abusivas e, pior, devastação, roubo de terras e expulsão de comunidades
Bruno Barcella/Outras Palavras    


No artigo “A ‘COP da Verdade’ e a ficção das finanças verdes”, publicado nesta revista em um momento particularmente importante, às vésperas da realização da COP em Belém do Pará, a pesquisadora Isadora Cruxên foi c erteira e provocativa ao tensionar os fundamentos da chamada agenda das finanças verdes no Brasil. Ao examinar o caso do saneamento básico, a autora mostrou como a sustentabilidade vem sendo progressivamente reconfigurada sob a lógica da financeirização. Por trás do marketing “verde” e das debêntures subsidiadas, argumenta o texto, há uma escolha política clara: transformar direitos e políticas públicas em ativos rentáveis.

O argumento desloca o centro do debate. Em vez de discutir apenas metas climáticas ou compromissos diplomáticos, somos convidados a observar os instrumentos que estruturam essa agenda e os interesses que se organi zam em torno deles. Que tipo de transição está sendo construída quando a sustentabilidade passa a ser medida em termos de rentabilidade?

Essa pergunta ganha ainda mais força quando observamos o desenho recente das políticas econômicas e energéticas no Brasil.< /span>

Em entrevista ao Financial Times, o ministro da Fazenda Fernando Haddad anunciou um pacote de transição verde estimado em centenas de bilhões de dólares ao longo da próxima década, envolvendo cerca de uma centena de iniciativas voltadas à descarbonização da economia. A ambição declarada era posicionar o Brasil como protagonista da chamada economia verde. Contudo, segundo a reportagem, a maior parte dos recursos necessários para viabilizar essa transição deveria vir do setor privado e do mercado financeiro. Quanto aos recursos públicos, autoridades afirmaram que os investimentos seriam ajustados para caber no orçamento, de modo a não tensionar as regras fiscais.

Desse modo, a fala do ministro Haddad ao Financial Times, citada por Isadora Cruxên em seu texto , não foi apenas retórica. Ela antecipou o desenho institucional que viria a se consolidar nos meses seguintes.

O anúncio encontrou materialidade no Plano de Transformação Ecológica, coordenado pelo Ministério da Fazenda, que passou a estruturar a estratégia econômica do governo sob o eixo da descarbonização, da reindustrialização verde e da mobilização de capital para a agenda climática. Dentro desse plano, dois pilares ganham destaque: a transição energética e as chamadas finanças sustentáveis.

No reino da austeridade, a transição ecológica precisa ser desenhada de modo a não tensionar o arcabouço fiscal. Mas a austeridade não apenas impõe limites ao gasto públic o. Ela exige a construção de um modelo de transição energética que abra novos mercados e novas possibilidades de acumulação para o setor privado. Em uma fase marcada pela financeirização da economia global, isso significa estruturar a descarbonização como oportunidade de investimento e rentabilidade para investidores institucionais, fundos e grandes gestores financeiros.
A consequência é inequívoca: a transformação energética passa a depender estruturalmente da mobilização do mercado financeiro.
E esse mercado já está consolidado.

As debêntures são títulos de renda fixa emitidos por empresas para financiar suas atividades. Existem dois grandes tipos. As debêntures tradicionais, cujos rendimentos são tributados segundo a t abela regressiva do Imposto de Renda, e as debêntures incentivadas, criadas pela Lei nº 12.431 de 2011, que oferecem isenção de Imposto de Renda para investidores pessoas físicas.

Esse benefício fiscal foi concebido para atrair capital privado para projetos de infraestrutura. Na prática, criou-se um instrumento altamente atrativo para investidores interessados em retornos previsíveis de longo prazo.

Entre 2018 e 2025, considerando o conjunto das emissões realizadas, esses títulos apresentam prazo médio de aproximadamente 14,6 anos. Trata-se de contratos financeiros extensos, geralmente indexados ao IPC A ou ao CDI, estruturados sobre fluxos futuros de receita provenientes de concessões, geração de energia ou prestação de serviços essenciais.

Mas além da estrutura contratual, importa observar a dinâmica recente desse mercado.

O gráfico mostra que, após um período de baixa intensidade na década de 2010, o número de emissões de debêntures vinculadas à geração de energia eólica e solar cresce de forma consistente a partir de 2018 e explode após 2021, atingindo patamares superiores a cem emissões anuais em 2024 e 2025.

Esse salto não é apenas estatístico. Ele indica que a transição energética se consolidou como uma das principais fronteiras de emissão de títulos incentivados no paí ;s.

A descarbonização deixa de ser apenas promessa política e passa a ser convertida em contratos financeiros de longo prazo.< /span>

Como já destacado por Isadora Cruxên, o próprio Plano de Transformação Ecológica aprofundou essa lógica ao incorporar novos instrumentos legais voltados à mobilizaç& atilde;o do capital privado. Em janeiro de 2024, foi sancionada a Lei nº 14.801, que instituiu as chamadas debêntures de infraestrutura e ampliou os mecanismos de incentivo fiscal para investimentos em setores considerados estratégicos, como energia, saneamento e transporte.

Mas a explosão recente de emissões também produziu um efeito estrutural.< /span>

O segundo gráfico explicita a dimensão financeira dessa transformação. Estamos falando de valores em bilhões de reais no estoque de debêntures incentivadas.

No segmento de energia elétrica, o montante atinge R$ 202,29 bilhões, concentrados majoritariamente em projetos de geração por fontes alternativas — leia-se, produção e constru&cc edil;ão de parques eólicos e usinas solares.

Esse volume supera com ampla margem os demais setores de infraestrutura. Em termos concretos, mais de duzentos bilhões de reais da infraestrutura incentivada brasileira encontram-se hoje vinculados à geraç& atilde;o renovável.

Quando se observa que esse estoque está ancorado em contratos com prazo médio de 14,6 anos, percebe-se que não se trata de um movimento conjuntural. São compromissos financeiros de longo prazo que tr ansformam a expansão da energia renovável em base estruturante de ativos financeiros isentos de Imposto de Renda para investidores.

A transição energética, nesse cenário, deixa de ser apenas diretriz ambiental e se consolida como eixo dominante do mercado de infraestrutura incentivada.

A engrenagem financeira se completa com a consolidação dos Fundos de Investimento em Infraestrutura (FI-Infra). Atualmente existem 37 FI-Infra registrados na B3, dedicados majoritariamente à aquisiç& atilde;o de debêntures incentivadas.

Em 2025, a rentabilidade média desses fundos foi de 13,11% ao ano, com rendimentos isentos de Imposto de Renda para pessoas físicas, desempenho que supera boa parte das carteiras de ações cuidadosame nte estruturadas por “experts” do mercado financeiro.

O investidor não precisa adquirir diretamente uma debênture de um parque eólico ou usina solar. Pode comprar cotas de um fundo que reúne dezenas de emissores, com gestão profissional e diversif icação de risco.

Cria-se, assim, um circuito completo. A política pública define o setor prioritário e estabelece os incentivos institucionais; as empresas emitem debêntures para financiar os projetos; os fundos de in fraestrutura adquirem esses títulos e os transformam em produtos financeiros; os investidores compram as cotas desses fundos; e, ao final do processo, os rendimentos são distribuídos com benefícios fiscais. A engrenagem revela algo mais profundo do que um simples mecanismo de financiamento da infraestrutura: ela remete a uma característica histórica da economia brasileira, marcada pela captura recorrente do fundo público por agentes econômicos privados.

Os incentivos fiscais, concebidos para estimular investimentos em setores considerados estratégicos, acabam funcionando como canais de transferência indireta de recursos públicos para circuitos de valoriza&c cedil;ão financeira. Nesse sentido, instrumentos apresentados como soluções modernas para financiar a transição energética reproduzem dinâmicas bastante antigas da formação econômica brasileira. Trata-se de engrenagens arcaicas com roupagens modernas, em um capitalismo no qual o rentismo se consolidou no próprio cerne das relações econômicas e políticas.

Sob a promessa de alinhar sustentabilidade e mercado, a chamada economia verde passa a operar também como novo campo de expansão dessas formas de captura. A transição energética não apa rece apenas como resposta à crise climática, mas como oportunidade para reorganizar fluxos de renda, ativos financeiros e incentivos públicos em favor de novos circuitos de acumulação.

Mas há uma dimensão frequentemente invisibilizada nessa engrenagem: o território.

Segundo a pesquisadora Lorena Izá Pereira, em estudo publicado no dossiê “A apropriação de terras se renova com as energias verdes e outros extrativismos”, produzido pela iniciativa Land M atrix-LAC em 2023, a expansão da energia eólica no Brasil tem sido acompanhada por processos de territorialização de grandes empresas voltados ao controle do território e de seus recursos. Em seu artigo intitulado “A territorialização de empresas de energia eólica no Brasil: estrangeirização e estratégias de controle do território”, a autora demonstra que esses empreendimentos não produzem apenas impactos ambientais, mas também formas profundas de injustiça sócio-territorial, ao favorecer a expansão da acumulação de capital sob a retórica da sustentabilidade.

A instalação de parques eólicos exige o acesso e o controle de extensas áreas de terra para a instalação de aerogeradores e infraestrutura associada. Embora o vento seja um bem comum, s ua exploração ocorre por meio da apropriação privada do território. Nesse processo, empresas passam a controlar não apenas a terra, mas também o potencial eólico e as dinâmicas sociais locais, reorganizando usos do território e formas de vida previamente existentes.

Os impactos desse processo são múltiplos: supressão de vegetação nativa, alterações na paisagem, cercamento de áreas tradicionalmente utilizadas pelas comunidades, mudan&c cedil;as nas dinâmicas sociais locais e impactos sobre atividades produtivas e modos de vida. Em muitos casos, a expansão desses projetos também estimula a valorização e a especulação fundiária, reconfigurando mercados de terra e aprofundando tensões agrárias.

Nesse sentido, a chamada transição energética, embora apresentada como solução para a crise climática, pode também reforçar processos de apropriação territor ial, estrangeirização da terra e desterritorialização de comunidades, reproduzindo dinâmicas históricas de exploração sob o discurso contemporâneo da sustentabilidade.

A transição energética é necessária. A crise climática é incontornável.

Mas quando a sustentabilidade passa a ser medida prioritariamente pela capacidade de gerar novos ativos financeiros e fluxos de rentabilidade para investidores, a pergunta inevitável retorna.< /span>

Sustentável para quem?

Para as populações diretamente afetadas pela instalação dos empreendimentos? Ou para os investidores que recebem rendimentos anuais de dois dígitos livres de Imposto de Renda ancorados nesses mesmos projetos?

A transição energética é inevitável.

O que permanece em disputa é a forma social, econômica e territorial que essa transição irá assumir.

 

Bruno Barcella - Doutor em Geografia e autor do livro "A terra sob o ritmo das finança". Atualmente é pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador visitante no King’s College London.

Indústria criativa pode perder até 24% das receitas globais por causa da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/desequilibrio-tecnologico.html

Para além dos números

Nota sobre a capacidade estatística do PIB
O PIB, bússola do século XX, já não captura sozinho a complexidade da economia financeirizada, digital, do cuidado e ambiental
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda 

O Produto Interno Bruto (PIB) consolidou-se ao longo do século XX como o principal indicador de desempenho econômico. Entretanto, as transformações estruturais recentes como a financeirização, a expansão da economia digital, a crescente relevância da economia dos cuidados e a emergência da crise ambiental passaram a revelar limitações importantes desse indicador.

Desde a sua consolidação após a Segunda Guerra Mundial, o PIB tornou-se o indicador central para avaliar o desempenho econômico das nações. Baseado no sistema de contas nacionais desenvolvido, inicialmente, por economistas como Simon Kuznets e, posteriormente, institucionalizado por organismos internacionais, o PIB busca medir o valor monetário da produção de bens e serviços finais gerados pela economia durante um determinado período de tempo.

Apesar de sua relevância histórica, a evolução recente do capitalismo global tem evidenciado enormes e crescentes desafios à contabilidade econômica tradicional. Nesse contexto que emerge uma tensão entre a realidade econômica contemporânea e a capacidade estatística do PIB de representá-la adequadamente neste primeiro terço do século XXI.

Financeirização e distorções na mensuração do produto

Uma das transformações estruturais mais importantes das últimas décadas tem sido o processo de financeirização das economias. Esse fenômeno se refere à crescente centralidade das atividades financeiras na geração de renda e na dinâmica macroeconômica.

Autores como Greta Krippner e Gerald Epstein destacam, por exemplo, que, em muitos países, a expansão dos lucros financeiros passou a superar o crescimento da produção material. A valorização de ativos financeiros, a expansão do crédito e a crescente importância dos mercados de capitais passaram a influenciar profundamente a dinâmica econômica.

No entanto, do ponto de vista das contas nacionais, parte significativa dessas atividades aparece como geração de valor agregado. Os serviços financeiros que incluem a intermediação bancária, gestão de ativos e outros serviços são contabilizados no PIB, mesmo quando representam essencialmente redistribuições de renda ou valorização de ativos já existentes.

Isso significa que períodos de intensa expansão financeira podem produzir crescimento estatístico do PIB sem necessariamente refletir expansão proporcional da economia real, do emprego ou da produção de bens e serviços.

Da mesma forma, a expansão da economia digital emerge como um outro desafio relevante para a contabilidade macroeconômica contemporânea. Plataformas digitais, serviços baseados em dados, inteligência artificial e infraestruturas informacionais passaram a desempenhar papel central nos sistemas produtivos.

Uma grande parte do valor gerado nesse ambiente digital não consegue ser plenamente capturada pelas métricas convencionais. Muitos serviços digitais são oferecidos gratuitamente aos usuários finais e monetizados indiretamente por meio de publicidade, uso de dados ou outros mecanismos.

Economistas como Erik Brynjolfsson e Diane Coyle argumentam, por exemplo, que o PIB tende a subestimar o valor econômico gerado por esses serviços, pois o sistema de contas nacionais foi concebido para economias industriais baseadas em transações monetárias claramente identificáveis. Adicionalmente, parcela importante da economia digital está associada a ativos intangíveis (algoritmos, softwares, plataformas, bases de dados), cuja mensuração apresenta desafios metodológicos significativos.

Diante dessas limitações, diversos países e organismos internacionais têm desenvolvido metodologias complementares, incluindo contas satélite da economia digital.

A invisibilidade da economia dos cuidados

Um outro limite clássico do PIB refere-se à exclusão do trabalho doméstico e de cuidados não remunerado. Atividades como cuidar de crianças, idosos ou pessoas doentes, preparar alimentos ou realizar tarefas domésticas são essenciais para a reprodução social e para o funcionamento da economia, mas não são contabilizadas no produto nacional quando realizadas fora do mercado.

Essa crítica foi amplamente desenvolvida por economistas feministas como, por exemplo, Nancy Folbre e Marilyn Waring. Segundo essas autoras, a exclusão do trabalho de cuidados do PIB reflete não apenas uma limitação estatística, mas também uma hierarquia histórica entre atividades produtivas e reprodutivas.

Estudos baseados em pesquisas de uso do tempo indicam que, se o trabalho doméstico e de cuidados fosse monetizado, poderia representar parcela significativa do produto nacional em muitos países. Nos últimos anos, diversos sistemas estatísticos passaram a desenvolver contas satélite da economia do cuidado, estimando o valor econômico dessas atividades.

A crescente crise ambiental também evidencia limitações importantes do PIB como indicador de progresso econômico. O indicador registra positivamente atividades que geram produção e renda, mesmo quando estão associadas à destruição de recursos naturais ou à emissão de poluentes.

Essa limitação foi destacada pelo relatório coordenado por Joseph Stiglitz, Amartya Sen e Jean‑Paul Fitoussi sobre a mensuração do desempenho econômico e do progresso social. Em resposta a esse problema, organismos internacionais vêm desenvolvendo sistemas de contabilidade ambiental integrados às contas nacionais, como o Sistema de Contabilidade Econômico-Ambiental (SEEA), que busca incorporar indicadores de capital natural, uso de recursos e impactos ambientais.

Avanços recentes na contabilidade econômica internacional

Diante desses desafios, o sistema internacional de estatísticas econômicas tem avançado em diversas frentes metodológicas. A atualização mais recente do sistema global de contas nacionais pela Divisão de Estatísticas das Nações Unidas (Sistema de Constas Nacionais de 2025) propõe aperfeiçoamentos na mensuração de ativos intangíveis, economia digital e capital natural.

Além disso, a expansão de contas satélite (digitais, ambientais e de cuidados) permite ampliar a capacidade analítica das estatísticas macroeconômicas sem alterar a comparabilidade internacional do PIB. Esses avanços indicam que o futuro da contabilidade econômica provavelmente não envolverá a substituição do PIB, mas sim a sua complementação por um conjunto mais amplo de indicadores capazes de capturar as múltiplas dimensões da economia contemporânea.

O Brasil tem desempenhado papel relevante na modernização das estatísticas econômicas e na adaptação das contas nacionais aos novos desafios da economia contemporânea. Nesse processo, destaca-se a atuação do IBGE, responsável pela produção oficial das contas nacionais brasileiras desde os anos de 1980, pois antes disso era de responsável de uma instituição privada.

Nos dois últimos anos, o IBGE retornou à elite das estatísticas mundiais, com a retomada no assento na Comissão Estatística das Nações Unidas e as inéditas indicações para a condição de Copresidente do Programa de Comparação Internacional de Estatísticas oficiais e de membro do Comitê Consultivo dos Princípios Fundamentais das Estatísticas Oficias. Com isso, o Brasil tem contribuído ativamente para o debate internacional sobre atualização das contas nacionais.

A experiência brasileira demonstra que a produção estatística não é apenas uma atividade técnica, mas também um elemento central da governança democrática e da cooperação internacional baseado em evidências, transparência e comparabilidade. Ao participar ativamente da construção dos padrões estatísticos globais, o Brasil contribui ativamente para a governança estatística internacional debatendo sobre a metodologia mais atual para o sistema global de contas nacionais e sobre os desafios de mensuração da economia digital, da sustentabilidade e do bem-estar.

*Marcio Pochmannprofessor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

Referências


Brynjolfsson, E.; Collis, A.; Eggers, F. (2019) Using Massive Online Choice Experiments to Measure Changes in Well-Being. PNAS.

Coyle, D. (2014) GDP: A Brief but Affectionate History. Princeton University Press.

Epstein, G. (2005) Financialization and the World Economy. Edward Elgar.

Folbre, N. (2006) Measuring Care: Gender, Empowerment and the Care Economy. Journal of Human Development Vol. 7, No. 2, July 2006  

Krippner, G. (2011) Capitalizing on Crisis: The Political Origins of the Rise of Finance. Harvard University Press.

Stiglitz, J.; Sen, A.; Fitoussi, J. (2009) Report by the Commission on the Measurement of Economic Performance and Social Progress. OFCE.

United Nations (2025) System of National Accounts. UN.

United Nations (2021) System of Environmental-Economic Accounting. UN.

IBGE. (diversos anos) Sistema de Contas Nacionais do Brasil. Rio de Janeiro.

Regressão econômica e de-civilização no Brasil recente https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/entrevista-marilia-mazon.html

Postei nas redes

Preço do petróleo chega a desabar mais de 10% após fala de Trump sobre fim da guerra no Irã. Oxente! Ainda há quem acredite nisso?

Europa fraturada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/a-saga-europeia.html?m=1