05 maio 2026

Postei nas redes

Vergonhosa a campanha do Estadão contra a redução da jornada de trabalho. Deturpa dados, reúne declarações tendenciosas e mira os ataques em Lula.

Estética imperialista: A política do espetáculo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/estetica-imperialista.html 

Minha opinião

Aveia na linha de tiro 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65    

Quem tem a paciência de me ler aqui no blog já percebeu que não levo muito a sério matérias sobre a saúde da gente nos jornalões do país.

Talvez até devesse prestar atenção, mas a essa altura do meu campeonato etário o tempo que me resta é preciosíssimo e tenho outra agenda como prioridade. 

Posso até estar perdendo dicas importantíssimas, a exemplo os benefícios da aveia no enfrentamento do colesterol alto ou da glicemia. 

Até consumo aveia — pouco e raramente. É quando Luci a introduz em algum alimento no café da manhã. 

A desimportância que dou a essas matérias tanto tem a ver com o meu próprio conhecimento médico, hoje rarefeito, que no transcorrer do tempo tem contrariado alardeados achados científicos. O que é hoje já não é mais amanhã e pode até voltar a ser um pouco mais adiante. 

De toda forma, imagino muito mais sensato ler algumas páginas do livro do momento que tenho sobre a minha mesa de trabalho do que gastar tempo com tanta descoberta frágil e incerta. 

Minha mãe diria: "Eu, hein?"

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Carmen Miranda assombrou a Broadway https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/uma-cronica-de-ruy-castro_22.html   

Fotografia

 

Elliott Erwitt

Nada é por acaso https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Jornada de trabalho

Governo Lula lança campanha pelo fim da escala 6×1
Campanha de comunicação será veiculada em diferentes meios; estimativa é de que redução de jornada de trabalho trazida na medida possa beneficiar 37 milhões de pessoas
Murilo da Silva/Vermelho   
 

As mobilizações pelo fim da escala 6×1 estão cada vez mais fortes. No 1º de maio, Dia do Trabalhador e da Trabalhadora, os atos pelo Brasil elencaram como principal tema o pedido de mudança na escala sem redução de salários. O governo Lula já havia incorporado para si essa luta ao enviar para o Congresso Nacional um projeto de lei para a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais com a garantia de dois dias de descanso remunerado e proibindo qualquer redução salarial. A iniciativa visa estabelecer uma escala 5×2 e colocar fim à tão exploratória escala 6×1, que tanto rouba a vida dos trabalhadores.

Para dar ênfase à luta, o governo lançou no domingo (3) uma campanha nacional de comunicação sobre o tema. As inserções serão veiculadas em canais de mídia digital, televisão, rádio, jornais, cinema e na imprensa internacional. O slogan da campanha é: “Mais tempo para viver. Sem perder salário. Porque tempo não é um benefício. É um direito.”

De acordo com a Secretaria de Comunicação Social (Secom), a proposta visa conscientizar empregados e empregadores sobre a importância do maior convívio com a família e do convívio social, ao mesmo tempo em que se acompanham as transformações do mundo. Do ponto de vista econômico, também há benefícios aos empresários, a partir de ganhos de produtividade e menor rotatividade de funcionários.

Impacto

A iniciativa, caso seja aprovada, deverá impactar cerca de 37,2 milhões de pessoas que hoje estão na jornada de 44 horas semanais, com base em um universo de 50,2 milhões trabalhadores celetistas, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Desse montante, 14,8 milhões fazem escala 6×1 e 1,4 milhão de domésticas faz escala 6×1. Ou seja, pela diminuição da carga horária para até 8 horas diárias em cinco dias da semana, grande parte dos celetistas brasileiros será beneficiada, ao menos por uma das mudanças (redução da jornada e nova escala). O texto do governo indica que os trabalhadores terão direito a dois repousos semanais remunerados de vinte e quatro horas consecutivas cada, com preferência aos sábados e domingos. No entanto, existe a ponderação de que os dias de repouso poderão ser definidos em negociação coletiva devido às peculiaridades de cada atividade (como comércio, saúde e transportes).

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Leia também: Para além do “economicismo governamental” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html

Postei nas redes

"O possível a gente faz, o impossível o povo nos ensina a fazer." (Miguel Arraes, no discurso de posse do seu segundo governo, citado no livro Arraes, de Tereza Rozowykwiat). 

Convergência necessária e possível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/minha-opiniao_15.html 

Palavra de poeta

Todas as coisas cujos valores podem ser
Manoel de Barros   

Disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno de 10 x 20, sujo de mato — os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
— sapatos, adjetivos —
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

As coisas jogadas fora
têm grande importância
— como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia
Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.

[Ilustração: Marcos Guinoza]

Leia também: “Vivos, lúcidos e ativos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_18.html 

04 maio 2026

Onipotente capital financeiro

Capital fictício versus produtivo
A economia brasileira estrutura-se sobre uma forma dual de capital fictício — a dívida pública e a propriedade fundiária urbana — que capitaliza rendas futuras em riqueza presente
FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*/A Terra é Redonda 
 
  

1.

A ideia de “dupla forma de capital fictício” no Brasil – financeira e fundiária – pode ser entendida como dois mecanismos distintos de capitalização de rendas futuras. Eles se reforçam mutuamente. Ambos transformam fluxos esperados de renda em estoques de riqueza negociáveis no presente.

Essa noção deriva da crítica do “capital fictício”, elaborada por Karl Marx, mas assume uma configuração peculiar na economia brasileira. Nela, o capital fictício financeiro seria principalmente a dívida pública indexada.

Após as reformas financeiras de meados dos anos 1960, o Estado brasileiro estruturou um mercado sofisticado de títulos públicos. Esses títulos representam direito a fluxos futuros de juros pagos pelo Estado, ou seja, o título é um ativo financeiro capaz de capitalizar receitas futuras.

Matematicamente, o preço de um título pode ser representado como o valor presente de fluxos de juros pagos periodicamente. Incide sobre o valor de resgate uma taxa de desconto do custo de oportunidade: o juro de mercado deixado de ganhar por fazer outra opção de investimento.

Esse ativo é “fictício”, no sentido marxista, porque não corresponde diretamente a capital produtivo, mas a um direito sobre receitas futuras do Estado. Como instituições centrais desse sistema, garantidores do “risco soberano” em moeda nacional, estão o Tesouro Nacional e o Banco Central do Brasil.

Algo conceitualmente semelhante ocorre com a terra urbana. Há um capital fictício fundiário devido à sua valorização. O preço de um terreno ou imóvel também reflete a capitalização de rendas futuras esperadas, como aluguéis ou valorização urbana.

A lógica econômica pode ser representada pela fórmula clássica de capitalização da renda fundiária. O preço do terreno se relaciona com a renda anual esperada (aluguéis ou renda fundiária implícita) e tem como custo de oportunidade da taxa de juros de mercado. Assim, a terra urbana também se torna um ativo financeiro implícito, cujo valor depende da taxa de juros.

O elo entre os dois sistemas aparece em uma interligação estrutural. A taxa de juros definida no mercado de dívida pública funciona como taxa de desconto para todos os ativos da economia.

Logo, quando os juros sobem, os preços de imóveis tendem a cair. Quando os juros caem, os preços de imóveis tendem a subir. Assim, a riqueza fundiária é indiretamente ancorada na estrutura da dívida pública.

2.

A economia brasileira acabou estruturando um circuito macroeconômico de valorização patrimonial com dois polos. No polo financeiro, encontram-se títulos públicos, fundos de investimento e outros ativos indexados à taxa básica. No polo imobiliário, estão a terra urbana, os edifícios e a renda de aluguel, além da valorização.

Muitas famílias e investidores costumam transitar entre esses dois polos. Um exemplo típico é vender imóvel e aplicar em títulos, outro é acumular renda financeira para comprar imóveis.

Essa dupla forma de capital fictício gera três efeitos estruturais como consequência macroeconômica. O primeiro é a forte patrimonialização da economia. Grande parte da riqueza está em ativos que representam direitos sobre renda futura, não capital produtivo direto.

O segundo é a sensibilidade às taxas de juros Mudanças na taxa básica afetam simultaneamente preços de títulos e preços de imóveis.

O terceiro é a simplificação da desigualdade patrimonial. Quem já possui ativos financeiros ou imóveis captura juros do Estado e valorização urbana.

O caso brasileiro é peculiar porque combina simultaneamente um dos maiores mercados de dívida pública doméstica do mundo e grande valorização imobiliária urbana nas últimas décadas. Isso conecta dois sistemas de capitalização patrimonial normalmente aparecidos separadamente em outros países.

No Brasil formou-se um sistema patrimonial dual: capital fictício financeiro resultante de títulos da dívida pública e capital fictício fundiário como resultado de valorização de terra urbana e imóveis. Ambos derivam da capitalização de rendas futuras e são interligados pela taxa de juros da economia.

No entanto, falta uma visão sistêmica ao afirmar “grande parte da riqueza está em ativos representativos direitos sobre renda futura, não capital produtivo direto”. Na realidade, ativos financeiros são fontes de financiamento ou funding, para bancos captarem, como passivos de novos financiamentos, inclusive imobiliários.

Esse é um limite analítico comum quando se usa a noção de capital fictício de maneira isolada. Uma abordagem sistêmica mostra os ativos financeiros não serem apenas direitos sobre renda futura, mas também componentes funcionais de um circuito de financiamento capaz de conectar balanços patrimoniais de diferentes agentes.

3.

O que é ativo para alguém é passivo para outro agente. Esse passivo acaba por financiar investimento real. Portanto, o princípio contábil sistêmico é: ativo de um, passivo de outro. Em qualquer sistema financeiro, um título público é ativo para o investidor, mas é passivo do Estado, inclusive para executar gastos públicos com pessoal e assistência social e previdenciária.

Da mesma forma, um depósito bancário é ativo para o depositante, mas passivo do banco. Esse passivo serve como funding para concessão de crédito. Assim, ativos financeiros fazem parte de um sistema interligado de balanços.

No Brasil, títulos da dívida pública cumprem funções centrais no sistema financeiro. Eles são usados para gestão de liquidez bancária, garantia em operações interbancárias, colateral em operações com o Banco Central do Brasil e lastro de fundos de investimento.

O Tesouro Nacional emite esses títulos e por seu risco soberano acabam estruturando a base segura do sistema financeiro. Assim, eles não são apenas riqueza patrimonial – são também infraestrutura do sistema de crédito.

Bancos realizam uma operação fundamental: transformação bancária de maturidade e risco transformação de passivos líquidos em ativos de crédito. Em exemplo simplificado, investidores compram títulos ou fazem depósitos, bancos captam esses recursos e concedem crédito. Esse crédito pode financiar consumo, investimento empresarial e financiamento imobiliário.

No caso do mercado imobiliário brasileiro, o financiamento depende fortemente do sistema financeiro. Por exemplo, famílias aplicam em fundos ou depósitos, bancos captam esses recursos e concedem crédito imobiliário para incorporadoras construírem edifícios. Instituições como a Caixa Econômica Federal desempenham papel importante nesse circuito financeiro-imobiliário.

O conceito marxista de capital fictício não nega essa intermediação. Ele enfatiza outro ponto: o valor de mercado dos ativos financeiros pode crescer independentemente da expansão do capital produtivo. Pode haver valorização patrimonial (estoque de riqueza) sem crescimento proporcional da produção (fluxo de renda). Mas isso não elimina o papel fundamental dos ativos financeiros na infraestrutura do crédito.

Uma leitura sistêmica mais adequada vê três níveis interligados: o nível patrimonial, no qual ativos representam direitos sobre renda futura.; o nível financeiro, onde esses ativos funcionam como funding e colateral; e o nível macroeconômico, quando o crédito financiado por esse sistema pode sustentar investimento produtivo, investimento imobiliário e consumo.

Como implicação analítica, não é adequado separar rigidamente o capital financeiro e o capital produtivo. Eles fazem parte de um circuito de financiamento interdependente.

O problema analítico surge quando, em certa fase recessiva, ocorre crescimento da riqueza financeira sem uma expansão correspondente da capacidade produtiva. Mas uma abordagem sistêmica mostra os ativos financeiros serem simultaneamente riqueza patrimonial e funding do sistema bancário, ou seja, essa forma de manutenção de riqueza atua na infraestrutura do crédito.

Portanto, a distinção entre capital fictício e capital produtivo não deve ser interpretada como separação absoluta, mas como níveis diferentes de análise dentro do mesmo circuito financeiro-produtivo.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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Centrais sindicais entregam pauta a Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/trabalhadores-com-lula.html