30 agosto 2026

Minha opinião

Impressionante projeto de robótica na China
Luciano Siqueira     

Anoto na mídia internacional que o governo da República Popular da China realiza plano de US$ 20 bilhões focado na integração de Inteligência Artificial com a Robótica.

Assim, a China se coloca na vanguarda da inovação tecnológica, disputando diretamente a hegemonia com os Estados Unidos.

O país já conta com mais de 2 milhões de robôs industriais em funcionamento em suas fábricas — correspondente a mais da metade de todas as instalações de robôs no mundo. Com um detalhe: a maioria das novas máquinas e peças de alta precisão já é fabricada por empresas locais.

Analistas especializados entendem que a automação massiva impõe-se como necessidade estratégica para compensar a transição demográfica do país.

Até 2035, a China terá mais de 400 milhões de pessoas acima de 60 anos (mais de 30% da população). Os chamados robôs supremos estarão com déficit de mão de obra nas fábricas.

Na atualidade, verifica-se uma transição na educação técnica (em polos como Hangzhou) para formar estudantes e profissionais em manutenção, programação e supervisão de IA e robôs.

O governo chinês, contudo, mostra-se atento ao risco de defasagem no ritmo de substituições de empregos operacionais – de olho na ameaça de desemprego estrutural.

Avanço do comércio internacional chinês desafia barreiras dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/china-x-eua.html 

Tempo de conflitos

Para enfrentar o cancelamento da política
Dois autores chineses sustentam: em versão transhumanista, capital quer sacrificar, no altar da técnica, as ideias de futuro coletivo e de vidas regidas pela ética. Mas surgem contrapontos. A cidade, habitada pelo caos e o Comum, é grande trincheira
Stefano Rota/Outras Palavras 
   

Numa recente entrevista realizada por Simone Pieranni com Wang Hui – provavelmente a figura mais proeminente da New Left chinesa – o influente pensador político dedica amplo espaço à discussão de dois conceitos: a “política da despolitização” e a “repolitização”.

Retomando em traços muito gerais aquilo que Wang Hui aí relatou, a despolitização não é, como o termo pareceria sugerir, a ausência da política tout court. É antes a apresentação de atos, discursos, estratégias na base de protocolos de alegada neutralização, ou tecnicização, dos mesmos, com o objetivo de os subtrair à disputa política, estigmatizando e criminalizado os seus detratores.

A neutralização propõe uma universalidade de valores assentes nos conceitos aparentemente indiscutíveis de progresso tecnológico, predisposição genética, centralidade do QI, confiança na capacidade dos melhores para produzirem aquilo de que precisamos, o direito de acederem, custe o que custar, àquilo que for necessário para um desenvolvimento apresentado como infinito e imparável. Por trás disto tudo – como demonstrou recentemente Quinn Slobodan – há uma escolha política precisa, com objetivos claros. É a mesma, parece, que Wang Hui reconduz à política da despolitização. 

Mais uma vez, são os EUA que definem as linhas ao longo das quais se articula este novo rumo. Não é tudo fruto da atual administração, ainda que o trumpismo represente, sob muitos aspetos, a sua extremização. Em termos gerais, esta política é, ou apresenta-se como, a resposta ao estado de crise em que se encontra o Ocidente, pelo menos a partir do 2008.

A política da despolitização vai além das formas mais consolidadas de relação neoliberal entre mercado e instituições, público e privado. Impulsiona novos cenários de que, com diferentes graus de consciência, somos todos testemunhas. Sustentada pelo impacto da IA no andaime institucional, nas formas de organização do trabalho, nas configurações sociais, na vida na sua acepção biológica e social mais ampla, a política da despolitização apresenta-se hoje como a antítese da ética em política.

O que estamos vivenciando não pode ser visto apenas como mais uma etapa na longa e linear vida do capitalismo. Não basta chamar a visão despolitizada dos novos patrões do mundo como “fim da história”. O que os anima é a convicção de se encontrarem no início de uma nova história, onde o desenvolvimento tecnológico disruptivo já não deixa espaço para as leituras éticas do agir político do século XX.

Aí encaixam-se as projeções transumanistas de superação da morte, a redefinição escatológica do destino do mundo, a identificação em tons bíblicos dos inimigos da sua ideia de progresso. Neste contexto, a guerra, declinada em muitas formas diferentes, assume a função purificadora em relação ao mau, ao Anticristo. Este último não passa de tudo o que se interpõe à produção do futuro definido pelo seu “projeto teológico secularizado”, como é definido por Rafael Azzi.

Quer se trate de guerra ao ambiente, aos pobres, ao que sobra do Estado social, em nome de um “desenvolvimentismo” que não faz prisioneiros, ou quer se entenda no sentido mais tradicional do termo, a política da despolitização encontra na guerra a sua mais coerente e elevada expressão. Para Wang Hui, aliás, a guerra não é nada mais do que a continuação direta da politica da despolitização. E, acerca disso, parece difícil produzir argumentos que refutem a sua tese.

O sucesso dessa política reside na capacidade de penetração e condicionamento tanto da nossa vida ativa cada vez mais conectada, como do nosso inconsciente offline. A este respeito, um outro intelectual chinês, Yuk Hui, prefere, ao examinar o padrão econômico e cultural dominante, pôr a ênfase sobre os processos de desindividuação, como consequência do predomínio das pulsões em relação à economia da libido. Daí surge a necessidade de uma nova individuação do pensamento, “para cuja realização a tecnologia é fundamental”, dado que o próprio uso atual da tecnologia deve ser visto como a causa principal da desindividuação.

A nova individuação proposta por Yuk Hui traz, portanto, ao nível da vida do sujeito o conceito de repolitização que Wang Hui analisa colocando-o num plano relacional mais abrangente. 

Afirmar a necessidade de repolitizar as relações não significa desconhecer a multiplicidade de ações políticas novas e diversas que parecem apresentar, em muitos terrenos, níveis de participação popular às vezes bastante elevados. Não é este o ponto, ou, se quisermos, isto é apenas um lado do processo de repolitização de que se quer falar. Talvez, felizmente, o menos problemático. Da Europa às suas fronteiras externas (Albânia e Sérvia), e a muitos outros países, entre os quais Quênia e Índia, sem esquecer experiências particulares nos EUA, assiste-se a uma contínua propagação de protestos politicamente importantes e eficazes.

O assunto da repolitização diz respeito tanto a ações políticas institucionais como ao “político” de modo mais amplo Este deve ser entendido como o sentido geral do agir que redefine as prioridades e os valores, com base numa contraposição antagônica ao estado de coisas presente. A sua fundamentação não é abstrata, mas sim enraizada nas lutas políticas que a ele remetem.

O “político” não é a somatória daquelas ações, mesmo quando existam analogias e pontos de contato entre elas. Remete ao conceito de hegemonia, entendida no sentido gramsciano de luta cultural na dimensão ético-política. Um conceito que Laclau aplicou à ideia de cadeias equivalentes crescentes entre sujeitos e ações, para a definição de uma democracia radical.

Este “político” constitui, portanto, o quadro de referência antagônico, a que as variadas ações remetem e que, ao mesmo tempo, cada uma delas contribui a formar. Existe uma relação de reciprocidade entra os dois elemento: é este que define o percurso de constituição da hegemonia.

É um percurso que tem de ser ativado, trazido à tona. As cadeias equivalentes e as articulações entre sujeitos que produzem ações políticas são a nervura e o arcabouço deste percurso.

Com base naquilo que foi dito, o elemento que pode constituir-se como quadro de referência da potência coletiva das ações deste novo “político” é a “guerra à guerra”. Este parece ser hoje o significante capas de pôr em movimento um projeto hegemônico de amplo alcance.

A guerra na sua acepção mais ampla é, como se disse, é a continuação da política da despolitização. Combatê-la com as armas da repolitização significa tornar cada ação que a contraste uma peça do novo projeto hegemônico que queremos levar a cabo.

Para tal efeito, precisamos produzir elementos convincentes, que não se limitem a contrapor. Precisamos de novos nomes. A guerra que queremos travar à guerra (ao ambiente, por exemplo) tem de afirmar que tipo de relação propomos entra a sociedade humana e a natureza; o que significa desenvolvimento, produção e consumo numa prospetiva ecossocialista, como defende Sabrina Fernandes.

O mesmo pode-se dizer para a guerra contra a guerra aos sujeitos marginais, à saúde e escola pública, ao direito a uma vida digna, a uma casa, um rendimento. O mutualismo pode oferecer soluções? Ajuda a definir um modelo societário em que investir, por estar subtraído à ganância e à valorização direta do capital?

O combate às guerras genocidas que utilizam armas produzidas direta ou indiretamente nas nossas cidades, e que transitam no comércio internacional, necessita acrescentar novas alianças àquelas que já existem, para promover ações eficazes e duradouras. O que já está ocorrendo é importantíssimo, mas não basta: a luta tem de encontrar formas de se estender não apenas na horizontal, mas também na vertical, ao longo da cadeia de abastecimento.

Os novos meios computacionais de organização, produção e controle devem tornar-se um campo de batalha, uma passagem estratégica da supply chain onde intervir. Os hackers, tal como os entende MacKenzie Wark, isto é os produtores de informações e métodos de uso dos sistemas contra os patrões vetorialistas, são um sujeito de importância vital.

* * *

A criação de cadeias equivalentes e a articulação entre sujeitos diferentes produzem saber, cuidado, solidariedade, consciência e potência. É aí onde o político fica reforçado e reforça a expansão das lutas num ecossistema que não tem confins predefinidos.

A sua dimensão define-se com base do funcionamento de uma ecologia, onde tudo coevolui e onde a distribuição das ações não é sinónimo de fraqueza, mas de variabilidade não totalizável de uma rede.

* * *

A cidade apresenta-se como o laboratório ideal onde a repolitização pode assumir materialidade e visibilidade imediata, onde é possíve experimentar um percurso que tenha como objetivo a criação de uma nova hegemonia cultural e ético-política.

Esta nova hegemonia encontra sustentação e força na ideia de cidadania ativista, que redefine as posições e as prioridades de quem vive e transforma os espaços urbanos diariamente, dentro e contra as transformações que lhe são impostas.

As articulações, os pontos de sutura entre as ações distribuídas dos sujeitos, cada um com a sua própria especificidade, contribuem para definir e ampliar o significado de “Guerra à guerra”.

Se isto significar subtrair-nos, pelo menos parcialmente, à asfixia avassaladora e criminosa que nos cerca, a guerra à guerra poderá tornar-se então a maneira de recomeçarmos a respirar coletivamente.

Aconteceu à época das cidades rebeldes, acontece hoje com a Nova York de Mamdani. As cidades, às vezes surpreendem-nos pela capacidade de transformação que demonstram, devido à autonomia, ou soberania, que as distingue e que fez com que, no passado, fossem vistas como âmbitos “ilegais”. Se a história se repetir, não teremos outra escolha senão estar, sem remorso, do lado da ilegalidade.

Leia também: "O Leviatã digital" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/poder-algoritmico.html

Arte é vida

 

Jean-Michel Basquiat 

Guerra híbrida midiática https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/dica-de-leitura_0865126294.html 

Dica de leitura

O mundo de olho no Brasil
Luciano Siqueira      

No artigo "Eleição no Brasil vira teste global sobre como resistir a Trump", na Revista Liberta , Jamil Chade aborda o pleito eleitoral brasileiro sob a ótica da geopolítica global.

Segundo o autor, a disputa pela Presidência da Repoública em especial desperta o interesse mundo afora por servir de teste sobre a capacidade do sistema democrático de um país resistir à pressão, avaliações e estratégias de desestabilização da Casa Branca sob a gestão de Donald Trump.

Enquanto as capitais europeias (como Paris, Londres, Berlim e Berna) cederam a critério dos EUA e, ainda assim, avançaram sendo alvo de avaliações e desfeitas por parte de Washington, a posição do governo brasileiro em não se dobrar às pressões passou a ser observada internacionalmente como um eventual paradigma de resistência.

O texto detalha três etapas fundamentais que devem ser sob vigilância de diplomatas e governos estrangeiros:

A reta final da campanha em que disputa acirrada torna o processo vulnerável a intensas campanhas digitais de desinformação, orquestradas por Big Techs e redes internacionais de extrema-direita (com menção à possível atuação de figuras como Elon Musk na plataforma X).

O dia da votação, onde há o risco de acusações infundadas de fraude nas urnas e episódios de intimidação ou agressão em centros de votação.

A divulgação do resultado: como a Casa Branca reagirá a se confirmar a derrota do candidato apoiado por Trump (Flávio Bolsonaro) .

Confira: https://revistaliberta.com.br/digital/eleicao-no-brasil-teste-resistencia-trump/

Leia também: Aprovação, já, da agenda da nação e dos trabalhadores https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/editorial-do-vermelho_0630240574.html 

Minha opinião

Dispersão à mineira
Luciano Siqueira     

Sempre se reconheceu na história da política institucional brasileira uma espécie de excelência mineira na formação de consensos. 

Dizia-se que nunca em Minas uma reunião daria errado porque a decisão era tomada com antecedência...

Figuras como Tancredo Neves – que dizia ser preciso ficar rouco de tanto ouvir - passaram a História como exímios formadores de consensos a partir de grotões os mais distantes. 

Tancredo começou em São João del Rei e alcançou a glória unificando a oposição na superação do regime militar. Adoeceu e morreu antes da posse, mas ganhou para sempre o título de Presidente da República. 

Mas precisamente neste pleito de 2026, Minas Gerais exibe ao país inusitada dispersão: sete candidatos ao governo do Estado— Gabriel Azevedo (MDB), Alexandre Kalil (PDT), Mateus Simões (PSD), Patrus Ananias (PT), Flávio Roscoe (PL), Cleitinho Azevedo (Republicanos) e Ben Mendes (Missão). 

No total são 11,  se acrescentarmos quatro outros de minúsculas legendas de esquerda limitadas a si mesmas. 

Donde se deduz que não há nova geração de líderes hábeis e competentes para agregar diferentes vontades. 

Claro que a dispersão não é, na atualidade condição exclusiva dos mineiros. Está praticamente em toda parte, sobretudo na extrema direita, que se apresenta dividida em pelo menos quatro candidaturas mais visíveis à Presidência da República, semelhantes em seu caráter neofacista mas incapazes de convergência. 

Ainda bem que do lado de cá mais uma vez prevalece a frente ampla em torno do presidente Lula.

Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html 

Palavra de Ho Chi Minh

“Nada é mais valioso do que a independência e a liberdade.” 
(Ho Chi Minh)   
Seu Euclides da Galileia e o Congresso do PCdoB https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/minha-opiniao_4.html 

Celso Pinto de Melo opina

Por que escrever?
Entender, conectar, explicar – e não deixar que uma ideia termine apenas em nós
Celso Pinto de Melo/substack.com   

“Como posso saber o que penso antes de ver o que digo?” (E. M. Forster [2])   
 

Há ideias que compreendemos e guardamos. Outras parecem pedir alguma coisa a mais. Pode ser uma descoberta científica, uma história quase esquecida, uma injustiça, uma imagem, uma frase encontrada num livro. Alguma coisa nos detém, permanece conosco durante algum tempo e acaba produzindo uma necessidade difícil de explicar: encontrar as palavras certas e chamar alguém para perto.

Talvez todo ato de escrever comece aí. Não necessariamente no desejo de ensinar, muito menos na certeza de ter alguma coisa importante a dizer. Muitas vezes escrevemos justamente porque ainda não sabemos exatamente o que pensamos. A pergunta de E. M. Forster contém uma verdade que se torna mais evidente quanto mais se escreve: colocar uma ideia em palavras não é apenas registrá-la, mas submetê-la a uma espécie de prova. Pensamentos que pareciam claros revelam suas lacunas, certezas perdem as bordas, e uma palavra que não encontramos denuncia alguma coisa que ainda não compreendemos. Escrever obriga o pensamento a se explicar.

Há, porém, algo ainda mais interessante. Uma ideia encontra outra, e nem sempre percebemos imediatamente o que existe entre elas. Um fato histórico fica guardado na memória; tempos depois, uma descoberta científica parece tocá-lo por algum ponto ainda impreciso. Uma pintura faz lembrar uma guerra. Uma tecnologia recente lança outra luz sobre uma decisão tomada por um país muitas décadas antes. Uma lembrança pessoal aproxima-se inesperadamente de algo que acabamos de ler. Durante algum tempo são apenas fragmentos, até que aparece uma terceira coisa – outra história, uma frase, uma imagem, uma informação aparentemente laterais – e aquilo que estava separado começa a se organizar em uma mesma figura.

Há uma formulação sobre isso que li ou ouvi certa vez e cuja autoria nunca consegui reencontrar. Guardei a ideia, não as palavras exatas. Dizia aproximadamente que quase todo mundo tem uma boa história para contar; quando alguém tem duas histórias e percebe uma relação entre elas, já há algo interessante; mas, quando uma terceira se junta às duas primeiras de maneira inesperada, acontece alguma coisa diferente. Pode ser aí que nasça um ensaio.

Não sei explicar inteiramente o que ocorre nesse instante. Há algo de associação e algo de descoberta. A conexão parece óbvia depois que foi encontrada, mas não existia antes de alguém percebê-la. É uma pequena química das ideias, e uma das razões para escrever está justamente em descobrir se essa conexão realmente existe. Não escrevemos apenas para registrar aquilo que já sabemos; escrevemos também para seguir uma relação que apenas pressentimos e descobrir aonde ela nos leva.

Stephen Jay Gould, paleontólogo, biólogo evolucionista e um dos grandes ensaístas científicos de seu tempo, era mestre nisso. Podia começar com um fóssil, uma concha, um jogador de beisebol, uma classificação biológica obscura ou algum detalhe da obra de Darwin e, poucas páginas depois, fazer o leitor perceber que estava pensando sobre contingência, preconceito, diversidade, acaso ou sobre nossa irresistível tendência a procurar ordem onde talvez exista apenas história. Não eram digressões: uma coisa iluminava a outra. Ao falar de Darwin, Gould não diminuía a complexidade de seu pensamento para torná-lo acessível; fazia algo muito mais difícil, construindo um caminho até ele. O leitor não recebia apenas uma conclusão, mas era convidado a acompanhar o percurso e a descobrir também as relações entre coisas que, até então, pareciam distantes.

Lewis Thomas, médico, pesquisador e outro extraordinário ensaísta da ciência, fazia algo semelhante por caminhos diferentes. Podia começar com uma célula, uma mitocôndria, uma bactéria ou um inseto e terminar refletindo sobre sociedades humanas, linguagem, medicina ou nossa própria condição. Em The Lives of a Cell, a ciência não precisava abrir mão de sua complexidade para adquirir humanidade; ao contrário, quanto mais profundamente Thomas observava a vida, mais surpreendentes se tornavam as conexões que dela emergiam.

Gould e Thomas não eram apenas grandes explicadores. Tinham a rara capacidade de aproximar coisas aparentemente distantes e, ao conectá-las, fazer surgir uma ideia que não estava inteiramente em nenhuma delas. Eram, nesse sentido, grandes conectores, e talvez esteja aí uma das razões pelas quais seus ensaios permanecem tão vivos. Eles não nos dizem apenas alguma coisa que não sabíamos; fazem com que vejamos de maneira diferente coisas que, muitas vezes, já conhecíamos separadamente. Poucas reações de um leitor podem ser mais gratificantes do que esta: “Nunca tinha pensado nisso assim.”

A curiosidade, naturalmente, vem antes da escrita e raramente respeita as fronteiras que estabelecemos entre os assuntos. Aprendi isso muito cedo, numa casa onde os livros faziam parte da paisagem. Meu pai lia sobre os temas mais diversos, e tive à disposição, ainda menino, O Tesouro da Juventude, as páginas de Seleções do Reader’s Digest e muitos outros livros. História, ciência, biografias, lugares distantes, descobertas, curiosidades sobre a natureza: não me ocorria que devesse haver uma razão diferente para me interessar por cada uma dessas coisas. Eram simplesmente coisas que eu ainda não sabia.

Só depois aprendemos a dividir o conhecimento em disciplinas. A curiosidade, felizmente, nem sempre obedece.

A especialização do conhecimento é indispensável. Nenhuma ciência avançaria muito se todos soubéssemos apenas um pouco sobre muitas coisas. É preciso passar anos dentro de um problema, dominar métodos, aprender uma linguagem, conhecer o que já foi feito e reconhecer aquilo que ainda não sabemos. O risco surge quando as fronteiras necessárias ao trabalho se transformam em fronteiras do pensamento, porque algumas das ideias mais interessantes aparecem justamente quando atravessamos uma delas. A Física encontra a Biologia; a ciência dos materiais encontra a medicina; uma pergunta sobre energia leva à geopolítica; uma tecnologia conduz à história econômica; uma discussão aparentemente técnica sobre materiais críticos pode terminar numa questão sobre autonomia e soberania.

Por isso, explicar sempre me pareceu inseparável de contextualizar. Uma equação tem uma história, uma descoberta responde a alguma pergunta, uma tecnologia surge de uma combinação de conhecimento, necessidade, tentativa, erro, instituições e circunstâncias. Retirar completamente esse contexto pode tornar a explicação mais curta – mas também menos verdadeira.

Foi algo que pude explorar particularmente ao ensinar a disciplina História da Física. Mais do que reconstruir uma sucessão de descobertas e nomes consagrados, interessava-me mostrar aos estudantes que aquilo que hoje aparece nos livros como uma sequência ordenada de leis e teorias foi, quase sempre, um caminho muito mais incerto. As descobertas não surgem no vazio: nascem das perguntas que uma época consegue formular, dos instrumentos de que dispõe, das necessidades que a desafiam e também das ideias que acabam se revelando erradas.

A ciência não avança apenas pelos experimentos que dão certo ou pelas hipóteses que sobrevivem. Avança também por resultados inesperados, interpretações equivocadas, tentativas frustradas e caminhos que precisam ser percorridos até se revelarem sem saída. Uma hipótese descartada não representa necessariamente conhecimento perdido; ao eliminar uma possibilidade, pode tornar outra mais visível. O erro, quando reconhecido e compreendido, também produz conhecimento.

Contar apenas a sucessão dos acertos transforma a história da ciência numa marcha quase inevitável em direção à verdade e apaga justamente uma de suas dimensões mais humanas e fecundas: a hesitação entre possibilidades, as perguntas mal formuladas, os becos sem saída, as conexões que não resistiram à evidência – e aquele momento raro em que, entre caminhos concorrentes, uma relação inesperada começa a fazer sentido.

Essa maneira de olhar para o conhecimento também influenciou minha relação com os estudantes. Formar alguém nunca me pareceu apenas transmitir o necessário para resolver o problema específico de uma disciplina, dissertação ou tese. É também ensinar uma maneira de perguntar, desconfiar de respostas fáceis, aprender com o que não funcionou, procurar relações e perceber por que um problema importa e com que outras questões ele conversa. Talvez ensinar seja também ensinar a conectar.

Há uma alegria particular quando, anos depois, percebemos que algumas dessas perguntas continuaram em outras pessoas. O conhecimento tem uma propriedade extraordinária: compartilhá-lo não o divide; multiplica-o. E aquilo que transmitimos raramente permanece igual. Uma ideia encontra outra pessoa, outra experiência, outro problema; é contestada, modificada, ampliada e, às vezes, chega muito longe de onde começou.

Escrever é uma extensão dessa mesma conversa. Uma sala de aula tem paredes e uma conversa termina quando as pessoas se despedem; um texto pode ultrapassar ambas as limitações. Pode encontrar alguém que não conhecemos, em outro lugar, em outro tempo, movido por perguntas que jamais poderíamos prever. Há algo de extraordinário nessa possibilidade de colocar uma ideia em circulação sem saber quem a encontrará nem o que fará com ela.

Mas comunicar ideias não significa apenas divulgar conhecimento científico. Compreender o mundo nunca é uma atividade inteiramente separada do mundo em que vivemos. Há experiências que nos ensinam isso cedo. Crescer durante a ditadura militar brasileira, numa família que conheceu a violência da repressão, tornou difícil imaginar conhecimento, liberdade e sociedade como questões inteiramente independentes. Ao mesmo tempo, uma formação familiar marcada pela compaixão, pela solidariedade e pelo humanismo ensinava que compreender alguma coisa não nos dispensa de perguntar o que ela significa para os outros. Algumas indignações permanecem.

Ciência e tecnologia acabaram, assim, conduzindo-me também a perguntas sobre desenvolvimento e soberania. Por que alguns países conseguem transformar conhecimento em capacidade e outros não? Por que uma descoberta científica prospera em alguns lugares e não encontra condições para avançar em outros? O que separa conhecer uma tecnologia de ser capaz de produzi-la? Por que sociedades que formam excelentes cientistas e engenheiros às vezes permanecem dependentes daquilo que sabem perfeitamente explicar?

A que campo pertencem essas perguntas – à ciência, à economia, à história, à política? Talvez a todos eles, porque pertencem, antes de tudo, ao mundo que tentamos compreender. E é justamente aí que as conexões voltam a aparecer. Uma história sobre o programa nuclear brasileiro pode iluminar uma discussão contemporânea sobre semicondutores; uma decisão tomada setenta anos atrás pode ajudar a compreender uma dependência tecnológica presente; uma pintura de Goya pode conversar com uma fotografia de uma guerra contemporânea; Darwin pode ajudar a pensar sobre diversidade; uma célula, sobre cooperação.

Nenhuma dessas aproximações é automaticamente verdadeira. Esse é o risco – e também a disciplina – do ensaio. Conectar não significa simplesmente colocar duas coisas lado a lado: é preciso perguntar se existe realmente uma relação entre elas ou se estamos apenas seduzidos por uma semelhança superficial. A conexão precisa sobreviver à evidência.

Nesse ponto, escrever volta a se aproximar do trabalho científico. Partimos de uma hipótese, seguimos suas consequências, procuramos aquilo que a sustenta e aquilo que a contradiz e, às vezes, descobrimos que estávamos errados. Também por isso escrever ajuda a pensar: a conexão que parecia brilhante pode não resistir à página, enquanto outra, que mal havíamos percebido, ganha força à medida que procuramos explicá-la.

Nem tudo que nos leva à página, porém, nasce de uma pergunta intelectual. Algumas coisas pedem para serem escritas porque correm o risco de desaparecer: uma pessoa cuja história começa a se apagar, uma decisão que o tempo simplificou, uma injustiça transformada em nota de rodapé, uma experiência aparentemente pequena que contém alguma coisa que reconhecemos como humana. Escrever pode ser também uma pequena resistência ao esquecimento.

Aprendi isso, creio, sem perceber. Meu pai morreu quando eu ainda era universitário, e coube-nos desfazer sua biblioteca. Os livros foram doados e se dispersaram, seguindo caminhos que hoje já não consigo reconstruir. Durante muito tempo guardei daquela cena sobretudo a tristeza de vê-los partir; só muito depois me ocorreu que uma biblioteca talvez nunca desapareça inteiramente quando cumpriu sua função. Não sei onde foram parar quase todos aqueles livros, mas sei o que alguns deles deixaram.

Com as ideias acontece algo parecido. Recebemos algumas de pessoas que conhecemos; outras chegam por livros escritos séculos atrás. Algumas nascem numa sala de aula, outras aparecem numa conversa, e muitas permanecem durante anos aparentemente isoladas, esperando uma conexão que ainda não sabemos reconhecer. Até que uma encontra outra – e depois uma terceira.

Alguma coisa se acende.

Tentamos então compreender o que aconteceu, procuramos as palavras e escrevemos. Quando acreditamos ter entendido alguma coisa, nasce quase inevitavelmente a vontade de chamar alguém para perto e dizer:

Veja isto.

Essa pode ser, afinal, uma resposta à pergunta do começo. Escrevemos para descobrir o que pensamos e para testar as conexões que pressentimos; para explicar sem empobrecer e preservar aquilo que não deveria desaparecer; para colocar uma ideia em circulação e permitir que encontre outras ideias, outras experiências, outras pessoas.

Não sabemos aonde chegará, nem o que poderá se tornar quando chegar. E nisso reside parte do fascínio da escrita: um pensamento que começou como encontro entre coisas dispersas deixa de pertencer apenas a quem o formulou e segue seu próprio caminho.

Escrever não é apenas colocar um pensamento no papel.

É colocá-lo a caminho.

Para que um pensamento não termine onde nasceu.


[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

[2] E. M. Forster (1879–1970) foi um romancista, ensaísta e crítico literário inglês, cuja obra foi marcada pela reflexão sobre as relações humanas, as convenções sociais e a dificuldade – e a necessidade – de estabelecer conexões entre pessoas e experiências. 

Leia também "Tecnologia: não confunda a minha cabeça" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html