Jornalismo sem pluralismo
O jornalismo
econômico troca o debate plural pelo consenso do mercado
Fernando Nogueira da Costa*/A Terra é
Redonda
1.
Há, no jornalismo econômico brasileiro, narrativas recorrentes
apresentadas muitas vezes como se fossem proposições técnicas incontroversas,
quando na realidade dependem de escolhas teóricas, institucionais e
distributivas. Isso não significa toda crítica fiscal ser um “mito”, nem a
inflação ter deixado de importar. Significa ser necessário distinguir
identidades contábeis, restrições institucionais, hipóteses comportamentais e
juízos normativos.
Os dados atuais tornam essa discussão oportuna. O recorrente diagnóstico
mandatório de economista fiscalista midiático – “a dívida pública terá de ser
paga” – é uma formulação enganosa,
Um Estado sem dívida externa e com títulos de dívida pública em moeda
nacional, isto é, risco soberano, não funciona como uma família na qual
herdeiros têm de liquidar todas as dívidas do finado antes de receber eventual
herança. A dívida pública é normalmente refinanciada: títulos vencem, o Tesouro
os resgata e simultaneamente emite outros.
O Tesouro Nacional administra emissões, resgates, estoque, vencimentos e
reserva de liquidez – justamente porque administrar a dívida pública significa
gerir continuamente seu refinanciamento. Os detentores de títulos de dívida
pública – Instituições Financeiras em torno de 31,8% do total dos títulos;
Fundos de Previdência: aproximadamente 22,6%; Fundos de Investimento: cerca de
21,6%; Não-residentes (Estrangeiros): 10%; Seguradoras, Governo e Tesouro
Direto com participações menores – estão interessados nos permanentes
rendimentos de juros. Logo, quando há vencimentos dos títulos públicos, compram
outros.
A pergunta economicamente relevante não é: “Quando o Brasil pagará sua
dívida?”, mas sim: “Em quais condições o Estado conseguirá refinanciar sua
dívida ao longo do tempo?” Isso desloca radicalmente o problema.
O limite não é uma imaginária data de quitação do estoque, mas a
interação entre taxa de juros, crescimento nominal do PIB, resultado primário,
composição e maturidade da dívida, demanda dos investidores por títulos e
credibilidade político-institucional. Simplificadamente: Δ(d) ≈ (r−g) d – p;
onde (d) é dívida/PIB, (r) é o juro real
efetivo, (g) é o crescimento da renda (ou arrecadação fiscal)
e (p) é o superávit primário.
Essa equação mostra algo obscurecido pelo debate jornalístico sem pluralismo:
uma taxa real de juros muito elevada pode desestabilizar a dívida mesmo com um
resultado primário relativamente próximo do equilíbrio.
2.
Bancos, fundos de investimento, fundos de pensão, seguradoras e famílias
não desejam necessariamente “livrar-se” da dívida pública. Para eles, o passivo
do governo é ativo financeiro.
O título público é simultaneamente: Passivo do Estado = Ativo financeiro
dos detentores, inclusive bancos públicos e governos. Por isso, “eliminar a
dívida pública” significaria também eliminar parcela importante dos ativos
seguros usados na gestão patrimonial privada e nos balanços de entidades
públicas.
Nos números fiscais há uma assimetria e precisam ser distinguidos entre
realizados e projetados. Aproximadamente 0,5% do PIB de déficit primário e 8,5%
de juros são valores projetados para 2026 no cenário-base da IFI do Senado.
Segundo o Banco Central, em doze meses, o setor público consolidado
acumulou déficit primário de R$ 157,2 bilhões, equivalente a 1,19% do PIB. No
acumulado em doze meses até junho, os juros nominais alcançaram R$ 1,16
trilhões (8,8% do PIB). O resultado nominal do setor público consolidado,
incluindo o resultado primário e os juros nominais apropriados, no acumulado em
doze meses, teve déficit nominal de R$ 1,31 trilhões (9,99% do PIB).
Mesmo usando o dado realizado, a diferença é extraordinária: a conta de
juros é cerca de 7,4 vezes o déficit primário. Isso não demonstra ser qualquer
gasto social irrelevante fiscalmente. Previdência, saúde e educação precisam
ser financiados dentro da capacidade fiscal e tributária do Estado.
Mas enfraquece a narrativa ortodoxa dos “fiscalistas”, segundo a qual o
déficit nominal brasileiro seria essencialmente consequência de um “Estado
gastador” em políticas sociais. Contabilmente, hoje, a grande diferença entre
um déficit primário relativamente pequeno e o enorme déficit nominal é a conta
de juros.
Aqui aparece um segundo mito: confundir déficit primário com “gastos
sociais”. Nessa sutileza conceitual, o resultado primário não mede
simplesmente: gastos sociais – receitas. Ele agrega receitas e despesas
primárias de diversas naturezas. Portanto, não podemos inferir serem saúde,
educação ou Previdência os únicos responsáveis diretos pelo déficit primário de
1,19% do PIB.
Apesar de todo o conjunto das despesas primárias do Estado, grande parte
delas sociais, receitas tributárias financiam quase integralmente essas
despesas. O desequilíbrio líquido primário é pequeno, quando comparado à
despesa líquida com juros. Essa formulação factual é difícil de contestar.
3.
A baixa inflação demonstra a natureza do problema. O IPCA de julho foi
apenas 0,07%, acumulando 3,44% em 2026 e 4,44% em doze meses. Enquanto isso, a
Selic está em 14% ao ano. O próprio Copom caracteriza esse nível como
“significativamente contracionista”.
Logo, há uma questão econômica legítima, merecedora de debate plural.
Não se deve simplesmente subtrair os dois números para obter o juro real ex
ante – o correto é considerar a inflação esperada –, mas qualquer
medida razoável aponta para juros reais excepcionalmente elevados.
Por isso, a inflação em nível historicamente baixo deixou de justificar,
por si só, toda a discussão macroeconômica brasileira continuar girando em
torno do combate inflacionário, sem ponderação equivalente dos efeitos
patrimoniais, fiscais, distributivos e produtivos da taxa de juros.
Fundamento a “estagdesigualdade” com a Teoria do valor financeiro,
elaborada por mim em um livro digital. A Selic elevada produz efeitos
diferentes sobre dois circuitos: (i) No circuito da renda e produção: Juros↑ →
Crédito mais caro → Alavancagem empresarial↓ → Investimento↓ → Demanda↓ →
Crescimento da renda↓; (ii) No circuito da capitalização patrimonial: Selic↑ →
CDI↑ → Renda fixa↑ → Juros compostos → Patrimônio financeiro↑.
Isso cria uma configuração paradoxal: fluxo de renda crescendo
lentamente + estoque financeiro capitalizando rapidamente. É precisamente aí
onde o conceito de estagdesigualdade ganha força analítica.
Quem depende predominantemente do trabalho vive no circuito do fluxo de
renda relativamente estagnado, diante do padrão da Era desenvolvimentista. Quem
já acumulou grande patrimônio financeiro participa intensamente do circuito de
capitalização.
Há um feedback: Selic elevada → despesa pública com juros → renda
financeira privada → acumulação patrimonial → maior concentração de riqueza.
Simultaneamente: Selic elevada → custo de capital → menor alavancagem
financeira da produção → menor investimento → menor crescimento da renda.
A combinação dos dois circuitos produz justamente: Estagdesigualdade =
baixo dinamismo do fluxo de renda (estagnação relativa) + capitalização
assimétrica dos estoques (desigualdade patrimonial).
4.
Há quatro contrapontos importantes a uma visão indiferente ao problema
fiscal.
Primeiro, rolar dívida não significa inexistir restrição fiscal. Se
investidores exigirem taxas crescentes, encurtarem prazos ou alterarem a
composição desejada de suas carteiras, o custo de refinanciamento aumenta.
Segundo, resultado primário importa, particularmente porque interage com
(r-g). Juros altos tornam necessário um resultado primário maior para
estabilizar dívida/PIB; mas déficits primários persistentes também aumentam o
estoque sobre o qual os juros incidem.
Terceiro, juros não constituem simplesmente uma transferência do Estado
para “rentistas”. Os títulos pertencem direta ou indiretamente a fundos de
pensão, fundos de investimento, bancos, seguradoras, empresas e pessoas
físicas. O efeito distributivo precisa ser medido pela propriedade final desses
ativos.
Quarto, não é possível atribuir toda a baixa taxa de investimento à
Selic. Expectativas de demanda, infraestrutura, tecnologia, câmbio, tributação,
incerteza política, capacidade instalada e perspectivas de rentabilidade também
entram na decisão empresarial.
O verdadeiro problema jornalístico brasileiro é, portanto, o
reducionismo ortodoxo fiscalista – e não “fake news econômicas”.
Mitos econômicos são produzidos pela transformação de uma interpretação teórica
convencional, muitas vezes uma crença equivocada, em senso comum jornalístico.
Forma-se uma cadeia: hipótese teórica → interpretação de economistas
neoliberais → consenso do mercado → jornalismo econômico → opinião pública. No
fim dessa cadeia, deveria falsear a hipótese inicial – e não a conclusão
aparecer como se fosse um fato.
“Dívida tem de ser paga”, “o governo precisa fazer a mesma coisa de uma
família”, “déficit público decorre de excesso de gasto social”, “juros altos
são simplesmente consequência do risco fiscal” e “qualquer inflação acima da
meta exige juros extremamente elevados” são proposições discutíveis, não
identidades contábeis.
A alternativa plural não seria simplesmente inverter todas elas. Seria
mostrar ao leitor as causalidades concorrentes e seus feedbacks: de
um lado, Selic elevada → déficit nominal maior → dívida pública / PIB maior →
pressão por ajuste fiscal; de outro lado: Selic elevada → menor alavancagem
financeira → menor investimento. Ambas as resultantes se sobrepõem e resultam
em: menor crescimento da renda → menor arrecadação tributária → piora fiscal.
Em contrapartida, no estoque de riqueza: Selic elevada → rendimentos
financeiros → juros compostos → capitalização patrimonial → concentração da
riqueza.
Essa abordagem sistêmica muda a pergunta central. Em vez de discutir
isoladamente “gasto público demais ou de menos?”, passa-se a investigar como
política monetária, política fiscal, estrutura financeira, distribuição
patrimonial e crescimento interagem e se retroalimentam.
Nesse enquadramento da complexidade, minha hipótese pode ser formulada
de maneira provocadora de um debate plural: o problema macroeconômico brasileiro
contemporâneo não é simplesmente um “déficit fiscal”, mas sim uma configuração
financeiro-fiscal na qual juros muito elevados simultaneamente ampliam o
déficit nominal, remuneram estoques de riqueza, encarecem a alavancagem e
restringem a expansão do fluxo de renda e, portanto, da arrecadação fiscal.
Esta é uma hipótese de Economia política a ser testada empiricamente. É
justamente o tipo de hipótese ausente quando o debate econômico é apresentado
como se houvesse apenas uma interpretação tecnicamente admissível.
*Fernando Nogueira da Costa é professor
titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos
bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
A soberania em destaque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01847079127.html