Perspectivas econômicas para 2026
Em 2026, o Brasil navega entre desemprego baixo e
desaceleração, enquanto o mundo enfrenta estagnação avançada e bolhas de risco
nos EUA
LUIZ GONZAGA
BELLUZZO, ANDRÉ LUIZ
PASSOS SANTOS, NATHAN CAIXETA & MURILO
TAMBASCO*/A Terra é Redonda
1.
Os dias que inauguram o ano costumam
ser marcados pela proliferação de elaborados panegíricos proferidos por
economistas e analistas financeiros, empenhados em delinear projeções acerca do
cenário político-econômico do período vindouro, oscilando entre distintos
matizes de otimismo e pessimismo.
No presente artigo, pretendemos
oferecer ao leitor uma apreciação rápida e ponderada das tendências em curso
que conformam as perspectivas da economia brasileira e mundial para o ano de
2026, bem como assinalar potenciais focos de tensão e pontos de inflexão no
ambiente econômico-financeiro, os quais podem requerer atenção redobrada por
parte dos agentes econômicos e dos formuladores de políticas públicas.[i]
No contexto brasileiro, a conjuntura é
cercada de perigos e incertezas. Por um lado, no período recente, o país
registrou o menor desemprego da série histórica, chegando a 5,2% e foi
acompanhado da menor taxa de informalidade, registrada em 37,7%. Esse movimento
foi resultado direto do crescimento acelerado da economia entre o início de
2023 e a metade do ano de 2024, proporcionado pela forte expansão do consumo e
do setor de serviços, além da reposição e incremento do estoque de capital em
vista da maior expectativa de demanda gerada pelo impulso fiscal no ano de
2023.
Por outro, os indicadores recentes de
atividade econômica revelam tendência de desaceleração da economia. Essa
tendência é puxada, sobretudo, pelo fraco desempenho do consumo privado e da
indústria de transformação, o que poderá, em breve, desacelerar os
investimentos e reduzir o crescimento dos empregos diante de uma expectativa de
demanda que dá sinais de esgotamento e de uma taxa de juros que inviabiliza o
lucro empresarial, além de elevar o endividamento das famílias e encarecer o
custo de capital das empresas.
Outro fator de destaque é a retração do
impulso fiscal, conforme revela relatório da Secretaria de Política Econômica
(SPE: após contribuir com 3,8% do PIB entre 2023 e 2024, o impulso tornou-se
negativo em 2024-2025 (-2,84%), reforçando a desaceleração econômica. Ao
contrário do que é frequentemente preconizado, o cenário recente reflete a combinação
de políticas fiscal e monetária contracionistas.
Soma-se a isso o caráter cíclico do
crescimento brasileiro. Sem elevação sustentada da taxa de investimento e da
participação da indústria de transformação – hoje no menor nível histórico em
relação ao PIB –, não é plausível manter taxas de crescimento acima da média da
última década. A estagnação desses dois vetores centrais limita ganhos de
produtividade e condena a economia a ciclos curtos de expansão baseados no
consumo ou nas exportações.
2.
No debate recente, atribui-se a
desaceleração ao risco fiscal, somada à suposta ineficácia da política
monetária. Contudo, se as projeções se confirmarem, o governo Lula III
encerrará o período com a menor inflação média desde o regime de metas,
favorecida sobretudo pela valorização cambial ao longo de 2025. Ainda assim, o
cmantém uma postura restritiva, condicionada por uma meta de inflação
excessivamente baixa para nossos padrões históricos, adiando o afrouxamento
monetário.
A combinação de juros elevados e câmbio
apreciado, apesar de contribuir para o controle dos preços, é responsável pela
ampliação do déficit em transações correntes, redução do superávit comercial e
intensificação da remessa de lucros e dividendos ao exterior. Nesse contexto, o
Banco Central antecipa choques, eleva juros rapidamente e prolonga a restrição
monetária, temendo a amplificação inflacionária via demanda e indexação.
Tal arranjo impõe elevado custo fiscal.
Cada aumento de 1 ponto percentual na taxa básica eleva os encargos da União em
0,49% do PIB. Atualmente, os juros consomem cerca de 7,8% do PIB e mais de 40%
do orçamento federal, pressionando a trajetória da dívida. Historicamente, os
juros nominais explicaram mais de 80% do crescimento da dívida líquida,
enquanto o resultado primário teve contribuição limitada, exceto durante a pandemia.
Entre 2003 e 2014, crescimento
econômico, expansão do gasto e superávits fiscais reduziram a dívida em
proporção do PIB. O período posterior, marcado pela austeridade permanente,
resultou em estagnação, déficits recorrentes e piora fiscal. Cortes sistemáticos
de gastos comprimem renda, investimento, emprego e arrecadação, agravando as
próprias contas públicas.
Embora o atual governo tenha se
aproximado do déficit zero em 2025, persiste a pressão por um ajuste adicional
de 3% a 4% do PIB, incluindo cortes em benefícios sociais e pisos
constitucionais. Tal estratégia é economicamente regressiva e ameaça reverter
avanços do mandato. Em contraste, a isenção do IR para rendas até R$ 5 mil,
acompanhada da tributação das altas rendas, representa vitória relevante para o
crescimento da demanda e a redução da desigualdade.
3.
O cenário internacional revela-se
igualmente desafiador. Segundo projeções da Organização para a Cooperação e o
Desenvolvimento Econômico (OCDE), embora a economia mundial tenha demonstrado relativa
resiliência diante dos choques comerciais e financeiros recentes, a expansão
global deve se situar em torno de 3,2%, patamar insuficiente para sustentar um
ciclo robusto de crescimento nas economias emergentes.
Preocupa sobremaneira a estagnação dos
países desenvolvidos que, mesmo após o fim dos ciclos de aperto monetário
direcionados a combater o choque de oferta provocado pelas guerras na Rússia e
em Israel, não chegaram a exibir o desempenho requerido para frear o processo
de desindustrialização que acomete suas economias e a elevação do desemprego
estrutural ligado ao avanço da indústria 4.0 sobre os setores industrial e de
serviços.
Outro ponto de atenção diz respeito às
valorações de mercado e à concentração de risco no setor tecnológico dos Estados
Unidos. O grupo de empresas denominado Magnificent Seven (Sete
magníficas) — composto por gigantes como Microsoft, Apple, Alphabet,
Amazon, Meta, Tesla e Nvidia — alcançou uma capitalização conjunta que
ultrapassa o Produto Interno Bruto de grandes economias, como a União Europeia.
A valorização desses ativos,
impulsionada por expectativas otimistas sobre Inteligência artificial e lucros
futuros, levou os múltiplos a níveis elevados e remete a episódios de
exuberância financeira marcados por concentração de ganhos e distanciamento dos
fundamentos. No S&P 500, essas empresas já representam cerca de 35% do
índice, aumentando o risco sistêmico. Nos últimos cinco anos, enquanto o índice
subiu 98,2%, as “sete magníficas” responderam por 57% do avanço, com crescimento
agregado de 234,8%.
A valorização das ações
norte-americanas já elevou o valor de mercado das empresas para cerca de 230%
do PIB dos EUA, o dobro do nível pré-2008, enquanto os múltiplos de lucro se
aproximam dos patamares observados antes da bolha dotcom e da
Grande crise. Paralelamente, o fortalecimento do ouro e a maior demanda por
títulos públicos sinalizam um reposicionamento defensivo e maior aversão ao
risco. Esse conjunto de fatores sustenta a preocupação com uma nova crise
financeira internacional, potencialmente mais difícil de conter do que a
anterior.
*Luiz Gonzaga
Belluzzo, economista, é Professor Emérito da Unicamp. Autor entre outros
livros, de O tempo de Keynes nos tempos do capitalismo (Contracorrente).
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*André Luiz
Passos Santos é doutor em desenvolvimento pela Unicamp e sócio da BPCT
Consultoria Econômica.
*Nathan
Caixeta é mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e sócio-diretor
da BPCT Consultoria.
*Murilo
Tambasco é mestrando em economia na PUC-SP e sócio da BPCT Consultoria
Econômica.
Nota
[i] Para
acesso à análise completa, com o desenvolvimento integral dos argumentos, clique aqui.
Otimismo com 2026 cresce e vai a 69% entre os brasileiros https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/boa-noticia_28.html