14 julho 2026

Pirataria em Ormuz

Trump tenta impor pedágio em Ormuz e transforma rota em negócio dos EUA
Anúncio de taxa de 20% sobre cargas que cruzam o estreito aprofunda escalada contra o Irã e é denunciado como pirataria por desafiar normas internacionais
Lucas Toth/Vermelho  

A guerra imperialista contra o Irã ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (14), quando Donald Trump anunciou que pretende cobrar uma taxa de 20% sobre todas as cargas transportadas pelo Estreito de Ormuz. 

A medida acompanha a retomada do bloqueio naval contra o Irã e a tentativa de Washington de se autoproclamar “guardião” de uma das mais importantes rotas marítimas do planeta, por onde passa cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo.

A proposta foi recebida com indignação por governos, especialistas e organismos internacionais. 

Trump afirmou que os Estados Unidos passarão a ser conhecidos como “o guardião do Estreito de Ormuz” e que, por uma questão de “justiça”, deverão ser “reembolsados” pelos custos de garantir a segurança da navegação. 

Segundo o presidente norte-americano, a cobrança de 20% sobre todas as cargas transportadas serviria para custear as operações militares e de patrulhamento realizadas na região.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a iniciativa como pirataria. A Organização Marítima Internacional (IMO) reiterou que não existe base legal para a cobrança de taxas pela simples passagem em estreitos utilizados pela navegação internacional. 

Até mesmo Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, havia declarado semanas atrás que nenhum país tem o direito de impor pedágios em hidrovias internacionais. A Casa Branca agora contradiz sua própria posição para tentar transformar presença militar em fonte de arrecadação.

O chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que Trump está correto ao dizer que quem garante a segurança da navegação deveria ser compensado, mas lembrou que essa função sempre foi exercida pelo próprio Irã. 

“Vinte por cento é, obviamente, muito. Seremos justos”, declarou. Teerã também denunciou a medida como uma tentativa de extorsão econômica e reafirmou que não reconhecerá qualquer autoridade norte-americana sobre o estreito.

O anúncio ocorre em meio à continuidade da guerra desencadeada pela escalada dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. 

Nesta terça-feira (14), forças norte-americanas voltaram a bombardear Bandar Abbas, Kish, Qeshm e Abu Musa. Em resposta, o Irã manteve ataques contra instalações militares dos EUA no Kuwait, Bahrein e Jordânia. A tensão já afeta a navegação comercial e impulsiona uma nova alta dos preços internacionais do petróleo.

Se a medida sair do papel, o alvo não será apenas o Irã. China, Índia, Japão, países europeus e os próprios exportadores árabes dependem de Ormuz para transportar energia e mercadorias. 

Ao reivindicar o direito de taxar uma das principais artérias do comércio mundial, Washington amplia seu confronto com Teerã e abre uma disputa com grande parte da comunidade internacional. 

O que Trump apresenta como “segurança” é visto por seus críticos como uma tentativa de converter poder militar em instrumento de cobrança sobre o restante do mundo.

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"250 anos do império decadente dos EUA" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/eua-decadencia.html

Humor de resistência

 

Aroeira

Pesquisa mostra Lula à frente em todos os cenários para 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bons-sinais.html 

IA em questão

Mais de 300 especialistas e ganhadores do Nobel alertam para impactos da IA
Em manifesto, eles apontam riscos como o deslocamento de emprego em larga escala e pedem ação imediata de governos, empresas e lideranças da tecnologia
Priscila Lobregatte/Vermelho 


 

Manifesto assinado por ao menos 380 especialistas internacionais, incluindo 16 ganhadores do Prêmio Nobel, chama atenção para os impactos da inteligência artificial nos próximos anos e pede ação rápida de governos, empresas e formuladores de políticas e lideranças da área de tecnologia para enfrentá-los.

A iniciativa é dos economistas Erik Brynjolfsson, Ajay Agrawal, Anton Korinek e Tom Cunningham, da Stanford Digital Economy Lab, da Universidade de Stanford, nos EUA.

Com um texto enxuto, composto por três itens, o manifesto — intitulado “Temos de Agir Agora: uma Declaração sobre a Transformação da Economia da IA”— alerta que essa tecnologia “pode se tornar radicalmente mais poderosa nos próximos dez anos”.

Saiba mais: Eleições 2026: o que muda com IA, cotas e transporte eleitoral

Diz, ainda, que tal processo “poderia impulsionar uma transformação sem precedentes de nossa economia, maior do que a Revolução Industrial, mas se desdobrando em um período de tempo muito mais curto. Poderia trazer riscos, incluindo deslocamento de emprego em larga escala, bem como oportunidades como grandes ganhos nos padrões de vida”.

Por fim, salienta que “economistas, formuladores de políticas e líderes de tecnologia devem agir agora para entender a economia transformadora da IA e construir os incentivos, salvaguardas e instituições necessárias para orientar a IA em uma direção que complemente os seres humanos e beneficie a sociedade”.

Na avaliação de Erik Brynjolfsson, Jerry Yang e Akiko Yamazaki, professores Stanford, “as capacidades da IA estão avançando muito mais rápido do que a nossa compreensão sobre as suas implicações econômicas. Nessa lacuna, residem as maiores oportunidades da nossa época. Devemos agir agora para guiar a IA para complementar os seres humanos — em vez de simplesmente imitá-los – e para gerar prosperidade para muitos, não apenas para os poucos”.

“Estamos dirigindo no nevoeiro, e é extraordinariamente difícil antecipar o que vai acontecer. Este é o momento certo para um esforço coordenado que traga clareza a uma situação confusa”, disse Tom Cunningham, que também é pesquisador do Model Evaluation & Threat Research (METR), instituto de pesquisa sem fins lucrativos, que estuda sistemas avançados de IA.

O ganhador do Nobel de Economia Michael Spence, professor emérito da Universidade de Nova York, apontou que “a escala, o escopo e a velocidade dos avanços na IA, combinados com um alto nível de incerteza sobre a magnitude e o momento dos impactos em muitas partes da economia”, exigem uma abordagem conjunta “para direcionar a IA de maneira benéfica”.

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Celso Pinto de Melo: Como plataformas digitais transformam política em comportamento de enxame https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/celso-pinto-de-melo-opina_0232354324.html

Arte é vida

 

Tarsila do Amaral

O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html 

Anotações

Marcas definitivas

Luciano Siqueira 


Ouço no rádio que numa única rua da periferia do Cabo de Santo Agostinho aconteceram, na mesma semana, dois assassinatos relacionados com o tráfico de drogas. 

Não fixei na memória nomes nem a descrição exata das circunstâncias de cada um. 

Nada mais.

Anotei apenas minha angústia solidária e silenciosa pelos que residem naquela rua — idosos, jovens, crianças —, marcados para sempre pelas trágicas ocorrências: agora insensíveis ao desabrochar de uma rosa, à carícia da brisa do mar ou à beleza silenciosa do pôr do sol?

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Apenas um drinque https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/apenas-um-drinque.html 

Enio Lins opina

Quadrinhos contra a opressão, pelos lápis de uma mulher notável   
Enio Lins 

MARJANE SATRAPI, uma das mais importantes quadrinistas de todos os tempos, se foi, prematuramente, há um mês e nove dias, aos 57 anos incompletos. Nos dias subsequentes à morte da romancista gráfica, todas as mídias veicularam reportagens sobre sua vida e obra. Pensei em escrever um comentário uns seis meses depois da morte dela, para quebrar – modestamente – o silêncio tradicionalmente seguido depois do sétimo dia. Mas a retomada das hostilidades dos Estados Unidos contra o Irã acionou o sino.

QUERO CRER SER
a pronúncia certa “Ma-ri-a-ne” (um quadrissílabo) e não o trissílabo “Mar-ja-ne”. Tenho essa impressão pelo som de “i” da letra “j” nas línguas ao leste da Europa, como Iugoslavia (Jugoslávia), Sônia (Sonja), assim como Jesus é vocalizado como “Iesus” em cantochões tradicionais. É só uma suspeita fonética, pois não tenho leitura para defender essa tese. O fato é que Mariane ou Marjane era fera, e deixou uma obra imortal cuja principal peça é a HQ “Persépolis” na qual seu traço aparentemente ingênuo desenha temáticas complexas e dramáticas de fácil compreensão visual, apesar da profundidade e crueza do exposto quadrinho a quadrinho.

NASCIDA NO IRÃ,
na cidade de Rasht, em 22 de novembro de 1969, naturalizou-se francesa em 2006. Encontrou-se como quadrinista depois da leitura de
Maus, de Art Spiegelman. Entre 2000 e 2003, publicou pela editora francesa L’Association sua autobiografia, intitulada Persépolis, “conquistando imediatamente enorme sucesso crítico e comercial. A série foi traduzida para dezenas de idiomas e vendeu mais de um milhão de exemplares somente na França”, informa a Wikipédia. Nessa altura, Mariane estava vivendo em solo francês, depois de ter fugido do regime dos Aiatolás em 1994. Antes, aos 14 anos, em 1983, seus pais conseguiram enviá-la para a Áustria, onde cursou o ensino médio e viveu anos atribulados (inclusive como sem-teto). Retornada a Teerã, fez o curso superior de Comunicação Visual na Universidade Islâmica Azad. Mas uma sociedade teocrática lhe era incompatível, e ela partiu para o exílio definitivo aos 25 anos.

PERSÉPOLIS É UMA DAS OBRAS
que consolidou as Histórias em Quadrinhos como literatura, na categoria de Romance Gráfico, ombreando-se com a citada Maus (autobiografia de Art Spiegelman, contando a saga de sua família judia desde a Europa pré-nazista até o refúgio nos Estados Unidos). Mariane apresenta sua existência a partir da infância, sob as tensões impostas pela ditadura do Xá Reza Pahlevi a uma família de orientação socialista. Criança, ela testemunhou a Revolução Iraniana, que substituiu o terror laico do Xá pelo terror religioso dos Aiatolás. Em 1982, a prisão e fuzilamento de seu parente mais querido, o comunista Tio Anouche, radicaliza sua rejeição à teocracia xiita. O livro é construído sem concessões, inclusive a ela própria, expondo seus dramas pessoais, suas dúvidas. São 352 páginas de pura história contemporânea, através do olhar de uma vítima de múltiplas opressões e violências como mulher, exilada, revolucionária, iraniana, não-religiosa... uma vítima irresignada, combatente, corajosa.

FIRMEZA NA DENÚNCIA
da teocracia iraniana é sua marca, presente em sua obra imortal. Mariane chegou a recusar a Legião de Honra, a mais importante condecoração da França, como protesto pela atitude francesa em relação aos perseguidos iranianos, pois, segundo ela, “a política de vistos favorecia filhos de oligarcas em detrimento de jovens dissidentes e artistas”. Ela, entretanto, mantendo sua inflexibilidade na crítica à teocracia xiita, jamais apoiou as agressões bélicas dos americanos e israelenses contra seu país natal. Como bem disse o site gibizilla.com.br, “Marjane Satrapi não desenhou apenas o Irã, mas sim a liberdade”.

“PERSÉPOLIS”,
em volume único, pode ser adquirido pela internet, com preços que variam de R$ 63,33 (Amazon) a R$ 44,00 (Estante Virtual). Não deixe de ler.

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Curar o quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/estranha-epoca-nossa.html 

Palavra de poeta

O que tinha de ser
Tom Jobim   

Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu
Sem eu saber sequer
Porque és o meu homem
E eu tua mulher

Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser

[Ilustração: Pablo Picasso]

"Guarda-me em ti", poema de Raúl Zurita https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-poeta_02016478250.html