A Copa do Mundo é deles
Nos Estados Unidos, Fifa é conivente com arbitrariedades jamais vistas
em torneios anteriores
Juca Kfouri/Liberta
Em 1958,
depois da primeira Copa do Mundo vencida pela Seleção Brasileira, uma marchinha
que tem como título A Taça do
Mundo É Nossa virou espécie de hino do time e
foi cantada também em 1962, quando o Brasil sagrou-se bicampeão mundial.
Só em 1970, o Pra
Frente, Brasil tomou o lugar de “a taça do mundo é nossa, com
brasileiro não há quem possa”, com seu “90 milhões em ação, pra frente, Brasil,
do meu coração”.
Tanto a
marchinha composta pelo quarteto Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho
e Victor Dagô quanto a de Miguel Gustavo são declarações eufóricas de carinho
despertadas pelas vitórias da pátria de chuteiras – a primeira composta sob o
otimismo que reinava no país presidido, democraticamente, por Juscelino
Kubitscheck, e a segunda sob as trevas do general-ditador Emílio Garrastazu
Médici.
Vingança dos deuses
Pois eis que
começou a 23ª Copa do Mundo com jogos na Cidade do México, Guadalajara, Toronto
e Los Angeles, nos dias 11/6 e 12/6.
Como sabem a
rara leitora e o raro leitor, só a Seleção Brasileira esteve em todas.
Se há, no
entanto, uma Copa do Mundo que não é nossa, esta, definitivamente, não é.
É deles.
Deles
estadunidenses, porque nem se pode dizer que seja dos norte-americanos todos,
porque mexicanos e canadenses participam como sedes secundárias, apenas para
limpar terreno com vistas à Copa na Arábia Saudita, em 2034.
Antes, em
2030, a varrição promovida pela Fifa será ainda mais ampla, geral e irrestrita:
abre no Uruguai, para pretensamente comemorar os 100 anos do torneio, que teve
sua primeira edição no país vizinho, passa rapidamente pelo Paraguai e a
Argentina e embarca para Portugal, Espanha e Marrocos, com o que satisfaz três
continentes.
Tudo isso
porque o presidente da Fifa, Gianni Infantino, além de cretino, age como
gângster multinacional a serviço do que há de pior no mundo dos poderosos
trilhardários, de Donald
Trump ao príncipe herdeiro saudita, e carniceiro, Mohammad
bin Salman.
Você há de se
lembrar das exigências absurdas da Fifa quando houve a Copa do Mundo no Brasil,
com a destruição, em nome da modernização, de patrimônios arquitetônicos
brasileiros como o Maracanã e o Mineirão.
Se, então, a
vingança ficou por conta dos deuses dos estádios – que fizeram do estádio
mineiro o palco do 7 a 1 e impediram que a Seleção jogasse no carioca –, agora
o cartola ítalo-suíço se curva sorridente a quem contribuir com ervanário mais
substancial.
À farra
oferecida por Tio Sam Trump ele retribuiu com o bizarro prêmio Fifa da paz.
Como
recompensará Salman ainda não se sabe, talvez com uma mala especial para
carregar jornalistas esquartejados, como o saudita Jamal Khashoggi, brutalmente
assassinado por agentes do governo em 2018, dentro do consulado da Arábia
Saudita, em Istambul, na Turquia.
Khashoggi era
colunista do The Washington Post e crítico do regime.
Árbitro deportado
Por enquanto,
o cretino Infantino testemunha, passivamente, arbitrariedades jamais vistas em
Copas do Mundo, nem mesmo na Argentina da ditadura de Jorge Videla, em 1978, ou
na monarquia absolutista do Qatar, em 2022, onde, por sinal, Infantino, o
cretino, se esbaldou em mordomias, a ponto de ter ido morar em Doha com a
família durante um ano e meio antes da Copa, numa casa que mais parecia um
palácio.
Não bastasse a
proibição ou restrição de entrada de torcedores de quatro países cujas seleções
estão na Copa, como Irã, Haiti, Costa do Marfim e Senegal, a competição ainda
nem começou e o jogador iraquiano Aymen Hussein foi
detido e interrogado durante sete horas no aeroporto de Chicago, assim como o
fotógrafo da delegação, por dez horas.
Alguns membros
da delegação iraniana tiveram os vistos negados e o time não poderá pernoitar
nos Estados Unidos, sendo obrigado a voltar para o México depois de cada jogo.
Já o árbitro
da Somália, considerado o melhor da África, Omar Artan, escalado para apitar na
Copa, teve a entrada vetada e acabou deportado, com a anuência da Fifa, que, em
nota oficial, declarou não poder intervir em leis de imigração do país-sede. Um
nojo.
Se a
extraordinária presidenta mexicana Claudia Sheinbaum faz o que pode, de um
lado, e o primeiro-ministro canadense Mark Carney (que, aliás, deve sua vitória
eleitoral à oposição que Trump lhe fez) age, do outro, para amenizar a
beligerância estadunidense, Infantino, o cretino, tapa os olhos, a boca e o
nariz.
Certamente
para não sentir o fedor que exala.
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