Corrida por
dados de IA ameaça livros raros e acende alerta mundial
Compras em massa de
obras antigas e esgotadas levantam suspeitas de uso para treinar inteligência
artificial; livreiros temem perda irreversível de patrimônio cultural
Cezar Xavier/Vermelho
O avanço da inteligência artificial está criando uma demanda incomum no
mercado de livros usados: empresas e intermediários passaram a adquirir grandes
volumes de obras antigas, esgotadas e difíceis de encontrar. Em diferentes
países, livreiros relatam pedidos que fogem completamente do padrão tradicional
do comércio de livros.
A explicação está na busca por dados de treinamento considerados mais
confiáveis. Livros publicados antes da explosão da IA generativa oferecem
textos produzidos por humanos, revisados e organizados, em contraste com uma
internet que vem sendo progressivamente inundada por conteúdo gerado
artificialmente.
A preocupação é que parte desses exemplares tenha uma vida útil
extremamente curta. Eles são comprados, enviados para centros de processamento,
têm a lombada removida ou são desmontados, passam por scanners de alta
velocidade e, em seguida, podem ser descartados ou transformados em polpa de
papel. Uma investigação publicada em abril descreveu uma cadeia desse tipo
envolvendo livrarias de diferentes países.
O caso Anthropic é o precedente documentado
O exemplo mais bem documentado é o da Anthropic, criadora do Claude.
Documentos apresentados em processos judiciais revelaram o chamado Project
Panama, iniciativa criada em 2024 para realizar o escaneamento destrutivo de
livros.
A empresa gastou dezenas de milhões de dólares para comprar milhões de
exemplares físicos. Para acelerar o processo, as lombadas eram cortadas e as
páginas alimentadas em equipamentos industriais de digitalização. Depois, os
livros eram descartados. Documentos internos revelados no processo chegaram a
descrever o projeto como uma tentativa de escanear “todos os livros do mundo”.
O episódio ganhou importância também no campo jurídico. Em uma disputa
envolvendo direitos autorais, um tribunal americano considerou que o uso de
cópias adquiridas legalmente para treinamento de IA poderia ser
considerado fair use quando a utilização fosse transformadora
e o exemplar físico fosse destruído. A Anthropic, entretanto, enfrentou outra
questão: o uso de livros obtidos ilegalmente de bibliotecas digitais piratas. A
empresa posteriormente fechou um acordo de US$ 1,5 bilhão com autores.
A nova corrida é mais difícil de rastrear
O caso recente envolvendo a canadense Zoom Books é mais nebuloso. Desde
o início de 2026, livreiros de antiguidades e de segunda mão na Europa, além de
vendedores de outros países, relatam pedidos incomuns em grandes quantidades.
Entre os exemplares procurados aparecem livros de não-ficção, obras
acadêmicas e títulos publicados décadas atrás, muitos deles fora de catálogo.
Há relatos de pedidos automatizados realizados durante a madrugada e de compras
de dezenas ou centenas de exemplares de uma só vez.
A Zoom Books afirma categoricamente que não digitaliza nem destrói
livros para treinamento de IA. A empresa sustenta que os exemplares comprados
são destinados ao mercado de revenda. A ausência de transparência sobre os
compradores finais, contudo, dificulta verificar o destino de todos os livros.
Outro elo dessa cadeia é a ISBNdb, empresa de dados bibliográficos que
chegou a oferecer publicamente serviços de aquisição de grandes quantidades de
livros físicos para desenvolvedores de IA. A página mencionava compras de até 1
milhão de exemplares e descrevia a possibilidade de escanear os livros e
descartá-los posteriormente. Depois da repercussão negativa, a empresa retirou
o serviço do site e afirmou que se tratava de um teste de mercado que nunca
chegou a ser efetivamente implementado.
O que se perde quando o livro desaparece
A controvérsia não se limita aos direitos autorais. Para livreiros e
especialistas em preservação, um livro físico não é apenas um recipiente de
texto.
Uma edição antiga pode conter traduções, prefácios, anotações,
ilustrações, escolhas editoriais, características tipográficas e informações
materiais que não são necessariamente capturadas por um modelo de IA. Quando um
exemplar raro é destruído, também desaparece um objeto histórico que poderia
ser consultado, restaurado, emprestado, vendido ou digitalizado novamente no
futuro.
O risco é particularmente grande quando a tecnologia transforma o
mercado de usados em uma espécie de mineração de dados: o livro deixa de ser
tratado como patrimônio cultural e passa a ter valor principalmente pelo
conteúdo textual que pode ser extraído dele.
Na Austrália, livreiros especializados também manifestaram preocupação
com a destruição de exemplares raros. Alguns passaram a selecionar compradores
e questionar pedidos suspeitos, justamente para evitar que obras difíceis de
substituir desapareçam do acervo físico.
A contradição da era da IA
Há uma ironia no fenômeno. Durante anos, empresas de tecnologia
exploraram a internet como uma fonte praticamente inesgotável de textos. Agora,
à medida que a rede é contaminada por conteúdo produzido pelas próprias
máquinas, cresce o valor de materiais anteriores à popularização da IA
generativa.
Livros antigos oferecem aquilo que os modelos precisam: texto humano,
relativamente limpo, estruturado e produzido antes da contaminação em massa da
internet por conteúdo sintético. A corrida por esse material transforma sebos,
livrarias e estoques esquecidos em uma nova fronteira da indústria de IA.
A digitalização, por si só, poderia representar uma forma de
preservação. O problema começa quando a preservação digital exige a destruição
do original — sobretudo quando se trata de obras para as quais existem poucos
exemplares.
O debate, portanto, ultrapassa a pergunta sobre quem pode utilizar um
livro para treinar uma máquina. A questão passa a ser quem controla a memória
que está sendo digitalizada, sob quais regras e o que acontece com os originais
depois que seu conteúdo é absorvido por sistemas privados.
Se a atual corrida por dados continuar em escala crescente, bibliotecas
e sebos poderão enfrentar uma situação paradoxal: justamente quando a
tecnologia torna possível preservar praticamente todo o conhecimento humano, a
busca por alimentar as máquinas poderá eliminar fisicamente parte dos objetos
que carregam essa memória.
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terceiro domínio" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/celso-pinto-de-melo-evolucao-da-ciencia.html