05 junho 2026

Minha opinião

Onde tudo se disputa 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 
 

Sim, não há nenhuma novidade quanto ao fato de que a sociedade capitalista se apoia no roubo do trabalho excedente do trabalhador e na concorrência. 

Disputa-se tudo além do capital e do lucro — das várias modalidades esportivas e pelejas eleitorais.

E o complexo midiático, que também se apoia no lucro vez que constituído por empresas, sempre dá um jeito de estimular a concorrência na tentativa de livrar alguns centavos. 

É o que me parece a competição entre os vários tipos de chá de camomila! 

Isso mesmo. E o fato mereceu até matéria no outrora considerado vetusto Estadão. 

Até que gosto de um chazinho de camomila de vez em quando. Hoje em dia, raramente. Porém não tenho nenhuma vontade de cotejar, entre os produtos oferecidos no mercado, qual deles merece a minha preferência. 

Tenho tempo para isso não. Levo o que estiver à venda, sobretudo se escolhido por Luci, que é quem nossas compras semanais.

Daí nem tive interesse em ler a matéria, que suponho ter noticiado um evento mais comercial do que propriamente científico — se é que existe ciência na escolha que cada um possa fazer sobre a marca predileta do chá de camomila ou de qualquer outro. 

Vida que segue.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Prefiro a filosofia do boteco da esquina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_59.html

Postei nas redes

Pesquisas qualitativas indicam perda gradativa de credibilidade do pré-candidato Flávio Bolsonaro diante do eleitorado conservador não direitista em razão de suas comprometedoras relações com o banqueiro preso Daniel Vorcaro. Tão natural quanto a luz do sol.  

Elias Jabbour: Como o dinheiro do Banco Master financiou o bolsonarismo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/relacoes-inconfessaveis.html 

Mares sob ameaça

A ameaça ambiental que os bilionários ocultam
Cresce o consenso científico sobre os riscos catastróficos de um fenômeno climático em curso nos mares. Qual é? Como se relaciona com o padrão de vida hegemônico? Por que, submetidas à lógica dos mercados, sociedades permanecem paralisadas?
George Monbiot | Tradução: Antonio Martins/Outras Palavras 

Os pobres e a classe média pagam impostos, os ricos pagam contadores, os muito ricos pagam advogados – e os ultrarricos pagam políticos. Não é uma observação original , mas vale a pena repeti-la até que todos a tenham ouvido. Quanto mais dinheiro os bilionários acumulam, maior é o seu controle sobre o sistema político – o que significa que pagam menos impostos, que acumulam mais, que seu controle se intensifica.

Eles remodelam o mundo para atender às suas demandas. Um dos sintomas da patologia conhecida como “cérebro de bilionário” é a incapacidade de enxergar além de seus próprios ganhos de curto prazo. Eles destruiriam o planeta por mais algumas pedras na montanha inútil da riqueza. E podemos ver isso acontecendo. O mês de abril trouxe a maior notícia do ano até agora, talvez a maior notícia do século. Mas, em parte porque os bilionários detêm a maior parte da mídia, a maioria das pessoas nunca ouviu falar dela. Podemos nos ver envolvidos em um evento capaz de acabar com a civilização antes mesmo de aprendermos que tal fenômeno é possível. 

A notícia é que o estado de um sistema crucial de circulação oceânica foi reavaliado por cientistas . Alguns agora acreditam que, como resultado das mudanças climáticas que alteram a temperatura e a salinidade da água do mar, é muito provável que ele entre em colapso. Esse sistema – conhecido como Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) – transporta calor dos trópicos para o Atlântico Norte. Pesquisas recentes sugerem que, se ele deixar de ocorrer, poderá causar uma queda drástica nas temperaturas médias de inverno no norte da Europa e mudanças dramáticas nos ciclos da água da Amazônia. Isso poderia levar a floresta tropical a um colapso em cascata e desencadear um desastre ainda maior.

A paralisação da AMOC também provavelmente causará uma aceleração da elevação do nível do mar na costa leste dos EUA, ameaçando grandes cidades. Além disso, poderá elevar as temperaturas na Antártida em cerca de 6°C e liberar uma enorme quantidade de carbono atualmente armazenado no Oceano Antártico, acelerando a catástrofe climática.

Mesmo levando em consideração os efeitos contrários do aquecimento global generalizado, um estudo posterior propõe que o impacto líquido no norte da Europa seria a ocorrência de períodos de frio extremo – incluindo eventos em que as temperaturas em Londres cairiam para -19°C, em Edimburgo para -30°C e em Oslo para -48°C. O gelo marinho em fevereiro se estenderia até a Inglaterra. Nosso clima mudaria drasticamente , com a probabilidade de extremos muito maiores, como tempestades de inverno de grande intensidade.

Essa mudança, em qualquer escala humana realista, seria irreversível. Sua velocidade provavelmente ultrapassaria nossa capacidade de adaptação . Interrupções na circulação atmosférica, impulsionadas pela variabilidade climática natural, já ocorreram antes. Mas não na era da civilização humana em larga escala.

O primeiro artigo propondo que a Amoc poderia ter um estado ativo e um estado inativo foi publicado em 1961. Desde então, muitos estudos confirmaram a descoberta e exploraram possíveis gatilhos e implicações prováveis. Até recentemente, o colapso da Amoc causado pela atividade humana era classificado como um evento de “alto impacto e baixa probabilidade”. Devastador, se ocorresse, mas improvável de acontecer.

Pesquisas realizadas nos últimos anos levaram a uma reavaliação: o evento passou a ser visto mais como algo de “alto impacto e alta probabilidade”. Agora, em resposta ao artigo de abril, o professor Stefan Rahmstorf – talvez a maior autoridade mundial no assunto – afirma que as chances de uma parada parecem ser de “mais de 50%”. Poderíamos ultrapassar o ponto de inflexão, diz ele, “em meados deste século”.

Por que isso não está em todos os noticiários? Por que não é a principal prioridade dos governos que afirmam nos proteger de danos? Em grande parte porque o poder oligárquico defende um modelo de impacto climático que pouco tem a ver com a realidade: ou seja, os que o comandam têm uma hipótese sobre como o mundo funciona que é completamente dissociada das descobertas científicas. Esse modelo fundamenta as respostas oficiais à crise climática. 

Tudo começou com o trabalho do economista William Nordhaus, que buscou avaliar os efeitos econômicos do aquecimento global. Seu modelo sugere que um nível de aquecimento “socialmente ótimo” está entre 3,5°C e 4°C. A maioria dos cientistas climáticos considera um aumento de temperatura desse tipo catastrófico. Mesmo um aquecimento de 6°C, segundo Nordhaus, causaria uma perda de apenas 8,5% do PIB. A ciência climática sugere que isso seria mais como o fim da civilização.

Segundo argumentaram os eminentes economistas Nicholas Stern, Joseph Stiglitz e Charlotte Taylor , os efeitos moderados previstos por Nordhaus são consequências do modelo enviezado que ele utilizou. Por exemplo, sua modelagem pressupõe que riscos catastróficos não existem e que os impactos climáticos aumentam linearmente com a temperatura. Não existe nenhum modelo climático que proponha tal tendência. Em vez disso, a ciência climática prevê impactos não lineares e riscos que aumentam consideravelmente.

Os prováveis impactos de altos níveis de aquecimento incluem a inundação de grandes cidades, o fechamento do nicho climático humano (as condições que sustentam a vida humana) em grande parte do globo, o colapso do sistema alimentar global e mudanças em cascata – ou seja, transições abruptas nos ecossistemas – liberando reservas naturais de carbono, o que pode levar a uma “Planeta-estufa” no qual pouquíssimos sobreviveriam. E não importa a pequena queda no PIB: não haveria meios de mensuração e praticamente nenhuma economia para medir.

De forma bizarra, a modelagem de Nordhaus também aplica taxas de desconto aos habitantes futuros do planeta: presume-se que suas vidas valem menos que as nossas. Em outras palavras, tomou-se um método usado para calcular o retorno do capital e se aplicou a seres humanos. Como apontam os três economistas, “é muito difícil encontrar uma justificativa para isso na filosofia moral”. Além disso, os impactos climáticos afetam desproporcionalmente os pobres – mas, segundo os modelos, suas vidas também valem muito pouco.

Não surpreendentemente, modelos desse tipo, observam Stern, Stiglitz e Taylor, foram apropriados por “interesses especiais”, como a indústria de combustíveis fósseis, para defender respostas mínimas à crise climática. E não são apenas as companhias petrolíferas. Bill Gates, que alega querer proteger o planeta, doou US$ 3,5 milhões (R$ 17,5 milhões) para um grupo de investidores que usa o modelo de Nordhaus como argumento. É liderado por Bjorn Lomborg, que construiu sua carreira promovendo o modelo enviezado, o que contribuiu para minimizar a necessidade de ações climáticas. Nordhaus recebeu o Prêmio Nobel de Economia por suas ideias absurdas e perniciosas – e elas estão profundamente enraizadas na tomada de decisões governamentais.

Um culto da morte bilionário tem o pescoço da humanidade em suas garras. Ele tanto causa quanto minimiza nossa crise existencial. Os oligarcas não são apenas inimigos de classe, mas, como sempre foram, inimigos da sociedade. Alguns milhares de pessoas podem destruir civilizações. É a guerra entre os bilhões e os bilionários, e as consequências não poderiam ser mais graves.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Donald Trump diante de Xi Jinping https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/minha-opiniao_0704474379.html

Arte é vida

 

Luciano Pinheiro

Trabalhadores em saúde

Saúde: uma força de trabalho superexplorada
Salários baixos. Jornadas longas. Trabalho intenso e extenuante. Em seminário de Outra Saúde, pesquisadora caracteriza condições laborais na saúde em país dependente: “O SUS são trabalhadores precarizados cuidando de trabalhadores precarizados”
Thauanne Gonçalves/OutrasPalavras   

O texto a seguir é uma adaptação da fala da enfermeira e pesquisadora Thauanne Gonçalves, doutora em Saúde Coletiva pelo IMS/UERJ e membro do grupo de pesquisa Saúde, Sociedade, Estado e Mercado (Grupo SEM), no seminário Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS, promovido pelo Outra Saúde em parceria com a Associação Paulista de Saúde Pública, a Faculdade de Saúde Pública da USP e o ICICT/Fiocruz. Thauanne foi uma das convidadas da mesa “Gestão do trabalho e da educação na saúde: como avançar para um SUS público”, realizada na etapa São Paulo do ciclo de debates e ocorrida no último dia 22 de maio. A gravação da mesa (e seu relato jornalístico) está disponível aqui.

Durante o primeiro dia da etapa São Paulo do evento “Da Reforma Sanitária ao Futuro do SUS”, ficou muito evidente, a partir das manifestações da plateia, a alta expectativa para discutirmos hoje a situação dos trabalhadores do SUS. E, sobretudo, para pensar no futuro desses trabalhadores. A mesa que estamos realizando no segundo dia tem essa grande responsabilidade.

No Grupo de Pesquisa Saúde, Sociedade, Estado, Mercado (SEM) do Instituto de Medicina Social (IMS) da UERJ, temos como uma das nossas principais frentes de trabalho os estudos sobre a força de trabalho em saúde no Brasil. Somos um grupo marxista que compõe a recém criada Rede de Pesquisa Marxista na Saúde, que foi fundada em 2025 e contou com o apoio do Outra Saúde para a publicação da nossa Carta

O principal referencial teórico que utilizamos nas nossas pesquisas é a Teoria Marxista da Dependência (TMD), que tem como categoria analítica fundamental a superexploração da força de trabalho. É a partir dessa lente que observamos a realidade dos trabalhadores do SUS.

Cabe destacar que essa frente de trabalho surgiu quando, ao estudar textos sobre a TMD e o conceito de superexploração, percebemos o quanto aquelas observações pareciam descrever a realidade da enfermagem brasileira. Esse, então, foi nosso ponto de partida: buscar “sinais” de superexploração na enfermagem. E cada vez mais fomos nos convencendo de que essa interpretação se mostrava bastante interessante para analisar a realidade do trabalho no país. Atualmente, estamos desenvolvendo uma pesquisa mais ampla sobre o tema, agregando outros profissionais, mas começamos essa trajetória observando resultados de outras pesquisas sobre as nossas lentes.

Em termos bastante gerais, os trabalhadores dos países dependentes estão relegados a condições de trabalho muito precárias, porque carregam em seus ombros a necessidade de transferir valor da periferia para o centro do capitalismo. É esse olhar, que considera uma perspectiva ampliada sobre a economia política, que nós trazemos para o trabalho em saúde e a partir do qual pensamos nossa práxis. 

Passando então para uma aproximação da realidade do trabalho, são três os principais mecanismos pelos quais a superexploração ocorre: baixa remuneração; longas jornadas; e alta intensidade do trabalho. O que temos observado? 

A baixa remuneração das enfermeiras no Brasil

Para entendermos se um salário é alto ou baixo, temos que definir algum parâmetro. O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) realiza um estudo atualizado mensalmente que calcula o salário mínimo necessário (SMN)1, considerando o que a Constituição Federal de 1988 (Art. 7º, IV) determina como essencial para o trabalhador e sua família. Para abril de 2026, o SMN foi de 7.612 reais, enquanto o salário mínimo realmente em vigor é de 1.621 reais, ou seja, 4 vezes menor.

E o Piso da Enfermagem? A Lei 14.434/2022 determinou um piso de 4.750 reais para enfermeiras, 70% desse valor para técnicas e 50% para auxiliares. A recente pesquisa da Demografia da Enfermagem2 mostrou que desde 2015, a maior parte das enfermeiras ganha entre 3 e 4 salários mínimos, ou seja, abaixo do SMN, com piora acentuada desde 2021. Isso significa que, durante a pandemia, enquanto a enfermagem lidava com os horrores da covid-19, sua média salarial caía.  

Os efeitos do piso ainda precisam ser avaliados, porque sua implementação é recente e ainda não temos dados disponíveis em todas as bases que utilizamos. Mas cabe ressaltar que, mesmo em uma conjuntura muito adversa, com pandemia e Bolsonaro, a enfermagem conseguiu aprovar uma lei de piso nacional — e isso não é pouca coisa. Isso mostra a força dessas trabalhadoras, que são 87% de mulheres dentre os 3 milhões de registros profissionais no COFEN.3

Entretanto, para o piso ser capaz de mudar substancialmente a realidade das enfermeiras, ele deve ser associado a uma jornada de trabalho de 30 horas semanais – além de possuir um mecanismo de reajuste, é claro. Porém, o STF determinou que o piso é referente à jornada de 44 horas. Isso nos leva ao segundo mecanismo da superexploração: a jornada de trabalho prolongada.

As intermináveis jornadas de trabalho na saúde

Por definição, as profissões de saúde lidam com a insalubridade – ela é parte da atividade profissional. Sendo assim, é fundamental a redução da jornada. E o que acontece com o trabalhador que ultrapassa os limites que deveriam ser estabelecidos na jornada? O consumo do seu fundo de vida. Por isso, a remuneração deve estar atrelada à jornada, não podemos pensar as duas coisas separadamente. A redução da jornada sem aumento salarial leva à multiplicidade de vínculos, que por sua vez resulta em… longas jornadas.

E será que a alta remuneração pode compensar as longas jornadas? Para responder a essa pergunta, podemos observar o cenário da medicina. Os médicos possuem uma média de remuneração dentre as maiores das profissões de nível superior no país. Mas, se considerarmos que o baixo salário não é um problema para esta categoria, poderíamos ainda assim dizer que os médicos são superexplorados? O estudo Demografia Médica de 20254 aponta para uma redução importante dos vínculos formais. Além disso, recentemente, a pesquisadora Fernanda Rodrigues defendeu uma dissertação no IMS sobre a plataformização do trabalho médico por empresas de telemedicina.5 Ou seja, o modelo de plataformas como iFood e Uber já chegou na área médica.

Antes, a Demografia Médica de 20206 já havia trazido alguns dados alarmantes sobre as jornadas da categoria: em uma comparação dos anos de 2014 e 2019, os médicos que relataram ter 6 vínculos ou mais subiram de 5% para 18%. E em relação à duração da jornada semanal, em 2019, 46% dos médicos relataram trabalhar mais de 60h semanais, sendo quase 30% mais de 80 horas.

Há remuneração que compense essas jornadas? Existem estudos de conselhos regionais de medicina que mostram que médicos têm expectativa de vida inferior à população geral.7 Novamente, é isso que faz ser fundamental considerar a redução da jornada de trabalho junto à questão salarial. 

Voltando à enfermagem, por isso é tão relevante aprovar a PEC 19/2024, que visa associar o piso à redução da jornada e incluir o reajuste anual. A demografia da enfermagem mostra que um percentual muito pequeno das profissionais trabalha até 30 horas.

Quando se observam os vínculos da enfermagem no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), como foi feito pela pesquisadora Thaís Brasil, que defendeu uma tese no IMS/UERJ sobre a precarização do trabalho da enfermagem na Estratégia de Saúde da Família8, encontramos algo interessante.

Em relação ao tipo de vínculo de enfermeiras e técnicas em 2023, observamos um percentual em torno de 20% de estatutários, 20% a 30% celetistas e 20% de contrato por tempo determinado. Por sua vez, quando vemos os dados das auxiliares de enfermagem, 45% são estatutárias, 26% celetistas e 7% têm contrato por tempo determinado. Nota-se então, uma piora progressiva dos tipos de vínculos com a diminuição do funcionalismo público, visto que, desde 2003, a formação de auxiliares vem sendo substituída pela de técnicas de enfermagem – o que significa que os vínculos desses primeiros são mais antigos. 

Um trabalho intenso e extenuante

Por fim, o terceiro mecanismo da superexploração é o aumento da intensidade do trabalho, o que a longo prazo resulta em doenças laborais, acidentes de trabalho e efeitos danosos para a segurança do paciente. 

A Demografia da Enfermagem mostra o aumento progressivo dos afastamentos do trabalho, acentuados desde a pandemia.2 Além disso, as técnicas e auxiliares de enfermagem lideram as estatísticas de acidentes de trabalho no Brasil.9,10

Para além dessa categorização que temos feito, há muitos pontos que carecem de ser abordados. Um deles é que a enfermagem, ao lado da nutrição e do serviço social, é uma das profissões de ensino superior com maior taxa de desemprego entre os recém formados, em torno de 25%, de acordo com uma pesquisa de 2024.11 Mas o desemprego na enfermagem vem sendo notado como um problema longínquo. Na pesquisa Perfil da Enfermagem Brasileira, publicada em 201712, 10% dos profissionais relataram terem enfrentado desemprego nos últimos 12 meses, compondo um montante de 182 mil profissionais.

Todas essas condições, junto com a difusão cada vez mais intensa da ideologia neoliberal no trabalho, gera uma pressão grande sobre os jovens profissionais e estudantes, que passam a acreditar que a saída para nossos problemas coletivos, pode ser individual. Muitos passam a buscar a emigração e o empreendedorismo como alternativa.

Um futuro para os trabalhadores do SUS

Por fim, eu queria trazer um pouco da minha experiência pessoal com o desalento das enfermeiras. Reli recentemente o documento “A questão democrática na área da saúde13 e me deparei com o seguinte trecho: “a grande maioria dos profissionais de saúde encontra-se, hoje, colocada na trincheira de uma batalha inglória a tentar remediar os males de um planejamento ineficaz para uma população carente”. 

À época, é claro, tratava-se do “planejamento ineficaz” da saúde antes do SUS. Contudo, esse trecho me marcou porque vejo isso nos olhares das enfermeiras que tenho como alunas. 

Eu poderia reescrever esse trecho dizendo que: a grande maioria dos profissionais de saúde encontra-se, hoje, colocada na trincheira inglória de tentar remediar os males das condições sociais de uma população superexplorada. O SUS é feito de trabalhadores precarizados cuidando de trabalhadores precarizados.

Há alguns anos, dou aula como convidada na graduação em enfermagem e na residência de enfermagem em saúde da família na UERJ e sempre busco abordar o tema das condições de trabalho. Só que as últimas aulas que dei este ano tomaram um rumo diferente do planejado. As enfermeiras ou técnicas que cursam enfermagem estavam muito angustiadas com sua prática e a aula virou um espaço de desabafo.

A residência é um caso bastante relevante no que se refere a problemas de sobrecarga de trabalho e fragilidade de vínculos, ao mesmo tempo que é uma ferramenta estratégica para superar problemas existentes no SUS, como a falta de especialistas.

Assim, em uma aula recente da residência, a greve da atenção básica do Rio de Janeiro, que permanece denunciando as condições precárias de trabalho e assistência, tornou-se um ponto sensível e necessário a ser tratado. Essa aula foi bastante difícil e a fragilidade dos vínculos das residentes as deixou sentindo-se sem saída.

Depois da aula, a coordenadora da disciplina, professora Amanda Xavier, me perguntou: será que deveríamos parar de falar sobre isso? As alunas saíram tristes e não é esse o nosso objetivo.

Depois de pensar por algum tempo, entendi que não. Não dá para jogar os problemas para baixo do tapete. No entanto, temos que passar a abordá-los trazendo ideias sobre como mitigá-los ou até superá-los. 

Essa é a importância de participar de momentos de reflexão que remetem aos 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde: pensar ideias para “adiar o fim do mundo” na Saúde Coletiva. Apesar dos muitos ataques aos direitos dos trabalhadores, ainda existem condições de luta nesse aspecto no país. 

O futuro do SUS só será, se o SUS oferecer um futuro a seus trabalhadores.


REFERÊNCIAS

1. DIEESE. Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos [Internet]. 2026 [citado 27 de maio de 2026]. DIEESE – análise cesta básica – Salário mínimo nominal e necessário. Disponível em: https://www.dieese.org.br/analisecestabasica/salarioMinimo.html 

2. Brasil. Demografia e mercado de trabalho em enfermagem no Brasil [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2025 [citado 11 de maio de 2026]. (Demografia da Enfermagem no Brasil 2025). Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/demografia_enfermagem_mercado_trabalho_v1.pdf 

3. Cofen. Cofen – Conselho Federal de Enfermagem [Internet]. 2026 [citado 30 de janeiro de 2023]. Enfermagem em Números. Disponível em: https://www.cofen.gov.br/enfermagem-em-numeros/ 

4. Scheffer et. al M. Demografia Médica no Brasil 2025 [Internet]. Brasília : Ministério da Saúde: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Associação Médica Brasileira; 2025. 446 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/demografia_medica_brasil_2025.pdf 

5. Rodrigues FSM. Plataformização do trabalho médico e a mercantilização da saúde: um estudo sobre plataformas de telemedicina no Brasil [Dissertação de mestrado] [Internet]. [Rio de Janeiro]: Instituto de Medicina Social (IMS), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); 2026. Disponível em: Ainda não publicada. 

6. Scheffer et. al M. Demografia Médica no Brasil 2020 [Internet]. São Paulo: Faculdade de Medicina da USP e Conselho Federal de Medicina; 2020. 312 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/sgtes/acoes-em-educacao-em-saude/cfm-e-usp/07-relatorio-demografia-medica-no-brasil_2020-5.pdf 

7. Grupo de Trabalho “Mortalidade dos Médicos”. Estudo da mortalidade dos médicos no estado de São Paulo: tendências de uma década (2000-2009) [Internet]. março de 2012 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://www.cremesp.org.br/pdfs/Mortalidade%20v%20220312.pdf 

8. Brasil T de A. Expressões da precarização do trabalho: um estudo sobre a enfermagem da Estratégia Saúde da Família [Tese (Doutorado em Saúde Coletiva)] [Internet]. [Rio de Janeiro]: Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2025 [citado 30 de janeiro de 2026]. Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/handle/1/24451 

9. Brasil. Ministério do Trabalho e Emprego [Internet]. 2025 [citado 27 de maio de 2026]. Ministério do Trabalho e Emprego identifica aumento de acidentes de trabalho no Brasil. Disponível em: https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/noticias-e-conteudo/2025/julho/ministerio-do-trabalho-e-emprego-identifica-aumento-de-acidentes-de-trabalho-no-brasil 

10. Brasil. Ministério da Saúde. Boletim Epidemiologico -v. 54, n.17 – Acidentes de trabalho com exposição a material biológico em profissionais da enfermagem, 2018-2022 [Internet]. 2023 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/edicoes/2023/boletim-epidemiologico-volume-54-no-17 

11. Instituto Semesp. 4a Pesquisa Empregabilidade [Internet]. 2024 [citado 27 de maio de 2026]. Disponível em: https://revistaensinosuperior.com.br/wp-content/uploads/2024/09/Pesquisa-Empregabilidade-2024.pdf

12. Machado MH, et al., FIOCRUZ, COFEN. Relatório final da Pesquisa Perfil da Enfermagem no Brasil. Rio de Janeiro, 28 volumes. Produzido em 2016, Publicado em 2017. Volume I – Brasil [Internet]. 2017 [citado 30 de janeiro de 2023]. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/perfilenfermagem/pdfs/relatoriofinal.pdf 

13. Cordeiro H, Fiori JL, Guimarães R. A questão democrática na área da Saúde. Physis Rev Saúde Coletiva. 2021;31:e310302. doi:https://doi.org/10.1590/S0103-73312021310302

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

Leia também: Escala 6x1 em um país que produz pouco https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/celso-pinto-de-melo-opina.html

Fotografia

 

Rodrigo Santacruz

Saudade do glamour imaginário da infância https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/tempos-idos.html 


Colonialismo digital

O que os direitos digitais têm a ver com a crise climática?
América Latina vive nova encruzilhada colonial. Norte busca capturar suas terras raras e controlar, por meio das big techs, seu espaço público. Coesão social e natureza estão em risco, mas surgem alternativas. As decisões políticas, mais uma vez, definirão o destino
Marina Meira/Outras Palavras  

Enquanto governos latinoamericanos disputam investimentos estrangeiros em matéria de inteligência artificial, data centers e mineração para o que têm chamado de “transição digital”, expande-se a narrativa enganosa segundo a qual a crise climática poderá ser resolvida por meio da inovação tecnológica. A COP30, realizada no Brasil em 2025, contribuiu para reforçar esse imaginário ao colocar a digitalização, a inteligência artificial e as chamadas “tecnologias verdes” no centro de parte importante das discussões sobre desenvolvimento e sustentabilidade. 

A promessa aparece em discursos oficiais sobre cidades inteligentes, monitoramento ambiental, agricultura de precisão, eficiência energética e “inovação verde” e deságua em políticas como as de digitalização de programas ambientais e agrários e de abono tributário para atividades extrativistas relacionadas à tecnologia. O futuro sustentável, de acordo com essa linha, seria também um futuro digital.

Mas quem sustenta materialmente esse futuro? Quem sofre seus ônus e quem de fato ganha seus bônus?

Esse discurso também se beneficia de escolhas semânticas que ajudam a ocultar a materialidade da economia digital. Talvez o exemplo mais evidente seja a popularização da expressão “computação em nuvem”, que sugere algo leve, abstrato e distante do mundo físico, reforçando a ideia de que dados, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial existiriam em uma esfera quase etérea. Na prática, porém, a infraestrutura que sustenta essas tecnologias está longe de ser invisível. Começa na mineração, passa por cadeias industriais complexas, consome grandes quantidades de energia e água e depende da ocupação de territórios para funcionar. 

Em outras palavras, longe de ser imaterial, portanto, a digitalização está profundamente enraizada em territórios e recursos naturais. E seus impactos socioambientais recaem de forma desproporcional sobre países do Sul Global – entre eles, os latinoamericanos -, onde persisten dinâmicas históricas de extração de recursos naturais que sustentam agora também a expansão da economía digital. E a questão não se limita à infraestrutura, pois tecnologias digitais também passaram a intermediar cada vez mais as relações sociais, econômicas e políticas ligadas ao meio ambiente, influenciando a circulação de informações e a participação em decisões que afetam os territórios. 

À medida que a gestão de recursos, os sistemas de monitoramento ambiental e a produção de informação sobre os territórios dependem cada vez mais de infraestruturas e plataformas digitais, direitos como o acesso à informação, a transparência, a participação pública e a autodeterminação dos dados adquirem uma dimensão ambiental cada vez mais evidente. Por isso, se queremos enfrentar a crise climática de forma séria, o debate precisa passar a incorporar os impactos das tecnologias e a luta deve encampar também a defesa dos direitos digitais.

Na prática, isso significa olhar para as infraestruturas que sustentam a digitalização e para as relações de poder que ela aprofunda. 

Quando a tecnologia encontra o território

A América Latina oferece exemplos reveladores dessa conexão. O Brasil, por exemplo, é o segundo no ranking mundial de países em reservas de terras raras, das quais pode ser extraído grupo de minerais essenciais para a fabricação de chips, baterias, smartphones e diversos outros componentes utilizados na infraestrutura digital. O interesse geopolítico por esses recursos, não à toa, vem crescendo rapidamente. Em um contexto de disputa tecnológica entre Estados Unidos e China, insumos considerados estratégicos para essa cadeia passaram a ocupar lugar central nas políticas industriais e de segurança nacional. 

Por isso, o questionamento que deve ser realizado vai além de extrair ou não extrair esses recursos. Deve considerar também, a posição ocupada pelos países latinoamericanos nessa cadeia produtiva. Embora concentrem parte importante das reservas minerais, seguem participando essencialmente das etapas de extração e exportação de matérias primas, enquanto o processamento industrial, o desenvolvimento tecnológico e os maiores benefícios econômicos permanecem concentrados no Norte Global. No caso brasileiro, pesquisadores têm alertado sobre como a corrida por terras raras pode, justamente, aprofundar uma inserção subordinada na economia digital global, baseada no fornecimento de recursos estratégicos sem que haja transferência significativa de tecnologia ou fortalecimento das capacidades produtivas locais.

Essa dinâmica também aparece de forma semelhante no fenômeno de expansão dos data centers na América Latina. Nos últimos anos, empresas de tecnologia estrangeiras têm mirado cada vez mais a região aproveitando-se de condições favoráveis para instalação da infraestrutura física necessária ao armazenamento e processamento de dados em larga escala. Além da disponibilidade de energia, alguns países latinos oferecem extensas redes de transmissão, conectividade internacional e disponibilidade territorial. A isso se somam escolhas preocupantes de governos da região, que têm adotado políticas de incentivo para atrair essas empresas, especialmente por meio de benefícios fiscais e flexibilização regulatória

O Paraguai talvez seja hoje um dos exemplos mais emblemáticos desse processo. A energia gerada pela Usina de Itaipu transformou o país em destino atraente para projetos ligados à infraestrutura digital. Não por acaso, empresários e investidores influentes têm intensificado sua presença no local – entre eles Peter Thiel, bilionário do Vale do Silício e cofundador da Palantir, empresa que é reconhecidamente uma das principais fornecedoras de tecnologias de vigilância para o aparato militar dos Estados Unidos

É preocupante que o debate sobre data centers esteja aparecendo especialmente em discursos de governos e do setor privado como uma oportunidade econômica, com pouca ou nenhuma atenção dada a seus impactos ambientais e territoriais. Data centers são instalações altamente intensivas em energia e água. Operam ininterruptamente, exigem sistemas permanentes de refrigeração e podem pressionar redes elétricas e recursos hídricos já disputados por outros usos sociais e econômicos.

Os efeitos não se limitam ao consumo de recursos. Um estudo recente identificou a formação do que pesquisadores chamaram de “ilhas de calor de dados”, ou seja, áreas ao redor de data centers onde a temperatura da superfície pode aumentar, em média, 2°C após o início das operações. Segundo os autores, esse impacto pode se estender por até 4,5 quilômetros ao redor das instalações, alterando microclimas locais e produzindo efeitos sobre populações humanas e ecossistemas. Casos analisados no estudo incluíram regiões do Ceará e do Piauí, no Brasil, além de polos de data centers no México.

Também crescem as preocupações sobre os efeitos dessas instalações nos territórios. Relatórios recentes produzidos por organizações da sociedade civil apontam obstáculos ao acesso à informação sobre consumo de água e energia, flexibilização de regras ambientais e fragilização de mecanismos de consulta às comunidades afetadas. Em alguns casos ainda mais problemáticos, a expansão dessa infraestrutura tem avançado sobre territórios ocupados por comunidades indígenas, camponesas e outras populações tradicionais, aprofundando disputas históricas e constitutivas da América Latina como região. 

A preocupação com esses impactos já alcançou os principais mecanismos regionais de direitos humanos. Em fevereiro de 2026, a Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos advertiu que a expansão acelerada dos data centers pode colocar em risco direitos como o acesso à água, à saúde e a um meio ambiente saudável, e sustentou que os Estados deveriam adotar moratórias para novas autorizações até que existam salvaguardas adequadas.

A política da informação ambiental

Os impactos da digitalização sobre a agenda ambiental ainda vão além dos territórios onde são extraídos minerais ou instalados servidores. Eles também se manifestam nas decisões políticas sobre como e onde informações circulam e disputas públicas sobre temas como sustentabilidade e crise climática são travadas. 

O enfrentamento das mudanças climáticas depende da produção e do acesso a informações confiáveis. Isso inclui dados científicos, monitoramento ambiental, denúncias de violações socioambientais e informações produzidas por comunidades afetadas por empreendimentos como projetos de mineração, desmatamento ou grandes obras de infraestrutura. Quando esses fluxos de informação são comprometidos, a própria capacidade da sociedade de responder à crise climática é afetada.

Nesse contexto, o ambiente digital tornou-se um espaço central de disputa. Já há ampla evidência empírica que mostra como plataformas digitais amplificam conteúdos enganosos sobre questões ambientais por benefícios econômicos, a partir de seus modelos de negócio que são baseados na maximização da atenção e do engajamento das pessoas usuárias. Informações falsas ou sensacionalistas tendem a gerar mais interações, aumentando seu alcance e sua rentabilidade para as plataformas.

O problema não se limita ao negacionismo climático tradicional. Também inclui práticas de greenwashing, termo utilizado para descrever estratégias que apresentam atores, produtos, serviços ou projetos como ambientalmente responsáveis sem que isso corresponda à realidade, ocultando seus reais impactos socioambientais. Na América Latina, esse tipo de narrativa tem sido utilizada especialmente por governos em empresas, inclusive nas iniciativas associadas à expansão da mineração de minerais críticos, à instalação de grandes data centers e a empreendimentos apresentados como indispensáveis para a transição energética ou digital, mesmo diante de seus efeitos deletérios ou insuficientemente avaliados sobre territórios, recursos naturais e comunidades. 

O mesmo ambiente digital que amplifica narrativas negacionistas e campanhas de greenwashing também tem sido amplamente utilizado para intimidar, desacreditar e silenciar pessoas que denunciam conflitos socioambientais. Hoje, a América Latina é a região mais perigosa do mundo para defensores da terra e do meio ambiente. A Colômbia especificamente lidera o ranking de países mais letais para esse grupo, junto ao México e ao Brasil.

Embora a violência física seja sua manifestação mais extrema, ela não é a única forma de silenciamento. Organizações da sociedade civil têm documentado o uso crescente de tecnologias digitais para esse fim, seja por meio de estratégias de vigilância ou por episódios de invasões de contas e campanhas coordenadas de assédio online. Além de defensoras e defensores ambientais, jornalistas e comunicadores que trabalham na pauta também são alvos recorrentes.

São possíveis outras formas de construir tecnologia?

O cenário produz um tom pessimista praticamente inevitável. Mas é importante reconhecer que os exemplos apresentados até aqui não levam necessariamente a uma crítica à existência das tecnologias em si mesmas. Eles apontam para a necessidade de questionar os modelos políticos e econômicos que orientam seu desenvolvimento. Afinal, para além das tecnologias em si, o debate deve sempre ser permeado sobre quem define seus usos, quem se beneficia delas e quem arca com seus custos. 

A própria América Latina oferece exemplos de iniciativas que seguem uma lógica oposta e buscam construir infraestruturas digitais a partir de princípios diferentes daqueles que predominam no modelo extrativista das grandes plataformas e corporações tecnológicas. Em vez de depender exclusivamente de redes controladas por empresas privadas, comunidades têm desenvolvido soluções voltadas para suas próprias necessidades de comunicação, organização e gestão territorial.

Um grande exemplo é o das iniciativas de redes comunitárias de internet que vêm sendo implementadas em diferentes países da região, entre eles Brasil, México, Colômbia, Argentina e Nicarágua. Nesses projetos, são as comunidades – em sua maioria situadas em áreas rurais ou isoladas, frequentemente ocupadas por comunidades indígenas ou tradicionais -, que organizam sistemas autônomos de telecomunicações para garantir acesso à conectividade em locais historicamente negligenciados por operadoras comerciais. Mais do que ampliar o acesso à internet, essas iniciativas fortalecem capacidades locais de gestão da infraestrutura de comunicação e ampliam a autonomia das comunidades sobre tecnologias que afetam diretamente sua vida cotidiana.

Essa lógica também se manifesta em outras experiências de desenvolvimento de ferramentas digitais a partir das necessidades definidas pelos próprios territórios, como é o caso da colaboração entre as organizações Técnicas Rudas, do México, e Diversa Studio, do Equador, junto ao povo indígena Yaqui. O projeto combina inteligência artificial, imagens de satélite e análise geoespacial para apoiar a gestão comunitária da água e o monitoramento das transformações ambientais em seu território.

O aspecto mais relevante dessa iniciativa não está na tecnologia utilizada, mas na forma como ela é construída. Os dados produzidos permanecem acessíveis à comunidade, as prioridades de pesquisa são definidas localmente e o objetivo não é alimentar plataformas comerciais globais, mas apoiar processos de gestão territorial e tomada de decisão coletiva. 

Ao mesmo tempo, como apontam perspectivas feministas e comunitárias da região, essas experiências lembram que uma transição digital mais justa não implica necessariamente produzir mais tecnologia. Também exige perguntar quais tecnologias são realmente necessárias, para quais finalidades são desenvolvidas e como reduzir seus impactos sobre os territórios e os recursos naturais.

Onde as agendas se encontram

No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, frisamos a importância de, em uma economia cada vez mais atravessada por infraestruturas digitais, a discussão sobre sustentabilidade e justiça climática incorporar também as formas como tecnologias são produzidas, governadas e distribuídas. E, além disso, de seguirmos travando esse debate situado em termos geográficos, reconhecendo a posição da América Latina como fornecedora de insumos estratégicos e palco de impactos socioambientais desproporcionais.

A relação entre justiça climática e direitos digitais é cada vez mais nítida e central. Ela diz respeito às condições sob as quais a transição digital está sendo construída e a quem participa das decisões sobre seu futuro. Diz respeito à capacidade de comunidades influenciarem projetos que afetam seus territórios, acessarem informações de interesse público e desenvolverem tecnologias alinhadas às suas próprias necessidades e prioridades.

Enquanto a expansão da economia digital continuar reproduzindo padrões de concentração de poder e deslocando seus impactos ambientais para determinados territórios, a promessa de uma transição sustentável permanecerá dificilmente alcançável.

Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.

IA: Assim Washington tenta manter o controle https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/05/estados-unidos-big-techs-governo.html