10 março 2026

Rigor científico

A coragem de estar errado
O conhecimento científico não se funda em fidelidade, mas em teste e revisão. Sem essa disciplina, a esfera pública retorna ao dogma
Celso Pinto de Melo/A Terra é Redonda     

“A dúvida é o primeiro passo da sabedoria” (Aforismo da tradição cartesiana)

Há um paradoxo que define o nosso tempo: nunca a sociedade dependeu tanto da ciência – para compreender epidemias, projetar sistemas técnicos complexos, antecipar riscos ambientais e enfrentar a crise climática – e, ao mesmo tempo, nunca foi tão organizado o ataque à própria ideia de evidência. Em plena era de satélites, dados massivos e inteligência artificial, reaparece com força uma tentação antiga: a de abandonar o difícil trabalho de interrogar o real e substituí-lo por certezas identitárias, confortáveis e imunes à crítica.

O negacionismo contemporâneo não é mera ignorância. Ele se apresenta como uma recusa ativa do princípio de realidade, como tentativa de substituir o mundo como ele, é por um mundo emocionalmente confortável: “minha verdade”, “minha fé”, “meu grupo”, “minha identidade”. Sob roupagem digital, ressurge o impulso pré-moderno: a verdade não como busca, mas como posse; não como argumento, mas como bandeira; não como horizonte compartilhável, mas como instrumento de poder.

Defender o método científico, portanto, não é um gesto corporativo em favor de cientistas, universidades ou laboratórios. É algo mais profundo: defender uma conquista civilizatória rara – talvez a mais preciosa de todas –, a capacidade de construir conhecimento público, cumulativo e corrigível; e, justamente por isso, progressivo.

A revolução invisível

A modernidade científica começa, simbolicamente, com Galileu – não apenas por suas descobertas, mas por seu gesto intelectual. A natureza deixa de ser interpretada como texto sagrado ou alegoria metafísica e passa a ser interrogada como um sistema que responde, com coerência, às perguntas corretas. Em vez de “o que devemos crer?”, a pergunta passa a ser: “o que acontece quando medimos com rigor?”

Esse gesto, aparentemente simples, custou caro – e ainda custa. Ele exige renúncia: renúncia à primazia da autoridade, renúncia ao conforto do dogma, renúncia ao impulso ancestral de concluir antes de examinar. O método científico inaugura uma ética do pensamento que pode ser resumida assim: a realidade tem precedência sobre nossas convicções.

Nesse sentido, ciência não é apenas técnica; é também uma educação moral do olhar. Ela impõe uma disciplina incômoda e libertadora: crenças privadas não podem governar sozinhas o conhecimento público. E, diante do universo, ela nos obriga a aceitar um rebaixamento necessário: não somos a medida do real.

Aqui está o núcleo da revolução científica: a ciência é uma das poucas atividades humanas organizadas para corrigir a si mesma de modo sistemático. Em quase todas as esferas – política, religião, moral ou estética – crenças tendem a se preservar, mesmo quando falham. A ciência é a exceção: ela progride porque admite sua fragilidade.

Sua força não decorre de promessa de infalibilidade, mas de um método de depuração. A ciência se autocorrige porque exige que hipóteses possam ser derrubadas por evidência contrária; porque submete conclusões à reprodutibilidade, isto é, ao escrutínio de terceiros; e porque se apoia numa cultura institucional de crítica, debate e revisão contínua. É esse arranjo – frio apenas na aparência, mas profundamente humano – que transforma erro em aprendizado e desacerto em etapa.

Por isso, o método científico não promete “verdades eternas”. Ele promete algo mais útil: verdades progressivas, cada vez mais robustas, menos dependentes de autoridades e mais dependentes de evidência. A ciência torna-se, assim, a forma mais sofisticada de conhecimento coletivo já inventada: ela não se sustenta pela fidelidade, mas por testes; não pela unanimidade, mas pelo controle crítico.

Essa autocorreção produz algo decisivo: o acúmulo de conhecimento. A humanidade não “opina” sobre antibióticos, órbitas planetárias ou circulação do sangue. Ela sabe – porque testou, repetiu, corrigiu. O conhecimento científico não recomeça do zero: ele se soma.

A física moderna

A transição do século XIX para o XX assistiu a um dos maiores abalos filosóficos da história humana. Até então, mesmo com a Revolução Industrial, o universo newtoniano sugeria uma imagem sedutora: um mundo contínuo, mecanicamente previsível, governado por leis claras, com o tempo e o espaço como cenários neutros. A ignorância ainda existia, mas parecia temporária.

A relatividade de Einstein abriu uma primeira fenda nessa moldura: o espaço e o tempo deixam de ser absolutos e tornam-se relativos ao observador e às condições do movimento. A gravidade deixa de ser apenas força, e torna-se geometria do espaço-tempo. Era um convite à humildade: o mundo não se organiza para confortar o senso comum.

Mas foi a mecânica quântica que produziu o golpe mais profundo – porque atingiu a própria noção do que chamamos de “realidade”. Até então, ainda se podia imaginar que o mundo “em si” fosse um palco perfeitamente definido, no qual as coisas possuíssem propriedades determinadas e apenas aguardassem que alguém as medisse. A revolução quântica dissolveu esse conforto. No domínio microscópico, a matéria deixa de se comportar como coisa sólida e previsível e passa a se apresentar como possibilidade: estados superpostos, probabilidades e limites estruturais ao que pode ser conhecido ao mesmo tempo.

A realidade, nesse nível, já não se assemelha a um inventário de objetos “prontos”; revela-se como um tecido mais complexo, em que aquilo que pode ser dito sobre o real depende do modo como o interrogamos, como experimentamos, como medimos. A lição é desconcertante: a verdade científica não é a que nos conforta; é a que resiste à prova.

Se a física relativizou certezas, a cosmologia relativizou nossa importância. A descoberta de Edwin Hubble – de que o universo está se expandindo – alterou não apenas a astronomia, mas também a própria imagem histórica que a humanidade faz do cosmos: o universo deixa de ser um cenário fixo e passa a ser entendido como um processo físico em evolução, com dinâmica, idade e direção.

O universo ganha idade – e nós, de súbito, deixamos de ser a “medida” do tempo. Nossas civilizações, guerras, identidades e disputas morais tornam-se um mero instante microscópico num tempo cosmológico incomensurável. A Terra é um ponto periférico. O sistema solar, um detalhe. A galáxia, uma entre bilhões.

Mas não se trata de pessimismo. Trata-se de perspectiva. A ciência moderna, ao deslocar o humano do centro, não diminui sua dignidade: combate a arrogância. Enfraquece a pretensão de superioridade natural de qualquer grupo, raça ou dogma. E devolve uma grandeza mais difícil: não a de ocupar o centro, mas a de compreender o que não foi feito para nós.

Se a cosmologia relativizou nosso lugar no universo, a biologia molecular relativizou a nossa separação diante da vida. A descoberta da estrutura do DNA e o desvendamento do código genético colocaram a diversidade viva sob um mesmo princípio: a vida como informação material organizada.

O efeito filosófico desse momento é imenso: o humano deixa de ser exceção e passa a ser parte. Somos continuidade evolutiva. Somos história biológica. Somos natureza consciente. Dessa revolução nasce a biotecnologia moderna: vacinas, diagnósticos, terapias-alvo, engenharia genética.

Conhecer a vida passa a significar também poder transformá-la. Abre-se um horizonte de cura – e um novo horizonte de risco. E fica claro que ciência não é catecismo moral: é ferramenta da verdade.

Tecnologia, redes e o novo terreno do obscurantismo

A revolução tecnológica recente – automação, robótica, inteligência artificial – é uma extensão do método científico à vida cotidiana: sensores, dados, modelos, inferência. O mundo passa a depender de previsão. A economia depende de validação. A organização social depende de sistemas técnicos.

Mas essa mesma infraestrutura que multiplica conhecimento também multiplica ruído. Nunca foi tão fácil fabricar certezas falsas, nem tão fácil tornar uma mentira viral. A esfera pública fragmenta-se, e a verdade se tribaliza. Nesse ambiente, o negacionismo ganha potência – não por ser racional, mas por ser emocionalmente eficiente: oferece pertencimento no lugar do argumento, segurança psicológica no lugar da dúvida, identidade no lugar da complexidade.

O negacionismo, assim, não é apenas erro: é projeto de poder. Não é debate sobre o verdadeiro; é disputa sobre quem tem o direito de impor a própria “verdade”. Em vez de autocorreção, fidelidade. Em vez de evidência, obediência.

Alguns projetos contemporâneos explicitam essa tendência ao tentar enquadrar o dissenso como ameaça e o pluralismo como desvio moral – aproximando o debate público da lógica da suspeita e da intimidação. O caso do chamado Project Esther é revelador.[1] O ponto essencial, porém, vai além do exemplo específico: quando uma sociedade converte divergência em heresia e evidência em suspeita, ela retorna a uma forma medieval de vida pública – onde a verdade não é construída, mas decretada.

E, então, a força tenta se impor sobre a razão: pela intimidação, pela censura, pela destruição do debate e pela substituição do argumento por enquadramentos morais absolutos.

Há um passo final – talvez o mais decisivo – nessa defesa do método científico: trata-se, no limite, de uma defesa da vida.

A Terra levou bilhões de anos para produzir algo raro no universo observável: uma biosfera complexa, delicada, exuberante, capaz de sustentar diversidade e consciência. A humanidade é parte dessa trama. Não estamos acima dela. Dependemos dela. E a ciência moderna – ao contrário do que sugerem seus detratores – não nos afasta da natureza: ela nos permite compreendê-la e, portanto, protegê-la.

Por isso, o negacionismo climático é mais do que uma disputa de números: é irresponsabilidade moral travestida de opinião. Ele tenta dissolver evidências em crença, transformar medições em ideologia e confundir a sociedade com ruído, justamente quando a realidade física se torna implacável. O planeta não negocia com narrativas. A atmosfera não reconhece preferências. O carbono não respeita identidades. A física do clima não se curva à retórica.

Defender a ciência, nesse terreno, é defender um pacto intergeracional: o direito dos que virão de herdar um mundo habitável. É afirmar que nenhuma “verdade privada” – religiosa, ideológica, identitária ou econômica – pode sequestrar o futuro comum.

A ciência não é infalível. Mas ela é corrigível – e essa é sua superioridade histórica. O negacionismo, ao contrário, é inflexível por princípio: alimenta-se de dogma. Não busca verdade: busca vitória.

O método científico é uma disciplina do espírito. Ensina que mudar de ideia diante da evidência é virtude, não fraqueza. Talvez esta seja hoje a fronteira decisiva: preservar a cultura da autocorreção contra a cultura da imposição.

Quando a sociedade abandona a ideia de verdade pública – testável, verificável, compartilhável –, abre-se o caminho para o império das certezas violentas. E quando isso acontece, não é apenas a ciência que se perde: perde-se a própria possibilidade de convivência.

Defender o método científico é, portanto, defender a própria razão.

E, num mundo que volta a flertar com o obscurantismo, defender a razão é também defender a própria possibilidade de futuro.

*Celso Pinto de Melo é professor titular de física aposentado da UFPE e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Nota


[1] Project Esther é o nome dado a um documento elaborado pela Heritage Foundation, apresentado como plano estratégico de combate ao antissemitismo; críticos apontam que sua arquitetura pode ser instrumentalizada para enquadrar movimentos sociais e atores acadêmicos como ameaça, pressionar universidades e restringir o espaço do dissenso.

Leia: As big techs ativas na cena política https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/01/big-techs-na-cena-politica.html 

Humor

 

Thiago Lucas/Jornal do Commercio

O projeto das Big Techs para substituir os Estados nacionais https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/big-techs-x-estados-nacionais.html 

Trump atira no próprio pé

O desastre de Trump no Oriente Médio
Até agora, ninguém tem certeza de quais são exatamente os motivos para atacar o Irã
James N. Green/Liberta   

Os ataques conjuntos de Trump com Israel contra o Irã podem dar errado de inúmeras maneiras. O problema em avaliar os objetivos de guerra do presidente dos EUA é que ele ofereceu tantas justificativas diferentes na última semana que ninguém tem certeza de quais são exatamente os motivos para atacar o Irã. Parece que todos os resultados de guerra projetados pela Casa Branca e pelo Pentágono podem acabar enfraquecendo, fatalmente, sua presidência nos dois anos e nove meses restantes de seu mandato.

O objetivo é destruir o programa nuclear do Irã e eliminar seu sistema de mísseis balísticos? Ou é provocar uma mudança no regime, identificando e recrutando líderes dispostos a trabalhar com os Estados Unidos? Talvez seja impedir que os aliados do Irã (Hezbollah, Hamas, os Houthis e seus apoiadores na Síria e no Iraque) operem no Oriente Médio. Ou, ainda, será a meta apoiar a população civil que clama pelo fim do regime, a qual, presumivelmente, se levantará pacificamente e o derrubará?

O Rei Louco

Como Trump sabe tão bem, quando se oferecem muitas possibilidades confusas e contraditórias, basta apontar para aquela que acaba funcionando, declarar vitória e ir para casa.

Isso deve levar de um mês a cinco semanas, de acordo com o último cronograma anunciado por Trump. Durante esse período, ele e o primeiro-ministro israelense, Bibi Netanyahu, poderiam infligir danos significativamente maiores à infraestrutura militar do Irã, ou seja, às suas capacidades nucleares e de mísseis balísticos. Inevitavelmente, o número de vítimas civis também poderia aumentar exponencialmente.

Para fins de argumentação, vamos esquecer que, em junho de 2025, Trump proclamou que a força aérea dos EUA “obliterou total e completamente” as capacidades nucleares do Irã. Desde que fez essa afirmação exagerada, ninguém no atual governo dos EUA tem permissão para criticar Donald, o Rei Louco, sobre seu brilhantismo militar como comandante-em-chefe das forças armadas do país.

Assim, em agosto de 2025, quando o tenente-general Jeffrey Kruse, chefe da Agência de Inteligência de Defesa, divulgou um relatório afirmando que os ataques dos EUA apenas atrasaram o programa nuclear do Irã em alguns meses, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, o demitiu imediatamente. Parece que ninguém no governo quer imaginar o rei sem roupa.

Esquecendo, convenientemente, a ostentação do ano passado sobre a onipotência militar dos EUA, Trump ainda pode usar o argumento de que as capacidades nucleares do Irã ameaçam Israel e a paz no Oriente Médio. É uma forma de mobilizar setores céticos de sua base “América Primeiro” (MAGA, sigla do movimento Make America Great Again). Afinal, Trump tem feito campanha, desde 2016, afirmando ser contra envolvimentos estrangeiros e “guerras intermináveis”.

A ameaça militar “iminente”, que Trump e seus apoiadores alegam existir, pode encorajar os apoiadores do MAGA a se unirem em torno da bandeira e apoiarem a guerra, apesar de muitas reservas. No entanto, não devemos esquecer que essa estratégia não se mostrou muito eficaz para o presidente George W. Bush, quando insistiu, em 2003, que o Iraque possuía armas de destruição em massa (na verdade não as possuía).

E quanto a derrotar os apoiadores do Irã no Líbano, Gaza, Iêmen, Síria e Iraque? A guerra contra o Irã e a resposta do Hezbollah, com o lançamento de foguetes contra Israel, deram ao governo de Netanyahu a desculpa para infligir ainda mais danos à organização bem dentro das fronteiras do Líbano. Isso serve como sinal verde para dizimar o Hezbollah de uma vez por todas.

Entretanto, o Irã intensificou a guerra atacando países árabes que permitiram bases americanas em seus territórios, reacendendo ressentimentos e rivalidades seculares entre sunitas e xiitas. Curiosamente, nem os analistas de notícias, nem o Pentágono e a Casa Branca parecem levar em consideração essa divisão incrivelmente importante dentro do Islã.

Risco de perda de controle

Nas primeiras horas da guerra, vários países árabes, aliados dos Estados Unidos, recusaram-se a permitir que o Pentágono usasse seu espaço aéreo. No entanto, as retaliações do Irã contra os Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait, Catar, Iraque e Jordânia os levaram a entrar na guerra. Resta saber se eles atacarão o Irã, mas existe um risco real de que a guerra possa rapidamente se tornar um conflito regional difícil de conter.

Há também a questão da mudança de regime. No primeiro dia da guerra, ataques aéreos aniquilaram quase toda a liderança do República Islâmica. Tendo capturado com sucesso Nicolás Maduro na Venezuela e permitido que sua vice-presidente, Delsy Rodríguez, permanecesse no poder, Trump agora parece acreditar que esse é o modelo a ser empregado no Irã.

Ao anunciar, em 3 de março, que “alguém de dentro” do governo iraniano poderia ser a melhor escolha para assumir o poder, assim que a campanha militar EUA-Israel terminasse, Trump, no entanto, admitiu que “a maioria das pessoas que tínhamos em mente está morta”. Ele continuou a refletir: “Agora, temos outro grupo, que também pode estar morto, segundo relatos. Então, teremos uma terceira onda. Em breve, não saberemos de ninguém.” Que belo planejamento militar estratégico para o dia seguinte.

Dois nomes importantes, entre vários outros que circulam na mídia ocidental como possíveis sucessores do aiatolá Khamenei, são seu filho linha-dura, Mojtaba Khamenei, e Hassan Khomeini, o suposto neto reformista do fundador da República Islâmica.

Há outros líderes ligados à Guarda Revolucionária Islâmica, cujos nomes são comentados. Eles fazem parte de uma estrutura governamental sofisticada e complexa, com capacidade significativa para sufocar quaisquer levantes internos contra o regime atual. Representam continuidade, não ruptura. Como Trump corretamente aponta, a situação pode ser ainda pior do que antes da guerra.

E o que acontece depois que os bombardeios cessarem? Presumivelmente, de acordo com a análise de Trump, será uma oportunidade única para centenas de milhares de iranianos irem às ruas exigir a queda da República Islâmica. A maioria dos especialistas acredita que eles serão brutalmente reprimidos, como aconteceu no ano passado, quando Trump prometeu socorrê-los e depois recuou.

Linha vermelha

Se o massacre de manifestantes for a linha vermelha que, se cruzada, provocará uma resposta vigorosa de Trump, quase inevitavelmente será necessária a intervenção de tropas estrangeiras.

Isso representa um problema para Trump com sua base anti-intervencionista e pró-América Primeiro. Figuras importantes do movimento MAGA – Tucker Carlson, Megyn Kelly e Matt Walsh – já manifestaram sua oposição à guerra, sugerindo não necessariamente uma divisão, mas sim refletindo uma potencial desmoralização de alguns eleitores republicanos e independentes.

Frustrados com a mudança radical na política de Trump, um número significativo pode se abster nas importantíssimas eleições de meio de mandato de novembro, dando o controle do Congresso aos democratas.

Embora os parlamentares republicanos tenham permanecido unidos a Trump, votando contra uma tentativa de conter sua conduta por meio do uso da Lei de Poderes de Guerra, o público não é muito convencido da atual política do presidente para o Oriente Médio. Uma pesquisa da NBC indica que 54% dos americanos são contra a guerra. Há uma diferença de 13 pontos percentuais entre aqueles que se opõem à guerra e aqueles que são a favor da atuação de Trump em relação ao Irã, com um pequeno número demonstrando incerteza.

Os resultados mostram uma polarização contínua entre democratas e republicanos, mas alguns destes últimos parecem estar abandonando o presidente.

Ainda é cedo demais para dizer quantos.

Poderíamos acrescentar a isso a possibilidade de um número crescente de baixas entre os soldados americanos, especialmente se Trump for forçado a enviar tropas terrestres. Além disso, os preços do petróleo já estão subindo rapidamente, criando inflação e minando a capacidade do presidente de reduzir os preços e abordar a questão do acesso ao combustível, que será um tema fundamental nas próximas eleições. Adeus àquela promessa crucial de campanha.

Como sugerido acima, é verdade que Trump, o vigarista, poderia simplesmente declarar que venceu a guerra em algum momento de abril e, mais uma vez, exigir que receba o Prêmio Nobel da Paz. Mas fica a dúvida se esses gestos irão apaziguar parte de sua base e os “eleitores independentes”, que precisarão comparecer em grande número para apoiar os candidatos republicanos em novembro, caso Trump queira garantir a continuidade do controle do Congresso.

Neste momento, nenhum desses cenários, nem outros, parece favorável ao presidente. Talvez ele, assim como os soldados que, segundo relatos, desprezou com comentários pejorativos no passado, também seja um perdedor? 

Multilateralismo aos frangalhos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/diplomacia-em-segundo-plano.html 

Fotografia

 

Luciano Siqueira

"Meu ideal seria escrever...", crônica de Rubem Braga https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/uma-cronica-de-rubem-braga.html 

Palavra do PCdoB

PCdoB reafirma compromisso com reeleição de Lula e legado de Rabelo e Cabreira
www.pcdob.org.br         

A Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) divulgou resolução em que aborda os principais desafios de 2026, ano do 104º aniversário do partido mais antigo do país em atividade.

O documento chama atenção para dois pontos centrais: lutar pela reeleição de Lula e pela vitória do projeto eleitoral dos comunistas e fortalecer o partido com o legado de Renato Rabelo e Márcio Cabreira, dois grandes dirigentes comunistas falecidos em fevereiro.

A resolução ressalta que a disputa presidencial deste ano será acirrada, “o que exige, desde já, engajamento na batalha do conjunto das forças democráticas, patrióticas e populares”. E continua: “Para o PCdoB, a campanha de Lula deve ser à base de uma ampla composição política, social, econômica, cultural, a construção de uma larga frente, impulsionada pela mobilização popular, em defesa de quatro bandeiras: soberania nacional, democracia, desenvolvimento e valorização do trabalho”.

O documento ainda enaltece o legado de Rabelo e Cabreira, salientando que “os exemplos de vidas tão intensas quanto realizadoras” de ambos os camaradas “serão seiva viva para fazer avançar o movimento para revigorar o PCdoB”.

Leia abaixo a íntegra da resolução:


PCdoB, 104 anos
Lutar pela reeleição de Lula e pela vitória do projeto eleitoral dos comunistas
Fortalecer o Partido com o legado de Renato Rabelo e Márcio Cabreira

O PCdoB celebra seus 104 anos na linha de frente da jornada pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que Brasil avance no caminho do desenvolvimento soberano, e livre o país da ameaça de retorno ao poder da extrema-direita, constituída por traidores da pátria e neofacistas.

Simultaneamente, busca a vitória de seu projeto eleitoral, centrado na reeleição e ampliação da bancada na Câmara dos Deputados. Realiza uma pré-campanha ampla, entusiástica, embandeirada com a defesa da soberania nacional, engajada na luta pela redução da jornada de trabalho, pelo fim da escala 6×1, na mobilização contra o feminicídio, pela redução dos juros e reindustrialização do país, por mais desenvolvimento, mais democracia, pela valorização do trabalho e mais direitos ao povo.

O Partido convida o eleitorado democrático e progressista para participar da pré-campanha. Convida lideranças para se filiarem para se candidatar e para se engajarem nesta batalha histórica. É indispensável uma esquerda forte para impedir os retrocessos da direita e da extrema-direita.

O PCdoB ergue a bandeira da paz mundial e contra as guerras imperialistas. Condena, veementemente, a ofensiva guerreira de Donald Trump para oprimir os povos e saquear as riquezas dos países. Internacionalista, empreende ações de solidariedade aos povos e países agredidos: à Cuba, sob brutal bloqueio; ao povo palestino, vítima de genocídio; à Venezuela, seu povo e seu governo; ao Irã, sob os bombardeios de uma guerra imperialista que abala o mundo.

Ressalta que, no âmbito de uma realidade mundial marcada por múltiplas crises do capitalismo e relevantes mudanças, o socialismo retoma prestígio. A República Popular da China é a sua maior expressão, mas se destaca também no Vietnã e outros países.

O PCdoB no seu aniversário comunica que desencadeou o processo de pesquisas e debates à atualização de seu Programa Socialista para o Brasil e adequá-lo às mudanças no Brasil e no mundo.

As reflexões iniciais indicam que se impõe, como eixo aglutinador de um polo constituído pela esquerda e por forças patrióticas e populares a jornada por reformas estruturais democráticas destinadas a remover os obstáculos e amarras neoliberais e neocoloniais que travam o desenvolvimento brasileiro. E suprir a falta de um projeto nacional de desenvolvimento, que afeta o campo político progressista.

Homenagem ao legado de Renato Rabelo e Márcio Cabreira

O PCdoB marcou presença continua nos principais acontecimentos da história brasileira desde a sua fundação, em 25 de março de 1922, uma longeva e realizadora atuação que decorre do trabalho de gerações de comunistas que construíram e trouxeram o Partido até a contemporaneidade.

À sua frente estiveram Astrojildo Pereira, seu principal fundador e líder da primeira geração de comunistas; Luiz Carlos Prestes, destacada liderança popular, líder da segunda geração; João Amazonas, seu principal construtor e ideólogo e liderança da terceira geração; e Renato Rabelo, que esteve à frente da quarta geração.

Renato faleceu em 15 de fevereiro de 2026, causando forte impacto no Partido. As condolências de todo país e do exterior denotam a dimensão e força de seu legado. Renato integrou o núcleo dirigente do Partido por mais de meio século.

Foi também um ativo construtor e ideólogo, com ampla respeitabilidade entre as forças democráticas e de esquerda no Brasil. Cultivou relações e intercâmbios com partidos e organizações comunistas e revolucionárias em diferentes continentes.

Como disse o presidente Lula, Renato foi um homem notável, “uma das figuras mais relevantes da história política do Brasil”. Da mesma forma, a ex-presidente Dilma Roussef classificou Renato como “um baiano doce de alma revolucionária, que segue o melhor da tradição comunista, combinando ação e pensamento, teoria e combate, comprometido com o desenvolvimento nacional, a emancipação do povo brasileiro e a construção do socialismo”.

O PCdoB enaltece também o legado do dirigente Márcio Cabreira, que faleceu em 10 de fevereiro, aos 54 anos de idade. Desde a juventude foi um destemido e talentoso lutador das causas da soberania nacional, dos direitos do povo e do socialismo. Pertenceu com notável valor ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e ao Partido Pátria Livre (PPL). Foi o seu dirigente que fez os primeiros contatos que se desdobraram no histórico processo de integração do PPL ao PCdoB.

Cabreira Integrou o Comitê Central do PCdoB, a Comissão Executiva Nacional, a Comissão Política Nacional, Exerceu as funções de secretário-adjunto de Organização e secretário de Relações Institucionais. Conquistou liderança e admiração do coletivo militante por seu perfil que associava capacidade política, elevado compromisso revolucionário, dedicação incansável e fator de unidade, pelo seu estilo de diálogo e construções.

Os exemplos de vidas tão intensas quanto realizadoras dos camaradas Renato Rabelo e Márcio Cabreira serão seiva viva para fazer avançar o movimento para revigorar o PCdoB.

Um confronto crucial ao presente e ao futuro do país

O PCdoB ressalta que o Brasil, novamente, se encontra diante de dois caminhos antagônicos: o da afirmação da soberania nacional, o que lhe permitirá abrir espaço para um novo ciclo de desenvolvimento soberano, preservando e ampliando a democracia, melhorando fortemente a vida do povo, e o retorno do bolsonarismo, da extrema-direita e os setores a ela associados, com um programa de traição nacional, de regressão neoliberal e neocolonial, sob uma ordem autoritária, com degradação social e cultural crescente. Esse antagonismo está estampado nas pré-candidaturas do presidente Lula, e do serviçal de Donald Trump, Flávio Bolsonaro, ungido pelos banqueiros, pelo capital financeiro e por setores da burguesia agroindustrial.

Vai se confirmando o prognóstico de que a disputa será acirrada, o que exige, desde já, engajamento na batalha do conjunto das forças democráticas, patrióticas e populares. Para PCdoB, a campanha de Lula deve ser à base de uma ampla composição política, social, econômica, cultural, a construção de uma larga frente, impulsionada pela mobilização popular, em defesa de quatro bandeiras: soberania nacional, democracia, desenvolvimento e valorização do trabalho. Combinar a mensagem de esperança com políticas e compromissos focados na forte melhoria da qualidade de vida do povo.

Será necessário repelir e neutralizar a interferência estrangeira, que tende a se manifestar por ações do governo Trump, via as big tech, com chantagens e agressões por diversos meios. Ao mesmo tempo, é preciso travar a luta de ideias para responder aos desafios da guerra cultural empreendida pela extrema-direita.

O confronto será duro, mas o PCdoB está convicto de que, com muita luta, amplitude e sagacidade, a nação e a classe trabalhadora irão conquistar mais uma vitória com a reeleição do presidente Lula.

07 de março de 2026
Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

As duas cabeças do monstro que assombra o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/bastioes-da-direita.html

Arte é vida

 

Ademir Martins

Indústria criativa pode perder até 24% das receitas globais por causa da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/desequilibrio-tecnologico.html 

Minha opinião

A turma da usura abalada
Luciano Siqueira 

Em breve pausa para um cafezinho no shopping, sou abordado por cidadão de meia idade, de bom trato, como se dizia no século passado:

- Sei que não é do seu ramo, mas pergunto se concorda que o sistema está vazando que nem peneira...

- Que sistema?

- O sistema financeiro, depois desse escândalo do Banco Master.

- Ah, sim...

- Sou das antigas, tudo o que consegui juntar na vida apliquei em imóveis, nunca me arrisquei com ações nem títulos na Bolsa...

A conversa não prosperou, felizmente, porque ambos estávamos apressados. Eu, que já pagando o café; e ele que estava apenas de passagem.

Já a caminho das Graças, dirigindo o carro, imaginei as centenas de milhares (ou milhões?) de pequenos investidores que arriscam suas economias na Bolsa, agora inseguros quanto aos destinos de suas aplicações diante da derrocada do Banco Master, que culminou em liquidação extrajudicial pelo Banco Central no final do ano passado e na prisão de seu controlador, o banqueiro Daniel Vorcaro.

Um dos episódios mais traumáticos para a credibilidade do sistema financeiro brasileiro na última década. Mais do que um caso isolado, a revelação de fissuras institucionais que atingem desde o pequeno investidor até os pilares da regulação estatal.

Tudo como resultado de um modelo de negócios apoiado em práticas que, segundo a Operação Compliance Zero, da Policia Federal, envolvia a fabricação de carteiras de crédito falsas e a oferta de CDBs com rendimentos irreais para captar recursos além da conta.

Mais: a revelação de uma rede de influência que chegava às altas esferas do Estado, incluindo consultorias informais prestadas por servidores do Banco Central justamente responsáveis pela fiscalização.

Ao cidadão comum cabe a pergunta: quem disse que o mercado financeiro é um ambiente de regras iguais para todos? Quando a influência política e vantagens pessoais vêm à tona, os riscos se mostram sistêmicos.

Mais: o impacto no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), cujo desembolso ultrapassa R$ 51 bilhões para ressarcir centenas de milhares de credores, perto de um terço do seu caixa.

Na prática, todo o sistema é atingido, inclusive porque os demais bancos são levados a aumentar seus aportes no Fundo, o que encarece o crédito para o consumidor.

​Enfim, um sistema vulnerável. E duramente atingido em sua credibilidade.

Como Paulo Guedes e o BTG construíram uma bolha bilionária em precatórios https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/a-bolha-dos-precatorios.html