Saudemos os erros do adversário*
Luciano Siqueira
A luta política se assemelha muito a um jogo. Qualquer jogo. Daí saudarmos com efusivos aplausos erros cometidos pelo adversário.
É o caso das eleições presidenciais.
A despeito dos riscos inerentes à dimensão da disputa e a tradição de complexidade — que em vários episódios de nossa história significou crise política —, não basta estarmos com a razão e procedermos do modo certo. O comportamento do oponente pesa, e muito.
É cedo ainda para previsões mais consistentes, porém podemos dizer que o jogo eleitoral gradativamente favorece a reeleição do presidente Lula.
As circunstâncias e os equívocos dos aniversários têm contribuído muito para isso.
Primeiro, os ataques inopinados à economia do país mediante estrambólico tarifaço desferido pelo presidente Donald Trump, que tem dado ensejo à elevação do conteúdo do discurso do presidente Lula (para além do "economicismo governamental"), trazendo a primeiro plano a defesa da soberania nacional, tema de grande apelo popular e de conteúdo avançado.
Segundo, na sua contraface, o comportamento abertamente entreguista do principal pré-candidato da extrema direita, senador Flávio Bolsonaro.
É sintomático que o jornal o Estado de São Paulo, um dos porta-vozes mais eloquentes da elite financeira dominante, como em ato de reconhecimento público da frustração do setor, desça a lenha no comportamento inoportunamente eleitoreiro do dito filho 01 na audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) na terça-feira (7), em Washington, sobre o novo tarifaço previsto para 15 de julho.
Pela crítica aberta e lamentos indiretos, não só o Estadão, mas todo o complexo midiático neoliberal se frustra porque politicamente não há mais como retirar a candidatura do senador e os demais pré-candidatos do mesmo campo político aparentemente não terão fôlego para crescer na preferência do eleitorado.
Entretanto, há outros fatores em presença.
Os arranjos eleitorais em torno de candidaturas aos governos estaduais no seu conjunto não favorecem o campo democrático e popular. Na maioria dos grandes colégios eleitorais as forças do centro conservador e da extrema direita constroem coligações potencialmente poderosas.
Nessas coligações também pesam senadores e deputados federais candidatos à reeleição estribados nas emendas parlamentares como instrumento de manutenção dos seus redutos eleitorais.
Enfrentar com êxito esse cenário aparentemente favorável, porém sujeito a contratempos, implica, da parte da frente ampla liderada pelo presidente Lula, atualização da plataforma do próximo governo, em termos tão amplos quanto avançados; e aprimorar o discurso tendo como fio condutor a defesa da soberania do país.
Isto pode funcionar como convocação aos segmentos mais esclarecidos e organizados da sociedade a uma participação ativa na luta pela reeleição.
De quebra, subproduto desse posicionamento, assim consequente, o reforço das possibilidades de bons resultados na disputa por governos estaduais e pela melhora da correlação de forças no Senado e na Câmara dos Deputados.
*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'
Qual a sua opinião? Assine seu comentário para que possamos publicá-lo.