07 janeiro 2026

Minha opinião

O tempo nosso de cada instante
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

Lidar com o tempo não é fácil, sobretudo na época em que vivemos.

Tecnologias as mais diversas nos passam a impressão que tudo há que ser feito às pressas, pois nada pode esperar.

Ninguém pretenda abstrair esse dado de realidade. Basta que se veja ao espelho para contemplar no próprio rosto as tais marcas do tempo do tempo vivido.

Certa vez — já tem mais de duas décadas —, minha mãe impressionada com o que ela considerava rapidez com que meus cabelos se tornavam grisalhos, perguntou: "Meu filho, que aconteceu com seu bigode que está assim todo branco?" Outra resposta eu não poderia dar: "Tempo de uso, minha mãe."

Era uma fase da vida em que muitos contemporâneos meus e amigos de velhas datas rasparam o bigode justamente para evitar a exibição do tempo de vida vivido.

E me perguntavam se eu não iria fazer o mesmo.

Claro que não.

Nômades digitais: ascensão e queda previsível https://lucianosiqueira.blogspot.com/2022/08/trabalhadores-em-home-office.html 

Palavra de poeta

Soneto da busca
Carlos Pena Filho  


Eu quase te busquei entre os bambus
para o encontro campestre de janeiro
porém, arisca que és, logo supus
que há muito já compunhas fevereiro.

Dispersei-me na curva como a luz
do sol que agora estanca-se no outeiro
e assim também, meu sonho se reduz
de encontro ao obstáculo primeiro.

Avançada no tempo, te perdeste
sobre o verde capim, atrás do arbusto
que nasceu para esconder de mim teu busto.

Avançada no tempo, te esqueceste
como esqueço o caminho onde não vou
e a face que na rua não passou.

[Ilustração: Evgeniy Monahov]

Leia também "Elogio da aprendizagem", poema de Berthold Brecht https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/palavra-de-poeta_28.html 

Arte é vida

 

Wlad Safronow

"Da rede tudo se ouve e se imagina" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_29.html 

Enio Lins opina

Sobre presidentes e narcotraficantes, pesos e medidas
Enio Lins    

VENEZUELA AGREDIDA é a bola da vez. O mundo se agita por conta da overdose autoritária do governo Trump. Enquanto isso, em Nova Iorque está montado um circo jurídico para tentar justificar o sequestro do presidente Nicolás Maduro, acusando-o ilegalmente, pelas normas do direito internacional, de “narcotraficante”. Depois de iniciado o julgamento, a principal acusação, de “chefe do Cartel de Los Soles”, foi retirada pelo governo Trump, mas o teatro segue com outras acusações menores.

AINDA EM NOVA IORQUE outro espaço se projeta como picadeiro: o Conselho de Segurança da ONU, reunido para analisar e se posicionar sobre a agressão sofrida pela Venezuela. Ao longo dos tempos, esse órgão tem sido anulado, em suas decisões mais importantes, pelo poder de veto exercido pelos Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido, na condição de membros permanentes. Qualquer um desses cinco países, por seu próprio e único voto, pode cancelar qualquer posição da maioria. Com o veto garantido dos americanos e de seus aliados, este caso venezuelano se anuncia mais uma desmoralização das Nações Unidas.

DO PONTO DE VISTA LEGAL, como tem sido abordado pela mídia aqui e alhures, não se sustenta a ação do governo americano em nenhum item do Direito Internacional. Ademais, rapto de Maduro escancara uma grave contradição da Casa Branca, pois os Estados Unidos se recusam a aplicar decisões do Tribunal Penal Internacional, principal órgão do gênero no mundo, quando essas alcançam criminosos que têm apoio americano, como no caso de Benjamin Netanyahu. O genocida israelense é detentor de um mandado de prisão por crimes de guerra contra a população civil palestina, emitido pelo TPI em 21 de novembro de 2024. Em pleno vigor, esse documento legal perfeito é ignorado pelo governo estadunidense, que tem acolhido o criminoso Bibi depois dessa ordem de captura, por várias vezes, no Salão Oval e na mansão do atual presidente, em Mar-a-Lago (a recepção mais recente, foi há apenas nove dias). E os crimes comprovadamente cometidos por Bibi são escandalosamente maiores que os atribuídos a qualquer narcotraficante em qualquer ponto do planeta.

ISSO SEM FALAR QUE, até agora, não foi apresentada evidência de que Nicolás Maduro tenha ligações com o narcotráfico, ao contrário do ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández. Processado e julgado nos Estados Unidos por comandar “uma das maiores e mais violentas conspirações para o tráfico de drogas do mundo”, Hernández foi preso em 2022, em sua residência, na cidade de Tegucigalpa, depois de terminar seu segundo mandato presidencial. Foi detido pela polícia local, cumprindo determinação da Justiça de Honduras, e extraditado legalmente para os Estados Unidos “onde foi condenado, em 2024, a 45 anos de prisão e pagamento de multa de US$ 8 milhões. Segundo os promotores, ‘ele pavimentou uma estrada de cocaína para os EUA, com o apoio de metralhadoras’. Gravações exibidas no tribunal mostraram diálogos explícitos com traficante: em um deles, disse que queria ‘enfiar drogas nos narizes dos gringos’ nos EUA” –entre aspas, trechos de reportagem publicada n’O Globo há três dias.

EM 2 DE DEZEMBRO, um mês antes de sequestrar Maduro, Donald Trump perdoou o narcotraficante Juan Orlando Hernández, liberando-o da prisão e autorizando sua permanência em território americano, pois o ex-presidiário não poderia voltar imediatamente a seu país, pois lá lhe esperam outras condenações. Um dos objetivos do inquilino da Casa Branca foi possibilitar ao notório narcotraficante liberdade e condições de articular remotamente seus cúmplices no crime organizado para os momentos finais das eleições presidenciais em Honduras. Em 24 de dezembro, Nasry Asfura, candidato direitista, apoiado por Trump e Hernández, foi declarado vencedor num pleito suspeito, recheado por denúncias de fraude no processo de apuração, que se arrastou por três semanas, na contagem manual – “auditável” – do s votos. Simples assim.

Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html

Minha opinião

Lula entre Estados Unidos e Venezuela a passos firmes* 

Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65

São muitas as baboseiras que se escuta e se lê na grande mídia monopolizada brasileira a propósito do conflito Estados Unidos versus Venezuela. Em particular sobre a postura altiva e propositiva do governo brasileiro. 

No fundo, o desejo de que o Brasil se perfile ao lado do imperialismo norte-americano, sem explicitar esse propósito com todas as letras, à luz do dia.

De quebra, a persistência no intuito de desqualificar o presidente Lula e a política externa praticada pelo Brasil. 

Uma forma de encontrar chifre em cabeça de cavalo, nessa matéria, é insinuar que o presidente brasileiro enfrentaria o dilema de se posicionar ao lado de Trump ou da vice-presidente Delcy Rodriguez, no exercício da presidência da Venezuela. 

Ora, são duas questões distintas ainda que possam roçar entre si ponto de contato. 

A postura firme do governo brasileiro em defesa da autodeterminação dos povos e contra absurda intervenção armada norte-americana e o sequestro do presidente Nicolás Maduro percorre um trilho. A postura altiva e hábil de Lula que resultou na abertura de negociações com Trump a propósito do tarifaço segue em outro trilho. 

Ou seja, não há uma suposta "encruzilhada" envolvendo essas duas matérias. 

O que se critica como ambiguidade no governo brasileiro no trato simultâneo dessas duas questões é na verdade a prática de uma política externa altiva e propositiva, acrescida da habilidade diplomática que historicamente caracteriza o Itamaraty.

Uma contrariedade para o complexo midiático, que de maneira velada ou aberta (pela voz de alguns prepostos ansiosos por prestar serviços aos seus patrões) anseia pela submissão do Brasil aos Estados Unidos — algo absolutamente inadmissível, por mil razões, entre as quais o papel que nosso país hoje cumpre em articulações multilaterais, como o BRICS, e na diversificação de iniciativas de cooperação com a China e outros países ascendentes. 

*

Em tempo: desde Marx e Engels a importância de fatos fortuitos ou inesperados já era reconhecida na evolução de situações conjunturais específicas que proporcionam mudança de rumos na cena política, como na obra "As lutas de classes na França de 1848 a 1850" de Karl Max. No Brasil de agora, o tarifaço trumpista, em certa medida contaminado pelo bolsonarismo, resultou num passo adiante no conteúdo do discurso do presidente do Brasil — superando uma espécie de "economicismo governamental" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/minha-opiniao_5.html e assumindo com toda clareza e prioridade a defesa da soberania nacional e da democracia. O ataque norte-americano à Venezuela contribui para reforçar essa postura.

*Texto da minha coluna semanal no 'Vermelho'

Leia também: Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html 

Fotografia

 

Evandro Teixeira

Colonialismo digital: a nova fronteira da dependência latino-americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-desafio-da-autonomia-tecnologica.html 

EUA: agressão deliberada

Os fortes fazem o que querem: Trump, Venezuela e o retorno do Diálogo Meliano*
Celso Pinto de Melo [1]  

O recente ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, culminando no sequestro do presidente Nicolás Maduro, não é um desvio episódico nem um excesso retórico de política externa. Trata-se de um ato deliberado de força, que redefine os termos da relação entre Washington e Caracas e explicita uma lógica de poder que dispensa mediações, normas e até mesmo o verniz diplomático. O que se encena não é um conflito ideológico clássico nem uma controvérsia diplomática convencional, mas um diálogo radicalmente assimétrico, no qual a linguagem da força substitui qualquer pretensão de negociação entre iguais. A reatualização da Doutrina Monroe [2] fornece o enquadramento estrutural dessa assimetria, convertendo soberania e autonomia em concessões condicionais.

No célebre Diálogo dos Melianos, Atenas dirige-se à pequena ilha de Melos não para negociar, mas para comunicar uma realidade: a submissão é racional; a resistência, irracional. Não há apelo à justiça ou ao direito, apenas à correlação de forças. A moral, ensina Tucídides, só existe entre iguais.

Essa lógica reaparece de forma quase literal na maneira como os Estados Unidos passaram a tratar a Venezuela. O discurso público não se organiza em torno de mediação multilateral ou de soluções pactuadas, mas da imposição de custos crescentes: sanções financeiras, bloqueios comerciais, isolamento diplomático e controle indireto sobre fluxos energéticos. O objetivo não é convencer nem negociar, mas forçar a aceitação de um novo equilíbrio de poder.

Diferentemente da Atenas clássica, o poder contemporâneo raramente se exerce por ocupação territorial direta. Ele opera por instrumentos sistêmicos, menos visíveis, porém estruturalmente mais eficazes: controle do sistema financeiro internacional, restrição de acesso a tecnologias críticas e estrangulamento de fontes de receita externa. No caso venezuelano, o petróleo tornou-se o eixo central dessa estratégia, como analisam autores do campo da economia política internacional e do chamado novo imperialismo [3].

Reduzir esse padrão de ação a uma idiossincrasia pessoal de Donald Trump seria um erro analítico. Ele se insere em uma reinterpretação explícita da Doutrina Monroe, que volta a afirmar o Hemisfério Ocidental como zona prioritária da influência norte-americana [4]. A América Latina reaparece, assim, como “quintal estratégico”, tratada não como conjunto de Estados soberanos, mas como espaço subordinado em um tabuleiro global marcado pela competição com a China.

Tal como no Diálogo Meliano, o discurso que sustenta essa política rejeita qualquer pretensão moral universal. Valores como democracia e direitos humanos surgem de forma seletiva, como retórica instrumental, acionada conforme a conveniência estratégica. O realismo invocado naturaliza a força e apresenta a “realidade” como destino inevitável, interditando o debate político e desqualificando qualquer forma de dissenso.

O esvaziamento deliberado dos espaços multilaterais faz parte dessa engrenagem. Organismos regionais são contornados, as iniciativas de mediação são descartadas e o diálogo é substituído por ultimatos. O tratamento imposto à Venezuela funciona, assim, como mensagem disciplinadora para o restante da região: um aviso sobre os custos de desafiar a hierarquia estabelecida.

Ainda assim, a lição mais profunda do Diálogo Meliano não é a da eternidade do poder, mas a de sua contingência histórica. Tucídides não escreve para glorificar Atenas; ele expõe a lógica de um imperialismo que, ao negar limites e mediações, transforma a dominação em instabilidade permanente. O poder exercido exclusivamente pela coerção pode impor silêncio, mas dificilmente constrói ordem duradoura.

Em momentos históricos marcados por assimetrias extremas, a força tende a se apresentar como destino. Ao final de 1941, quando o III Reich parecia militarmente imbatível, o fatalismo dominava a Europa ocupada. Poucos líderes mundiais ainda resistiam, afirmando que aquele poder seria derrotado. Winston Churchill, ao assumir a defesa da liberdade europeia, não prometia vitórias rápidas, mas rejeitava a ideia de que a força momentânea pudesse se converter em destino histórico [5]. Como sabemos hoje, a história não se encerrou ali.

Guardadas todas as proporções históricas, é nesse registro – o da recusa ao fatalismo e da afirmação da soberania como valor político – que se insere, hoje, a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por sua trajetória pessoal e respeitabilidade internacional acumulada ao longo de décadas, Lula reúne condições singulares para exercer um papel de liderança regional não hegemônica, capaz de articular parcerias baseadas no respeito mútuo, na mediação política e na defesa da autonomia das nações latino-americanas diante da reativação da lógica tutelar hemisférica.

Não se trata de atribuir ao Brasil um papel de confronto direto com os Estados Unidos, mas de reconhecer a possibilidade – rara na história recente da região – de um contrapeso diplomático capaz de ampliar margens de decisão e reduzir a naturalização da submissão como destino.

Essa lembrança é essencial porque impede a naturalização da força como ordem permanente do mundo. O poder que parecia absoluto revelou-se contingente.

Nos tempos sombrios da ditadura militar brasileira, a canção “Cartomante” (1976), imortalizada na voz de Elis Regina, ao refletir o clima de medo e opressão, trazia uma mensagem de esperança e resistência: “cai o rei de copas, cai o rei de espadas” [6]. Até as cartas mais altas estão sujeitas à queda. Impérios também.

Relido à luz do presente, o Diálogo Meliano não deve servir para legitimar a submissão, mas para alertar contra o fatalismo travestido de realismo. A arrogância do poder contém sempre um elemento de miopia histórica. A força pode impor silêncio por um tempo, mas escreve raramente o último capítulo. É essa consciência – a de que nenhum poder é eterno – que impede que o realismo se transforme em resignação.

REFERÊNCIAS

1.  Tucídides, História da Guerra do Peloponeso. Vol. Livro V. Brasília: Editora UnB.

2.  Trump, D.J., National Security Strategy of the United States of America. 2025, The White House: Washington, D.C.

3.  Harvey, D., The New Imperialism. 2003, Oxford: Oxford University Press.

4.  Smith, P.H., Talons of the Eagle: Latin America, the United States, and the World. 2012, Oxford: Oxford University Press.

5.  Churchill, W.S., War Speeches 1940–1942. 1943, London: Cassell.

6.  Lins, I. and V. Martins, Cartomante. 1976.

[1] Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

*“Os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem.” Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, Livro V.”[1] 

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