19 abril 2026

Palavra de poeta

Carta aos rinocerontes
César Leal   


Não sei se estou mais presente na Terra
do que estariam uma rosa e uma dália.
Nem um milésimo das coisas que vejo diariamente
está contido em meus poemas...

Sei que o leitor poderá dizer isso agora:
"— Você não é um bom poeta! Castro Alves
é mais participante, mais exato,
transporta o mundo — ou pelo menos sua metade
no Navio Negreiro.

Mas você — que leio agora —
não me acende nenhuma luz,
agarra-se demasiadamente aos anjos,
a uma forma estéril
que não fala ao tempo,
aos pássaros,
e menos ainda ao meu coração".

Ouço-te e repito
que sou apenas pequena parte das coisas
que estão no mundo
com certeza não sou a menor parte
e, por isso, tens que me aceitar
se és um leitor e não apenas um crítico.

Se minha poesia te cansa,
peço-te: come as saladas de Souzândrade; bebe
lentamente as gotas de orvalho que fluem dos Caligramas
de Apollinaire...

Elas satisfarão tua fome e tua sede,
ou terás uma sede e uma fome tão estranhas
que suportarias ainda Maiakovski,

Evtuchenko, Voznessenki, Pound
e toda a galeria dos participantes
que ficam à tua direita e à tua esquerda?

Quanto a mim, pouco te posso oferecer:
não escrevo para los muchos
arranco de mi corazón el capitán del inferno,
establezco cláusulas indefinidamente tristes

Esgotados os estábulos aonde os teus donos
guardaram para ti alimentos tão nobres,
ainda restariam os membros do Clube dos Ultraistas,
Tzara e todos os que, à semelhança dos empregados domésticos
sopram trombetas das 6 às 6,
repetindo eternamente a contínua canção:
"somos os que andam na vanguarda do Tempo".

Quanto a mim continuarei sozinho,
solitário como um estranho rio
de um território ainda não visitado pelos geógrafos,
abrindo sem descanso a minha estrada
certo de que alguém um dia
— anjo ou demônio —
caminhará por ela até a porta do meu nome.

[Ilustração: Edvard Munch]

Leia também: Retrato do artista quando coisa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/palavra-de-poeta_25.html 

Roberta, líder nacional

46º Congresso da Ubes elege Roberta Pontes presidenta com 87% dos votos
Pernambucana é estudante de Desenvolvimento de Sistemas e já foi presidenta da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas do Recife e tesoureira na última gestão da Ubes
Priscila Lobregatte/Vermelho     

O 46º Congresso da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Conubes), realizado em São Bernardo do Campo (SP) desde o dia 16, elegeu, neste domingo (19), a pernambucana Roberta Pontes como nova presidenta da entidade. A candidatura, que teve 87% dos votos, compunha o movimento “Tudo Nosso!”, encabeçado pela União da Juventude Socialista (UJS).

“Nós seremos os inimigos número um daqueles que querem transformar a escola em quartel e num espaço de autoritarismo. A escola para nós é um lugar de fortalecer a democracia, emancipar o povo e construir a nação”, afirma a estudante, salientando um de seus objetivos à frente da Ubes.

Na sexta-feira (17), uma grande passeata dos estudantes tomou as ruas de São Bernardo do Campo, contra a crescente militarização do ensino em diferentes estados do país.

Roberta, que é a terceira mulher eleita presidenta da entidade apenas nesta década, também aponta como prioridade a realização de uma grande campanha contra o assédio e o machismo nas escolas.

Segundo ela, o crescimento de movimentos como o dos Red Pills e os discursos de ódio junto à juventude devem acender o alerta e mobilizar os secundaristas por todo o país. A dirigente também quer a Ubes mais atuante contra o machismo, a LGBTfobia e todas as formas de opressão no ambiente escolar.

Trajetória

Roberta Pontes tem sua origem na periferia do Recife (PE), é estudante de Desenvolvimento de Sistemas e tem trajetória construída desde a base do movimento estudantil: já foi presidenta de grêmio estudantil, da União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Recife e tesoureira na última gestão da Ubes.

À frente da Umes-PE, teve papel central nas mobilizações pela revogação do Novo Ensino Médio e na aprovação da Lei da Primeira Merenda nas escolas estaduais.

Na tesouraria nacional da Ubes, esteve à frente de campanhas contra as escolas cívico-militares, pela ampliação da alimentação nos Institutos Federais e pela manutenção dos 10% do PIB investidos em educação.

Reconhecimento

Conforme destacou a Ubes em seu perfil nas redes sociais, a partir de agora, Roberta “assume a responsabilidade de organizar as lutas dos estudantes secundaristas brasileiros, fortalecendo as pautas por educação de qualidade, democracia e direitos para a juventude em todo o país”. 

Já a UJS salientou que a recifense “carrega o sonho de uma escola de qualidade, democrática e livre de opressões e, junto ao movimento Tudo Nosso, vai liderar a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas na luta contra a extrema direita e em defesa de um Brasil justo, soberano, desenvolvido e para todos os brasileiros”.

Saiba mais: Secundaristas de todo Brasil se reúnem em São Bernardo para o 46º Congresso da Ubes

Ao fazer um breve balanço de sua gestão, o presidente cessante Hugo Silva, destacou: “Estamos encerrando a gestão que lutou ao lado dos estudantes pela ampliação dos nossos direitos e que trouxe muitas conquistas! Garantimos os 10% do PIB pra educação, conquistamos o orçamento para alimentação escolar nos IFs (Institutos Federais), conquistamos o Pé-de-Meia e fortalecemos a luta para que seja para geral, combatemos as saunas de aula e criamos o protocolo de adaptação climática das escolas, fortalecemos os grêmios escolares e estivemos dentro das escolas, no chão das salas de aulas”.

46º Conubes

Considerado o maior encontro estudantil da América Latina, o Conubes reuniu, segundo a entidade, cerca de sete mil jovens entre os dias 16 e 19, em São Bernardo do Campo, sob o lema “Democracia e Soberania: um Brasil do Tamanho da nossa Rebeldia”.

A plenária final teve resoluções para questões como a defesa da educação pública, o enfrentamento às desigualdades, a permanência estudantil, o combate à evasão escolar, a valorização dos grêmios livres e a ampliação de direitos como o Passe Livre e a alimentação escolar de qualidade. As teses e moções do encontro também reafirmaram o compromisso da UBES com a democracia, os direitos sociais e a soberania nacional.

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PCdoB alerta para desafios eleitorais e ofensiva imperialista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-do-pcdob.html

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Quem viu Santos 2 X 3 Fluminense, hoje, não pode desejar a convocação de Neymar para a seleção brasileira. 

Seleção brasileira: "Tempos vividos e perdidos" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/selecao-brasileira-para-onde.html 

Sistema bancário & tecnologia

Uberização bancária
A uberização dos serviços e a preservação da hierarquia: por que a modernização tecnológica altera a forma de acesso ao sistema, mas não a estrutura de poder do funding
FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*/A Terra é Redonda 

 

1.

A ideia de “uberização bancária” das fintechs refere-se a um arranjo institucional no qual muitas empresas financeiras digitais aparecem para o cliente como “o banco”, mas a infraestrutura financeira profunda – liquidação, funding, balanço e risco – continua concentrada nos grandes bancos. Algo parecido ocorreu no transporte urbano com plataformas digitais: a interface mudou, mas a infraestrutura subjacente permaneceu concentrada.

No sistema financeiro existem duas camadas diferentes. Uma visível (interface) por meio de aplicativo, experiência do usuário, pagamentos, transferências e serviços financeiros simples. Nesta atuam muitas fintechs, por exemplo, Nubank, Banco Inter e C6 Bank.

Na camada invisível (infraestrutura financeira) estão a liquidação interbancária, o acesso ao sistema de pagamentos, o funding de crédito, a gestão de risco e o capital regulatório. Essa camada continua altamente concentrada em grandes instituições como o BBICS (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Caixa, Santander) conforme indicam os balanços bancários.

O papel da infraestrutura pública do Pix, criada pelo Banco Central do Brasil, foi reduzir muito as barreiras para entrar no mercado de pagamentos. Agora qualquer instituição pode oferecer transferências instantâneas, pagamentos digitais e contas eletrônicas. Isso facilitou a entrada de fintechs.

Mas o Pix não elimina duas necessidades fundamentais como a conta de liquidação no Banco Central e a gestão de liquidez e risco financeiro. Nem todas as fintechs possuem estrutura para isso. Muitas utilizam bancos liquidantes.

Mesmo oferecendo serviços ao cliente final, muitas fintechs dependem estruturalmente de bancos maiores para liquidação interbancária, custódia de recursos, funding de crédito e emissão de determinados instrumentos financeiros.

Uma fintech oferece uma interface digital, um grande banco oferta a infraestrutura financeira. A dependência daquela cria uma espécie de subcontratação bancária.

Quem controla o dinheiro captado e o crédito controla o sistema bancário. Pagamentos são importantes, mas o núcleo do sistema financeiro é o multiplicador empréstimos-depósitos-empréstimos. Para conceder crédito em larga escala é necessário capital regulatório elevado, captação estável de recursos e gestão de risco com base em grande banco de dados.

2.

Os grandes bancos ainda concentram essas capacidades. Assim, muitas fintechs acabam originando crédito ao distribuírem cartões de crédito, mas vendendo ou securitizando esse crédito para instituições maiores.

É possível fazer uma analogia com outras plataformas digitais porque a lógica lembra outros setores da economia digital. O setor transporte tem como interface apps e como infraestrutura motoristas e frota. O streaming tem como interface plataformas e como infraestrutura estúdios e conteúdo. O comércio eletrônico tem como interface o marketplace e como infraestrutura logística. No sistema financeiro, na camada de interface é ator a fintech, mas no balanço e liquidez o ator é o grande banco.

Esse arranjo gera um resultado paradoxal para a concorrência bancária. Mais competição na experiência do usuário, mas continuidade da concentração financeira estrutural. O cliente pode trocar facilmente de aplicativo, mas o funding do sistema, o crédito corporativo e a gestão de grandes patrimônios continuam concentrados.

O possível futuro do sistema financeiro, se essa dinâmica continuar, será evoluir para um modelo com três camadas: (i) infraestrutura pública com Pix, open finance, sistemas de liquidação; (ii) plataformas financeiras com fintechs e aplicativos capazes de interagirem com o usuário; (iii) bancos sistêmicos continuam sendo instituições com grandes balanços concentradoras do crédito e do funding.

A “uberização bancária” significa fintechs dominarem a interface digital com o cliente e grandes bancos continuam dominando o balanço financeiro e o crédito. Assim, a inovação tecnológica transforma a forma de acesso ao sistema, mas não necessariamente a estrutura de poder dentro dele.

No entanto, o Pix está transformando os bancos em “plataformas financeiras universais”, algo parecido com o modelo das big techs. Isso pode alterar profundamente a lógica de concorrência bancária nos próximos 15 anos.

Há uma mudança estrutural. Os bancos deixam de ser apenas intermediários de crédito e depósito e passam a funcionar como ecossistemas digitais integrados, semelhantes às plataformas das grandes empresas tecnológicas. Isso ocorre por três transformações interligadas.

Na primeira, a conta bancária vira uma “plataforma de serviços”. Antes do Pix, a conta corrente era usada basicamente para receber salário, pagar contas e transferir dinheiro. Com o Pix, essa conta se tornou o centro de praticamente todas as transações cotidianas, porque permite transferências instantâneas, pagamentos no comércio, pagamentos entre pessoas, cobranças automatizadas e integração com aplicativos.

3.

O fluxo de pagamentos da economia passa continuamente pela conta bancária. Quanto mais o cliente usa essa conta para tudo, mais o banco consegue integrar serviços adicionais.

Há integração crescente de serviços financeiros. Os grandes bancos brasileiros estão transformando seus aplicativos em super-apps financeiros. Nos apps do BBICS, o usuário já pode acessar, no mesmo ambiente digital, pagamentos Pix, crédito pessoal, financiamento, investimentos, seguros, previdência, câmbio e marketplace financeiro. Assim, o aplicativo no mobile banking (celular) deixa de ser apenas interface bancária e passa a ser plataforma de múltiplos serviços financeiros.

Dados financeiros são registrados em tempo real. Cada transação Pix gera informações sobre renda, consumo, fluxo de caixa e regularidade de pagamentos. Esses dados permitem aos bancos oferecer crédito personalizado, avaliar risco de forma mais precisa e criar ofertas automáticas.

Essa lógica é semelhante à utilizada por plataformas digitais como Amazon e Alibaba Group. Elas usam dados de comportamento para ampliar continuamente sua oferta de serviços.

O efeito de rede leva ao “aprisionamento” do usuário. Quando um cliente passa a usar um único aplicativo para pagar, receber, investir, tomar crédito e contratar seguros, o custo de mudar para outro banco aumenta. Esse fenômeno é conhecido como “efeito de plataforma”. Quanto mais serviços concentrados no mesmo ambiente, maior o incentivo para o usuário permanecer ali.

O papel institucional da autoridade monetária é chave. Essa transformação foi possibilitada por iniciativas regulatórias do Banco Central do Brasil, como Pix, open finance e novos tipos de instituições de pagamento.

Essas iniciativas aumentaram a competição na entrada do sistema. Porém, também permitiram os bancos reorganizarem seus serviços como plataformas digitais integradas.

Isso poderá mudar a concorrência bancária nos próximos 15 anos porque podem emergir três tipos de atores no sistema financeiro: (a) bancos-plataforma: instituições com grande base de clientes e múltiplos serviços integrados; (b) fintechs especializadas: empresas focadas em nichos específicos (pagamentos, crédito ou investimentos); (c) infraestrutura pública: sistemas como Pix e open finance capazes de conectarem todos os participantes.

Nesse cenário, a competição ocorre dentro das plataformas e não apenas entre bancos isolados.

Em síntese, o Pix não é apenas um sistema de pagamentos. Ele está transformando a conta bancária em uma plataforma digital central para organizar a vida financeira das pessoas. Assim como ocorreu com as plataformas tecnológicas na economia digital, a instituição controladora dessa interface tende a concentrar dados, relacionamento com o cliente e distribuição de serviços financeiros.

Por isso, o sistema bancário pode evoluir para um modelo de “plataformas financeiras universais”. Nele, poucos grandes aplicativos organizam grande parte das transações e serviços financeiros da economia.

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]

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As big techs e a teoria do Valor-Atenção https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/mais-valia-transmutada.html 

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A guerra com o Irã esgotou os estoques norte-americanos de mísseis de cruzeiro de longo alcance e interceptadores e leva tempo para reconstruí-los. De quebra, aumenta a já significativa dependência de Washington das exportações chinesas de minerais críticos necessários para a produção de novas armas e munições. (Iam Bremmer, na Folha de S. Paulo) 

Vitória do Irã sobre a guerra neocolonialista de Trump tem alcance mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/editorial-do-vermelho_12.html


Estranha época, a nossa

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Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65      


“O ChatGPT quebra um galho danado, mas não serve de remédio”, leio em voz alta, de olho na tela do celular.

- Quem disse?, pergunta o amigo Epaminondas.

- Christian Dunker, respondo com ar de quem sabe das coisas. 

- Quem!?,  insiste o amigo meio que descrente.  

- É um especialista no assunto, respondo com um misto de convicção e dúvida.

Segue o diálogo aqui no café do shopping. 

Retorno ao texto e ficamos sabendo — o Epaminondas e eu — que se trata de renomado psicanalista, critico sobre o uso de ferramentas de inteligência artificial como conselheiros e terapeutas.

Obviamente, coisa desse tempo atribulado, curioso, cibernético e surpreendente em que vivemos. 

Robôs das mais diversas qualificações são chamados a cumprir funções outrora reservadas exclusivamente aos humanos.

(Feito Akihiko Kondo, um japonês de 41 anos que ficou conhecido no mundo inteiro ao se casar, em 2018, com um holograma 3D da cantora virtual Hatsune Miku.

Ele tocava numa tecla e de pronto a imagem aparecia diante dos seus olhos — provavelmente uma bela figura feminina — com quem conversava sem nenhum risco de atrito ou mal entendido.

Com quase cinco anos de relacionamento, Kondo caiu em depressão” e se viu “viúvo” quando a empresa Gatebox, responsável pela tecnologia, desativou o serviço de suporte ao holograma, impedindo-o de interagir com sua esposa virtual.

Não me interessei pelo desdobramento do caso, mas creio que o dito cujo terá recorrido à psicanálise, provavelmente via IA.) 

- Pois bem, doutor Christian Dunker, sobre quem estávamos conversando, será um dos palestrantes do São Paulo Innovation Week — comento como que mostrando uma falsa intimidade com o assunto. 

Mas o Epaminondas, sábio como sempre, me corta com a pergunta:

- Sabe quantos craques provavelmente convocados para a seleção brasileira que disputará a Copa do Mundo jogarão nesse fim de semana em partidas decisivas na Europa?

E passou a discorrer sobre reta final da Premier League, assumindo as rédeas de nossa conversa fútil e despretensiosa em torno de um bom capuccino.

Com a minha concordância, claro!

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Dose dupla? Vade retro! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/alem-do-possivel.html

Humor de resistência

 

Jota Camelo

"Arriscada aposta economicista" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html