16 julho 2026

Uma crônica de Paulo Nogueira Batista Jr.

Ninguém fala comigo no clube
Mas quem mandou morar em Santa Catarina?
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho   



O Brasil já foi em outras épocas, não tão remotas, um país basicamente tolerante e pacífico. A política não costumava ser motivo de controvérsias apaixonadas, pelo menos não em comparação com o que geralmente se vê nos outros países. Reinava em relação aos partidos e aos políticos um ceticismo bem-merecido.

Mudamos. Com a ascensão da extrema direita, ficamos divididos e polarizados. A polarização é claramente assimétrica. De um lado, temos a centro-esquerda, bem centrista, bem moderada – os eleitores de Lula e do PT. O próprio Lula não se assume como de esquerda e chega a negar essa condição publicamente. De outro lado, temos uma nova direita extremada, vociferante e agressiva. Vota em Bolsonaro, ou em quem quer que ele indique, de olhos fechados. De um lado, um comedimento envergonhado; do outro, um dogmatismo desenfreado.

O Brasil é um país continental e a tendência à intolerância da nova direita não acontece na mesma medida em todas as regiões. A história que quero contar se passa na região Sul, em Florianópolis, onde resido.

Sou um tenista bem cabeça de bagre, apesar de jogar há vários anos num clube de tênis aqui no norte da Ilha. Tomo aulas regulares, uma ou duas vezes por semana. Natural que ficasse conhecido e fizesse algumas amizades no clube. Sentia, entretanto, dificuldade em me enturmar. Uma certa frieza, uma certa distância pareciam prevalecer. Paciência. Dei de ombros e segui com as minhas aulinhas.

Um dia, por vias tortas, compreendi tudo. A minha companheira, Lavínia, que mora em Brasília, veio me visitar. Fomos juntos ao supermercado mais próximo e eis que ocorre um fato singular, meio cômico, meio lamentável, típico dos novos tempos. Ao chegar no supermercado, dividimos as tarefas; Lavínia foi para um lado, eu para o outro. Ela esbarra então com um antigo conhecido, que há muito tempo não via, e foi explicando que estava em Florianópolis por causa do namorado que morava no bairro. “Eu sei”, respondeu o sujeito friamente. “Ele joga tênis no mesmo clube que eu. É um petista roxo. Ninguém fala com ele no clube.”

Bem que eu desconfiava. Estava explicado o meu isolamento, a minha dificuldade de fazer amigos e encontrar parceiros de tênis. Era puramente político o problema. Ninguém queria confraternizar ou bater bola com “um petista roxo”.

Ora, não sou petista, nunca fui. E muito menos roxo. Tenho minhas reservas em relação ao partido e ao próprio Lula há décadas, desde quando participei da campanha eleitoral de 1994, aquela  que terminaria com a vitória de Fernando Henrique Cardoso já no primeiro turno. Isso foi graças ao Plano Real, como o leitor talvez lembre. O que me impressionou na época foi o despreparo dos economistas e dirigentes do PT para fazer face à ameaça eleitoral que o programa de estabilização representava.

Conto o episódio em rápidas pinceladas. A experiência brasileira e de outros países que experimentavam inflação alta era muito clara. Por diferentes métodos, era perfeitamente possível estabilizar a moeda em pouco tempo. E essa estabilização sempre se mostrava muito popular. Nada melhor, portanto, que lançar um plano de estabilização às vésperas de uma eleição, identificando o plano com determinado candidato, no caso Fernando Henrique Cardoso. A identificação era fácil, pois ele havia sido Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco e ostentava o mérito de ter reunido uma equipe de economistas experientes, capaz de preparar o plano.

Isso tudo estava claro para mim e um grupo minoritário de economistas do PT. Fizemos o possível para alertar Lula e o comando do partido sobre o risco mortal que o Plano Real, na época conhecido como Plano FHC, representava para a candidatura petista. Defendemos a necessidade de apresentar uma avaliação sóbria do plano e oferecer alternativas bem-elaboradas. Colocamos nossas advertências em notas que circularam dentro do partido.[1] Conversei diversas vezes com o próprio Lula, explicando que aí residia o grande risco para a sua candidatura. Economistas e outras figuras influentes do PT rejeitaram nosso alerta. Lula ficou em cima do muro. A orientação negativa, não raro extremadamente negativa, acabou prevalecendo. Resultado: a candidatura de Lula foi vista pela população como adversária de um plano que se mostrava capaz de debelar a inflação com rapidez. Caixão.

Depois disso, resolvi tomar distância de Lula e do  PT. Nunca me filiei ao PT ou a qualquer outro partido. Não me identificava com nenhuma das correntes políticas relevantes no país. Talvez por individualismo excessivo, preferi até hoje me manter independente de partidos políticos e governantes. Um certo paradoxo: eu, homem de esquerda, sempre fui visceralmente individualista. Mas, enfim, temos todos nossas contradições. 

Volto ao clube de tênis. Como explicar tudo isso a um bolsonarista? Nada se modificou. Continuo incompreendido e rejeitado por tenistas da nova direita.  meu isolamento continua total. Sem parceiros, sem amigos, sigo tranquilo a minha trajetória individual.

Quem mandou morar em Santa Catarina?

[Ilustração: Candido Portinari]

[1] Depois da eleição, publicamos um retrospecto dos debates da campanha. Eduardo Matarazzo Suplicy, João Machado, Luiz Carlos Merege, Odilon Guedes e Paulo Nogueira Batista Jr. Combate à inflação, “Plano Real” e Campanha Eleitoral, São Paulo, dezembro de 1994.

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Pesquisa mostra Lula à frente em todos os cenários para 2026 https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bons-sinais.html 

Palavra de poeta

Corações em série
Micheliny Verunschk 

meu pé esquerdo lateja
um coração que bate
descompassado
dentro do meu calcanhar
um coração de ossos
com um pequeno pássaro
sangrante e dolorido
no seu centro
um coração deslocado
ataviado por uma rede de nervos
que reverbera um nome.
meu pé esquerdo lateja
poderia ser um reino ou uma estrela.

[Ilustração: Paul Klee]

Fotografia

 

Araquém Alcântara

Sábado para quê? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/que-dia-e-hoje.html 

Editorial do 'Vermelho'

Desmorona o castelo de crimes erguido pelo bolsonarismo
Uma teia de ilícitos, falcatruas, corrupção, milícias e crime organizado começa a ser desbaratada. No centro está o clã Bolsonaro e a extrema-direita
Editorial do 'Vermelho' www.vermelho.org.br 

A teia de escândalos envolvendo o candidato da extrema direita, Flávio Bolsonaro, parece não ter fim. Além dos R$ 134 milhões negociados com o criminoso Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para supostamente financiar o filme biográfico Dark Horse sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, surgiram evidências de falcatruas e ilicitudes em série na seara do candidato. Na base original do bolsonarismo, o Rio de Janeiro, o clã de Flávio ergueu um arranjo de poder à base de condutas criminosas, conforme tipificação da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário.

A série atual começou com a crise que levou ao seu rompimento com o ex-governador Wilson Witzel, eleito em 2018 apoiado no bolsonarismo, com acusações mútuas de “rachadinhas”. O caso de Witzel envolvia verbas da saúde e tentativas de enterrar as investigações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações estranhas na conta de Fabrício Queiroz, então assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa. Seu irmão, Carlos Bolsonaro, então vereador, também foi investigado.

Witzel foi cassado em 30 de abril de 2021 e o vice, Cláudio Castro, igualmente bolsonarista, assumiu o cargo de governador e, em 2022, se elegeu pelo Partido Liberal (PL), que abriga os Bolsonaro. Também acusado de corrupção, ele renunciou em março de 2026 para tentar evitar que seu mandato fosse cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que declararia sua inelegibilidade por oito anos.

O ex-presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União Brasil), foi preso, após também ser condenação no TSE por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, junto com Cláudio Castro. Ele foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por obstrução de investigação policial, acusado de vazar informações sigilosas sobre uma operação contra o ex-deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva (TH Joias), apontado como aliado da organização criminosa Comando Vermelho.

O caso mais recente foi a prisão de Márcio Canella, pré-candidato ao Senado. A polícia encontrou um fuzil em seu carro durante uma investigação sobre seu envolvimento com a máfia dos combustíveis. Quatro dias antes, ele apresentou a mãe de Flávio Bolsonaro, Rogéria Bolsonaro, como sua suplente. Em fevereiro, o pré-candidato da extrema direita anunciou, em Brasília, o presidente da Assembleia Legislativa, Douglas Ruas (PL), como candidato a governador, numa chapa com Cláudio Castro e Márcio Canella na disputa pelo Senado.

Para completar o cenário, a Polícia Federal investiga se o presidente do partido de Flávio Bolsonaro, o PL, Valdemar Costa Neto, desviou R$ 119 milhões em emendas parlamentares. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão das emendas que teriam sido indicadas por ele irregularmente. O ex-deputado Eduardo Cunha também teve R$ 6 milhões bloqueados, acusado de atuar nos bastidores com mais influência do que deputados em exercício.

Valdemar é suspeito dos crimes de desvio de dinheiro e de associação criminosa. São pelo menos 21 emendas. A maioria já foi paga. A Polícia Federal pediu ao Supremo a suspensão dos pagamentos que ainda não foram feitos e o bloqueio de bens do presidente do PL no mesmo valor, para ressarcimento dos cofres públicos, caso a irregularidade seja confirmada.

O ministro Flávio Dino, relator de ações sobre o pagamento de emendas, autorizou as medidas. “O encaminhamento direcionava essas emendas alocando, falsamente, deputados federais como ‘solicitantes’ das indicações, a fim de conferir ares de legalidade às indicações formalizadas conforme diretrizes de um não parlamentar”, diz um trecho da sua decisão.

Há uma teia de ilícitos, falcatruas, corrupção, milícias, crime organizado e, no seu centro, reina o clã Bolsonaro, a extrema-direita. A célere sucessão de acontecimentos no Rio de Janeiro foi um castelo de cartas que se desmontou, deixando a nu, mais uma vez, a essência da candidatura de Flávio Bolsonaro e do bolsonarismo. Assim como a queda da máscara de patriota, após as suas vexatórias bajulações a Donald Trump em busca de ações contra o Brasil, sua pregação moralista está definitivamente desmascarada

Fica demonstrado que esses traidores da pátria se projetaram na vida política e fermentaram a força da extrema-direita por intermédio de métodos e ações ilícitas de toda espécie.  Eles criaram um império da gambiarra para burlar as regras do Estado Democrático de Direito, inclusive com sua trama golpista, com a finalidade única de obter privilégios e poder.

Inclua-se a violência como método político, a exemplo da tentativa de golpe de Estado. Mas não só. Flávio Bolsonaro condecorou Adriano da Nóbrega na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro nos anos de 2003 e 2005. Nóbrega foi expulso da Polícia Militar e apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como líder do grupo de matadores de aluguel conhecido como “Escritório do Crime”, além de envolvimento com milícias.

Fica patente que uma figura que ostenta um currículo tão sinistro quanto esse não deve e não pode ser presidente do Brasil. Seria abrir às portas do Palácio do Planalto à delinquência e à traição ao país.

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Lula lidera 1º e 2º turnos e Flávio Bolsonaro tem maior rejeição https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/lula-avanca.html

Humor de resistência

 

Aroeira

Conflito sem limites https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_02106193163.html


Enio Lins opina

Quando o “combate” ao crime organizado é um crime maior
Enio Lins       

NO MUNDO COR-DE-ROSA das ingenuidades mais profundas, existe quem possa acreditar que o governo dos Estados Unidos (ao longo dos tempos) e Trump (no particular, como presidente) se dediquem verdadeiramente ao combate às organizações criminosas transnacionais. Mas...

NO MUNDO MULTICOLORIDO
de verdade, em todos os tons das cinzas, os Estados Unidos usam, historicamente, a justificativa de “combate ao crime organizado internacional” para espalhar ainda mais seus tentáculos pelo globo, apresentando-se como o xerife sem fronteiras, pressionando organizações criminosas a transacionarem a favor dos interesses ianques. Na II Grande Guerra Mundial, essa pressão produziu, pela primeira e única vez, um resultado positivo, quando a Máfia foi convocada para a sabotar fascistas italianos.

VALE A PENA LER DE NOVO
algo sobre essa questão. Houve um acordo da Casa Branca com a Máfia durante a II Grande Guerra, a Operação Submundo: operações conjuntas entre o serviço secreto da marinha (Office of Naval Intelligence) e a Cosa Nostra. Envolvia apoio local para a invasão da Sicília. Em contrapartida, os chefes mafiosos presos nos Estados Unidos receberam regalias, as atividades mafiosas foram menos policiadas, e o maior de todos os mafiosos atuantes em território americano, Lucky Luciano, foi liberado de sua pena, e autorizado a migrar para a Itália em 1946.

SESSENTA ANOS DEPOIS
de Lucky Luciano ser anistiado pelos Estados Unidos para seguir liderando a Cosa Nostra a partir da Itália, a BBC News Brasil publicou uma reportagem intitulada “A medida de Trump que pode facilitar acesso do CV e do PCC a fuzis americanos”. Só não é perfeita porque a frase certa teria de usar “vai” no lugar de “pode”. O fato é que as mudanças na regulação do comércio de armas, propostas por Trump, contêm pérolas como “reverter restrições aplicadas pelo governo de Joe Biden, como a ampliação da exigência de licença na venda de armas, e liberar o comércio online, eliminando a necessidade de que o comprador compareça a uma loja física para conferência de seus antecedentes criminais (...)” – ou seja, qualquer delinquente poderá adquirir farto armamento, reduzindo drasticamente os custos dessas operações, afinal os riscos de apreensões são reais.

EM MARÇO DE 2019,
foram localizados num endereço carioca 117 fuzis americanos modelo M16. O apartamento funcionava como oficina de montagem operada pelo ex-PM Ronnie Lessa, amigo e vizinho do então presidente Jair – que apresentava como uma das principais realizações de sua gestão a abertura para compra e porte de armas no Brasil. Em 19 de janeiro de 2023 o g1 publicou: “Governo Bolsonaro liberou em média 619 novas armas por dia para CACs; 47% dos registros foram em 2022 (...) Dados do Exército obtidos pelo g1 mostram que, nos quatro anos de mandato do ex-presidente, foram concedidos 904 mil novos registros de armas para caçadores, atiradores e colecionadores”. Por sua vez, o digital Jornal do Brasil, em 4 de março de 2024, dava conta que “Farra das armas de Bolsonaro concedeu registros de CAC a traficantes, assassinos e até pessoas mortas (...) Auditoria do TCU mostra que a política armamentista de Bolsonaro facilitou acesso a armas ao crime organizado, que teria usado laranjas em registros dos chamados Colecionadores, Atiradores e Caçadores junto ao Exército”. Mesmo antes da presidência, Jair exercitava esse jogo duplo: atacar o crime organizado no discurso e se apoiar no crime organizado (as milícias, em primeiro lugar) para obter vantagens e poder.

ESSE É O JOGO
da extrema-direita, alhures e aqui: jair berrando contra o crime organizado e, simultaneamente, se aliar ao crime organizado – procurando usar o Estado para pressionar facções que, eventualmente, lhes sejam incômodas.

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Como o ricaço falido virou presidente dos EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/trajetoria-suspeita.html 

Arte é vida

 

Ademir Martins 

Luciana Santos: Inovação, Soberania e Desenvolvimento para o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/palavra-de-luciana.html