12 agosto 2026

Minha opinião

Destino esquisito 
Luciano Siqueira  

Leio apenas o título "Quem é o ex-ator da Globo que largou a vida no Rio e foi morar em um ônibus".

Destino esquisito, parece-me. Mas nada tenho a ver com isso. 

Compreendo até que publicações cuja pauta mescla toda sorte de fatos e questões — da cena internacional ao decadente futebol brasileiro, passando pela economia, problemas urbanos, inflação e tantas outras questões de grande interesse público, sinta-se no dever de distrair o leitor, ouvinte ou telespectador com certas futilidades. 

Mas, sinceramente, ficaria mal comigo mesmo se me deixasse vencer pela curiosidade (que me falta) e dedicasse algum tempo à leitura da dita notícia.

Se era ator da Globo, provavelmente acumulava prestígio e bom salário. No Rio de Janeiro, onde não é difícil, para quem pode, viver prazeres diversos. 

Então, o cara largou tudo isso e estranhamente adotou um ônibus como moradia! 

Aonde? Não me interessa saber. 

Vale apenas a convicção de que a vida é dele e dela faz o que bem quiser.

Quanto a mim, resta o esforço cotidiano de cumprir uma agenda que muito me apraz, cujo fio condutor é a militância partidária como condição essencial para que participe da luta do povo com boas ideias e razoável consequência.

Outra crônica: “Gastando muito? Corra ao endocrinologista!”  https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01136127338.html 

Futebol bem jogado

Jogadores determinam os estilos
Cruzeiro e Flamengo fazem o duelo mais esperado das oitavas de final da Libertadores. Treinadores das duas equipes gostam do futebol intenso, de aproximação, compactação e pressão
Tostão/Folha de S. Paulo   

 

Seis clubes brasileiros (FluminenseFlamengoPalmeirasCorinthians, Mirassol e Cruzeiro) disputam neste meio de semana o primeiro jogo para definir os classificados para as quartas de finais da Libertadores. Cruzeiro e Flamengo, no Mineirão, no único duelo entre dois times do mesmo país, fazem a partida mais esperada.

Os dois treinadores gostam do futebol intenso, de aproximação, compactação e pressão para recuperar a bola no campo do adversário, características do futebol moderno. Os detalhes, as diferenças das duas equipes, dependem do estilo de seus jogadores.

Quando era técnico do Cruzeiro, Leonardo Jardim tinha um atacante rápido, Kaio Jorge, usado muito nos contra-ataques e nas jogadas de velocidade. No Flamengo, com Pedro, um centroavante fixo, há mais jogadas de aproximação e troca de passes.

No meio-campo estão as maiores forças das duas equipes. O Flamengo tem uma dupla no setor (Jorginho e Pulgar) quase lado a lado, Arrascaeta avançado pelo centro e Carrascal ou Paquetá, na função de um armador/ponta pela direita. O técnico pode ainda formar um losango no meio-campo com um trio, Jorginho, Pulgar e Paquetá, e Arrascaeta à frente dos três.

No Cruzeiro, Artur Jorge forma o meio-campo com Romero mais recuado, Gerson um pouco mais avançado e Mateus Pereira livre, movimentando-se pela intermediária. Penso que, sem perder a referência de posicionamento, Gerson e Mateus Pereira deveriam atuar mais próximos, trocando passes e alternando na marcação e na chegada ao ataque. Isso confunde o adversário.

Por melhor que sejam as estratégias, o jogo, provavelmente, será decidido nos detalhes, nos lances inventados e inesperados.

Formação de jogadores

Mesmo considerando o grande desenvolvimento tecnológico que ajuda bastante na formação dos atletas, a descoberta de um possível craque começa na infância, nas brincadeiras, nos sonhos, sem regras e sem professores. Porém, por causa da diminuição dos campos de rua, os colégios e as escolinhas passaram a ser a sustentação para esse desenvolvimento, e é importante que não reprimam a capacidade dos meninos de inventar e improvisar. A excessiva padronização inibe a fantasia.

Tem havido uma inversão no desenvolvimento das crianças que gostam de futebol e que sonham se tornar craques. O aprendizado da técnica, da tática, do jogo coletivo e das regras tem ocorrido antes de a criança se divertir com a bola, sem ter adquirido um adequado desenvolvimento psicomotor.

O Brasil continua formando muitos ótimos jogadores profissionais devido à extensão do país e à tradição, mas tem diminuído a qualidade, de acordo com o futebol moderno.

É preciso formar goleiros que joguem bem com as mãos e com os pés, zagueiros ótimos na marcação e no passe, laterais que marquem e avancem com eficiência, meio-campistas criativos que atuem de uma intermediária à outra, pontas rápidos, hábeis, excelentes nos dribles e nos cruzamentos e finalizações, centroavantes que façam muitos gols e que possuam muita mobilidade e habilidade para participar do jogo coletivo. O futebol mudou.

Não basta treinar. Os treinadores precisam saber ensinar, orientar.

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Pequenas grandes contribuições https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/pequenas-grandes-contribuicoes.html

Fragmentos

A carreata e o livro
Luciano Siqueira  

Tantas coisas fazemos na vida de um jeito em que as palavras ganham vida própria e as ideias, mesmo afastando-se um pouco da realidade, funcionam como fator de emulação em função do objetivo que se deseja atingir. A carreata de hoje, em Olinda, boa, certamente será considerada por todos ótima - porque precisamos que se assim seja, nessa reta final da campanha eleitoral. Mas poderia ter sido melhor, se o roteiro houvesse contemplado áreas onde as pessoas estão nas ruas...

Na apresentação do livreto “Trabalhador! Ocupa o teu posto!”, que reúne escritos de Cristiano Cordeiro, creio que acentuei demasiadamente as preocupações teóricas do autor e o significado da sua atitude militante na busca de um marxismo brasileiro. É a tentativa de vincar, em favor dos nossos objetivos maiores, a continuidade (que é real) do movimento que Cristiano ajudou a fundar em 1922 e que se corporificou no Partido. (Uma anotação minha de 6/9/98).

Identifique-se ao comentar.

Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html

Fotografia

 

Beatriz Díez Lopez

Competente, corajosa, múltipla https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/combativa-sem-perder-leveza-jamais.html 

Cláudio Carraly opina

A Terceira Via Como Escada
E como esta se tornou linha auxiliar da extrema-direita
Cláudio Carraly*    

Há um incômodo silencioso que percorre os eventos da centro-direita brasileira quando um nome da extrema-direita surge nas conversas de bastidor. Não é repulsa, é apenas um leve constrangimento. No dia a dia, esse doce constrangimento se dissolve em abraços, palcos compartilhados e uma sintonia de alvos que torna irrelevante qualquer diferença programática alegada. A terceira via, esse projeto político que em tese se apresentaria como alternativa tanto à esquerda quanto à direita irascível, tornou-se na prática linha auxiliar da extrema-direita.

O fenômeno não é brasileiro, mas aqui adquiriu contornos bem particulares. Na Europa, a dinâmica se deu principalmente por absorção programática; aqui, a terceira via optou por uma estratégia de fragmentação aparente: muitas candidaturas, os mesmos palcos, um único adversário real. O que está em curso não é uma disputa entre projetos de país. É uma divisão tática de trabalho político cujo efeito principal é deslocar, gradual e inexoravelmente, os limites do aceitável.

Esta análise examina os mecanismos pelos quais a terceira via opera como dispositivo de normalização da extrema-direita. Não se trata de negar a existência de liberais democratas sinceros. Trata-se de observar que seu comportamento político concreto, independentemente das intenções declaradas, produz efeitos objetivos de legitimação do radicalismo autoritário.

O Caso Brasileiro: A Fragmentação Como Método

Desde 2018, a terceira via brasileira encontrou sua vocação: ser tudo aquilo que a extrema-direita não pode dizer em público. Enquanto o radicalismo vocaliza o que há de mais brutal no inconsciente das massas, a terceira via traduz esses impulsos para a linguagem dos editoriais, dos congressos empresariais, dos debates televisionados. Um mesmo conteúdo, a deslegitimação do adversário, a rejeição a qualquer projeto redistributivo, a hostilidade ao Estado como arena de disputa democrática, transita entre o grito e a análise técnica sem que a substância se altere.

No noticiário brasileiro, "terceira via" virou rótulo frouxo, aplicado a qualquer candidatura de partido de centrão, da mais tímida à mais próxima do bolsonarismo declarado. Esta análise usa o termo em sentido mais estrito. Não como etiqueta de imprensa, mas como categoria funcional: o papel que uma candidatura efetivamente desempenha na normalização do radicalismo, independentemente do nome que carrega. Uma candidatura pode ostentar o rótulo sem cumprir função alguma de escada; outra pode recusá-lo e cumpri-la à risca. O que importa, para os fins deste texto, não é o rótulo. É a função.

O que torna o caso brasileiro especialmente revelador é a desenvoltura com que essa chamada terceira via administra suas contradições. Quando questionada sobre a companhia que mantém, a resposta é sempre coreografada: minimizar o aliado incômodo como exagero retórico, relativizar a ameaça citando exemplos descontextualizados da esquerda, ou justificar a aliança como pragmatismo político, ou a abjeta defesa do chamado “mal menor”. A objeção mais sofisticada que essa coreografia produz merece ser enfrentada de frente, não descartada de passagem. Dizem seus arautos que é preciso opor à esquerda um projeto de poder capaz de vencer eleições, e que pureza ideológica não vence pleitos. O argumento seria respeitável se a história não tivesse já respondido a ele. Cada vez que a moderação apostou nessa coalizão ampla para vencer com o que se tem, ela não venceu a extrema-direita; foi vencida por ela. Realismo que sistematicamente perde não é realismo, é uma simples rendição com sotaque técnico.

A estratégia da fragmentação opera em frentes simultâneas e ganha nitidez quando se olha para nomes concretos da corrida presidencial de 2026 em vez de categorias abstratas. Romeu Zema ocupa o nicho do liberalismo econômico, construído sobre dois mandatos em Minas Gerais e um discurso anticorrupção dirigido quase inteiramente contra o PT. O mesmo Zema, porém, já anunciou que concederia indulto a Jair Bolsonaro e aos condenados pelos atos de 8 de janeiro, já defendeu o impeachment de ministros do STF e evita, com cuidado calculado, qualquer crítica a Flávio Bolsonaro, seu concorrente à direita. Ronaldo Caiado ocupa o nicho do conservadorismo de gestão, o discurso do agronegócio pragmático e de uma segurança pública forte, com a ambiguidade necessária para não afastar o eleitor urbano nem o rural já radicalizado e logicamente sem críticas relevantes ao candidato do PL. Augusto Cury testa o rótulo mais explícito de terceira via, a promessa de despolarização. Ela foi lançada com a presença simbólica do governador Tarcísio de Freitas. Ele mesmo é lançado com a presença simbólica do governador Tarcísio de Freitas, ele mesmo um nome que cresceu na onda do bolsonarismo, do agronegócio e do empresariado liberal, sem jamais precisar escolher um campo. Renan Santos, fundador do Movimento Brasil Livre e um dos arquitetos do impeachment de Dilma Rousseff, testa a narrativa mais agressiva, aquela que embaralha de vez as fronteiras entre terceira via e radicalismo. Nenhum desses nomes precisa vencer a eleição para cumprir a função da escada. Sua utilidade está em ocupar espaço, normalizar vocabulário, fazer a manutenção do ambiente discursivo até que a extrema-direita retome o protagonismo e, lógico, atingir um único alvo: a candidatura do PT.

O efeito acumulado deste arranjo é um deslocamento imperceptível, mas constante. A cada nova etapa, o discurso da terceira via se parece mais com o da extrema-direita do ciclo anterior, enquanto a extrema-direita avança para territórios antes impensáveis e mais abjetos. O “centro” não se mantém; ele persegue a extrema-direita, ajudando-a a escalar e expandir seus próprios limites.

O Padrão Global: da Moderação à Absorção

O fenômeno não é invenção tropical. Na França, os Republicanos passaram anos convencidos de que poderiam conter Marine Le Pen mantendo-a à distância enquanto incorporavam seus temas: imigração como ameaça civilizacional, identidade nacional como trincheira, o Estado de direito como obstáculo. O resultado não foi a contenção do radicalismo, mas sua legitimação. Quando um ex-presidente de centro-direita repete os mesmos diagnósticos da extrema-direita, apenas com vocabulário mais polido, ele valida as premissas dela. A presença de Le Pen no segundo turno em 2017 e em 2022 era, depois disso, previsível.

Na Alemanha, o tabu do pós-guerra, jamais cooperar com a extrema-direita, vem sendo corroído não por confronto direto, mas por contaminação gradual. A CDU incorporou, em alguns estados, o vocabulário da AFD sobre imigração e segurança, acreditando que poderia recuperar eleitores oferecendo uma versão "responsável" do mesmo produto. O eleitor, confrontado com a cópia e o original, tende a preferir o original. A AfD cresceu. A CDU se fragmentou e diminuiu.

O caso americano é o mais didático por sua brutalidade. O Partido Republicano tentou usar Trump como veículo em 2016 e terminou completamente remodelado por ele. Paul Ryan e Mitch McConnell imaginaram que poderiam domesticar o radicalismo oferecendo-lhe institucionalidade em troca de votos. Em menos de uma década, foram devorados. Quem resistiu, como Romney, Cheney e Kinzinger, acabou expulso. À direita dos EUA, descobriu tarde demais que não estava usando a fera; era a escada dela.

A lição destes casos é brutal em sua simplicidade: a moderação que se propõe a conter o radicalismo, incorporando suas pautas, não o enfraquece. Ela constrói a estrada pela qual o extremismo de direita avança. Cada concessão discursiva, cada aliança pragmática, cada silêncio cúmplice diante do inaceitável não são gestos táticos. São degraus da escada.

A Mecânica da Escada

O processo pelo qual essa terceira via se torna linha auxiliar da extrema-direita segue uma sequência que, uma vez identificada, torna-se impossível de ignorar.

Começa pelo compartilhamento de ambientes. A direita tradicional aparece nos mesmos eventos, divide os mesmos palcos, frequenta os mesmos circuitos de financiamento que a extrema-direita. A simples presença conjunta envia um sinal: as diferenças são de grau, não de natureza. Não é preciso declarar aliança; basta estar junto. No Brasil, anos de aparições conjuntas em fóruns empresariais, manifestações e eventos conservadores construíram, por mera exposição repetida, a percepção de um campo político contínuo, e em pouco tempo deixou de ser apenas uma percepção para virar um fato.

Uma vez normalizados, os temas da extrema-direita passam a definir os termos do debate. A terceira via, que entrou no jogo acreditando que definiria a pauta, descobre-se reagindo a ela. Já não propõe; responde. Já não lidera; segue. O centro de gravidade do debate deslocou-se, e quem acreditava empurrar a extrema-direita para o centro descobre que foi puxado para a margem. No fim, resta apenas a irrelevância ou a canibalização. A terceira via enfrenta um dilema final: ou se torna irrelevante, superada pela "autenticidade" do radical que diz sem filtros o que ela apenas insinua, ou se funde completamente a ele, abandonando qualquer pretensão de diferença. Em ambos os casos, a escada cumpriu sua função. E agora já pode ser recolhida.

Então por que essa terceira via insiste em ser escada? Três fatores, nenhum deles acidental, explicam a recorrência deste padrão.

Há, antes de tudo, a convergência de interesses materiais. Terceira via e extrema-direita defendem, no essencial, a mesma estrutura de propriedade, a mesma hierarquia social, a mesma recusa à redistribuição. Suas diferenças são estéticas e retóricas. Quando confrontadas com uma ameaça real a esses fundamentos, como um governo de esquerda com projeto redistributivo, a estética torna-se detalhe descartável.

Há também o que se poderia chamar de síndrome do domesticador: a convicção, recorrente e sempre frustrada, de que a moderação pode domesticar o radicalismo, oferecendo-lhe respeitabilidade em troca de contenção. A história está pontuada de figuras que acreditaram nisso, de Hindenburg a Paul Ryan, e terminaram engolidas. A extrema-direita não busca respeitabilidade como fim; busca-a como meio. Uma vez obtida, avança.

E há, por fim, o fator mais profundo e menos confessável: o medo do popular. Para amplos setores dessa “terceira via”, a possibilidade de governos de esquerda com base popular, mesmo moderados e democráticos, é uma ameaça existencial que justifica qualquer aliança. Melhor o radicalismo autoritário que controla a multidão do que o socialismo que a organiza. Esta equação, raramente explicitada, é o verdadeiro programa político da terceira via contemporânea.

O Ecossistema Digital Como Acelerador

A transformação do ambiente comunicacional nas últimas duas décadas criou condições para que este processo se acelerasse dramaticamente. As plataformas digitais operam com algoritmos que recompensam o engajamento emocional sobre a precisão factual, arquitetura sob medida para o discurso radical. A extrema-direita, com seu talento para controvérsia e simplificação, domina este ambiente com naturalidade.

O que merece exame mais detido é o papel específico que a terceira via desempenha neste ecossistema. Não se trata apenas de desvantagem competitiva. Trata-se de uma divisão de trabalho na qual a moderação funciona como ponte entre o submundo digital e o debate público respeitável.

Observe-se o ciclo de vida de uma narrativa típica. Ela nasce em grupos fechados de mensageria, onde circula sem qualquer filtro. Dali migra para canais de extrema-direita em plataformas abertas, ganhando vocabulário político. O passo seguinte é o crucial: algum veículo ou influenciador da terceira via a recolhe, retira-lhe as arestas mais grotescas e a publica sob o formato de "análise preocupada" ou "debate necessário". Foi o que ocorreu com a tese do "ativismo judicial" como ameaça à democracia, gestada em grupos bolsonaristas durante os inquéritos do STF, que migrou para editoriais de veículos liberais até se tornar posição respeitável em seminários de direito constitucional. A mesma trajetória pode ser traçada nas narrativas sobre fraude eleitoral: o que em 2018 era delírio de grupos radicalizados, em 2022 já frequentava colunas de análise política sob o guarda-chuva do "aperfeiçoamento do sistema eleitoral".

As investigações sobre milícias digitais no Brasil, conduzidas pela Polícia Federal e examinadas pelo Supremo Tribunal Federal ao longo dos últimos anos, expuseram algo que deveria constranger a terceira via. A separação nítida entre "direita moderada" e "direita radical", que o debate público insiste em preservar, não resiste ao exame de quem financia o quê. Círculos empresariais que patrocinam candidaturas de centro-direita reaparecem, com frequência incômoda, entre os apoiadores de estruturas de desinformação bolsonaristas. Não há dois projetos com fronteiras claras. Há um ecossistema de poder com divisão de tarefas.

O resultado desta arquitetura é uma contaminação assimétrica. A extrema-direita fornece o conteúdo bruto; a terceira via fornece o selo de respeitabilidade. Ambas ganham: a primeira, acesso a públicos que jamais consumiriam seu conteúdo diretamente; a segunda, relevância algorítmica e conexão com bases mobilizadas. Quem perde é a possibilidade de um debate público assentado em premissas compartilhadas de realidade.

O Que a Terceira Via Torna Possível

As consequências desta dinâmica vão muito além do xadrez eleitoral de curto prazo.

Primeiro, o estreitamento do debate público. Quando a terceira via e a extrema-direita competem entre si para ver quem ocupa o território mais à direita, temas que afetam a vida concreta da maioria, salários, moradia, transporte, saúde, desaparecem da agenda. O debate político torna-se uma sucessão de pânicos morais e controvérsias identitárias que mobilizam afetos, mas não oferecem soluções.

Depois, a erosão institucional. A retórica antiinstitucional, quando repetida por figuras "respeitáveis" em versão moderada, prepara o terreno para ataques mais frontais. Questionar a confiabilidade das urnas em linguagem técnica é a versão palatável do que a extrema-direita fará em linguagem de motim. Uma vez rompido o consenso de que instituições são o terreno comum do jogo democrático, a escalada é questão de tempo.

E, ao final da cadeia, a normalização da violência política. Há uma linha que conecta a retórica de “combate ao inimigo”, mesmo proferida em ambientes elegantes, à violência política que eventualmente irrompe nas ruas. A terceira via acredita que pode acender o fósforo retórico sem se responsabilizar pelo incêndio. A crença é conveniente. A realidade é implacável.

Como Seria Uma Terceira Via Verdadeira?

Reconhecer o padrão é o primeiro passo. Mas é preciso ir além e perguntar que condições permitiriam à terceira via existir como força democrática autônoma, e não como linha auxiliar do radicalismo.

O requisito mínimo são cordões sanitários efetivos. A experiência belga e francesa demonstra que o compromisso de jamais formar coalizões com a extrema-direita, mantido com consistência ao longo de décadas, impede a normalização. Não se trata de sectarismo, mas de estabelecer que há linhas que, uma vez cruzadas, excluem o transgressor do jogo democrático. A terceira via, que não estabelece esta linha, está, na prática, negociando os termos de sua própria irrelevância.

O segundo requisito é a autonomia programática real. Uma terceira via que se define primariamente pelo que combate, e não pelo que propõe, já é linha auxiliar. É preciso construir agenda própria, que vá além da gestão competente do status quo e ofereça respostas às ansiedades que alimentam o radicalismo, insegurança econômica, desamparo social, crise de pertencimento, sem recorrer a bodes expiatórios.

O terceiro é a honestidade sobre os próprios aliados. A terceira via precisa decidir se está disposta a perder eleitores e financiadores que flertam com o autoritarismo. Enquanto a defesa da democracia estiver condicionada à conveniência eleitoral, ela não é defesa. É marketing. Defender a democracia custa caro; é da natureza dela que seus defensores paguem esse preço.

A terceira via brasileira, e, de modo mais amplo, a centro-direita liberal que se apresenta como alternativa civilizada, enfrenta uma escolha que definirá seu lugar na história. Pode persistir no papel de escada, oferecendo respeitabilidade a um projeto que despreza as regras do jogo democrático, ou pode romper com a cumplicidade tácita e construir-se como força autônoma.

A aposta atual, usar a extrema-direita como instrumento para derrotar a esquerda e depois contê-la, fracassou em todos os lugares onde foi tentada, inclusive aqui no Brasil. A extrema-direita não é instrumento de ninguém; ela que instrumentaliza. É um projeto de poder que usa seus aliados táticos com o mesmo desprezo que reserva a seus inimigos declarados. Cada degrau da escada acredita-se estratégico. Ao final, todos servem à mesma ascensão.

A história não pede juramentos. Pede que, na hora exata em que a fera pedir carona, alguém tenha a coragem de fechar a porta. Portanto, votar nessa chamada terceira via é a mesmíssima coisa que votar na extrema-direita, e quem o faz sabe exatamente o que está fazendo e, sem dúvidas, todos sabem com quem estarão no segundo turno das eleições.

Ilustração: George Saru

*Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

Celso Pinto de Melo: "Quando a vida ganhou um terceiro domínio" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/celso-pinto-de-melo-evolucao-da-ciencia.html 

11 agosto 2026

Palavra de poeta

Rondó da liberdade

Carlos Marighella    

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre…
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

[Ilustração: David Alfaro Siqueiros]

Leia também "A estrela da manhã", poema de Manuel Bandeira https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/palavra-de-poeta_28.html 

Minha opinião

Fadado ao fracasso
Luciano Siqueira   

Em toda e qualquer luta a boa escolha do alvo a atingir para derrotar o adversário é indispensável. Pré-condição para o êxito. Quando se atira a esmo, o barulho é grande e a eficácia é mínima. 

Isso acontece nas grandes batalhas eleitorais, como agora pela presidência da República.

Um dos contendores, o senador carioca dito filho 01 do ex-presidente encarcerado, Flávio Bolsonaro (PL), carece de precisão quanto à percepção do seu verdadeiro adversário. 

Se é óbvio que se trata do presidente Lula, para o candidato da extrema direita não é. Daí ataques diários ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes em particular. Atira a esmo e em termos rebaixados.

Programa de governo? Deve ter registrado em cartório uma peça com esse nome, como exige a lei eleitoral. Mas do conteúdo pouco se sabe e o próprio candidato o mantém sob uma espécie de preguiçoso sigilo. 

Na verdade, falta conteúdo para além do ódio e da fúria neofascista.

O registro vale como dado de realidade. Às forças do campo popular e democrático reunidas em torno do presidente Lula melhor que seja assim. 

Mais ainda quando parece que a peroração odiosa do candidato do PL se acentua a cada pesquisa divulgada, confirmando tendências pró Lula e o enfraquecendo. 

É como se todas as fichas do candidato sejam jogadas numa desejada (por ele) intervenção norte-americana sobre o processo eleitoral brasileiro. Nada mais.

Entreguismo exacerbado, complexo de vira-latas elevado à enésima potência! 

Do lado de cá, na luta pela reeleição do presidente Lula, melhor deixar o bolsonarista vociferando sozinho e sustentar discurso propositivo, acentuando as conquistas alcançadas e indicando proposições essenciais constantes da plataforma para o provável próximo governo. A defesa da soberania nacional sobretudo.

Responder ao ódio e a provocações na mesma medida levaria a nada. 

Abordar problemas e soluções no sentido de manter a nação num trilho progressista, vale muito. Sobretudo se formos capazes de explicitar ao eleitorado quais os verdadeiros obstáculos aos propósitos do atual governo Lula e provavelmente do próximo. 

Cotidianamente, a elite financeira o grande agronegócio exportador e os monopólios do varejo valem-se do aparato midiático dominante para desinformar e confundir, em oposição sistemática ao governo Lula e às suas ideias mais avançadas. 

Responder de modo eficaz e competente impõe-se como condição para a vitória. Desafio que impõe combinação equilibrada e eficiente da batalha de ideias pelos meios digitais e também nos salões e na base da sociedade, tendo como intuito esclarecer e mobilizar a maioria do eleitorado.

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Com Lula rumo a um Brasil soberano e desenvolvido https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/palavra-do-pcdob.html