Transformação ecológica conecta estratégias de desenvolvimento de Brasil e China
Política industrial, inovação, atuação do Estado e justiça social aproximam duas estratégias que partem de realidades nacionais distintas e questionam a oposição entre crescimento econômico e sustentabilidade
José Bertotti/Portal Grabois
Conexões entre o Plano de Transformação Ecológica do Brasil e a Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa
O Plano de Transformação Ecológica (PTE) do Brasil, abordado como caso de estudo no trabalho de Carina Vitral, Cristina Fróes de Borja Reis e Carolina Grotteraa, Políticas industriais no centro do Plano de Transformação Ecológica no Brasil (Vitral et al., 2026), e o livro recentemente publicado no Brasil pela Fundação Maurício Grabois, Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa, escrito por Zhang Yongsheng (Yongsheng, 2026), embora enraizados em contextos nacionais e históricos distintos, revelam uma profunda ressonância em seus princípios fundamentais.
Ambos transcendem a visão tradicional que trata a proteção ambiental como um “fardo” para o desenvolvimento econômico, posicionando-a, em vez disso, como uma estratégia central para impulsionar a mudança estrutural, alcançar um desenvolvimento de alta qualidade e garantir a sustentabilidade a longo prazo.
Duas estratégias, diferentes horizontes
A diferença mais fundamental entre as duas abordagens reside na profundidade estratégica de cada uma.
O Brasil adota uma perspectiva de “transformação ecológica”, que se configura essencialmente como uma mudança estrutural. O país visa alterar radicalmente sua estrutura econômica, historicamente dependente da exportação de commodities de baixo valor agregado, buscando uma reindustrialização verde que eleve sua posição nas cadeias globais de valor. O cerne dessa abordagem é evitar uma nova forma de dependência, agora “verde”, que poderia se manifestar como uma “reprimarização verde” – ou seja, a mera exportação de produtos ambientais sem agregação tecnológica e desenvolvimento industrial interno. Para o Brasil, a transformação ecológica representa uma oportunidade histórica de superar o subdesenvolvimento industrial e construir uma economia mais complexa, inovadora e soberana.
Em contraste, a China adota uma abordagem mais ampla e profunda, que pode ser descrita como um salto de forma civilizacional. Para os chineses, a perspectiva ecológica não se contenta em “transformar” dentro do velho paradigma industrial, mas busca criar uma forma de civilização que supere a lógica insustentável da industrialização tradicional. A modernização chinesa é concebida como uma reflexão e superação sistêmica da insustentabilidade inerente à civilização industrial, representando uma transição histórica comparável à passagem da civilização agrícola para a civilização industrial. Essa visão transcende a mera política ambiental para se tornar um projeto civilizacional que redefine a própria relação entre a humanidade, a economia e a natureza.
Política industrial, Estado e financiamento
Apesar dessas diferentes profundidades estratégicas, ambos os modelos compartilham uma base comum fundamental: colocam a política industrial no centro de suas estratégias para impulsionar o crescimento verde.
No Brasil, isso se manifesta de forma explícita com o Plano de Transformação Ecológica colocando a política industrial no coração de sua estratégia, integrando o PTE, a Nova Indústria Brasil (NIB) e o Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para criar um esforço coordenado e abrangente de reindustrialização verde.
A China, por sua vez, utiliza o conceito de “novas forças produtivas” para posicionar o desenvolvimento verde como a base ecológica da nova industrialização, impulsionando a atualização verde de todo o setor manufatureiro e promovendo uma transição que integra inovação tecnológica, eficiência energética e sustentabilidade ambiental.
Em termos de posicionamento central, o Brasil estrutura seu PTE como um arcabouço de política econômica abrangente, que não se limita a uma agenda ambiental, mas orienta o crescimento econômico e assegura uma transição justa para uma economia de baixo carbono. O protagonismo do Ministério da Fazenda na condução do plano demonstra claramente que a política econômica é a força motriz por trás da transformação ecológica. Já o Estado chinês, enxerga sua perspectiva ecológica como uma renovação da forma de civilização, representando uma transição da civilização industrial para a civilização ecológica que supera fundamentalmente o paradigma tradicional de modernização industrial ocidental.
Os objetivos fundamentais de ambos os modelos também revelam convergências significativas. O Brasil persegue três objetivos interligados: aumentar a produtividade e o emprego verde, reduzir a intensidade de carbono da economia e garantir justiça social e uma transição justa. A China estrutura sua modernização em torno de cinco características centrais: uma modernização de enorme população, a prosperidade comum para todo o povo, a coordenação entre civilização material e espiritual, a coexistência harmoniosa entre ser humano e natureza e o desenvolvimento pacífico. Nos dois casos, a dimensão social é tão fundamental quanto a ambiental e econômica.
A integração de políticas em ambos os países reflete um compromisso com a coordenação intersetorial. O Brasil integra instrumentos fiscais, financeiros, regulatórios e industriais sob a direção unificada de descarbonização e justiça social, com o Ministério da Fazenda exercendo liderança central. A China adere a um pensamento sistêmico que protege e governa de forma integrada “montanhas, rios, florestas, terras cultiváveis, lagos, pastagens e desertos”, enfatizando a abordagem sistêmica para as metas de “duplo carbono” (pico de carbono até 2030 e neutralidade de carbono até 2060).
No que diz respeito aos conceitos centrais, o Brasil adota o termo “transformação” em vez de “transição”, enfatizando a necessidade de mudança estrutural profunda para evitar uma “reprimarização verde” e promover a atualização industrial genuína. A China reforça essa abordagem nas palavras do seu presidente Xi Jiping (2017), ao afirmar que “águas cristalinas e montanhas verdes são tão valiosas quanto montanhas de ouro e prata”, posicionando a construção da civilização ecológica como fundamental para o desenvolvimento sustentável da nação chinesa.
Em termos de inovação e indústria, o Brasil persegue uma reindustrialização verde com foco em bioeconomia, economia circular e transição energética. A China, através do conceito de “novas forças produtivas”, impulsiona o desenvolvimento da manufatura em direção a um modelo mais avançado, inteligente e verde, integrando inovação tecnológica com sustentabilidade ambiental.
Os instrumentos financeiros também mostram paralelos interessantes. O Brasil criou mecanismos inovadores como o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), em fase de implementação, e a Taxonomia Sustentável Brasileira, além de emitir títulos soberanos verdes, administrados pelo BNDES, para canalizar investimentos para atividades sustentáveis. A China desenvolveu um sistema financeiro verde abrangente, com padrões para financiamento verde e mercados para crédito, títulos e seguros verdes.
Uma convergência crucial entre as abordagens dos dois países é a redefinição do papel do Estado na economia. O Brasil, ao inserir o Ministério da Fazenda como agente ativo da agenda climática, demonstra a intenção de usar o poder do Estado para moldar mercados, financiar a inovação e atuar como um investidor de longo prazo, indo além da mera correção de falhas de mercado. A China enfatiza a combinação de um “mercado eficaz” e um “governo que cumpre seu papel”, utilizando o conceito de civilização ecológica para estruturar um sistema financeiro verde para direcionar recursos para indústrias verdes, redefinindo as funções de ambos os atores no processo de desenvolvimento.
Do ponto de vista social, o Brasil enfatiza explicitamente a transição justa, incluindo a justiça social, redução da pobreza e equidade regional como objetivos centrais de seu plano. A China enquadra sua modernização como um caminho para a prosperidade comum de todo o povo, afirmando que um ambiente ecológico saudável é o benefício público mais equitativo.
Caminhos do Sul Global
Em síntese, o Plano de Transformação Ecológica do Brasil e a Perspectiva Ecológica da Modernização Chinesa representam duas tentativas distintas, porém interligadas, do Sul Global de forjar caminhos de desenvolvimento que se afastam do modelo tradicional de industrialização ocidental. Ambos rompem fundamentalmente com o velho paradigma de que o desenvolvimento econômico deve vir à custa do meio ambiente, demonstrando que é possível alcançar uma relação de benefício mútuo entre crescimento econômico e sustentabilidade ambiental.
Sob essa nova ótica, mesmo com as restrições orçamentárias impostas pelas altas taxas de juros definidas pelo Banco Central, a economia brasileira passou a crescer em torno de 3% ao ano, retomando seu posto entre as 10 maiores economias do mundo. De acordo com o FMI, o Brasil terá crescimento no período 2023-2026 acima da média da América Latina. A inflação registrou o menor índice acumulado de um mandato presidencial na história do país, alcançando uma média anual de 4,6%. Retomamos o crescimento da nossa indústria. Entre 2023 e 2025, a indústria brasileira foi a sexta que mais cresceu no mundo entre as economias do G20, com 3,2% acumulados (Plano de Governo Lula, 2026).
Enquanto o plano brasileiro se apoia em sua imensa biodiversidade e matriz elétrica renovável para uma reindustrialização verde, a abordagem chinesa concentra-se em uma transformação sistêmica institucional e cultural para liderar uma mudança de era civilizacional. Ambos os casos demonstram que um processo de transformação ecológica bem-sucedido deve ser profundamente enraizado nas realidades nacionais, recursos e tradições culturais de cada país, oferecendo, assim, modelos diversos e valiosos para o desenvolvimento sustentável global.
O Brasil e a China, cada um a seu modo, estão construindo respostas originais para os desafios do século XXI, contribuindo para um novo repertório de políticas de desenvolvimento que integra crescimento econômico, justiça social e sustentabilidade ambiental. Os dois países enxergam a transformação ecológica não como um custo, mas como uma janela de oportunidade histórica para alavancar a inovação, aumentar a competitividade e promover a atualização industrial.
Nesse sentido, as eleições de 2026 decidirão se o Brasil conseguirá ou não persistir no rumo da reconstrução iniciada no Governo Lula III, para concluir a tarefa de realizar as reformas estruturais necessárias para o país atingir um novo patamar de civilidade e implementar um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento.
[Ilustração: Anne Marie Palaze]
Referências
Xi, Jinping. Íntegra do Relatório do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista da China. Embaixada da República Popular da China no Brasil, 2017.
Programa de governo de Lula. 2026.
Vitral, Carina; Reis, Cristina Fróes de Borja; Grottera, Carolina. Industrial Policies at the Heart of the Ecological Transformation Plan in Brazil. UCL Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP), 2026.
Zhang, Yongsheng. Perspectiva ecológica da modernização chinesa. Fundação Maurício Grabois e Editora Chongqing, 2026.
José Bertotti é pesquisador em inovação e política climática. Sócio-fundador do Instituto Toró, Clima, Tecnologia e Cultura. Foi secretário de estado em Pernambuco nas pastas de Meio Ambiente e Sustentabilidade; e de Ciência e Tecnologia. É membro da direção estadual do PCdoB em Pernambuco e um dos coordenadores do GP Transformação Ecológica e Diversificação Energética da Fundação Maurício Grabois.