24 abril 2026

Palavra de poeta

Um beijo
Vinícius de Moraes          

Um minuto o nosso beijo
Um só minuto; no entanto
Nesse minuto de beijo
Quantos segundos de espanto!
Quantas mães e esposas loucas
Pelo drama de um momento
Quantos milhares de bocas
Uivando de sofrimento!
Quantas crianças nascendo
Para morrer em seguida
Quanta carne se rompendo
Quanta morte pela vida!
Quantos adeuses efêmeros
Tornados o último adeus
Quantas tíbias, quantos fêmures
Quanta loucura de Deus!
Que mundo de mal-amadas
Com as esperanças perdidas
Que cardume de afogadas
Que pomar de suicidas!
Que mar de entranhas correndo
De corpos desfalecidos
Que choque de trens horrendo
Quantos mortos e feridos!
Que dízima de doentes
Recebendo a extrema-unção
Quanto sangue derramado
Dentro do meu coração!

[Ilustração: Pablo Picasso]

Leia também: "Solidão", poema de Mia Couto https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_22.html 

23 abril 2026

Minha opinião

Todo grupo vale a pena quando a luta não é pequena*
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

Aqui e acolá a gente lê que, segundo estudiosos do tema, embora as redes sociais tenham mudado a forma como nos comunicamos, elas não substituem a função biológica e psicológica dos pequenos grupos.

Afirmam que o indivíduo segue sob uma combinação de biologia evolutiva, química cerebral e necessidade de segurança. A mesma raiz de quando dos primórdios dos hominídeos, mesmo de modo rudimentar, estabeleceram a relação mútua motivada por interesses compartilhados, como a caça, a pesca, a defesa comum diante de ameaças várias.

O contrário da concepção simplista de que na tela do celular tudo acontece, dispensando o diálogo olhos nos olhos, o grupo.

As relações digitais ativam a dopamina (o neurotransmissor da recompensa rápida e do "curtir"), mas falham em gerar níveis profundos de ocitocina, o hormônio do vínculo e da confiança.

Por isso, a despeito do furor da comunicação digital, espontaneamente formam-se grupos em torno de um bom café moído ou de rodadas de chope e rola muita conversa.

Bem sabemos pela experiência que grupos de amigos, colegas de trabalho ou de escola, vizinhos e familiares criam “linguagens” que as redes sociais não conseguem replicar em escala global. Esse "pertencimento particular" é o que nos faz sentir indivíduos únicos, e não apenas mais um perfil em uma plataforma.

Tudo a ver com a nossa luta cotidiana. Mais ainda com a grande jornada que já se inicia pela reeleição do presidente Lula, governadores progressistas, Câmara dos Deputados, Senado e Assembleias Legislativas.

Numa percepção mais ampla, grupos assim necessariamente não reagem como antes, nem de modo uniforme. Mas reagem e, em alguma medida, proporcionam formas diversas de organização – para a campanha e a luta posterior.

No seu tempo, Lênin ensinava que militantes e ativistas não deviam “inventar” formas de luta e de organização segundo de sua própria abstração, por mais corretas que fossem suas intenções. Deviam perceber, incentivar e ajudar a dar um mínimo de organicidade e ímpeto às formas que “espontaneamente” surgem a cada conjuntura.

Pode acontecer na batalha eleitoral de agora.

Claro que nada é simples nas condições de hoje em que não apenas o feitiço da comunicação digital dispersa as pessoas, mas igualmente as profundas alterações no mundo do trabalho, em suas diversas modalidades e formas, e na vida em geral. É preciso sensibilidade e espírito criativo na abordagem de militantes, ativistas e cidadãos e cidadãs comuns interessados em se agruparem para refletir, entender e agir em alguma medida pela reeleição de Lula e pelo êxito das demais candidaturas que apoiamos.

*Texto da minha coluna semanal no portal 'Vermelho'

Leia também: O mundo cabe numa Organização de Base https://lucianosiqueira.blogspot.com/2023/05/minha-opiniao_18.html 

Humor de resistência


Aroeira

As voltas que o mundo dá https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Os Anos JK

Os Grupos de Trabalho de JK e o método do desenvolvimento
O Plano foi, antes de tudo, uma reorganização do modo de decidir e de executar no Estado brasileiro. Foi uma inovação institucional.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN   

O Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek (1956–1961) costuma ser lembrado pelas obras: rodovias, usinas, siderúrgicas, a indústria automobilística e, sobretudo, Brasília. Mas reduzir aquela experiência a um catálogo de empreendimentos seria perder de vista seu traço mais inovador. O Plano foi, antes de tudo, uma reorganização do modo de decidir e de executar no Estado brasileiro. Foi uma inovação institucional [1, 2].

O Brasil dos anos 1950 tinha ministérios robustos, mas pouco articulados entre si. Cada pasta operava verticalmente, defendendo seu território administrativo. Grandes projetos esbarravam em conflitos burocráticos, na lentidão decisória e em disputas de competência. Juscelino percebeu que, sem alterar o método, o país continuaria crescendo aos solavancos. A resposta veio com a criação dos Grupos de Trabalho (GTs): instâncias técnicas interministeriais encarregadas de integrar diagnósticos, harmonizar prioridades e acelerar as decisões [3].

A lógica era simples e poderosa. Planejamento horizontal para definir metas; execução vertical para implementá-las. Os ministérios mantinham seus orçamentos e prerrogativas formais, mas as diretrizes estratégicas eram articuladas no topo, sob coordenação presidencial, com o Conselho do Desenvolvimento e o BNDE funcionando como eixo político-financeiro. O resultado foi um modelo híbrido: centralização decisória combinada com execução descentralizada [1].
 

É fundamental distinguir esses GTs dos chamados Grupos Executivos, como o GEIA na indústria automobilística. Enquanto os GTs organizavam a coordenação transversal, os Grupos Executivos operavam diretamente nos diferentes setores. No caso do automóvel, estabeleceram-se índices progressivos de nacionalização, cronogramas de produção e exigências de conteúdo local. Não se tratava apenas de atrair montadoras, mas também de estruturar uma cadeia produtiva doméstica. O Plano de Metas, assim, combinava coordenação estratégica, instrumentos regulatórios e financiamento público. Não foi improvisação: foi engenharia institucional [2].

A escolha das metas foi deliberadamente seletiva. Energia, transportes e indústria de base foram priorizados porque representavam gargalos sistêmicos. A agricultura não foi esquecida, mas sim tratada de forma subordinada, em parte porque se supunha que poderia responder à expansão da demanda via ganhos extensivos e pelos efeitos indiretos da infraestrutura – uma leitura que, à luz posterior, revela tanto seu pragmatismo quanto seus limites [4]. Supunha-se que o crescimento agrícola viria como uma consequência da expansão da infraestrutura e da industrialização. A construção de Brasília sintetizou essa lógica: integração territorial, afirmação simbólica e reorganização do centro decisório do país.

Comparar Juscelino a Getúlio Vargas ajuda a compreender o salto metodológico. Vargas construiu instituições estruturantes – a CSN, a Petrobras, a legislação trabalhista – por meio de decisões políticas fortes e incrementais. Seu planejamento era implícito, institucional. JK sistematizou: transformou prioridades em metas numeradas, acompanhadas, integradas. Se Vargas lançou os pilares, Juscelino organizou a expansão [5]. 

Essa expansão não ocorreu sem tensões. A equipe econômica reunia correntes distintas. De um lado, economistas associados ao nacional-desenvolvimentismo – como Rômulo Almeida, Celso Furtado e Ignácio Rangel – defendiam o papel ativo do Estado e tolerância a custos macroeconômicos de curto prazo. De outro, Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões enfatizavam riscos inflacionários, endividamento e credibilidade externa. Lucas Lopes desempenhou um papel crucial na coordenação operacional, mantendo o sistema em funcionamento, apesar das divergências. A inflação crescente do período não foi fruto de um desajuste técnico isolado, mas da combinação entre o ritmo acelerado da expansão, as limitações institucionais do financiamento e escolhas políticas conscientemente assumidas [3].

As críticas vieram com intensidade. Carlos Lacerda denunciava o que via como irresponsabilidade fiscal, dependência excessiva de capital estrangeiro e concentração de poder no Executivo. Para ele, o Plano de Metas misturava voluntarismo e populismo. Sua oposição refletia não apenas divergências econômicas, mas também o clima político polarizado da época [5].

Quando Jânio Quadros assumiu a Presidência, o pêndulo deslocou-se. O discurso passou a enfatizar a austeridade, o combate à inflação e a moralização administrativa. O foco saiu de uma expansão coordenada para o ajuste macroeconômico. O modelo de coordenação por metas perdeu a centralidade, substituído por uma agenda de contenção e estabilização. Embora seu governo tenha sido breve, a mudança de ênfase revelou a fragilidade política do arranjo desenvolvimentista: um crescimento acelerado, sustentado por decisões centralizadas, exigia uma coesão política que rapidamente se esgarçou no início dos anos 1960. 

Há também os limites estruturais do Plano. A desigualdade social não foi tratada como eixo central. Não houve política redistributiva abrangente nem constituição de um sistema nacional robusto de ciência e tecnologia. A educação apareceu principalmente como formação de quadros técnicos para sustentar a industrialização. A premissa implícita era clara: primeiro crescer, depois distribuir. Essa aposta gerou resultados industriais notáveis, mas deixou tensões sociais que se tornariam cada vez mais evidentes nas décadas seguintes [4].

Ainda assim, é crucial reconhecer que tudo isso ocorreu sob um regime democrático. Congresso ativo, imprensa vibrante, oposição combativa. O Plano de Metas demonstra que o planejamento estatal ambicioso não é incompatível com a democracia. Ao contrário, pode florescer à luz de um debate público intenso – ainda que conflituoso [5].

O legado de Juscelino não está apenas nas obras visíveis ou nas estatísticas de crescimento. Está no método: coordenação por metas, integração interministerial, capacidade decisória concentrada e orientação estratégica clara. Foi uma etapa histórica específica da industrialização tardia brasileira, com virtudes e limitações próprias de seu tempo. 

Atualizar esse legado hoje não significa repetir o passado. Significa aprender com a capacidade de organizar o Estado em torno de prioridades estratégicas, reconhecendo que o desenvolvimento exige coordenação, escolhas políticas e disposição para enfrentar gargalos estruturais. Em um contexto internacional em que a convergência entre países não ocorre de forma automática, mas depende de trajetórias institucionais e decisões estratégicas, essa lição ganha ainda mais relevância [6]

O Plano de Metas não foi uma solução definitiva para todos os problemas do país. Mas foi uma demonstração de que o Brasil pode, quando decide, alinhar estratégia, organização institucional e ambição histórica.

E talvez essa seja a lição mais duradoura: desenvolvimento não é apenas investimento; é método. 

Bibliografia

1.  Lessa, C., Quinze anos de política econômica. 1982, São Paulo: Brasiliense.

2.  Lafer, C., JK e o Programa de Metas (1956–1961): processo de planejamento e sistema político no Brasil. 2002, Rio de Janeiro: Editora FGV.

3.  Bielschowsky, R., Pensamento econômico brasileiro: o ciclo ideológico do desenvolvimentismo. 2000, Rio de Janeiro: Contraponto.

4.  Furtado, C., Formação econômica do Brasil. 2007, São Paulo: Companhia das Letras.

5.  Skidmore, T.E., Brasil: de Getúlio a Castelo (1930–1964). 1988, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

6.  de Melo, C.P., Convergência não é destino: por que alguns países chegam lá – e outros não. 2026. https://celsopdemelo.substack.com/p/convergencia-nao-e-destino-por-que.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências. 

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Quem está por trás da mineração em terras indígenas no Brasil? https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/ilegitima-ilegal-e-danosa.html

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É forçar a barra sugerir que na impossibilidade de Estevão disputar a Copa Neymar seja convocado para substituí-lo. Seria problema e não solução. 

Faca de muitos gumes https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Dica de leitura

Nós e os bancos
instagram.com/lucianosiqueira65  

O artigo "Uberização bancária", de Fernando Nogueira da Costa (professor titular do IE-UNICAMP), publicado no portal A Terra é Redonda, e que reproduzi aqui no blog, faz uma abordagem econômica e técnica sobre a digitalização do sistema financeiro, focando na transição do modelo de negócios, na mudança do perfil do consumidor e nas repercuções sobre a força de trabalho.

Destaca que os bancos estão deixando de ser apenas intermediários de crédito para se tornarem plataformas digitais multisserviços. Tal como a Uber conecta motoristas a passageiros, os bancos digitais (e as novas estruturas dos grandes bancos) conectam poupadores, investidores e consumidores a uma vasta gama de produtos (seguros, varejo, investimentos) em um só lugar).

A drástica redução do custo fixo de agências convencionais é fator preponderante dessa transformação.

Concomitantemente, os bancos reduzem a estrutura pesada (prédios e grandes quadros de funcionários) para focar em propriedade intelectual e algoritmos.

Na prática, uma transferência de certas responsabilidades e custos operacionais para o próprio cliente ou para parceiros terceirizados.

Nesse contexto, o cliente moderno prefere a conveniência de resolver tudo pelo celular (o "banco na mão") à burocracia do atendimento presencial.

Consequência inevitável é a redução e a mudança de perfil do emprego bancário. A automação e a Inteligência Artificial ocupam crescentemente espaços nas operações. Entram em cena o analista de dados e o desenvolvedor de sistemas.

A "uberização bancária" assim caracterizada parece ser um processo irreversível de modernização capitalista que traz eficiência e conveniência, mas que cobra um preço alto em termos de despersonalização do atendimento e incerteza para a força de trabalho tradicional do setor.

Se não leu, acesse agora https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/sistema-bancario-tecnologia.html

(LS) 

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“Que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?” (Rubem Braga) 

"Dose dupla? Vade retro!" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/alem-do-possivel.html