29 agosto 2026

PEC do fim da escala 6x1

Assim caminha o busão
A PEC do fim da escala 6x1 e a profecia de que devolver tempo a quem trabalha quebra o país
Deborah Magagna/Liberta 
 


Cinco e quarenta da manhã, e o ônibus que desce da Zona Norte já vai cheio. O povo dorme sentado, ou dorme em pé, embalado pelo movimento, e a cidade passa do outro lado do vidro sem que ninguém olhe. Foi exatamente isso que o Flicts descreveu em 2002, num disco chamado Canções de Batalha, uma multidão empilhada e de olhos no chão sendo levada para um lugar em que ela não escolheu estar naquela hora. A banda é um trio paulistano, e a canção não precisou de metáfora nenhuma, porque bastou descrever o trajeto.

Uma hora e quarenta minutos depois, a porta de serviço do supermercado se abre. A catraca gira, registra a entrada, vai registrar o intervalo e a saída, e registra também que aquilo está acontecendo pelo sexto dia seguido. É ela que mede quantas horas cabem dentro de uma semana de vida, e mede bem, porque foi feita para isso. O que ela não sabe registrar é o resto, o sexto dia que bate no corpo, a segunda-feira que começou no domingo, a folga que caiu numa quarta e não serviu para ver ninguém, porque na quarta o resto do mundo está trabalhando e ela ainda teve que trabalhar.

A produtividade do trabalho no Brasil cresceu por décadas, mas a jornada continuou onde estava. A Constituição de 1934 fixou as oito horas diárias, a CLT regulamentou as 48 horas semanais em 1943, e a Constituição de 1988 baixou para 44. Depois disso são 38 anos com esse número parado, enquanto tudo em volta se moveu bastante e sempre para o mesmo lado: terceirização, contrato intermitente, PJ, MEI, plataforma de aplicativos. O ganho de produtividade desse período foi apropriado como margem em vez de ser devolvido como tempo, e quem chega à discussão da 6×1 dizendo que se trata de conceder alguma coisa nova ao trabalhador está começando a conversa pela metade e com atraso.

A profecia

Em 13 de julho de 1962, João Goulart sancionou a lei do 13º salário. Antes disso, a Fiesp havia registrado em nota que o benefício serviria para alimentar “com um excelente combustível a fogueira da inflação”. O Globo considerou, em editorial, “desastroso para o país” um 13º salário. No Congresso, previa-se colapso da economia e convulsão social. O 13º virou o que se sabe, uma injeção anual de renda que o comércio brasileiro passou a esperar como se fosse uma nova estação do ano.

Em 1988, na Constituinte, a redução de 48 para 44 horas foi tratada pelo empresariado como falência anunciada, desemprego estrutural e explosão inflacionária. Catorze anos depois, economistas da PUC-Rio foram medir o que efetivamente havia acontecido com quem foi atingido pela mudança, e encontraram jornada efetiva menor, nenhuma piora na chance de o trabalhador perder o emprego no ano seguinte e salário real por hora um pouco maior. A crise que veio depois teve pai e mãe, dívida externa e inflação, e nenhum dos dois nasceu de quatro horas semanais.
 

Em 2017 a profecia mudou de sinal, passou a prometer bonança em vez de catástrofe, e errou do mesmo jeito. A reforma trabalhista foi vendida como criadora de milhões de vagas, e o que veio foi informalidade recorde, contrato intermitente e uma geração inteira aprendendo a chamar de empreendedorismo o que era precarização.

Chama atenção que o mesmo modelo de previsão erra nas duas direções, e erra sempre para o mesmo lado da corda. Isso costuma ser apresentado como divergência técnica, quando é uma escolha, política, de lado.

“E o sorriso amarelado…”

A conta que o setor apresenta existe e merece ser reconhecida. Tirar quatro horas da semana sem mexer no salário encarece a hora trabalhada em torno de 8%, e é esse o número que aparece nas notas técnicas patronais. O que não aparece é o passo seguinte, como a folha é só uma parte do custo de operar, o efeito sobre o custo total fica abaixo de 1% nos setores que mais empregam. É custo administrável, e a transição prevista na PEC é gradual, o que dá ao comércio e aos serviços, justamente, o tempo de reorganizar a escala que eles dizem precisar.

Do outro lado existem duas contas que ninguém lança. A primeira é o adoecimento, e os afastamentos por transtornos mentais passaram de meio milhão no ano passado, quase o dobro do que se registrava antes da pandemia, com as mulheres respondendo pela maioria. Elas respondem também pela jornada que não aparece em contracheque nenhum, porque a empresa que compra 44 horas depende de que exista, fora dali, quem faça a comida e cuide da criança e da mãe velha de graça, todo dia, para o trabalhador chegar na segunda em condições de trabalhar.

A segunda é a rotatividade. Entre operadores de telemarketing, mais da metade dos desligamentos, em 2024, era referente a pedidos de demissão. Nas ocupações em que a 6×1 é a regra, quem está indo embora é o trabalhador, por decisão própria, de um emprego de que precisa.

Seria confortável ler esses pedidos de demissão como sinal de que a massa resignada da canção acabou. Não acabou. Quem pede as contas no comércio ou no telemarketing quer sair da escala e não do emprego, e sai assim que consegue, cansado, adoecido, muitas vezes sem nada garantido do outro lado. Só que a 6×1 é o padrão do setor inteiro, então, a chance de a próxima vaga vir com o mesmo domingo ocupado é enorme, e o preço da tentativa foi um mês sem salário. A vontade de sair está posta, o que falta é para onde ir. É por isso que jornada não se resolve por escolha individual, e é por isso que a discussão está numa PEC e não numa conversa entre patrão e empregado. Olhos no chão continuam descrevendo bem o trajeto. A massa segue resignada, e agora ela adoece.

A outra catraca

A outra catraca fica em Brasília, e também conta. A PEC do fim da 6×1 foi protocolada na Câmara em fevereiro do ano passado e levou 15 meses para ser votada, até que os deputados a aprovassem em 27 de maio, por 472 votos no primeiro turno e 461 no segundo, placar de pauta popular em ano eleitoral. Depois disso, o texto ficou quase três meses parado, até que Davi Alcolumbre o despachasse para a CCJ, em 21 de agosto. Em Brasília, o que espera quase nunca alcança.

Vale reparar onde cada coisa fica guardada. As 44 horas estão no artigo 7º da Constituição, e mexer ali exige emenda, 49 votos em dois turnos, e basta uma vírgula trocada para o texto voltar à Câmara e a fila recomeçar, o que em ano eleitoral é o mesmo que não começar. O que ficava embaixo desse piso nunca teve essa proteção, e foi por baixo que a reforma de 2017 passou, com lei ordinária e maioria simples, para permitir que o acordo valesse mais que a lei, inclusive quando valia menos para quem trabalha, sem que ninguém precisasse encostar na Constituição.

Ou seja, o que era mais fácil de tirar já foi tirado, e o pouco que sobrou está guardado justamente no lugar mais difícil de alcançar. Dá até para medir isso no calendário, uma vez que aquela reforma foi do protocolo à sanção em menos de sete meses, enquanto o fim da 6×1 já tem um ano e meio de tramitação e ainda não foi votado no Senado. Catraca é assim mesmo, gira para um lado só.
 

Não demorou para aparecerem as emendas. Vejam bem, emendas, não o voto contrário, afinal, ninguém quer aparecer no vídeo votando contra a folga do caixa a poucas semanas da eleição. Basta desfigurar, ou deixar para depois, porque depois é outro Congresso.

Na noite de 25/8, senadores do PL apresentaram cinco emendas ao texto, para manter o limite de 44 horas, condicionar a jornada à negociação com o patrão e permitir a contratação por hora trabalhada. No dia anterior, Flávio Bolsonaro havia saído de uma reunião na Fiesp defendendo exatamente a remuneração por hora. Contratar por hora é o entregador de aplicativo servindo de modelo para o restante.

Sessenta e quatro anos antes, era a Fiesp em nota contra o 13º salário. O direito em disputa mudou de nome umas quantas vezes desde então, e o endereço continua o mesmo.

As emendas saíram na mesma terça em que morreu Dolly Parton, e o expediente das 9 às 5 que ela transformou em queixa em 1980 seria, para a operadora de caixa do primeiro parágrafo, uma promoção.

“Chega o domingo”

O relator no Senado, Omar Aziz, diz que vai manter o texto que veio da Câmara justamente para não devolver a matéria aos deputados, e prevê votar na CCJ em 2/9. A profecia não precisa se cumprir para funcionar, porque ela trabalha no intervalo entre o anúncio e a votação, e é precisamente esse intervalo que está sendo disputado.

Na canção, o domingo é a parte boa, quando a mesma multidão que ia calada para o trabalho enche o ônibus de canto e cor e segue para o estádio, o único momento em que o busão anda para onde quem está dentro dele quer ir. Foi por isso que a banda deixou o domingo para o fim, e é por isso que a 6×1 dói onde dói, porque é exatamente esse dia que ela toma. O sexto dia da operadora de caixa é o domingo do refrão.

Em 1962 o país não quebrou, em 1988 também não. Quem quebrou foram as pessoas que, no ano passado, precisaram de laudo médico para conseguir parar, meio milhão delas, e disso nenhuma catraca deste país guarda registro.

Aprovação, já, da agenda da nação e dos trabalhadores https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/editorial-do-vermelho_0630240574.html 

Arte é vida

 

Anthony Sims Jr 

Prazeroso diálogo na telinha https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_0215026545.html 

Palavra de poeta

AS PRIMEIRAS CARTAS DE AMOR
Maurilio Rodrigues    

Na vida, muitos amores
Atravessam nossos caminhos.
Mas o primeiro amor
Mantém sua lembrança forte.
 
Algo, com ele, acontece,
Que o tempo não explica,
Os sábios não traduzem,
Nem a lógica se sustenta.
 
Só precisei do silêncio,
Para logo reconstituir ,
A beleza dos sentimentos
Guardados por anos e anos.
 
As primeiras cartas de amor
Foram belas páginas,
Capazes de descrevê-lo,
Na sua mais pura
E inocente concepção.
 
Guardo- as comigo,
São verdadeiros testemunhos,
Que no amor, a simplicidade
E a espontaneidade são marcas
Definitivas de sua longevidade.
 
Amores continuam respirando,
Mas, nenhum teve igual fôlego,
Capaz de fazer o coração se apressar,
E as mãos tremerem de emoção,
Ao reler as mensagens escritas,
Com letras ainda inseguras,
Numa folha de papel pautado.
 
Castigado pelos anos,
Brigando com as limitações,
Ao ver as cartas na gaveta.
Encontro sentido para viver.
 
Um amor incondicional,
E uma paixão espontânea,
Representadas por lágrimas,
Traiçoeiramente escorrendo,
Pelo constrito rosto,
Nesse exato momento.

[Ilustração: Albert Anker]
 
Leia também: O poeta negro Miró da Muribeca, voz antirracista https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-urariano-mota.html 

Editorial do Vermelho

Aprovação, já, da agenda da nação e dos trabalhadores
Votação do fim da escala 6×1 e outros temas relevantes demarcam patriotismo versus entreguismo, defesa dos direitos versus superexploração do trabalho
Editorial do 'Vermelho'       

O acordo entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), representa importante conquista ao destravar votações prioritárias durante a semana de esforço concentrado de 31 de agosto a 4 de setembro. Entre elas, se elevam enquanto conquistas de vulto: o fim da escala 6×1 com redução da jornada de trabalho, o marco legal das terras raras e a PEC da segurança pública.

Há o compromisso de acelerar a tramitação da PEC que reduz a jornada de trabalho, o fim da escala 6×1, já aprovada pela Câmara e está no Senado.

O relator da PEC, senador Omar Aziz (PSD-AM), apresentou seu relatório favorável na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com a rejeição das 12 emendas apresentadas por senadores da direita. Isso é politicamente importante, porque, se o Senado modificar o mérito, a PEC teria de retornar à Câmara, dificultando sua aprovação. O parecer também utiliza dados do Ipea para sustentar que a jornada de 44 horas atinge especialmente trabalhadores de menor renda e escolaridade, apresentando a redução da jornada como uma medida de justiça distributiva.

Outro item é a PEC da Segurança Pública. Lula associou a sua aprovação à criação de um Ministério da Segurança Pública, além de uma discussão sobre recursos federais para a área. A PEC está em uma fase decisiva: já foi aprovada pela Câmara dos Deputados e agora tramita no Senado, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O relator no Senado, Rogério Carvalho (PT-SE), decidiu manter integralmente o texto aprovado pelos/as deputados/as

Está na pauta também a votação do marco legal dos minerais críticos e terras raras, estratégico para a política industrial, tecnológica e de soberania econômica do país. Como o Senado já possui propostas próprias sobre o assunto, Alcolumbre sinalizou que será necessário construir um entendimento entre os textos.

O que Lula conseguiu de Alcolumbre foi, sobretudo, destravar e colocar a matéria na pauta. A proposta do governo prevê medidas para pesquisa, extração, beneficiamento e transformação desses minerais, além de criar um Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos vinculado à Presidência da República.

A questão fundamental do acordo é a operação institucional para acelerar temas estratégicos para o país. São questões de grande alcance, que se ligam à necessária concepção de um projeto nacional desenvolvimento, a começar pela redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Reduzir a jornada significa enfrentar uma estrutura histórica em que trabalhadores, sobretudo os de menor renda e escolaridade, concentram longas jornadas e menor poder de negociação. A mudança representa redistribuição dos ganhos de produtividade e melhora na qualidade de vida.

O tema foi impulsionado sobretudo pelos parlamentares do campo progressista e pelas centrais sindicais, que têm atuado em duas frentes: mobilização nas ruas e pressão institucional sobre o Congresso. CUT, CTB, Força Sindical, UGT, CSB, Intersindical, NCST e outras entidades organizaram atos, panfletagens, mobilização nas redes sociais e pressão direta sobre senadores.

O próximo marco é o Dia Nacional de Mobilização de 30 de agosto, com manifestações em várias cidades, às vésperas da semana de esforço concentrado do Congresso, uma iniciativa do Fórum das Centrais Sindicais, da Frente Brasil Popular, da Frente Povo Sem Medo e do movimento Vida Além do Trabalho (VAT).

A PEC da segurança pública, por sua vez, amplia a coordenação federal, enfrentando o problema do seu isolamento nos estados e municípios. Crime organizado, tráfico, lavagem de dinheiro, sistema prisional e inteligência exigem coordenação nacional, integração de dados e recursos federais.

A criação de um Ministério da Segurança Pública, nesse sentido, eleva a questão ao nível de política de Estado. Vem ao encontro da emergência de garantir paz e segurança ao povo, enfrentar e derrotar o crime organizado. Que não haja um palmo de chão sob o controle de facções, que não haja uma família sequer sob a opressão e exploração do crime organizado.

O marco legal dos minerais críticos e terras raras apresenta maior potencial de transformação estrutural da economia brasileira. O desafio é impedir que a nova corrida mundial por minerais críticos reproduza o velho modelo de “exportar minério e importar tecnologia”.

A proposta aponta justamente para outra direção: utilizar a riqueza mineral como instrumento de industrialização, inovação tecnológica e soberania nacional. A emergência, também, é patente. Neste momento, empresas dos Estados Unidos e o próprio Tesouro estadunidense fazem uma ofensiva para comprar integralmente a mina de Serra Verde, em Goiás. Coisa que não pode acontecer.

Essa agenda demarca bem os campos em disputa na sucessão presidencial e tem dimensão com forte impacto no debate eleitoral. Ela evidencia a capacidade de diálogo do presidente Lula, envolvendo os presidentes das duas casas do Congresso Nacional. Flávio Bolsonaro e o seu partido, o PL, se movimentam para impedir a votação dessa pauta, em especial, o fim da escala 6×1 com redução da jornada de trabalho.

Se colocam, portanto, abertamente contra essa bandeira histórica da classe trabalhadora. Se juntam a setores do empresariado, de visão retrógada, para tentar impor a continuidade de uma jornada escravizante. Entreguistas, serviçais dos Estados Unidos que ambicionam se apoderar das riquezas brasileiras também se opõem ao marco dos minerais críticos.

Essa pauta de magna importância deve ser assumida pelo conjunto das forças políticas e organizações que lutam pela reeleição do presidente Lula e combatem as manobras de setores da direita e da extrema para tentar impor um governo reacionário e entreguista, liderado por Flávio Bolsonaro, a serviço dos interesses de uma potência estrangeira, os Estados Unidos sob o governo de Donald Trump.

Nada de protelação. Derrotar a sabotagem de Flávio Bolsonaro. Todo empenho pelo êxito das manifestações marcadas para 30 de agosto pela aprovação da agenda associando-as com a campanha eleitoral. Pressão máxima durante o esforço concentrado do Congresso.

Samba de um mercado só https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_067932584.html   

Fragmentos

Esclarecer é preciso

Essa coisa chamada imagem pública me parece haver se transmutado ao longo do tempo. Verdade que alguns pilares, digamos assim, tidos como virtudes pessoais se mantêm, tais como a honestidade, a competência, a capacidade de liderar gente e de lançar ou reforçar movimentos. Mas num mundo cada vez mais marcado por uma convivência nem sempre harmoniosa entre a vida real e a cibernética, que convivem e confundem, quase nunca esclarecem, a imagem pública de alguém há que se lastrear em sua trajetória de vida e, na atualidade, “traduzida” nos meios digitais. Seja em que dimensão essa “imagem” seja necessária ou requisitada, em favor de que ideias. Daí um líder moderno dever ser capaz de percorrer diariamente essas duas estradas paralelas e fazê-las se cruzarem – a relação direta, dita presencial, com as pessoas e os grupos de interesse; e a ocupação de espaços nas mídias. E para ser eficiente, de modo planejado. (Anotação minha de 12.9.20)

O pensamento crítico na era dos algoritmos https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/bolha-algoritmica.html

Dados e planejamento

O próximo ciclo do planejamento brasileiro
A era digital impõe ao Estado a capacidade de integrar dados dispersos e construir inteligência preditiva, de modo que políticas públicas sejam desenhadas sobre o futuro possível, não sobre o passado consolidado
Marcio Pochmann/A Terra é Redonda  
    

1.

Durante grande parte do século XX, governar significava, em larga medida, administrar uma realidade já acontecida. O Estado observava a população, a economia, o território e as condições sociais por meio de censos e pesquisas amostrais periódicas e, a partir desse retrato, formulava políticas públicas com base no presente do passado. Esse modelo, que foi decisivo para a construção do Estado moderno, dependia da produção oficial contínua de informações, associada aos institutos nacionais de estatística e geografia, originários da transição das sociedades agrárias para as sociedades urbanas e industriais.

Mas o mundo mudou, e a velocidade das transformações tornou insuficiente o Estado que apenas descreve o presente do passado. Isso já havia sido percebido anteriormente na experiência de mudança social do tempo, cuja temporalidade lenta, associada aos ciclos da natureza, às atividades produtivas e aos ritmos da vida cotidiana pertencia à sociedade agrária. Uma realidade identificada por Gilberto Freyre em Ordem e progresso.

Com a passagem para a sociedade urbana e industrial, a temporalidade se modificou pela substituição progressiva do trabalho orientado por tarefas pelo disciplinado no relógio. Edward Thompson em Time, work-discipline, and industrial capitalism demonstrou como o tempo se tornou mensurável, fracionado e submetido às exigências da fábrica, produtividade e jornada de trabalho.

Na atual sociedade de serviços hiperconectada da era digital nota-se nova inflexão marcada pela aceleração simultaneamente tecnológica, social e do ritmo de vida. Diante de intervalos cada vez menores de tempo imposto no transporte, comunicações, instituições, relações e conhecimentos, conforme Hartmut Rosa em Social acceleration: a new theory of modernity observou o tempo da instantaneidade presente na sociedade digital.

O Brasil encontra-se atualmente diante da inédita transformação que combina mudança no perfil epidemiológico, inflexão demográfica, emergência climática e deslocamento do dinamismo econômico dos centros econômicos tradicionais para a nova sociedade de serviços hiperconectada da era digital interiorizada. Para além da produção de mais dados, a necessidade de reorganizá-la para o conhecimento sobre o futuro possível com o Estado reconfigurado para agir antes que o problema aconteça.

Não mais com base exclusiva no presente do passado, sobretudo atuando sobre as consequências do que já aconteceu. O Estado necessário para a era digital pressupõe agir sobre o fato gerador com base no presente do futuro dos acontecimentos. A própria transição epidemiológica, por exemplo, sinaliza a ruptura em curso, pois doenças infecciosas e problemas associados à pobreza continuam presentes e ainda convivendo em menor escala coma a expansão das doenças crônicas não transmissíveis, envelhecimento acelerado, transtornos relacionados às novas condições de vida e os impactos ambientais sobre a saúde. 

2.

Enquanto a Organização Mundial da Saúde estima que as doenças não transmissíveis já respondam por cerca de três quartos das mortes não relacionadas a pandemias no mundo, o IBGE torna pública duas pesquisas inéditas e marcantes sobre a nova realidade brasileira. Por meio da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS), a revelação do quadro de saúde mental abalada, pois 67,5% dos entrevistados nas áreas atingidas pelas enchentes afirmaram ter perturbações psicológicas e comprometimento da saúde física, além de sérias dificuldades para conseguir acesso adequado aos serviços de saúde após o desastre climático.

Na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, o IBGE identificou um panorama preocupante sobre a saúde física e mental dos adolescentes, cuja faixa etária de 13 a 17 anos registra aumento da tristeza e da ideação suicida, ao mesmo tempo em que troca o consumo precoce de álcool pela rápida adesão aos cigarros eletrônicos.

Isso deveria modificar completamente a lógica das políticas públicas. Um sistema de saúde concebido essencialmente para atender à doença depois de instalada torna-se progressivamente mais caro e menos eficiente. A política pública do futuro deve combinar prevenção, monitoramento de riscos, inteligência territorial e acompanhamento contínuo das populações.

A mesma ruptura ocorre na demografia. O Brasil poderia rever suas políticas públicas supondo a população jovem, crescente e concentrada nos grandes centros urbanos. A fecundidade caiu, a expectativa de vida aumentou e o envelhecimento tornou-se estrutural. A Organização das Nações Unidas identifica o crescimento populacional, o envelhecimento, a urbanização e a migração internacional como grandes forças de transformação do século XXI.

A inflexão demográfica, conforme demonstrado pelo 12º. Censo Demográfico e pelas estimativas e projeções populacionais do IBGE, pressupõe que algo ainda mais profundo ocorra, como a adoção de políticas públicas preditivas, direcionadas à população projetada. Ou seja, a antecipação de onde nascerão menos crianças, onde crescerá a população idosa, onde haverá escassez de trabalhadores, onde será necessário ampliar os serviços de cuidados, onde escolas poderão perder demanda e onde hospitais, transportes e equipamentos urbanos terão de ser reorganizados e reposicionados.

Da mesma forma, a emergência climática acrescenta uma variável que atravessa todas as demais. Eventos extremos não são mais acontecimentos excepcionais que podem ser tratados apenas como emergências. Secas, enchentes, ondas de calor, incêndios, deslizamentos e alterações na produção agrícola afetam simultaneamente saúde, habitação, mobilidade, energia, alimentação, emprego e migração. A própria OMS passou a tratar clima, saúde, migração e deslocamento como dimensões interligadas de uma mesma agenda. 

3.

No caso brasileiro, percebe-se como o território também está mudando. A economia já não pode ser compreendida apenas pela velha oposição entre metrópole industrial e interior agrícola. Novas atividades de serviços, logística, comércio, saúde, educação, tecnologia, turismo, administração e economia digital espalham-se pelo território em direção ao oeste. O interior deixa de ser apenas fornecedor de matérias-primas, abrigando novos polos de serviços e produção.

Essa transformação territorial exige esforços geocientíficos e estatísticas oficiais adicionais, capazes de acompanhar fluxos, não somente estoques. Onde as pessoas trabalham? Onde estudam? Onde buscam atendimento médico? Para onde se deslocam diariamente? Onde consomem? Onde estão as novas ocupações que se deslocam dos estabelecimentos para os domicílios? Quais municípios estão crescendo e quais estão perdendo população? Onde os efeitos climáticos produzirão deslocamentos?

A marcha da nova sociedade de serviços hiperconectada. Em 2025, por exemplo, 90,5% das pessoas de 10 anos ou mais no Brasil utilizaram a internet, enquanto 95% dos domicílios tinham acesso à rede. O cidadão digital produz rastros, movimentos, demandas e informações em velocidade inédita. Isso abre uma possibilidade extraordinária para o Estado transformar dados dispersos e provenientes de múltiplas fontes em capacidade de antecipação, por meio da integração, da interoperabilidade e do pareamento. Trata-se da passagem da estatística descritiva para a inteligência estatística preditiva, com o uso da Ciência de dados e da Inteligência artificial.

Não significa substituir as estatísticas oficiais por dados privados ou algoritmos. Ao contrário, trata-se de fortalecer o Estado reconfigurado para que possa integrar registros administrativos, censos, pesquisas amostrais, imagens de satélite, informações ambientais, dados territoriais e novas fontes digitais, sempre com proteção da privacidade, transparência metodológica e soberania nacional.

A inteligência artificial pode ser decisiva nesse processo. Mas uma Inteligência artificial sem estatística pública de qualidade apenas reproduzirá desigualdades, vieses e assimetrias existentes. O desafio não é entregar a administração pública aos algoritmos, mas dotar o Estado de capacidade própria para produzir, auditar e utilizar inteligência sobre a sociedade.

Isso significa passar do Estado reativo para o Estado preditivo, que utiliza evidências para identificar tendências, construir cenários, calcular riscos e antecipar decisões. Se uma determinada região envelhecer rapidamente, a política de cuidados deve ser planejada antes da explosão da demanda. Se determinado território estiver sujeito a eventos climáticos extremos, a infraestrutura precisa ser adaptada antes da tragédia. Se uma cidade perder crianças e jovens, sua rede educacional e urbana precisa ser redesenhada antes da ociosidade dos equipamentos. Se novas centralidades econômicas surgirem no interior, investimentos em conectividade, transporte e qualificação devem acompanhá-las. 

4.

A geociências e a estatística oficial precisam, portanto, dar um salto histórico: da condição de retrato para a de radar. O próprio IBGE vem trabalhando nessa direção ao incorporar mudanças climáticas, digitalização, novas fontes de dados e projeções demográficas ao planejamento democrático, transparente e participativo. Exemplo disso é o Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED) que parte da produção de novas informações que permitem apoiar decisões diante das transições tecnológicas, das mudanças climáticas, das transformações demográficas e dos riscos de novas pandemias.

A questão é maior do que a recuperação e modernização de uma instituição que passou pode tempo difíceis entre 2016 e 2022, com cinco presidentes em sete anos. Esta em curso a construção de uma nova arquitetura do Estado brasileiro que supere o velho Estado organizado em “caixinhas” (saúde, educação, trabalho, economia, agricultura, meio ambiente e habitação). A percepção e ação totalizante da realidade por parte do Estado não funciona mais estritamente em “caixinhas” especializadas.

Uma onda de calor, por exemplo, pode aumentar as doenças respiratórias, reduzir a produtividade, elevar a demanda por energia, afetar a agricultura e provocar deslocamentos populacionais simultaneamente. O el niño aponta nessa perspectiva, o que levou ao IBGE implementar o Singed Lab Desastres co o intuito de capacitar e preparar os gestores públicos e privados para prevenir, mitigar e responder a desastres ambientais e eventos climáticos extremos no Brasil.

O futuro exige políticas públicas capazes de enxergar todas as conexões possíveis. O próximo ciclo do planejamento brasileiro deve incorporar gêmeos digitais do território e da sociedade, sistemas de alerta precoce, projeções demográficas territorializadas, mapas de vulnerabilidade climática, modelos epidemiológicos, inteligência econômica regional e indicadores de bem-estar. Não para substituir a decisão política, mas para melhor qualificá-la.

O maior risco para o Brasil não é não possuir dados. É possuir dados sobre o passado quando o futuro já começou. A sociedade agrária exigiu do Estado a capacidade de contar, ao passo que a sociedade urbana e industrial exigiu capacidade de medir e acompanhar a evolução. A nova sociedade de serviços hiperconectada da era digital exige capacidade de antecipar.

Esse talvez seja o grande desafio dos próximos anos: construir um Estado que não espere a enchente para reconstruir, a doença para tratar, o envelhecimento para cuidar, o desemprego para qualificar, o esvaziamento de um município para agir ou a crise para formular políticas.

Governar o século XXI será cada vez menos administrar consequências e cada vez mais construir, com evidências, a realidade que queremos alcançar. O futuro não deve ser apenas projetado. Deve ser conhecido antes de acontecer para que a sociedade possa, democraticamente, escolher o futuro que deseja.

*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]

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Entrevista ou ato de campanha?

Para entender a arquitetura das entrevistas do Jornal Nacional
A saraivada de perguntas consumiu o tempo que poderia ser dedicado ao tema central desta eleição: a soberania brasileira.
Luís Nassif/Jornal GGN
      

Peça 1 – a arquitetura da entrevista da Globo

A entrevista de Lula ao Jornal Nacional precisa ser analisada menos pelas perguntas isoladas do que pela arquitetura do conjunto. Em uma sabatina de tempo limitado, cada minuto dedicado a um assunto retira espaço de outro. E a escolha editorial foi clara: abrir com o caso de Fábio Luís, insistir nas suspeitas de corrupção e empurrar o presidente para a defensiva. 

A operação editorial consistiu em apresentar Lula e Flávio como candidatos igualmente cercados pela corrupção. Não era necessário inocentar Flávio. Bastava reduzir a distância entre fatos de materialidade muito diferente. A repetição abusiva das perguntas sobre Fábio Luís – que chamou a atenção inclusive, de comentaristas da Globonews – cumpriu esse papel: colocou o presidente no mesmo enquadramento moral do adversário e transformou suspeitas de pesos distintos em imagens equivalentes para o telespectador.

Mas houve uma segunda consequência, tão importante quanto a primeira. A saraivada de perguntas consumiu o tempo que poderia ser dedicado ao tema central desta eleição: a soberania brasileira. 

Ficaram fora do debate as pressões dos Estados Unidos, a disputa pelas terras raras, a soberania digital, o papel dos BRICS, a política de reindustrialização, a proteção das empresas públicas e o risco de o país voltar à condição de fornecedor colonial de matérias-primas. Também não se discutiu o que significa uma candidatura associada à abertura irrestrita do patrimônio nacional e à subordinação da política externa brasileira a Washington.

Na prática, a entrevista não apenas tentou equiparar Lula a Flávio no quesito corrupção. Impediu que Lula levasse ao horário de maior audiência da televisão o contraste entre dois projetos de país: de um lado, a reconstrução de alguma autonomia nacional; de outro, a adesão a uma ordem geopolítica comandada pelos Estados Unidos.

Qualquer foca de redação saberia que o tema mais relevante é o das relações futuras com os Estados Unidos, principalmente agora, que Trump confiscou todas as reservas de petróleo da Venezuela. A diferença fundamental entre Lula e os Bolsonaro – além da submissão dos Bolsonaro ao crime organizado – é no tratamento da soberania nacional. E o tempo todo foi uma maratona de Lulinha para fugir ao tema Trump. 

Peça 2 – A vulnerabilidade dos grupos de mídia

Essa escolha não precisa resultar de uma ordem direta para produzir efeitos alinhados aos interesses de Washington. O problema é mais estrutural: os grupos brasileiros de comunicação tornaram-se vulneráveis a instrumentos de pressão controlados pelo Estado norte-americano.

Essa vulnerabilidade passa pelas plataformas digitais, pela publicidade programática, por fornecedores de tecnologia, nuvem e inteligência artificial, por transações em dólar, por direitos esportivos e culturais, por relações com empresas multinacionais e pelo alcance extraterritorial da Justiça dos Estados Unidos. Uma empresa de comunicação brasileira pode ter suas operações no país, mas depende de uma cadeia econômica e tecnológica submetida, em pontos decisivos, à jurisdição norte-americana.

O Departamento de Estado nem sequer precisa formular uma ameaça explícita. Uma reunião com executivos, uma audiência no Congresso dos Estados Unidos, uma carta de parlamentares, uma declaração de Marco Rubio, uma investigação da USTR ou uma consulta de compliance podem bastar para acionar departamentos jurídicos, anunciantes, bancos e plataformas. 

O mecanismo moderno de pressão não se apresenta necessariamente como censura. Aparece como gestão de risco. O anunciante suspende a campanha. A plataforma altera a distribuição. O banco eleva as exigências. O fornecedor tecnológico revê o contrato. Cada decisão parece privada e isolada; o efeito combinado produz alinhamento político sem que seja necessário deixar uma ordem escrita.

Os grandes grupos de mídia conhecem esse risco. Conhecem também o alcance da legislação norte-americana e o poder de investigações abertas em Nova York ou Washington. No julgamento do escândalo da Fifa, por exemplo, o delator Alejandro Burzaco afirmou sob juramento que Globo, Televisa e Torneos teriam participado de um pagamento de US$ 15 milhões a Julio Grondona relacionado a direitos de transmissão. A Globo negou irregularidades. Independentemente do desfecho, o episódio expôs como negócios globais de mídia podem cair sob a jurisdição e a capacidade de pressão dos Estados Unidos.

É nesse quadro que deve ser lida a cobertura eleitoral. Não é preciso afirmar, sem prova, que o Departamento de Estado determinou a pauta do Jornal Nacional. A questão relevante é outra: até que ponto empresas estruturalmente vulneráveis a Washington conseguem sustentar uma cobertura independente quando a eleição brasileira opõe autonomia nacional e alinhamento automático aos Estados Unidos? 

Peça 3 – O laboratório Cambridge Analytica

O terceiro elemento é o placar eleitoral. Uma vitória ampla, nas eleições, dificulta a contestação e reduz o espaço para operações de desestabilização. Uma eleição decidida por margem estreita, ao contrário, é o ambiente ideal para a guerra híbrida.

O Brexit mostrou a potência dessa combinação. O referendo britânico foi decidido por 51,9% a 48,1%. Em disputas assim, não é necessário convencer a maioria da sociedade. Basta identificar pequenos segmentos decisivos, descobrir seus medos e entregar a cada grupo a mensagem mais eficiente para mobilizá-lo, desanimá-lo ou afastá-lo das urnas.

Foi esse o salto representado pelo ecossistema da SCL e da Cambridge Analytica. A SCL vinha de uma tradição de operações psicológicas e comunicação estratégica. A SCL Elections foi constituída em 2012; a marca Cambridge Analytica, voltada ao mercado político norte-americano, surgiu em 2013. O bilionário Robert Mercer investiu cerca de US$ 15 milhões na estrutura, que teve Alexander Nix como executivo e Steve Bannon como dirigente e estrategista.

No livro “A Conspiração Lava Jato” descrevo em detalhes essas operações.[aqui

A base técnica combinava mineração de dados, psicometria e micro direcionamento. O aplicativo thisisyourdigitallife, de Aleksandr Kogan, foi usado para recolher informações de aproximadamente 270 mil usuários do Facebook e, pelas regras então vigentes da plataforma, alcançar dados de dezenas de milhões de contatos — número posteriormente estimado em até 87 milhões de perfis. O modelo OCEAN procurava inferir traços de personalidade e adaptar a propaganda às vulnerabilidades de cada eleitor.

No Brexit, a extensão exata do trabalho direto da Cambridge Analytica permanece controvertida. Mas o referendo revelou técnicas associadas ao mesmo ecossistema: uso intensivo de dados, anúncios obscuros visíveis apenas ao público-alvo, mensagens diferentes e até contraditórias para grupos distintos, exploração de ressentimentos locais e teste permanente de narrativas. A AggregateIQ, empresa canadense ligada ao universo tecnológico da SCL, trabalhou para a campanha oficial do Vote Leave

Depois veio a eleição de Donald Trump. A Cambridge Analytica, que antes atendera Ben Carson e Ted Cruz, passou a trabalhar para a campanha republicana vencedora. O escândalo posterior mostrou que a nova propaganda política não buscava apenas persuadir pelo debate público. Procurava conhecer individualmente o eleitor, atingir seus impulsos privados e produzir comportamentos sem que a sociedade enxergasse a campanha como um todo.

Esse é o risco brasileiro. Em uma eleição apertada, uma operação de influência precisa deslocar apenas uma pequena parcela do eleitorado. Pode fazê-lo por meio de vazamentos seletivos, falsos escândalos, vídeos produzidos por inteligência artificial, redes de bots, segmentação de mensagens, campanhas de desânimo e questionamento preventivo das urnas.

O objetivo pode ir além de eleger um candidato. Se o resultado for desfavorável, a mesma máquina servirá para negar legitimidade ao vencedor, estimular mobilizações, pressionar as Forças Armadas, atacar o Supremo e criar uma sensação de ingovernabilidade. A guerra híbrida trabalha antes, durante e depois da votação. 

Por isso, o enquadramento do Jornal Nacional não é apenas um episódio de parcialidade jornalística. Ele ajuda a construir o terreno psicológico em que uma operação mais ampla pode prosperar: equivalência moral entre candidaturas desiguais, retirada da soberania do centro do debate e preparação de uma disputa apertada, carregada de suspeitas e ressentimentos.

O Brexit ensinou que poucos pontos percentuais podem mudar o destino de um país por décadas. Cambridge Analytica ensinou que esses pontos podem ser perseguidos eleitor por eleitor, medo por medo, ressentimento por ressentimento.

O Brasil precisa aprender a lição antes da votação. A defesa da democracia não começa na urna. Começa na disputa pela informação, na transparência dos algoritmos, na proteção dos dados, na independência da imprensa e na capacidade de discutir, sem distrações fabricadas, o tema decisivo: quem decide o futuro do Brasil?

[Iustração: Charge de Aroeira captada no Ibstagram]

Guerra híbrida midiática https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/dica-de-leitura_0865126294.html