Receita para a saúde das inteligências artificias
A instalação de datacenters no Brasil revela a nuvem como cana-de-açúcar digital, repetindo a exportação colonial de recursos hídricos e energéticos
Ivan da Costa Marques/A Terra é Redonda
A inauguração da Inteligência artificial em larga escala é relativamente recente. Mas ela já demonstrou sua utilidade e consequente atratividade para um amplo espectro de tarefas e ocupações associadas aos padrões cotidianos da vida moderna. Provavelmente o/a leitor/a já verificou pessoalmente a surpreendente capacidade da Inteligência artificial de executar autônoma ou interativamente, de maneira surpreendentemente satisfatória, tarefas às vezes não tão simples sobre textos, áudios e imagens.
Isso justifica amplas expectativas e fundamenta afirmar que a Inteligência artificial, que é “mais do que uma e menos do que muitas”,[i] modificará os modos de ver, saber e viver, sendo uma tecnologia tão ou mais disruptiva quanto a luz elétrica.
Dito isso, as Inteligências artificiais podem também se fazer acompanhar de grandes problemas. Para tratá-los aqui brevemente, como não poderia deixar de ser, sigo o conselho atribuído a Friedrich Nietsche de tratar os grandes problemas como um banho frio, isto é, “entrar e sair deles rapidamente”. Em nosso bom português, “dar um banho frio” significa também desiludir, frustrar, decepcionar ou interromper expectativas otimistas. Um choque frio e cortante pode reduzir o calor do entusiasmo.
Primeiro banho frio – a queda do céu
“A queda do céu” não é uma profecia ancestral: é a chegada dos datacenters ao solo brasileiro. A nuvem, que parecia etérea, revela-se feita de água e energia – recursos que o país exporta como sempre fez. Datacenters são a nova cana-de-açúcar, um ciclo colonial que se repete.
Os jornais diários alertam para incertezas na produção e uso das Inteligências artificiais. Não se trata aqui das incertezas das capacidades futuras esperadas para as Inteligências artificiais no que tange às suas “inteligências”, mas de algo bem menos indefinido, as incertezas quanto à quantidade de energia elétrica e água necessária para a sua produção e uso. Essa incerteza não estava posta no período neonatal da Inteligência artificial, mas entrou em cena na fase infantil para tornar-se crucial no que veio a ser a atual adolescência das Inteligências artificiais.
Mundo afora, coletivos de coisas e pessoas despertam para o problema uma vez que, tal como geralmente acontece com problemas ecológicos, são milhões de coisas e pessoas que são afetadas para alimentar esses novos entes adolescentes. Projeta-se que já em 2030 a energia que alimenta a Inteligência artificial equivalerá ao consumo de energia do Japão.[ii] Para o público geral até bem pouco tempo localizadas “na nuvem”, as Inteligências artificiais repentinamente caíram do céu em uma chuva de datacenters.
Especulações sérias sobre a capacidade do planeta de alimentar as Inteligências artificiais quando se tornarem adultas geram expectativas, preocupações e reações diversas. As Inteligências artificiais sorveriam toda a água do planeta, mas a supremacia de pequenos grupos aliada à fé no progresso tecnocientífico sanciona investimentos gigantescos numa competição desenfreada, tanto pelo hardware quanto pela energia, pela água e pelo software, para criar e processar os algoritmos da Inteligência artificiail.
Tal como costuma acontecer, os comportamentos e as providências decorrentes do crescimento das Inteligências artificiais variam, mas os padrões históricos começam a se delinear. Enquanto Nova York proíbe a construção de datacenters em seu território, o Rio de Janeiro a incentiva. No Brasil chega-se a alardear que quantidades de água e energia potencialmente disponíveis sejam uma “vantagem comparativa” na corrida para receber datacenters.
Os estamentos que dirigem o Brasil parecem acomodados na repetição do papel do Brasil colônia, desconsiderando que instalar datacenters sob controle estrangeiro em nosso território é a repetição do modelo de inserção internacional do Brasil como exportador de matérias primas.
Segundo banho frio – eficiência sob disputa democrática
“Eficiência sob disputa democrática” não é uma constatação: é uma exigência prática. A queda de 70% dos postos de trabalho não é um número neutro, é uma contabilidade que já define quem ganha e quem perde. Sem questionar técnica e politicamente os limites e o escopo dessa contabilidade, “eficiência” será apenas um nome elegante para violência, sofrimento e concentração de renda.
Uma parte do potencial disruptivo das Inteligências artificiais se concretiza na capacidade de executar tarefas antes reservadas aos humanos. A racionalidade empresarial, guiada pela lucratividade, traduz, formaliza e contabiliza esse potencial disruptivo como oportunidades de irresistíveis “ganhos de eficiência”.
A partir dos números que circulam nos meios empresariais, não é um devaneio otimista ou alarmista imaginar que, no prazo de poucos anos, as Inteligências artificiais viabilizem uma queda de 70% no número de trabalhadores, qualquer que seja a denominação que designe os humanos executores de tarefas, qual seja de empregados, colaboradores, parceiros, PJs (empresas individuais) etc. Por exemplo, as tarefas hoje feitas por dez pessoas escreventes nos tabelionatos e escritórios de advocacia poderão ser feitas por três delas (retreinadas), deslocando sete em cada dez humanos nesta vasta categoria de trabalhadores.
Por outro lado, alertas sobre a possibilidade dessa disrupção trazida pela Inteligência artificial têm vindo de diversas origens. As inovações “técnicas” podem ter, e geralmente têm, ritmos muito diferentes das inovações “sociotécnicas”. As Inteligências artificiais aprendem a realizar tarefas mais complexas em ritmo que pode ser muito mais rápido do que os ritmos de adaptação das sociedades às mudanças que as Inteligências artificiais disponibilizam.
A Inteligência artificial pode assim tornar-se uma grande ameaça de desorganização da vida cotidiana. Especialmente visíveis são os diferentes graus de sofrimento e violência que os avanços na dispensa de humanos podem acarretar, conforme as resistências às regulamentações do uso das Inteligências artificiais nas empresas e demais instituições.
Estando no Brasil, é importante ressaltar que o ritmo de adaptação de absorção deste tipo de disrupção trazida pelas Inteligências artificiais variará conforme o estado, a região, e mesmo a cidade. Dadas as configurações educacionais, sociopolíticas e econômicas vigentes no país, haverá mobilização empresarial para deixar que esse ritmo seja um resultado “espontâneo” das vivências dos mercados.
Isso será tão mais tentador também face ao desafio de pôr em prática uma regulamentação que necessitaria ser capilarizada e evolutiva até o nível de estados e municípios para minimizar sofrimento e violência, o que soa como uma utopia chinesa aos ouvidos dos estamentos que governam nosso país.
Para administrar a violência, o sofrimento, e a concentração de renda decorrentes da utilização das Inteligências artificiais, uma discussão que sempre esteve no horizonte deveria tornar-se central: a contabilidade que define “eficiência”. O que as Inteligências artificiais descortinam é a necessidade de coletivos de humanos e coisas se delimitem e se reúnam para democraticamente discutir o escopo da contabilidade que define, caso a caso, a eficiência na utilização de uma Inteligência artificial: quem ganha e quem perde, onde, quando e o quê?
Terceiro banho frio – uma ameaça existencial à humanidade
A Inteligência artificial aprende, mas os especialistas não sabem exatamente como. A potência da Inteligência artificial nasce de duas condições: uma fabulosa capacidade de processamento sobre uma fabulosa quantidade de dados curados. Entre a ameaça existencial à humanidade, temida pelo padrinho da Inteligência artificial, e a multiplicidade potencialmente democrática de muitas inteligências, sugerida pela madrinha da Inteligência artificial, o que nos falta é compreensão.
O desenvolvimento da Inteligência artificial nos EUA remonta à década de 1970, mas a aposta no modelo das “redes neurais” inspiradas nas sinapses do cérebro só frutificou a partir da satisfação de duas condições: (i) a construção de uma maquinaria de computação com uma capacidade de processar um número antes insonhável de bits; e (ii) a capacidade de oferecer a essa maquinaria de computação uma quantidade antes insonhável de data, isto é, bits que passaram por uma curadoria.
A primeira condição foi atingida gradativamente, embora muito rapidamente em tempos históricos, pelos avanços da microeletrônica e do software nas últimas décadas do século XX. Foi quando alguns pesquisadores empenhados na criação das Inteligências artificiais se deram conta de que aquela capacidade fabulosa de processamento de bits precisaria de uma quantidade fabulosa de data para ser efetivamente aproveitada para desenvolvimento da Inteligência artificial. E de que esta quantidade fabulosa de data ainda não existia.
A segunda condição foi então satisfeita na primeira década do século XXI a partir de um projeto específico denominado ImageNet executado de 2006 a 2009. Este projeto recrutou milhares de trabalhadores pobres em diversos países, com destaque para a Índia, para construir uma fabulosa quantidade de data na forma de imagens curadas. Por exemplo, um trabalhador humano qualificava (“curava”) uma imagem resolvendo uma dubiedade entre ela representar uma placa de trânsito ou uma lixeira urbana.
Foram produzidas então milhões de imagens de placas de trânsito e de lixeiras urbanas, como material ofertado à Inteligência artificial. Essa fabulosa massa de dados serviu para que a Inteligência artificial aprendesse a distinguir placas de trânsito de lixeiras urbanas com uma confiabilidade em tudo semelhante à confiabilidade dos humanos na execução desta tarefa.
É, contudo, pelo pouco entendimento de como as redes neurais aprendem que a Inteligência artificial se torna uma ferramenta sui generis e hipoteticamente muito perigosa, enxergada até mesmo como uma “ameaça existencial à humanidade”. Os próprios criadores não sabem precisamente como a Inteligência artificial aprende.
Alguns notórios especialistas acreditam na possibilidade de comportamentos autônomos da Inteligência artificial que poderiam levar ao surgimento de uma super Inteligência artificial autônoma superior à inteligência humana e, portanto, de controle extremamente problemático ou mesmo impossível. Adquirindo autonomia essa super IA poderia tornar a espécie humana irrelevante ou mesmo destruí-la.
Essa hipótese tem um sabor de ficção científica paranoica, mas talvez o mais surpreendente seja que ela é compartilhada, ou pelos menos não é rejeitada, por diversos especialistas líderes da Inteligência artificial, entre eles aquele que é conhecido como “o padrinho da Inteligência artificial”, Geoffrey Hinton, laureado com o Nobel em 2022. Após sair amigavelmente do Google onde chefiou a Inteligência artificial por 10 anos, Geoffrey Hinton tornou-se um militante para alertar a população dos perigos que acompanham a Inteligência artificial, inclusive uma “ameaça existencial à humanidade”, segundo ele o maior dentre todos os perigos que ele aponta, desemprego, crimes, manipulação de eleições etc.
Já Feifei Li, pesquisadora de Stanford, idealizadora e executora do decisivo projeto ImageNet, conhecida como “a madrinha da Inteligência artificial”, sugere uma multiplicidade de inteligências ao dizer que “os aviões voam, mas não voam como os pássaros”. Ela está, contudo, tão preocupada com o controle da Inteligência artificial que afirma que “liderar o avanço de uma Inteligência artificial democrática” é o propósito de sua vida.
Há algo de uma escolha um tanto arbitrária de palavras que “colou” na nomeação desses processamentos de informação como “inteligências artificiais”. Se em português houvesse o verbo “inteligenciar” para referenciar essas vivências muito amplas, diversas e indefinidas, ecoaríamos Fefei Li dizendo que “as Inteligências artificiais ‘inteligenciam’, mas não ‘inteligenciam’ como nós”.
Restaria algo a acrescentar à saída deste banho frio e talvez esse acréscimo deveria ter vir como o mais importante na busca de um caminho “seguro” para impedir o pânico advindo da possibilidade faustiana de uma Inteligência artificial autônoma: os elementos geopolíticos do presente encontro ou desencontro face a face dos EUA com a China.
Na doutrina que rege a política externa dos EUA frente às outras superpotências, os EUA não podem controlar o desenvolvimento da Inteligência artificial porque ao fazer isso correriam maior risco de serem ultrapassados na competição política-econômica-militar com a China. Esse “realismo ofensivo” determina a temperatura da água deste banho.[iii]
Quarto banho frio – não existe inteligência sem aprendizado
Não existe inteligência sem aprendizado, mas o mercado repete o padrão colonial: as inovações chegam de fora e se instalam casando interesses dos colonizadores com interesses locais subordinados, perpetuando o Brasil colônia. Ganha força a ideia de que brasileiros somos incapazes de moldar o caráter das Inteligências artificiais, naturalizando a dependência e delegando a criação a círculos estrangeiros. Para romper essa condição, seria preciso décadas de parcerias e esforço contínuo defendendo o código aberto e impregnando as máquinas de “brasileirismos”.
Pensemos agora na procissão numerosa de “inovações” trazidas às terras do Brasil por obra de nossos colonizadores: não só coisas que vão de espelhos a celulares, mas também práticas ∕ instituições ∕ agentes organizativos, tais como o fordismo-taylorismo, sociedades anônimas, P.I.B., estado nação etc. e ainda outros entes, agentes cognitivos solidamente estabilizados na modernidade euro-americana, tais como a lei da gravidade, campos eletromagnéticos, partículas, vírus, democracia etc.
A Inteligência artificial também veio de fora dos Brasis como uma rede mais recente de elementos heterogêneos, em fase de configuração de suas formas locais nessa procissão de “inovações” que vieram e vão chegando aos Brasis instalando-se em graus e com intensidades diferentes conforme o casamento dos interesses locais com os de nossos colonizadores.
Os elementos heterogêneos, sociotécnicos, das Inteligências artificiais se justapõem em processos de conformação de mercados. De um lado (a) as ofertas de capital, capacidade empresarial e industrial, trabalho qualificado, e trabalho repetitivo mal remunerado; de outro lado (b) as demandas pelas facilidades que as Inteligências artificiais propiciam para a execução de tarefas, especialmente as tarefas atualmente executadas por humanos.
A disrupção da Inteligência artificial, contudo, pode ir muito além das questões classificadas como de trabalho, emprego, produção, renda, consumo etc., categorias mais nitidamente delimitadas e familiares aos discursos analíticos sobre a formação dos mercados. Mas podemos focalizar a disrupção partindo não mais do que a Inteligência artificial pode fazer para nós, mas sim do que a Inteligência artificial pode fazer de nós.
Brasileiras e brasileiros, o que podemos fazer diante desta desconhecida que aqui nos chega de fora, mas sem sair de fora, instituindo um panóptico global de observação e de ação sob controle de pouquíssimos indivíduos que não estão aqui?
Há um forte lobby que surfa nos entusiasmos que a Inteligência artificial provoca. Esse lobby circula e reforça a propensão a que os coletivos brasileiros usem a Inteligência artificial sem moldar a seu caráter. Esse imediatismo ignora as possibilidades locais de moldar o caráter da Inteligência artificial ou enxerga essas possiblidades como inalcançáveis, dadas as que seriam ou são as limitações educacionais, sociotécnicas e econômicas do nosso país.
Nos caminhos indicados por esse lobby, a criação e aprendizagem das Inteligências artificiais devem ficar circunscritas aos círculos profissionais de certos países, já tendo sido cogitada uma proposta de um acordo internacional para que a criação e desenvolvimento de Inteligências artificiais sejam controlados de forma semelhante ao controle do desenvolvimento de armas nucleares.
Se assim for, não só as questões do trabalho, mas de todo o caráter das Inteligências artificiais envolvendo posições ético-políticas (novos crimes, comportamento antiético, reforço de preconceitos, conteúdo tóxico etc.) devem ser tratadas pelas empresas ou por comitês de empresas em que os interesses privados dos overlords do mundo das Inteligências artificiais têm presença privilegiada. Veja-se, por exemplo, a evolução da posição de Sam Altman ou do veterano Bill Gates sobre isso.
Os Brasis certamente não poderão deixar de traduzir ∕ trair ∕ transladar / receber ∕ desenvolver as Inteligências artificiais em sua imensa diversidade territorial, cultural, econômica, técnica e política. Para quem espera previsões mais gerais só posso afirmar que é muito cedo para dizer o que as Inteligências artificiais farão para os brasileiros e o que elas farão dos brasileiros, embora isso não esteja determinado e dependerá em boa parte das reações dos próprios brasileiros e das de nossos colonizadores.
A capacidade de aproveitamento-cópia, sempre parcial, pelo estado-nação Brasil das inovações oriundas de seus colonizadores tem seus próprios ritmos. Decorreram mais de cem anos desde a invenção da lâmpada elétrica para que o programa Luz para Todos lograsse absorver essa outra inovação disruptiva em benefício de (ainda quase) todos. Um exemplo que bem ilustra nossas dificuldades de traduzir ∕ trair ∕ transladar / receber ∕ desenvolver e situar as inovações disruptivas que vêm de fora em benefício de toda a população brasileira.
Em 2025, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) substituiu a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA) de 2021, sugerindo o aporte de R$ 23 bilhões em quatro anos para pesquisa e desenvolvimento de Inteligências artificiais no Brasil. O montante indicado é substancial e comparável aos de países europeus. Um “plano brasileiro de inteligência artificial”, contudo, não poderia contemplar períodos eleitorais de quatro anos e reconhecer que seriam necessárias décadas de esforços contínuos para que houvesse capacidade local de moldar o caráter de Inteligências artificiais que, estas sim, poderiam estar impregnadas dos “brasileirismos” e, portanto, nossas culturas.
Um plano brasileiro precisaria ir muito além das políticas pontuais de incentivos para indicar e perseguir modificações nas instituições de ensino e nas legislações da propriedade intelectual, para mencionar somente duas das imensas tarefas que teriam que ser incluídas em tal plano.
No bojo dessas tarefas estaria o Estado brasileiro, em seu próprio proveito, defender enfaticamente o código aberto (“open source”) dos algoritmos de Inteligências artificiais. O código aberto traz oportunidades de apropriações legais de resultados que poderiam economizar recursos e tempo no caminho para a criação de Inteligências artificiais de caráteres brasileiros. Além disso, seria planejar atuar em parcerias com outros países, indo além de apostar em parcerias com as BigTechs preocupadas em criar e cercar o caráter das Inteligências artificiais em íntima aliança com os capitalismos tardios e os interesses geopolíticos de Washington.
Os quatro banhos frios apresentam quatro zonas de contato entre questões de Inteligência artificial e questões (i) climáticas, (ii) de bem-viver, (iii) existenciais e (iv) de autonomia. Essas zonas de contato não são estanques. Pelo contrário, elas se justapõem, se interpõem, se interpenetram e isto precisa ser reconhecido para que tenhamos nossas Inteligências artificiais saudáveis, isto é, de bom caráter.
A não tão enigmática superação do Brasil colônia (ou da colonialidade brasileira, uma vez que Brasil colônia tornou-se um período da historiografia acadêmica) requer partir para o tratamento situado e entrelaçado dessas questões como atores relacionais que fazem inscrições em nossos modos de ver, saber e viver, atuando inseparável e simultaneamente nas linguagens, nas coisas e nos humanos entre si.
Uma vez dada essa partida situada e entrelaçada, todo conhecimento dos colonizadores, se não deve ser sumariamente rejeitado, nunca poderá ser prontamente aceito pelo seu valor de face.
*Ivan da Costa Marques é professor do Programa de pós-graduação de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia (HCTE) da UFRJ. Autor do livro Brasil: abertura dos mercados (Contraponto). [https://amzn.to/3TFJnL5]
Publicado originalmente nos anais do IX Seminário de História da Informática na América Latina e Caribe (SHIALC), Rio de Janeiro, 2026.
Notas
[i] Para usar a expressão do sociólogo inglês John Law.
[ii] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Energy and AI – World Energy Outlook Special Report (2025) Disponível em https://www.iea.org/reports/energy-and-ai.
[iii] (MEARSHEIMER, 2001). (MEARSHEIMER, 2007) John Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, é talvez o mais influente intelectual no que concerne as relações entre as superpotências.
Guerra híbrida midiática https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/dica-de-leitura_0865126294.html