30 junho 2026

Palavra de poeta

Perda
Geraldino Brasil 

Hoje me acordei tarde.
Perdi o frio
de quem desperta cedo
e pode dormir mais.

Perdi o sol que saiu
da moldura da janela

Perdi o canto do pássaro
da manhã na árvore.

Para sempre o perdi.

[Ilustração: Marcos Guinoza]

Leia também: Meu pardal amigo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2010/12/cronica-em-minha-coluna-semanal-no.html 

Quem defende o quê?

As críticas ao programa Bolsa Família
A tentativa de deslegitimar programas sociais serve como cortina de fumaça para ocultar os reais obstáculos ao crescimento, como a política de juros que asfixia investimentos
Roberto Vital Anav*/A Terra é Redonda    


1.

Recentemente, um animador de programas de TV, com grande audiência – que chegou a cogitar lançar-se à Presidência da República – afirmou, durante o 5º. Fórum Esfera no Guarujá (SP), que o Programa Bolsa Família falha em gerar estímulo para que as famílias superem a pobreza e que os beneficiários criariam “atalhos” para continuar recebendo o benefício.

A declaração repercutiu na mídia e nas redes sociais, reacendendo antiga polêmica. Esta se prolonga desde a criação do Programa há mais de duas décadas. O debate, no início, era normal, em vista da novidade do programa e das visões filosóficas e programáticas diversas existentes sobre o combate à pobreza extrema. Na atualidade, dados abundantes permitem sair do terreno genérico, do aplauso acrítico e do ataque meramente opinativo para a avaliação fundamentada.

Alguém com a responsabilidade de exercer influência sobre milhões de telespectadores, ainda mais tendo cogitado disputar a gestão presidencial, tem obrigatoriamente que dominar as numerosas informações existentes para avaliar um programa já consolidado há tempo.

No entanto, a fala de Luciano Huck não demonstrou qualquer conhecimento de fartos dados disponíveis. O que se ouviu foram apenas opiniões baseadas em preconceitos arraigados em amplos segmentos da elite social brasileira contra os mais pobres – infelizmente, repetidos por parcela expressiva da classe média que gosta de espelhar-se na tosca burguesia brasileira.

Teria sido muito fácil ao apresentador, até valendo-se de seus numerosos auxiliares, coletar dados e informações disponíveis a qualquer cidadão com interesse em informar-se sobre as políticas públicas existentes no Brasil. Um exemplo recente é o estudo “Filhos do Bolsa Família”, realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), órgão acadêmico e de pesquisas de grande prestígio e respeitabilidade, para o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.

Em breve síntese, o estudo demonstrou que mais de 60% dos beneficiários de 2014 deixaram o programa até 2025. A razão foi a conquista de melhores fontes de renda e, portanto, o abandono da condição precária que habilita ao programa. A saída foi mais elevada para os que eram adolescentes em 2014: 68,8% na faixa de 11–14 anos e 71,3% na faixa de 15–17 anos. Também se constatou a saída expressiva do Cadastro Único e aumento da inserção no mercado formal, o que indica maior autonomia e mobilidade socioeconômica por parte desses beneficiários.

Por outro lado, fatores geoeconômicos (regiões com atividades econômicas mais e menos dinâmicas), nível escolar da família, etnia, gênero, condições de moradia, continuam a diferenciar os resultados, tornando o programa ainda essencial para aqueles mais prejudicados pelos atributos citados. Ou seja, a um só tempo, observa-se o efeito positivo e os desafios que ainda devem ser enfrentados para atingirmos melhores resultados.

O que não se observa no estudo é justamente a estagnação generalizada na pobreza, atribuída por Luciano Huck e muitos dos críticos do programa. 

2.

Nota-se, em muitas críticas, o inconformismo com o fato de muitos beneficiários recusarem trabalhos que pagam salários irrisórios, uma vez que já recebem baixos valores pelo programa e não teriam vantagem financeira significativa na troca. O que essas críticas indicam é um mecanismo auto revelador sobre seus autores: a sombra persistente do escravagismo, do qual fomos um dos últimos países a sair. Segundo esses críticos, os cidadãos muito pobres deveriam expressar gratidão a quem lhes oferecesse o equivalente a um prato de comida em troca de trabalho exaustivo.

Não cogitam, os inconformados críticos, de testar se ofertas mais compensadoras de remuneração e jornada não gerariam outra atitude. O resultado apurado pelo estudo da FGV permite afirmar que sim, ao menos em grande parte dos casos. O programa torna as pessoas um pouco (muito pouco, na verdade), mais seletivas, recusando salários de fome. Mas isso, para pessoas presas à mentalidade de que os pobres só merecem esmola ou trabalho semiescravo, seria um privilégio inaceitável.

Ocorre também um efeito completamente desconsiderado pelos mesmos críticos, embora simples de entender. O PBF ativa o consumo das famílias beneficiárias. O consumo amplia a demanda e com ela, a produção e o emprego. Em certas regiões do país, economias de microrregiões e até mesorregiões são fortemente influenciadas pelos beneficiários do programa. Porém, mesmo em localidades mais distantes o efeito acaba chegando sobre a produção de bens populares (agrícolas e industriais), além do comércio.

Um dado mais atualizado permite agregar percepções adicionais sobre o efeito benéfico do PBF. O Brasil atingiu, pela primeira vez na sua história, o nível muito alto de desenvolvimento humano, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Ultrapassamos, finalmente, o limite de 0,8 para o Índice de Desenvolvimento Humano, patamar que caracteriza os países desse nível mais elevado. E o PBF tem forte influência nessa conquista.

A economista Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do escritório do PNUD no Brasil, que participou da elaboração da pesquisa, afirmou: “Quando a gente desagrega os dados por décimo de renda, ou seja, os 10% mais pobres, depois os 20% mais pobres, [onde há maior] importância desses programas: nesses décimos de renda é onde você vê a melhoria dos indicadores de educação, nesse período”. “É o programa Bolsa Família que retira uma quantidade enorme de crianças do mundo do trabalho e dá a elas a condição da escola –e a obrigatoriedade, também, de estar na escola, porque senão esse programa é interrompido”. (UOL, 26/5/26) 

3.

Registre-se que aqui também, nos dados do IDH, verifica-se tanto o efeito benéfico do PBF e de outras políticas públicas – em especial, o SUS -, quanto os desafios que permanecem, para atingirmos efetivamente patamares mais desenvolvidos.

O IDH possui três componentes: longevidade – resultado direto das condições de saúde da população –, educação e renda. O primeiro é o mais elevado dos três; sofreu forte queda na pandemia, mas voltou a se recuperar. Com todas as dificuldades do SUS, alvo de persistente desfinanciamento, com maior intensidade nos mandatos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, é notável como evoluiu a expectativa de vida dos brasileiros ao longo deste período de existência de um dos maiores programas públicos de saúde do mundo.

Nos últimos anos, a educação teve papel de maior liderança no crescimento do IDH. Enquanto isso, a renda tem sido o fator de inércia: não cresceu no período pós-impeachment e voltou a crescer, porém lentamente, desde a saída da pandemia.

Este último fator (renda) possui raízes mais profundas nos desafios que o Brasil luta para enfrentar, ainda com resultados insuficientes. A desindustrialização e a concentração em atividades de baixo valor agregado – apesar do acervo de pesquisadores científicos e centros de pesquisas, universidades etc. –, evidencia que a perda de diversidade e complexidade econômica tem pesado muito na estagnação ou evolução muito lenta da renda. Em todo caso, trata-se de questões desvinculadas do suposto “problema” de programas sociais como o Bolsa Família.

Talvez, uma reflexão menos preconceituosa e mais disposta a encarar e sugerir respostas aos verdadeiros desafios existentes pudesse trazer mais luz ao debate. Problemas reais, como a baixa renda decorrente de uma economia reprimarizada, um sistema de saúde subfinanciado (embora parcialmente recuperado a partir de 2023) e a incontestável necessidade de elevar em muitos graus a qualidade do ensino público básico, além de alcançar a universalização do ensino médio, devem ser amplamente debatidos.

Eles envolvem todo um conjunto de temas, a começar pela política monetária que asfixia o investimento público (motor do crescimento econômico brasileiro ao longo do século XX) e o próprio orçamento público, afetando as políticas sociais. O que requer refutar cabalmente o falso (para nossa situação) argumento de que o combate à inflação requer taxas astronômicas de juros. Ao contrário, elas deprimem a demanda e desestimulam a produção e o investimento, além de sobrecarregar a dívida pública.

Dessa forma, gera-se perverso círculo vicioso argumentativo: exige-se cortar os gastos sociais para baixar a dívida, mantendo intacto o dreno dos impostos pagos pela sociedade para beneficiar a oligarquia financeira parasitária, com lucros do financiamento da mesma dívida, sem contribuir em um centavo para a produção de bens e serviços. E aí, a crítica sem fundamento a um dos maiores programas assistenciais do mundo serve de instrumento auxiliar dessa estratégia regressiva e antipopular.

Infelizmente, não parece nada realista esperar postura não preconceituosa e aberta aos problemas reais, por parte do ex-quase candidato a Presidente do Brasil e aos (infelizmente, muitos) que opinam infundadamente sobre tema tão relevante ao país.

*Roberto Vital Anav, economista, é pós-doutorado em história econômica pela Universidade de São Paulo (USP).

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O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

Humor de resistência

 

Aroeira

Leia também: A Copa do Mundo é deles https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/copa-respingada-de-lama.html 

Editorial do 'Vermelho'

PCdoB propõe nova arrancada para o desenvolvimento
Propostas do PCdoB à campanha de Lula apontam que é hora de projetar o futuro de desenvolvimento soberano, democracia forte, valorização do trabalho e vida digna ao povo
Editorial/Vermelho   

Um conjunto de propostas intitulado Contribuição ao programa de campanha Lula presidente 2026 – rumos soberanos para uma nova arrancada do desenvolvimento resume o pensamento do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) para um eventual próximo governo progressista, prática que remonta às eleições de 1989 quando a esquerda se uniu na Frente Brasil Popular (PT, PSB e PCdoB), na primeira eleição presidencial depois da ditadura militar. Desde então, em todas as campanhas de Lula os comunistas apresentaram as suas propostas.

O documento atual indica que o êxito do atual governo é uma base sólida para o Brasil avançar. Diagnostica que o propósito de reconstrução nacional foi exitoso, tarefa proposta diante do cenário de terra arrasada deixado pelos governos da direita e extrema-direita, liderados por Michel Temer e Jair Bolsonaro.

O país estava “profundamente fragilizado por uma fase regressiva”, afirma. “Nesse período, o Estado nacional sofreu um desmonte sem precedentes”, diz o texto, citando os exemplos da emenda do teto de gastos, a “autonomia” do Banco Central, a reforma trabalhista, o enfraquecimento do BNDES e da Petrobras, e a tentativa golpista de 8 de janeiro de 2023. Destaca também que o modelo de crescimento econômico atual é insuficiente e aproxima de seus limites. “Os incrementos econômicos e sociais seguem condicionados pelo regime macroeconômico vigente”, afirma. Frisa também que o regime fiscal garroteia o Estado e sufoca investimentos e políticas públicas.

De fato, o crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro entre 2002 e 2026 gira em torno de 2,1% a 2,2%, taxas consideradas muito aquém das necessidades e potencialidades do país. Um dos obstáculos que trava o enorme potencial de desenvolvimento do país é a elevada taxa básica de juros, a Selic, uma bola de chumbo atada ao tornozelo da produção imposta pela “ortodoxia” neoliberal do Banco Central “independente”, que gera exclusão social e baixa taxa de investimentos, medida pela Formação Bruta de Capital Fixo em relação ao PIB, desde 2014 estagnada entre 15% e 17%, depois de uma fase de alta, impulsionada pela expansão do crédito e grandes obras de infraestrutura. Daí que o documento aponta um conjunto de diretrizes para elevar a taxa de investimentos para dinamizar o crescimento.

O Brasil precisa de uma taxa de crescimento contínua, sustentável, condizente com o seu potencial, para prosseguir com a redução da pobreza. “O princípio orientador consiste em articular os objetivos de produtividade e competitividade com a melhoria efetiva das condições de vida da população”, afirma o documento. Inclusive com a ampliação de conquistas para os trabalhadores, como a atualização da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para abarcar amplas modalidades de trabalho.

O PCdoB propõe que, para abrir esse ciclo, é preciso superar obstáculos e vulnerabilidades, sobretudo o regime macroeconômico, formado pelo tripé que estabelece a arbitrária meta de inflação, atualmente em 3% ao ano, usada como pretexto para a imposição de juros elevados pelo Banco Central; câmbio flutuante, que gera incerteza para o comércio exterior e pressão inflacionária em caso de desvalorização da moeda nacional por ataques especulativos; e superávit primário, uma brutal transferência de recursos públicos destinados a gastos financeiros. O documento sublinha que a política de juros altos resulta em transferir “cerca de um trilhão de reais ao ano em recursos públicos para uma parcela reduzida da sociedade e para especuladores estrangeiros, ampliando a concentração de renda e poder.”

O rol de medidas proposto pelo documento para adequar o regime de política monetária para que a taxa básica de juros seja reduzida substancialmente inclui a ampliação do intervalo e prazo de cumprimento das metas de inflação e exclusão dos componentes mais voláteis do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O fomento ao pleno emprego e a volta da soberania do voto popular sobre a condução do Banco Central, que deve ser reintegrado à estrutura do Estado nacional, também precisam ser prioritários, afirma.

Outro ponto de destaque é a segurança pública, “que acomete, sobretudo, as classes populares”. “O rumo é fortalecer a Política Nacional de Segurança Pública assentada na constitucionalização e gestão eficaz de um Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), com revisão e regulamentação dos deveres e competências dos entes federativos e dotação orçamentária para um Ministério próprio da área.”

Segundo o documento, o debate sobre reformas estruturais democráticas do Estado nacional é uma exigência que deve avançar no âmbito do governo e da sociedade. “Realizada a reconstrução institucional democrática e a recuperado do desmonte de políticas públicas econômicas e sociais, o próximo governo cria terreno para reunir forças e desencadear uma nova fase de crescimento econômico para levar a nação a um novo patamar civilizatório”, afirma.

O documento do PCdoB indica três vértices: um plano nacional de desenvolvimento que estabeleça, entre outras medidas, metas de crescimento econômico, mecanismos de financiamento e aperfeiçoamentos regulatórios; uma política sistêmica de reconfiguração produtiva e tecnológica; e a reindustrialização do país com a Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), “o principal fator de transformação produtiva nas economias contemporâneas”, além de ser indispensável à soberania nacional.

Esses pressupostos, de acordo com texto, têm como núcleo “o papel estratégico do Estado nacional como agente de investimento, indução, planejamento e coordenação do desenvolvimento econômico, articulado com o aprofundamento democrático e a valorização do trabalho como motores do progresso”.

Ressalta também “o contexto geopolítico de transição para uma ordem internacional multipolar”. “Nesse cenário, os interesses estratégicos do Brasil tornam-se objeto de disputas crescentes, em razão de sua relevância regional, de seu protagonismo nos BRICS + e de sua inserção ativa nas articulações do Sul Global.”

Alerta que, em “resposta ao seu declínio relativo, o imperialismo estadunidense amplia sua pressão sobre a América Latina e outras regiões, buscando preservar sua posição dominante.” Ofensiva que ficou evidente na ingerência incisiva nas eleições presidenciais da Colômbia e também em outros países, como no Peru. E que já está um curso nas eleições do Brasil e tende a escalar

Todavia, o PCdoB interpreta que foram abertas oportunidades “pela emergência de novas coalizões no Sul Global, capazes de ampliar as alternativas de inserção internacional do Brasil e contribuir para a superação de sua situação semiperiférica nas cadeias globais de valor.”

Dessa leitura, indica-se que “o Brasil precisa consolidar um projeto soberano que lhe permita alcançar o status de pleno desenvolvimento, afirmar seus interesses nacionais, reduzir vulnerabilidades, retomar o fortalecimento da integração regional sul-americana. Enfim, fortalecer sua autonomia estratégica e o forte papel dissuasório necessário às Forças Armadas.”

Cláusula fundamental do plano nacional de desenvolvimento é elevar a qualidade vida do povo, nas dimensões material, cultural e espiritual, e acelerar a redução da desigualdade social. Esse objetivo se relaciona dialeticamente com o desenvolvimento. “Sem um novo e superior ciclo de crescimento econômico persistente não se projeta essa renovação de expectativas nem a ampliação dos direitos conquistados.”

“Soberania nacional e democracia robusta” formam um alicerce “para manter e ampliar as conquistas sociais do povo brasileiro, melhorar a vida das pessoas e conferir um horizonte de futuro mais próspero e definido”

Ao final do texto, o PCdoB destaca que o “momento histórico é de abrir um novo ciclo histórico de desenvolvimento nacional”. “Nosso Programa para um novo governo precisa conter essa possibilidade, construir uma vontade nacional e social nessa direção. Com um novo governo Lula, essa possibilidade está posta.”

Daí que o Partido, desde o seu 16º Congresso, realizado no final do ano passado, destaca a dimensão tático-estratégica da reeleição do presidente, uma vitória decisiva ao presente e futuro imediato do país, com forte impacto na América Latina e Caribe.

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O selo do PCdoB na frente pró-Lula https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/o-pcdob-e-lula.html 

Postei nas redes

Vencemos o Japão e passamos adiante. Ótimo! Mas a seleção ainda está longe de se igualar às da França, Argentina, Espanha e Inglaterra. 

Como o povo brasileiro transformou o futebol em símbolo nacional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/nosso-futebol-ja-foi-o-melhor.html 

Uma crônica de Abraham Sicsu

Turista também sofre
Abraham Sicsu    

Deslumbramento. O encontro com a natureza alucina, o verde das matas, as flores nativas, a fauna diversa, tudo belo, tudo para nos fazer entender que somos parte de um universo plural, multifacetado e harmonioso. Apenas parte que tem que respeitar o todo. Não sejamos auto centrados.

Os peixes, robalos, tainhas e serras, os camarões abertos na brasa, a paçoca de carne de sol, o vatapá sem dendê, o baião de dois, o degustar de pratos nativos com sabor mais que especial.

Dunas brancas em profusão, altíssimas ou baixas, areia fina que se move ao sabor do vento; lagunas, milhares, umas com águas límpidas e claras, outras verdes ou mesmo amarronzadas; rios e mares, paisagens indescritíveis. Os Lençóis Maranhenses se fazem presentes.

Contudo, sempre há um porém, turismo sempre traz fatos que podem incomodar. Nada que tire o mágico da viagem, o ecoturismo mais marcante que já fiz, narro apenas como divertimento, fatos exóticos registrados nesta viagem.

Duas horas de avião, quatro de carro. Uma viagem um pouco cansativa. A empolgação com o que viria faz passar celeremente. Saída de São Luís. Uns vinte quilômetros desastrosos. Com crateras “lunares” inimagináveis. Somente um piloto com grande experiência consegue enfrentá-las. Incompreensível que a saída da capital do Estado, com o fluxo maior e mais importante do turismo maranhense, esteja em situação tão deplorável.

Chegamos ao anoitecer. A fome bate. Indicam um restaurante na beira do rio, vista maravilhosa, comida boa. O problema, um teclado e um pretenso cantor. Desafinado, com falta de ritmo. Para disfarçar sua falta de aptidão, o som altíssimo e os berros estridentes. E ainda se cobra couvert dito artístico.

Uma pousada muito simpática. Bem cuidada, com artesanato local e vista bela. Os anfitriões educados e carinhosos. Nove da noite. Perto tem um arraial da prefeitura. Começam os espetáculos. Parece que o som está sendo gerado dentro dos quartos. Mesmo eu que sou um pouco surdo, escuto com nitidez. Vai até as três horas da manhã.

Um motorista-guia nos leva ao passeio. No primeiro dia. Simpático, mas com gosto um pouco estranho. Adora sertanejo brega. Durante todo o caminho, mais de duas horas, ida e volta, coloca essas “pérolas” musicais. Fico incomodado, mas, como ninguém reclama, quem sou eu para me rebelar.

O guia tem muitas certezas. Passamos numa “fazenda eólica”. Cerca de 180 aero geradores. Enorme. Afirma com convicção que a energia gerada, nem entra no Maranhão, vai toda para o exterior. Tento explicar que é colocada na rede elétrica. Verdade, o transformar de bauxita em alumínio consome muita energia que é exportada no produto final. Mas, ele insiste, não, ela é exportada assim que gerada. Só não sei como?

Os jornais publicaram. Atins é a sétima praia mais bela do mundo. Ansiosos, esperamos chegar lá. Uma praia enorme, sem vegetação, um mar nada diferente. Acho que disputou com São Paulo, Praia Grande ou Cidade Ocean, deve ter ganho na foto de chegada, por uma cabeça.

Voltando de um passeio resolvemos tomar banho em uma laguna. Deixamos as coisas no carro e vamos. Ao voltar, cadê o carro. Procuramos e nada de encontrar. Dez minutos de muita angústia. Até que outro motorista nos avisa que um carro tinha atolado, logo à frente, e o nosso motorista, numa atitude de solidariedade, tinha ido lá para ajudar na remoção. Muito justo, pena não nos ter avisado.

Um passeio lindíssimo é o do Rio Preguiça. As paisagens são inesquecíveis. Faz-se uma parada em Vassouras, para um banho de laguna e ver os macaquinhos da floresta. É a região deles. Pense numa muvuca. Uma multidão maior que a torcida do flamengo em dia de decisão de título. Mas, esse não é o único problema. Os bichinhos se aproximam vorazmente.

Querem comida e realmente atacam. Uma senhora obesa com uma bolsa e seu celular em punho se aproxima. Dois símios sobem em suas costas. Para salvar a bolsa quase cai e o celular deve ter ficado imprestável

Dois turistas japoneses, meio abestalhados, resolvem abrir um pacote de biscoito perto dos animais. Atacados, deixam cair no chão. O engraçado foi ver o líder dos macacos recolhendo o alimento para alimentação futura. São precavidos.

Por do sol na Lagoa Bonita. Maravilhoso. Quando se aproxima a hora, uma multidão vai se acomodando na duna mais alta para ver o espetáculo da natureza. Nosso guia nos orienta.

Todos estamos molhado do banho nas águas cristalinas das lagunas próximas. Acontece que um casal de idosos espanhóis, resolve não se sentar e se posiciona bem em frente à nós. Acho que não queriam melar seus flácidos bumbuns, nada atraentes. Os que me acompanham, para não arrumar confusão, mudam de lugar. Não aquentei e protestei. O homem saiu. A mulher ficou com cara de sonsa.

Como já disse nada disso tirou o brilho de uma região encantadora, mágica, do constatar a diversidade e harmonia da natureza. Se puderem, não percam. Pequenos fatos que permitem contar histórias pitorescas.  Vale a pena enfrentar qualquer descompasso. As imagens que ficarão na mente serão outras.

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Leia também: "Palavras muito mais do que palavras" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/pensar-e-dizer.html 

Sylvio: voto feminino

Ao afirmar que "mulher vota mal", o neto do ditador João Figueiredo e representante da extrema direita Paulo Figueiredo desnuda seu pensamento tosco e sua mentalidade tacanha. Quem vota mal é quem vota em candidato da extrema direita, sempre contra os interesses nacionais. 

Sylvio Belém  

Melhora socioeconômica reduz população nas classes D e E https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/boa-noticia.html