Blog de Luciano Siqueira
A construção coletiva das idéias é uma das mais fascinantes experiências humanas. Pressupõe um diálogo sincero, permanente, em cima dos fatos. Neste espaço, diariamente, compartilhamos com você nossa compreensão sobre as coisas da luta e da vida. Participe. Opine. [Artigos assinados expressam a opinião dos seus autores].
17 setembro 2026
Potência decadente
Os
fracassos de Donald Trump
A escalada da retórica belicista
de Washington tenta disfarçar a profunda fragilidade de um governo marcado por
sucessivas derrotas geopolíticas e pela perda de influência global
José Luis Fiori/A Terra é Redonda
1.
Existem
pequenos “acidentes”, na história, que são emblemáticos, e que conseguem sintetizar
e desvelar – ao mesmo tempo – situações de enorme complexidade. Como foi o
caso, por exemplo, do que aconteceu na cidade de Ancara, no dia 8 de julho de
2026, quando o presidente Donald Trump foi retirado às pressas do seu avião
presidencial, e levado escondido num caminhão contêiner de refeições, para um
outro aparelho militar menor e mais discreto que o retirou da Turquia, e o
transportou para Inglaterra. E, na cidade de Londres, foi recolocado no Air
Force One, para que pudesse sair pela sua porta da frente, como se nada tivesse
acontecido.
Tudo isto
logo depois de ter participado da reunião anual da OTAN, a organização militar
mais poderosa do mundo, onde foi advertido pelo serviço secreto de Israel de
que sofreria um atentado da parte do Irã. Esse episódio seria digno de uma
comédia tipicamente americana, se não se tratasse do presidente dos EUA, e se
ele não tivesse deixado dentro do “avião-isca” os jornalistas que o acompanham
em suas viagens, junto com seus secretários de Estado, Marco Rubio, e do
Tesouro, Scott Bessent.
E ainda
mais, se essa “fuga secreta” não fosse um sinal da grande fragilidade e
insegurança atual do presidente Donald Trump, fora da Casa Branca. Inclusive
porque não foi apresentada nenhuma prova que corroborasse a informação sobre a
ameaça, não se podendo excluir, portanto, outras hipóteses – verossímeis neste
momento – como a de um atentado ou ameaça da parte dos inimigos internos de
Donald Trump, dentro dos EUA ou da OTAN, ou mesmo de ser apenas um “susto de
advertência” da parte de Israel.
Seja como
for, depois que esta informação “supersecreta” foi noticiada pelo jornal
americano, Washington Post, ela deu volta ao mundo transmitindo uma
ideia da extrema fragilidade de um presidente que gosta de transmitir a imagem
de um imperador global e todo-poderoso. Esta súbita fragilização da imagem do
presidente e do poder americano, talvez explique a sucessão imediata de
declarações de onipotência da parte de vários membros do governo Trump, e em
particular da sua ala mais belicista.
Foi o
caso do subsecretário de Guerra, Elbridge Colby, que declarou no dia 10 de
agosto, na cidade de Manila, Filipinas, que os EUA estavam decididos a conter a
China na “primeira cadeia de ilhas” através do “world’s biggest stick” –
em suas próprias palavras. O mesmo subsecretário que vem defendendo a
necessidade do uso de “armas nucleares táticas”, caso seja necessário, para
“expulsar os interesses” russos e chineses do Hemisfério Ocidental.
2.
No dia
seguinte, 11 de agosto, o Departamento de Estado divulgou um vídeo
institucional narrado pelo embaixador dos EUA no Panamá, que dizia “que o
domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais seria questionado”, dando
como exemplo da decisão inquebrantável dos EUA, a captura do presidente
venezuelano Nicolás Maduro, do dia 3 de janeiro de 2026.
De imediato,
no dia 12 de agosto, o Secretário de Guerra dos EUA, Pete Hegseth, anunciou no
Fórum da Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C), realizado na cidade do
Panamá, a decisão americana de iniciar de imediato operações militares
terrestres na Colômbia, antecipando a visita do Secretário de Estado, Marco
Rubio à própria Colômbia, ao Equador e ao Peru, no início do mês de setembro.
No dia 17
de agosto o próprio Donald Trump ameaçou destruir Omã, que é um protetorado
militar dos EUA, caso o governo de Omã negociasse separadamente com o Irã uma
administração conjunta do Estreito de Ormuz. E uma semana depois, no dia 24 de
agosto, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent declarou – ao anunciar as novas
sanções econômicas contra o Irã – numa conferência de imprensa na Casa Branca,
que “ninguém no mundo está acima do alcance das sanções econômicas dos EUA”.
Esta
explosão de onipotência, entretanto, parece cada vez mais descolada dos fatos.
Porque até aqui o único grande “trunfo” do governo Donald Trump foi seu ataque
à Venezuela realizado depois de uma gigantesca mobilização de forças navais,
aéreas e terrestres, levada a cabo durante vários meses, com o objetivo final
de capturar apenas duas pessoas.
Mas
depois disto, ou ao lado disto, sem respeitar necessariamente a sequência
cronológica dos acontecimentos, o governo de Donald Trump fracassou no seu
projeto de pacificar a Ucrânia em 100 dias, como havia anunciado em sua
campanha presidencial; recuou com relação ao seu anunciado desejo de conquista
da Groenlândia e do Canadá; sofreu um grande revés na sua guerra comercial
contra a China; não conseguiu atrair a Coreia do Norte para algum tipo de
negociação e fratura do bloco de países eurasianos; foi derrotado nas eleições
da Hungria, a despeito da intervenção direta e pessoal do vice- presidente
americano, David Vance; viu seu projeto de paz de 15 pontos para Gaza rejeitado
sem nenhuma contemplação, pelo seu grande aliado Benjamin Netanyahu.
Sofreu
uma derrota estratégica fragorosa na sua guerra ao lado de Israel, contra o
Irã; não conseguiu impedir que os Houthis conquistassem nos últimos dias, a
cidade-porto de Makha e a Ilha Perim, abrindo uma segunda frente vitoriosa, ao
lado do Irã e contra os EUA e Israel, e assumindo o controle militar do
Estreito de Bab al-Mandeb, e de todo o tráfico marítimo pelo Mar Vermelho, em
particular do petróleo da Arábia Saudita.
Finalmente,
vem fracassando na sua guerra econômica contra a Rússia, há mais tempo, e agora
na sua nova ofensiva contra o Irã – a despeito de toda a empáfia de Scott
Bessent – que apesar de intervir diretamente no mercado, por meio de operações
financeiras e liberação de reservas estratégicas, nestas últimas semanas, não
conseguiu impedir que o preço do petróleo ultrapassasse a “linha vermelha” dos
US$ 107 dólares, depois da última ofensiva vitoriosa dos Houthis.
3.
Acrescente-se
a esta lista de “insucessos imperiais” de Donald Trump, sua ruptura diplomática
com alguns de seus principais aliados e vassalos do Atlântico Norte e da Ásia,
muitas vezes sem nenhum tipo de justificação como ocorreu recentemente com a
suspensão parcial dos exercícios militares conjuntos dos EUA com a Coreia do
Sul.
Ou mesmo,
com a guerra comercial extremamente destrutiva com o Canadá, seu vizinho com
quem mantinha relações amistosas e pacíficas desde 1815. Contribuindo
decisivamente para a fragilização do bloco político-econômico e militar do
Atlântico Norte, deixando as portas abertas para o avanço do BRICS e da China,
em particular, no Oriente Médio, na Eurásia e África, e até mesmo na América do
Sul.
Basta
dizer que no mês de agosto, depois de participar da reunião do Escudo das
Américas, no Panamá, concebido para conter a presença chinesa na América
Latina, várias autoridades sul-americanas visitaram Pequim e manifestaram sua amizade
irrestrita com os chineses. Como foi o caso mais “escandaloso” do presidente da
Assembleia de El Salvador, Ernesto Castro, aliado muito próximo do presidente
Nayib Bukele. Mas também do Ministro de Relações Exteriores do Chile, Perez
Mackena que manteve conversações com o Ministro de Relações Exteriores da
China, Wang Ji, e com o Vice-Primeiro Ministro chinês, He Lifang.
E,
finalmente, do próprio presidente do Equador Daniel Noboa que teve uma recepção
oficial do governo chinês, e encontrou-se pessoalmente com o presidente Xi
Jinping, tendo declarado “que a China sempre poderá contar com o Equador […] um
amigo chinês do outro lado do Pacífico” Somando-se e subtraindo-se todas estas
informações entende-se melhor a “queda de Trump”, que alcançou seu máximo de
popularidade e prestígio internacional depois do seu “sucesso venezuelano” do
dia 3 de janeiro de 2026, e nove meses depois, depois de sua fracassada guerra
contra o Irã, e de sua “fuga” apressada da Turquia, transformou-se num dos
presidentes mais impopulares da história americana, dentro e fora dos EUA.
Atropelado,
além do mais, pela aproximação das próximas eleições parlamentares do midterm do
mês de novembro, e por uma disputa cada vez mais intensa entre as várias
facções da extrema direita republicana, que se digladiam pela sucessão de
Donald Trump, onde se destacam as figuras do Vice-Presidente, David Vance, e do
Secretário de Estado, Marco Rubio.
Transmitindo
ao mundo a imagem de um império que segue armado “até os dentes” mas perdeu o
seu “norte”, e de um governo que aumenta sua agressividade retórica, na mesma
medida em que aumenta a sua incapacidade de impor sua vontade ao resto do
mundo.
*José
Luís Fiori é
professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de Conjuntura e
história (Vozes). [https://link.amazon/B0cDSrftS]
Publicado originalmente no Boletim do Observatório
internacional do século XXI, no. 19, setembro de 2026.
Trump e a diplomacia anárquica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/minha-opiniao_01291229765.html
Humor de resistência
Ligação com o PCC na produção de filme sobre Bolsonaro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/mais-sujeira-atras-da-porta.html
Minha opinião
Na reta final detalhes importam*
Luciano Siqueira
De tudo o que li das grandes batalhas da História e que aprendi no curso de seis décadas de militância, depreendo que próximo ao desenlace de uma grande batalha, nos últimos movimentos das forças litigantes, detalhes podem fazer a diferença.
Dito assim de modo meio que alegórico, parece algo muito complexo, mas na verdade não é.
Caso das eleições presidenciais do Brasil desde a superação do regime militar.
No segundo turno do confronto Lula versus Collor em 1989, a edição distorcida do último debate entre os oponentes, divulgada no Jornal Nacional, da TV Globo, todos os analistas concordam, teve peso decisivo na apertada vitória do alagoano.
Já em 1992, na vitória sobre o tucano José Serra, a poucos dias do pleito Lula divulgou a conhecida "Carta aos brasileiros", contendo uma afirmação para muitos quase despercebida, porém de importante peso político específico — a de que, eleito presidente, não mudaria substancialmente "as regras do jogo" da política macroeconômica.
Aí residiu a sinalização para importante segmento da elite dominante que admitia arrefecer suas resistências ao futuro presidente mediante entendimento prévio, que
envolveu, inclusive, o futuro ministro da Fazenda, José Palocci.
(Vários outros exemplos seria possível mencionar, incluindo a vitória em acirradas disputas pelo governo estadual de Pernambuco, nas quais o autor dessas breves linhas teve participação ativa, representando o PCdoB, no comando de coligações de centro-esquerda.)
Que tem a ver o comentário com as eleições de agora, que caminham para reta final?
Tudo.
Em vários aspectos, da simples correção de um atraso absurdo na confecção das peças impressas de campanha do presidente Lula à desafiante possibilidade de diálogo com setores desgarrados do campo adversário.
Apenas um exemplo: por que a Folha de S. Paulo e o Estadão vêm desancando o candidato Flávio Bolsonaro, o único competitivo da oposição?
Ora, ambos os veículos pontificam no complexo midiático neoliberal como atores ativos na defesa dos interesses do núcleo essencial da elite dominante — o capital
financeiro, o grande agro exportador e os monopólios do varejo.
Ao baterem tão duro no candidato da extrema direita, não apenas confirmam que essa elite não se vê contemplada nem confia no principal candidato oposicionista, como admite, em algum grau, entendimento com a frente ampla reunida em torno do presidente Lula para evitar o "mal pior", que seria a eleição do corrupto, incompetente e desastroso filho do ex-presidente encarcerado.
A julgar pelas pesquisas mais recentes, a peleja está tecnicamente empatada, exigindo o máximo de flexibilidade (sem abrir mão da essência dos compromissos com a nação e com o povo) no esforço de atrair, ou pelo menos neutralizar, setores desgarrados das hostes oposicionistas.
Situação semelhante também se verifica em algumas disputas por governos estaduais.
João Amazonas dizia que na História das pelejas transformadoras, mundo afora, jamais foi possível vencer sem subtrair do campo inimigo parte das suas forças mais ativas e influentes.
Portanto, "detalhes" importam, sim. E, como dizia o poeta, "tudo vale a pena se a alma não é pequena".
*Texto da minha coluna no portal Vermelho
Três "questões de ordem" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/07/minha-opiniao_0658357328.html
Arte é vida
Leia também "Tecnologia: não confunda a minha cabeça" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/08/uma-cronica-de-abraham-sicsu.html
Subsídio invisível
Quem paga o custo social das empresas-aplicativos?
O que é o “subsídio invisível” pago pela sociedade para que as plataformas privadas operem, sem regulação alguma? Como ele esvazia a proteção previdenciária e sobrecarrega o SUS? Essencial, debate pode definir políticas necessárias para tributar empresas e proteger trabalhadores
Rafael Molina Vita/Outras Palavras
No contexto eleitoral, o debate sobre a regulamentação do trabalho por plataformas digitais ultrapassa as fronteiras do Direito do Trabalho. Trata-se de uma discussão sobre financiamento de políticas públicas, sustentabilidade da seguridade social e modelo de desenvolvimento. Em outras palavras, trata-se de uma escolha sobre o tipo de Estado e de democracia que pretendemos construir nas próximas décadas.
Não é de hoje que as transformações observadas na economia e no mundo do trabalho vêm tensionando a manutenção do Estado de bem-estar social e, consequentemente, das democracias contemporâneas. A conexão entre ambos não é meramente retórica. Sob essa ótica, o Estado Democrático de Direito não pode ser reduzido a um conjunto de regras formais de representação política. Seu papel é criar as condições materiais necessárias para a efetivação dos direitos humanos em todas as suas dimensões, das liberdades individuais aos direitos sociais e coletivos.
Desde o fim da chamada “era de ouro do capitalismo” e da ascensão do neoliberalismo, na década de 1980, ganharam força, em diversas partes do mundo, discursos voltados à contenção dos gastos públicos e à austeridade fiscal. Nesse contexto, o Brasil viveu um paradoxo: ao mesmo tempo em que a Constituição de 1988 ampliou significativamente o rol de direitos sociais e consolidou as bases de um sistema abrangente de proteção social, a economia nacional enfrentou, ao longo da década de 1990, um ciclo de baixo crescimento econômico e desindustrialização. Esse processo começou a ser parcialmente revertido a partir de 2003, impulsionado pela valorização das commodities e pela expansão do investimento em políticas sociais.
Embora ainda possua uma população relativamente jovem em comparação com os países desenvolvidos, o Brasil passou por transformações demográficas nas últimas décadas, marcadas pela redução das taxas de natalidade e pelo envelhecimento acelerado da população. Essas mudanças ampliam a pressão sobre o sistema de proteção social em um contexto de desafios econômicos persistentes, expressos na desindustrialização, na dependência da exportação de produtos com baixo valor agregado e nos elevados níveis de desigualdade de renda. Torna-se, assim, cada vez mais complexo compatibilizar as limitações da nossa estrutura econômica com a necessidade de financiar um Estado capaz de atender às demandas crescentes da população.
Foi nesse cenário que ganhou força, na última década, o trabalho mediado por plataformas digitais, a chamada gig economy. Trata-se de um modelo no qual formas tradicionais de supervisão e gestão do trabalho são substituídas pela gestão algorítmica. A mediação humana é reduzida ao mínimo, e aspectos centrais da atividade laboral passam a ser determinados por sistemas automatizados, muitas vezes operando com critérios pouco transparentes para os trabalhadores, que passam a ser enquadrados como autônomos ou empreendedores, permanecendo à margem de mecanismos tradicionais de proteção trabalhista e previdenciária.
Aqui emerge uma escolha política fundamental. Vamos buscar equacionar nossas assimetrias como sociedade e fortalecer os mecanismos de proteção social ou nos contentar com uma concepção de democracia limitada às suas dimensões formais? Se optarmos pela primeira alternativa, o caminho terá que passar, necessariamente, pela regulação do trabalho por aplicativos.
Isso porque, para além da dificuldade de garantir direitos sociais a motoristas, entregadores e trabalhadores em geral, deixar de regular o trabalho plataformizado significa que, em alguma medida, todos nós estamos pagando para que essas grandes empresas operem no país.
Sim. Mesmo que a pessoa nunca utilize os serviços das grandes plataformas, ela ainda assim contribui, indiretamente, para que essas empresas operem em nosso país. É o chamado “subsídio invisível”, por meio do qual toda a sociedade absorve parte dos custos associados a essa atividade econômica.
As atividades econômicas mediadas por plataformas também produzem as chamadas “externalidades negativas”, ou seja, custos que não são integralmente absorvidos pelas empresas responsáveis pela atividade e acabam sendo transferidos para a sociedade. Esses efeitos manifestam-se de forma relevante nos sistemas de saúde e previdência social. É o caso, por exemplo, de motociclistas vítimas de acidentes de trabalho que recorrem ao Sistema Único de Saúde (SUS), e de trabalhadores por aplicativos que, sem cobertura previdenciária adequada, dependem de benefícios assistenciais em decorrência da idade avançada ou de situações de deficiência.
Também são observados impactos no meio ambiente, em razão do aumento da poluição atmosférica e sonora, e na infraestrutura urbana, que demanda investimentos crescentes em mobilidade e manutenção viária para absorver o crescimento dessas atividades.
O sistema de seguridade social é particularmente tensionado pela insuficiente proteção previdenciária dos trabalhadores de plataformas digitais. Segundo dados da PNAD Contínua sobre Trabalho por Meio de Plataformas Digitais, divulgados pelo IBGE em 2026 e referentes ao ano de 2025, apenas 34% dos 1,959 milhão de profissionais que atuavam por meio de plataformas digitais contribuíam para a previdência social. No setor privado tradicional, esse percentual alcançava 63% dos trabalhadores. Dentre os entregadores plataformizados que utilizavam motocicletas, apenas 19,4% possuíam cobertura previdenciária, enquanto entre os motoristas de automóveis vinculados a aplicativos, esse índice era de 25,5%. Em outras palavras, apenas cerca de um terço desses trabalhadores possuía cobertura previdenciária.
Os efeitos da falta de proteção também podem ser observados na saúde e na segurança dos trabalhadores. Estudo publicado em 2025 nos Cadernos de Saúde Pública, com 563 entregadores de diferentes regiões do Brasil, identificou que 44,1% haviam sofrido pelo menos um acidente de trabalho no ano anterior à pesquisa. Os acidentes de trânsito representaram 82,8% dessas ocorrências. Mais da metade dos trabalhadores acidentados (56,1%) precisou se afastar do trabalho e, entre aqueles que permaneceram afastados por 15 dias ou mais, apenas 20% receberam algum benefício previdenciário. O estudo também constatou que 84,8% dos serviços de saúde utilizados em razão desses eventos eram públicos, enquanto 92,6% dos atendimentos ocorreram em serviços de urgência ou emergência. A gravidade desses riscos também é evidenciada por estudos epidemiológicos e por registros administrativos do Ministério da Saúde, que apontam a elevada incidência de incapacidades temporárias, sequelas permanentes e óbitos em acidentes de trânsito envolvendo motociclistas. Trata-se, portanto, de uma atividade laboral associada a riscos expressivos para a integridade física e para a capacidade laboral dos trabalhadores.
Diante de tudo o que foi exposto, é importante ressaltar que não se pretende demonizar o trabalho por aplicativos, fonte de renda e subsistência para milhares de famílias brasileiras. O ponto central deste debate é a necessidade de sua regulamentação, de modo a equilibrar um sistema de proteção social cada vez mais pressionado e garantir sua sustentabilidade em um contexto marcado por restrições fiscais e perda de direitos.
Concluindo, e retomando a questão que orienta este texto, a regulamentação do trabalho por plataformas não deve ser compreendida apenas como uma pauta trabalhista. Ela se insere em uma série de escolhas que definirão a capacidade do Estado brasileiro de financiar direitos, sustentar seus sistemas de proteção social e concretizar o Estado Democrático de Direito para além de sua dimensão formal. Em última instância, a questão é decidir quem arcará com os custos sociais desse modelo econômico: as empresas que exploram a atividade ou a coletividade. Nessa encruzilhada, cabe ao governo eleito utilizar os instrumentos de política pública disponíveis, inclusive a regulação, para assegurar que inovação e desenvolvimento econômico caminhem lado a lado com cidadania, proteção social e democracia.
Plataformas digitais excludentes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/06/plataformas-digitais-excludentes.html
Humor de resistência
Do homem da mala para 'Dark Horse' https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/09/em-cima-do-lance.html






