14 janeiro 2026

Palavra de poeta

água
Cida Pedrosa  

fez da água homem
cada gota
era toque
cada chuva
era chama
cada jato
era jorro
a mulher se fez charco

[Ilustração: Anelore Schumann]

Leia também: "Ao tempo", poema de Dante Milano https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/palavra-de-poeta_7.html 

13 janeiro 2026

Banco Master, por Luís Nassif

Xadrez do Master, a maior crise institucional da história do mercado
Percebendo a criação do esquema Ponzi, o Banco Central limitou a captação do Master a 100% do CDI, o que paralisou o crescimento do banco
Luís Nassif/Jornal GGN  



Duas “notícias de fatos”​ foram protocoladas pelo Banco Central junto ao Ministério Público Federal em relação ao caso Banco Master.

A primeira foi protocolada formalmente no meio de 2025, referente a crimes ocorridos entre final de 2024 e início de 2025. A segunda foi protocolada em novembro de 2025, sobre crimes de 2023 a 2024.

Nos próximos dias, haverá novas notícias de fato, já em andamento.

O mapeamento do esquema Master identificou os seguintes movimentos:

1. O Esquema de Sangria (2023-2024)

O banco utilizou uma triangulação para desviar aproximadamente R$ 11,5 bilhões:

O que o Master fazia emprestar dinheiro para uma empresa, 500 milhões de reais. Essa empresa aplicava os 500 milhões de reais em um fundo da REAG. Na verdade, pagava 10 milhões de IOF e aplicava o restante no fundo.

Quando olhava-se para o balanço da empresa, estava aparentemente correto. Ela tinha 500 milhões de dívida e 500 milhões em investimento, em ativos. 

Mas quando o dinheiro entrava no fundo da REAG, saía do controle do BC e passava a depender da fiscalização da CVM. O BC não tinha como enxergar o que havia no fundo. E o  fundo usava o dinheiro para comprar ativos sem valor real (como “cártulas do BESC”) por preços exorbitantes. Por exemplo, o fundo comprava por R$ 500 milhões algo que valia R$ 10 milhões.

O BC identificou seis fundos administrados pela REAG (Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna) com patrimônio total de R$ 102,4 bilhões, suspeitos de participarem de um esquema de lavagem de aproximadamente R$ 11,5 bilhões.

O vendedor do ativo (um laranja) ficava com o lucro, que circulava por outros fundos até chegar aos beneficiários finais.

Ia pingando de fundo em fundo, parando sempre nos mesmos fundos dos mesmos laranjas. Esse esquema sangrou o Master em 11,5 bilhões entre 2023 e 2024. 

2. A Pirâmide de Liquidez (Esquema Ponzi)

A lógica bancária consiste em captar depósitos a um determinado custo e emprestar a um custo maior, embutindo o spread do banco.

Para manter o fluxo de caixa enquanto o dinheiro era desviado:

  • O banco oferecia carências longas (3 a 5 anos) nos empréstimos para adiar a percepção de inadimplência.
  • Captava novos investimentos via CDB para pagar os investidores antigos, caracterizando uma pirâmide financeira. Chegou a oferecer CDBs por 140% do CDI. Seria praticamente impossível encontrar tomador de empréstimo disposto a pagar 150% ou 160% do CDI.
  • Veio a crise de 2024, a credibilidade caiu, a captação secou e o banco perdeu a capacidade de pagar os vencimentos.

3. A Fraude da “Tirreno” e o BRB (Final de 2024-2025)

Desesperado por liquidez, o banco tentou uma “transfusão de sangue”:

Usou a a empresa Tirreno (gerida por um ex-funcionário) para simular a venda de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões ao Master. O Master não pagava a Tirreno, criando apenas um registro contábil. A Tirreno “vendia”, o Master reconhecia, mas não pagava.  Criava ativo fictício, que só existia contabilmente. 

Análise do Banco Central de 30 CPFs aleatórios dessa carteira revelou que nenhuma das operações de crédito existiu – não houve movimentação financeira correspondente.

Em seguida, o Master revendeu essa mesma carteira ao BRB por R$ 12 bilhões, manipulando a taxa de juros (de 4% para 2% ao mês) para dobrar o valor nominal do ativo. (Aqui entra um toque de matemática financeira que deixarei para explicar em outra oportunidade).

Na sequência, houve a proposta para o BRB comprar o Master. O objetivo era fundir os balanços para esconder a fraude e usar a capacidade de captação do BRB (banco público) para continuar o esquema. A bomba explodiria algum tempo depois nas costas dos contribuintes.

No início de 2025, reduziu de 140% para cerca de 110-114% em alguns prazos após anúncio de aquisição pelo BRB.

4. Intervenção e Colapso

Percebendo a criação do esquema Ponzi, o Banco Central limitou a captação do Master a 100% do CDI, o que paralisou o crescimento do banco (em 2025, captou apenas R$ 90 milhões contra um passivo bilionário).

Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) passou a pagar os CDBs vencidos do Master através de uma linha emergencial.

O controlador teve que vender ativos pessoais (Hotéis Fasano, aviões, lanchas) para tentar aportar capital, até que tentou usar dinheiro dos fundos administrados por laranjas, o que foi barrado pelo BC.

O banco foi liquidado quando não tinha caixa para pagar nem 15% dos vencimentos da semana.

5. O Componente Político e Institucional

Trata-se de uma crise institucional sem precedentes.

Usa-se a expressão “to be, to fail” para caracterizar instituições muito grandes, cuja quebra pode significar um risco sistêmico. No BC a expressão utilizada é “too big to fail da corrupção”. O banco não era um risco para o sistema financeiro (apenas 0,5% dos ativos), mas um risco sistêmico para as instituições, pois teria “comprado” influência no Senado, Câmara, TCU e agências de risco.

Essa foi a razão do BC ter demorado para agir, segundo se alega internamente.

A liquidação gerou uma crise institucional sem precedentes, com o STF, TCU e Congresso questionando simultaneamente decisões técnicas do Banco Central.

Há controvérsias sobre a cronologia – documentos mostram negociações prolongadas entre BC, Master e BRB, com o BC impondo condições crescentemente restritivas antes de vetar a operação em setembro de 2025. A alegação era que a rede de influência do Master não permitiria nenhum passo em falso. 

Questiona-se como agências como a Fitch elevaram a nota do banco e como uma Big Four (KPMG/PwC) auditou os balanços sem apontar as fraudes.

Do lado dos advogados do Master, provavelmente a linha de argumentação será a de que fio a interrupção da venda de ativos dos fundos que levou à queda da instituição.

Há muito jogo pela frente. Mas o caso Master entrará pela história como o capítulo maior da degradação institucional do país.

Banco ligado ao Master tem R$ 160 milhões em patrocínio na Globo https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/ligacoes-suspeitas.html 

Enio Lins opina

Coisa de cinema: Globos dourados para uma arte de ouro
Enio Lins  

DUPLA CONQUISTA brasileira no badalado Globo de Ouro com o filme “O Agente Secreto”. Volta para casa com duas estatuetas na bagagem, fato inédito nessa premiação. Em 1999, Central do Brasil trouxe o Golden Globe de Melhor Filme em Língua Estrangeira; em 2025, foi a vez de Fernanda Torres vir de lá com a premiação de Melhor Atriz. Neste ano, dobrado feito tapioca: Melhor Filme em Língua não-Inglesa e Melhor Ator para Wagner Moura. Sem surpresas, posto filme e ator haviam conquistado antes a crítica e o público mundo afora.

CONQUISTAS MÚLTIPLAS, algumas imateriais, se somam aos dois lauréis d’ouro. O mais importante dos êxitos intangíveis de “O Agente Secreto” no Globo de Ouro é a consagração planetária do cinema brasileiro, reafirmando uma longa tradição cujos pontos altos, anteriores a 2026, são – por ordem de importância – a conquista da Palma de Ouro de Cannes como Melhor Filme para “O Pagador de Promessas” em 1962; Globo de Ouro de 1999 para “Central do Brasil” como Melhor Filme Estrangeiro; Globo de Ouro para Fernanda Torres, em “Ainda Estou Aqui”, em 2025; Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para “Ainda Estou Aqui”, em 2025. Sem falar em “Orfeu Negro”, produção franco-brasileira, filmado no Brasil, que rendeu o Globo de Ouro de 1960 para a França. Essa lista não lista troféus internacionais relevantes como as 11 premiações recebidas por “Central do Brasil” entre 1998 e 1999. Para economizar espaço, não listaremos quantos filmes brasileiros ganharam tantos outros prêmios no Exterior ao longo dos tempos; mas vamos citar apenas “Vidas Secas”, de 1963, filmado em Alagoas, por Nelson Pereira do Santos, que trouxe de Cannes o Prêmio OCIC (Office Catholique International du Cinéma), ganhou o Grande Prêmio Cidade de Valladolid, e premiações outras em Londres, Nova York, Milão e Havana.

OUTRA QUESTÃO RELEVANTE é que “O Agente Secreto”, com seu esmero técnico/artístico, ao ser premiado pela forma, projeta seu conteúdo especialíssimo. Isso não é pouca coisa num cenário mundial marcado por arroubos ditatoriais, agressões internacionais, genocídios. Kleber Mendonça Filho, com seu talento e visão excepcionais, espalha pelos quatro cantos do mundo uma visão crítica irretocável, profunda, não-panfletária, sobre os crimes de um regime ditatorial que delinquiu em perfeita sintonia com todas as modalidades do crime organizado e da corrupção desenfreada. Expõe o chumbo ainda quente da covardia dos que bradam “Ustra Vive”, e que se debulham em crocodilescas lágrimas, pressionando por anistias graciosas que lhes garantam a impunidade para novas tentativas de golpes de Estado.

DENTRO DO BRASIL, 
o filme premiado duplamente pelo estadunidense Golden Globe Awards ilumina uma questão doméstica nevrálgica: a luta pelo equilíbrio regional, confirmando o Nordeste – especialmente a cena pernambucana – como mais um polo de excelência em cultura e em empreendimentos artísticos com magnitude internacional. É a afirmação de uma tendência, e de um longo e árduo trabalho, desenvolvido há décadas, tendo como base a criação cinematográfica sediada em Recife. Novamente para economizar espaço, lembro apenas “O Baile Perfumado”, filmado em 1995, ganhador do Grande Prêmio do Festival Internacional de Brasília de 1996. Se tivesse sido escolhido para representar o Brasil em Cannes, no Globo de Ouro e Oscar, voltaria com mais de um prêmio no alforge. Estamos falando de um filme feito há 30 anos! Sob a direção de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, com consultoria de Frederico Pernambucano de Melo, e tocando o Mangue Beat como trilha sonora, projetou particularidades únicas sobre o tempo do cangaço que, em termos da Sétima Arte, ainda não foi igualado. Não falamos, portanto, sobre acasos, ou sorte. É talento, arte, foco, persistência, ousadia. E vem mais por aí!

"O agente secreto", uma opinião crítica https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-agente-secreto-critica.html

Brasil também ameaçado

Estamos correndo um risco existencial
Com o sequestro de Maduro e a exigência de ‘acesso integral’ ao petróleo, ninguém mais pode em sã consciência ignorar que o Brasil corre risco
Paulo Nogueira Batista Jr./Vermelho  

“Os Estados Unidos são os primeiros a passar da barbárie à decadência sem conhecer a civilização.” Georges Clemenceau, primeiro ministro francês

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela deixa escancarado o risco que correm o Brasil e outros países. Prevalece a lei da selva. A superpotência imperial mostra-se plenamente disposta a usar a força militar para avançar seus interesses. O Hemisfério Ocidental inteiro, da Groenlândia à Patagônia, passou a ser visto, abertamente, sem disfarces, como “quintal” dos EUA.

Em 2019, publiquei um livro com o título O Brasil não cabe no quintal de ninguém. De fato, o nosso país é um dos maiores do mundo em termos geográficos, populacionais e econômicos. Mas repare bem, leitor ou leitora, na escolha das palavras. Escrevi: “de fato”. Esses fatos objetivos –  território, demografia e PIB – não são suficientes. Falta-nos uma dimensão crucial da soberania: a convicção por parte do brasileiros de que temos a obrigação de nos comportarmos à altura das dimensões do Brasil, o que inclui, por suposto, a disposição de resistir com energia a qualquer ameaça ou incursão vinda do exterior. E pior: faltam-nos camadas dirigentes ligadas visceralmente ao país. A verdade é que embora o Brasil não caiba no quintal de ninguém, grande parte da elite brasileira cabe no quintal de qualquer um.

Alguma dúvida? Basta lembrar um fato recente desprimoroso: todos os possíveis candidatos da direita à Presidência da República em 2026 declararam apoio à intervenção dos EUA na Venezuela e à captura de Maduro – todos, de Tarcísio a Flávio Bolsonaro, passando por Ratinho, Caiado e Zema. Foi mais uma demonstração de que são candidatos não à presidente da República, mas a vassalos de Trump. Versões tupiniquins de Javier Milei. E só isso basta para que consideremos a eleição de 2026 como a mais importante, a mais vital de toda a história do Brasil.

O nosso país é não só imenso, mas dono de vastos e valiosos recursos naturais de todo o tipo. Um país como esse é sempre alvo de cobiça estrangeira. Os EUA em especial, tudo farão para garantir fácil acesso a esses recursos.

Com o sequestro de Maduro e a exigência de Trump de “acesso integral” ao petróleo e outros recursos do país, sob pena de novos ataques, ninguém mais pode em sã consciência ignorar que o Brasil corre risco. Um risco sem precedentes. Não somos o alvo imediato dos EUA, é verdade, não encabeçamos a fila dos que podem ser agredidos. Outros parecem estar na nossa frente – Colômbia, Cuba, Groenlândia, Irã. Mas a casa de um vizinho está em chamas, e o incendiário é altamente periculoso.

Fora os integrantes da poderosa quinta-coluna, alguém ainda se anima a negar que o Brasil precisa se preparar militarmente? Vou mais longe: há dúvidas de que essa preparação tem que incluir armamento nuclear? Há muito tempo, figuro entre a minoria de brasileiros que defende prioridade para o reforço substancial do aparato de defesa nacional. No meu livro acima citado, por exemplo, há um texto intitulado “Brasil, um país desarmado” no qual defendo a tese de que precisamos ser militarmente capazes, não de derrotar uma superpotência como os EUA ou qualquer outra, mas de sinalizar de forma crível que qualquer ataque terá como resposta a imposição de perdas expressivas ao país agressor.

Entender essa distinção é crucial – temos que dispor de poder de dissuasão, inclusive atômico. Acumular capacidade de dissuasão está a nosso alcance. Uma vitória sobre uma superpotência, não. É falso, portanto, o dilema entre rendição e capacidade de vencer uma guerra contra os EUA ou outra superpotência. 

Nesse ponto, as lições da história recente são claras e cristalinas, como raramente são. Normalmente, o que a história ensina é ambíguo ou controvertido. Agora, não.

Vejamos. A Líbia foi atacada e destruída. Tinha bomba atômica? Não. O mesmo se pode dizer da Síria, outro país nuclearmente desarmado. O mesmo do Iraque, o mesmo do Afeganistão. A Venezuela é o exemplo mais recente.  Por outro lado, a Coreia do Norte, que conta com armas nucleares e mísseis de longo alcance, foi atacada alguma vez? Não.

É preciso dizer mais? Não creio, está claramente desenhado.

Confirmando essas lições, o que ficou claro em 2025 é que o governo Trump só respeita países que têm força bruta e capacidade de retaliar, leia-se, fundamentalmente China e Rússia. Mesmo os aliados tradicionais são desrespeitados. Por exemplo, os europeus, que são militarmente dependentes dos EUA, têm sido repetidamente desrespeitados e até mesmo publicamente humilhados, como nunca antes. Uma eventual ocupação da Groenlândia pelos EUA coroaria essa humilhação.

 Em face do contexto internacional, a nossa vulnerabilidade militar tornou-se um risco existencial. Precisamos, urgentemente, de uma revisão completa da política de defesa externa e um aumento dos gastos militares. É caro? Sim. Haverá “espaço fiscal”? Temos que abrir esse espaço à força – se é que pretendemos, de fato, viver como nação independente. Sem bravatas e sem demagogia, o Brasil deve também aprofundar a cooperação militar com a China e a Rússia.

Acrescente-se, para total clareza, que não se trata de defender o nosso país contra eventuais agressões de países vizinhos e de ser “a maior potência militar da América do Sul”. Isso é basicamente irrelevante no horizonte visível. O risco não vem do nosso entorno geográfico imediato, mas de uma  superpotência imperial ambiciosa e agressiva.

 Não ignoro, nem subestimo as barreiras que terão de ser superadas para colocar uma política vigorosa de defesa em marcha. Uma delas é de natureza histórica. A verdade é que o brasileiro está muito mal acostumado. Desde 1864, no início da Guerra do Paraguai, o território nacional não foi objeto de ataque nenhuma vez sequer. A exceção parcial a isso foi o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães no início da década de 1940, fato que levou à entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Ancorados nessa experiência feliz, passamos o tempo todo declarando o Brasil como um país em paz permanente, “deitado em berço esplêndido”. Compare-se com a experiência da China e da Rússia, países vitimados por repetidas invasões estrangeiras em grande escala. Chineses e russos estão preparados. Par a nós, o desafio atual é totalmente novo.

Como o Brasil não é alvo imediato, precisamos tirar partido do tempo que ainda temos, talvez apertado, para construir um poder de dissuasão apreciável e assim superar ou pelo menos mitigar, a nossa vulnerabilidade militar.

No caso brasileiro, a primeira tentativa do governo Trump será interferir, provavelmente de forma intensa, nas eleições presidenciais de 2026. Eleger um fantoche é o caminho mais rápido e eficaz  para dominar o Brasil. Seria uma vitória facílima, sem tiros. Mais uma razão para cerramos fileira em defesa da reeleição de Lula. O meu lema agora é: “Lula? Nunca critiquei”.

Caso sejamos bem-sucedidos na reeleição de Lula, o jogo mudará de 2027 em diante. Virão as ameaças, as medidas unilaterais, com o objetivo de alcançar a rendição do Brasil. Em caso de resistência nossa, não se pode descartar a agressão militar ou ameaças pesadas de agressão.

Toda atenção é pouca. Os Estados Unidos têm uma longa tradição imperial, intervencionista e belicosa. Atualmente, são uma superpotência em declínio e inconformada com a perda de poder relativo. Nada mais perigoso.

Para nós e outros povos, the writing is on the wall, como dizem os próprios americanos.

O sequestro de Maduro e a nova era da Doutrina Monroe na América Latina https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/forca-bruta-imperialista.html

Arte é vida

 

Van Gogh

Primórdios do cinema: Lumière – a aventura continua! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/primordios-do-cinema.html 

Minha opinião

Muito a esclarecer
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65  

A conta-gotas, diariamente se divulgam mais detalhes da falência do Banco Master, como que num enredo de uma série de TV. 

Agora é a contratação de influenciadores digitais para produzirem conteúdos negativos sobre o Banco Central e positivos sobre o Master e, naturalmente, limpar a barra do pivô do escândalo, o banqueiro (ou ex) Daniel Vorcaro.

De tudo o que se sabe até agora é possível divisar que o escândalo de grande dimensão envolve muita gente importante no mercado e nos círculos políticos de direita e extrema direita.

Os grandes bancos, líderes do sistema financeiro, desde o início se pronunciaram no sentido da apuração rigorosa dos fatos. Os fundos de investimento nem tanto. 

Briga de gente grande? Sim, certamente. Talvez até com acento em Conselhos de Administração no complexo midiático dominante. 

O sequestro do fundo público https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/fundos-depauperados.html 

América do Sul: ameaças e desafios

América do Sul: um continente partido e tutelado
A história sul-americana foi sempre condicionada por uma geografia extremamente difícil, por uma economia fragmentada e voltada para fora, e por uma submissão quase permanente à tutela militar da Inglaterra, no século XIX, e dos Estados Unidos, no século XX.
José Luís Fiori/Observatório do Século XXI 

E é possível afirmar, de alguma forma, que até hoje o continente se debate com esses constrangimentos originários e estruturais.

I. Uma geografia partida

O continente sul-americano está situada entre o Mar do Caribe, ao norte; o Oceano Atlântico, ao leste, nordeste e sudeste; e o Oceano Pacífico, a oeste. Sua superfície, de 17.819.100 km2, ocupa 12% da Terra e possui 6% da população mundial.

Está separado da América Central pelo Istmo do Panamá; e da Antártida, pelo Estreito de Drake, e tem uma extensão de 7.500 km desde o Mar do Caribe até o Cabo Horn, no extremo sul.

Cerca de quatro quintos do continente ficam abaixo da Linha do Equador, que corta Peru, Colômbia, Brasil e o país que leva o nome de Equador.

A América do Sul possui três grandes bacias hidrográficas: do Rio Orinoco, do Rio Amazonas e do Rio da Prata, e seus rios interiores possuem enorme potencial para navegação e aproveitamento de energia hidráulica. Os três sistemas drenam em conjunto uma área de 9.583.000 km2.

No entanto, o mais importante, do ponto de vista geopolítico, é que se trata de um espaço geográfico inteiramente segmentado por grandes barreiras naturais que dificultam enormemente sua integração física, como é o caso da Amazônia e da Cordilheira dos Andes, que tem 8 mil Km de extensão e atinge 6.700m de altitude,oferecendo apenas alguns pontos de passagem naturais.

Na região da Floresta Amazônica, predominam as terras úmidas; na região central do continente, áreas alagadas, como o Pantanal brasileiro e o Chaco boliviano; mais ao sul, há planícies e cerrados; e na costa leste, a floresta original cedeu lugar a agricultura, urbanização e indústria. O litoral atlântico é baixo e possui uma larga plataforma marítima, ao contrário do litoral do Pacífico, que possui grandesprofundidades e onde não existem plataformas continentais.

Nos Pampas de Argentina, Uruguai, Paraguai e sul do Brasil, encontram-se as terras mais férteis do continente e algumas das melhores do mundo. Existem, ainda, algumas pequenas áreas com bons solos nos vales andinos e na zona central do Chile, na planície equatoriana de Guayas e no vale colombiano de Cauca, além das terras roxas, no lado brasileiro da bacia do Paraná.

Por outro lado, as terras da bacia Amazônica e a maior parte das planícies tropicais são muito pobres e de baixa fertilidade, o que explica o fato de que a população das terras tropicais da Venezuela, Guiana e Suriname viva quase toda a poucos quilômetros da costa.

A combinação de montanhas e florestas tropicais também limita enormemente as possibilidades de integração econômica dentro do arco de países que se estende da Guiana Francesa até a Bolívia. No caso do Peru, por exemplo, existe uma clara divisão econômica e social em seu território, entre as zonas costeiras, onde se concentra a atividade extrativa e de exportação, e um interior extremamente isolado e atrasado economicamente.

O Chile, por sua vez, possui um clima temperado e terras produtivas, mas é um dos países mais isolados do mundo, o que dificulta sua integração econômica com os demais países do “cone sul” -Argentina, Uruguai e Brasil- e o transforma obrigatoriamente numa economia aberta a exportadores, voltada quase exclusivamente para os EUA e os países asiáticos do Pacífico.

O mesmo se pode dizer dos demais países sul-americanos.

Sua inserção na divisão internacional do trabalho, na condição de exportadores de commodities, reforçou sua ocupação econômica e demográfica inicial, dispersa e voltada para o litoral, sempre em busca dos mercados centrais, e com escasso interesse nos mercados regionais. Até o final do século XX, o Atlântico foi mais importante do que o Pacífico para o comércio de largo curso da América do Sul, e a presença de importantes bacias hidrográficas articuladas ao litoral atlântico, além da maior proximidade da Europa e dos EUA, desfavoreceu o lado pacífico do continente nosdois primeiros séculos de sua história independente.

Este panorama econômico vem mudando no século XXI, com o aumento da importância da bacia do Pacífico, graças ao deslocamento do centro mais dinâmico da economia mundial para o Leste e Sudeste Asiático, e à transformação da China no novodínamo da economia sul-americana. A “virada” ao Pacífico, entretanto, representa ao mesmo tempo um desafio e uma ameaça.

Desafio pela dimensão financeira do projeto de integração bioceânica, e ameaça porque o desenvolvimento deste projeto só se viabilizará com a participação da China, que está sendo definida pelos Estados Unidos, neste momento geopolítico do mundo, como seu grande competidor estratégico que deve ser cercado e bloqueado em todos os pontos do sistema econômico mundial.

II. Uma história tutelada

Do ponto de vista geopolítico, entretanto, a América do Sul viveu quase toda a sua história independente sob a tutela anglo-saxônica: primeiro da Grã-Bretanha, até o fim do século XIX, e depois dos Estados Unidos, até o início do século XXI.

Além disso, durante o século XIX, foi uma zona de experimentação do “imperialismo de livre comércio” da Grã-Bretanha, e no século XX em particular, depois da 2ª Guerra Mundial, transformou-se num aliado incondicional da política externa norte-americana, que promoveu ativamente a redemocratização e o desenvolvimento do continente na década de 1950.

Nos anos 1960, entretanto, depois da vitória da Revolução Cubana, os Estados Unidos apoiaram os golpes de Estado e a formação de governos militares em quase todo o continente sul-americano. E após o golpe que derrubou o presidente Salvador Allende no Chile, em 1973, incentivaram a mudança da política econômica dos governos sul-americanos, que abandonaram -em sua maioria- seu “desenvolvimentismo” do pós-guerra.

No início dos anos 1980, a política do “dólar forte” do governo americano provocou um forte desequilíbrio dos balanços de pagamento na América Latina e deu origem à “crise da dívida externa” que atingiu toda a região, liquidando definitivamente o modelo desenvolvimentista brasileiro que havia sido o mais bem-sucedido da região.

A crise se prolongou por toda a década, mas ao mesmo tempo conviveu com o fim das ditaduras militares e com o início dos movimentos de redemocratização de quase todos os países do continente. Mais uma vez, entretanto, os novos governos democráticos sul-americanos aderiram em conjunto ao projeto da “globalização liberal” liderado pelos Estados Unidos, e às políticas neoliberais do chamado “Consenso de Washington”, queproduziram sucessivas crises cambiais -no México, em 1994; na Argentina, em 1999; e no Brasil, em 2001-, antes de serem abandonados e substituídos por governos que tentaram levar à frente, durante uma década, uma agenda experimental antineoliberal, sem deixar de alinhar-se à estratégia geopolítica global de combate ao terrorismo comandada pelos norte-americanos.

Relembrando a história: depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Washington e New York, a política externa norte-americana mudou de rumo, relegando ao segundo plano as questões econômicas e priorizando o combate global ao terrorismo.

Nesse novo contexto, o governo republicano de George W. Bush manteve seu apoio ao projeto da ALCA de integração econômica da América do Sul, proposto na década de 90 pela administração Clinton, mas já sem o entusiasmo das administrações democratas.

Até porque a resistência sul-americana e, em particular, a oposição do Brasil e da Argentina após 2002, esvaziaram e logo engavetaram a proposta norte-americana em 2005.

Os EUA mudaram, então, seu projeto inicial e passaram a negociar tratados comerciais bilaterais com alguns países do continente. Assim, depois do fracasso das políticas neoliberais do Consenso de Washington, do abandono do projeto da ALCA e da desastrosa intervenção norte-americana a favor do golpe militar da Venezuela, em 2003, os Estados Unidos mudaram sua posição no que se referia aos assuntos continentais, atraídos cada vez mais pelos novos desafios que vinham da Ásia e do Oriente Médio, e do avanço da OTAN na direção da Europa do Leste.

Essa tendência se fortaleceu na segunda década do século XXI, quando o esfacelamento da “ordem mundial” estabelecida depois da Guerra Fria e a mudança do foco geopolítico mundial reduziram a quase nada a atenção americana em relação à América do Sul, o que não impediu que eles apoiassem os golpes de Estado de Honduras, Paraguai e Brasil durante o governo democrata de Barack Obama.

Na terceira década do século, entretanto, depois da catástrofe da pandemia de Covid-19 e frente ao desafio das guerras da Ucrânia e de Gaza, e mais ainda, face ao deslocamento do eixo dinâmico da economia mundial na direção da Ásia e da China, em particular, a América do Sul reduziu ainda mais sua importância geopolítica e geoeconômica no sistema internacional, dividindo-se de cima abaixo frente ao conflito entre Estados Unidos e Venezuela, e desintegrando-se como um ator geopolítico global.

Paz e soberania na Venezuela! Sangue por petróleo, não! https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_5.html