A violência plurissecular dos Estados Unidos
O
intervencionismo bélico dos Estados Unidos como mecanismo de preservação
imperial em um cenário de transição hegemônica inconclusiva
Tadeu Valadares*/A Terra é
Redonda
“Ou bem o
livre ou o determinado; não há lugar para o indeterminado”
(Fernando Pessoa).
1.
Diante da enormidade da crise
geopolítica de fato mundial, impossível, de momento e tendo em conta a
enxurrada dos acontecimentos cotidianos, elaborar mapa preciso de conjuntura
tão complexa quanto desnorteante. Daí que me limite a esboçar precário
portulano que traduz meu sentimento de estarmos vivendo à beira do abismo.
Aceita essa ideia inicial, algo se
torna em decorrência evidente: a ordem antiga se esgotou – há quem negue isso
–, mas outra ainda não surgiu, e há quem isso também negue. Para mim, estamos
vivendo paradoxal momento longo, perigosamente longo, dessa transição de um
mundo a outro, de uma hegemonia a outra. Seu término, indeterminável. Em
princípio, não se estenderá pelo que resta do século.
Tão enormes quanto a enormidade da
crise que é policrise são as expectativas que a provável quebra de hegemonia em
curso desperta no Sul global, em especial nos países – Estados, sociedades,
povos e nações – que desde 1945 constituem a periferia imediata e a periferia
extrema do sistema que funciona para afirmar o centro, beneficiário maior do
esquema global de extração de recursos do Sul global para o Norte, cujo
primeiro momento ‘orgânico’, no dizer dos historiadores da longa duração, foi o
ciclo genovês-espanhol nos séculos XV e XVI.
Para boa parte do Sul global, a
transição de um ciclo sistêmico a outro e de uma hegemonia a outra, bem como
seu vetor final, são favas contadas. Estamos prestes a deixar para trás a ordem
exaurida, estamos prontos para ingressar no mundo novo. Em outras palavras, o
grande jogo da política e da economia mundial nos favorece estruturalmente.
Para o novo que desejamos caminhamos com olhos abertos.
Mas quando se observa a coisa mais de
perto, depois de registrarmos o óbvio esgotamento da ordem caduca, pouco se
detecta quanto ao que será a base essencial a sustentar a ordem futura. Por
enquanto, invisível os delineamentos da estrutura formal jurídico-política e
diplomática eletivamente afim com esse projeto audaciosa e ideologicamente
inovador. Por enquanto inexiste a malha mínima de instituições suficientemente
cristalizadas – instituições, não grupos de países, não acertos informais –,
capazes de eficientemente operar o cotidiano do novo sistema, conferir-lhe vida
efetiva.
Nesse contexto, o BRICS e outros
agrupamentos mais ou menos similares são desde já evidentemente importantes,
mas ainda não deixaram de todo o embrionário. Ainda estão no casulo enquanto em
geral os vemos como belas borboletas. E, completando o raciocínio, até o
momento não ocorreram, nem parecem prestes a ocorrer, os grandes acertos de
poder que em última instância são os estruturadores da ordem nova como espaço
institucionalizado favorável ao exercício de algum novo tipo de hegemonia,
algum tipo novo de ciclo de acumulação de poder e de capital, ambos por igual
indeterminados.
2.
Estamos, portanto, na plena ambiguidade
que marca as grandes transições históricas de hegemonia. A ‘ordem onusiana’
perdeu quase completamente sua relevância, e o quase é cláusula minha de
prudência. A velha ordem representa o mundo velho nos estertores. Mas o novo
ainda não nasceu, não se sabe se nascerá e, se nascer, qual será sua real
fisionomia. Provável seja bastante diferente das tantas configurações
imaginárias que tantos analistas de grande fôlego e saber generosamente
desenham, quem sabe se guiados pelos votos do coração. O curso real do mundo
não disse sua palavra final. Ela, até pronunciada, persistirá como claro
enigma.
Pensando a partir dessa moldura algo
(?) heterodoxa, decerto coisa muito frágil, importante assinalar: para os da
longa duração, a decadência final do hegemon de turno e o
estabelecimento em cada ciclo de seu eventual sucessor foram sempre
mediatizados por período com características particulares, os chamados tempos
de “caos sistêmico”. Esse tempo de caos ocorreu tanto na passagem da hegemonia
genovesa-espanhola para a holandesa quando na transição da hegemonia de
Amsterdã para Londres. Também na ‘chegada à hegemonia’ de Nova Iorque em
substituição a londrina.
Parece-me bem mais do que aceitável
trabalhar com a hipótese de que – desde mais ou menos 50 anos atrás, e muito
especialmente no curso do século XXI – estamos vivendo o caos sistêmico
mediador da queda da hegemonia americana e da ascensão da China ao ápice do
sistema. Ordem e sistema que, ao permanecerem em última análise como sistema e
ordem, permitem ao novo hegemon dar início a novo e diferente
ciclo de acumulação de capital e poder.
Certo, isso tem muito de teórico,
especulativo, hipotético. A hegemonia prevista e desejada pela maioria do Sul
Global tem de deixar de ser teoria, especulação, hipótese. Tem que se afirmar
na prática da realidade efetiva. Lembrando Friedrich Engels, a prova da
materialidade do pudim está em comê-lo.
O conhecimento acumulado pelos
historiadores no que diz respeito às transições de hegemonia induz a certa
sobriedade: nas quatro passagens conhecidas de hegemonia, todas mediatizadas
por períodos de caos sistêmico, as guerras foram as parteiras da história. Em
todo esse período, que cobre o desenvolvimento do capitalismo histórico desde
ao menos o século 15, como os historiadores da longa duração viram a relação
entre guerra e capitalismo?
Para autores como Fernand Braudel
(1902-1985), Charles Tilly (1929-2008) e José Luís Fiori, octogenário como eu,
a guerra, fenômeno fundamental que singulariza o homo sapiens, nos
acompanha como uma espécie de invariante histórico.
Para Fernand Braudel, a constância das
guerras se expressa muito além das fronteiras do capitalismo histórico. A
guerra acompanha e conforma em grande medida toda a história da espécie“, como
se fosse uma necessidade biológica’. O americano Charles Tilly, ao analisar o
fenômeno no período que mais ou menos se inicia no século 15, realça : “De 1480
a 1800, a cada 2 ou 3 anos iniciou-se em algum lugar do mundo um conflito
internacional expressivo’. Diz ainda que “de 1800 a 1944, esse tipo de conflito
passou a ocorrer a cada 2 anos’. E sinaliza: ‘a partir da II Guerra Mundial, um
conflito internacional expressivo eclodiu a cada 14 meses’.
3.
Mais preocupante ainda, sugiro, o
ingresso da humanidade na era nuclear não enfraqueceu essa tendência ou pulsão
que vem dos tempos mais recuados. Agora, evidente para mim, a guerra é feita
nos moldes ditados pela expansão do modo de produção capitalista, processo e
dinâmica irremediavelmente conflitivos, vigentes no mínimo há mais de cinco
séculos.
Para José Luís Fiori, a guerra – em
suas diversas modalidades – é desde sempre a ultima ratio a que recorrem todos
os que exercem o poder tentando acumulá-lo, independentemente dos tipos ou
formas de vida social humana predominantes. E não há como, em se tendo poder,
deixar de obsessivamente acumulá-lo. Idealmente, acumular poder até exercer uma
espécie de monopólio temporário.
A guerra é, portanto, mais do que uma
possibilidade. É necessidade a que todas as formas sociais estão – queiram ou
não – submetidas. Diferentemente do dito por Fernando Pessoa, neste mundo – o
do poder – não há lugar para o livre nem para o indeterminado. Diria eu, então,
que só há lugar, nesse registro que é do mundo, para o que é determinado pela
própria lógica eternamente expansiva do poder. Eternamente, enquanto homens
houver.
Daí que a guerra seja copresente ao
arco inteiro da história humana, desde as organizações comunitárias e tribais
mais recuadas, passando pelas cidades, reinos, estados, repúblicas e impérios
antigos e medievais. Essa quase que necessidade bioógica, na formulação
‘braudeliana’, vige, creio que até mesmo com mais força, desde os começos do
mundo moderno. Sobredetermina, parece-me, os detinos dos estados nacionais ou
plurinacionais, dos impérios, repúblicas – entre elas a imperial –, e as
reveste com diversificadas formulações retóricas legitimadoras, muitas delas
imperiais.
Resumida de maneira obviamente abrupta
e incompleta as formulações de alguns dos principais historiadores da longa
duração – os que tentam fazer convergir a dimensão estrutural com a conjuntural,
ambas inseridas no corpo mais amplo da história humana –, façamos (outro?)
corte abrupto: deixemos essa moldura-macro e foquemos nossa atenção nos Estados
Unidos.
Ao fazermos isso, a violência
plurissecular que os Estados Unidos deflagaram ao longo de sua história – até
mesmo, via guerras contra os povos indígenas, no seu período de colônia
britânica – pode nos deixar com a sensação de que o que era o famoso cinza que
se põe sobre o cinza hegeliano ameaça de vez com a escuridão completa. A
escuridão nuclear que poria termo ao último voo do mocho de Minerva.
4.
Minha hipótese sobre a violência
plurissecular dos Estados Unidos talvez pareça no mínimo exagerada. Entendo.
Então, vamos a uma tentativa de ilustração da tese.
Quatro anos atrás, o Instituto Quincy
para Política Estatal Responsável (em inglês Quincy Institute for
Responsible Statecraft) circulou os resultados de ampla pesquisa sobre os
Estados Unidos e suas guerras. Resumidamente: de 1946 a 1989 (43 anos) os
Estados Unidos realizaram 104 intervenções militares; de 1990 a 2019 (29 anos),
112 intervenções foram feitas. No período pós-Guerra Fria coberto pela pesquisa
(1991-2022), mais de 100 intervenções militares em 31 anos.
No debate ocorrido no lançamento do
relatório do Instituto Quincy, John Mearsheimer sublinhou que de 1946 a 1989
(43 anos), Washington operacionalizou 104 intervenções militares. Em média, 2,4
intervenções por ano. Mas de 1990 a 2019 (29 anos), 112 intervenções americanas
ocorreram. Em média, 3.7 por ano. Ou seja, houve aumento do número de
intervenções e de sua média durante os tempos da ‘hegemonia liberal’ americana.
Isso ocorreu enquanto a ‘ordem internacional baseada em regras’ era cantada em
prosa e verso neoliberal no centro, na periferia imediata e na periferia extrema
do sistema internacional crescentemente em crise. Por quem, bem sabemos.
Desde 2022, o quadro não mudou para
melhor. Tanto assim que de certa forma contabilizando o estado bélico do mundo,
dois anos atrás o espanhol El país circulou matéria pela qual
informou estarem em curso 56 “guerras ativas entre países”. Também em 2024,
relatório elaborado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha registrou mais
de 120 conflitos armados a envolver cerca de 60 estados. Ou seja, mais ou menos
30% dos países que estão representados na Assembleia-Geral da ONU. A maioria
desses conflitos armados, para nenhuma surpresa nossa, se concentra na África e
na Ásia.
Simplificando escandalosamente o
panorama geopolítico mundial no registro bélico que vai muito além dele mesmo,
registremos que ele é pontuado: (a) pela guerra ou operação militar especial na
Ucrânia, em que os Estados Unidos desempenharam e desempenham papel
fundamental; e (b) pela guerra relâmpago de agressão à Venezuela, feita ao
arrepio de todas regras estabelecidas pela ONU, mas que numa subserviência com
medo e mácula foi aceita pelo Conselho de Segurança; e (c) pela ‘guerra
de escolha’ contra o Irã encetada por Washington e Tel Aviv.
Na verdade, guerra em dois estágios, o
dos 12 dias de junho passado e o atual, que no momento em que escrevo chegou ao
seu quinquagésimo-sétimo dia. Guerra que pode voltar ao estado mais ativo e
destrutivo a qualquer momento, dada a imprevisibilidade que caracteriza as
ações, intenções, gestos, falas e incoerências geopolíticas do governo
americano. Impossível vencer o Irã, mas bem possível para os Estados Unidos e
Israel nesse intento destruírem ‘nolens volens’ – dada a segura reposta
iraniana à terceira onda agressiva – toda a infraestrutura das monarquias do
Golfo e a maior parte da israelense. Isso seria uma espécie de suicídio que
levaria o capitalismo planetário a uma crise que muitos só encontram termo de
comparação no caos provocado pela crise de 1929.
Esses, os focos principais.
Indispensável, entretanto, não esquecer: o genocídio em Gaza e a falsa paz
imposta por Donald Trump e Benjamin Netanyahu com o beneplácito vergonhoso do
Conselho de Segurança; as violências cotidianas cometidas contra o povo
palestino na Margem Ocidental e em Jerusalém Oriental; a guerra de ocupação em curso
contra o Líbano, com remoção forçada de 20% da população libanesa antes
concentrada no sul do país.
Em todos esses ‘conflitos
internacionais expressivos’, para lembrar a categoria elaborada por Tilly, os
Estados Unidos ou são participantes ativos ou apoiadores pavlovianos de Israel.
Reflexo condicionado substituiu qualquer estratégia minimamente racional. Isso,
no caso de Israel como um quase-estado americano, sua condição desde ao menos
1967.
A quase perenidade com que os Estados
Unidos recorrem à guerra para manter o império se manifesta num dado nem tão
conhecido assim: desde o término da Segunda Guerra Mundial, a república
imperial – cada vez menos república, cada vez mais imperial e imprevisível – só
não esteve em guerra contra um ou mais países em três ‘anos fora da curva’:
1946, 1952 e 1974.
Arrisco especular, a despeito da frase
de Augusto Roa Bastos segundo a qual no futuro a gente entra de costas. De
costas, sim, tal como de costas está o Anjo de Paul Klee descrito por Walter
Benjamin na nona tese em Sobre a filosofia da história. Para mim,
dos resultados dessas duas guerras, a da Ucrânia e a resultante da agressão
cometida contra o Irã, em muito depende, para voltarmos ao início deste texto,
o surgimento com dose de clareza, em lugar de um ainda obscuro esboço de outra
ordem internacional que consagre uma nova hegemonia. As duas guerras bem podem
funcionar como aceleradores, dependendo dos respectivos vetores finais.
Mas apesar do papel e do peso desses
dois eventuais ‘aceleradores’, não creio que o mundo novo surja no prazo curto
de anos. A nova ordem continua em potência. Torná-la realidade efetiva, só no
longo prazo keynesiano, aquele que se aplica muito especialmente a todos os da
minha geração. Até lá é viver o momento tendencialmente catastrófico. Ou
não-catastrófico, como quer nossa esperança. Mas decerto caracterizado pela
vigência do caos sistêmico mediador. Viver é mesmo muito perigoso, como nos
ensinou Riobaldo.[1]
*Tadeu Valadares é embaixador
aposentado.
Nota
[1] Este texto é dedicado à professora
Paula Bastos, da UnB. Com a professora, alunos e alunas conversei, em 24 de
abril, sobre os temas aos quais voltei para esboçar este portulano à beira do
abismo.
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