07 março 2026

Diplomacia em segundo plano

Multilateralismo aos frangalhos
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   

 

A guerra Estados Unidos-Israel contra o Irã, que segundo Trump seria de curta duração e ataques cirúrgicos, dá sinais de que possivelmente se prolongará no tempo e guarda significado para além da região.

Confirma, por assim dizer, a falência do multilateralismo – a partir mesmo da ONU, que a cada dia cumpre papel quase que decorativo.

Normas internacionais de convivência entre as nações e gestão diplomática já não têm eficácia. Simplesmente são a cada dia mais ignoradas.

​Do ponto de vista militar, defesas convencionais são superadas por conflitos entre drones e mísseis de baixo custo versus sistemas de defesa sofisticados e dispendiosos. Ao invés de confrontos de curta direção, guerra prolongada.

Subproduto desse cenário e expressão do decrescente poder da superpotência decadente, os EUA enfrentam barreira provavelmente insuperáveis para convencer aliados no próprio Oriente Médio e na Europa a tomarem parte numa guerra que essencialmente não deles.

Pouco a pouco a lógica multipolar vai se impondo, na esteira do papel ascende da China e da própria Rússia.

O crepúsculo do império norte-americano https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/eua-em-decadencia.html

Humor de resistência


 Guto Respi

06 março 2026

Palavra de poeta

Errata
Mia Couto   

Quem é mortal, mente.

Mentirosos, 

ainda mais,
os tais
imortais.

Sem culpa uns e outros.


O verbo morrer

é que é sujeito falso
e de duvidosa acção.

Mais verdadeiro seria

se não fosse verbo.

Ou se conjugasse apenas

em forma passiva: ser morrido.

Como eu,
mais que as vezes que nasci,
fui morrido por ti.

E, assim, findo

num engano de rio:
simulando que morre 
mas sendo água eterna.

[Ilustração: Clóvis Graciano]

Leia também: "Tomara", um poema de Vinícius de Moraes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/palavra-de-poeta_10.html 

Humor de resistência

Enio

Trumpismo é neofascismo, uma ameaça a ser rechaçada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_26.html

Minha opinião

Política externa altiva e propositiva
Luciano Siqueira
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Não tem sido fácil a protagonistas de políticas públicas essenciais de o governo Lula difundirem, na mídia dominante, conteúdos essenciais. Entrevistadores e “analistas” costumam disseminar versões deturpadas, quando não pecam pela superficialidade extrema.

O ex-chanceler Celso Amorim concedeu entrevista ao site Phenomenal World, onde explicitou com clareza elementos da política externa altiva e ativa que tem contribuido para que o Brasil ocupe lugar de destaque na cena mundial.

Alguns destaques merecem nossa atenção.

Primeiro, o desmoronamento do unipolaridade norte-americana pós-debacle da União Soviética, agora açoitada pela transição a uma ordem multipolar. Ambiente geopolítico que convoca o Brasil a uma postura de não-alinhamento e de diálogo amplo, sempre tendo como fulcro os interesses nacionais.

O fortalecimento crescente do BRICs se insere nessa nova orem em formação possibilitando que novos protagonistas, inclusive de padrão médio, como o Brasil, exerçam papel ativo na redefinição necessária de novos mecanismos multilaterais de convivência entre as nações, mutuamente benéficos.

Um veio por onde possam emergir mecanismos de comércio que não dependam exclusivamente do dólar, visando proteger economias emergentes de sanções unilaterais e da volatilidade da política monetária norte-americana.

Mostra-se otimista – talvez ao exagero, a meu ver – quanto à possibilidade do Brasil atrair investimentos e tecnologia, deixando de ser apenas um exportador de commodities para se tornar um hub de "indústria verde".

Numa visão, digamos, de futuro, considera a viabilidade de um papel de liderança crescentemente ativa no subcontinente sul-americano, constituído como bloco de nações movidas a interesses comuns.

Quanto a esse propósito, o cenário atual – observo – é predominantemente negativo em razão de tendências politicas direitistas recém-fortalecidas.

O PCdoB e o acordo Mercosul-Comunidade Europeia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-do-pcdob.html

Quem aguenta?

A paciência que me falta 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 

Tudo bem, há uma consciência unânime de que a comunicação digital supre em boa medida a precariedade das relações humanas deterioradas em nossas cidades e mesmo a solidão.

Daí proliferarem grupos no WhatsApp feito erva daninha.

Tudo bem. Já que não podemos nos encontrar em torno de uma tulipa de chope ou uma boa rodada de café cremoso, que nos falemos através de mensagens digitadas no celular. 

Mas nem tudo é simples. Na verdade, predomina uma tremenda dispersão. 

O grupo é formado para discutir determinado tema e logo é tomado por saudações de toda espécie e até piadas de mau gosto. 

Quem aguenta? 

Confesso-me absolutamente incapaz de sobreviver à Babel, inclusive porque não me interessam detalhes da vida pessoal de ninguém. 

Se vamos debater determinado tema, o foco é indispensável. Ou não?

Leia também: A lógica mercantil em detrimento do bem-estar humano https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/abraham-sicsu-opina_29.html

Guerra também afeta nossa economia

Estreito de Ormuz como arma de guerra
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65   



Talvez seja exagero dizer que o Estreito de Ormuz é a "jugular da economia global", mas tem sim valor estratégico na defesa do Irã contra a agressão dos EUA e Israel.

Analistas afirmam que se trata do maior gargalo petrolífero do planeta, por onde passam entre 20% e 30% de todo o petróleo comercializado no mundo (cerca de 20 a 30 milhões de barris por dia).

Como consequência, a explosão de preços do petróleo: no início de março deste ano, o preço do barril de Brent já sofreu picos de alta superiores a 13%, com analistas projetando que o valor possa ultrapassar US$ 100 ou até US$ 140, caso o bloqueio persista.

Igualmente, há implicações sobre as exportações do Gás Natural Liquefeito (GNL). O Catar, maior exportador de do mundo, depende exclusivamente dessa rota. O fechamento interrompe o fornecimento para a Europa e Ásia, encarecendo a conta de luz e o aquecimento globalmente.

O Brasil não está imune

Como a Petrobras utiliza a paridade de preços internacionais, a disparada do barril pressiona o valor da gasolina e do diesel nas refinarias. Daí o risco de um efeito cascata no frete e no preço dos alimentos.

Também o agronegócio brasileiro é afetado. O Estreito de Ormuz é uma rota vital para o transporte de fertilizantes e ureia que vêm do Oriente Médio. O bloqueio ameaça a produtividade da próxima safra brasileira e eleva os custos de produção no campo.

E o mercado financeiro dá sinais de que também á atingido. O Ibovespa registrou quedas acentuadas (chegando a -4% em um único dia) devido à fuga de investidores para ativos seguros como o dólar e o ouro.

O receio de uma elevação da inflação pode levar o Banco Central a adiar a pretendida redução da taxa Selic.

Trump mente sobre risco nuclear do Irã https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/trump-mente-e-agride.html