Mulheres, jovens e idosos movem a força popular que reelegeu Lula
Rafaela Elisário e Flávia Calé destacam a mobilização nas ruas e nas redes e defendem avanços sociais, mais direitos para as mulheres e oportunidades para a juventude
Natália Padalko/Vermelho
“Devo essa vitória à juventude rebelde que se levantou em defesa da democracia. Eu devo essa vitória às mulheres que se rebelaram contra o feminicídio.” Ao agradecer aos dois grupos na comemoração da reeleição, Lula reconheceu a força de quem foi às ruas, mobilizou eleitores e entrou na disputa para impedir a volta da extrema direita à Presidência. Também saudou os idosos que foram votar e destacou o papel dos jovens que convenceram familiares a comparecer às urnas.
A vitória de 25 de outubro foi motivo de alívio e comemoração para quem passou semanas empenhado na campanha. Para Rafaela Elisário, presidenta nacional da União da Juventude Socialista (UJS), e Flávia Calé, secretária nacional da Mulher do PCdoB, o resultado demonstrou que a mobilização pode alterar os rumos do país. As duas destacam o protagonismo de seus segmentos e a expectativa de que essa participação ganhe espaço nas decisões do próximo governo.
Rafaela Elisário: a juventude entrou em campo para mudar a história
A reação ao resultado do primeiro turno começou rapidamente. Rafaela Elisário conta que a juventude não esperou uma orientação demorada para entender o tamanho da disputa e organizar a resposta. Foram três semanas de mobilização cotidiana, com estudantes e militantes nas ruas e nas redes sociais, em busca de votos para Lula.
“Quando a juventude se organiza com uma pauta coesa, com unidade de ação, a gente pode mudar o curso mesmo da história”, afirma.
A presidenta da UJS vê nessa experiência uma demonstração da capacidade de intervenção política dos jovens. A mobilização não se limitou a defender uma candidatura: envolveu a disputa pelo futuro do país, pela democracia e por condições de vida mais dignas para a população.
Rafaela considera que a vitória abre a possibilidade de avançar na construção de um Brasil soberano, comprometido com os valores democráticos e distante do autoritarismo que ela associa ao projeto bolsonarista. Para isso, porém, o país precisa enfrentar problemas que afetam diretamente a juventude, como a precarização do trabalho e a falta de empregos de qualidade.
A dirigente defende um modelo de desenvolvimento capaz de ampliar oportunidades e romper com a lógica neoliberal, que, em sua avaliação, continua a limitar as condições de vida dos trabalhadores. O próximo mandato, afirma, precisa ir além das conquistas já alcançadas.
“Esse quarto governo vai precisar ser um governo que, junto com o povo, consiga implementar transformações mais estruturantes”, diz.
A expectativa é que a participação que marcou a campanha continue a influenciar as decisões políticas. Para Rafaela, a juventude demonstrou que pode interferir nos rumos do país e quer seguir atuante na construção de um projeto nacional que ofereça perspectivas concretas para as novas gerações.
Flávia Calé: mulheres querem políticas públicas que ampliem sua autonomia
Flávia Calé descreve o alívio de quem atravessou uma campanha tensa e viu a mobilização popular garantir a vitória de Lula. “A sensação principal é de alívio, de leveza, de ufa. Podemos dormir em paz hoje, nesses próximos dias, até recomeçar a batalha que a gente vai ter pela frente”, afirma a secretária nacional da Mulher do PCdoB. Ao classificar a campanha como “heroica” e “incrível”, ela destaca o empenho de mulheres que se envolveram na disputa para defender a democracia e impedir retrocessos.
Para Flávia, a participação feminina está ligada à defesa de direitos que afetam diretamente a vida das famílias. Escola pública e em tempo integral, Sistema Único de Saúde (SUS), Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Pé-de-Meia ajudam a dividir responsabilidades de cuidado que ainda recaem desproporcionalmente sobre as mulheres, além de ampliar suas oportunidades de estudo e trabalho.
“É justamente o segmento que compreende a importância de um Estado que investe nos serviços públicos, que partilha o trabalho reprodutivo das mulheres brasileiras”, afirma. E resume: “As mulheres brasileiras querem mais Estado, querem mais políticas públicas, querem mais investimento em políticas que impactam suas vidas”.
O agradecimento de Lula às mulheres durante a comemoração da vitória traz uma expectativa para o próximo mandato. Flávia defende que esse reconhecimento se traduza em medidas para combater a pobreza feminina e a violência de gênero.
O feminicídio está entre as prioridades. Para a dirigente, esses crimes exigem uma resposta coordenada do poder público, com prevenção e proteção às vítimas.
“O feminicídio como um problema de segurança pública, um problema de Estado que tem que ser enfrentado”, defende.
Flávia também aponta a ampliação de creches e de serviços de cuidado como parte dessa agenda. Enquanto as responsabilidades domésticas e a criação dos filhos continuarem concentradas nas mulheres, elas terão menos tempo e oportunidades para estudar, trabalhar e participar da vida política. Dividir esse trabalho é, portanto, uma condição para ampliar a autonomia feminina.
A mobilização que levou Lula à vitória precisa continuar
O envolvimento de mulheres e jovens na campanha também reforçou, segundo Flávia, a importância de combinar organização nas ruas e disputa nas redes sociais. A dirigente avalia que a extrema direita construiu, ao longo de quase uma década, uma estrutura digital que mantém parte da população em bolhas de informação. O campo progressista ainda precisa avançar para compreender melhor o funcionamento das plataformas e ampliar o diálogo com esses eleitores.
A experiência da campanha deixou aprendizados sobre comunicação, organização e participação popular. Lula reconheceu essa força ao agradecer aos militantes e afirmar que o “exército” da campanha não deveria se dispersar. Também prometeu mudar a forma de governar e ampliar a participação da população nas decisões.
Para Flávia, manter a mobilização será importante para fazer avançar pautas que dependem de pressão social, como o fim da escala de trabalho 6×1.
“O Parlamento ainda é permeável à pressão popular, e a gente precisa se valer disso”, afirma.
A continuidade da participação política aparece, assim, como um ponto de encontro entre as duas dirigentes. Rafaela quer que a energia da juventude se converta em desenvolvimento, emprego e soberania. Flávia espera que o reconhecimento das mulheres se traduza em políticas públicas, autonomia e proteção contra a violência.
O resultado eleitoral trouxe a comemoração de uma vitória que ambas consideram fruto da mobilização coletiva. Agora, a expectativa é que mulheres e jovens tenham presença efetiva no governo e que suas demandas encontrem respostas nas políticas do próximo mandato. A campanha mostrou a capacidade desses setores de influenciar os rumos do país; o desafio será manter essa força na construção do Brasil que reivindicam.
Vitória histórica abre nova fase para o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/10/editorial-do-vermelho_0444637687.html



