12 abril 2026

Uma crônica de Ruy Castro

A mãe de Sua Senhoria
Graças à TV e à leitura labial, sabe-se agora o que os jogadores dizem ao brigar em campo. Muitos são mais velhos do que os juízes e não hesitam em mandá-los fazer certas coisas    
Ruy Castro/Folha de S. Paulo   
 



Foi-se o tempo no futebol em que os arranca-rabos entre os jogadores eram abafados pelos espasmos das torcidas ou inaudíveis pela distância do gramado.

Hoje, com a TV e a leitura labial, o que eles vociferam uns para os outros já não fica inédito. Graças ao dublador Gustavo Machado, pudemos acompanhar, por exemplo, a destreza de Neymar no castelhano ao se dirigir ao uruguaio Hernández no recente (2/4) Santos X Remo. Ao levar uma entrada do gringo, Neymar, descontrolado, pespegou-lhe uma penca de "Hijos de puta!" seguidos de "Cagón!" e "Pelotudo!". O último epíteto causou espécie —o que seria "pelotudo"? Fui ao dicionário: "idiota, imbecil, babaca". Enriqueci meu vocabulário.

Jogadores sempre bateram boca, mas, no passado, continham-se ao falar com o juiz. Os árbitros eram senhores de certa idade e apitavam enquanto o fole aguentasse. O mais famoso era o mais velho, mais forte e mais temido: Mario Vianna, ex-soldado da torturadora Polícia Especial de Getulio no Estado Novo (1937-45). Atuou até os 55 anos, em 1957, capaz de atirar no fosso quem o desacatasse. Depois tornou-se o primeiro comentarista de arbitragem do rádio.

Hoje há juízes de 30 anos, mais jovens do que muita gente em campo. Pelas dublagens de Gustavo, vemos que os jogadores se dirigem a eles pelo nome (e não por "Seu juiz") e, ao discordar de uma decisão, despejam: "Porra, Fulano, tá maluco??? Não viu que foi o filho da puta que me acertou??? Tá de sacanagem??? Tu é muito ruim!!! Vai te fudê!!!!!". O juiz ignora o conselho e não vai se fudê, mas nem sempre aplica ao desbocado o competente cartão.

Sua Senhoria precisa ser firme sem se ofender. Um momento memorável se deu no Botafogo X Flamengo de 14/3, em que, expulso, o iracundo zagueiro alvinegro Barboza encarou nariz com nariz o juiz Anderson Daronco enquanto lhe descompunha a senhora sua mãe. Qualquer um tremeria com a fúria de Barboza, mas Daronco, maior que ele, encarou-o de volta, sem mover uma narina e sem dizer uma palavra.

E Barboza foi tomar banho.

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Do nosso jeito

Treinar feito astronautas? Tô fora!
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65 
 


Minhas deficiências são muitas, tanto quanto reconhecidas incompetências. Uma delas se refere à prática sistemática de exercícios físicos. 

Ou seja, nunca fui adepto do que hoje se chama "treino" planejado, diário e sob avaliação técnica eventual. 

E, a essa altura da vida, instado por familiares e amigos a frequentar uma academia — arre! —, opto pelo sábio conselho do clínico e do cardiologista que me acompanham: a caminhada resolve.

De preferência, segundo eles, na rua ou no Parque da Jaqueira, aqui pertinho.

Mas no mezanino do edifício onde resido também serve.

Tudo bem. 

Mas será mesmo que a crescente parcela da população brasileira aderente ao fisiculturismo precisa copiar o modelo de exercício dos astronautas da missão Artemis 2?

Creio que não. Quem cultiva o frevo, o samba e a capoeira tem mais é que exportar nossa ginga e nosso desempenho.

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Sylvio: fantasma

É preocupante ver, segundo as pesquisas divulgadas, a razoável quantidade de pessoas que se dispõem a escolher Flávio Bolsonaro como candidato a presidente da República. Como uma pessoa que não controla seu intestino em um debate na televisão se posicionaria  diante de problemas de várias espécies e graus que o cargo é obrigado a enfrentar?

Sylvio Belém 

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Donald Trump e Benjamin Netanyahu cúmplices

Eis os fanáticos que o Irã está vencendo
Ocidente vê teocracia extremista em Teerã. Mas exame dos líderes de Washington e Tel Aviv revela psicopatia, narcisismo maligno e paranoia. Dizem-se “agentes de Deus”. Propõem a “violência descomunal”. Evocam as Cruzadas. Estão perdendo
Jeffrey D. Sachs/Outras Palavras
 


Quando líderes desequilibrados invocam catástrofes divinas como instrumento político, não são apenas seus inimigos que são consumidos. A menos que sejam detidos, todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas.

Eis a mensagem de Páscoa enviada por Donald Trump para o mundo:

Terça-feira será o dia das usina elétricas e o dia das pontes, tudo junto, no Irã.
Não haverá nada igual!!! Abram o maldito Estreito,
seus bastardos loucos, ou vocês vão viver no inferno
– AGUARDEM! Louvado seja Alá.
Presidente DONALD J. TRUMP 
” 

Donald Trump e seu parceiro em crimes de guerra Benjamin Netanyahu , estão travando conjuntamente uma guerra de agressão assassina contra o Irã, uma nação de 90 milhões de pessoas. Eles estão sob o domínio de três patologias combinadas. A primeira é a personalidade: ambos são narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que possuem o poder de comandar a aniquilação nuclear e, consequentemente, não se veem constrangidos por nenhum limite. A terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois homens que acreditam, e são informados diariamente por aqueles ao seu redor, que são messias realizando a obra de Deus. Cada patologia exacerba as outras, de modo que, juntas, colocam o mundo em um perigo sem precedentes.

O resultado é uma glorificação da violência sem precedentes desde os tempos dos líderes nazistas. A questão é se os poucos adultos do mundo — líderes nacionais responsáveis que permanecem comprometidos com o direito internacional e estão dispostos a sustentar essa postura — conseguirão conter essa situação. Não será fácil, mas eles precisam tentar.

Comecemos pelo transtorno psicológico subjacente. Narcisismo maligno é um termo clínico, não um insulto. O psicólogo social Erich Fromm cunhou a expressão em 1964 para descrever Adolf Hitler como uma fusão de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e personalidade antissocial em uma única estrutura de caráter. O narcisista maligno não é meramente vaidoso. Ele é estruturalmente incapaz de empatia genuína, constitucionalmente imune à culpa e movido pela convicção paranoica de que inimigos o cercam e devem ser destruídos. Já em 2017, o psicólogo John Garn ter e muitos outros profissionais alertavam para o narcisismo maligno de Trump.

Diversos psicólogos e psiquiatras renomados avaliaram Trump quanto à psicopatia usando a Escala Hare e obtiveram pontuações bem acima do ponto de diagnóstico. Veja, por exemplo, aqui. A psicopatia é melhor caracterizada como a falta de consciência ou compaixão por outros seres humanos.

Tanto Trump quanto Netanyahu se encaixam perfeitamente nesse perfil. A psicopatia de Trump ficou evidente quando as forças norte-americanas destruíram uma ponte civil, sem qualquer importância militar, em Teerã , resultando na morte de pelo menos oito civis e em mais de 95 feridos. Trump não demonstrou luto. Ele se regozijou e prometeu mais destruição. O discurso de Páscoa judaica de Netanyahu, da mesma forma, não continha uma única palavra em homenagem aos mortos. Nenhuma pausa. Nenhuma sombra de dúvida. Apenas o catálogo triunfante de inimigos que ele destruiu.

A paranoia alimenta a ameaça que Trump e Netanyahu fabricaram. A própria diretora de Inteligência Nacional de Trump, Tulsi Gabbard , testemunhou por escrito que o programa nuclear do Irã havia sido “aniquilado” e que a comunidade de inteligência “continua a avaliar que o Irã não está construindo uma arma nuclear”. A AIEA afirmou categoricamente que não havia evidências de uma bomba. O próprio funcionário antiterrorismo de Trump renunciou em protesto, escrevendo que “iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano”. O paran oico não precisa de uma ameaça real. Ele inventará uma, se necessário, para corresponder aos seus sentimentos de medo exagerado.

O maquiavelismo opera sem qualquer pudor. Trump disse ao mundo que a diplomacia sempre foi sua “primeira preferência”, enquanto, na mesma frase, se vangloriava de ter rompido o acordo nuclear com o Irã: “Foi uma honra fazê-lo. Senti muito orgulho em fazê-lo”. Ele destruiu a estrutura diplomática com as próprias mãos e, em seguida, culpou o Irã pela destruição. Depois, admitiu, casualmente, que a guerra não tem justificativa de autodefesa: “Não precisamos estar lá. Não precisamos do petróleo deles . Não precisamos de nada que eles tenham. Mas estamos lá para ajudar nossos aliados”. De acordo com a Carta da ONU, a autodefesa é a única bas e legal para o uso da força. Trump confessou que tal base não existe.

Há uma deformação específica que o poder inflige a certas personalidades. Ela torna-se especialmente aguda quando o poder em questão é ilimitado ou aparenta sê-lo. Com o comando de arsenais nucleares, Trump e Netanyahu não vivenciam o mundo como os outros. A disponibilidade de armas nucleares , para esses narcisistas malignos, não é um fardo de responsabilidade, mas uma extensão de seus eus grandiosos: “Eu posso fazer qualquer coisa. Eu posso arrasar qualquer coisa. Observem-me.” Não haverá autocontrole por parte de Netanyahu e Trump diante dessa grandiosidade delirante.

Trump internalizou completamente esse sentimento de impunidade. Em 1º de abril, diante das câmeras, prometeu bombardear o Irã até levá-lo “de volta à Idade da Pedra, à qual eles pertencem”. A expressão “à qual eles pertencem” é o veredito de um homem que se sente divinamente autorizado a julgar o valor de 90 milhões de pessoas e as desumaniza sem hesitar. Ele ameaçou repetidamente destruir a infraestrutura elétrica civil do Irã — um crime de guerra segundo as leis dos conflitos armados – como uma posição de negociação, para uma audiência global que, em sua maioria, mudou de canal.

Netanyahu comanda um Estado com cerca de 200 ogivas nucleares, nunca assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear e não opera sob nenhum regime de inspeção internacional. Ele viu Trump usar o poderio militar norte-americano com agressividade desenfreada e concorda que não há consequências. A segunda loucura alimenta a terceira: quando o poder não tem limites, o único freio interno que resta é a consciência. E o psicopata não tem consciência.

A falta de consciência é a patologia mais perigosa das três, porque é ela que remove o último freio interno possível. O estrategista que trava uma guerra injusta pode eventualmente calcular que os custos superam os ganhos e parar. O narcisista maligno que trava uma guerra por ego pode eventualmente esgotar as demandas do ego e parar. O psicopata intensifica a violência porque não conhece limites.

E, embora possa parecer inacreditável, o quadroé ainda pior. Tanto Trump quanto Netanyahu são aspirantes a messias. Eles se autoproclamam agentes de Deus. Para eles, interromper a guerra contra o Irã significaria que Deus estaria errado. E o autoproclamado messias também não pode estar errado, porque o messias e Deus se tornaram, na mente grandiosa deles, praticamente a mesma coisa.

Tanto Trump quanto Netanyahu reivindicaram explicitamente essa identidade messiânica. Trump se autodenominou “o escolhido”. A respeito da tentativa de assassinato contra ele em 2024, declarou: “Senti então, e acredito ainda mais agora, que minha vida foi salva por um motivo. Fui salvo por Deus para tornar a América grande novamente”. Netanyahu, em seu discurso na véspera da Páscoa judaica, não apenas invocou Deus. Ele se apropriou do papel de Deus na narrativa do Êxodo, enumerando dez “conquistas” do que chama de “Guerra da Redenção” e nomeando cada uma delas uma praga. O assassinato do aiatolá Khamenei foi chamado por ele de “Praga dos Primogênitos”. Em seguida, alertou o mundo:

Após as dez pragas do Egito, lembro que o Faraó ainda tentou prejudicar o povo de Israel, e todos sabemos como isso terminou.

No livro do Êxodo, esse final é o afogamento de todo o exército do faraó. Netanyahu estava ameaçando a aniquilação do Irã, na televisão, na linguagem das escrituras sagradas.

Ao redor de cada um desses homens há uma corte de bajuladores e fanáticos cuja função é sustentar a ilusão e impedir que a realidade penetre em sua consciência.

Pete Hegseth, o Secretário de Defesa, transformou o Pentágono em um teatro de guerra santa. Ele exibe uma tatuagem da Cruz de Jerusalém no peito e as palavras “Deus Vult”, “Deus o quer”, o grito de guerra das Cruzadas medievais, no braço. Realiza cultos cristãos mensais no auditório do Pentágono. Pediu ao povo americano que orasse “todos os dias, de joelhos” pela vitória militar no Oriente Médio “em nome de Jesus Cristo”. Em um desses cultos, ele orou em voz alta para que as tropas americanas infligissem:

Violência descomunal em nossas ações contra aqueles que não merecem misericórdia… Pedimos estas coisas com ousada confiança no poderoso nome de Jesus Cristo.

Em uma entrevista coletiva sobre a guerra com o Irã, Hegseth disse que os Estados Unidos “negociam com bombas.” Descreveu os líderes do Irã como “fanáticos religiosos” que buscam capacidade nuclear para “algum Armagedom religioso”, enquanto preside cultos mensais no Pentágono e declara que “a providência de nosso Deus todo-poderoso está lá, protegendo essas tropas”. Ele parece não ter consciência do espelho que está mostrando. Um secretário de defesa que ora por “violência avassaladora” em nome de Jesus, enquanto chama seus inimigos de fanáticos religiosos, definiu a palavra “projeção”.

Mike Huckabee, o embaixador dos EUA em Israel, fornece a base teológica. Pastor batista e fervoroso sionista cristão, Huckabee acredita que o conflito entre Israel e Irã é o cumprimento de profecias bíblicas — um passo necessário rumo ao Arrebatamento e à segunda vinda de Cristo. Ele enviou uma mensagem a Trump — que o presidente publicou nas redes sociais — comparando o momento a Truman em 1945 e ao lançamento das bombas atômicas sobre o Japão, instando Trump a ouvir “SUA voz”, referindo-se a Deus.

Em uma entrevista, Huckabee foi questionado sobre a concessão bíblica de terras que se estendia do Nilo ao Eufrates — abrangendo o Líbano a Síria , a Jordânia e partes da Arábia Saudita e do Iraque — e se Israel teria direito divino a tudo aquilo. Sua resposta foi direta: “Não haveria problema se eles tomassem tudo.”

O ministro das Finanças israelense de extrema-direita, Smotrich, por sua vez, publicou nas redes sociais : “Eu ♥ Huckabee”. O pastor sionista cristão John Hagee, cuja organização Cristãos Unidos por Israel tem sido uma das principais impulsionadoras do apoio evangélico norte-americano às guerras de Israel, comentou sobre a guerra contra o Irã e disse simplesmente: “ Profeticamente, estamos no momento certo ”. Franklin Graham, em um culto de Páscoa na Casa Branca, alimentou as ilusões messiânicas de Trump : “Hoje, os iranianos, o regime perverso deste governo, querem matar todos os judeus e destruí-los com fogo atômico. Mas o Senhor levantou o presidente Trump. O Senhor o levantou para um momento como este. E Pai, oramos para que o Senhor lhe dê a vitória”.

A Corte de Netanyahu: Ben-Gvir, Smotrich e os Colonos Messiânicos

Do lado israelense, o círculo íntimo é composto por duas figuras cujo radicalismo é tão extremo que eram consideradas párias políticos até Netanyahu usar seus votos para se manter no poder. Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional, é admirador do falecido Rabino Meir Kahane, cujo partido Kach foi designado como organização terrorista. Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, baseia sua ideologia no Rabino Zvi Yehuda Kook, que ensinava que a vitória militar de Israel em 1967 foi um mandato divino e que a colonização do território palestino é a vontade de Deus. Juntos, eles ocupam 20 das 67 cadeiras da coalizão de Netanyahu. Não apenas aconselham o primeiro-ministro, como compartilham de suas crenças e visão messiânicas.

Ben-Gvir usou seu controle sobre a polícia israelense para permitir que paramilitares colonos operassem contra palestinos na Cisjordânia . Bloqueou sistematicamente as negociações de cessar-fogo e reivindicou abertamente o mérito por atrasá-las. Pressionou pela concessão de direitos rituais judaicos no Monte do Templo, desafiando um status quo mantido por décadas, uma medida que autoridades de segurança israelenses alertaram que levaria diretamente a derramamento de sangue. Em agosto de 2023, declarou : “Meu direito, o direito da minha esposa e o direito dos meus filhos de circular pelas estradas da Judeia e Samaria é mais importante do que o direito de movimento dos árabes”. O Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia , Noruega, Eslovênia, Holanda e Espanha o sancionaram por incitar a violência, mas os Estados Unidos, sob a liderança de Marco Rubio, defenderam Ben-Gvir e criticaram essas sanções .

Smotrich é o mais metódico dos dois: menos teatral e mais perigoso. Transferiu sistematicamente a governança civil da Cisjordânia das forças armadas israelenses para o seu próprio ministério, canalizando centenas de milhões de shekels para infraestrutura de assentamentos de colonização, enquanto os orçamentos da Autoridade Palestina são deliberadamente estrangulados. Ordenou que seu gabinete formulasse “um plano operacional para a aplicação da soberania” de Israel sobre a Cisjordânia. Durante a guerra com o Irã, defendeu que Israel anexasse o sul do Líbano até o rio Litani, declarando que a guerra “precisa terminar com uma realidade completamente diferente”. A ideologia de Smotrich baseia-se no ensinamento de Kook de que o empreender assentamentos não é um ato político, mas sagrado — uma obrigação divina que deve ser cumprida independentemente do direito internacional, dos direitos palestinos ou da opinião mundial. As fronteiras de 1967, nessa teologia, não são uma realidade militar temporária. São a tarefa inacabada de Deus.

Nem Ben-Gvir nem Smotrich eram mais do que extremistas marginais antes de Netanyahu legitimá-los, integrando-os ao governo e ao seu círculo íntimo. Ele lhes deu poder sobre a sociedade israelense, e eles lhe deram o argumento religioso-nacionalista para justificar suas guerras como uma missão divina.

Nesse cenário de guerra santa, uma voz se fez ouvir com graça e clareza, salvando o mundo. O Papa Leão XIV tem clamado consistentemente pelo fim da violência. Durante uma missa na Quinta-feira Santa, em Roma, ele abordou a arrogância do poder:

Tendemos a nos considerar poderosos quando dominamos, vitoriosos quando destruímos nossos iguais, grandiosos quando somos temidos. Deus nos deu um exemplo — não de como dominar, mas de como libertar; não de como destruir a vida, mas de como dá-la.

No Domingo de Ramos, o papa foi novamente direto, dizendo que Jesus “não ouve as orações daqueles que fazem guerra, mas as rejeita”. Hegseth deu sequência a isso realizando outro culto no Pentágono, onde novamente orou por “violência desenfreada” em nome de Cristo.

O professor John Mearsheimer afirmou precisamente que os crimes que Trump e Netanyahu estão cometendo são os mesmos crimes pelos quais a liderança nazista foi enforcada em Nuremberg: guerra de agressão, anexação de território estrangeiro, ataques deliberados contra infraestrutura civil e punição coletiva. Isso não é um exagero retórico. São categorias jurídicas. O Tribunal de Nuremberg chamou o crime de agressão de “crime internacional supremo” — aquele que “contém em si o mal acumulado de todos” — porque é o crime que torna todos os outros crimes possíveis. Esses homens confessaram isso publicamente, em discursos transmitidos por emissoras internacionais.

Os mecanismos institucionais que existem para prevenir exatamente esse tipo de catástrofe, incluindo o Conselho de Segurança da ONU, o Tribunal Penal Internacional, o regime de não proliferação e as leis dos conflitos armados, estão sendo ativamente subvertidos pelos Estados Unidos.

Agora, os adultos do mundo precisam tentar deter essa loucura. O esforço multilateral em Islamabad, incluindo os ministros das Relações Exteriores do Paquistão Turquia , Egito e Arábia Saudita, trabalhando em conjunto com a iniciativa de paz de cinco pontos China-Paquistão, é um começo importante. A ele deve ser unido todo o peso das nações do BRICS, da Assembleia Geral da ONU e de todos os Estados que desejam viver em um mundo governado por regras, e não pelas ilusões de dois narcisistas malignos.

Quando líderes desequilibrados invocam catástrofes divinas como instrumento político, não são apenas seus inimigos que sofrem. Todos nós seremos vítimas das pragas de Netanyahu e de um eventual bombardeio de Trump ao Irã, levando-o à Idade da Pedra, a menos que outros líderes imponham limites a esses dois lunáticos.

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Ilustração: João Pereira Coutinho FSP

Leia também: "O erro de cálculo do século: aventura de Trump no Irã" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/inconsequencia-norte-americana.html 

Humor de resistência

 

Quinho

Sem agulha no palheiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/ 

Desvendando nosso satélite

O lado oculto da Lua – e o que ele revela sobre a Terra
O lado oculto não é escuro, só permanentemente invisível da Terra, consequência direta do acoplamento gravitacional entre os dois corpos.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN     

Quando a nave desaparece

Quando a missão Artemis II cruzou o lado oculto da Lua, em abril de 2026, repetiu um feito que, até então, só havia ocorrido na Apollo 8, em 1968. Por alguns minutos, a nave ficou sem contato com a Terra – um silêncio imposto pela própria geometria da trajetória.

Não houve pouso. A nave seguiu um arco preciso, uma curva de retorno livre a milhares de quilômetros da superfície. Ainda assim, ao atravessar o hemisfério invisível, os astronautas tocaram algo mais profundo do que a geografia: uma propriedade estrutural do sistema Terra–Lua – não um acaso, mas uma consequência dinâmica inevitável. 

Porque o chamado “lado oculto” não é um lugar.

É a manifestação visível de um processo físico de longo prazo.

Por que vemos sempre a mesma face 

A Lua não nos mostra todas as suas faces. O que vemos, noite após noite, é sempre a mesma metade. Isso porque ela está em rotação síncrona: leva o mesmo tempo para girar em torno de si e para orbitar a Terra – cerca de 27,3 dias.

Esse estado resulta de bilhões de anos de interação gravitacional. A atração terrestre deformou levemente a Lua; enquanto ela girava mais rápido, essa deformação ficava desalinhada, gerando um torque que dissipou energia e freou sua rotação. O sistema evoluiu até o alinhamento de mínima energia – e ali permaneceu [1].

O lado oculto, portanto, não é escuro. É apenas permanentemente invisível da Terra – consequência direta do acoplamento gravitacional entre os dois corpos. 

Uma origem violenta – e uma lua fora do padrão

A singularidade da Lua começa na sua origem. A hipótese dominante é a do impacto gigante: um protoplaneta (Theia) colidiu com a Terra primitiva há cerca de 4,5 bilhões de anos. O material ejetado formou um disco que se agregou, tornando o satélite esférico [2].

Daí decorre um traço raro: a Lua é, em grande medida, feita de material terrestre, com assinatura isotópica extremamente semelhante. 

Mas há algo ainda mais incomum: seu tamanho relativo. Com cerca de um quarto do diâmetro terrestre e aproximadamente 1/81 de sua massa, a Lua é grande demais para o padrão de satélites de um planeta rochoso. Essa desproporção faz do sistema Terra–Lua um caso limite – próximo de um sistema binário no contexto planetário.

Marés: oceanos, rocha – e o tempo do planeta

A mesma interação que travou a Lua se manifesta diariamente nas marés. Nos oceanos, ela ergue dois bojos de água que percorrem o planeta, organizando ciclos costeiros e ecossistemas. 

Mas há também marés na Terra sólida: a crosta se deforma continuamente – embora quase imperceptivelmente – sob a ação gravitacional da Lua e do Sol.

Essa distinção é crucial. As marés oceânicas são visíveis a cada dia; as sólidas são discretas, mas fundamentais para a dissipação de energia.

É essa dissipação – o atrito associado ao deslocamento das marés – que transfere momento angular, desacelera a rotação da Terra e afasta gradualmente a Lua [3]. 

A Lua não apenas afeta as marés – ela redefine o tempo físico do planeta.

O torque que mantém o eixo no lugar

A Lua exerce um torque gravitacional contínuo sobre o bojo equatorial da Terra – a leve deformação causada por sua rotação. 

Torque é a tendência de uma força a alterar a rotação ou a orientação de um corpo. No caso terrestre, atua como um estabilizador dinâmico, restringindo variações abruptas na inclinação do eixo.

Sem a Lua, o eixo da Terra seria muito mais sensível às perturbações de outros planetas. Nessa condição, a obliquidade poderia variar de forma caótica – como ocorre em Marte – oscilando entre ângulos extremos ao longo de milhões de anos de sua história [4].

Com a presença da Lua, porém, a inclinação do eixo terrestre permanece confinada a uma faixa relativamente estreita e estável. 

Do caos climático ao ritmo orbital

No início do século XX, o matemático e engenheiro sérvio Milutin Milanković demonstrou que, em escalas geológicas, o clima da Terra está ligado à forma como o planeta se move no espaço.

Os ciclos que levam seu nome são variações periódicas da órbita terrestre e da orientação de seu eixo, que modulam a distribuição da energia solar ao longo do tempo.

Eles existem porque a Terra não se move isoladamente: sua órbita e seu eixo são continuamente perturbados pela gravidade dos outros planetas – em especial de Júpiter, cuja massa domina essa interação.

Três componentes estruturam esse processo: a excentricidade (com periodicidade de ≈100 mil anos), que descreve o quanto a órbita da Terra é mais circular ou mais alongada; a obliquidade (≈41 mil anos), que corresponde à inclinação do eixo de rotação do planeta – responsável pelas estações do ano; e a precessão (≈19–23 mil anos), que é o lento “bamboleio” do eixo terrestre, semelhante ao movimento de um pião, alterando a orientação desse eixo ao longo do tempo.

O efeito combinado dessas variações não altera significativamente a energia total recebida do Sol. No entanto, na escala geológica, ele redistribui essa energia ao longo da superfície terrestre, alterando a duração e a intensidade das estações, especialmente nos verões de altas latitudes – o fator decisivo para o avanço ou recuo das grandes camadas de gelo [5].

Esses ciclos explicam o ritmo das glaciações recentes. Mas só existem como ciclos porque o sistema é estável.

É aqui que entra a Lua.

Sem ela, pequenas perturbações se amplificariam ao longo do tempo, levando a variações caóticas da obliquidade.

Nesse cenário, não haveria ciclos – haveria instabilidade.

Com a Lua, as perturbações são suavizadas.

Os ciclos de Milankovitch tornam-se, assim, um sistema coerente – um verdadeiro “metrônomo climático”. 

Civilização: uma janela estreita

A civilização humana surgiu há pouco mais de 10 mil anos – essencialmente no Holoceno.

Não era “destino”, e sim uma janela de oportunidade. Agricultura exige estabilidade. O surgimento de sociedades complexas exige previsibilidade. 

É plausível que tenhamos emergido em um intervalo particularmente benigno desses ciclos – cuja regularidade depende da estabilização proporcionada pela Lua.

A Lua não “produz” a civilização.

Mas delimita o regime físico em que ela pode surgir.

E o campo magnético? Um papel indireto

O campo magnético terrestre nasce na parte líquida do núcleo de nosso planeta, como um dínamo geofísico.

A Lua não o controla diretamente. Mas, ao desacelerar a rotação da Terra, ela influencia um parâmetro-chave desse processo: a taxa de rotação do planeta. 

Além disso, as interações de maré contribuem para o orçamento energético interno.

A influência é indireta, mas estrutural.

Raridade cósmica – e o que isso sugere 

A combinação Terra–Lua – impacto gigante, grande massa relativa, estabilização do eixo e efeitos de maré – não é apenas incomum.

Ela pode ser um fator crítico na emergência de ambientes estáveis.

Entre os milhares de exoplanetas já detectados, não há análogo claro com essa combinação. Mais do que curiosidade, isso sugere que sistemas assim podem ser raros – e potencialmente relevantes para a eventual habitabilidade. 

Isso sugere que a estabilidade necessária à vida complexa pode ser mais rara do que supomos.

O que o lado oculto revela

A Lua parece imóvel. Mas estabiliza o eixo, regula os oceanos, alonga os dias e organiza o tempo profundo do clima.
 

O lado oculto não é um enigma distante.

É a evidência de um equilíbrio dinâmico raro.

Quando uma nave desaparece atrás da Lua, ela não entra apenas em uma região sem comunicação – ela atravessa a fronteira entre o fenômeno visível e a estrutura que o torna possível. 

Mais do que um satélite – uma condição

Talvez a melhor forma de entender a Lua seja esta: ela não é apenas o objeto que ilumina a noite – é a condição silenciosa que torna o dia seguinte previsível.

E, em outros mundos, talvez não falte apenas uma lua – falte o tipo de estabilidade que permite ao tempo se acumular e à vida persistir. 

Bibliografia

1.  Murray, C.D. e S.F. Dermott, Solar System Dynamics. 1999, Cambridge: Cambridge University Press.

2.  Canup, R.M. e E. Asphaug, Origin of the Moon in a giant impact near the end of the Earth’s formation. Nature, 412(6848):708-12 (2001).
 

3.  Williams, G.E., Geological constraints on the Precambrian history of Earth’s rotation and the Moon’s orbit. Reviews of Geophysics, 38; 37-59 (2000).

4.  Laskar, J., Stabilization of the Earth’s obliquity by the Moon. Nature, 361; 615-617 (1993).

5.  Hays, J.D., J. Imbrie e N.J. Shackleton, Variations in the Earth’s orbit: Pacemaker of the ice ages. Science, 194; 121-1132 (1976).

Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências

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Leia também: A inteligência artificial e a nova fronteira da desigualdade no Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/ia-desigualdade-social.html

Palavra de poeta

diáspora
Cida Pedrosa   

abro os olhos
e a quarta-feira é cinza

as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel

é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício

diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão

sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão

abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto

a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim

[Ilustração: Ben Fenske]

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