07 abril 2026

Minha opinião

Sinal de competência de Victor Marques 
Luciano Siqueira 
instagram.com/lucianosiqueira65     

Sempre há uma expectativa algo tensa, ou simplesmente curiosa, em relação ao governante que assume, especialmente quando se trata de jovem militante. 

Acontece agora com o novo prefeito do Recife, Victor Marques. 

Quanto ao desempenho administrativo, provavelmente predomine o reconhecimento de que nos últimos seis anos, trabalhando lado a lado com o ex-prefeito João Campos, bem sucedido na gestão, Victor simplesmente siga a rota da eficiência. 

Mas a política há de estar sempre no posto de comando, como se diz. Antes de gestor administrativo, o prefeito é líder político. 

Daí merecer destaque, no discurso que ontem proferiu por ocasião de sua posse, na Câmara Municipal, o compromisso de marcar o seu governo como "de escuta e diálogo", com toda a sociedade e, na esfera política, incluindo a oposição. 

Nos 16 anos em que estive vice-prefeito, precisamente neste aspecto procurei colaborar diligentemente, mantendo sempre o diálogo com a oposição parlamentar, partidária e nas demais esferas. 

Na verdade ajudei, tão somente isso, não será exagero dizer, pois tanto João Paulo como Geraldo Júlio, de moto próprio, sempre valorizaram esse aspecto da gestão. 

Nas muitas dezenas de oportunidades em que assumi o cargo jamais sancionei ou vetei projeto de lei oriundo da Câmara Municipal sem antes conversar pessoalmente com o vereador ou vereadora proponente, fosse da base governista ou da oposição. 

Era o que o histórico dirigente comunista João Amazonas nos ensinava: sejamos combatidos por nossas ideias, jamais por atitudes inconvenientes. 

Saúdo o prefeito filiado ao PCdoB: "sucesso, camarada!"

[Foto: Blog Dellas]

Leia também: "Arriscada aposta economicista" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html

Dica de leitura


“Trabalhadores do Brasil: discursos à nação”, uma seleção rigorosa dos principais discursos proferidos por Getúlio Vargas, desde sua ativa passagem pela Faculdade de Direito de Porto Alegre até a famosa carta testamento.

Com organização e comentários do aclamado jornalista Lira Neto, a obra dá voz, sem filtros, a um dos mais importantes líderes políticos da história do Brasil.
Com prefácio do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o livro revela as várias facetas de Getúlio Vargas. Para Lula, “Getúlio foi muitos em um só: o revolucionário de 1930, o ditador do Estado Novo, o estadista que plantou as bases de um país industrializado, livre da tutela das potências estrangeiras e menos desigual. O mesmo Getúlio que, depois de atacar o comunismo e o fascismo, investiu também contra o capitalismo, e chegou a defender uma transição pacífica para o socialismo”.

"Getúlio trouxe para o centro da arena política questões que permanecem atuais: o Estado como indutor do desenvolvimento, a defesa da soberania nacional e o combate à desigualdade e aos privilégios, entre outras (...). São temas que até hoje, oitenta anos depois, ainda enfrentam a oposição das forças e dos interesses contra o povo." - LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

"A memória em torno de Getúlio Vargas é um território em permanente disputa, comportando devoções e ódios. De um lado, há os que veem apenas o ditador autoritário do Estado Novo, que perseguiu adversários, calou dissidências e, baseado na censura e na propaganda, promoveu o culto à própria personalidade. De outro, os que o identificam como o líder nacionalista, condutor das massas, “pai dos pobres”, protetor da classe trabalhadora. Tentar isolar qualquer um desses polos, de forma maniqueísta, jamais dará conta da figura pública mais complexa e ambivalente da história brasileira." - LIRA NETO

Editora Contracorrente – adquira nas livrarias ou pela internet.

Leia também "Arriscada aposta economicista" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/04/minha-opiniao_2.html

Arte é vida

Alice

Manuel Bandeira "O último poema" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/palavra-de-poeta_23.html 

 

Minha opinião

Meus amigos na varanda
Luciano Siqueira   

Costumo dizer que tenho um milhão de amigos — e isso me faz um bem enorme!

Inimigos pessoais não os tenho. Pelo menos que eu saiba.

Alguns desafetos, certamente. Nas redes sociais. Todos em razão das minhas posições políticas, quer dizer: gente que não concorda comigo e que se deixa contaminar pelo vírus antidemocrático da intolerância.

Estes se manifestam de vez em quando. Agressivos, desrespeitosos, odientos. Mau humorados. Não querem debater, limitam-se ao desaforo. Não tenho tempo sequer para me deter em suas diatribes; os ignoro tranquilamente e os bloqueio.

Já os amigos e amigas me dão um enorme prazer, inclusive quando me criticam e expressam opiniões diferentes das minhas.

Conservo boas amizades construídas no curso da luta política, desde o movimento estudantil na década de 60 do século passado, exatamente com pessoas de correntes políticas divergentes. Afinidades que perduram até hoje e que, paradoxalmente, brotaram em meio a intensas polêmicas.

Essa é uma das razões da minha profunda gratidão a duas entidades que me educaram assim: a minha mãe Oneide, para quem desrespeitar a opinião do outro era “falta de caridade”; e ao PCdoB, que forma seus militantes para a busca da unidade entre os diferentes.

Pois bem. Nessa matéria de amizades prazerosas acrescento também uma penca de beija flores e canários da terra, que visitam a varanda, a área de serviço e a janela do meu quarto, em meu apartamento, onde encontram estrategicamente dependurados pequenos bebedouros contendo uma garapa feita de água e mel.

Especialmente na varanda, onde me quedo numa rede e alterno a leitura, o devaneio, o sonho e o sono. 

Na rede, à noite, quando posso, às vezes admiro a lua, outras vezes converso com as estrelas.

Durante o dia, bem cedinho, antes de sair para a caminhada matinal, ou em momentos vespertinos do sábado ou domingo (quando a agenda permite), meu diálogo é com eles, meus amigos beija flores e canários da terra. 

Falamos linguagens diferentes, é verdade. Mas creio que nos entendemos muito bem. Eles bebem da água adoçada, circulam pela varanda, pousam sobre os punhos da rede, emitem sons harmoniosos e me olham com afetuosa curiosidade.

Eu os observo encantado e me permito reminiscências de criança, quando imaginava o teor de conversas entre os pássaros e atribuía papéis e “missões” aos muitos guerreiros do meu exército de canários, pintassilgos, galos de campina, azulões...

Nunca fui inclinado a ter em casa animais de estimação — cães, gatos e que tais. Por um período curto, quando na clandestinidade, um pequeno cágado circulava pela casa.

Passarinhos, sim — porém preferencialmente dessa forma como convivo com os beija flores e os canários da terra: livres para virem até aqui quando necessitarem e sair quando quiserem, jamais presos em gaiolas.

Da mesma forma como desejo que vivam meus amigos e amigas: livres para sonhar, amar, pensar e lutar segundo suas crenças e ideais. Sempre.

(Uma crônica de 2017)

"Talvez um ano meio morno e cinza. Só isso" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_94.html

Postei nas redes

Na décima rodada do primeiro turno do campeonato brasileiro da série A, metade dos clubes já dispensou seus técnicos. Haja inconsequência!  

"Ai de ti, futebol brasileiro" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/qual-futebol.html 

Palavra de poeta

Faz anos navego o incerto
Caio Fernando Abreu     

Faz anos navego o incerto.
Não há roteiros nem portos.
Os mares são de enganos
e o prévio medo dos rochedos
nos prende em falsas calmarias.
As ilhas no horizonte, miragens verdes.
Eu não queria nada além
de olhar estrelas
como quem nada sabe
para trocar palavras, quem sabe um toque
com o surdo camarote ao lado
mas tenho medo do navio fantasma
perdido em pontas sobre o tombadilho
dou a face e forma a vultos embaçados.
A lua cheia diminui a cada dia.
Não há respostas.
Queria só um amigo onde pudesse jogar o coração
como uma âncora.

[Ilustração: Pablo Picasso]

Leia também "O bolero e o mar", poema de Cida Pedrosa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/palavra-de-poeta_30.html 

06 abril 2026

EUA: direita dividida

A disputa entre tradições rivais da direita americana
Ao trocar a operação de “polícia global” na Venezuela por uma guerra aberta no Irã, Donald Trump abandonou o “America First” que unificava a direita e reabriu a velha disputa entre neoconservadores intervencionistas e paleoconservadores isolacionistas
Marina Basso Lacerda/A Terra é Redonda   


Repercute no Brasil o pedido de explicações, feito por Alexandre de Moraes, sobre a fala de Eduardo Bolsonaro na Cpac (Conferência de Ação Política Conservadora). Na definição do ex-deputado, o evento é a “Copa do Mundo” da direita, que foi realizado no Texas em 28 de março.

Donald Trump, atual presidente dos EUA, pela primeira vez em 10 anos se ausentou do encontro, o que foi atribuído a uma cisão ocorrida no MAGA (Movimento Faça a América Grande Novamente) por conta da guerra no Irã.

Ruptura com os princípios de 2016

Tucker Carlson, um dos principais defensores das ideias de Donald Trump na grande mídia, classificou a ofensiva ao Irã como abandono dos princípios de 2016 e manifestou forte indignação com o custo humano das guerras na região, incluindo a morte de civis.

Joe Kent, veterano e voz influente entre setores da base, então diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, apresentou sua renúncia por não poder continuar, “em boa consciência”, associado a uma guerra que, segundo ele, não atendia a um “interesse nacional vital”. Joe Kent argumentou que havia prometido a si mesmo, depois de suas experiências no Iraque, que não voltaria a apoiar decisões que enviassem jovens norte americanos para morrer em campos de batalha estrangeiros.

Stewart Rhodes, fundador da organização de extrema direita Oath Keepers, anunciou seu abandono do Maga, atribuindo a mudança de atitude de Donald Trump à influência do que chamou de “sionismo” e afirmando que a decisão havia provocado uma divisão interna no movimento.

No Congresso, Thomas Massie apresentou uma Resolução de Poderes de Guerra e criticou abertamente a administração por não oferecer uma justificativa clara para a intervenção. No plenário, questionou: “Não aprendemos nada?”, referindo-se aos fracassados “experimentos de mudança de regime” do passado.

Parte da direita midiática também se voltou contra a incursão no Irã, incluindo comentaristas como Megyn Kelly, durante uma divisão crescente no ecossistema Maga.

A insurreição tem como núcleo o rompimento de Donald Trump com os princípios que estruturaram sua campanha em 2016 – o fim das “guerras eternas”, o nacionalismo econômico e a prioridade ao “norte-americano esquecido”. Esses compromissos, condensados na fórmula America First.

Para compreender a natureza dessa ruptura, é necessário recuar às raízes da fragmentação da direita norte-americana no pós-Ronald Reagan, marcada pela emergência de duas correntes rivais: o neoconservadorismo e o paleoconservadorismo – tradição da qual o trumpismo recupera elementos centrais.

Neoconservadores vs. paleoconservadores

O neoconservadorismo emergiu como uma coalizão de intelectuais, empresários, direita cristã e setores da classe média, que elegeu Ronald Reagan em 1980. Sua plataforma fundia valores morais tradicionais ao neoliberalismo econômico, defendendo uma projeção externa dos EUA como potência dominante no combate à União Soviética.

Com o fim da era Ronald Reagan e a queda do Muro de Berlim, essa coalizão perdeu seu líder agregador e seu inimigo externo primordial. Com isso, ocorreu uma cisão, que marcou o início de uma disputa pela alma da direita norte-americana.

Os neoconservadores, de um lado, passaram a advogar pela liderança global; os paleoconservadores, por sua vez, defendiam uma visão de país voltada para dentro, centrada na suposta homogeneidade étnico-cultural e no cristianismo –uma reação ao que viam como um globalismo desenraizante.

Os atentados de 11 de Setembro deram impulso definitivo à “política externa com fins morais”, justificada com base em uma suposta missão civilizatória. Do outro lado da fratura, os paleoconservadores se reivindicam herdeiros do “conservadorismo tradicionalista” ou “velha direita” pré-Segunda Guerra Mundial.

Pat Buchanan, pilar do movimento, direcionou sua crítica à elite transnacional e ao livre-comércio, que teriam sacrificado a soberania nacional e deixado para trás os “americanos esquecidos” –a classe trabalhadora cujos empregos e comunidades foram erodidos pela globalização. É precisamente dessa tradição que brota a genealogia intelectual do trumpismo e seu slogan America First.

Comparação Venezuela/Irã

Donald Trump, quando da captura de Niol´s Maduro na Venezuela, em 3 de janeiro, criou um modelo paleoconservador de intervenção, ancorada inteiramente na política interna dos Estados Unidos: combate às gangues de drogas que assolam os norte-americanos, retornos financeiros e nenhuma baixa estadunidense. Ou seja, ele equilibrou os princípios de movimento de raízes antiintervencionistas com uma ação militar ousada. Conduzida pelo Departamento de Justiça, foi uma verdadeira operação de “polícia global”.

Mas a invasão do Irã, ocorrida menos de 3 meses depois, teve uma narrativa totalmente oposta, resgatando o neoconservadorismo.

Se na Venezuela a ação foi blindada sob o rótulo de uma “operação de captura de narcoterrorista”, no Irã o governo de Donald Trump ressuscitou o espectro das intervenções de larga escala. A promessa do “risco zero” evaporou-se diante das primeiras baixas norte-americanas em solo persa, quebrando o contrato emocional de proteção aos “nossos rapazes” que fundamentava o America First.

Em vez do cálculo pragmático de recompensas, o discurso migrou para o messianismo neoconservador: a retórica de “libertar o povo iraniano” e a imposição de uma mudança de regime. Onde antes havia um espetáculo punitivo de baixo custo e alta lucratividade para consumo interno, surgiu uma guerra aberta de desgaste, drenando recursos e expondo a face de um imperialismo clássico que o eleitorado de Donald Trump acreditava ter enterrado com a “velha direita”.

Essa inflexão, embora não seja inédita, é de outra ordem: diferentemente de episódios como a Síria em 2017, trata-se agora de uma mudança sustentada, com custos humanos e políticos que tornam inviável a antiga ambiguidade do trumpismo.

Nomes como JD Vance emergem como vetores dessa inflexão ao tentarem converter a ofensiva em um exercício de pragmatismo militar e saída estratégica. Ao defender que os “objetivos foram atingidos” e focar na destruição da capacidade iraniana como passo para a negociação, JD Vance acaba por esvaziar o isolacionismo visceral do America First conferindo uma face de eficiência técnica a uma guerra que a base original do movimento preferia nunca ter iniciado.

O trumpismo, portanto, deixa de ser síntese e volta a ser campo de disputa entre tradições rivais da direita americana. A oscilação recente entre ameaça de escalada e acenos de negociação – prontamente negados por Teerã – não constitui mera ambiguidade tática, mas sinaliza a desarticulação de um projeto que já não consegue alinhar discurso, base social e ação de governo. E isso se expressou no grande encontro da direita mundial.

É verdade que o Cpac teve temas unificadores: apoio às deportações e políticas duras de segurança. Contudo, a fratura sobre o Irã foi incontornável. De um lado, o príncipe iraniano exilado Reza Pahlavi elogiou ações dos Estados Unidos contra o regime iraniano e defendeu sua derrubada como caminho para a libertação do país. Do outro, o deputado Matt Gaetz alertou que a guerra afetaria diretamente a população e deixaria os EUA mais pobres e menos seguros.

Não por acaso, Donald Trump ausentou-se do encontro pela primeira vez em 10 anos: o líder que organizava a coalizão já não consegue falar a uma base que deixou de ser una.

*Marina Basso Lacerdadoutora em ciência política pelo Iesp/Uerj, é atualmente Chefe de Gabinete do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Autora do livro O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro (Zouk). [https://amzn.to/41l3IcH]

Publicado originalmente no portal Poder360.

Financeirização, fraude & especulação https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/financeirizacao-fraude-especulacao.html