18 janeiro 2026

Palavra de poeta

Timidez
Cecília Meireles   

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

- mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...

- palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

- que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

- e um dia me acabarei.

[Ilustração: Amedeo Modigliani]

Leia também "Os teus pés", poema de Pablo Neruda https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/palavra-de-poeta_13.html 

Humor de resistência

Cristiano Siqueira 

As duas cabeças do monstro que assombra o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/bastioes-da-direita.html  

Postei nas redes

No mundo ilusório e narcisista das redes sociais, quase já não existem pessoas comuns; todas olham-se a si mesmas com lentes de aumento multicoloridas. 

Programas controlam o funcionário no home office https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/superexploracao-digital.html 

Minha opinião

Enfim, descubro-me um cidadão desinformado
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65 

Realmente, uma descoberta e tanto. Dou-me conta de que, apesar dos esforços diários, sou um cidadão relativamente desinformado. Pois li, dias atrás, em matéria de destaque na Folha de S. Paulo que a modelo Luiz Brunet fez 51 anos e decidiu retirar o silicone dos seios. E eu nem sabia que a moça tinha posto silicone, nem nos seios nem noutras partes do corpo, muito menos os motivos que a levam agora a dispensar o disfarce.

A notícia, obviamente, é importantíssima. Se não fosse, um jornal de circulação nacional não lhe daria tanto espaço. Eu é que estou por fora.

Isto apesar de ler cotidianamente os principais jornais do país, visitar portais e sites de notícia e opinião - sempre com a atenção focada no que me parece verdadeiramente importante.

Mas tenho errado, sim, nessa coisa de foco no que vale a pena ler. Fico devendo à La Brunet por não acompanhar sua vida em detalhes, assim como a outras celebridades e outras tantas personalidades nem tanto. 

Assim, peço desculpas ao grande empresário do setor financeiro por somente ontem ter sabido que nas horas vagas cultiva pimentas de diversas espécies. Para relaxar, diz ele, ao repórter atento.

Devo sim, reconheço. Como não sabia que um ex-presidente da República, reconhecido nos salões mais sofisticados pela sua finura e bom gosto, coleciona cinzeiro de avião - daqueles que existiam antes da interdição aos fumantes em voo, encravados no braço do assento? Um leve movimento com a unha e se tinha o cinzeiro à mão. Não sei quantos estão catalogados na coleção particular do ilustre homem público, mas certamente ali jazem como relíquias da Varig, VASP, Transbrasil e até, quem sabe, de companhias mais antigas, como a Panair e o Loyd Aéreo. Que os guarde com o zelo próprio dos colecionadores.

Lembro vagamente de um telefonema bisbilhotado por repórter de jornal sensacionalista, em que o príncipe Charles dizia à amada Camiila (ex- Parker-Bowles) que gostaria de ser um Tampax, absorvente íntimo, para estar sempre ali naquele lugarzinho cobiçado. Mas nunca me passou pela cabeça que o prestigiado monarca tivesse se convertido em colecionador de milhares de marcas de absorventes comercializadas mundo afora, conforme pude ouvir numa mesa de restaurante ao lado, onde animado grupo debatia amenidades.

Aliás, não tenho o menor interesse nesse tipo de informação. Mas fico com uma ponta de dúvida: que espécie de gente sou assim tão avesso a notícias destacadas sobre hábitos e desejos de figuras badaladas? Afinal, se a grande mídia dá tanta importância, o futuro da Humanidade pode depender dessas coisas e eu é que não alcanço tamanha verdade. Sei não. 

(Uma crônica de novembro de 2013 novembro, 2013)

[Ilustração René Magritte]

Leia também: A gratidão dos bichos e os riscos da clonagem https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/minha-opiniao_6.html

Sylvio: na cadeia

Bandido bom não é bandido morto, como apregoa a extrema direita, mas preso na Papudinha, com muita saúde para cumprir os 27 anos de cadeia que lhe foram devidamente impostos pela Justiça.

Sylvio Belém  

As duas cabeças do monstro que assombra o Brasil https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/bastioes-da-direita.html 

A política externa de Trump

Doutrina Donroe ou Frankenstein neoliberal?*
Exame da nova Doutrina de Segurança Nacional dos EUA. Crítica às elites, ao globalismo e às instituições internacionais “usurpadoras” não esconde o essencial: aposta na força, ideia de que não há alternativase crença na primazia dos mercados
Claudia Henschel de Lima e Antonio José Alves Junior/Outras Palavras   

Estamos longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram, mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido como globalismo?

A leitura do documento National Security Strategyof the United States of America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine, ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra, para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e, por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).

Este ensaio não propõe uma genealogia que responderia de forma definitiva à complexidade dos dias atuais; ele visa apenas oferecer uma primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0. E essa escalada se manifesta pela virulência do niilismo do America First: típico de uma torção discursiva imanente ao neoliberalismo globalista que funde liberdade e autoritarismo, que rejeita os limites institucionais e a autodeterminação dos povos em nome da centralização dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Ignora, assim, a relevância da Carta da ONU na garantia da estabilidade e equilíbrio de poder entre os países. Essa torção, que faz com que o neoliberalismo se funde ao autoritarismo, foi o que Wendy Brown denominou como o Frankenstein do Neoliberalismo.

O caso da Venezuela se encaixa nessa virulência niilista. Sabemos que a intervenção dos Estados Unidos na região é conhecida, desde 2002, com a aprovação da tentativa de golpe de Estado contra o então presidente Hugo Chávez.

De lá para cá, a Venezuela vem sendo posicionada como ameaça à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos. Em Trump 2.0, testemunhamos a escalada desse niilismo, com a rejeição do artigo 2 da Carta da ONU e a aplicação do Peace Through Strength desde junho de 2025: a redução de Nicolás Maduro, de presidente da Venezuela a narcoterrorista internacional, chefe do Cartel de Los Soles, ameaçador da segurança americana, foragido e procurado pela justiça americana com recompensa de 25 milhões de dólares pela captura; e a ação da força militar na Venezuela, de sequestro e prisão de Nicolás Maduro. É essa centralização dos Estados Unidos na geopolítica que justifica também a ameaça de anexação da Groenlândia para garantir a defesa nacional e a invasão à Colômbia com uma nova redução no horizonte: a de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, a um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos.

Para construir essa primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0., com a virulência do niilismo do America First, propomos destacar os eixos estruturantes da Doutrina Donroe — ela substitui a Doutrina Monroe (“The Monroe Doctrine is a big deal, but we’ve superseded it by a lot, by a real lot. They now call it the Donroe document”/ “A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos — e muito, muito mesmo. Agora eles chamam isso de Documento Donroe” — declaração de Donald Trump em 3 de janeiro de 2026): uma visão ampliada, integrada e centralizada de poder, que articula segurança, liderança tecnológica, economia, cultura, moral e identidade nacional. E que entendemos estar organizada em oito eixos estruturantes:

  1. Redefinição do conceito de estratégia nacional.
  2. Centralidade da soberania, do nacionalismo e do America First.
  3. Segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura.
  4. Economia no fundamento da segurança nacional.
  5. Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.
  6. Concorrência estratégica com a China, Rússia e Irã.
  7. Organização regional da estratégia global.
  8. Crítica às elites e às ideologias contemporâneas.

I. Os eixos estruturantes da Doutrina Donroe

O primeiro eixo do documento se refere à redefinição do conceito de estratégia nacional à luz da crítica direcionada à política do pós-Guerra Fria — caracterizada como difusa, idealista e divorciada dos interesses nacionais concretos: ou seja, uma lista de desejos, platitudes vagas, que não definem clara e objetivamente o que os Estados Unidos querem (p.5). Essa redefinição está alicerçada em três perguntas: 1. O que os Estados Unidos deveriam querer?; 2. Quais são os meios disponíveis para alcançá-lo?; 3. Como podemos conectar fins e meios em uma estratégia de segurança nacional viável?

Essas perguntas mostram como a concepção de estratégia nacional deve se fundamentar em uma posição clara a respeito do que os Estados Unidos querem para si e de uma articulação precisa entre fins e meios, baseada em prioridades explícitas e na limitação do escopo da ação externa. Tudo em nome do America First e não da autodeterminação dos povos, defendida pela Carta da ONU.

O que nos leva diretamente ao segundo eixo estruturante da Doutrina Donroe: centralidade da soberania, do nacionalismo — pilares do America First.

National Security Strategyof the United States of America reafirma a soberania nacional como princípio organizador da política externa e de segurança, rejeitando o multilateralismo e as agendas globais (ambos considerados ameaças à autonomia dos Estados). Sendo pilares do America First, a defesa da soberania e do nacionalismo criam um muro de proteção contra tudo o que representa uma ameaça existencial aos Estados Unidos, visando: garantir sua continuidade como república soberana e independente; proteger a população, o território, a propriedade intelectual, a economia e o american way of life (por exemplo, a família tradicional americana) de ameaças internacionais/globalistasenfrentar as ameaças militares e não militares (migrações em massa, espionagem, narcotráfico, influência estrangeira, propaganda).

O que nos leva, diretamente, ao terceiro eixo estruturante da Doutrina Donroe — a segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura. É importante destacar a centralidade tecnológica para as forças armadas, tornando-a a mais avançada do mundo, com vistas à dissuasão de conflitos e a vencer guerras de forma rápida e decisiva. Essa centralidade tecnológica se manifesta na superioridade nuclear e no desenvolvimento de sistemas de defesa antimísseis (incluindo o Golden Dome). Mas a defesa da soberania e do nacionalismo compõe uma compreensão ampliada do que vem a ser a segurança nacional, pois integra o enfrentamento às ameaças militares e não militares externas à proteção da economia, do território e do american way of life. Para isso, a segurança nacional ampliada deve cobrir: o encerramento da era das migrações em massa; o controle total das fronteiras e das redes de transporte; a defesa de liberdades fundamentais (especialmente, a liberdade de expressão e de religião) em oposição a agendas, definidas no documento, como elitistas ou tecnocráticas (principalmente, o multiculturalismo, as políticas identitárias e de diversidade e a agenda climática e regulatória).

No escopo da segurança nacional ampliada, chegamos ao quarto eixo estruturante da Doutrina Donroe: a economia no fundamento da segurança nacional.

O documento sustenta que a segurança econômica é a segurança nacional. Para isso, é fundamental que a política econômica seja orientada pela lógica da segurança nacional e se concentre: 1) na garantia de economia forte com uma política comercial baseada na reciprocidade, tarifas e combate a práticas “predatórias”; 2) na proteção das cadeias produtivas e minerais críticos; 3) no fortalecimento da indústria nacional, especialmente a vinculada à defesa; 4) na edificação do setor energético como ativo geopolítico (energy dominance), inseparável da rejeição à agenda climática global; 5) na associação direta entre prosperidade econômica interna, poder global e capacidade militar.

Essa associação direta nos conduz ao quinto eixo: Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.Ele não se reduz a um slogan militar; mas se constitui como um princípio organizador da política externa americana, em que a paz deriva da assimetria de poder claramente reconhecida, e não da confiança em normas e instituições. Neste sentido, o eixo situa a força como fundamento da dissuasão, ou seja, os atores estatais ou não estatais, suficientemente dissuadidos, não ameaçam os interesses americanos. Para isso, a Doutrina Donroe defende o forte investimento militar. Os princípios incluem: a superioridade militar articulada à superioridade econômica, tecnológica, nuclear e de propriedade intelectual; a capacidade de solucionar conflitos com rapidez,evitando sua extensão por tempo indeterminado; realinhamento da diplomacia para a força como condição para a paz; ênfase em burden-sharing, ou seja, os aliados devem assumir maior responsabilidade por sua própria defesa; articulação direta entre força externa e coesão interna por meio de valores como meritocracia e confiança nacional, que garantem a unidade dos Estados Unidos frente a comunidade internacional.

Peace Through Strengthnos conduz ao sexto eixo: concorrência econômica, tecnológica e infraestrutural com China, Rússia e Irã (que fornece armas e drones para países como Venezuela, que ameaçam a segurança do território continental dos EUA). O documento destaca, ainda, a China como principal concorrente no plano econômico, tecnológico e de inovação. O que nos coloca no sétimo eixo: a organização regional da estratégia global.

Esse eixo, na verdade, apresenta a reestruturação da ordem global a partir da centralidade geopolítica dos Estados Unidos — com capilaridade na América Latina. Segundo o documento, após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para proteger os Estados Unidos e seu acesso a geografias-chave em toda a região. Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração do poder e da centralidade das prioridades americanas em termos de segurança ampliada. Essa organização regional da estratégia global exige uma avaliação crítica das elites e ideologias contemporâneas — o oitavo eixo da Doutrina Donroe.

Trata-se de um dos eixos estruturantes da Doutrina Donroe. O documento diagnostica que as elites intelectuais, desde o fim da Guerra Fria, têm ficado aquém do esperado, com listas intermináveis ​​de desejos ou estados finais almejados; não definiram claramente o que os Estados Unidos queriam; em vez disso, proferiram platitudes vagas. Elites econômicas, políticas e intelectuais teriam produzido um desvio estratégico profundo ao calcularem muito mal a disposição dos Estados Unidos em arcar para sempre com fardos globais, em relação aos quais o povo americano não tinha sinergia alguma. O documento afirma que tais elites superestimaram a capacidade econômica e política dos Estados Unidos de manter simultaneamente um Estado administrativo expansivo e um complexo militar-diplomático global, além de terem aceitado passivamente a transferência de encargos de defesa para os EUA por parte de aliados. Associada a essa avaliação crítica, o documento situa ainda a rejeição das ideologias contemporâneas. Em primeiro lugar, a ideologia da diversidade, equidade e inclusão (DEI) — considerada tóxica aos valores dos Estados Unidos — defende a reinstauração de uma cultura do mérito e da competência. Em segundo lugar, a ideologia do transnacionalismo, que desloca o centro decisório para além do Estado-nação e enfraquece a coragem, a força de vontade e o patriotismo. Essa crítica às ideologias contemporâneas converge para uma leitura mais ampla de declínio moral, cultural e político, em que a perda de confiança nas tradições nacionais, na história e na identidade civilizacional teria enfraquecido tanto a política interna quanto a projeção internacional dos Estados Unidos.

A primeira impressão, após a exposição dos oito eixos da Doutrina Donroe, é que configuram uma escalada do neoliberalismo, fundindo liberdade e autoritarismo, rejeitando os limites institucionais e a autodeterminação dos povos, em nome da centralidade dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Isso é feito por meio do exercício unilateral de poder, legitimado por uma gramática moral esvaziada de limites normativos — fusão essa denominada por Wendy Brown de Frankenstein do Neoliberalismo. O traço distintivo da Doutrina Donroe reside nessa fusão niilista da liberdade e do autoritarismo, que corrói a própria ideia de ordem internacional, substituindo-a por uma geopolítica na qual a ausência de limites institucionais deixa de ser exceção e se converte em princípio organizador da política global no século XXI.

*Título original: A Doutrina Donroe e o desenho de uma nova ordem global neoliberal: America First

Leia também: O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html 

Irã, novo alvo de Trump

O que está acontecendo no Irã: manipulações externas e contradições internas
Objetivo estrangeiro não é apoiar o povo, mas enfraquecer um Estado que se recusa a se submeter à hegemonia global dos Estados Unidos
Ana Prestes
 

O Irã sempre foi um ponto sensível da geopolítica, mas nas últimas semanas a situação ficou mais mediatizada devido a uma onda de protestos. O problema é que a narrativa vendida pela mídia internacional é simples demais: de um lado, um povo oprimido e, do outro, um regime opressor prestes a cair. No entanto, a realidade é muito mais complexa e para entendê-la, precisamos olhar para dentro do país, mas também para a ingerência externa sofrida pelo Irã.

Como em qualquer lugar, no Irã existem causas populares legítimas, dificuldades econômicas, tensões sociais, geracionais e culturais. Há grupos de oposição que não aceitam a condução do governo islâmico — um modelo de Estado regido por religiosos que é muito diferente da nossa experiência de Estado laico no Brasil. Portanto não se pode negar que há motivos para manifestações e protestos. Contudo, a existência dessas contradições internas não nos isenta de analisar as manipulações externas que estão sendo feitas sobre essas contradições.

O Irã tem uma história marcada pela interferência direta de potências ocidentais. Em 1953, os Estados Unidos e o Reino Unido organizaram um golpe de Estado para controlar o petróleo iraniano. Desde então o Irã vive sob uma pressão constante. Após a Revolução Islâmica na década de 1970, a situação se intensificou, com sanções, sabotagem, guerra informacional e ações militares justificadas por uma suposta “defesa da democracia”. Hoje, os Estados Unidos aplicam ao Irã uma das políticas de sanções mais duras do planeta, que afeta diretamente a vida da população, causando falta de medicamentos, desemprego e alto custo de vida.

‘Captura’: um eufemismo dos sabujos contra a soberania da Venezuela

Todo esse sofrimento causa uma situação de comoção interna, mas ele é produzido justamente para atuar dessa forma. A partir do exterior são criados elementos para gerar uma crise social e estimular revoltas internas, fatores que caracterizam as chamadas guerras híbridas. Observo também uma atuação coordenada entre meios de comunicação e plataformas digitais, onde certos discursos políticos cuidadosamente selecionados são exaltados e outros silenciados de forma proposital. Amplificar algumas vozes e silenciar outras não tem nada a ver com solidariedade internacional, mas com interferência política, ingerência e tentativa de dominação.

Embora os protestos sejam mostrados como homogêneos, como se fossem representativos de toda a população do país, a sociedade iraniana é plural e possui projetos políticos divergentes internamente, o que ficou demonstrado pelas recentes manifestações massivas em apoio ao governo. Fica claro que o objetivo estrangeiro não é apoiar o povo, mas enfraquecer um Estado que se recusa a se submeter à hegemonia global dos Estados Unidos. Esse roteiro já foi aplicado na Líbia, Síria, Iraque e Venezuela.

Defendo a soberania do Irã, o que não significa concordar com todas as decisões do seu governo – existem também críticas a ele. Mas a história nos mostra que nenhum povo se libertou através de bombardeios ou tutelas imperiais. Se forem existir mudanças dentro do Irã, elas devem partir da própria dinâmica da sociedade iraniana, sem interferências externas, chantagens econômicas ou sanções.

O confisco do petróleo venezuelano e o exercício do mercantilismo trumpista

Sempre que os Estados Unidos se apresentam como defensores da democracia, o resultado recorrente é o caos, destruição, perda de soberania. Chamo a atenção também para o oportunismo da antiga monarquia Pahlevi, derrubada em 1979 pela Revolução Islâmica, cujos descendentes tentam se apresentar como uma alternativa democrática para o Irã.

Os herdeiros estão se aproveitando do sofrimento social do povo iraniano e do desgaste interno gerado pelos protestos para se posicionarem politicamente, sendo que seu principal representante vive nos Estados Unidos há décadas. Estão recebendo espaço privilegiado na mídia ocidental, sendo tratados como lideranças naturais, que obviamente não são.

Esse regime monárquico foi submisso aos interesses dos Estados Unidos e de outras potências do Ocidente, marcado por repressão política, tortura sistemática, perseguição a opositores e extrema concentração de riqueza. Não havia democracia, soberania, nem direitos para as mulheres. Washington apoia o retorno da família Pahlevi com o objetivo de promover novamente uma dependência colonial do Irã em relação aos Estados Unidos.

Quando a história parece não ter fim: a esquerda no século XXI

Eles não falam de soberania nacional, nem do fim das sanções, mas acenam com um alinhamento ao Ocidente. Aparecem em fotos com o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e com membros do governo dos Estados Unidos. Falam em abertura do país aos mesmos interesses que o exploraram no passado. Não há nada de progressista na restauração de uma monarquia que governou o Irã de forma ditatorial.

Concluo reforçando que o Irã não enfrenta apenas uma crise interna, mas é alvo de uma guerra econômica, midiática e militar. Lamento profundamente as perdas humanas nos protestos, mas é preciso entender realmente em que circunstâncias essas mortes ocorreram e questionar os números sem consistência divulgados pela mídia para gerar comoção e uma pretensa solidariedade ao povo iraniano, quando isso pode estar sendo um grande disfarce para uma tentativa de intervenção.

Na dimensão econômica, as sanções impostas pelos Estados Unidos funcionam como um cerco  que estrangula o comércio, bloqueia transações financeiras, dificulta a importação de alimentos e medicamentos para provocar essa instabilidade social.

Na dimensão militar, o Irã convive com bases estrangeiras ao seu redor e sofre ameaças constantes e ataques indiretos inclusive do governo de Donald Trump, dos Estados Unidos. Ataques a instalações de enriquecimento de urânio, operações clandestinas, assassinatos seletivos de físicos, químicos, cientistas e inclusive o assassinato, em janeiro de 2020, do comandante das Forças Armadas do Irã, Qasem Soleimani.

Há um estado de guerra, embora não seja uma guerra declarada. É nesse contexto que estão acontecendo esses protestos. Ignorar essa guerra múltipla é distorcer completamente a realidade. São setores externos que estão falando de crise de legitimidade no Irã, ocultando o papel que eles mesmos desempenham na produção dessa crise.  É óbvio que não se trata apenas de conflitos internos, é um país que está sob risco de intervenção.

Leia: A democracia sob ameaça de ser hackeada https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eleicoes-ia-ameaca.html