Doutrina Donroe ou
Frankenstein neoliberal?*
Exame da nova Doutrina de
Segurança Nacional dos EUA. Crítica às elites, ao globalismo e às instituições
internacionais “usurpadoras” não esconde o essencial: aposta na força, ideia de
que não há alternativase crença na primazia dos mercados
Claudia Henschel de
Lima e Antonio José Alves Junior/Outras Palavras
Estamos longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram, mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido como globalismo?
A leitura do documento National Security Strategyof the United States of America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine, ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra, para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e, por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).
Este ensaio não propõe uma genealogia
que responderia de forma definitiva à complexidade dos dias atuais; ele visa
apenas oferecer uma primeira incursão no que pode se configurar como uma
escalada do neoliberalismo com Trump 2.0. E essa escalada se
manifesta pela virulência do niilismo do America First: típico
de uma torção discursiva imanente ao neoliberalismo globalista que funde
liberdade e autoritarismo, que rejeita os limites institucionais e a
autodeterminação dos povos em nome da centralização dos Estados Unidos na
geopolítica mundial. Ignora, assim, a relevância da Carta da ONU na garantia da
estabilidade e equilíbrio de poder entre os países. Essa torção, que faz com
que o neoliberalismo se funde ao autoritarismo, foi o que Wendy Brown denominou
como o Frankenstein do Neoliberalismo.
O caso da Venezuela se encaixa nessa
virulência niilista. Sabemos que a intervenção dos Estados Unidos na região é
conhecida, desde 2002, com a aprovação da tentativa de golpe de Estado contra o
então presidente Hugo Chávez.
De lá para cá, a Venezuela vem sendo
posicionada como ameaça à segurança nacional e à política externa dos Estados
Unidos. Em Trump 2.0, testemunhamos a escalada desse niilismo,
com a rejeição do artigo 2 da Carta da ONU e a aplicação do Peace
Through Strength desde junho de 2025: a redução de Nicolás Maduro, de
presidente da Venezuela a narcoterrorista internacional, chefe do Cartel de Los
Soles, ameaçador da segurança americana, foragido e procurado pela justiça
americana com recompensa de 25 milhões de dólares pela captura; e a ação da
força militar na Venezuela, de sequestro e prisão de Nicolás Maduro. É essa
centralização dos Estados Unidos na geopolítica que justifica também a ameaça
de anexação da Groenlândia para garantir a defesa nacional e a invasão à
Colômbia com uma nova redução no horizonte: a de Gustavo Petro, presidente da
Colômbia, a um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos
Estados Unidos.
Para construir essa primeira incursão
no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump
2.0., com a virulência do niilismo do America First, propomos
destacar os eixos estruturantes da Doutrina Donroe — ela
substitui a Doutrina Monroe (“The Monroe Doctrine is a big deal, but we’ve
superseded it by a lot, by a real lot. They now call it the Donroe document”/
“A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos — e muito,
muito mesmo. Agora eles chamam isso de Documento Donroe” — declaração de
Donald Trump em 3 de janeiro de 2026): uma visão ampliada, integrada e
centralizada de poder, que articula segurança, liderança tecnológica, economia,
cultura, moral e identidade nacional. E que entendemos estar organizada em oito
eixos estruturantes:
- Redefinição
do conceito de estratégia nacional.
- Centralidade
da soberania, do nacionalismo e do America First.
- Segurança
nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura.
- Economia
no fundamento da segurança nacional.
- Peace
Through Strength e
predisposição ao não-intervencionismo.
- Concorrência
estratégica com a China, Rússia e Irã.
- Organização
regional da estratégia global.
- Crítica
às elites e às ideologias contemporâneas.
I. Os eixos estruturantes da Doutrina
Donroe
O primeiro eixo do documento se refere
à redefinição do conceito de estratégia nacional à luz da
crítica direcionada à política do pós-Guerra Fria — caracterizada como difusa,
idealista e divorciada dos interesses nacionais concretos: ou seja, uma lista
de desejos, platitudes vagas, que não definem clara e objetivamente o
que os Estados Unidos querem (p.5). Essa redefinição está alicerçada
em três perguntas: 1. O que os Estados Unidos deveriam querer?;
2. Quais são os meios disponíveis para alcançá-lo?; 3. Como podemos conectar
fins e meios em uma estratégia de segurança nacional viável?
Essas perguntas mostram como a
concepção de estratégia nacional deve se fundamentar em uma posição clara a
respeito do que os Estados Unidos querem para si e de uma articulação precisa
entre fins e meios, baseada em prioridades explícitas e na limitação do escopo
da ação externa. Tudo em nome do America First e não da
autodeterminação dos povos, defendida pela Carta da ONU.
O que nos leva diretamente ao segundo
eixo estruturante da Doutrina Donroe: centralidade da soberania, do
nacionalismo — pilares do America First.
O National Security Strategyof
the United States of America reafirma a soberania nacional como
princípio organizador da política externa e de segurança, rejeitando o
multilateralismo e as agendas globais (ambos considerados ameaças à autonomia
dos Estados). Sendo pilares do America First, a defesa da soberania
e do nacionalismo criam um muro de proteção contra tudo o que representa uma
ameaça existencial aos Estados Unidos, visando: garantir sua continuidade como
república soberana e independente; proteger a população, o território, a
propriedade intelectual, a economia e o american way of life (por
exemplo, a família tradicional americana) de ameaças internacionais/globalistas; enfrentar
as ameaças militares e não militares (migrações em massa, espionagem,
narcotráfico, influência estrangeira, propaganda).
O que nos leva, diretamente, ao
terceiro eixo estruturante da Doutrina Donroe — a segurança nacional
ampliada: fronteiras, economia e cultura. É importante destacar a
centralidade tecnológica para as forças armadas, tornando-a a mais avançada do
mundo, com vistas à dissuasão de conflitos e a vencer guerras de forma rápida e
decisiva. Essa centralidade tecnológica se manifesta na superioridade nuclear e
no desenvolvimento de sistemas de defesa antimísseis (incluindo o Golden Dome).
Mas a defesa da soberania e do nacionalismo compõe uma compreensão ampliada do
que vem a ser a segurança nacional, pois integra o enfrentamento às ameaças
militares e não militares externas à proteção da economia, do território e do american
way of life. Para isso, a segurança nacional ampliada deve cobrir: o
encerramento da era das migrações em massa; o controle total das fronteiras e
das redes de transporte; a defesa de liberdades fundamentais (especialmente, a
liberdade de expressão e de religião) em oposição a agendas, definidas no documento,
como elitistas ou tecnocráticas (principalmente, o multiculturalismo, as
políticas identitárias e de diversidade e a agenda climática e regulatória).
No escopo da segurança nacional
ampliada, chegamos ao quarto eixo estruturante da Doutrina Donroe: a economia
no fundamento da segurança nacional.
O documento sustenta que a segurança
econômica é a segurança nacional. Para isso, é fundamental que a política
econômica seja orientada pela lógica da segurança nacional e se concentre: 1)
na garantia de economia forte com uma política comercial baseada na
reciprocidade, tarifas e combate a práticas “predatórias”; 2) na proteção das
cadeias produtivas e minerais críticos; 3) no fortalecimento da indústria
nacional, especialmente a vinculada à defesa; 4) na edificação do setor
energético como ativo geopolítico (energy dominance), inseparável da
rejeição à agenda climática global; 5) na associação direta entre prosperidade
econômica interna, poder global e capacidade militar.
Essa associação direta nos conduz ao quinto
eixo: Peace Through Strength e predisposição ao
não-intervencionismo.Ele não se reduz a um slogan militar;
mas se constitui como um princípio organizador da política externa americana,
em que a paz deriva da assimetria de poder claramente reconhecida, e não da
confiança em normas e instituições. Neste sentido, o eixo situa a força como
fundamento da dissuasão, ou seja, os atores estatais ou não estatais,
suficientemente dissuadidos, não ameaçam os interesses americanos. Para isso, a
Doutrina Donroe defende o forte investimento militar. Os princípios incluem: a
superioridade militar articulada à superioridade econômica, tecnológica,
nuclear e de propriedade intelectual; a capacidade de solucionar conflitos com
rapidez,evitando sua extensão por tempo indeterminado; realinhamento da
diplomacia para a força como condição para a paz; ênfase em burden-sharing,
ou seja, os aliados devem assumir maior responsabilidade por sua própria
defesa; articulação direta entre força externa e coesão interna por meio de valores
como meritocracia e confiança nacional, que garantem a unidade dos Estados
Unidos frente a comunidade internacional.
O Peace Through Strengthnos
conduz ao sexto eixo: concorrência econômica, tecnológica e
infraestrutural com China, Rússia e Irã (que fornece armas
e drones para países como Venezuela, que ameaçam a segurança do território
continental dos EUA). O documento destaca, ainda, a China como principal
concorrente no plano econômico, tecnológico e de inovação. O que nos coloca no
sétimo eixo: a organização regional da estratégia global.
Esse eixo, na verdade, apresenta a
reestruturação da ordem global a partir da centralidade geopolítica dos Estados
Unidos — com capilaridade na América Latina. Segundo o documento, após anos de
negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe
para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para
proteger os Estados Unidos e seu acesso a geografias-chave em toda a região.
Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração do poder e da
centralidade das prioridades americanas em termos de segurança ampliada. Essa
organização regional da estratégia global exige uma avaliação crítica
das elites e ideologias contemporâneas — o oitavo eixo da Doutrina
Donroe.
Trata-se de um dos eixos estruturantes
da Doutrina Donroe. O documento diagnostica que as elites intelectuais, desde o
fim da Guerra Fria, têm ficado aquém do esperado, com listas intermináveis de
desejos ou estados finais almejados; não definiram claramente o que os Estados
Unidos queriam; em vez disso, proferiram platitudes vagas. Elites econômicas,
políticas e intelectuais teriam produzido um desvio estratégico profundo ao
calcularem muito mal a disposição dos Estados Unidos em arcar para sempre com fardos
globais, em relação aos quais o povo americano não tinha sinergia alguma. O
documento afirma que tais elites superestimaram a capacidade econômica e
política dos Estados Unidos de manter simultaneamente um Estado administrativo
expansivo e um complexo militar-diplomático global, além de terem aceitado
passivamente a transferência de encargos de defesa para os EUA por parte de
aliados. Associada a essa avaliação crítica, o documento situa ainda a rejeição
das ideologias contemporâneas. Em primeiro lugar, a ideologia da diversidade,
equidade e inclusão (DEI) — considerada tóxica aos valores dos Estados Unidos —
defende a reinstauração de uma cultura do mérito e da competência. Em segundo
lugar, a ideologia do transnacionalismo, que desloca o centro decisório para
além do Estado-nação e enfraquece a coragem, a força de vontade e o
patriotismo. Essa crítica às ideologias contemporâneas converge para uma
leitura mais ampla de declínio moral, cultural e político, em que a perda de
confiança nas tradições nacionais, na história e na identidade civilizacional
teria enfraquecido tanto a política interna quanto a projeção internacional dos
Estados Unidos.
A primeira impressão, após a exposição
dos oito eixos da Doutrina Donroe, é que configuram uma escalada do neoliberalismo,
fundindo liberdade e autoritarismo, rejeitando os limites institucionais e a
autodeterminação dos povos, em nome da centralidade dos Estados Unidos na
geopolítica mundial. Isso é feito por meio do exercício unilateral de poder,
legitimado por uma gramática moral esvaziada de limites normativos — fusão essa
denominada por Wendy Brown de Frankenstein do Neoliberalismo.
O traço distintivo da Doutrina Donroe reside nessa fusão niilista da liberdade
e do autoritarismo, que corrói a própria ideia de ordem internacional,
substituindo-a por uma geopolítica na qual a ausência de limites institucionais
deixa de ser exceção e se converte em princípio organizador da política global
no século XXI.
*Título original: A Doutrina Donroe e o
desenho de uma nova ordem global neoliberal: America First
Leia também: O jogador, sua aposta e a desordem mundial https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-e-ordem-mundial-fissurada.html

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