A ocupação militar do Estado e o risco à democracia
Forças Armadas devem aceitar que seu papel é técnico,
subordinado e constitucional
Ananias
Queiroga/Liberta
A escalada da presença militar nos governos Temer e Bolsonaro recolocou em risco pilares centrais da democracia brasileira, ao permitir que oficiais formados na ditadura ocupassem cargos estratégicos, influenciassem decisões de Estado e participassem – direta ou indiretamente – de ameaças golpistas, como a do 8 de janeiro de 2023.
Esse avanço
silencioso da tutela fardada sobre a política expôs a fragilidade das
instituições civis e reacendeu um alerta que o país acreditava ter superado
desde 1988.
A
militarização recente não apenas ampliou a influência de oficiais em áreas
civis, como reacendeu o imaginário autoritário da ditadura e abriu caminhos
para pressões, chantagens e participações diretas em episódios que feriram
profundamente a ordem constitucional – culminando nos ataques golpistas de 8 de
janeiro de 2023.
O avanço
militar sobre o Estado foi articulado por uma elite castrense formada durante o
regime militar, herdeira de valores autoritários e de uma visão política que vê
as Forças Armadas como árbitro supremo da nação. Essa elite, altamente coesa,
encontrou em Bolsonaro – também formado na ditadura e admirador confesso de
estruturas repressivas – a oportunidade de reocupar espaços estratégicos e
influenciar decisões centrais do Estado.
Espionagem
ilegal
Um marco
inicial desse retorno fardado ocorre ainda no governo Temer, quando o general
Sérgio Etchegoyen assume o Gabinete de Segurança Institucional (GSI).
A decisão não
é inocente: Etchegoyen, crítico feroz da Comissão Nacional da Verdade – cujo
relatório cita seu pai e seu tio como envolvidos em graves violações de
direitos humanos – reestrutura o GSI tomando como modelo o antigo Serviço
Nacional de Informações (SNI), o cérebro da repressão na ditadura.
O gesto
simboliza, em ato e discurso, a tentativa de restaurar práticas de
centralização e controle típicas do regime militar. Assim, os militares ganham
autonomia crescente na gestão da inteligência estatal.
Sob Bolsonaro,
a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), subordinada ao GSI, torna-se
protagonista de um escândalo de espionagem ilegal de milhares de cidadãos. O
uso político da inteligência, sem autorização judicial, representa, talvez, o
mais perigoso flerte com um Estado de exceção desde 1985.
Paralelamente,
o número de militares em cargos de Direção e Assessoramento Superior (DAS)
dispara.
Entre 2013 e
2018, a presença já havia crescido; com Bolsonaro, explode. Generais, coronéis
e oficiais da ativa passam a ocupar áreas sensíveis da administração, muitas
vezes sem qualquer compromisso com a lógica técnica ou democrática do serviço
público.
A ocupação
civil-militar do governo Bolsonaro não é só quantitativa – é também geracional.
A esmagadora maioria dos generais alçados a posições de destaque foi formada na AMAN nos anos 1970, durante o auge
repressivo da ditadura.
Pesquisas
mostram que oficiais dessa geração carregam forte herança doutrinária
autoritária, moldada pela lógica do “inimigo interno” e pela crença na
legitimidade da intervenção política.
O episódio do tuíte de
Villas Bôas, em 2018, ilustra essa mentalidade.
Em plena
deliberação do STF sobre o habeas corpus de Lula, o general publicou uma ameaça
velada à Corte. A revelação posterior de que o texto foi escrito coletivamente
pelo Alto Comando evidencia o caráter institucional do gesto.
Não se tratava
de um general isolado, mas de uma corporação disposta a intervir no processo
político e influenciar o destino eleitoral do país. Desses 16 generais
envolvidos, dez ocupariam postos-chave no governo Bolsonaro.
Ponto de ruptura
Se todos esses episódios já indicavam
sérios riscos institucionais, os ataques de 8 de janeiro de 2023 confirmaram
que a militarização não era só retórica, nem apenas cultural: havia ação
coordenada.
A CPMI e investigações da Polícia
Federal apontam a participação direta de membros das Forças Especiais nos atos
de vandalismo e invasão aos Três Poderes. Documentos indicam que o general
Braga Netto articulou o envio de militares da FE para Brasília como parte de
planos golpistas.
As Forças Especiais – tropa de
altíssimo treinamento, com capacidade de operar em ambientes politicamente
sensíveis – apareceram, de forma reiterada, no entorno de Bolsonaro.
Não por acaso, o ex-presidente nutriu
profunda admiração pelos “kids pretos”, como eram chamados, e inseriu vários de
seus integrantes em postos-chave do governo. Ver membros dessa unidade
aparecerem em investigações sobre 8 de janeiro deveria acender o alarme máximo
em qualquer democracia.
O que os governos Temer e Bolsonaro
revelam não é apenas um desvio institucional temporário, mas uma
vulnerabilidade profunda da democracia brasileira. A Constituição de 1988
tentou estabelecer um modelo de subordinação civil das Forças Armadas.
Contudo, décadas de complacência
política criaram brechas que permitiram a reentrada militar no centro do poder.
A democracia não convive com tutela.
Não pode coexistir com ameaças veladas, com ocupação de cargos civis por
militares da ativa, com espionagem ilegal feita em estruturas controladas pelo
Exército, com elites armadas dispostas a atuar politicamente nem com tropas de
elite envolvidas em episódios golpistas.
A democracia brasileira só será plena
quando as Forças Armadas compreenderem – e aceitarem – que seu papel é técnico,
subordinado e constitucional. E quando a sociedade e suas instituições forem
capazes de impedir, de forma firme e definitiva, que a farda retorne ao centro
do poder político.
Lula entre Estados Unidos e Venezuela a passos firmes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/minha-opiniao_21.html

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