Altivez
e ativismo da diplomacia brasileira sob ‘Lula 3’ são trunfo eleitoral
Conexão com escalões decisivos da
sociedade restauraram credibilidade e maturidade do Itamarati
Luis Costa Pinto/Liberta
A dupla Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, e Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República, tem sintonia mais fina e soa mais eficaz para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que o dueto Amorim & Garcia de seus dois primeiros mandatos.
Entre
2003 e 2010, Celso Amorim estava no lugar hoje ocupado por Vieira e o
historiador Marco Aurélio Garcia (morto em 2017), , um dos fundadores do
Partido dos Trabalhadores, assessorava o presidente diretamente no Palácio do
Planalto com foco na diplomacia.
Dono
de caráter espetacular, amigo fraternal da família Lula da Silva, mas de fora
dos quadros profissionais do Itamarati, Garcia criou algumas tensões com Amorim
e tentou imprimir velocidade além da prudência no estabelecimento de relações
Sul-Sul na geopolítica brasileira. Aquilo provocou tensões contornáveis com
Celso Amorim e serviu de argumento aos detratores de Lula em seus primeiros
mandatos. O legado daqueles tempos foi imenso na abertura de novos mercados
para empresas e produtos brasileiros. A nefasta cultura do lavajatismo, porém,
tisnou todas as virtudes do dueto.
Obscurantismo
emplumado
No
período em que Michel Temer ocupou a Presidência da República, depois da
deposição de Dilma Rousseff, o Itamarati viveu uma fase de obscurantismo
emplumado: o Ministério das Relações Exteriores foi entregue ao PSDB e os
ministros José Serra e Aloysio Nunes Ferreira imprimiram agenda própria e
personalista à diplomacia, afastando-a do centro nevrálgico do poder em
Brasília.
Com
a assunção de Jair Bolsonaro ao gabinete presidencial, em 1º de janeiro de
2019, instalaram-se os inacreditáveis tempos da peste – e eles precederam até
mesmo a pandemia por coronavírus Covid-19. O obtuso, pérfido e desastroso
embaixador Ernesto Araújo, criatura deformada pela idolatria às ideias toscas
de Olavo de Carvalho, iniciou um processo de desmonte da diplomacia
profissional dentro do Itamarati.
Fazendo
às vezes de voz demoníaca a soprar asneiras nos ouvidos transtornados de
Bolsonaro, Felipe Martins – que, por duas vezes, havia levado bomba no concurso
público para acesso ao Instituto Rio Branco (onde são formados os diplomatas
brasileiros) –, outro olavista desmiolado, era o alter-ego do trágico
“chanceler”. A parceria nefasta de Araújo e Martins refletia em tudo a parvoíce
patética e sem rumo daquela quadra perversa da história do Brasil.
Carlos
França, embaixador de carreira chamado às pressas para tocar o Ministério das
Relações Exteriores na metade derradeira do mandato bolsonarista, não teve
energia nem credibilidade para reerguer as ruínas do Itamarati.
Não
à toa, uma das pantomimas bizarras armadas pelo ex-presidente na tentativa de
golpear a democracia brasileira foi a tal reunião
com embaixadores convocada para o Palácio da Alvorada, em
plena campanha eleitoral de 2022, com o propósito de mentir sobre
vulnerabilidades de nosso processo eleitoral e criar nuvem de suspeição em
torno de sua iminente derrota (consumada no dia 30 de outubro daquele ano).
Puxados
pela liderança e o prestígio incontestes de Lula, Mauro Vieira e Celso Amorim,
rapidamente, recompuseram o interesse do mundo em ouvir o Brasil depois da
troca de poder em Brasília. A reconexão do Palácio do Planalto com os centros
de poder nos países centrais dos cinco continentes, o estreitamento das
relações com a China, a França, a Rússia e a Espanha, a volta do protagonismo
brasileiro na agenda ambiental internacional, as reconexões com os governos da
África e da América Latina e, sobretudo, a maneira hábil como o Brasil lidou
com a chantagem tarifária ilegal dos Estados Unidos restauraram a credibilidade
e a maturidade do Itamarati, aqui dentro e lá fora.
O
mundo vive tempos de pré-Guerra Mundial, ainda que um conflito generalizado em
larga escala não se concretize. Há 60 guerras regionais ou nacionais em
andamento. Nunca houve tamanha quantidade de conflitos simultâneos desde o fim
da Segunda Grande Guerra, em 1945.
Traição
à pátria
O
prestígio reconquistado no Exterior pela diplomacia profissional altiva e ativa
de nosso país começa a ecoar aqui dentro. Parte do empresariado do agronegócio,
o sistema financeiro e mesmo empresários e executivos que (por recalque,
preconceito ou deformações ideológicas) antes viam o Partido dos Trabalhadores
e o presidente Lula, em especial, como “despreparados” mudaram de opinião. Isso
será crucial para a conquista dos essenciais votos nem-nem (os cerca de 10% de
eleitores brasileiros que dizem não ser nem bolsonarista e extremista de
direita, nem lulista ou petista), que decidirão a eleição.
Na
semana que passou, o candidato cada vez mais consolidado da extrema direita,
Flávio Bolsonaro, ensaiou o anúncio de que seu chanceler (em caso de improvável
e desastrosa vitória) seria o irmão, Eduardo Bolsonaro.
Enfrentando
processo por alta traição à pátria, autoexilado nos Estados Unidos por motivos
torpes – viajou para lá a fim de detratar a imagem brasileira junto ao núcleo
de poder de Donald Trump – e cassado da
Câmara dos Deputados por abandono do mandato, a mera cogitação de “Eduardo
Bananinha” como ministro das Relações Exteriores da natimorta candidatura do
clã Bolsonaro deve ser encarada como motivo de júbilo por quem encara o futuro
do país com seriedade e frieza.
Tendo
afundado o Brasil em crises profundas nos quatro anos em que pilharam o Palácio
do Planalto e a República, os filhos do demônio demonstram que não aprenderam
uma lição sequer das tragédias que protagonizaram.

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