11 janeiro 2026

Diplomacia brasileira

Altivez e ativismo da diplomacia brasileira sob ‘Lula 3’ são trunfo eleitoral
Conexão com escalões decisivos da sociedade restauraram credibilidade e maturidade do Itamarati
Luis Costa Pinto/Liberta  



A dupla Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, e Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República, tem sintonia mais fina e soa mais eficaz para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que o dueto Amorim & Garcia de seus dois primeiros mandatos.

Entre 2003 e 2010, Celso Amorim estava no lugar hoje ocupado por Vieira e o historiador Marco Aurélio Garcia (morto em 2017), , um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, assessorava o presidente diretamente no Palácio do Planalto com foco na diplomacia.

Dono de caráter espetacular, amigo fraternal da família Lula da Silva, mas de fora dos quadros profissionais do Itamarati, Garcia criou algumas tensões com Amorim e tentou imprimir velocidade além da prudência no estabelecimento de relações Sul-Sul na geopolítica brasileira. Aquilo provocou tensões contornáveis com Celso Amorim e serviu de argumento aos detratores de Lula em seus primeiros mandatos. O legado daqueles tempos foi imenso na abertura de novos mercados para empresas e produtos brasileiros. A nefasta cultura do lavajatismo, porém, tisnou todas as virtudes do dueto.

Obscurantismo emplumado

No período em que Michel Temer ocupou a Presidência da República, depois da deposição de Dilma Rousseff, o Itamarati viveu uma fase de obscurantismo emplumado: o Ministério das Relações Exteriores foi entregue ao PSDB e os ministros José Serra e Aloysio Nunes Ferreira imprimiram agenda própria e personalista à diplomacia, afastando-a do centro nevrálgico do poder em Brasília.

Com a assunção de Jair Bolsonaro ao gabinete presidencial, em 1º de janeiro de 2019, instalaram-se os inacreditáveis tempos da peste – e eles precederam até mesmo a pandemia por coronavírus Covid-19. O obtuso, pérfido e desastroso embaixador Ernesto Araújo, criatura deformada pela idolatria às ideias toscas de Olavo de Carvalho, iniciou um processo de desmonte da diplomacia profissional dentro do Itamarati.

Fazendo às vezes de voz demoníaca a soprar asneiras nos ouvidos transtornados de Bolsonaro, Felipe Martins – que, por duas vezes, havia levado bomba no concurso público para acesso ao Instituto Rio Branco (onde são formados os diplomatas brasileiros) –, outro olavista desmiolado, era o alter-ego do trágico “chanceler”. A parceria nefasta de Araújo e Martins refletia em tudo a parvoíce patética e sem rumo daquela quadra perversa da história do Brasil.

Carlos França, embaixador de carreira chamado às pressas para tocar o Ministério das Relações Exteriores na metade derradeira do mandato bolsonarista, não teve energia nem credibilidade para reerguer as ruínas do Itamarati.

Não à toa, uma das pantomimas bizarras armadas pelo ex-presidente na tentativa de golpear a democracia brasileira foi a tal reunião com embaixadores convocada para o Palácio da Alvorada, em plena campanha eleitoral de 2022, com o propósito de mentir sobre vulnerabilidades de nosso processo eleitoral e criar nuvem de suspeição em torno de sua iminente derrota (consumada no dia 30 de outubro daquele ano).

Puxados pela liderança e o prestígio incontestes de Lula, Mauro Vieira e Celso Amorim, rapidamente, recompuseram o interesse do mundo em ouvir o Brasil depois da troca de poder em Brasília. A reconexão do Palácio do Planalto com os centros de poder nos países centrais dos cinco continentes, o estreitamento das relações com a China, a França, a Rússia e a Espanha, a volta do protagonismo brasileiro na agenda ambiental internacional, as reconexões com os governos da África e da América Latina e, sobretudo, a maneira hábil como o Brasil lidou com a chantagem tarifária ilegal dos Estados Unidos restauraram a credibilidade e a maturidade do Itamarati, aqui dentro e lá fora.

O mundo vive tempos de pré-Guerra Mundial, ainda que um conflito generalizado em larga escala não se concretize. Há 60 guerras regionais ou nacionais em andamento. Nunca houve tamanha quantidade de conflitos simultâneos desde o fim da Segunda Grande Guerra, em 1945.

Traição à pátria

O prestígio reconquistado no Exterior pela diplomacia profissional altiva e ativa de nosso país começa a ecoar aqui dentro. Parte do empresariado do agronegócio, o sistema financeiro e mesmo empresários e executivos que (por recalque, preconceito ou deformações ideológicas) antes viam o Partido dos Trabalhadores e o presidente Lula, em especial, como “despreparados” mudaram de opinião. Isso será crucial para a conquista dos essenciais votos nem-nem (os cerca de 10% de eleitores brasileiros que dizem não ser nem bolsonarista e extremista de direita, nem lulista ou petista), que decidirão a eleição.

Na semana que passou, o candidato cada vez mais consolidado da extrema direita, Flávio Bolsonaro, ensaiou o anúncio de que seu chanceler (em caso de improvável e desastrosa vitória) seria o irmão, Eduardo Bolsonaro.

Enfrentando processo por alta traição à pátria, autoexilado nos Estados Unidos por motivos torpes – viajou para lá a fim de detratar a imagem brasileira junto ao núcleo de poder de Donald Trump – e cassado da Câmara dos Deputados por abandono do mandato, a mera cogitação de “Eduardo Bananinha” como ministro das Relações Exteriores da natimorta candidatura do clã Bolsonaro deve ser encarada como motivo de júbilo por quem encara o futuro do país com seriedade e frieza.

Tendo afundado o Brasil em crises profundas nos quatro anos em que pilharam o Palácio do Planalto e a República, os filhos do demônio demonstram que não aprenderam uma lição sequer das tragédias que protagonizaram.

Sobre presidentes e narcotraficantes https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/enio-lins-opina_7.html 

Nenhum comentário: