14 janeiro 2026

Bolsonarismo trincado

O futuro da extrema direita sem Jair e a estupidez atroz do bolsonarismo
Cesar Calejon/Liberta 


Nos últimos seis anos, escrevi três livros sobre o bolsonarismo: A ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXITempestade Perfeita: o Bolsonarismo e a Sindemia covid-19 no Brasil e Sobre Perdas e Danos: Negacionismo, Lawfare e Neofascismo no Brasil.

Durante esse processo, procurei pesquisar e refletir sobre a ascensão do bolsonarismo e as suas consequências para o tecido social brasileiro. Agora, vamos olhar para o futuro, mas, antes, uma breve e importante digressão.

Neste período, procurei refletir sobre a essência do bolsonarismo enquanto movimento social e político. Minha indagação girou ao redor de qual seria o elemento central do bolsonarismo enquanto filosofia sociopolítica de massa.

Hoje, estou convencido de que esse elemento está assentado sobre a crença falaciosa de que existem seres humanos “inferiores” e “superiores” por “natureza”. O objetivo deste artigo não é esmiuçar esse argumento, mas usá-lo para refletir sobre o tema aqui proposto: o futuro do bolsonarismo sem Jair Bolsonaro.

Com a prisão de Bolsonaro, o processo de reformulação da extrema direta sob a égide do bolsonarismo ganhou um ponto de inflexão e esse torna-se uma questão ainda mais premente.

Guerra fratricida

Por se tratar de um movimento organizado sobre as bases do elitismo acima mencionado, o bolsonarismo tem uma dificuldade quase intransponível de aprender com as suas próprias experiências, no sentido de realizar ajustes e correções de rotas, e de fazer política para compor estratégias com possíveis aliados que não tenham o sobrenome da família.

Neste sentido, a derrocada de Jair Bolsonaro tende a catalisar uma espécie de guerra fratricida entre os governadores de extrema direita e os filhos de Jair Bolsonaro.

Existem dois cenários mais prováveis sem Bolsonaro. No primeiro, Tarcísio de Freitas entende que o jogo em 2026 contra Lula é pesado demais, decide tentar a reeleição em São Paulo e deixa a disputa presidencial. Neste caso, o mais provável é que Flávio Bolsonaro assuma a cabeça da chapa da candidatura da extrema direita, com apoio do pai e de outros nomes do neofascismo nacional.

No segundo, Tarcísio de Freitas se apresenta como candidato por entender que o governo Lula está debilitado e que o atual mandatário não tem chances reais de se reeleger, o que não parece ser a situação no momento. Dessa forma, a extrema direita teria uma chapa mais competitiva e com um nível menor de rejeição por parte da população.

O principal problema para o segundo cenário e o ponto central dessa análise caracteriza-se pela atuação de Eduardo Bolsonaro. Nos EUA há quase um ano, o dito “03” vem alinhando o bolsonarismo com os ataques do trumpismo contra o Brasil. O resultado tem sido desastroso, tanto para Eduardo quanto para o bolsonarismo, como demonstram as últimas pesquisas de opinião.

Contudo, apesar da estratégia fracassada, Eduardo é demasiadamente arrogante e autossuficiente para promover mudanças na sua conduta. Por se entender superior, ele deverá insistir na mesma direção até o pleito do ano que vem. Por vezes, Flávio Bolsonaro também fez coro às alucinações do irmão Eduardo, o que coloca em dúvida as análises que o classificam como um sujeito mais “moderado” ou “político”.

No limite, sem Jair Bolsonaro, o futuro do bolsonarismo será determinado por uma tensão dinâmica ativa entre os filhos de Jair Bolsonaro e os governadores que tentam assumir a posição do ex-capitão. A meu ver, me parece mais provável que Flávio Bolsonaro receba o apoio da própria família e seja capaz de convencer alguns dos principais nomes da direita a apoiar a sua candidatura. Trabalho bem mais difícil será convencer a população brasileira a seguir neste mesmo sentido.

Mais sobre o mundo da política https://lucianosiqueira.blogspot.com/

Nenhum comentário: