A dona
aranha e a teia que segurou o Banco Master
Como o escândalo financeiro costurou – em fios de seda –
política, dinheiro e influência
Deborah
Magagna/Liberta
O colapso do Banco
Master deixou à mostra como relações políticas, omissões
regulatórias e ambição privada se imbricam num emaranhado de operações, que oferecem
ganhos rápidos para alguns e prejuízos para o próximo. O caso é mais do que uma
crise financeira. Ele conta como o risco troca de mãos, na certeza de que a
punição, quando chega, não atinge quem conduz o tear.
O rombo foi
montado aos poucos, fio a fio. Durante meses, o Master atraiu investidores com
promessas de retorno acima da média. Os chamados CDBs (Certificados de
Depósitos Bancários) ofereciam juros sedutores, acima dos ofertados pelos
concorrentes, com a confiança adicional do FGC, o fundo privado de proteção mantido pelas
próprias instituições financeiras.
Esse seguro
permitia ao Master captar sem que o investidor percebesse o aumento de risco.
Por trás da vitrine, o banco acumulava ativos difíceis de vender e avaliar,
enredando operações cada vez mais arriscadas.
O tear se
rompeu quando o Banco Central, mesmo sob pressão, após análises internas,
vetou, em setembro deste ano, a venda do Master para o BRB, o banco de
Brasília, e decretou sua liquidação em novembro. Mas, a essa altura, a conta já
estava alta. Agora, o FGC cobre o prejuízo, num resgate raro para um banco
desse porte.
Quem
tem amigos tem bancos
Não foi por
falta de aviso.
Um parecer da
Caixa Econômica Federal já apontava, meses antes, as inconsistências dos
números do Master. Mesmo assim, o Banco Central demorou a agir. O então
presidente da instituição, Roberto Campos Neto – já fora do cargo quando o caso
eclodiu – disse que nada faria diferente. E, de fato, não o fez.
Mesmo com o
aumento dos alertas do mercado e de outros bancos, a fiscalização não agiu a
tempo. O atraso trouxe consequências e o regulador parecia vestido de
vovozinha, com olhos que fingiam não ver e ouvidos atentos apenas quando as
vozes vinham de conexões convenientes.
O personagem
central dessa história é Daniel Vorcaro.
Empresário com
trânsito amplo em círculos de poder, ele ocupou espaços estratégicos e se
movimentou como quem tece uma teia com calma, sabendo exatamente onde cada fio
vai parar. Seu sócio é casado com uma ex-ministra ligada ao governador do
Distrito Federal, que controla o BRB, o banco público que, por pouco, não se
tornou o salvador do Master.
A proposta era
indecorosa. O BRB compraria parte das ações – a totalidade das preferenciais e
49% das ordinárias, que dão direito a voto. Com isso, Vorcaro ainda deteria 51%
das ações ordinárias e manteria o controle, sem precisar de aprovação da Câmara
Legislativa do DF e sem escrutínio público. Um arranjo que atenderia a
interesses privados, sob o manto de uma solução estatal. O governo do Distrito
Federal entraria para limpar a bagunça, com alvejante comprado com dinheiro
público, mas sem assumir, de fato, o controle da instituição.
Maquiagem,
farsa e carteiras duvidosas
O problema vai
além do acordo não concretizado. De acordo com levantamentos do Banco Central,
entre 2024 e 2025, o BRB despejou R$ 16,7 bilhões no Master. Parte desse valor
veio da compra de carteiras de crédito duvidosas. Segundo as investigações, o
Master nem chegou a pagar pelas carteiras que repassou ao BRB. Recebeu R$ 12,2
bilhões por elas, sendo quase metade embutida como prêmio, como apontam os relatórios
técnicos usados nas apurações.
A operação
deixava o Master com cara de banco forte, mesmo com as vísceras expostas.
Mais do que
uma maquiagem às vésperas da negociação, relatórios concluíram que houve
injeção de recursos públicos na compra de carteiras de crédito, cuja existência
nem sequer foi comprovada. Ainda que fossem, a exposição entre os bancos
beirava o limite regulatório. Sem comprovação, vira farsa.
Ao mesmo
tempo, o banco gastou milhões de reais com consultorias e advogados, que
compuseram um escudo jurídico robusto, o que sugere um plano calculado. A
ambição avançava confiante na expectativa da impunidade.
O caso toca
numa ferida maior. Quando um banco promete rentabilidade muito acima do normal
e opera sob a proteção do FGC, o incentivo é perverso, sedutor e distorcido. O
emissor capta dinheiro fácil, enquanto reparte o risco com o sistema
A solução não
passa só por punir posteriormente. É preciso puxar o fio antes de a teia virar
armadilha, que visa alimentar o apetite pela ousadia irresponsável. Isso inclui
a limitação da rentabilidade paga por bancos cobertos pelo FGC, aumentar a
exigência de reservas conforme o risco cresce e impor freios quando esse risco
aumenta demais, a fim de evitar que a captura aconteça.
De
olhos bem fechados
O Caso Master
expõe como a atuação do Banco Central pode abrir espaço para aventuras
perigosas, quando a autoridade escolhe não agir. Durante a gestão de Roberto
Campos Neto, as advertências que chegavam de dentro do sistema financeiro não
receberam resposta firme.
Os sinais de
desequilíbrio estavam presentes. Relatórios apontavam alto risco, movimentações
que extrapolavam padrões prudenciais e carteiras sem lastro comprovado, que
deixariam qualquer supervisão mais rigorosa em alerta. Mesmo assim, nada foi
feito.
Campos Neto
deixou o comando dizendo que repetiria todas as decisões, como se a inação
fosse virtude. Sua postura criou um ambiente confortável para quem opera nos
limites regulatórios. A ideia de que o regulador hesitaria até o último
instante funcionou como convite à temeridade.
O episódio nos
obriga a olhar com mais atenção para o papel do Banco Central, os limites da
atuação dos bancos públicos e o uso político das instituições financeiras. Ele
deixou visível a olho nu um modo de operação que transfere lucros privados e
riscos públicos, muitas vezes com a ajuda da omissão.
O caso Master
não deslegitima a política nem a função dos bancos públicos. Ambos são parte
essencial do funcionamento democrático. Bancos públicos têm um papel
importante, sobretudo, na função social. O que esse capítulo da história da
dona Aranha nos conta é como práticas específicas podem distorcer esses
instrumentos. A tentativa de envolver o BRB numa solução que mantinha o
controle privado do Master, mesmo diante de sinais de fragilidade, patenteia
como as relações particulares podem se sobrepor ao interesse público diante das
falhas institucionais.
A supervisão
tardia ajuda a criar um ambiente propício para essas distorções. Não se trata
de generalizar atuação política, mas de reconhecer que a governança precisa ser
forte para impedir que decisões públicas sejam capturadas por interesses
privados. A queda do castelo do Master reforça a importância de regras e de uma
fiscalização que não pestaneje, além do uso responsável das instituições para
que cumpram sua finalidade social e política e não acabem como peças de um
tabuleiro onde todos se movem para proteger o rei.
O mundo gira https://lucianosiqueira.blogspot.com/

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