A vaca no telhado
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Vejo de relance a notícia na TV: vaca cai do telhado e assusta transeuntes.
Mais não sei. Não deu tempo de saber detalhes: aonde aconteceu e como a
dita cuja afinal foi dominada.
Aconteceu numa cidade. Antes de detida, a vaca circulou aparentemente
agressiva por ruas movimentadas.
Tudo bem. Sob o céu azul do Brasil tudo pode acontecer.
Entretanto, cabe indagar: que diabo fazia a vaca no telhado; e como terá
alcançado a proeza?
Será um hábito pouco conhecido desse animal?
Nada consta nesse sentido — pelo menos na Wikipédia, onde leio que o
gado-bovino-domestico, nome científico Bos taurus, uma espécie do gênero Bos e
da ordem Artiodactyla, gosta mesmo é de pastagem em terra firme, nunca
cumeeiras.
Então, resta-me a lembrança da cena na TV, o pobre e enfurecido animal
correndo sem rumo enquanto tentam laçá-lo e, assim, conduzi-lo ao curral,
suponho.
Sinto-me solitário em meio ao estranhamento: na sala de espera do
consultório muitas são as pessoas que aguardam, nenhuma parece ter se deixado
tocar pelo drama da vaca ou pelo menos pelo inusitado da cena.
As fisionomias parecem desatentas ou resignadas diante dos absurdos que
desfilam na tela da TV. Perante enchentes, terremotos e escabrosos casos de
corrupção mundo afora, uma vaquinha surpreendida sobre um telhado parece
trivial.
De certo modo isso me angustia: os absurdos tanto se repetem que se
tornam triviais. Uma marca do século em que vivemos. Como se nada houvesse a
acontecer, o inusitado tornou-se corriqueiro como o sol que se abre de todas as
manhãs e se põe ao final da tarde.

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