15 janeiro 2026

Irã: importa saber

O que alimenta a revolta iraniana contra o regime dos aiatolás?
Enio Lins   

SOFRE O IRÃ AS VIOLÊNCIAS de uma rebelião de massas de intensidade inferior apenas àquelas que, em 1979, derrubaram a ditadura do Xá Reza Pahlavi (também grafado Pahlevi). No meio do povo revoltado, entretanto, estão adeptos do antigo despotismo monárquico, propondo a restauração de um regime mais violento (embora laico) que o dos aiatolás. O caos atual, além das motivações internas, é financiado diretamente pelos Estados Unidos e por Israel.

NA BASE DE TUDO ESTÁ O PETRÓLEO, e sobre ele e as lutas de classes de sempre somadas às singularidades da milenar sociedade persa. Vamos a um resumo rápido, pulando o passado do Império Aquemênida, considerado como a primeira superpotência da história, cujo auge se estendeu por dois séculos, entre 550 a.C. e 330 a.C. Saltaremos também sobre os 1.375 anos de profundo enraizamento islâmico. Abordemos a partir de 1906, depois da Revolução Constitucional Persa.

EM 1921, UM GOLPE DE ESTADO liquidou o sistema monárquico constitucional construído em 1906. Reza Cã, militar ligado ao império britânico, foi o líder da intentona, destronando a dinastia Cajar. Reza não tinha “sangue azul”, e, nos primeiros momentos da quartelada, anunciou que seria proclamada uma República. Mas, quatro anos depois, quando venceu as derradeiras resistências, Reza se proclamou como Xá (Imperador) e criou sua própria dinastia, batizando-a como Pahlavi – e determinando, como uma de suas primeiras medidas, a mudança do nome do país de Pérsia para Irã. Em 1941 foi deposto por suas simpatias com Hitler, e tropas britânicas e soviéticas invadiram o país para afastar os nazistas dos poços de petróleo. Os Aliados determinaram que o filho do Xá deposto, Mohammad Reza Pahlevi, então com 22 anos, assumisse a coroa.

EM 1953, NOVO GOLPE DE ESTADO depõe o então primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, um líder democrático cujo governo ousou nacionalizar os poços de petróleo, contrariando os grandes grupos americanos e britânicos. A prisão de Mossadegh foi o ponto de virada para transformar o país numa ditadura monárquica absolutista. As forças democráticas e os religiosos xiitas foram duramente perseguidos, num regime de terror político que, em contrapartida, liberou o uso da minissaia e de outras modas contemporâneas especialmente caras às classes médias. A corrupção, a violência e a pobreza se espalharam.

EM 1979, UMA TREMENDA rebelião popular, iniciada no ano anterior, destronou o Xá Reza Pahlavi, em fevereiro, que foge do país, e o governo passa a ser ocupado por uma frente oposicionista formada por grupos democráticos, comunistas, socialistas, liberais e religiosos xiitas. No processo de abertura, o governo provisório convida o aiatolá Ruhollah Khomeini (exilado na França desde 1964) a voltar. Khomeini chegou chegando e rapidamente tornou-se o maior líder popular, e detonando as forças políticas responsáveis por sua reabilitação, mandando para cadeia democratas, comunistas, socialistas, liberais – passa a se apoiar apenas nas forças xiitas. Um plebiscito, em abril de 1979, aprova uma nova constituição radicalmente teocrática e a criação da República Islâmica.

TERRIVELMENTE TEOCRÁTICO, o sistema criado pelos Aiatolás caiu de pau em cima de todas as potências, batendo pesado tanto nos Estados Unidos quanto na União Soviética, e até detonando países muçulmanos considerados infiéis. Destaque-se um ponto positivo: o regime dos Aiatolás sempre apoiou o povo palestino, ao mesmo tempo em que preservou os direitos da população judaica iraniana. Entretanto, justificando-se com uma leitura reacionária e ultraconservadora do Alcorão e da Sharia, o modelo avançou numa repressão inominável às mulheres e na perseguição implacável às foças democráticas e de esquerda. Depois, por imposição do mundo real, Teerã aceitou alguma aproximação de Moscou e Pequim, e restabeleceu relações comerciais com muitas outras na&ccedi l;ões. Mas nunca saiu da mira dos Estados Unidos, Europa e Israel, que sonham em voltar a dominar a antiga Pérsia e sugar-lhe as riquezas como no tempo dos Xás. 

HOJE O SOLO IRANIANO volta a tremer com grande força, em revolta, abrindo grandes rachaduras, mas delas não se ouvem vozes democráticas, e sim os ecos da ditadura do Xá Pahlavi e seus eternos financiadores.

Irã: a palavra do PCdoB https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/ira-palavra-do-pcdob.html ​​​​​​​ 

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