Leblon de Manoel Carlos
Para
alguns leitores, é o bairro da futilidade; para seus moradores, é quase uma
província. É também o refúgio dos escritores; aqui já fui vizinho de Callado,
Rachel, João Ubaldo, Rubem Fonseca
Ruy
Castro/Folha de S. Paulo
De seus 92 anos de bonita vida, encerrados no sábado (3), Manoel Carlos morou 60 no Leblon. Digo bonita porque dedicou-a a gerar pessoas em sua imaginação, soprar-lhes vida e botá-las para andar, amar, sofrer, trabalhar, ter prazer e morrer —enfim, o receituário comum ao ser humano. Tudo isso num veículo que ele ajudou a tornar respeitável: a novela de TV. E, desde que morador do Leblon, nunca situou suas histórias em outro cenário.
Modestamente,
também estou há 30 anos no Leblon, depois de temporadas menos ou mais longas na
Glória, no Flamengo e em Botafogo e Laranjeiras. Assim como Manoel Carlos,
tenho vivido de escrever, mas, por trabalhar com fatos reais, preciso buscar as
histórias onde elas aconteceram: em Ipanema e Copacabana, no Catete, na Lapa,
no centro da cidade e na zona norte. E, como trato do passado, poucas se deram
no Leblon —acessível pela Lagoa desde os tupinambás, mas que só começou a se
tornar o Leblon de hoje nos anos 1960.
Quando às
vezes me refiro ao Leblon neste espaço, leitores o invectivam como o bairro dos
fúteis, dos parasitas. Eu os convidaria a nos visitar. Não à noite, quando a
turba da cerveja em pé, dos restaurantes e botequins, entope as calçadas e o
asfalto da rua Dias Ferreira. Mas durante o dia, em qualquer dia da semana, quando
seus habitantes curtem o que ele tem de silencioso, seguro, amoroso, quase
provinciano. O que significa isso? Que o Leblon da má fama é o da night, de
gente de fora do bairro, da cidade e até do país, que, de madrugada, volta
feliz para seus burgos e nos devolve a paz.
Escritores
gostam de sossego e talvez por isso o Leblon atraia tantos. Aqui já fui vizinho
de Paulo Mendes Campos, Antonio Callado, Rachel de Queiroz, João Ubaldo
Ribeiro, Rubem Fonseca e, claro, Manoel Carlos. Não creio que se considerassem
fúteis e parasitas.
Cruzava com
eles nas nossas ruas e praças que, por acaso, levam nomes de grandes
escritores: Humberto de Campos, Alberto Rangel, Arthur Ramos, Rodrigo Octavio e
Antero de Quental.
Evitável veneno de cada dia https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/12/minha-opiniao_26.html
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