Gastando
muito? Corra ao endocrinologista!
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
O amigo é consumidor compulsivo. Em viagem à China, comprou de tudo – pelo menos quase tudo do que lhe foi oferecido: gravatas, relógios “Rolex” de eficiência duvidosa, bolsas e apetrechos vincados como se de grifes famosas... e até prosaicos e muito úteis pares de meia.
Na viagem de volta, mil artifícios para acomodar utilidades e bugigangas na
bagagem, de modo a não pagar excesso de peso – em dólares! Afinal, ao chegarmos
ao Aeroporto dos Guararapes, juro que – exaurido e sonolento em razão das
muitas horas de voo – o ouvi perguntar ao carregador, que se aproximava
empurrando o carrinho de bagagens: “Quanto custa?” Mas testemunhas idôneas
asseguram que tal não aconteceu, foi pura imaginação minha, talvez devido ao
porre de consumismo que havia presenciado na longa viagem...
Pois bem. Essa coisa de consumir
sem limites, uns dizem que é doença, outros acham que nem tanto, e muitos consideram
reflexo da propaganda maciça na TV, que associa prazer e felicidade à aquisição
dos mais variados bens – dos inalcançáveis barcos a vela e carros de última
geração a perfumes, desodorantes, refrigerantes e uísques diversos.
Tem outra explicação, cientificamente embasada. Pelo menos é o que agora leio
no Valor Econômico, em matéria assinada por Noemi Jaffe. O
cientista Dan Ariely, dedicado ao estudo do "comportamento econômico dos
macacos" (sic), assegura que seres humanos também cometem "erros econômicos
básicos", como "não agir em função do futuro e repetir nossos erros
sempre da mesma maneira".
Está no livro "Eu Compro,
sim! Mas a Culpa é dos Hormônios...", de Pedro de Camargo, onde
se indica tratamento endocrinológico para a superação do irrefreável impulso de
consumir.
Imagine. O cara chega ao
consultório médico e, perguntado sobre o que o incomoda, sapeca de pronto: -
Doutor, estamos muito doentes, eu e minha conta bancária. Não paro de comprar
coisas e no final do mês não há renda que me impeça de operar no vermelho!
E o médico, por sua vez, após
detalhada anamnese e rigoroso exame físico, solicita bateria de testes
laboratoriais, com ênfase em dosagens hormonais. No retorno, o paciente sai com
a prescrição do medicamento X, comprovadamente eficiente na cura da nova
entidade clínica, conhecida como “síndrome da gastança”.
Tempo moderno!, diria minha avó Neném, que à sua época se espantava com tudo o
que era novo, a partir mesmo do uso de calças compridas pelas mulheres, que ela
nunca aceitou.
E a disputa no mercado? De um lado, varejistas apoiados em cada vez mais
sofisticadas campanhas publicitárias destinadas a explorar, via estímulos
visuais e sonoros, a secreção de hormônios que conduzem a vítima à primeira
loja da esquina. Do outro, a indústria farmacêutica anunciando a última
descoberta, um inibidor hormonal, capaz de curar o mais incontrolável comprador
de quinquilharias. Uma guerra pra gente grande, sem dúvida.
É isso, minha avó: assim caminha a Humanidade!
Crônica de setembro, 2013
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Leia também: O repouso do guerreiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/03/minha-opiniao_12.html

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