30 novembro 2025

Abraham Sicsú opina

Poderes se digladiam
Abraham B. Sicsu  

Esqueçamos os manuais. Aquilo que aprendemos nada significa. Economia para um lado, política para outro. Não há conexão. Parece que teremos que criar novas teorias, pelo menos para o Brasil. Nele, economia indo bem tem levado ao caos na política. Não há a mínima relação de interdependência.

Exercer o direito legal. Presidência tem esse atributo. Indicar um nome para Ministro do Supremo. O Senado pode negar. Faz parte de suas atribuições. Se para o STF faz muito tempo não é negado, para outros cargos superiores não. Houve rejeições. Algo que pode ser negociado e mesmo absorvido com poucos traumas. Mas, a revolta toma outras proporções. A vingança é explicita. Tenta-se desarticular a estrutura do projeto de governança do Executivo nacional. Rapidamente, com atos inconsequentes.

Aprovam-se rapidamente as aposentadorias diferenciadas para agentes comunitários de saúde e agentes de combate a endemias. Merecem claro, todos merecemos, mas porque diferente de todos os servidores públicos.

 Poder aposentar-se com cinquenta e poucos anos, com aposentadoria integral e possível pensão pós morte para parentes. Não é algo extremamente discriminatório, frente ás mudanças recentes feitas para tentar estabilizar a Previdência? Gerar uma despesa de quase cinquenta bilhões de reais em dez anos, não leva a uma desorganização das finanças públicas? Os municípios, inclusive os pequenos, grande parte sobre eles recairá, têm condições de cumprir com esse compromisso? Enfim, como sociedade, em última instância quem assume o ônus, gera-se um enorme problema a se administrar, apenas para mostrar poder, para fazer pirraça.

Na mesma linha, votam-se os vetos que o Presidente fez a projetos estapafúrdios.

Os interesses individuais prevalecem sobre o que é relevante para a sociedade. Grandes estados, São Paulo, Rio de janeiro, Minas Gerais, Rio grande do Sul e Goiás, principalmente, que irresponsavelmente se endividaram e não conseguem pagar o assumido, acham uma brecha. Derrubar um veto para poder continuar a farra da gastança, em detrimento a estados mais responsáveis que contiveram seus gastos às suas possibilidades reais de arcar com o ressarcimento. Com isso, aprofundam-se as disparidades inter-regionais, faz-se com que o fosso entre os estados aumente. É justo?

Os ruralistas ficam felizes. Os vetos, para manter controles e coerência com o discurso ambiental, são derrubados. A licença ambiental praticamente desaparece. Na prática, os projetos não exigem mais uma fiscalização prévia, basta que o latifundiário diga que aderiu ás regras e assuma esse compromisso. Está aprovado.

Projetos com risco muito elevado ambiental podem ir por esse caminho, também, fazendo com que novas barragens de rejeitos, por exemplo, fujam de uma rígida fiscalização prévia.

Ainda, obras de saneamento básico, ficam à mercê das prefeituras sem o acompanhamento dos órgãos fiscalizadores qualificados na área ambiental. Em síntese, interesses do capital dão duro golpe ao projeto ambiental que pretendia garantir melhores condições para a sociedade em geral.

Essa birra mostra que a economia vai mal?

Claro que não. Mesmo com a absurda SELIC que o Banco Central mantém e reafirma que manterá, o Brasil tem a menor taxa de desemprego da série, 5,6% nos últimos seis meses, e consegue ter uma atração de investimentos estrangeiros diretos que, este ano, fechará, em mais de 80 bilhões de dólares. Também, embora caindo um pouco, mantém um crescimento do PIB anual de mais de 2%.

Segundo estudo dos pesquisadores do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas- IPEA Pedro Herculano Souza e Marcos Dantas Hecksher, “Pobreza e Desigualdade no Brasil, no curto e no longo prazo”, publicado este mês, a melhoria de renda e sua distribuição no país, atingiram em 2024 o melhor patamar.

O índice de Gini melhorou em muito, mostrando uma distribuição de renda mais equânime inter-regional e inter extratos de renda. A extrema pobreza caiu vertiginosamente para menos de 5 %. Em termos reais, a renda média do brasileiro, nos últimos três anos, cresce mais que um quarto. Nessas melhorias, evidentemente, teve forte impacto a retomada do mercado de trabalho e os programas assistenciais, fundamentais para retirar a população da pobreza.

Bolsa Família, Benefício de prestação Continuada, Auxílio Brasil, entre outros, tiveram enorme impacto, inclusive para o redirecionamento para o mercado de trabalho.

O crescimento econômico e a queda da desigualdade têm sido fundamentais para a retirada da população da pobreza. Mas, há muito a fazer, pois ainda temos 4,8% da população que vive com menos de 3 dólares dia. No entanto, mostram, com clareza, que estamos no caminho certo e deveríamos continuar por essa rota.

Com o quadro econômico exposto, como podemos ter um cenário político tão explosivo, tão adverso?

Os avanços recentes não diminuíram a polarização de nossa sociedade, não fizeram com que minorasse o grau de antagonismo e de esgarçamento advindos do enfrentamento político.

Sim, é nesse ponto que se concentram as maiores divergências, que fazem incompatível o caminhar em um projeto de desenvolvimento e inserção social minimamente compartilhado. Tema complexo e difícil de prever acordos.

Utópicos insistem em um cansaço da sociedade brasileira com os extremos. Pode até ser verdade. No entanto, no curto prazo, difícil acreditar. O uso de redes sociais com desinformação, questões emocionais que separaram a sociedade, uma mídia fortemente atrelada a interesses específicos, de ambos os lados, desigualdade social que leva à assimetria da informação, veiculação de notícias sem nenhum fundamento real, dificultam muito acreditar nesse roteiro como saída.

A democracia passa pela necessidade de uma nova visão institucional, em que os interesses da sociedade sejam priorizados, em que haja diálogo, em que os Poderes da nação, Executivo, Legislativo e Judiciário, respeitem suas atribuições e as atribuições dos outros poderes.

2026 será um ano difícil. Já foi antecipado para este com as reações intempestivas que foram observadas neste mês. A conscientização da sociedade e seu poder de influenciar as instituições talvez seja caminho que poderia ser seguido.

Como toda a eleição, será um momento para refletir e julgar os caminhos que foram assumidos, avalizando-os ou dando a possibilidade de alternativas que surjam. O que não se admite é que, em prol da disputa eleitoral, tomem-se atitudes que podem destruir conquistas que se fizeram fundamentais para a nossa população.

Melhor dizendo, a luta política pelo poder e entre Poderes não deve extrapolar para uma guerra fraticidade e inviabilizadora de uma sociedade menos desigual, mais humana.

[Qual a sua opinião?]

Leia também: Banco Central em questão https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/banco-central-em-questao.html

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