29 novembro 2025

Uma crônica de Urariano Mota

Falando sobre a ditadura para um jovem estudante
Em respostas francas a um jovem estudante, o autor revisita memórias da ditadura, relata riscos vividos na clandestinidade e alerta para a gravidade do terror de Estado no Brasil.
Urariano Mota/Vermelho  

Por e-mail, recebo estas perguntas de um estudante de escola pública, que não me autorizou a divulgar seu nome. Copio o que respondi ao jovem, na medida da minha experiência.

1. Como era seu dia a dia na época do governo militar no Brasil? A ditadura afetou algum aspecto do seu cotidiano ou de sua família?

– Terrível. O cotidiano era um pesadelo. Fui morar em pensão, e lá abriguei companheiro perseguido, o que era um altíssimo risco, porque se ele fosse pego, seríamos os dois presos, torturados e mortos. Pude abrigar companheiros clandestinos, escondidos da polícia e da dona da pensão também.  Como se não bastasse, no mesmo quarto em que eu dormia, estava debaixo da minha cama um mimeógrafo (um objeto que reproduzia documentos, que para nós era como uma pequena gráfica). Eu conto isso em meu romance “A mais longa duração da juventude”.

 2. Alguma notícia marcou você no período da ditadura militar, qual?

– Muitas coisas me marcaram. Uma das mais graves foi o massacre, chamado de caso da Granja São Bento, onde um amigo foi assassinado. Foram seis mortos de uma só vez, que a ditadura chamava de “terroristas”. Entre eles estava Soledad Barrett, sobre quem escrevi o romance “Soledad no Recife”, e que retorna em outro romance, “A mais longa duração da juventude”.  

3. Você ficou sabendo sobre as pessoas que foram perseguidas do regime militar?

– Sim. Nós nos comunicávamos por panfletos (pequenos textos mimeografados) clandestinos, que faziam as denúncias dos mortos e torturados pela ditadura. E também pelo que éramos informados nos “pontos” que tínhamos – “ponto” era um lugar de encontro de subversivos. A demora máxima pra ficar no local era de 5 minutos, no máximo. Caso contrário, era abandonar ligeiro o lugar, sem olhar para trás. O companheiro atrasado poderia ter sido preso e podia “abrir” o lugar do encontro. Todos tínhamos relógios acertados pela Rádio Tamandaré, no Recife.

4. Casos de perseguição ou tortura eram do conhecimento de todas as pessoas?

– Não.  A imprensa, toda a imprensa, era censurada. Havia censores policiais e militares nas redações dos jornais. O teatro, a música, o cinema estavam sob censura. Os artistas foram exilados na Europa (Chico Buarque, Caetano Velos, Gilberto Gil…). Então os crimes, os sequestros de pessoas eram um segredo de Estado. Um jovem militante morria e o exército negava que o preso houvesse estado sequer no quartel. A polícia entrava nas casas dos suspeitos a qualquer hora. E ai de quem comentasse o que havia visto. Podia ser preso também, E “desaparecido”. Os corpos eram enterrados sem identificação, como indigentes. Alguns deles em valas coletivas. O terror, o terror absoluto.

5. Qual era a sua opinião sobre a ditadura militar naquela época? Atualmente sua opinião era a mesma ou mudou? Por quê?

– A minha opinião, na época, era a consciência de viver sob um regime de terror. Vivia cheio de angústia, a mais profunda angústia. E não podia fugir ao dever de ajudar os companheiros perseguidos. Eu não ia entregá-los à morte por minha omissão. Então eu me fazia presente, por dever de consciência. Não por alegria ou coragem. Com medo. Mas com medo também se age. A minha opinião hoje é mais madura. Tanto que escrevo sobre o período livros que são romances, artigos que são lidos e comentados. Jamais gostaria de voltar àquele tempo. Mas na memória já me encontro lá, de modo permanente. Sei o que é a ditadura brasileira. Sobre ela escrevo.

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