29 novembro 2025

Thiago Modenesi opina

Pluribus: quando a paz se torna a mais sutil das tiranias
A distopia criada por Vince Gilligan transforma a busca por harmonia em ameaça silenciosa, mostrando como a paz total pode corroer liberdades e sufocar a diversidade democrática.
Thiago Modenesi/Vermelho    

A nova série de ficção científica da Apple TV, Pluribus, emerge não apenas como um produto de entretenimento, mas como um espelho inquietante dos dilemas das democracias contemporâneas. No centro de sua narrativa está um debate fundamental e urgentíssimo: até que ponto a busca pela harmonia e pela paz social justifica a supressão de direitos individuais e a homogeneização do pensamento? A série nos alerta, de forma sutil e por isso mesmo perigosa, que a maior ameaça à liberdade pode não vir do caos, mas de uma ordem imposta a qualquer custo.

Vince Gilligan, criador dos sucessos Breaking Bad e Better Call Saul, volta com uma nova série que já se tornou o maior sucesso da plataforma de streaming Apple TV e vem angariando elogios semana após semana em que seus episódios são disponibilizados aos espectadores. Pluribus, a palavra em latim, está no lema dos Estados Unidos, “E pluribus unum” (“de muitos, [faz-se] um”), e é uma ode ao espírito coletivo na época da independência do país.

Pluribus nos apresenta um mundo em que um vírus da felicidade vem do espaço e se espalha por toda a humanidade. O conflito e a discórdia são erradicados, já que todos fundem suas mentes e emoções por todo o planeta, com pouquíssimas exceções (13 pessoas). A princípio, soa como uma utopia realizável quem não desejaria o fim da polarização tóxica que assola nossas praças públicas e digitais?

Essa unidade emocional que apresenta aos poucos que não foram incluídos um panorama em que a felicidade, a segurança e união de maneira absoluta trazem um mundo sem violência, sem riscos, sem polêmicas, mas também oferta um mundo em que alguns não conseguem se moldar ao padrão da vez e o desconforto que isso nos traz. Aqui o seriado de Gilligan nos cutuca com a questão: no mundo real, quando quase todo mundo pensa da mesma maneira, onde se encaixam aqueles poucos que não sentem o mesmo?

O diabo reside nos detalhes, e o preço dessa paz, felicidade e união plena é a abdicação da autonomia. Para eliminar o mal-estar social, o sistema precisa primeiro defini-lo. E é aí que a linha entre proteção e opressão se dissolve.

No mundo de hoje, a supressão das opiniões divergentes não se manifesta através de tanques nas ruas, mas de algoritmos que as identificam e as neutralizam antes mesmo que sejam expressas. Os direitos à privacidade, à liberdade de expressão e até ao livre arbítrio são corroídos em nome de um bem-estar coletivo supostamente superior.  

A série explora essa tirania suave, onde os cidadãos não são oprimidos por um líder carismático, mas por uma lógica aparentemente imparcial e inquestionável, apresentada ao espectador com sorrisos e promessas de felicidade plena, trazidas pelo vírus cósmico.

A genialidade de Pluribus está em como ela reflete, de forma ampliada, mecanismos já em operação em nossas vidas. As redes sociais já buscam criar “bolhas” de consenso, promovendo conteúdo que engaja e, frequentemente, suprimindo (através de shadow banning ou remoção) o que foge de um padrão de comunidade ou do que é considerado “verdade” por um grupo, já fazem virtualmente o que o vírus do seriado faz fora das telas e redes.

O desconforto de Carol (vivida pela atriz Rhea Seehorn, que já havia atuado nos dois seriados anteriores de Gilligan)em Pluribus é o mesmo de todos aqueles que não se moldam ao padrão do momento, a série é sobre ela, mas também é sobre nós.

Esse vírus em Pluribus, embora inicialmente concebido para proteger, cria uma ilusão de harmonia. Ela nos poupa do desconforto do contraditório, da complexidade dos argumentos e da necessidade de exercitar o pensamento crítico. O perigo, como ilustra Pluribus, é quando essa dinâmica extrapola o que já vivemos no ambiente digital e se torna o princípio organizador da sociedade, a série exagera para nos fazer enxergar que a quase totalidade ali é feliz porque passa sentir o mesmo, absorvidos por uma entidade coletiva, mas isso na verdade se torna uma prisão, já que a felicidade tão propalada no seriado, que não suporta a ambiguidade, se torna desumana. A diversidade de opiniões e pensamento, essencial para o vigor de qualquer democracia, é tratada como algo a ser erradicado. A discordância e ser diferente, não participando da coletiv idade viral em Pluribus, torna-se sinônimo de perigo, e o debate, o oxigênio da política, é asfixiado.

Uma democracia saudável não é aquela livre de conflitos, mas sim aquela capaz de geri-los através de instituições fortes, diálogo e respeito às minorias. O modelo de Pluribus oferece um atalho perigoso: a eliminação do conflito pela eliminação da diferença. Essa é uma corrosão silenciosa. Não há necessidade de golpes de estado quando a população, anestesiada pela promessa de segurança e paz, abre mão voluntariamente de suas liberdades.

Em tempos de crise de confiança nas instituições e de overload informativo, a tentação por uma solução tecnocrática e/ou autoritária é grande. Pluribus serve como um alerta contra essa sedução. Ela nos lembra que a verdadeira resiliência de uma sociedade está em sua capacidade de absorver, criticar e integrar visões de mundo distintas. A uniformidade do pensamento é um sintoma de morte intelectual e política, não de saúde social.

Pluribus se firma como uma obra distópica crucial para o nosso tempo. Ela vai além da crítica clássica ao totalitarismo e ataca o cerne de uma vulnerabilidade moderna: nossa fadiga do conflito e nosso desejo por conforto cognitivo.

A série nos força a questionar: estamos, em nossa busca por um ambiente online e offline mais civilizado, inadvertidamente construindo os mecanismos da nossa própria servidão? A paz que vale a pena ter é a que surge do respeito mútuo na diferença, ou a que é imposta pela supressão dela? Ao dramatizar as consequências de escolher a última opção, Pluribus não é apenas um aviso, mas um chamado para defendermos o direito ao dissenso, o ruído da discordância e a beleza desarrumada da diversidade de pensamento. Pois é nesse solo fértil e por vezes incômodo, e não no árido campo da unanimidade forçada, que as democracias verdadeiramente florescem.

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