Minha amiga Agatha
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Amigos e amigas que adotei por conta própria, unilateralmente. Muitos já se foram, outros tantos permanecem vivos e ativos. Sempre possível reencontrá-los na estante de nossa biblioteca.
Agatha Christie da parte da turma mais antiga. Desde a minha
adolescência. Depois, nos ensaios de amadurecimento de indivíduo adulto, ganhou
mais importância ainda pela narrativa impar, pelo dom de me fazer refletir
sobre a vida e as pessoas.
Críticos literários ensaiam análises diversas sobre a sua obra. Alguns a
consideram elegante, simétrica e lógica. Pode ser.
A mim sempre impressionou o ponto de partida – a ocorrência de um crime –
e as possibilidades quanto a quem o praticou. Muito parecido com o que aprendi
em reuniões clínicas durante o curso médico, particularmente no exercício do diagnóstico
diferencial. Afinal, qual a enfermidade que abatia o paciente portador de sinais
clínicos comuns a várias?
Em muitas das suas obras os diversos personagens se mantinham sob a
mesma mira, todos suspeitos e sob a fina observação da natureza humana pelo
detetive Hercule Poirot ou pela Miss Marple. Ao final, através da compreensão
de sentimentos e motivações próprios dos humanos, a descoberta de quem
praticara o crime.
E um aviso de certo modo dramático e inquietante: mesmo a mais simplória
das personalidades pode impelir o indivíduo a cometer um crime. Qualquer um. Inclusive
o amigo ou a amiga com que se toma um café um Martini em fim de tarde.
Tudo parece relativizado, a despeito da dramaticidade de suas tramas.
Quase como uma afirmação ingênua da ética na sociedade desigual e fria,
impulsionada pelo ideal do lucro máximo, Agatha invariavelmente conduz a
narrativa a um clímax em que a justiça afinal triunfa.
De toda forma, amiga Agatha, tudo é possível sobre o chão do nosso
planeta.

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