A gloriosa vingança contra os assassinos da cultura
A arte brasileira sobreviveu às
trevas que porta-vozes da extrema direita desejam retomar
Xico Sá/Liberta
O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. O título do faroeste nacional dirigido pelo baiano Glauber Rocha – de Vitória da Conquista para o mundo, com sua ópera em cordel – encaixa direitinho no episódio de blasfêmia do pastor Silas Malafaia contra Wagner Moura.
Depois
do triunfo do
filme brasileiro O Agente Secreto no
Globo de Ouro, no domingo passado, o agitador político da extrema direita
xingou o artista de cretino. O líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo
desafinou, no seu falsete característico, em defesa de Jair Bolsonaro, definido
pelo ator como um ex-presidente fascista.
Malafaia
puxou o coro dos descontentes com a premiação de O Agente Secreto nos
EUA. O exército bolsonarista seguiu, nas redes sociais, nos rastros do ódio do
pregador. Vivemos Dias de Ira – agora,
citando outro filmaço das antigas, o “western spaghetti” com Lee Van Cleef e
Giuliano Gemma.
Leitor
da Bíblia, o pastor sabe que a ira, nesse caso, repousa no íntimo dos tolos,
como registra o livro do Eclesiastes. A desesperada pregação, porém, revela o
inconformismo dos fascistas tropicais – religiosos ou não-praticantes – com a
evidência de que não assassinaram a cultura brasileira como premeditaram.
A
cultura, aqui tratamos no sentido das produções artísticas, foi alvejada no
período de 2018 a 2022, mas seguiu viva (e se bolindo), mesmo sob ataque
permanente dos clubes de tiro.
Safra
vingadora
O
cinema, por causa do cartaz internacional do momento, é o alvo principal dos
representantes da extrema direita. O ódio, porém, alcança a literatura (nas
censuras e proibições a livros como O Avesso da Pele, de
Jéferson Tenório), a música, o teatro e as artes plásticas. Nada escapa.
De
forma mais organizada, esse tipo de ataque começou ainda na pré-campanha
eleitoral de Jair Bolsonaro, em 2017, quando o MBL, ala juvenil extremista, atacou
a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença
na Arte Brasileira, no Santander Cultural, em Porto Alegre. As
autoridades gaúchas referendaram o vandalismo praticado pelo movimento de
jovens fascistas contra obras relevantes de Adriana Varejão, Cândido Portinari,
Lygia Clark e Leonilson, entre outros.
No
governo bolsonarista, a assombração ganhou ares de nazismo. Na época, o
secretário nacional de Cultura, Roberto Alvim, copiou, em pronunciamento,
trechos de um discurso do ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph
Goebbels.
Por
ter sobrevivido a toda essa má sorte, a arte brasileira do diretor pernambucano
Kleber Mendonça Filho pratica sua dourada vingança com O
Agente Secreto, em nome dos sufocados do período de trevas, que
Malafaia & Cia. desejam retomar.
Os
prêmios para o ator baiano Wagner Moura e o de melhor filme estrangeiro no
Globo de Ouro são apenas os troféus mais reluzentes de uma safra vingadora, que
larga com o fenômeno Ainda Estou Aqui e
conta, agora, com mais dois cineastas recifenses de sucesso: Gabriel Mascaro e
Marianna Brennand.
Mascaro
dirigiu O
Último Azul (com Rodrigo Santoro) e ganhou o Urso de Prata, o
grande prêmio do Festival de Berlim, em 2025. Marianna foi premiada em Cannes,
Veneza e concorre ao Goya da Espanha, em fevereiro.
O
pastor Silas Malafaia, porta-voz da extrema direita, ainda terá muitos motivos
para seus espetaculares falsetes do ódio e do ressentimento. Que venha o Oscar.
Colonialismo digital: a nova fronteira da dependência latino-americana https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/11/o-desafio-da-autonomia-tecnologica.html

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