12 fevereiro 2026

Cuba resiste

Não temos a alternativa de “oferecer submissão aos EUA”, diz embaixador cubano
Bloqueio energético imposto por Trump “priva o povo cubano dos meios de subsistência”, afirma Adolfo Curbelo ao Portal Vermelho
Iram Alfaia/Vermelho       

“O mar do sul se unirá ao mar do norte, e nascerá uma serpente do ovo da águia, antes que Cuba renuncie à sua rebelião.” É a essa citação premonitória e anti-imperialista do poeta e revolucionário José Martí que o embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo, associa a resistência ao bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos contra a Ilha.

Em entrevista exclusiva ao Portal Vermelho, concedida na sede da Embaixada, em Brasília, Curbelo afirma que “não é uma alternativa oferecer submissão aos Estados Unidos. O povo cubano não vai se render”. Segundo ele, a ofensiva do a ação do governo Donald Trump, o “ovo da águia” – que bloqueou o fornecimento de petróleo a Cuba – é um “genocídio” contra o povo cubano. Desde o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em janeiro, os cubanos deixaram de receber o combustível do parceiro sul-americano.

“Por que falamos em genocídio? Porque, como em todo o bloqueio, essa medida em particular priva o povo cubano dos meios de subsistência. Quando impossibilitam que o nosso país importe o petróleo de que necessita para gerar eletricidade, estão afetando toda a atividade econômica do país e diretamente ao povo cubano”, diz Curbelo.

Segundo ele, a situação se agrava com a falta de eletricidade, o que impacta a produção de alimentos, a proteção dos doentes nos hospitais e a prestação de serviços essenciais. Contudo, Curbelo cita José Martí, o herói da independência cubana, para deixar claro que a nação continuará resistindo e sairá vencedora. Existe uma história – afirma o embaixador – à qual a revolução socialista de 1959 deu continuidade, mantendo a independência real de Cuba frente aos Estados Unidos.

De modo franco, o representante diplomático no Brasil alerta para o risco de outras medidas mais violentas de Trump. “Não descartamos nada e nos preparamos para as piores circunstâncias e os piores cenários possíveis. Enquanto isso, buscamos soluções, porque nós não podemos esperar”, diz.

Uma dessas soluções é a “eletrificação do país com painéis solares”. Cuba acaba de completar a marca de 1.000 megawatts desses painéis – ou 10% do total da capacidade de geração instalada no país. “Fizemos muito progresso nesse sentido. Ainda não temos a capacidade de armazenamento para poder incorporar a geração elétrica solar como parte do esquema da distribuição mais organizada de energia. Mas hoje, graças a essa geração, o país já tem uma situação um pouco menos complicada em alguns lugares”, afirma.

“Eles (os Estados Unidos) não podem bloquear o sol. Temos de aumentar a produção e extração de petróleo nacional com tecnologia. O país está buscando soluções”, agrega o embaixador.

Confira outros trechos da entrevista de Curbelo ao Vermelho:

“Com a proibição da entrada do petróleo em Cuba, o direito de qualquer nação de vender soberanamente petróleo a Cuba foi simplesmente desconhecido – e o direito do povo e do governo cubanos de importar soberanamente petróleo de qualquer nação do mundo foi violentado. É uma ordem contra os princípios do direito internacional que violenta a soberania de todos os Estados, não somente de Cuba. A justificativa que se utiliza para essa ordenança é absolutamente mentirosa. Certamente, o governo dos Estados Unidos e particularmente o presidente desse país não têm nenhum apego à verdade. Mas enfatizo outro elemento de maior importância, que caminha na mesma linha do recrudescimento do bloqueio que já tem mais de 67 anos: essa (nova) medida é realmente um genocídio contra o povo cubano, de maneira clara e expl ícita para o mundo.” 

Os apoios a Cuba

“Existe um consenso internacional contra o bloqueio. O movimento de países não alinhados emitiu uma resolução de condenação à ordenança presidencial e ratificou a solidariedade a Cuba. Estamos falando de 160 países do mundo. O grupo de países defensores da Carta das Nações Unidas também emitiu uma comunicação condenando a ordenança. Países muito importantes de todo o mundo se pronunciaram. A Rússia emitiu um comunicado forte, ratificando a relação com Cuba e a rejeição a essa política dos Estados Unidos. A China rejeitou a ordenança presidencial e ratificou sua posição solidária de apoio a Cuba. A China fez uma doação de 60 mil toneladas de arroz ao povo cubano, e as primeiras 30 mil toneladas já foram entregues. O chanceler de Cuba foi recebido em condiç&at ilde;o de emissário especial do presidente da República em países como Vietnã e China. Temos recebido visitas importantes da Rússia após a publicação dessa ordenança. Países da América Latina, como o México, mantêm uma postura solidária com Cuba. O México anunciou recentemente um envio de ajuda humanitária a Cuba, que já saiu do país, mas o problema da proibição da venda de combustíveis se mantém.”

Pronunciamentos do Brasil 

“Escutamos o presidente Lula falar na comemoração do aniversário da criação do PT, quando ele ratificou a solidariedade com Cuba. Inúmeras organizações do Brasil se pronunciaram. O PCdoB se manifestou de maneira clara e rápida. O PT fez o mesmo. Outros partidos também se pronunciaram contra a medida. Quantidades significativas de partidos da base de governo, como PT, PCdoB, Rede e PSOL, entre outros, fizeram um pronunciamento muito explícito contra essa medida e reclamando a solidariedade com Cuba.”

A resistência do povo cubano

“Cuba foi a última colônia espanhola a ser libertada e foi o primeiro país onde triunfou uma revolução radical, martiana, que foi também uma revolução socialista. E essa revolução aconteceu a apenas 180 quilômetros da fronteira com os Estados Unidos. Isso é um fato que não só as elites, mas o poder nos Estados Unidos nunca perdoou. Cuba desafiou os Estados Unidos com êxito. Aqui há uma história que fala por si mesmo. Nós vivemos de uma história de luta. O povo cubano lutou contra a metrópole espanhola durante muitos anos. Lutou em uma ilha onde havia mais soldados espanhóis que soldados norte-americanos nas guerras do Golfo. E os cubanos conseguiram resistir e conseguiram vencer. Estivemos à beira da aniquilação nuclear no ano de 1962. A independência de Cuba tem importância para o conjunto da Am& eacute;rica Latina e do Caribe – e sabemos que esse símbolo pretende ser liquidado pelos Estados Unidos. Mas eles não vão conseguir. Há muita dificuldade, é verdade, mas também há um povo que tem a convicção de que a defesa do nosso país e da soberania é essencial para manter a nossa opção de vida. Não é uma alternativa oferecer submissão aos Estados Unidos. O povo cubano não vai se render.”

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