Não temos a alternativa de “oferecer submissão aos
EUA”, diz embaixador cubano
Bloqueio energético imposto por Trump “priva o povo
cubano dos meios de subsistência”, afirma Adolfo Curbelo ao Portal
Vermelho
Iram Alfaia/Vermelho
“O mar do sul se unirá ao mar do norte, e nascerá uma serpente do ovo da águia, antes que Cuba renuncie à sua rebelião.” É a essa citação premonitória e anti-imperialista do poeta e revolucionário José Martí que o embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo, associa a resistência ao bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos contra a Ilha.
Em entrevista exclusiva ao Portal Vermelho, concedida na
sede da Embaixada, em Brasília, Curbelo afirma que “não é uma alternativa
oferecer submissão aos Estados Unidos. O povo cubano não vai se render”.
Segundo ele, a ofensiva do a ação do governo Donald Trump, o “ovo da águia” –
que bloqueou o fornecimento de petróleo a Cuba – é um “genocídio” contra o povo
cubano. Desde o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em
janeiro, os cubanos deixaram de receber o combustível do parceiro
sul-americano.
“Por que falamos em genocídio? Porque, como em todo o bloqueio, essa
medida em particular priva o povo cubano dos meios de subsistência. Quando
impossibilitam que o nosso país importe o petróleo de que necessita para gerar
eletricidade, estão afetando toda a atividade econômica do país e diretamente
ao povo cubano”, diz Curbelo.
Segundo ele, a situação se agrava com a falta de eletricidade, o que
impacta a produção de alimentos, a proteção dos doentes nos hospitais e a
prestação de serviços essenciais. Contudo, Curbelo cita José Martí, o herói da
independência cubana, para deixar claro que a nação continuará resistindo e
sairá vencedora. Existe uma história – afirma o embaixador – à qual a revolução
socialista de 1959 deu continuidade, mantendo a independência real de Cuba
frente aos Estados Unidos.
De modo franco, o representante diplomático no Brasil alerta para o
risco de outras medidas mais violentas de Trump. “Não descartamos nada e nos
preparamos para as piores circunstâncias e os piores cenários possíveis.
Enquanto isso, buscamos soluções, porque nós não podemos esperar”, diz.
Uma dessas soluções é a “eletrificação do país com painéis solares”.
Cuba acaba de completar a marca de 1.000 megawatts desses painéis – ou 10% do
total da capacidade de geração instalada no país. “Fizemos muito progresso
nesse sentido. Ainda não temos a capacidade de armazenamento para poder
incorporar a geração elétrica solar como parte do esquema da distribuição mais
organizada de energia. Mas hoje, graças a essa geração, o país já tem uma
situação um pouco menos complicada em alguns lugares”, afirma.
“Eles (os Estados Unidos) não podem bloquear o sol.
Temos de aumentar a produção e extração de petróleo nacional com tecnologia. O
país está buscando soluções”, agrega o embaixador.
Confira outros trechos da entrevista de Curbelo ao Vermelho:
“Com a proibição da entrada do petróleo em Cuba, o direito de qualquer nação
de vender soberanamente petróleo a Cuba foi simplesmente desconhecido – e o
direito do povo e do governo cubanos de importar soberanamente petróleo de
qualquer nação do mundo foi violentado. É uma ordem contra os princípios do
direito internacional que violenta a soberania de todos os Estados, não somente
de Cuba. A justificativa que se utiliza para essa ordenança é absolutamente
mentirosa. Certamente, o governo dos Estados Unidos e particularmente o
presidente desse país não têm nenhum apego à verdade. Mas enfatizo outro
elemento de maior importância, que caminha na mesma linha do recrudescimento do
bloqueio que já tem mais de 67 anos: essa (nova) medida é
realmente um genocídio contra o povo cubano, de maneira clara e expl ícita para
o mundo.”
Os apoios a Cuba
“Existe um consenso internacional contra o bloqueio. O movimento de países não alinhados emitiu uma resolução de condenação à ordenança presidencial e ratificou a solidariedade a Cuba. Estamos falando de 160 países do mundo. O grupo de países defensores da Carta das Nações Unidas também emitiu uma comunicação condenando a ordenança. Países muito importantes de todo o mundo se pronunciaram. A Rússia emitiu um comunicado forte, ratificando a relação com Cuba e a rejeição a essa política dos Estados Unidos. A China rejeitou a ordenança presidencial e ratificou sua posição solidária de apoio a Cuba. A China fez uma doação de 60 mil toneladas de arroz ao povo cubano, e as primeiras 30 mil toneladas já foram entregues. O chanceler de Cuba foi recebido em condiç&at ilde;o de emissário especial do presidente da República em países como Vietnã e China. Temos recebido visitas importantes da Rússia após a publicação dessa ordenança. Países da América Latina, como o México, mantêm uma postura solidária com Cuba. O México anunciou recentemente um envio de ajuda humanitária a Cuba, que já saiu do país, mas o problema da proibição da venda de combustíveis se mantém.”
Pronunciamentos do Brasil
“Escutamos o presidente Lula falar na comemoração do aniversário da
criação do PT, quando ele ratificou a solidariedade com Cuba. Inúmeras
organizações do Brasil se pronunciaram. O PCdoB se manifestou de maneira clara
e rápida. O PT fez o mesmo. Outros partidos também se pronunciaram contra a
medida. Quantidades significativas de partidos da base de governo, como PT,
PCdoB, Rede e PSOL, entre outros, fizeram um pronunciamento muito explícito
contra essa medida e reclamando a solidariedade com Cuba.”
A resistência do povo cubano
“Cuba foi a última colônia espanhola a ser libertada e foi o primeiro
país onde triunfou uma revolução radical, martiana, que foi também uma
revolução socialista. E essa revolução aconteceu a apenas 180 quilômetros da
fronteira com os Estados Unidos. Isso é um fato que não só as elites, mas o
poder nos Estados Unidos nunca perdoou. Cuba desafiou os Estados Unidos com
êxito. Aqui há uma história que fala por si mesmo. Nós vivemos de uma história
de luta. O povo cubano lutou contra a metrópole espanhola durante muitos anos.
Lutou em uma ilha onde havia mais soldados espanhóis que soldados
norte-americanos nas guerras do Golfo. E os cubanos conseguiram resistir e
conseguiram vencer. Estivemos à beira da aniquilação nuclear no ano de 1962. A
independência de Cuba tem importância para o conjunto da Am& eacute;rica
Latina e do Caribe – e sabemos que esse símbolo pretende ser liquidado pelos
Estados Unidos. Mas eles não vão conseguir. Há muita dificuldade, é verdade,
mas também há um povo que tem a convicção de que a defesa do nosso país e da
soberania é essencial para manter a nossa opção de vida. Não é uma alternativa
oferecer submissão aos Estados Unidos. O povo cubano não vai se render.”
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