Matéria-prima aqui,
inovação lá fora
O Brasil exporta quartzo. O mundo exporta
tecnologia. E nós seguimos comprando o que poderia – com estratégia – nascer
aqui.
Celso Pinto de
Melo/Jornal GGN
“A criatividade, nas condições de
dependência,
tende a ser desviada para a reprodução de padrões externos.” – Celso Furtado [1]
O quartzo parece apenas areia endurecida. Um mineral banal, abundante,
espalhado por serras e leitos de rio. Mas, sob o microscópio da história
econômica, ele revela outra face: é matéria-prima de uma das cadeias
tecnológicas mais decisivas do século XXI. Do vidro plano às telas de
smartphones; da fibra óptica aos componentes críticos da microeletrônica; do
para-brisa laminado aos painéis solares – tudo começa no SiO₂.
O Brasil exporta quartzo. O mundo exporta tecnologia. E nós seguimos
comprando o que poderia – com estratégia – nascer aqui.
Um dado estrutural reforça o argumento: segundo o U.S. Geological
Survey, o Brasil está entre os países com reservas relevantes de quartzo de
alta pureza, ainda que as estatísticas globais não detalhem plenamente os
teores por grau de pureza. O que importa, porém, é menos a porcentagem exata no
estoque mundial e mais que o país é reconhecido como fonte relevante de sílica
industrial e, ainda assim, permanece concentrado na exportação de material
bruto [2].
Em 2024, a China importou do Brasil cerca de 43 mil toneladas de quartzo
bruto, pagando aproximadamente US$ 17,5 milhões. Isso equivale a algo como US$
0,40 por quilo (Fig. 1). Em outras palavras: vendemos o mineral por centavos.
No mesmo universo material, o Brasil importou, no mesmo período, mantas
de fibra de vidro – estruturas não tecidas utilizadas como insumo em compósitos
e laminados – e cabos de fibra óptica por dezenas e centenas de milhões de
dólares [3]. O que muda entre uma ponta e outra da cadeia não é a geologia. É o
domínio do processo.
Essa é a velha armadilha brasileira: ficar no degrau inferior da escada de
valor enquanto outros sobem a cadeia tecnológica.
O vidro como tecnologia – não como produto
A história do vidro ensina algo fundamental. Ele não é apenas um
material; é uma plataforma industrial. Ao longo do século XX, sucessivos
avanços tecnológicos redefiniram seu papel econômico.
O desenvolvimento de borossilicatos resistentes a choques térmicos (como
o Pyrex) consolidou o vidro como instrumento científico e industrial [4]. A
laminação e a têmpera transformaram segurança automotiva em padrão [5]. Já o
processo float, anunciado em 1959, industrializou a produção de
vidro plano de alta qualidade e revolucionou a arquitetura e o design de
produtos [5].
Mais recentemente, o vidro deixou de ser “janela” para virar “pele”:
aluminosilicatos quimicamente reforçados e revestimentos funcionais tornaram-se
a interface física da era digital.
Em todos esses saltos há um denominador comum: domínio de processo,
controle de pureza, engenharia térmica, química de superfície, metrologia e
propriedade intelectual.
É nesse ponto que o quartzo deixa de ser um produto primárioe se torna um ativo
estratégico.
O degrau invisível: da sílica ao silício
O quartzo de alta pureza é insumo crítico para aplicações eletrônicas,
fibras ópticas e a produção de silício. Não é qualquer quartzo que serve. A
diferença entre areia comum e sílica de grau eletrônico está nas impurezas, no
controle de defeitos, na engenharia do forno.
Esse é o ponto: o valor não está no mineral, mas na capacidade de
purificá-lo, fundi-lo, controlá-lo e transformá-lo. O Brasil possui reservas
relevantes. Mas exporta volume bruto e importa produtos processados. A lógica
colonial reaparece sob forma industrial.
O parque industrial brasileiro: capacidade existe – mas onde está o
comando?
Brasil produz vidro plano em escala industrial. Operam no país grupos
globais como a Cebrace, joint venture entre a francesa Saint-Gobain e a
japonesa NSG; a AGC Glass Brazil, subsidiária do grupo japonês AGC; e a
Guardian, com plantas no Rio de Janeiro e em São Paulo, vinculada à
norte-americana Koch Industries. Elas operam plantas modernas e abastecem o
mercado interno e parte da América do Sul. Mas o comando tecnológico, o
desenvolvimento dos equipamentos de fusão, a engenharia de processo e a
propriedade intelectual permanecem concentrados nas matrizes estrangeiras. Em
Pernambuco, há também a Vivix, do Grupo Cornélio Brennand, de capital nacional,
cuja tecnologia de fusão L.E.M., mais eficiente, está associada a um fornecedor
internacional especializado. Em suma, temos volume de produção, mas não
controlamos a trajetória tecnológica.
O que está em disputa não é simplesmente “ter fábrica”, mas sim dominar os
processos críticos: química fina da sílica, revestimentos funcionais (coatings),
controle avançado de defeitos, integração com automação proprietária e
engenharia de produto.
É nesse nível que se decide a soberania tecnológica.
Ilhas de excelência: ciência nós temos
O Brasil não parte do zero. Enquanto o LaMaV (UFSCar), da UFSCar, criado
nos anos 1970, consolidou-se como referência nacional e internacional em
pesquisa sobre vidros e vitrocerâmicas[6]. Já o Centro de Pesquisa, Educação e
Inovação em Vidros (CeRTEV), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão
(CEPIDs) apoiados pela FAPESP, articula pesquisa básica e aplicada, além da
interação com empresas no campo dos materiais vítreos [7]. Há ainda cooperações
recentes entre universidades e indústria, como o projeto da UPE com a Vivix
para monitoramento de fornos por meio de inteligência artificial (UPE, 2025)
[8].
Ou seja: a competência científica existe. O gargalo é transformá-la em
uma estratégia industrial coordenada.
Estratégia nacional: subir a escada de valor
É preciso dizer o óbvio: Essa situação não é destino; é escolha. Uma
estratégia nacional para o setor começa por um mapeamento integrado da cadeia
SiO₂–vidro–sílica de alta pureza–aplicações
críticas, identificando gargalos tecnológicos e oportunidades reais de captura
de valor. Trata-se de reconhecer que a inovação não é linear – não segue o
trajeto simplificado “mina–fábrica–mercado” –, mas se organiza em rede,
articulando ciência, engenharia, fornecedores, equipamentos, financiamento e
demanda.
Por isso, a agenda do quartzo e dos vidros avançados precisa integrar
uma estratégia de missões nacionais, articulada aos setores de semicondutores,
infraestrutura digital, transição energética e mobilidade de nova geração – o
conjunto das transformações tecnológicas que estão mudando o transporte de
pessoas e cargas [9]. Isso implica estimular rotas de beneficiamento avançado
do quartzo, com foco em sílica de alta pureza e sílica fundida; vincular as
expansões industriais a compromissos efetivos de P&D no país e formação de
engenheiros de processo; e utilizar compras públicas como instrumento de
indução tecnológica. Não se trata de ações dispersas, mas de um conjunto
coerente orientado por objetivos estratégicos.
A urgência dessa agenda se revela com maior nitidez na cadeia da fibra
óptica. A unidade da Prysmian em Sorocaba – única na América Latina com
produção integrada de preforma e fibra – opera com cerca de metade da
capacidade e chegou a interromper as atividades em 2023, diante da concorrência
de importações fortemente subsidiadas. Produzir um quilômetro de fibra no
Brasil custa várias vezes mais do que importá-lo da Ásia; a diferença não é de
eficiência fabril, mas de estratégia nacional. Sem instrumentos de defesa
comercial e sem política industrial, o país corre o risco de perder o elo mais
sofisticado da cadeia da sílica justamente quando a infraestrutura digital se
torna o sistema nervoso da economia.
Há, contudo, uma janela de oportunidade. É o momento de recolocar a
política industrial – e, nela, a agenda de materiais estratégicos – no centro
do projeto de desenvolvimento e de soberania tecnológica.
Sem coordenação estratégica, continuaremos exportando matéria-prima e
importando inteligência incorporada – vendendo areia por centavos e comprando o
futuro por bilhões.
O preço da miopia
Celso Furtado alertava que a dependência desvia a criatividade para uma
simples reprodução de padrões externos. No caso do quartzo, a frase ganha
materialidade brutal. Exportamos 43 mil toneladas por 17 milhões de dólares. E
importamos fibras, cabos e sistemas por valores muito superiores [3].
Não se trata de protecionismo nem de saudosismo industrial, mas de
reconhecer que o século XXI se organiza em torno de cadeias tecnológicas
complexas – e que, nelas, quem controla o processo concentra o poder.
Na geopolítica, o vidro não é transparente – é uma infraestrutura de
poder. E o Brasil precisa decidir se continuará fornecedor de areia ou se
assumirá, de uma vez por todas, o projeto de dominar a própria cadeia
tecnológica.
Bibliografia
1. Furtado, C., Criatividade e dependência na civilização industrial. 1978, Rio de Janeiro: Paz e Terra.
2. Survey, U.S.G., Mineral Commodity Summaries 2025 – Quartz. 2025.
3. World Bank. WITS Trade Data 2024 – HS 250610, 701931, 854470.
2024; https://wits.worldbank.org.
4. Corning. The history of Corning innovation.
2026; https://www.corning.com.
5. Pilkington. Invention of Float Glass. 2026; https://www.pilkington.com.
6. SBPMat. 40 anos do primeiro laboratório de pesquisa em vidros do Brasil. 2016; https://www.sbpmat.org.br.
7. FAPESP. CeRTEV – Centro de Pesquisa, Educação e
Inovação em Vidros. 2026; https://cepid.fapesp.br.
8. UPE. Projeto de monitoramento de fornos com IA.
2025; https://www.upe.br.
9. de Melo, C.P., Brasil: Do Arquipélago ao Continente, Blog CPM.; https://blogdecelsopdemelo.wordpress.com/2025/12/22/22-12-2025-brasil-do-arquipelago-ao-continente/.
Celso P. de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A
do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
Lula defende governança global da IA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/lula-na-india-posicao-avancada.html

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