23 fevereiro 2026

Dependência tecnológica

Matéria-prima aqui, inovação lá fora
O Brasil exporta quartzo. O mundo exporta tecnologia. E nós seguimos comprando o que poderia – com estratégia – nascer aqui.
Celso Pinto de Melo/Jornal GGN   

“A criatividade, nas condições de dependência,
tende a ser desviada para a reprodução de padrões externos.” – Celso Furtado [1]

O quartzo parece apenas areia endurecida. Um mineral banal, abundante, espalhado por serras e leitos de rio. Mas, sob o microscópio da história econômica, ele revela outra face: é matéria-prima de uma das cadeias tecnológicas mais decisivas do século XXI. Do vidro plano às telas de smartphones; da fibra óptica aos componentes críticos da microeletrônica; do para-brisa laminado aos painéis solares – tudo começa no SiO.

O Brasil exporta quartzo. O mundo exporta tecnologia. E nós seguimos comprando o que poderia – com estratégia – nascer aqui. 

Um dado estrutural reforça o argumento: segundo o U.S. Geological Survey, o Brasil está entre os países com reservas relevantes de quartzo de alta pureza, ainda que as estatísticas globais não detalhem plenamente os teores por grau de pureza. O que importa, porém, é menos a porcentagem exata no estoque mundial e mais que o país é reconhecido como fonte relevante de sílica industrial e, ainda assim, permanece concentrado na exportação de material bruto [2].

Em 2024, a China importou do Brasil cerca de 43 mil toneladas de quartzo bruto, pagando aproximadamente US$ 17,5 milhões. Isso equivale a algo como US$ 0,40 por quilo (Fig. 1). Em outras palavras: vendemos o mineral por centavos.

No mesmo universo material, o Brasil importou, no mesmo período, mantas de fibra de vidro – estruturas não tecidas utilizadas como insumo em compósitos e laminados – e cabos de fibra óptica por dezenas e centenas de milhões de dólares [3]. O que muda entre uma ponta e outra da cadeia não é a geologia. É o domínio do processo.

Essa é a velha armadilha brasileira: ficar no degrau inferior da escada de valor enquanto outros sobem a cadeia tecnológica.  

O vidro como tecnologia – não como produto

A história do vidro ensina algo fundamental. Ele não é apenas um material; é uma plataforma industrial. Ao longo do século XX, sucessivos avanços tecnológicos redefiniram seu papel econômico. 

O desenvolvimento de borossilicatos resistentes a choques térmicos (como o Pyrex) consolidou o vidro como instrumento científico e industrial [4]. A laminação e a têmpera transformaram segurança automotiva em padrão [5]. Já o processo float, anunciado em 1959, industrializou a produção de vidro plano de alta qualidade e revolucionou a arquitetura e o design de produtos [5].

Mais recentemente, o vidro deixou de ser “janela” para virar “pele”: aluminosilicatos quimicamente reforçados e revestimentos funcionais tornaram-se a interface física da era digital.

Em todos esses saltos há um denominador comum: domínio de processo, controle de pureza, engenharia térmica, química de superfície, metrologia e propriedade intelectual.

É nesse ponto que o quartzo deixa de ser um produto primárioe se torna um ativo estratégico.

O degrau invisível: da sílica ao silício

O quartzo de alta pureza é insumo crítico para aplicações eletrônicas, fibras ópticas e a produção de silício. Não é qualquer quartzo que serve. A diferença entre areia comum e sílica de grau eletrônico está nas impurezas, no controle de defeitos, na engenharia do forno.

Esse é o ponto: o valor não está no mineral, mas na capacidade de purificá-lo, fundi-lo, controlá-lo e transformá-lo. O Brasil possui reservas relevantes. Mas exporta volume bruto e importa produtos processados. A lógica colonial reaparece sob forma industrial.

O parque industrial brasileiro: capacidade existe – mas onde está o comando?

Brasil produz vidro plano em escala industrial. Operam no país grupos globais como a Cebrace, joint venture entre a francesa Saint-Gobain e a japonesa NSG; a AGC Glass Brazil, subsidiária do grupo japonês AGC; e a Guardian, com plantas no Rio de Janeiro e em São Paulo, vinculada à norte-americana Koch Industries. Elas operam plantas modernas e abastecem o mercado interno e parte da América do Sul. Mas o comando tecnológico, o desenvolvimento dos equipamentos de fusão, a engenharia de processo e a propriedade intelectual permanecem concentrados nas matrizes estrangeiras. Em Pernambuco, há também a Vivix, do Grupo Cornélio Brennand, de capital nacional, cuja tecnologia de fusão L.E.M., mais eficiente, está associada a um fornecedor internacional especializado. Em suma, temos volume de produção, mas não controlamos a trajetória tecnológica.

O que está em disputa não é simplesmente “ter fábrica”, mas sim dominar os processos críticos: química fina da sílica, revestimentos funcionais (coatings), controle avançado de defeitos, integração com automação proprietária e engenharia de produto.

É nesse nível que se decide a soberania tecnológica.

Ilhas de excelência: ciência nós temos 

O Brasil não parte do zero. Enquanto o LaMaV (UFSCar), da UFSCar, criado nos anos 1970, consolidou-se como referência nacional e internacional em pesquisa sobre vidros e vitrocerâmicas[6]. Já o Centro de Pesquisa, Educação e Inovação em Vidros (CeRTEV), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP, articula pesquisa básica e aplicada, além da interação com empresas no campo dos materiais vítreos [7]. Há ainda cooperações recentes entre universidades e indústria, como o projeto da UPE com a Vivix para monitoramento de fornos por meio de inteligência artificial (UPE, 2025) [8].

Ou seja: a competência científica existe. O gargalo é transformá-la em uma estratégia industrial coordenada.

Estratégia nacional: subir a escada de valor 

É preciso dizer o óbvio: Essa situação não é destino; é escolha. Uma estratégia nacional para o setor começa por um mapeamento integrado da cadeia SiO–vidro–sílica de alta pureza–aplicações críticas, identificando gargalos tecnológicos e oportunidades reais de captura de valor. Trata-se de reconhecer que a inovação não é linear – não segue o trajeto simplificado “mina–fábrica–mercado” –, mas se organiza em rede, articulando ciência, engenharia, fornecedores, equipamentos, financiamento e demanda.

Por isso, a agenda do quartzo e dos vidros avançados precisa integrar uma estratégia de missões nacionais, articulada aos setores de semicondutores, infraestrutura digital, transição energética e mobilidade de nova geração – o conjunto das transformações tecnológicas que estão mudando o transporte de pessoas e cargas [9]. Isso implica estimular rotas de beneficiamento avançado do quartzo, com foco em sílica de alta pureza e sílica fundida; vincular as expansões industriais a compromissos efetivos de P&D no país e formação de engenheiros de processo; e utilizar compras públicas como instrumento de indução tecnológica. Não se trata de ações dispersas, mas de um conjunto coerente orientado por objetivos estratégicos.

A urgência dessa agenda se revela com maior nitidez na cadeia da fibra óptica. A unidade da Prysmian em Sorocaba – única na América Latina com produção integrada de preforma e fibra – opera com cerca de metade da capacidade e chegou a interromper as atividades em 2023, diante da concorrência de importações fortemente subsidiadas. Produzir um quilômetro de fibra no Brasil custa várias vezes mais do que importá-lo da Ásia; a diferença não é de eficiência fabril, mas de estratégia nacional. Sem instrumentos de defesa comercial e sem política industrial, o país corre o risco de perder o elo mais sofisticado da cadeia da sílica justamente quando a infraestrutura digital se torna o sistema nervoso da economia. 

Há, contudo, uma janela de oportunidade. É o momento de recolocar a política industrial – e, nela, a agenda de materiais estratégicos – no centro do projeto de desenvolvimento e de soberania tecnológica.

Sem coordenação estratégica, continuaremos exportando matéria-prima e importando inteligência incorporada – vendendo areia por centavos e comprando o futuro por bilhões.

O preço da miopia 

Celso Furtado alertava que a dependência desvia a criatividade para uma simples reprodução de padrões externos. No caso do quartzo, a frase ganha materialidade brutal. Exportamos 43 mil toneladas por 17 milhões de dólares. E importamos fibras, cabos e sistemas por valores muito superiores [3].

Não se trata de protecionismo nem de saudosismo industrial, mas de reconhecer que o século XXI se organiza em torno de cadeias tecnológicas complexas – e que, nelas, quem controla o processo concentra o poder.

Na geopolítica, o vidro não é transparente – é uma infraestrutura de poder. E o Brasil precisa decidir se continuará fornecedor de areia ou se assumirá, de uma vez por todas, o projeto de dominar a própria cadeia tecnológica.
 

Bibliografia

1.  Furtado, C., Criatividade e dependência na civilização industrial. 1978, Rio de Janeiro: Paz e Terra.

2.  Survey, U.S.G., Mineral Commodity Summaries 2025 – Quartz. 2025.

3.  World Bank. WITS Trade Data 2024 – HS 250610, 701931, 854470. 2024; https://wits.worldbank.org.

4.  Corning. The history of Corning innovation. 2026; https://www.corning.com.

5.  Pilkington. Invention of Float Glass. 2026; https://www.pilkington.com.

6.  SBPMat. 40 anos do primeiro laboratório de pesquisa em vidros do Brasil. 2016; https://www.sbpmat.org.br.

7.  FAPESP. CeRTEV – Centro de Pesquisa, Educação e Inovação em Vidros. 2026; https://cepid.fapesp.br.

8.  UPE. Projeto de monitoramento de fornos com IA. 2025;  https://www.upe.br

9.  de Melo, C.P., Brasil: Do Arquipélago ao ContinenteBlog CPM.; https://blogdecelsopdemelo.wordpress.com/2025/12/22/22-12-2025-brasil-do-arquipelago-ao-continente/.


Celso P. de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Lula defende governança global da IA 
https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/02/lula-na-india-posicao-avancada.html 

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