29 janeiro 2026

Enio Lins opina

Novos holocaustos, novos lucros, velhos crimes
Enio Lins   

COMPLETARAM-SE 81 ANOS da libertação dos prisioneiros no campo de extermínio de Auschwitz. Em 27 de janeiro de 1945, uma das vanguardas do Exército Vermelho Soviético, empurrando as tropas alemães para Oeste, alcançou a maior das fábricas de mortes dos nazistas. Naquelas instalações, no sul da Polônia ocupada pela Alemanha, permaneciam cerca de sete mil sobreviventes. Levantamentos posteriores comprovaram que ali foram executadas em massa cerca de 1,1 milhão de pessoas. Desse total, aproximadamente, 90% eram judeus (comunistas, ciganos e outros grupos de "indesejáveis" completavam lista). A data passou a ser considerada como o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto.

AUSCHWITZ ERA UM COMPLEXO de campos de concentração e de extermínio, composto por Auschwitz I (núcleo principal e centro administrativo); Auschwitz II Birkenau (exclusivo para extermínio), Auschwitz III Monowitz, e mais 45 campos satélites. Era a ponta-de-lança da Solução Final implantada com rigor mortal pelo alto comando do Terceiro Reich, a partir do projeto “A Solução Final para o Problema Judeu”, definido em janeiro de 1942, na Conferência de Wannsee, liderada pelo general SS Reinhard Heydrich, homem de total confiança de Adolf Hitler. Seis meses depois, o carrasco Heydrich foi assassinado – em Praga – numa ação combinada entre o serviço secreto britânico e a resistência checa, mas o plano genocida seguiu adiante, visando o extermínio das populações judias em todas as regiões dominadas pela Alemanha. Na época, os nazistas consideravam que venceriam facilmente os soviéticos, eliminando de vez o “perigo comunista” e, simultaneamente, exterminariam a raça judia, e nada lhes impediria de dominar o mundo. Mas a história seguiu outro caminho.

81 ANOS DEPOIS, o ímpeto genocida não refluiu, apenas mudou de endereço e trocou de carrasco. Por ironia crudelíssima do destino, pouco tempo após o 27 de janeiro de 1945, a estrela de seis pontas substituiu a cruz gamada como o símbolo de um novo holocausto, tendo desta vez a população árabe-palestina como o alvo de uma nova “Solução Final”. O cerco, aniquilamento e expropriação na Faixa de Gaza cumpre o papel que o Complexo de Auschwitz cumpriu em seu tempo. Sionistas radicais tomaram o lugar dos nazistas ensandecidos. E não existe mais nem o Exército Vermelho, nem a unidade de ação entre os Aliados (URSS, Estados Unidos, Reino Unido, e demais países aderentes).

HÁ SETE DIAS, Trump lançou, em Davos, na Suíça, seu “Conselho de Paz para Gaza”, rebento que conta, desde a gestação, com a entusiasmada copaternidade de Bibi Netanyahu. O objetivo é numa nova “Conferência de Wannsee”, transformar o principal campo de genocídio palestino (que ainda estão sendo assassinados no local) numa espécie de Disneylândia voltada para o turismo de alta renda às margens do Mediterrâneo. O empreendimento, numa parceria com os genocidas israelenses, prevê uma “solução final” para a população palestina proprietária daquela terra. Vão sumir do mapa. Reinhard Heydrich e Adolf Hitler, se vivos fossem, morreriam de inveja do plano Trump-Netanyahu: letal e altamente lucrativo, até se fala numa taxa de adesão internacional na faixa de US$ 1 bilhão de d& oacute;lares só para o início dos trabalhos.

GENOCÍDIOS PROPORCIONAM grandes lucros para os genocidas. Hitler e a Alemanha nazista enriqueceram incrivelmente com a morte e expropriação dos bens judeus, assim como Leopoldo II e a Bélgica lucram horrores com a matança dos nativos africanos no Estado Livre do Congo, entre 1885 e 1908. O genocídio é um latrocínio em grande escala. E, como se temia nos idos de 1946, as populações originárias da Palestina estão perdendo a vida e todos os bens para os israelenses sionistas e seus financiadores. Gaza é um detalhe nessa tragédia humanitária, o mais dramático, de um holocausto palestino transmitido ao vivo, em tempo real, há – pelo menos – 80 anos. Trump e seu Conselho da Paz apenas apressam o que imaginam ser o capítulo final. Mas assim imaginavam Hitler os nazistas acerca dos judeus, até janeiro de 1945.

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