24 janeiro 2026

Vonselho "de araque"

Trump cria Conselho da Paz fora da ONU e acende alerta na diplomacia global
Iniciativa anunciada no Fórum Econômico Mundial reúne adesão limitada, concentra poder nos EUA e provoca reações de governos que veem risco ao sistema multilateral
Lucas Toth/Vermelho   

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou nesta quinta-feira (22), no Fórum Econômico Mundial em Davos, o chamado “Conselho da Paz”. A iniciativa é criticada por tentar esvaziar o papel da ONU ao criar uma instância paralela de governança internacional e por concentrar poderes inéditos nas mãos do próprio presidente norte-americano.

Apresentado pelo governo dos Estados Unidos durante o fórum, o conselho foi anunciado como uma estrutura destinada a supervisionar a manutenção do cessar-fogo, a administração transitória e a reconstrução da Faixa de Gaza.

No entanto, documentos do estatuto indicam que o órgão não se limita ao território palestino e sequer fazem menção explícita a Gaza, abrindo margem para a atuação do conselho em qualquer conflito internacional.

Na cerimônia de lançamento em Davos, representantes de 19 países subiram ao palco para assinar o documento que formaliza a criação do conselho. 

Entre os signatários estiveram os presidentes da Argentina, Javier Milei, do Paraguai, Santiago Peña, do Azerbaijão, Ilham Aliyev, o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, e a presidente do Kosovo, Vjosa Osmani.

Durante o discurso de lançamento, Trump afirmou que o conselho terá autorização para “fazer praticamente tudo o que quisermos” e voltou a criticar a ONU.

O desenho institucional e o lançamento do Conselho da Paz, no entanto, provocaram reações críticas de governos, diplomatas e analistas, que apontam riscos à governança multilateral, à transparência e à legitimidade internacional da iniciativa. 

Além disso, chama a atenção a concentração de poderes atribuída ao presidente dos Estados Unidos. 

De acordo com a minuta da carta constitutiva do conselho, Donald Trump exercerá a presidência do órgão por tempo indefinido, com amplas prerrogativas executivas, incluindo poder de veto sobre decisões, autoridade para destituir integrantes e controle centralizado sobre o funcionamento da nova estrutura.

Diplomatas e governos europeus ouvidos pela imprensa internacional avaliam que a iniciativa representa uma tentativa de criar uma instância paralela de governança global, à margem da ONU e de seus mecanismos formais de deliberação. 

Um diplomata europeu citado pela agência Reuters afirmou que o conselho se assemelha a uma “ONU de Trump”, por ignorar princípios centrais da Carta das Nações Unidas e concentrar decisões fora de fóruns multilaterais reconhecidos.

As declarações do próprio presidente norte-americano reforçaram essa percepção. Ao lançar o conselho, Trump afirmou que “nunca nem falou com a ONU” e que o novo órgão poderá “fazer praticamente tudo o que quisermos”.

Para analistas, a combinação entre críticas diretas à ONU e a criação de uma nova estrutura sob liderança exclusiva dos Estados Unidos sinaliza um movimento de esvaziamento deliberado do multilateralismo.

Essa leitura ajuda a explicar a resistência manifestada por governos, que veem o conselho como um precedente perigoso para a fragmentação da governança global. 

A preocupação central é que decisões sobre conflitos internacionais passem a ser tomadas em fóruns ad hoc, liderados por grandes potências, sem os freios institucionais e os consensos exigidos no âmbito das Nações Unidas.

Adesão limitada e recusa de países-chave

Apesar de Trump afirmar que “todos os países querem fazer parte” do Conselho da Paz, a adesão concreta ao lançamento é, até agora, limitada.

Apenas representantes de 19 países participaram da assinatura do documento em Davos, em um evento marcado pela ausência de grandes aliados ocidentais dos Estados Unidos, como França, Alemanha, Reino Unido, Canadá e Japão.

Alguns governos europeus anunciaram recusa explícita à iniciativa. A França, potência central da União Europeia e membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, também não aderiu ao Conselho da Paz.

Os franceses declararam reservas quanto à criação de um novo órgão internacional fora do sistema das Nações Unidas.

A Noruega e a Suécia também informaram que não irão integrar o conselho, enquanto a Itália afirmou que ainda avalia os termos do estatuto antes de tomar uma decisão. 

No Reino Unido, autoridades indicaram preocupações jurídicas e políticas, além de questionarem a possibilidade de participação da Rússia em um órgão apresentado como voltado à promoção da paz.

Para diplomatas ouvidos por agências internacionais, o número reduzido de signatários no lançamento e a cautela de países centrais do sistema internacional fragilizam a legitimidade do conselho e reforçam a avaliação de que se trata de uma iniciativa politicamente alinhada a um grupo específico de governos, e não de um mecanismo com respaldo amplo da comunidade internacional.

Trump joga WAR tendo o mundo como tabuleiro https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/thiago-modenesi-opina_15.html

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