20 janeiro 2026

Enio Lins: história viva

A história ainda pouco conhecida da resistência em Pariconha
Enio Lins   

NOS ANOS 60, quase ninguém, além dos moradores do local, tinha ideia da existência de um povoado chamado Pariconha, incrustrado nos limites alagoanos, na ribeira do Moxotó, município de Água Branca. Arruado com curtas fieiras de casas, vielas em chão batido, varrido de vez em quando por redemoinhos mansos, alevantando gravetos, folhas e areia fina. Pequenos sítios espalhados pela caatinga e, pelo menos três tribos: Catoquin, Caruazú e Geripancó, do tronco étnico Pancararú (escrevo pelo som em português, por crer ser a vocalização mais aproximada ao original; dispenso, por conta própria, os w, y, k tão valorizados por profissionais do ramo).

EM 1966, SOB O TERROR crescente da ditadura militar, a Ação Popular – organização clandestina originada na esquerda católica – resolveu deslocar quadros qualificados para a alagoana Pariconha, buscando ali a construção de uma resistência campesina. Naquele cenário, em janeiro de 1967, chegou “de São Paulo”, um jovem casal e sua filha. Os adultos se presentaram como Juarez Echeverria, uruguaio naturalizado, e sua esposa Rosa. Ele, para ocupar a vaga de contabilista na cooperativa rural, ela professora. Estabeleceram-se. No ano seguinte, outra família “paulista”: Roberto e Dolores, mais filho e filha pequenos.

UMA ESCOLA DE QUADROS 
para a militância camponesa da AP era a meta. Foram ministrados, ao longo de quase dois anos, cursos clandestinos para dezenas de lideranças rurais nordestinas, trazendo gente até do Maranhão. Parte desse esforço brotou na Cooperativa dos Trabalhadores Rurais, que ganhou representatividade e se fortaleceu. Aí ficou mais visível do que deveria. Em 1968, durante uma visita do então governador Lamenha Filho ao povoado, numa reunião pública, a fala do representante dos cooperativados surpreendeu os visitantes. Sistematizada, com dados concretos e base teórica, a intervenção expôs algo muito diferenciado. A turma pariconhense estava ousada, estudada, com vocabulário peculiar. Tinha coisa lá.

NO FINAL DE 1968,
 no embalo do AI-5, a repressão alcançou o povoado esquecido. Foram aprisionadas as duas famílias “paulistas”, inclusive as crianças, e moradores nativos. Quem prendeu não sabia do que acusar, pois não havia ocorrido nada que pudesse dar início a um processo, mesmo pela legislação draconiana da época. Mas eram “subversivos”, isto era certo. Nem tinham ideia de quem capturaram. Mas as organizações de esquerda em Alagoas foram informadas que os presos eram dirigentes de AP, e um deles era Aldo Arantes, militante dos mais caçados em todo Brasil desde antes de 1964, pois como presidente da UNE tinha, ao lado de Brizola, organizado o movimento pela posse de João Goulart em 1962, freando o golpe por dois anos. Se fosse identificado, poderia ser assassinado. Um plano de fuga foi traçado, unindo vários grupos clandestinos.

JUAREZ E ROBERTO 
fugiram do DOPS de Maceió numa ação pluripartidária e rocambolesca, com participação, dentre outras pessoas, do médico José Rocha (PCB), e de duas jovens militantes da AP, Alba Correia e Macilea Chaves (esta mudou-se para São Paulo, onde casou-se e, em 1971, deu à luz a Alexandre Padilha, atual ministro da Saúde). Os demais detidos - nativos, e as mulheres e crianças visitantes - foram soltos por inexistência de acusações. Roberto é Aldo Arantes, que retornou várias vezes e proferiu palestras sobre a experiência. Juarez é Gilberto Franco, também voltou, inclusive concedeu excelente entrevista a Plínio Lins (O Jornal, 1996), mas nunca palestrou. Até amanhã, quando falará ao público no Teatro Homerinho, às 19 horas. Rosa, cujo nome real é Rosemary, também fará seu relato, em evento com a participação do professor Edvaldo Nascimento, pesquisador dedicado ao tema. Promoção da Fundação Maurício Grabois e do PCdoB. Momento imperdível.

Leia também A militância nossa de cada época https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_29.html 

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