A história
ainda pouco conhecida da resistência em Pariconha
Enio Lins
NOS ANOS 60, quase ninguém, além dos moradores do local, tinha ideia da existência de um povoado chamado Pariconha, incrustrado nos limites alagoanos, na ribeira do Moxotó, município de Água Branca. Arruado com curtas fieiras de casas, vielas em chão batido, varrido de vez em quando por redemoinhos mansos, alevantando gravetos, folhas e areia fina. Pequenos sítios espalhados pela caatinga e, pelo menos três tribos: Catoquin, Caruazú e Geripancó, do tronco étnico Pancararú (escrevo pelo som em português, por crer ser a vocalização mais aproximada ao original; dispenso, por conta própria, os w, y, k tão valorizados por profissionais do ramo).
EM 1966, SOB O TERROR crescente da ditadura militar, a Ação Popular – organização
clandestina originada na esquerda católica – resolveu deslocar quadros
qualificados para a alagoana Pariconha, buscando ali a construção de uma
resistência campesina. Naquele cenário, em janeiro de 1967, chegou “de São
Paulo”, um jovem casal e sua filha. Os adultos se presentaram como Juarez
Echeverria, uruguaio naturalizado, e sua esposa Rosa. Ele, para ocupar a vaga
de contabilista na cooperativa rural, ela professora. Estabeleceram-se. No ano
seguinte, outra família “paulista”: Roberto e Dolores, mais filho e filha
pequenos.
UMA ESCOLA DE QUADROS para a militância camponesa da AP era a meta. Foram
ministrados, ao longo de quase dois anos, cursos clandestinos para dezenas de
lideranças rurais nordestinas, trazendo gente até do Maranhão. Parte desse
esforço brotou na Cooperativa dos Trabalhadores Rurais, que ganhou
representatividade e se fortaleceu. Aí ficou mais visível do que deveria. Em
1968, durante uma visita do então governador Lamenha Filho ao povoado, numa reunião
pública, a fala do representante dos cooperativados surpreendeu os visitantes.
Sistematizada, com dados concretos e base teórica, a intervenção expôs algo
muito diferenciado. A turma pariconhense estava ousada, estudada, com
vocabulário peculiar. Tinha coisa lá.
NO FINAL DE 1968, no embalo do AI-5, a repressão alcançou o povoado
esquecido. Foram aprisionadas as duas famílias “paulistas”, inclusive as
crianças, e moradores nativos. Quem prendeu não sabia do que acusar, pois não
havia ocorrido nada que pudesse dar início a um processo, mesmo pela legislação
draconiana da época. Mas eram “subversivos”, isto era certo. Nem tinham ideia
de quem capturaram. Mas as organizações de esquerda em Alagoas foram informadas
que os presos eram dirigentes de AP, e um deles era Aldo Arantes, militante dos
mais caçados em todo Brasil desde antes de 1964, pois como presidente da UNE
tinha, ao lado de Brizola, organizado o movimento pela posse de João Goulart em
1962, freando o golpe por dois anos. Se fosse identificado, poderia ser
assassinado. Um plano de fuga foi traçado, unindo vários grupos clandestinos.
JUAREZ E ROBERTO fugiram do DOPS de Maceió numa ação pluripartidária e
rocambolesca, com participação, dentre outras pessoas, do médico José Rocha
(PCB), e de duas jovens militantes da AP, Alba Correia e Macilea Chaves (esta
mudou-se para São Paulo, onde casou-se e, em 1971, deu à luz a Alexandre
Padilha, atual ministro da Saúde). Os demais detidos - nativos, e as mulheres e crianças visitantes - foram soltos por inexistência
de acusações. Roberto é Aldo Arantes, que retornou várias vezes e proferiu
palestras sobre a experiência. Juarez é Gilberto Franco, também voltou,
inclusive concedeu excelente entrevista a Plínio Lins (O Jornal, 1996), mas
nunca palestrou. Até amanhã, quando falará ao público no Teatro Homerinho, às
19 horas. Rosa, cujo nome real é Rosemary, também fará seu relato, em evento
com a participação do professor Edvaldo Nascimento, pesquisador dedicado ao
tema. Promoção da Fundação Maurício Grabois e do PCdoB. Momento imperdível.
Leia também A militância nossa de cada época https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/04/minha-opiniao_29.html

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