Centroavante que se movimenta
não é 'falso' 9
Brasil não acompanhou a evolução na maneira
de jogar. Inventividade, fantasia e improvisação no nosso futebol não pioraram
Tostão/Folha
de S. Paulo
Muitos torcedores, treinadores e jornalistas esportivos insistem na tese de que o futebol brasileiro piorou em relação ao europeu porque diminuiu a inventividade, a fantasia e a improvisação. Penso o contrário, há décadas. Piorou porque não acompanhou a evolução na maneira de jogar. Essa diferença tem diminuído.
O futebol brasileiro venceu as Copas de 58, 62 e 70 porque já unia o
talento individual com o coletivo, e não somente porque tinha muito mais brilho
individual do que os europeus, como insistem em dizer. Na Copa de 58, o ponta Zagallo recuava e formava um trio no
meio-campo. A defesa passou a marcar com uma linha de 4 defensores. Era o
4-3-3, uma evolução do sistema tático WM (3-2-2-3), com três defensores, dois
médios, dois meias ofensivos e três atacantes.
Outro conceito ultrapassado, mas cada dia mais
repetido no Brasil, é que para ser um centroavante é preciso ser um atacante
central fixo, alto, forte, que atua como pivô e que finaliza muito bem. Os que
se movimentam bastante e participam do jogo coletivo são chamados de falso 9,
uma grosseira simplificação. Ao contrário, estes são os centroavantes
completos, ainda mais se forem artilheiros.
A atual seleção brasileira possui vários bons
centroavantes, com diversas características, mas não tem um centroavante fixo
de altíssimo nível, como o artilheiro Haaland, nem um craque que esteja em
todas as partes do ataque e que faça um número enorme de gols, como Kane.
Ancelotti tem
muitas opções de acordo com o momento. Pode ser um clássico centroavante
(Pedro, Igor Jesus), um que se movimenta bastante (João Pedro, Matheus Cunha)
ou um centroavante veloz para receber a bola nas costas dos defensores (Vinicius
Junior, Kaio Jorge, Vitor Roque). Se a Copa fosse hoje, Vinicius
Junior seria o titular.
Não há uma maneira única de ganhar o Mundial. Como disse Luís Curro,
o Brasil já foi campeão com dois grandes craques centroavantes de
características diferentes —Romário, em 94, e Ronaldo, em 2002—, com um centroavante
típico, fixo —Vavá, nas Copas de 58 e 62— e sem um clássico centroavante
—Tostão, em 70.
Quando Zagallo assumiu a
seleção de 70, convocou dois típicos centroavantes artilheiros (Dario e
Roberto) e disse que eu seria reserva de Pelé, pois não era da posição. Modéstia à parte, eu
tinha convicção de que ele mudaria de ideia, pois a seleção precisava de um
centroavante armador, facilitador, para atuar entre Pelé e Jairzinho, como
ocorreu. Na seleção, eu fui para Pelé e Jairzinho o que Evaldo era no Cruzeiro
para mim e Dirceu Lopes.
Mesmo se o Brasil fizer tudo
certo e tiver uma grande equipe no Mundial, o título, em um campeonato curto e
com outras grandes seleções, será conquistado nos detalhes e no imponderável.
"A vida dá muitas voltas, a vida não é da gente" (João Guimarães
Rosa).
Futebol: estratégia e arte https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/08/futebol-estrategia-e-arte.html

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