Reindustrialização, ainda é
o caminho?Abraham B. Sicsu
Na transição para o atual Governo Lula, uma iniciativa muito importante foi a estruturação de um projeto de desenvolvimento para o país. Muitos nos envolvemos nessa construção conjunta e definimos bases para a busca de uma sociedade mais equânime, sustentável e sólida, com a inserção efetiva da sociedade nos frutos dos caminhos a serem seguidos.
Uma das constatações
feitas, a priori, foi o processo de desindustrialização que o País vinha
sofrendo e a necessidade de reverter esse processo para permitir melhorias no
padrão de vida e na renda das populações. Um país que em 2010 tinha no setor
industrial a participação de 22% no PIB viu decair essa participação para menos
de 10% em 2022.
Com isso, se elabora
um plano para a indústria nacional, o Nova Indústria Brasil - NIB, que tenta
dar condições para a recuperação do setor. Nas palavras do Vice Presidente e
atual Ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, visando:
"Um dos objetivos centrais da NIB é
aumentar a competitividade das nossas empresas e alavancar as exportações
brasileiras de alto valor agregado, e, aqui, nós estamos falando de um setor de
alta tecnologia, com capacidade não só de produzir e exportar, mas também de
gerar emprego de alta qualificação e alta renda“.
Passados três anos,
cabe fazer uma melhor avaliação do ocorrido e das dificuldades enfrentadas.
Está-se consciente de que os Planos vão se amoldando a conjunturas que nem
sempre podem ser previstas e que é importante entender como objetivos podem ou
não se transformar em realidades.
Um primeiro aspecto a
ser reforçado é a própria mudança da conjuntura mundial. Com as mudanças no
país que detém a hegemonia, o Brasil reforça a busca de acordos internacionais
e formações de blocos, como o que se está ultimando com a União Européia, nem
sempre em condições vantajosas para nós.
Uma análise
interessante deste Bloco em formação específico é feita por Manoel Casado e
Paulo Nogueira Batista Jr. Em artigo na revista TerapiaPolítica, “Acordo
Mercosul/União Europeia: já era ruim e ficou pior”, dizem:
“O Brasil, severamente
desindustrializado, regredindo em marcha forçada à condição de país
primário-exportador, volta a adotar o evangelho do livre comércio – justo na
hora em que economias centrais e países emergentes relevantes reduzem o grau de
exposição externa de suas economias, adotam medidas de proteção contra a
concorrência estrangeira e elevam seu nível de autonomia produtiva e
tecnológica.”
Evidentemente, os setores mais atingidos
nesse processo de integração são aqueles mais tecnificados, no qual se incluem
relevantes segmentos da indústria de transformação, onde ainda não somos
vanguarda mundial, setores onde se tende a aumentar a dependência externa e
onde fica patente a nossa fragilização em investimentos estruturadores.
O quadro não se resume a isso. Para
reforçar o processo de investimentos no setor industrial é fundamental termos
crédito compatível com os empreendimentos. Nossa taxa SELIC é absurda. Mais de
10% de taxa real, retirando a inflação. A atração de investimentos, sejam
internos ou externos, fica bastante dificultada. Nesse processo, o que se nota
é o retornar da entrada de capital especulativo, principalmente em Bolsas, e
uma tendência de arrefecimento do investimento direto em empreendimentos nos
últimos meses.
Problema maior está intimamente ligado ao
câmbio. Temos uma situação bastante complexa. O Real se valorizou, em um ano,
mais de 15% em relação ao Dólar. Com
isso as importações embarateceram e as exportações ficaram menos atrativas. Um
cenário pouco alvissareiro para a indústria de transformação. Verdade, bem
interessante para a exportação de commodities.
Não se pode negar que alguns poucos
segmentos industriais se beneficiam, como a indústria farmacêutica e a
alimentícia, fortemente dependente de insumos externos, mas, em geral, traz
problemas, com a falta de crédito e concorrentes externos melhor posicionados,
com produtos mais baratos. Tal cenário anula qualquer possível proteção alfandegária,
caracterizando-se como uma abertura comercial unilateral.
Se nosso principal
parceiro comercial atual é a China, cabe ver o que ocorre com ela. O Yuan mantém quase uma paridade com o Dólar.
Em doze meses se valorizou apenas 4,66%. Bem menos que os 16% do Real. Com
isso, os produtos chineses se tornaram mais atraentes. Vejam bem, não estamos
falando apenas de produtos de baixa tecnologia embutida, a China produz hoje os
mais sofisticados produtos em quase todas as áreas. Esse cenário reforça a
tendência de sermos um país primário exportador para o gigante asiático, no
máximo com alguns intermediários, com baixíssima exportação na área de maior
valor agregado.
O cenário está
desenhado. O PIB industrial brasileiro, no biênio 2024-2025, teve um desempenho
díspar que merece ser analisado.
Em 2024, saindo de
anos de estagnação, houve uma forte inserção do setor, advindo das medidas da
NIB e da crença na reindustrialização, a indústria apresentou no período um
crescimento de 3,3% em valor, o que a tornou num dos setores responsáveis pelo
forte crescimento anual que tivemos (3,4% do PIB).
Em 2025 parece
apresentar perfil diferente. Sinais de desaceleração são notados. O crescimento
se dá a taxas bem inferiores, entre 1,8 e 2%, segundo a Confederação Nacional
da Indústria. Em quatro meses seguidos não teve crescimento. A demanda não
cresceu conforme esperado dado o custo do crédito, os investimentos
desaceleraram. Bens de capitais, que projetam o crescimento futuro, têm
desacelerado o seu avançar. Isso tudo
faz com que não tenhamos atingido, ainda, em volume e valor o patamar que
tínhamos em 2011.
Se a preocupação é
preparar o País para o futuro, fundamental analisar o perfil dos investimentos
projetados pela NIB e pelo Programa Brasileiro de Inteligência Artificial. Um
dos principais vetores e preocupações é a Transformação Digital de nossas
empresas. Inserir-se em um mundo em que a inteligência artificial passa a
definir tendência de expansão, em que a manipulação de um inimaginável volume
de informações com Data Centers potentíssimos, mundo em que a internet das
coisas é cada vez mais corriqueira, passa a ser fundamental. Faz-se necessário
para o salto de eficiência que se deseja dar na produtividade.
No entanto, tudo o
bem planejado pode ser inviabilizado se não estivermos atentos às condições
macroeconômicas, ao ônus que pagamos por ter um custo financeiro muito maior
que nossos competidores, por um câmbio que inviabiliza qualquer estratégia de
apoio à retomada nos patamares desejados da indústria nacional, por acordos
comerciais que não se atentam às dificuldades setoriais que vamos enfrentar. Esses
são pontos fundamentais a serem analisados.
Leia também Terras raras: por que evitar aproximação com os EUA https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/reservas-estrategicas.html

Nenhum comentário:
Postar um comentário