Juro real no Brasil atinge maior nível em 20 anos e expõe abusos do BC
Com a Selic em 15%, o país atinge juro real de 10,6% e consolida a 2ª maior taxa do mundo, penalizando trabalhadores e favorecendo rentistas
Davi Molinari/Vermelho
A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), nesta quarta-feira (28), de manter a Selic em 15% pela quinta vez consecutiva elevou o juro real brasileiro a 10,6%, nível não visto desde maio de 2006. Com a inflação projetada em 4% para 2026, o país se consolida como o segundo com maior juro real entre as 40 principais economias, atrás apenas da Rússia.
O juro real, resultado da diferença entre a Selic e a inflação, é o mais alto em duas décadas. O Brasil ocupa a segunda posição global há sete meses, com variações entre 9,23% e 10,6%, superando Argentina e Turquia. Em termos nominais, aparece em quarto lugar, atrás de Turquia (37%), Argentina (29%) e Rússia (16%). Nos Estados Unidos, o índice é de 1,55%, enquanto o Japão registra -1,18%.
Desde 2006, picos acima de 10% foram raros. Durante a pandemia, os juros chegaram a ser negativos, mas o retorno ao patamar atual marca um dos períodos mais restritivos da política monetária brasileira.
Alta persistente apesar da desaceleração da inflação
Apesar da desaceleração do IPCA-15 de janeiro — que registrou 0,20% e acumulou 4,5% em 12 meses, situando-se dentro da margem de tolerância —, o Copom sinalizou que cortes ocorrerão apenas a partir de março. Mesmo com indicadores revelando que a economia gira com menores índices de inflação, o comunicado do Comitê justificou a manutenção da Selic pela persistência de incertezas externas e expectativas inflacionárias acima da meta oficial de 3% (com tolerância de 1,5 ponto percentual).
O efeito da política monetária em curso drena para os títulos públicos recursos que seriam destinados a investimentos produtivos. Além disso, encarece o crédito, trava novos investimentos e sufoca o consumo das famílias devido ao endividamento, que já atinge 79,5% dos lares, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC).
A dívida pública brasileira alcançou R$ 8,6 trilhões em 2025, com R$ 984 bilhões pagos apenas em juros (o equivalente a 7,98% do PIB), consumindo praticamente metade do Orçamento da União.
Sociedade critica a Selic a 15%
Centrais sindicais como CTB, CUT e Força Sindical apontam prejuízos severos ao emprego e ao consumo. Para Adilson Araújo, presidente da CTB, “a dívida pública se transformou no principal meio de valorização do capital operado por banqueiros, agiotas e rentistas em nosso país. O pagamento de juros a favor desta casta de parasitas consome, agora, mais do que a metade do orçamento público e configura uma brutal transferência de renda do conjunto da sociedade para os rentistas”, afirmou.
As críticas ao nível alto da Taxa Selic também encontram eco no setor produtivo. A indústria, representada pela CNI, e o setor da construção civil criticam a restrição ao crédito imobiliário, que inviabiliza investimentos e o acesso da população à moradia. O editorial do portal Vermelho https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/editorial-do-vermelho_30.html reforça que a atual política monetária é antagônica aos interesses populares, blinda o rentismo e exige uma reforma profunda no sistema financeiro, visando recolocar o Banco Central sob o controle do Estado.
Leia também: O Governo Lula diante do Estado disfuncional https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/10/estado-brasileiro-disfuncional.html

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