Todos somos América!
A música é política. A arte é política. E Bad Bunny demonstrou, com maestria, que fazer política é também atuar, fazer cultura, cantar
Thiago Modenesi/Vermelho
Não foi apenas um show. Foi uma tomada de palavra. Quando Bad Bunny pisou no palco do Super Bowl no último domingo, ele não entrou apenas no maior palco midiático do mundo, ele o ocupou.
Em um espaço historicamente construído como branco, anglófono e nacionalista, a presença do artista porto-riquenho, coroado dias antes com um Grammy, transcendeu o entretenimento. Transformou-se em um manifesto político, uma ode à história, à cultura e à resistência de uma América Latina frequentemente invisibilizada, mas fundamental para a construção do próprio país que o assistia.
O Super Bowl, ritual central da cultura estadunidense, sempre foi mais que um jogo. É um espetáculo de identidade nacional, um refinado aparato de soft power onde cada elemento, do hino nacional ao show do intervalo, é cuidadosamente coreografado para transmitir uma narrativa unificada. Bad Bunny, porém, rejeitou o roteiro. Em vez de pedir permissão, ele assumiu.
Praticamente todo o seu set, com exceção só de uma frase, foi cantado em espanhol, língua materna de dezenas de milhões naquele país, mas sistematicamente marginalizada em espaços de poder. Cada letra, cada visual, cada sample foi uma afirmação: esta terra tem história, cultura e política muito antes do espetáculo e da criação dos Estados Unidos.
A música é política. A arte é política. E Bad Bunny demonstrou, com maestria, que fazer política é também atuar, fazer cultura, cantar. Em uma terra colonizada, explorada e trabalhada pelas mãos de gerações de imigrantes latino-americanos, seu show foi um reconhecimento dessa história de suor e luta. O gesto mais contundente veio silenciosamente: a aparição da bandeira de Porto Rico, mas não qualquer uma, a com o tom de azul claro associado aos rebeldes pró-independência. Em um território ainda colonial dos EUA, foi um símbolo de soberania e uma declaração de identidade que atravessou as telas.
A reação furiosa de Donald Trump não foi surpresa, foi a confirmação. Seu ataque não era sobre a qualidade musical, mas sobre imigração, identidade e poder. Representou a perda do controle simbólico sobre um ritual central. Em um contexto de retórica anti-latina crescente, de ameaças de ações do ICE e de guerra cultural aberta, ver um latino politizado, orgulhoso e desafiador ocupar o centro do palco nacional ativou um ressentimento profundo. Trump, e a visão que ele encarna, compreendeu perfeitamente a mensagem: isto é uma reivindicação de pertencimento e de mudança na narrativa nacional.
Bad Bunny não apenas performou, disputou significados. Ele lembrou aos espectadores que o “sonho americano” foi, em grande parte, construído sobre o trabalho e a resiliência latino-americana. E que a cultura latina não é um adereço exótico, mas a espinha dorsal vibrante e criativa de uma sociedade em transformação demográfica e cultural.
O show foi, portanto, um ponto de inflexão. Mais do que entreter, ele politizou o espetáculo. Bad Bunny usou o alcance global do Super Bowl para amplificar uma verdade incômoda para alguns: a América é, também, dos latino-americanos. E seu futuro será inevitavelmente moldado por essa realidade. O artista citou nome a nome todos os países que compõe a América.
Enquanto as luzes do estádio se apagavam, a mensagem permanecia, ecoando como um chamado: ocupar espaços, falar na própria língua, exibir símbolos de resistência e celebrar a própria história são atos profundamente políticos. Bad Bunny não fez um show. Ele plantou uma bandeira azul claro no coração do império, e ninguém poderá mais ignorar que ela está lá. A cultura é o novo campo de batalha, e a América Latina acabou de ganhar uma de suas mais ressonantes vitórias simbólicas.
Reagan, Trump e a “destruição inovadora” https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/01/eua-roteiro-de-conflitos.html

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