A pulga, a ciência e a paz mundial
Luciano Siqueira
instagram.com/lucianosiqueira65
Houve tempo, quando ainda menino, dei-me ao
trabalho (e ao prazer) de listar fenômenos que ouvia dizer nem a ciência mais
avançada seria capaz de explicar. O tempo passou, a lista se perdeu nos escaninhos
da minha memória: não seria capaz de repetir a proeza. Mas de uma coisa tenho
certeza: não estava na lista a complexa questão do salto da pulga.
Nada de preconceito com o pequenino inseto.
Ignorância mesmo. Nem me dava conta de que as danadinhas saltam bem mais longe
e com maior rapidez do que seria natural devido suas características
anatômicas. Os cientistas já haviam descoberto que a energia necessária para
transportar uma delas, por impulso próprio, a uma distância 200 vezes maior do
que o comprimento do seu corpo é produzida por uma estrutura elástica, que nem
uma mola, que faz parte daquele corpinho diminuto.
Ocorre que pesquisadores da Universidade de
Cambridge, no Reino Unido, depois de exaustiva investigação, chegaram à
conclusão de que esse impulso de fazer inveja aos melhores zagueiros do futebol
mundial decorre de uma espécie de tração nas patas traseiras. Viva a ciência!
Mas que diabo isso tem a ver com a nossa dura e fascinante vida cotidiana?
Ah, amigos, a boa pesquisa é aquela cujos
resultados podem trazer melhoria para a vida de nós outros pouco afeitos a
notáveis descobertas científicas. Nesse caso, depois de fazer imagens das
pulguinhas em saltos mortais e outras acrobacias impressionantes, com câmeras
capazes de capturar objetos se movendo em alta velocidade, os cientistas
descobriram que a tração na traseira faz com que a “mola enrolada” se solte e
projete o inseto às alturas e a largas distâncias. Por que não construir robôs
capazes de fazer o mesmo?, perguntam-se pesquisadores debruçados sobre novas
propostas de pesquisa em busca financiamento.
Esses robôs saltitantes serviriam para quê, não
sei. De toda sorte, os cientistas ainda se dizem preocupados porque ainda falta
esclarecer alguns aspectos da agilidade da pulga. Por exemplo, não sabem como
elas travam as pernas no exato momento em que comprimem a mola.
Morou na filosofia, quer dizer, na ciência? Quem
sabe alguns problemas cruciais do nosso tempo possam ser solucionados a partir
dessa descoberta. Talvez um dia se faça uma assembleia na ONU em que todos os
chefes de Estado finalmente convirjam numa mesma direção e a exploração e a
opressão de classe seja abolida, e a partir disso todas as injustiças do mundo
sanadas e a paz universal finalmente estabelecida. Ao final, como adendo à
resolução aprovada, por decisão unânime de todas as nações devidamente
representadas, seja determinada a construção de uma estátua do pequenino inseto
no marco zero de todas as capitais do mundo – como justo reconhecimento ao
salto da pulga como exemplo de sabedoria, harmonia, destreza, equilíbrio,
agilidade e perfeição. E sejamos todos felizes.
*Crônica publicada no Blog de Jamildo, março de 2011
"Amor e ódio ao smartphone" https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/09/minha-opiniao_21.html

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