Tempos vividos e perdidos
Como diz o velho conceito, não é
o tempo que passa, nós é que passamos
Tostão/Folha
de S. Paulo
Após a derrota
por 2 x 1 para a França, que atuou quase todo o segundo tempo com um jogador a
menos, cresceu o pessimismo para a Copa do Mundo.
Logo que
assumiu a seleção, Ancelotti, ao ver tantos pontas e atacantes rápidos e
dribladores e poucos meio-campistas de alto nível, definiu a maneira de jogar.
A equipe, nesta e nas outras partidas, priorizou a transição rápida da defesa
para o ataque, os lançamentos longos, os espasmos e as estocadas individuais.
Isso tem funcionado bem, mas não é o bastante contra grandes seleções. Falta
alternar essa estratégia com mais domínio da bola, troca de passes e controle
do jogo no meio-campo.
É preciso
saber o tempo certo de pausar e de acelerar. A falta de craques no meio-campo
dificulta atingir essa sabedoria.
Essa
dificuldade é antiga e não ocorre por acaso. Décadas atrás, os professores
brasileiros dividiram o meio-campo entre os volantes que marcam —que atuam do
centro do campo para trás— e o meia ofensivo, único responsável pela armação
das jogadas, que joga do centro para a frente. Desapareceram os meio-campistas
que atuam de uma intermediaria à outra, que marcam, constroem e avançam. É
muito diferente um meio-campista que avança do meio para a frente de um
meia-atacante que volta para receber a bola. Escrevo isso há 26 anos nesta
coluna.
O problema não
está apenas nas limitações técnicas e no número de jogadores no meio-campo. É
necessário valorizar a posse de bola e o domínio do jogo até chegar o momento
certo de tentar a jogada para o gol. A seleção e o futebol brasileiro são muito
apressados. Além disso, faltam laterais com talento para ajudar na armação das
jogadas pelos lados.
A França
também possui quatro jogadores avançados e apenas dois fixos no meio-campo.
Mesmo assim, troca muitos passes desde a defesa, como no segundo gol contra o
Brasil, quando tinha um jogador a menos.
Por causa da
pressão da França na saída de bola, desde o goleiro, do enorme espaço na
intermediária do Brasil para ser preenchido por dois jogadores de meio-campo
(Casemiro e Andrey) e da ausência de laterais mais construtores, o Brasil
perdeu várias bolas no próprio campo, como no primeiro gol, quando Casemiro foi
desarmado e a bola foi passada rapidamente para Mbappé, que, com um toque de
craque, encobriu o goleiro.
Vinicius
Junior e Raphinha atuaram mal. Vini, no Real Madrid ou na seleção, tenta um
grande número de jogadas decisivas, erra e acerta em variadas proporções. Na
seleção, mais erra que acerta. No Real, acerta mais do que erra. Como o Real
geralmente vence, é, merecidamente, endeusado.
Bruno Guimarães
não é um craque, mas faz falta porque não há um substituto melhor. Ancelotti,
em vez de colocar Raphinha pela direita, poderia escalá-lo na posição em que
atua no Barcelona, da esquerda para o centro do ataque. Não faz isso porque o
ponta da seleção precisa voltar para ajudar na marcação no meio-campo. É um
dilema para o técnico resolver.
Como mostra o
filme "Fados", de Carlos Saura, não é o tempo que passa, nós é que
passamos.
O Brasil
precisa recuperar o tempo perdido, associar o controle da bola e do jogo com a
intensidade e a velocidade do futebol moderno. Não tem de ser uma coisa ou
outra.
As tortuosas linhas do futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/futebol-linhas-tortuosas.html

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