29 março 2026

Seleção brasileira: para onde?

Tempos vividos e perdidos
Como diz o velho conceito, não é o tempo que passa, nós é que passamos
Tostão/Folha de S. Paulo  


Após a derrota por 2 x 1 para a França, que atuou quase todo o segundo tempo com um jogador a menos, cresceu o pessimismo para a Copa do Mundo.

Logo que assumiu a seleção, Ancelotti, ao ver tantos pontas e atacantes rápidos e dribladores e poucos meio-campistas de alto nível, definiu a maneira de jogar. A equipe, nesta e nas outras partidas, priorizou a transição rápida da defesa para o ataque, os lançamentos longos, os espasmos e as estocadas individuais. Isso tem funcionado bem, mas não é o bastante contra grandes seleções. Falta alternar essa estratégia com mais domínio da bola, troca de passes e controle do jogo no meio-campo.

É preciso saber o tempo certo de pausar e de acelerar. A falta de craques no meio-campo dificulta atingir essa sabedoria.

Essa dificuldade é antiga e não ocorre por acaso. Décadas atrás, os professores brasileiros dividiram o meio-campo entre os volantes que marcam —que atuam do centro do campo para trás— e o meia ofensivo, único responsável pela armação das jogadas, que joga do centro para a frente. Desapareceram os meio-campistas que atuam de uma intermediaria à outra, que marcam, constroem e avançam. É muito diferente um meio-campista que avança do meio para a frente de um meia-atacante que volta para receber a bola. Escrevo isso há 26 anos nesta coluna.

O problema não está apenas nas limitações técnicas e no número de jogadores no meio-campo. É necessário valorizar a posse de bola e o domínio do jogo até chegar o momento certo de tentar a jogada para o gol. A seleção e o futebol brasileiro são muito apressados. Além disso, faltam laterais com talento para ajudar na armação das jogadas pelos lados.

A França também possui quatro jogadores avançados e apenas dois fixos no meio-campo. Mesmo assim, troca muitos passes desde a defesa, como no segundo gol contra o Brasil, quando tinha um jogador a menos.

Por causa da pressão da França na saída de bola, desde o goleiro, do enorme espaço na intermediária do Brasil para ser preenchido por dois jogadores de meio-campo (Casemiro e Andrey) e da ausência de laterais mais construtores, o Brasil perdeu várias bolas no próprio campo, como no primeiro gol, quando Casemiro foi desarmado e a bola foi passada rapidamente para Mbappé, que, com um toque de craque, encobriu o goleiro.

Vinicius Junior e Raphinha atuaram mal. Vini, no Real Madrid ou na seleção, tenta um grande número de jogadas decisivas, erra e acerta em variadas proporções. Na seleção, mais erra que acerta. No Real, acerta mais do que erra. Como o Real geralmente vence, é, merecidamente, endeusado.

Bruno Guimarães não é um craque, mas faz falta porque não há um substituto melhor. Ancelotti, em vez de colocar Raphinha pela direita, poderia escalá-lo na posição em que atua no Barcelona, da esquerda para o centro do ataque. Não faz isso porque o ponta da seleção precisa voltar para ajudar na marcação no meio-campo. É um dilema para o técnico resolver.

Como mostra o filme "Fados", de Carlos Saura, não é o tempo que passa, nós é que passamos.

O Brasil precisa recuperar o tempo perdido, associar o controle da bola e do jogo com a intensidade e a velocidade do futebol moderno. Não tem de ser uma coisa ou outra.

As tortuosas linhas do futebol https://lucianosiqueira.blogspot.com/2025/07/futebol-linhas-tortuosas.html

Nenhum comentário: