E agora, falastrão?
Guerra ameaça a Economia do Ocidente. Cresce o abismo entre as declarações de vitória do presidente e sua incapacidade de sufocar o Irã. Pesadelo do Vietnã ressurge. Agora a Casa Branca teme (e ameaça) as eleições de novembro
Séamus Malekafzali, no The Nation | Tradução: Antonio Martins/Outras Palavras
Após semanas de bombardeios contra instalações militares, navios de guerra e cidades iranianas, o presidente Trump declarou a guerra contra o Irã “vencida” em 24 de março. Uma conquista tão importante poderia ter sido anunciada em um discurso grandioso — em um porta-aviões com uma faixa anunciando “missão cumprida” —, mas a declaração passou despercebida.
Talvez a reação tenha sido tão discreta porque Trump já havia proclamado a vitória diversas vezes antes — como três semanas atrás, quando disse acreditar que a “guerra estava praticamente terminada”, ou há duas semanas, quando afirmou em um comício no Kentucky que os Estados Unidos haviam vencido “na primeira hora”.
Talvez tenha havido um espanto coletivo porque, ao mesmo tempo em que declarou vitória, Trump também afirmou, contrariando todas as negativas iranianas, ter mantido “conversas construtivas” com líderes não identificados em Teerã, que estariam “desesperados por um acordo”, apenas temendo se manifestar para não serem mortos, seja pelo governo ou pelos próprios EUA.
Ou talvez as palavras de Trump tenham sido ignoradas porque todos conseguem ver claramente que se trata de uma mentira. Apesar de tantas vitórias, apesar de tamanha complacência, a guerra de alguma forma continua, já que os iranianos, de modo inacreditável, recusam-se a “aceitar que foram derrotados militarmente”, nas palavras da secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt. A ideia de que os Estados Unidos estejam perdendo esta guerra é completamente impensável. Mas não há como fugir da verdade: os Estados Unidos estão, de fato, perdendo esta guerra.
Em seguidas entrevistas coletivas, declarações a grupos de repórteres e postagens nas redes sociais, o comandante-em-chefe relata milhares e milhares de ataques, a dizimação da Força Aérea Iraniana e a destruição de literalmente “100% ” das capacidades militares do Irã. Mas, como qualquer pessoa com olhos pode ver claramente, as forças armadas iranianas continuam lutando, não apenas de forma desajeitada e insignificante, como o presidente sugere, mas com níveis consistentes de disparos de mísseis balísticos contra Israel e bases americanas no Golfo Pérsico. Isso tem forçado a Casa Branca a recorrer a expressões cada vez mais desconcertantes para descrever o que está acontecendo.
Ao mesmo tempo em que o presidente afirmava que no Irã “ninguém sequer atira em nós”, um F-35, um caça furtivo considerado o cume do poderio militar, foi atingido e incapacitado por fogo antiaéreo iraniano pela primeira vez na história da aeronave (cinco dias depois, Trump afirmaria que o Irã “não possuía equipamentos antiaéreos”). Nos 12 dias desde que Trump publicou que o Irã agora enviava apenas “um ou dois drones” e “um míssil de curto alcance em algum lugar”, a Guarda Revolucionária Islâmica lançou mais de 30 ondas de ataques e não demonstra qualquer sinal de que irá parar ou mesmo reduzir o número de mísseis e drones que dispara. Apesar das alega&c cedil;ões de destruição da Marinha iraniana, o Estreito de Ormuz permanece fechado a toda a navegação proveniente de nações que o Estado iraniano considera hostis.
Ao que tudo indica, todos os outros objetivos da guerra, sejam eles enfraquecer as capacidades militares iranianas ou derrubar a República Islâmica, foram deixados de lado enquanto o governo americano tenta desesperadamente controlar o preço do petróleo e reabrir Ormuz, que antes da guerra estava completamente aberto. O governo Trump recorreu a um ciclo rotineiro de manipulação de mercado, alegando escolta de petroleiros pela Marinha dos EUA que nunca existiu, a ausência de minas navais que, segundo a imprensa, já haviam sido instaladas, e a abertura forçada do Estreito como uma “ simples manobra militar ” na qual as nações europeias deveriam envolver seus próprios exércitos, a menos que não quisessem, o que não importa, porque os EUA não precisavam da ajuda delas mesmo.
A corrida para controlar o aumento acelerado do preço dos combustíveis tornou-se tão intensa que o Departamento do Tesouro, em uma medida sem precedentes, suspendeu as sanções ao petróleo iraniano que já estava a caminho, com o secretário Scott Bessent tentando alegar que os EUA estavam, com essa ação, “dando uma lição de jiu-jitsu” nos iranianos.
Apesar da presença de porta-aviões norte-americanos nas proximidades de suas águas territoriais e dos bombardeios regulares dos EUA e de Israel contra portos e lançadores de mísseis iranianos, o Irã está exportando consideravelmente mais petróleo agora do que antes da guerra, impôs um regime de pedágio a todos os navios que passam pelo estreito crucial e reduziu os mísseis interceptores israelenses e do Golfo a estoques baixos, o que levou a um número muito maior de impactos diretos do que no início do conflito.
Desesperado por símbolos de vitória americana, o Comando Central (CENTCOM) tem publicado regularmente vídeos de dispendiosos ataques aéreos contra drones individuais — por exemplo, lançando mísseis Hellfire de 100 mil dólares contra drones Shahed de US$ 7 mil , dos quais o Irã possuía 80.000 antes da guerra e que, em condições ideais, as forças armadas iranianas podem produzir 10.000 por mês. Em vez de receber informações reais sobre o progresso da guerra, o presidente Trump, segundo a NBC, tem recebido uma montage m diária dos “maiores e mais bem-sucedidos ataques contra alvos iranianos nas últimas 48 horas” por oficiais militares, descrita mais simplesmente como “uma série de vídeos de ‘coisas explodindo’”.
Existe uma comparação histórica pertinente para essa ênfase excessiva em missões aéreas, ataques realizados e comandantes mortos, em detrimento de todos os outros indicadores óbvios e abundantemente claros de vitória: o Vietnã. O General William Westmoreland, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, a quem o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, comparou com membros do governo Trump, vangloriava-se regularmente das estatísticas de perda de armamento e das taxas de abate como prova de que a maré estava virando contra Ho Chi Minh. O secretário de Defesa Robert McNamara declarou ao Senado, em 1965, que os EUA realizavam 13.000 missões aéreas por mês contra os norte-vietnamitas, que 1.900 “alvos fixos” haviam sido atingidos e que os EUA estavam “prejudicando a capacidade bélica do Vietnã do Norte”. Westmoreland declararia, em 1967, que “chegamos a um ponto importante, quando o fim começa a se vislumbrar”. A guerra continuaria por mais oito anos, terminando com a queda de Saigon para os comunistas.
A principal diferença, pode-se argumentar, é que a Guerra do Vietnã incluiu um enorme investimento em tropas terrestres, enquanto não há soldados americanos em solo iraniano. Isso pode mudar em breve.
Assim como em praticamente todos os outros aspectos deste conflito, isso representaria uma completa reversão das promessas feitas pela Casa Branca quando atacou o Irã pela primeira vez. Naquele momento o secretário de Guerra, Pete Hegseth, vangloriou-se de que não havia necessidade de tropas terrestres, pois os Estados Unidos haviam “assumido o controle do espaço aéreo e das vias navegáveis iranianas” por via aérea. Agora, há um consenso crescente no governo Trump de que tropas terrestres são necessárias para impor o controle que os EUA supostamente já conquistaram. No momento da redação deste texto, milhares de soldados norte-americanos estão a caminho do Golfo Pérsico, enquanto circulam rela tos sobre um possível desembarque na Ilha de Kharg, ou talvez em qualquer outra ilha iraniana no Golfo e no Estreito, onde milhares, senão dezenas de milhares de iranianos, poderiam em breve ficar sob ocupação militar americana direta. O exército iraniano, por sua vez, vem reforçando suas defesas em Kharg, já bastante bombardeadas, antecipando o tipo de invasão que seus estrategistas militares vêm prevendo ao longo de quase toda a história da República Islâmica.
Independentemente do que aconteça a seguir, isto não é o que se espera de uma guerra vencida. Em vez disso, a expansão descontrolada da guerra contra o Irã continua a se dar aos trancos e barrancos. A questão de uma potencial nova guerra sem fim, que custará muitas milhares de vidas iranianas, para não mencionar os soldados americanos que estariam na linha de fogo direta do Irã, tem sido tratada com total descaso. Todos governos americanos anteriores a Trump evitaram a guerra com o Irã por um motivo: o medo de ficarem atoladas em um conflito em território hostil, sem fim à vista. Esta administração, acreditando que as guerras são perdidas não por serem superadas em manobras ou por falta de preparo, mas sim por serem politicamente corretas, fez uma escolha diferente.
Autoridades norte=americanas, de Stephen Miller a Hegseth, passando pelo próprio Trump, têm se vangloriado da natureza completamente assimétrica desta guerra, do poderio bélico esmagador que os Estados Unidos estão demonstrando e de que os iranianos não têm outra opção senão aceitar as exigências americanas sem questionamentos. A falha fundamental no pensamento estratégico americano é a mesma de 1967: a incapacidade de compreender a verdade básica de que, em uma guerra, o inimigo também tem voz.
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