13 março 2026

Enio Lins opina

O dia seguinte de uma vitória rápida que não aconteceu
Enio Lins     

EM 1983, “THE DAY AFTER”, um filme pós-apocalíptico americano, universalizou o termo ao supor o que seria o dia seguinte à uma guerra-relâmpago nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética. Destruição quase absoluta de tudo, depois das primeiras ogivas pipocarem num lado e no outro. Day after virou expressão que lançava dúvidas sobre o dia seguinte do que era antes uma certeza.

NA IMAGINAÇÃO
 do roteirista Edward Hume e direção de Nicholas Meyer, estava límpida a visão do dia seguinte à hecatombe. Provavelmente ainda valha como previsão, mesmo depois de 43 anos. Na ficção, baseada em possibilidades reais, o pau quebraria a partir da invasão de Berlim ocidental pelas tropas da Alemanha oriental. A OTAN retaliava e a coisa evoluía com irresistível rapidez. Corte para moradores – da área rural de Lawrence, no Kansas – olhando para os rastros de foguetes supersônicos que deixavam seus silos escondidos nas plantações. Logo depois enxergavam rastros de foguetes contrários chegando E era a derradeira coisa que todo mundo ali viu. Mas não aconteceu. Até agora.

NO IMAGINADO POR
 Donald Trump e Bibi Netanyahu estava límpida a visão do dia seguinte à agressão ao Irã. Vitória rápida, uma blitzkrieg à distância, pá-pufe. Apenas uns foguetes bem direcionados para alvos selecionados com precisão por quintas-colunas bem-posicionados. Tinha sua lógica, pois a vulnerabilidade das autoridades iranianas estava comprovada, testada em muitos assassinatos (fáceis) de militares, políticos e cientistas. Matando o líder supremo e mais um magote de dirigentes, no dia seguinte, a população iraniana se levantaria em louvor aos salvadores americanos e israelenses, e colocaria no poder algum fantoche dos agressores. Mas não aconteceu assim. Até agora.

NÃO SE DISCUTE 
a superioridade bélica dos Estados Unidos e de Israel. Apesar dos grandes investimentos militares iranianos, seus fornecedores sempre cuidam de não vender algo calibroso a ponto de provocar a ira americana-israelense. Comparando apenas com Israel, o Irã exibe uma inferioridade estratégica significativa, pois os israelenses contam com um arsenal muito superior, apesar dos iranianos disporem de mais soldados e tanques. Mas, por exemplo, atravessar os cerca de dois mil quilômetros marchando de Teerã para Telavive é coisa tida como improvável por gregos e baianos.

DIZ A BBC QUE
 “Israel tem vantagem tecnológica clara com caças modernos (F-35, F-15, F-16) e alta capacidade de ataque de precisão. O Irã possui mais aeronaves, porém muitas são antigas e com manutenção difícil” e que “acredita-se que Israel possua um arsenal nuclear com cerca de 90 ogivas” enquanto todo mundo sabe que o Irã tem zero armamento atômico. É uma superioridade inegável em áreas essenciais. Do poder dos Estados Unidos é desnecessário falar.

É PÚBLICO E NOTÓRIO
 que Israel possui, e usa sem moderação, a mais criminosa e eficiente máquina terrorista da contemporaneidade. Isso é outro fator estratégico. O Mossad mata quem deseje, na hora que deseje, como se viu no trucidamento do aiatolá Ali Khamenei, há 11 dias. Essa letalidade tem-se comprovado, galopante, pelo menos, desde 2010, quando foram assassinados – em Teerã – os cientistas Masoud Ali-Mohammadi (em janeiro) e Majid Shahriari (em novembro). Apesar de ser chamado de “terrorista”, o velho e mau Irã nunca conseguiu sequer arranhar nenhum israelense ou americano importante.

NETANYAHU E TRUMP,
 por todas essas vantagens, tinham certeza de que venceriam a guerra contra o Irã no dia seguinte ao assassinato do líder supremo Kamenei. Apertaram o gatilho. Mas no teatro de operações, a peça apresentada é outra que não a sonhada por Washington e Telavive. Sim, Bibi e Donald têm tudo para vencer, um dia, como os franceses (em 1858) e americanos (em 1965) tinham quando começaram a guerrear na Indochina (Vietnã). Seria questão de dias.

Europa conturbada e indecisa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/a-saga-europeia.htm

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