O dia seguinte de uma vitória rápida que não
aconteceu
Enio Lins
EM
1983, “THE DAY AFTER”, um filme pós-apocalíptico americano, universalizou o termo ao
supor o que seria o dia seguinte à uma guerra-relâmpago nuclear entre os
Estados Unidos e a União Soviética. Destruição quase absoluta de tudo, depois
das primeiras ogivas pipocarem num lado e no outro. Day after virou expressão que lançava dúvidas sobre o dia
seguinte do que era antes uma certeza.
NA IMAGINAÇÃO do roteirista Edward Hume e direção de Nicholas Meyer,
estava límpida a visão do dia seguinte à hecatombe. Provavelmente ainda valha
como previsão, mesmo depois de 43 anos. Na ficção, baseada em possibilidades
reais, o pau quebraria a partir da invasão de Berlim ocidental pelas tropas da
Alemanha oriental. A OTAN retaliava e a coisa evoluía com irresistível rapidez.
Corte para moradores – da área rural de Lawrence, no Kansas – olhando para os
rastros de foguetes supersônicos que deixavam seus silos escondidos nas
plantações. Logo depois enxergavam rastros de foguetes contrários chegando E
era a derradeira coisa que todo mundo ali viu. Mas não aconteceu. Até agora.
NO IMAGINADO POR Donald Trump e Bibi Netanyahu estava límpida a visão do
dia seguinte à agressão ao Irã. Vitória rápida, uma blitzkrieg à distância, pá-pufe. Apenas uns foguetes bem
direcionados para alvos selecionados com precisão por quintas-colunas
bem-posicionados. Tinha sua lógica, pois a vulnerabilidade das autoridades
iranianas estava comprovada, testada em muitos assassinatos (fáceis) de
militares, políticos e cientistas. Matando o líder supremo e mais um magote de
dirigentes, no dia seguinte, a população iraniana se levantaria em louvor aos
salvadores americanos e israelenses, e colocaria no poder algum fantoche dos
agressores. Mas não aconteceu assim. Até agora.
NÃO SE DISCUTE a superioridade bélica dos Estados Unidos e de Israel. Apesar
dos grandes investimentos militares iranianos, seus fornecedores sempre cuidam
de não vender algo calibroso a ponto de provocar a ira americana-israelense.
Comparando apenas com Israel, o Irã exibe uma inferioridade estratégica
significativa, pois os israelenses contam com um arsenal muito superior, apesar
dos iranianos disporem de mais soldados e tanques. Mas, por exemplo, atravessar
os cerca de dois mil quilômetros marchando de Teerã para Telavive é coisa tida
como improvável por gregos e baianos.
DIZ A BBC QUE “Israel tem vantagem tecnológica clara com caças
modernos (F-35, F-15, F-16) e alta capacidade de ataque de precisão. O Irã
possui mais aeronaves, porém muitas são antigas e com manutenção difícil” e que
“acredita-se que Israel possua um arsenal nuclear com cerca de 90 ogivas”
enquanto todo mundo sabe que o Irã tem zero armamento atômico. É uma
superioridade inegável em áreas essenciais. Do poder dos Estados Unidos é
desnecessário falar.
É PÚBLICO E NOTÓRIO que Israel possui, e usa sem moderação, a mais
criminosa e eficiente máquina terrorista da contemporaneidade. Isso é outro
fator estratégico. O Mossad mata quem deseje, na hora que deseje, como se viu
no trucidamento do aiatolá Ali Khamenei, há 11 dias. Essa letalidade tem-se comprovado,
galopante, pelo menos, desde 2010, quando foram assassinados – em Teerã – os
cientistas Masoud Ali-Mohammadi (em janeiro) e Majid Shahriari (em novembro).
Apesar de ser chamado de “terrorista”, o velho e mau Irã nunca conseguiu sequer
arranhar nenhum israelense ou americano importante.
NETANYAHU E TRUMP, por todas essas vantagens, tinham certeza de que
venceriam a guerra contra o Irã no dia seguinte ao assassinato do líder supremo
Kamenei. Apertaram o gatilho. Mas no teatro de operações, a peça apresentada é
outra que não a sonhada por Washington e Telavive. Sim, Bibi e Donald têm tudo
para vencer, um dia, como os franceses (em 1858) e americanos (em 1965) tinham
quando começaram a guerrear na Indochina (Vietnã). Seria questão de dias.
Europa conturbada e indecisa https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/a-saga-europeia.htm

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