09 março 2026

Violência sexista

A misoginia e o futebol
Camila Santiago*/Brasil de Fato     

O clássico dos clássicos entre Sport e Náutico, no último domingo (1º), repercutiu no Brasil inteiro pela grande partida em campo, um jogo com 6 gols e uma linda festa das duas torcidas nas arquibancadas. Esses poderiam ter sido os únicos motivos para a final do Campeonato Pernambucano ser lembrada nas redes sociais, mas infelizmente vimos também um show de misoginia por parte de alguns torcedores.

Circularam nas redes sociais algumas imagens de bonecas vestidas com camisas do Náutico e pinturas que simulavam marcas de agressão, em posições sexuais e até uma imagem onde homens a ameaçavam com uma faca.

Quem acompanha futebol sabe que esse cenário não é novidade. Cânticos de cunho sexista e homofóbico são comumente entoados nas arquibancadas. Chamar a torcida adversária de “gay”, xingar os jogadores de “mulherzinha”, comentários em tom de piada falando sobre estuprar adversário e chamá-los por termos femininos, como “barbie” e “cachorra de peruca”. Na hora de cobrar os jogadores de seu próprio clube, torcedores costumam dizer que é preciso “jogar como homem” ou que “futebol é coisa para homem”.

Esse comportamento tem origem no mesmo lugar: na misoginia que estrutura nossa sociedade e na normalização da violência de gênero em ambientes majoritariamente masculinos.

O ódio às mulheres não é algo que começa com o feminicídio. Ele é construído desde a infância no imaginário de meninos, a partir de uma ideia de hierarquia entre os gêneros.

Nas brincadeiras esportivas, o futebol é incentivado aos meninos, inclusive como prova de masculinidade. Meninos que não gostam de futebol são taxados desde cedo de “menininha”. Já as meninas ficam num papel secundário do jogo, cabendo a elas assistir ou seguir para brincadeiras de cuidado, como cozinhar e cuidar de bonecas.

Meninas ficam em casa, com suas mães, enquanto meninos são levados aos estádios pelos pais para incentivar a torcer pelo seu time. Nesses espaços costuma ser liberado às crianças comportamentos que dentro da sua casa são repreendidos pela família, criando uma falsa ilusão de que o ambiente do estádio é um mundo à parte, onde tudo é permitido.

A violência de gênero no futebol começa de maneira sutil, na normalização desses comportamentos que são reprimidos noutros ambientes. Começa nos ensinamentos de que futebol é para menino porque são mais fortes. E que aquele ambiente não pertence às meninas. E que a fraqueza é sinônimo de mulher. Tudo isso é liberado de maneira quase natural, tornando aquele ambiente cada vez mais hostil para mulheres que desejam torcer pelos seus clubes ou jogar por eles.

É tão estrutural que até mesmo pessoas que repudiam comportamentos machistas, acreditam que não há maldade em reproduzí-los dentro dos estádios, sem perceber que a reprodução desses comportamentos dentro do futebol são os comportamentos que teriam fora dele caso houvesse a mesma tolerância.

No clássico entre Sport e Náutico, as imagens de uma boneca sendo ameaçada com uma faca saiu da “bolha” do futebol e circulou em páginas políticas, não só pela violência que a imagem carrega, mas principalmente pelo contexto em que está o Brasil, com recordes de feminicídio e média de 4 mulheres assassinadas por dia, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Ainda segundo o ministério, 227 mulheres foram vítimas de estupro por dia em 2024. Se formos fazer uma média comparativa com os 90 minutos de duração de uma partida de futebol, podemos considerar que é tempo suficiente para ao menos 14 mulheres serem vítimas de violência sexual.

Um dia antes da final, os principais veículos de notícia do Brasil estamparam a notícia de que 4 homens com entre 18 e 19 anos e um adolescente de 17 anos eram suspeitos de um estupro coletivo de uma menor de idade no Rio de Janeiro. Em Pernambuco, um dia após o clássico, uma mulher de 21 anos foi esfaqueada e teve o corpo queimado por um antigo colega de trabalho.

Embora essas notícias choquem, elas são cada vez mais frequentes e – ao contrário do que muitos costumam comentar – não são “monstros” que cometem esses crimes, mas homens que odeiam mulheres. Ódio que começa com a ideia socialmente construída de que o corpo das mulheres é território livre, onde vale o domínio através da força, força esta que pertence aos homens.

Aqueles corpos frágeis, sensíveis – que pertencem às mulheres – não são delas de fato, mas dos homens que as desejarem, sendo retirado do gênero visto como mais frágil o direito às escolhas e ao “não”.

Ao naturalizar a ideia de que “é cultural” xingar o adversário através de adjetivos femininos; de que é pejorativo relacioná-lo ao universo das mulheres; ou de que é engraçado simular que ele é uma mulher que foi agredida; de que “é apenas piada” utilizar de violência sexual para se referir ao rival; ao naturaliza isso, contribuímos para uma ideia de mundo onde esses comportamentos podem ser tolerados. Educamos os meninos acreditando que meninas são inferiores e que há lugares que não pertencem a elas.

O ódio às mulheres não começa com o feminicídio, como disse recentemente em entrevista a rapper Ebony. “O feminicídio é o estágio final de uma doença que começa na infância dos meninos.”

Para curar essa doença nós precisamos desconstruir os estereótipos de gênero, inclusive nos ambientes em que eles são consolidados, como no caso do futebol. Para construirmos um mundo com igualdade, respeito e sem violência, não podemos ter ambientes onde é naturalizado, permitido e incentivado o ódio às mulheres e a tudo que é relacionado ao feminino.

Assim como cânticos racistas foram abolidos e não são mais tolerados, mesmo que um dia tenham feito parte da “cultura de arquibancada” de alguns clubes, precisamos varrer dos estádios essa cultura misógina que faz homens acreditarem que lá dentro eles podem tudo, inclusive odiar mulheres.

*Professora, gestora pública, feminista e torcedora do Náutico

8 de Março, palavra da UBM https://lucianosiqueira.blogspot.com/2026/03/8-de-marco-palavra-da-ubm.html 

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